DICIONRIO DA
 IDADE MDIA
      DICIONRIO DA
         IAE A
         D DMDI


              Organizado por
         HENRY R. LOYN
         Professor Emrito de Histria Medieval,
                Universidade de Londres



             Com 250 ilustraes



                       Traduo:
                   R
                   OA
                    L
                    V       LB
                             A
                             R
                            CA
    Licenciado em Cincias Histricas e Filosficas,
 Faculdade de Letras da Universidade Clssica de Lisboa


                    Reviso Tcnica:
               HILRIO FRANCO JUNIOR
Professor de Histria Medieval, Universidade de So Paulo
Jorge Zahar Editor
     Rio de Janeiro
                     Ttulo original:
       The Middle Ages - A Concise Encyclopaedia

      Traduo autorizada da primeira edio inglesa
     publicada em 1989 por Thames and Hudson Ltd.,
                 de Londres, Inglaterra

    Copyright  1989 Thames and Hudson Ltd., London

    Copyright  1990 da edio em lngua portuguesa:
                  Jorge Zahar Editor Ltda.
                  rua Mxico 31 sobreloja
               20031-144 Rio de Janeiro, RJ
         tel.: (21) 240-0226 / fax: (21) 262-5123
                 e-mail: jze@zahar.com.br

               Todos os direitos reservados.
  A reproduo no-autorizada desta publicao, no todo
  ou em parte, constitui violao do Copyright. (Lei 5.988)

Ilustrao da capa: Pierre Salmon, Rponses  Charles VI
  et Lamentation au Roi, 1409 (Paris, Biblioteca Nacional)

               CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte
         Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

     D541 Dicionrio da Idade Mdia / organizado por
       Henry R. Loyn; traduo, lvaro Cabral; reviso
       tcnica, Hilrio Franco Jnior. -- Rio de Janeiro:
                   Jorge Zahar Ed., 1997: il.

             Traduo de: The Middle Ages: a concise
                          encyclopaedia
                      ISBN: 85-7110-151-5
1. Idade Mdia - Dicionrios. I. Loyn, H.R.
2. (Henry Royston).
                               CDD -- 940.1403
                97-1721 CDU -- 940 (038)
             APRESENTAO  EDIO BRASILEIRA:
                    BREVE PANORAMA MEDIEVAL

                                                         FRANKLIN DE OLIVEIRA

       A grande maioria dos brasileiros continua prisioneira do preconceito
forjado pelos historiadores liberais do sculo XIX, que definiam a Idade Mdia
como um "perodo de trevas".  preciso soterrar, de vez, equvoco to
grosseiro. O Medievo no significa somente a fundao da Europa em suas
bases crist e romana. No bojo da Idade Mdia gerou-se o mundo moderno.
L, com Ockham, Oresme e outros, surgiram os fundamentos da cincia
contempornea, como to claramente comprovou Pierre Duhem. Ao
chamarem de obscurantista a Idade Mdia, os historiadores liberais a ela
opuseram o grande claro do Renascimento. Ao faz-lo, esqueceram duas
coisas: os inmeros proto-renascimentos que ocorreram durante o Medievo, e
o fato de que os homens geniais da Renascena formaram-se no chamado
Baixo Medievo. E mais: esqueceram a revivescncia dos sentimentos
religiosos no Quatrocento, e ainda, que a Renascena no comeou com os
humanistas e Petrarca, mas com Francisco de Assis. E mais: que o Medievo
foi uma ecloso contnua de Renascenas: a Carolngia, a do Sculo XII, a
Franciscana, a Otoniana, a Escolstica, a Nominalista. Duas Renascenas
assinalaram o incio da Idade Mdia: a Carolngia, no sculo IX, que promoveu
a latinizao dos povos germnicos e sua conquista espiritual pela Igreja
Catlica, e a do Sculo XII, quando se d, nos conventos, a ressurreio dos
estudos clssicos, fonte do humanismo europeu. Precedendo uma outra
Renascena medieval -- a da Escolstica, j referida --, ocorre com a
Patrstica o encontro do Cristianismo com o mundo. Esse encontro foi
preparado pelos padres gregos, sobretudo Clemente e Orgenes.  o
momento da maturidade do platonismo, que ilumina toda a Idade Mdia.
Como pode um perodo to rico em fatos culturais, que modelaram a
fisionomia do Ocidente, ser chamado de "poca das trevas"?
         claro que a civilizao medieval foi uma civilizao eminentemente
religiosa, mas no divorciou o homem da terra. Ela, a terra, se transformou
em sua oficina. Explodiram as invenes: a do arado, a do moinho d'gua e do
moinho de vento, a dos teares etc. Se a atividade rural continuou sendo a
base de tudo, um insurgente artesanato provocou um movimento de
urbanizao. Com o nascimento das cidades aceleraram-se as trocas,
desenvolveu-se o comrcio. Delinearam-se as bases de uma economia
monetria. No h erro em dizer que no sculo XII estabeleceram-se
princpios econmicos que ainda hoje regem a nossa civilizao.
       Mas, quando se inicia a Idade Mdia?
       Suas origens datam do final do Imprio Romano (comeo do sculo V)
e sua vigncia histrica estende-se at o sculo XVI, quando se instaura a
grande Renascena Italiana, que ela preparou. O Convento e o Castelo so
os seus emblemas, mas o maior de todos  a catedral gtica, que parecia
procurar abolir as fronteiras entre o finito e o infinito. Erwin Panofsky, o
extraordinrio historiador da arte, formado na escola de Warburg, e que
fundou uma nova disciplina -- a histria da produo das imagens --, viu no
gtico a trasladao esttica da Escolstica.
       Sociedade densamente hierarquizada, a Idade Mdia foi, por isso
mesmo, cenrio de revoltas sociais contnuas que tm o seu paradigma na
Jacqurie, em que os camponeses oprimidos tentaram quebrar os grilhes do
feudalismo assassinando os seus senhores, violando suas mulheres. A de
1358 foi seguramente a mais sangrenta de todas as revoltas sociais do sculo
XIV.
        Se o cenrio social alberga insurreies camponesas, h no plo
oposto talvez a maior criao humana medieval: a Universidade, que surge em
Praga, Pdua, Bolonha, Salamanca, Paris, Montpellier, Oxford, Cambridge,
Viena, Cracvia e Heidelberg. Em Toledo funda-se a escola dos grandes
tradutores rabes, que redescobrem Aristteles. Ao lado dos pensadores
laicos formam-se, nos Pases Baixos e na Rennia, as correntes dos msticos:
Mestre Eckhart, Joo Tauler, Henrique Suso e Jan Van Ruysbroeck. H a
caa s feiticeiras. E h Dante. E h Giotto. Nas cidades flamengas, pintores
como os irmos Eyck, Rogier van der Weyden, e escultores como Sluter
ampliam gloriosamente o patrimnio cultural do Ocidente. Se os nomes de
Dante, Petrarca, Villon e o lirismo dos trovadores provenais no bastassem
para assegurar a grandeza literria medieval, teramos para assegurar esta
mesma grandeza a poesia proletria dos goliardos. Esses poetas, que
exaltavam o vinho e o amor fsico, foram os crticos existenciais da sociedade
medieval, rebelados contra as estruturas estabelecidas, "Jograis vermelhos",
se assim se pode dizer.
       Abelardo  a primeira figura do intelectual moderno. Chamaram-lhe de
cavaleiro da dialtica.
       Abelardo e Helosa. Ela tem 17 anos,  bela e culta. O amor que os
une reala o significado da mulher no mundo, reforando a teoria do amor
natural tal como ele aparece no Romance da Rosa, um sculo depois. A
apario de Helosa ao lado de Abelardo  a glorificao da carne, do amor
carnal que mais tarde os humanistas iriam considerar o principal requisito da
plenitude do ser humano. Estamos longe do lirismo abstrato dos trovadores e
da aura do Tristo e Isolda, em que pese o erotismo intenso da lenda. Ao
falar dos homens da Idade Mdia, um historiador moderno no se conteve, e
exclamou: "Mas esses homens somos ns mesmos!" Nossa modernidade vem
de l, queiramos ou no.
      H um fato singelo, mas que fulmina o mito do obscurantismo medieval.
Ele  encontrado no traje, sobretudo no vesturio feminino. A Idade Mdia
tinha averso s cores sombrias. As mulheres medievais usavam roupas que
seguiam a linha do corpo, expondo-lhes sobretudo o busto -- no tinham nada
de monacal. Serviam ao corpo e no  alma.
       Mas a valorizao da mulher padeceu, na Idade Mdia, de grave
limitao, consubstanciada no "direito de pernada": verso popular do ijus
primae noctis. A camponesa que casasse era obrigada, na primeira noite de
npcias, a entregar a sua virgindade ao patro ou ao capataz por ele indicado.
       Era intenso o cultivo da vinha no Medievo. O vinho estava sempre
presente em todos os momentos, festivos ou no, da sociedade medieval, que
distinguia entre o escravo, tratado como coisa, e o servo da terra, que podia
possuir famlia, alm de uma minscula propriedade onde praticava a
agricultura de sobrevivncia.
        A partir do sculo XIII, o ponto de partida da reflexo econmica  o
mesmo de Adam Smith: o problema da diviso do trabalho. Em um curso
ministrado em 1763, em Glasgow, Adam Smith conservava ainda o esquema
do tratado dos escolsticos. S mais tarde, no Inqurito sobre a natureza e
as causas da riqueza das naes, separar a filosofia moral da cincia
econmica, emancipando esta ltima.
       Apesar de manter o seu universalismo religioso, no final da Idade
Mdia surgem os espaos nacionais: nascem os Estados. O latim, lngua
comum, se assim podemos dizer, perde a sua hegemonia cultural. Surgem as
lnguas nacionais. Comea a se desenvolver uma analogia entre o mundo e o
homem, entre o macrocosmo e esse universo em miniatura que  o ser
humano.
       Publica-se a grande enciclopdia de Adelardo de Bath que explora
longamente a anatomia e a fisiologia humanas. O humanismo medieval no
esperou pelo humanismo renascentista para penetrar os segredos do corpo. E
retornou  concepo estica do mundo como uma fbrica: ela produz
segundo a vontade do homem. A oposio entre a razo e a experincia se
torna menor graas a Roger Bacon e Rober Grosseteste. O empirismo
comea a dar sinais de vida.
       A Idade Mdia  constituda de ciclos: o de Carlos Magno, o de
Alexandre, o Grande, o de Rolando, o do rei Artur, do qual demanda um ideal
de justia e de f religiosa, de procura da bem-amada inatingvel, da
galanteria cavaleiresca, dos sentimentos de honra, do misticismo e das
faanhas guerreiras. Mas esses ciclos guardam entre si profundas diferenas.
No breto, predomina o sentimento amoroso; no ciclo carolngio, a
predominncia  guerreira.
       A necessidade de delimitar o gigantesco territrio que se estende da
Antigidade  Modernidade determinou a criao do perodo medieval e da
diviso tripartida do mundo -- Antigidade Clssica, poca Romana e Idade
Mdia --, diviso que veio a ser consagrada em 1583, por Christoph Keller,
embora nunca se registrasse concordncia e unanimidade quanto a tais
delimitaes.
      S no sculo XVIII, na Frana, conceituao e limites do Medievo
foram aceitos. Essa aceitao chegou  Inglaterra, e estendeu-se ao
Continente Europeu. Superado esse problema, surgiu um outro: o das
subdivises. A Idade Mdia no era vista como uma unidade inconstil. Na
Frana, chamou-se Alta Idade Mdia ao perodo que se prolongaria at as
Cruzadas; e Baixa Idade Mdia ao perodo que se iniciou logo aps e
terminou no sculo XV. Os alemes e os ingleses preferem outra subdiviso:
Alta Idade Mdia (sculos XII e XIII).; Idade Mdia Tardia, para o perodo
terminal; Primeira Idade Mdia (sculos XI a XIII) e ltima Idade Mdia
(sculos XIII a XV). H outras designaes em ingls: Alta Idade Mdia e
Idade Mdia Central. Todas estas divises contm, porm, o seu gro de
arbitrariedade histrica.
       Desde o humanismo renascentista a Idade Mdia  vista de diversos
ngulos. O mais importante deles  o de Erasmo de Rotterdam, o prncipe do
humanismo, que lhe negou o obscurantismo. Mas a reabilitao do Medievo
comea, de fato, com os romnticos, na Alemanha e na Frana. Goethe no
ficou insensvel a tal revalorizao. Na Alemanha, sobretudo Novalis levou
mais longe a apologia da Idade Mdia. Na Frana, Chateaubriand restaurou o
prestgio dos temas medievais, embora a sua Idade Mdia seja inteiramente
convencional. Em Notre Dame de Paris, Victor Hugo nos d uma fremente
imagem do Medievo. Mrime iniciou os estudos sobre a arte romnica sob a
influncia do escritor escocs Walter Scott que, nos seus romances em estilo
pico, usou temas do perodo medieval. Ainda na Inglaterra, Lorde Acton
colocou a Antigidade Clssica e a Idade Mdia no mesmo p de igualdade.
        O gtico, os pintores flamengos, os construtores de catedrais, os
trovadores provenais e os goliardos compuseram a legenda urea da arte e
da literatura medievais. Mas, pergunta-se, numa civilizao eminentemente
religiosa, no houve espao para a msica, a manifestao mais alta da
transcendncia divina no homem?
       Houve. A primeira obra da literatura moderna  o Hinrio da Igreja
Latina. O Te Deum  o maior documento do esprito de resistncia aos
romanos, nos terrveis sculos IV a VI. A lrica especificamente crist do
Ocidente latino inicia-se com os hinos da Igreja. Os modelos desses cantos
litrgicos j existiam no Oriente, mas  sobretudo Ambrsio quem os introduz
na igreja Ocidental.
        Ningum ignora que o lirismo trovadoresco deriva das formas da poesia
da Igreja Crist, apesar dos trovadores provenais serem herticos e
anticlericais. As cortes da Provena eram heterodoxas. No entanto, o primeiro
fato a antecipar o nascimento do lirismo trovadoresco foi a mstica de So
Bernardo e de Hugo de Saint-Victor.
        As cartas trocadas entre frades e monges dos sculos X, XI e XII,
cartas de louvor  mulher amada, cartas impregnadas da influncia de Ovdio
foram as fontes onde os trovadores saciaram sua sede de beleza. O
trovadorismo provenal celebra o florescimento da vida, tal como a exortao
 alegria  feita pela hinologia da Pscoa. Trovadores e minnesaenger
aprenderam e incorporaram  sua potica as formas e os ritmos da igreja
Medieval. Esses poetas fizeram apenas um caminho inverso: partiram do
santo para o profano.
       Cai gloriosamente a noite medieval. Prorrompe, irrompe implodindo luz,
o Renascimento. Mas Thode, Burdach, Carl Neumann, Sabatier, Gebhart,
Zabughin, Garin e tantos outros so unnimes em afirmar que o Renascimento
foi gestado no tero da Idade Mdia. A compreenso deste fato  essencial
para a nossa prpria compreenso: o Brasil  descoberto na Renascena,
mas a sua civilizao se faz sob o signo do Medievo.
       Hoje, grandes historiadores ingleses e franceses, dentre os quais se
destacam Georges Duby e Jacques le Goff, Guy Fourquin e George Holmes,
esto desmontando o mito alinhavado pelos historiadores liberais do sculo
XIX, sobretudo por Michelet. A reviso  total, assentada no rigor da anlise
documental, que torna a fraude da histria um fato arquivvel.
       Por tudo isto, por se colocar sempre contra a prostituio da histria, o
editor Jorge Zahar teve a coragem de empreender a edio brasileira deste
Dicionrio da Idade Mdia, que no pode faltar a nenhuma biblioteca. Confiou
a sua traduo a lvaro Cabral -- homem de saber, e no apenas tradutor
competentssimo, que enriqueceu este dicionrio com algumas notas sobre o
Medievo Portugus --, e a sua reviso tcnica a um especialista, Hilrio
Franco Junior, professor de histria medieval da Universidade de So Paulo. A
idoneidade da edio est plenamente assegurada, para honra da indstria
editorial brasileira.
     Guia do leitor para uso deste livro

      A Idade Mdia foi dominada durante muito tempo, no esprito do
grande pblico, por imagens de faanhas cavaleirescas e ritual corteso, pelo
fervor espiritual e pela sanginria violncia dos cruzados. Esses conceitos
pitorescos tm sido propensos a obscurecer o verdadeiro valor do perodo
como uma idade de real progresso em todas as reas, de evoluo poltica e
social, de criatividade artstica e intelectual, de avano comercial e cientfico.
         uma tarefa enorme fazer justia a esse panorama deformado, e
tivemos que ser necessariamente seletivos. O intuito preponderante, do
comeo ao fim do volume, foi fornecer tanto ao principiante quanto ao
especialista uma apresentao sumria do pensamento atual sobre os
protagonistas, eventos e temas principais relacionados com a histria da
Europa -- desde a Escandinvia at o Oriente Mdio -- entre os anos de 400
e 1500, aproximadamente. Dentro desse vasto campo geogrfico e histrico,
tentamos estabelecer um equilbrio entre verbetes concisos, fatuais, sobre
batalhas, tratados, indivduos e localizaes principais, e um tratamento mais
discursivo de tpicos de vivo interesse como background. O dicionrio deve,
portanto, ser de comprovada utilidade para estudantes e estudiosos como um
aide-mmoire, para verificar rpida e facilmente fatos essenciais; e como
estimulante guia e companheiro para o leitor curioso, com um interesse mais
genrico sobre o perodo.
        Um dicionrio como este, de carter enciclopdico, deve ser mais do
que uma inerte coleo de fatos essenciais e, a fim de habilitar o leitor a
seguir uma criativa linha de investigao de verbete para verbete, as
remisses foram especialmente organizadas para auxiliar a liberdade de
movimento, dentro do texto, sem prejudicar a legibilidade. A maioria dos
nomes prprios no participou das remisses, uma vez que quase todos eles,
como se pode supor, tm verbetes especficos. Os assuntos enumerados no
final de um verbete encaminham o leitor para tpicos afins ainda no
mencionados, mas que podero ser de interesse complementar.
      Obras gerais de referncia so sugeridas na Nota bibliogrfica da
p.371, mas ttulos mais especficos foram tambm fornecidos em
praticamente todos os verbetes para proporcionar uma completa e atualizada
bibliografia. Preocupamo-nos em indicar ttulos recentes e facilmente
acessveis, salvo quando publicaes mais antigas continuam sendo as obras
que representam o tratamento clssico de determinado assunto. Quanto aos
verbetes onde no  dada qualquer referncia bibliogrfica, as remisses
conduziro o leitor para um verbete mais extenso, associado, onde os ttulos
pertinentes so indicados.
       As ilustraes foram especialmente escolhidas por seu interesse
documental; os nmeros entre colchetes no final de um verbete indicam
pginas em outras partes do livro onde ilustraes referentes ao assunto do
verbete podem ser encontradas. Tambm se oferecem dois mapas gerais nas
pp. XII e XIII, e numerosos mapas menores e quadros genealgicos foram
inseridos ao longo do texto. Os verbetes mais substanciais so atribudos aos
seus autores de acordo com a chave fornecida na p. XI, com a Lista de
colaboradores.
       A minha dvida como organizador deste dicionrio  grande para com
numerosos amigos, colegas e estudantes pesquisadores, que me ajudaram
nos verbetes apropriados s suas respectivas especialidades. A dra. Anne
Dawtry,  falecida sra. Jane Hebert e a sra. Sara-Jane Webber atuaram
como subeditoras para algumas sees nas fases iniciais do empreendimento;
a sra. Michelle Brown, a dra. Elizabeth M. Hallam, a sra. Elizabeth Lockwood
e a dra. Cathy Harding prestaram considervel ajuda nas fases subseqentes.
As sras. Miriam van Bers, Helena Reid e Anne Markinson mantiveram o editor
de texto sob controle, garantindo que as inevitveis dificuldades no se
tornassem incontrolveis. Meus agradecimentos a todos e, em especial, ao
quadro editorial da Thames and Hudson.
                                                                  HE
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             Nota da edio brasileira

      Dois tipos de informaes foram acrescidos ao texto original para
melhor servir aos leitores de lngua portuguesa: em alguns casos, informaes
de contedo, quase sempre complementando dados sobre a histria de
Portugal medieval; mais freqentemente, informaes bibliogrficas, indicando
tradues em lngua portuguesa ou espanhola em substituio s mesmas
obras citadas em ingls, ou ainda fazendo indicaes extras em verbetes
importantes ou desprovidos de bibliografia. Todos esses acrscimos
aparecem entre colchetes, assinalados com NT quando devidos ao tradutor,
sendo os demais de responsabilidade do revisor tcnico.
                    Lista de colaboradores



          DB
               Dr. David Bates, professor titular de Histria, University College,
Cardiff
          CB
             Christopher Brooke, professor de Histria Eclesistica (Dixie
Professor), Gonville and Caius College, Cambridge
        RB
             Dra. Rosalind Brooke, docente de Histria, Universidade de
Cambridge
        MB
              Michelle Brown, assistente de pesquisa, Departamento de
Manuscritos, British Library, Londres
        SB
            Sarah Brown, Diviso de Arquitetura, Royal Commission on the
Historical Monuments of England, Londres
        RAB
             R. Allen Brown, professor de Histria, King's College, Universidade
de Londres
        TJB
               T. Julian Brown, professor de Paleografia, King's College,
Universidade de Londres
        DC
            David F. L. Chadd, diretor, Escola de Histria da Arte e Msica da
Universidade de East Anglia
        WD
            Wendy Davies, professora de Histria, University College, Londres
        AD
           Dra. Anne Dawtry, professora de Histria, Chester College, Chester
        PD
             Dr. Peter Denley, professor de Histria, Westfield College,
Universidade de Londres
        ADD
               Alan Deyermond, professor de Espanhol, Westfield College,
Universidade de Londres
        GE
           Dr. Gillian Evans, Fellow, do Fitzwilliam College, Cambridge
        JF
           Jill Franklin, Universidade de East Anglia
        PG
            Philip Grierson, professor Emrito e Fellow do Gonville and Caius
College, Cambridge
       EMH
           Dra. Elizabeth M. Hallam, conservadora-assistente do Public Record
Office, Londres
       CH
          Dra. Catherine Harding, Departamento de Arte, Queen's University
Kingston, Canad
       JH
          Jane Herbert, Westfield College, Universidade de Londres
       RH
           Rosalind Hill, Professora Emrita de Histria, Westfield College,
Universidade de Londres
       GK
           Dr. Gillian Keir, Westfield College, Universidade de Londres
       CHK
            Dr. Clive Knowles, professor de Histria, University College, Cardiff
       CHL
            C. Hugh Lawrence, Professor Emrito de Histria, Royal Holloway
and Bedford New College, Universidade de Londres
       EL
          Elizabeth Lockwood, Westfield College, Universidade de Londres
       HRL
            Henry Loyn, Professor Emrito de Histria, Westfield College,
Universidade de Londres
       DL
           David Luscombe, professor de Histria Medieval, Universidade de
Sheffield
       GM
           Professor Geoffrey Martin, Conservador do Public Record Office,
Londres
       RIM
             Robert I. Moore, professor-assistente de Histria Medieval,
Universidade de Sheffield
       JLN
             Dra. Janete Nelson, professora de Histria, King's College,
Universidade de Londres
       DN
           Donald M. Nicol, professor de Grego Moderno e Histria, Lngua e
Literatura Bizantinas, King's College, Universidade de Londres
       CP
            Ciaran Prendergast, Royal Holloway and Bedford New College,
Universidade de Londres
       JR-S
             Jonathan Riley-Smith, professor de Histria, Royal Holloway and
Bedford New College, Universidade de Londres
       NR
           Nicolai Rubinstein, Professor Emrito de Histria, Westfield College,
Universidade de Londres
      DJS
            Dr. D. Justin Schove, diretor da St. David's School, Beckenham
      IS
           Ian Short, professor de Francs, Birkbeck College, Universidade de
Londres
      JS
         Jane Symmons, Westfield College, Universidade de Londres
      TSS
          T.S. Smith
      RT
        Dr. Rodney Thomson, Departamento de Histria, Universidade da
Tasmnia
      S-JW
          Sara-Jane Webber, Westfield College, Universidade de Londres
      sw Steven Wilson, School of Oriental and African Studies, Universidade
de Londres
      GZ
         George Zarnecki, Professor Emrito, Courtauld Institute of Art,
Londres
                                    A
Abdida, dinastia Fundada pelo vizir e cdi Abu el-Kacim Maom Ibn-Abbad
(1023-42), em cujas veias corria sangue rabe e espanhol, a dinastia Abdida
governou Sevilha entre a queda do califado de Crdova e a conquista
almorvida da Espanha muulmana. Durante o seu domnio, Sevilha tornou-se
o mais prspero dos reinos taifa, que eram os Estados sucessores do
califado, absorvendo um certo nmero de taifas menores e conquistando
Crdova em 1070. A corte abdida era o centro de uma brilhante cultura
potica; os prprios reis eram poetas. O ltimo da linhagem, al-Mu'tamid, foi
deposto e aprisionado pelos almorvidas em 1091.
 D. Wasserstein, The Rise and Fall of the Party-Kings (1986)

Abssida, dinastia Os califas abssidas ou sucessores de Maom
exerceram autoridade sobre grande parte do mundo muulmano, coincidindo o
seu perodo de maior triunfo nas artes e na poltica com o reinado de Harun
al-Rachid (786-809), um contemporneo de Carlos Magno. Subiram ao poder
 frente das faces xiitas que se opunham aos omadas mas, aps suas
vitrias no final da dcada de 740, quando todo o mundo muulmano, exceto a
Espanha (que permaneceu leal aos omadas), ficou-lhes submetido, adotaram
os ritos sunitas da maioria e transferiram sua capital de Damasco mais para
leste, construindo a grande e nova cidade de Bagd. A influncia persa, com
suas tradies de absolutismo oriental, tornou-se predominante na
administrao abssida; os interesses da dinastia concentraram-se cada vez
mais no Oriente, com vistas s grandes rotas comerciais para a ndia e a
China. Um califado separado foi estabelecido no Egito e na Palestina sob o
domnio dos fatmidas no sculo X, e os abssidas viram seu papel reduzido
ao de lderes religiosos e cerimoniais, passando o efetivo poder para os
turcos seljcidas, que conquistaram Bagd em meados do sculo XI e,
finalmente, para os mongis, que aboliram o califado em 1258. [213]
 The Cambridge History of Islam, vol. I, org. por P. Holt, A. Lambton e B.
Lewis (1970)

Abbon de Fleury, Santo (954-1004) Um dos homens mais eruditos de seu
tempo, Abbon escreveu tratados sobre autoridade papal, astronomia e
matemtica. Educado nas escolas de Fleury, Reims e Paris, apoiou os
reformadores de Cluny e, aps um perodo de exlio na Inglaterra, foi eleito
abade de Fleury em 988. J tinha ento a reputao de ativo reformador
monstico, determinado a manter os mosteiros livres de controle episcopal e
secular. Desempenhou um papel na renovao beneditina inglesa,
especialmente na abadia de Ramsey.
 D. Knowles, The Monastic Order in England (1950); P. Cousin, Abbon de
Fleury-sur-Loire (1954)

Abd el-Malik califa 685-705 (n. 647) Foi o verdadeiro responsvel pela
consolidao do poder da dinastia Omada. Cognominado pelos historiadores
como "o pai dos reis", ele e seus quatro filhos dominaram o califado at a
dcada de 740 e, sob a direo deles, a partir de sua base em Damasco, a f
islmica propagou-se desde as regies montanhosas da Espanha at a
provncia de Sind na ndia. A contribuio pessoal de Abd el-Malik consistiu
em reconciliar faces rivais e em estimular o controle militar no Ocidente
(Cartago caiu em 698) e no Oriente. Destacaram-se dentre os atributos
imperiais da dinastia, o consumo ostensivo e a construo da grande mesquita
de Ornar, mais conhecida como a "Cpula do Rochedo".

Abd el-Rahman I governante omada da Andaluzia 756-88 (n. 731) ltimo
membro remanescente da dinastia Omada aps sua derrubada pelos
abssidas; em 756 instalou-se como emir independente de Crdova, na
Espanha. Durante seu reinado, pde controlar as vrias faces no interior da
Espanha e obteve at o apoio dos bascos cristos contra as incurses dos
francos. Por exemplo, a tentativa de Carlos Magno de conquistar a Espanha
em 778, auxiliado por Ibn el-Arabi de Saragoa, fracassou em conseqncia
de uma aliana entre Abd el-Rahman e os berberes cristos da regio basca.
Os francos foram derrotados e sua retaguarda completamente eliminada no
desfiladeiro de Roncesvalles, nos Pireneus, na batalha que deu origem ao
famoso poema pico, a Cano de Rolando, uma vez que Rolando, o
governador da Bretanha, estava entre os que a morreram. Aps o
falecimento de Abd el-Rahman, a guerra civil eclodiu de novo no reinado de
seu filho, Hisham I (788-96), e prosseguiu durante quase um sculo.
 P. Hitti, History of the Arabs (1951)

Abelardo, Pedro (1079-1142) Filsofo e telogo, natural de Le Pallet, perto
de Nantes. Sua carreira foi incomumente variada para um mestre escolstico:
foi educado em Loches ou Tours sob a orientao de Roscelino de
Compigne, estudou em Paris com Guilherme de Champeaux e em Laon com
Anselmo de Laon. Polemizou violentamente com todos esses mestres.
Lecionou em escolas de Paris, Melun e Corbeil at 1119, quando casou
secretamente com Helosa, sobrinha do cnego Fulbert de Paris. Aps o
nascimento do filho de ambos, Astrolbio, Abelardo foi castrado  fora por
agentes de Fulbert. Tendo providenciado o ingresso de Helosa como freira no
convento de Argenteuil, Abelardo tornou-se monge no vizinho mosteiro abacial
de Saint-Denis. Mas no tardou em voltar ao ensino e em 1121 sofreu sua
primeira condenao como hertico em Soissons.
      A partir de 1122, lecionou num retiro rural em Quincey, na Champagne, e
desde cerca de 1127 foi abade de Saint-Gildas-de-Rhuys, na sua Bretanha
natal. Em ambos os lugares Abelardo viu-se perseguido por dificuldades mas,
enquanto abade, providenciou para que Helosa iniciasse um novo convento
em Quincey, dedicado ao Paracleto. Por volta de 1136 reapareceu nas
escolas de Paris, onde teve dentre seus ouvintes Joo de Salisbury. Uma
segunda e mais devastadora condenao ocorreu num Conclio realizado em
Sens, em 1140, e essa foi confirmada pelo papa Inocncio II. A derrota veio
aps veementes debates entre, de um lado, Abelardo e seus adeptos, que
incluam Arnaldo de Brscia, e, do outro, Bernardo, o influente abade de
Claraval, e muitos bispos da Frana. Abelardo retirou-se ento para a abadia
de Cluny, onde contou com a amizade do abade Pedro, o Venervel. Morreu
no priorado de Saint-Marcel, em Chalon-sur-Sane, em (ou logo aps) 1142.
Pedro, o Venervel, transferiu os restos mortais de Abelardo para o
Paracleto, onde Helosa permaneceu como abadessa at falecer em 1164.
    Retratar Abelardo como um paladino da emancipao intelectual do
domnio de monges que eram inimigos do saber, da cultura e da pesquisa, 
simplificar as tenses que culminaram nas duas condenaes de Abelardo por
heresia. Dentre seus crticos estavam homens de indiscutvel talento, no s
Bernardo de Claraval mas tambm Guilherme de Saint-Thierry e Hugo de
Saint-Victor, enquanto que Abelardo (ele prprio um monge na maior parte de
sua vida) se deliciava em disputas provocantes. Na Histria Calamitatum
[Histria das Minhas Desgraas], Abelardo responsabiliza a inveja de seus
rivais e o seu prprio orgulho por seus fracassos. Mas conquistou o interesse
e a devoo de mais de uma gerao de estudantes por ter tornado a lgica
de Aristteles clara e por ter explorado com brilhantismo as funes e
limitaes da linguagem.
      Como filsofo, Abelardo foi corretamente descrito como um no-realista.
No incio de sua carreira, afastou-se da concepo predominante que via os
universais (por exemplo, gnero, espcie) como coisas existentes (res).
Distinguiu-se mais por suas penetrantes glosas a textos de Aristteles do que
pela criao de uma sntese filosfica. Em teologia, Abelardo examinou
criticamente as tradies recebidas do pensamento cristo; sua obra Sic et
Non  uma tentativa de resolver as aparentes contradies existentes no
mbito do ensino cristo atravs da aplicao da dialtica. Seus mtodos no
eram incomuns para a poca, mas suas concluses foram julgadas
imprudentes por muitos. Seus ensinamentos teolgicos refletiram seu no-
realismo dialtico; apresentou a Trindade em termos de atributos divinos
(poder, sabedoria e amor) e no de pessoas divinas. Considerou o trabalho
de redeno do Cristo menos como um fato objetivo (a libertao do homem
do pecado ou do demnio) do que como um exemplo de ensino e sacrifcio
que provoca uma resposta subjetiva ao amor divino. Na tica, Abelardo
afastou-se da preocupao com aes para dedicar-se ao estudo da inteno
e do consentimento. Sua tendncia para a interiorizao tambm ficou
evidente nas substanciais contribuies literrias, legislativas e litrgicas que
fez para o estabelecimento do convento do Paracleto, tendo Helosa como
abadessa: as monjas eram exortadas a estudar e orar, e a no se sentirem
tolhidas, mais do que o necessrio, por observncias externas. Abelardo
admirava as figuras contemplativas que tinham sido modelos de sabedoria e
virtude, fossem eles pagos, como Scrates ou Plato, Ccero ou Sneca,
profetas, como Elias ou Joo Batista, ou monges cristos primitivos, como
Antnio e Jernimo. Todos eles amaram a sabedoria e todos, portanto, como
Cristo, mereceram o nome de filsofos.
      As avaliaes sobre o que, em termos gerais, Abelardo realizou so,
inevitavelmente, complacentes ou crticas em excesso. Suas contribuies
originais para a ascenso da Universidade de Paris e do movimento
escolstico medieval receberam por vezes uma ateno exagerada, mas ele
produziu urna impresso muito forte sobre os escolsticos de seu tempo,
mesmo que rapidamente seus interesses e livros tenham sido rejeitados ou,
na melhor das hipteses, podados por seus sucessores. As suas principais
obras so, na lgica, Dialectica, e os comentrios sobre a lgica aristotlica;
na teologia, o j citado Sic et Non e a Theologia (tendo ambas as obras
passado por sucessivas revises), a Ethica o Scite te ipsum [tica ou
Conhece-te a Ti Mesmo], comentrios sobre o incio do Gnese e sobre a
Epstola aos Romanos, e o Dialogus inter Judaeum, Philosophum et
Christianum [Dilogo entre um Judeu, um Filsofo e um Cristo]. Hoje, sua
popularidade deve-se principalmente  correspondncia com Helosa. As
cartas podem no ter circulado antes de meados do sculo XIII, e sua
autenticidade  contestada algumas vezes, sobretudo por causa da dificuldade
em interpretar as letras dos autores. Mas o seu caso de amor despertou
considervel interesse no s imediato mas ao longo de toda a Idade Mdia.
Abelardo foi tambm um talentoso poeta e msico.            DL
 E. Gilson, Heloise and Abelard (1953); D.E. Luscombe, The School of Peter
Abelard (1969); Ablard en son Temps, org. por J. Jolivet (1981)

Abu Bakr califa 632-34 O primeiro califa ou sucessor de Maom e sogro do
Profeta. Venceu as faces no interior da Arbia, expandiu o Isl em toda a
Pennsula Arbica e, no ltimo ano de sua vida, obteve sobre as foras
bizantinas grandes vitrias que abriram o caminho para a conquista da
Palestina. Seu principal instrumento em suas iniciativas militares foi o general
Khalid ibn el-Valid, "Espada de Al," conquistador final de Damasco (635).
 P. Hitti, History of the Arabs (1951)

Acordo de Kenilworth (1266) Negociado entre Henrique III e os bares
ingleses, foi um importante acordo constitucional que ps fim  tentativa
baronial de reforma governamental iniciada em 1258. Deu aos rebeldes a
oportunidade de recuperarem suas terras, em troca de sua aceitao da
restaurao da monarquia.
 F.M. Powicke, King Henry III and the Lord Edward (1947)

Acrcio, o Glosador (c. 1182-1260) Natural de Florena e professor de
Direito na Universidade de Bolonha,  especialmente famoso por seus
comentrios sobre o Cdigo, Institutos e Digesto de Justiniano, os quais se
tornaram leitura obrigatria para o estudo dessas obras nas universidades
medievais. Faleceu em Bolonha e foi sepultado no adro da igreja da Ordem
Franciscana. Seu filho Francisco tambm foi um jurista de considervel
renome, tendo feito seu doutorado em direito com apenas 17 anos de idade.
 W. Ullmann, Law and Politics in the Middle Ages (1975)

Ado de Bremen (m.c 1081) Cnego de Bremen que se tornou diretor da
escola da catedral dessa cidade em 1066. Escreveu uma histria eclesistica
em quatro livros, nos quais descreveu a expanso do Cristianismo na Europa
setentrional, sobretudo nas dioceses de Bremen e Hamburgo. A obra termina
com um valioso tratado sobre a situao da Dinamarca no terceiro quartel do
sculo XI.
 B. Schmiedler, History of the archbishops of Hamburg-Bremen (1959)

Adelaide, Santa (931-99) Segunda esposa de Oto I, o Grande, e filha de
Rodolfo II de Borgonha. Em 947 tornou-se noiva de Lotrio, filho de Hugo, rei
da Itlia. Aps a morte de Lotrio em 950, ela foi capturada e encarcerada
por Berengrio, margrave de Ivrea, porque se recusou a casar com seu filho.
Fugiu em 951, buscando refgio em Canossa. Casou no mesmo ano com Oto,
o Grande, e foi coroada imperatriz em 962. Acompanhou Oto em sua terceira
campanha na Itlia, em 966, e depois da morte do marido permaneceu ativa
no governo at se desentender com seu filho, Oto II. A reconciliao ocorreu
em 983 e ela foi nomeada vice-rei na Itlia. Desempenhou um importante
papel no governo durante a menoridade de Oto III, junto com a viva de Oto
II, Tefane, e foi destacada defensora da reforma cluniacense.
 K.J. Leyser, Rule and Conflict in an Early Medieval Society (1979)

Adelardo de Bath (1090-1150) Monge, matemtico e cientista ingls que
traduziu para o latim algumas das obras dos matemticos islmicos Al-
Khwarismi e Abu Machar. Acredita-se que tenha sido tambm ele quem
introduziu no mundo ocidental o conhecimento do astrolbio, um instrumento
cientfico (herdado dos gregos atravs dos rabes) para informar a hora
mediante a observao do Sol, e para encontrar latitudes e calcular altitudes.
Sua traduo de uma verso rabe de Euclides tornou-se um compndio
clssico de geometria no mundo ocidental.
 F.J.P. Bliemetzrieder, Adelhard von Bath (1935); M. Clagett, Dictionary of
Scientific Biography, org. por C.C. Gillespie (1970)

Ademar (m. 1098) Bispo de Le Puy. Nomeado legado apostlico para a
Primeira Cruzada, acompanhou os cruzados na expedio ao Oriente Prximo.
Negociou com o imperador Aleixo Comneno em Nicia, restabeleceu alguma
disciplina entre os cruzados e morreu pouco depois da tomada de Antioquia.
 G.J. d'Adhmar Labaume, Adhmar de Monteil, vque du Puy (1910)
adocionismo     Ver heresia adocionista

Adriano I papa 772-95 Um dos mais influentes papas no perodo inicial da
Idade Mdia, Adriano convidou Carlos Magno e os francos a apoi-lo contra a
presso lombarda. A interveno provou ser decisiva: o reino lombardo foi
esmagado e Carlos Magno adotou o ttulo de rei dos lombardos. Adriano
manteve intato, de forma bastante habilidosa, o controle papal no centro da
Itlia em face da nova situao poltica, reparou e reconstruiu a prpria cidade
de Roma, e abriu caminho, mediante uma srie de delicadas negociaes com
Constantinopla, para uma nova ordem no Ocidente, a qual foi simbolizada, em
ultima instncia, pela coroao imperial de Carlos Magno em 800 pelas mos
do sucessor imediato de Adriano, o papa Leo III.
 D. Bullough, The Age of Charlemagne (1966)

Adriano IV (Nicolau Breakspear) papa 1154-59 (n.c 1100) O nico ingls
que at hoje ascendeu ao trono papal. Natural de Abbot's Langley, perto de
St. Albans, foi cnego da abadia de Saint-Ruf, nas vizinhanas de Aries, na
Frana, da qual foi eleito abade em 1137. Foi nomeado cardeal-bispo de
Albano pelo papa Eugnio III (1148-53), e depois serviu como legado papal na
Escandinvia. Organizou os negcios do arcebispado de Trondheim e
estabeleceu acordos que resultaram no reconhecimento de Uppsala como
sede do metropolita sueco. Aps seu regresso, Breakspear foi bem recebido
pelo sucessor de Eugnio, Anastcio IV, e com a morte deste ltimo foi eleito
papa. Embora tivesse coroado Frederico Barba-Ruiva como soberano do
Sacro Imprio Romano-Germnico em 1155, seu pontificado foi seriamente
perturbado por disputas com Frederico, as quais ainda no tinham sido
resolvidas ao tempo da morte de Adriano.
 W. Ullmann, "The Pontificate of Adrian IV", Cambridge Historical Journal
(1955); R. Southern, "Pope Adrian IV", Medieval Humanism and other Studies
(1970)

Acio Flvio (c. 396-454) General romano. Natural do Baixo Danbio, era
filho de um general romano e de uma nobre italiana, mas passou boa parte de
sua juventude como refm, primeiro dos godos e mais tarde dos hunos. Em
435, fez uso de auxiliares hunos ao subjugar os borgonheses, mas quando os
hunos se tornaram uma real ameaa para o Imprio Romano, sob o comando
de tila, Acio foi forado a atac-los. Em maio de 451 sustou-lhes o avano
em Orlans mas no conseguiu obter uma vitria decisiva, e tila pde se
dedicar a novas conquistas na Itlia. Acio foi assassinado em 454 pelo
imperador Valentiniano III, que temia que os continuados xitos de Acio como
comandante das foras militares romanas acabassem resultando em sua
prpria deposio em favor do general.

Afonso I rei das Astrias 739-57 Genro de Pelgio (lder visigodo da
resistncia asturiana contra a invaso rabe) e provavelmente descendente de
reis visigodos. Afonso foi escolhido para governar as Astrias quando seu
cunhado Fafila foi morto por um urso. No prazo de um ano, a revolta das
guarnies brberes por toda a Pennsula Ibrica e a guerra civil resultante,
deram a Afonso a oportunidade de ultrapassar as fronteiras de seu pequeno e
montanhoso territrio, e conquistar terras muito ao sul do rio Douro; a Galcia,
a Cantbria, La Rioja e parte de Leo caram em seu poder. As reas
meridionais foram devastadas e evacuadas, criando uma extensa terra de
ningum, e as regies setentrionais foram fortalecidas dos pontos de vista
demogrfico e militar. Quando Afonso morreu, o reino das Astrias estava
solidamente estabelecido e estendia-se desde a costa atlntica da Galcia at
a fronteira oriental de La Rioja; no sculo seguinte, converteu-se no reino de
Leo.
 C. Snchez-Albornoz, Orgenes de la nacin espaola: el reino de Asturias,
vol. I (1972)

Afonso V, o Magnnimo rei de Arago 1416-58 (n. em 1395) Neto de Joo I
de Castela e filho de Fernando de Antequera, foi criado na corte castelhana
at seu pai ser coroado rei de Arago em 1412. Sucedeu ao pai como rei em
1416 e, durante seu reinado, defrontou-se com numerosos problemas: a
aristocracia aragonesa tinha cimes dos conselheiros castelhanos de Afonso
e, ao mesmo tempo, o campesinato catalo estava constantemente
procurando conquistar sua independncia da Coroa.
     Foi bem-sucedido, porm, no prosseguimento da expanso ultramarina
de Arago. Pacificou a Sardenha e a Siclia em 1420 e, aps inmeras
dificuldades, conseguiu conquistar Npoles em 1442. Transferiu depois sua
corte para ali e nunca mais voltou  Espanha. Quando morreu, em 1458,
sucedeu-lhe em Npoles seu filho ilegtimo Berrante (ou Ferdinando I) e em
Arago seu irmo Joo. O cognome "o Magnnimo" atribudo a Afonso V foi
ganho em conseqncia de seu generoso patrocnio a numerosos humanistas
da Renascena.

Afonso VI rei de Leo e Castela 1065-1109 Segundo filho do rei Fernando I e
neto de Sancho III de Navarra, Afonso tinha 25 anos quando herdou o reino de
Leo de seu pai. Seis anos de lutas com os irmos, que tinham herdado
outras partes do reino de Fernando, culminaram na derrota de Afonso na
batalha de Golpejera (janeiro de 1072). Foi exilado para a cidade muulmana
de Toledo mas, nove meses depois, foi bafejado pela sorte: o assassinato de
Sancho II de Castela trouxe o monarca exilado de volta ao poder para
governar Leo, Castela e Galcia.
       Apesar de sinistros boatos de cumplicidade no assassinato de Sancho, a
at de incesto com sua irm, Afonso provou ser um governante enrgico e
vitorioso, dos pontos de vista militar, poltico e cultural. Trabalhou em prol da
reconciliao das trs partes do seu reino e estabeleceu sua ascendncia
sobre os reinos taifa do sul muulmano, conquistando Toledo em 1085.
Influenciado por suas esposas francesas, e dando prosseguimento  poltica
europeizante de Sancho III, Afonso fortaleceu a hegemonia cluniacense sobre
os mosteiros espanhis, nomeou bispos franceses para as suas ss,
estimulou as peregrinaes a Santiago de Compostela (residncias francesas
proliferaram nas cidades ao longo das estradas de peregrinao), substituiu a
liturgia morabe (ou visigtica) pela liturgia romana do resto da Europa,
apesar da resistncia popular, e substituiu igualmente a velha escrita visigtica
pela Carolngia; a expanso da arquitetura romnica na Espanha tambm data
do tempo de Afonso VI.
     A implacvel insistncia de Afonso em coletar tributos dos reinos taifa --
descritos por um historiador recente como uma rede de proteo -- provou
ser contraproducente no ano seguinte  vitria do monarca em Toledo;
desesperados, os reis muulmanos apelaram para os almorvidas, que
derrotaram os exrcitos de Afonso em Segrajas (1086). A poltica de Afonso
para com os governantes muulmanos nativos tornou-se mais conciliatria; ele
j percebera a importncia da tolerncia religiosa, ao adotar o ttulo de
"Imperador de Duas Religies" aps a queda de Toledo. Mas era tarde
demais: os almorvidas tinham chegado para ficar, e seguiu-se uma srie de
derrotas, somente mitigadas pela bem-sucedida defesa de Toledo e pelas
vitrias do cado em desgraa e exilado condestvel de Afonso, Rodrigo Diaz,
El Cid, que conquistou Valncia em 1094. Valncia seria abandonada em
1102, e o nico filho de Afonso foi morto na esmagadora derrota em Ucls
(1108). O rei faleceu em 1109 e a ausncia de um herdeiro varo mergulhou
seu assediado reino em guerra civil, deixando o seu genro, Afonso I de
Arago, como figura dominante na Espanha crist.
 [R. Menndez Pidal, La Espaa del Cid, 2 vols. Madri, Espasa-Calpe, 7a.
ed., 1979; C. Estepa Diez, El reinado de Alfonso VI, Madri, Hullera Vasco-
Leonesa, 1985]

Afonso VIII, o Nobre rei de Castela 1158-1214 Filho do rei Sancho III. A
menoridade de Afonso foi perturbada por lutas internas e pela interveno do
vizinho reino de Navarra nos assuntos castelhanos. Essa interferncia culminou
em 1195 num ataque conjunto a Castela por parte de Navarra e Leo mas que
Afonso pde frustrar com xito. Suas relaes com Arago foram sempre
boas e, em 1179, os dois Estados assinaram o Pacto de Cazorla, pelo qual
ficou decidida a demarcao da futura fronteira entre Castela e Arago, a
vigorar assim que se consumasse a reconquista da Espanha aos mouros. Foi
essa guerra contra os mouros que absorveu as energias de Afonso VIII entre
1172 e 1212. Embora tivesse sido derrotado pelos mouros em 1195, foi-lhe
possvel, com a ajuda de Pedro II de Arago, alcanar grande vitria contra
eles na sangrenta batalha de Navas de Tolosa (1212) e assim contribuir
decisivamente para a destruio do poderio almada na pennsula hispnica.
Afonso VIII casou com uma filha de Henrique II da Inglaterra e fundou a
primeira universidade da Espanha.
 J. Gonzalez, El reino de Castilla en la poca de Alfonso VIII, 3 vols., Madri,
CSIC, 1950

Afonso X, o Sbio rei de Leo e Castela 1252-84 (n. 1221) Primognito de
Fernando III e de Beatriz da Subia. Como presumido herdeiro, participou nas
campanhas de seu pai, incluindo o cerco de Sevilha, e manifestou desde cedo
interesse em desenvolver o castelhano como lngua literria e tcnica: em
1251 encomendou uma traduo do rabe. Os historiadores vem Afonso
como um fracasso, por causa de sua ruinosamente dispendiosa e, em ltima
instncia, humilhante campanha para eleger-se titular do Sacro Imprio
Romano, e por causa da rivalidade em torno da sucesso, o que redundou em
revolta e deposio. Os historiadores culturais, por outro lado, vem-no como
um sucesso: foi o mecenas de uma brilhante corte de poetas, intelectuais,
artistas e msicos; foi um grande patrocinador do vernculo, deixando o
castelhano, no final de seu reinado, como veculo natural para todos os
gneros de prosa. Embora a obra tivesse comeado no reinado de Fernando
III, Afonso X deu uma contribuio incomparavelmente maior, criando a prosa
castelhana, tal como Alfredo, o Grande, tinha criado a prosa anglo-saxnica.
Entretanto, os dois lados de Afonso so interdependentes e o mesmo padro
pode ser freqentemente observado em sua vida poltica e em sua vida
cultural.
       Afonso, que casara com Violante, filha de Jaime I de Arago, sucedeu
ao trono de Castela e Leo em 1252. No era tarefa fcil ser o herdeiro dos
triunfos de Fernando III, e o desejo de afirmar-se como um digno sucessor
levou o novo rei a invadir o Algarve (redundando num compromisso que
favoreceu Portugal), a tentar anexar Navarra (teve que se contentar com a
suserania nominal) e a reivindicar a Gasconha, com o argumento de que sua
av era filha de Henrique II da Inglaterra. A pretenso foi abandonada num
tratado de 1254, e a irm de Afonso casou com Eduardo I; o terceiro filho
deles e, durante 10 anos, herdeiro do trono ingls, recebeu o nome de
Afonso. Uma aventura externa muito mais demorada (1256-75) foi o objetivo
obstinadamente perseguido de se eleger para o Sacro Imprio Romano-
Germnico. Afonso, que reivindicava seus direitos atravs de sua me, gastou
vultosas somas para influenciar os eleitores -- muito mais do que Castela
podia permitir-se dispender -- de modo que o descontentamento interno
aumentou; um historiador recente intitulou como "Os Caminhos da Runa" um
ensaio sobre a poltica econmica e financeira de Afonso X. Foi eleito em
1257, mas um veto papal desfez todo o seu trabalho, e o monarca nunca mais
voltou a estar to perto do xito. No obstante, persistiu por mais 18 anos, e
somente uma revolta da nobreza castelhana o forou a renunciar a suas
pretenses.
      Dois dos irmos de Afonso rebelaram-se contra ele (1255 e 1269) e um
terceiro foi sumariamente executado por sua ordem (1277), mas as piores
dissenses no seio de sua famlia ocorreram aps a morte do seu filho
primognito Fernando, em 1275, durante uma invaso marroquina que durou
at 1279. O filho mais velho de Fernando deveria ter sido declarado herdeiro
do trono mas o segundo filho de Afonso, Sancho, obteve uma alterao da lei
e, quando o monarca tentou anul-la, Sancho revoltou-se com o apoio dos
nobres e uma assemblia privou Afonso de seus poderes e prerrogativas.
Procurou ajuda muulmana mas em vo, e morreu sem ter recuperado pleno
controle sobre o reino.
       As realizaes culturais de Afonso, o Sbio, formam um profundo
contraste com essa crnica de fracassos polticos: enciclopdicos cdigos
jurdicos em vernculo, uma extensa coleo de tradues e adaptaes de
obras cientficas arbicas (incluindo as Tbuas Afonsinas, usadas por
astrnomos em toda a Europa durante cerca de trs sculos), a maior e
melhor coleo de poesia mariana em qualquer idioma vernculo (ao invs de
suas outras obras, os poemas que formam a coletnea intitulada Cantigas de
Santa Maria no foram escritos em castelhano mas na lngua lrica
convencional da maioria da pennsula, o galaico portugus e duas obras
histricas: uma histria universal [Grande y General Estoria] e uma histria da
Espanha [Crnica General de Espaa]. Entretanto, assim como h slidas
realizaes em meio aos fracassos polticos (alguns avanos no caminho da
Reconquista e, de suma importncia, a criao da marinha castelhana),
tambm a obra cultural do rei e de seus colaboradores mostra sinais de
desmedida ambio e alguns grandiosos projetos abortaram. O principal
cdigo de leis, Las siete partidas, nunca foi promulgado em vida de Afonso, e
as duas histrias, ambas ideologicamente vinculadas s ambies imperiais
do monarca, ficaram inacabadas.               ADD
 E.S. Procter, Alfonso X of Castile, Patron of Literatura and Learning (1951);
The Worlds of Alfonso the Learned and James the Conqueror, org. por R.I.
Burns (1985); J.R. Craddock, The Legislative Works of Alfonso X, el Sabio,
Research Bibliographies and Checklists 45 (1986) [C. Estepa Diez, J. Faci et
alii, Alfonso X, Toledo, Museo de Santa Cruz, 1984]

afresco A pintura em afresco foi imensamente popular na Idade Mdia. No
sculo XIII e em especial nas igrejas e mosteiros gticos italianos, essa forma
de arte atingiu a sua mais perfeita expresso. Os afrescos proporcionavam
uma alternativa mais rpida e menos dispendiosa que os mosaicos, uma outra
importante forma de decorao mural na era medieval.
      Havia um certo nmero de etapas na pintura em afresco. Em primeiro
lugar, a superfcie a ser coberta era revestida com uma camada de gesso de
mdia para fina (arriccio). Nessa etapa, o artista podia fazer um esboo a
mo livre da composio, usando uma substncia argilosa de cor vermelha
ferruginosa conhecida como sinopia. Se a obra era para ser executada em
buon fresco, ou afresco verdadeiro, o artista, trabalhando de cima para baixo
na parede, aplicava apenas o gesso suficiente para um dia de trabalho; essas
pequenas sees de gesso mais fino eram conhecidas como giornate. O
artista aplicava ento os. seus pigmentos, diludos em gua pura, a esse
pouco gesso; os pigmentos fixavam-se permanentemente no reboco ainda
mido. Uma forma menos duradoura de pintura em afresco era o fresco al
secco, no qual os pigmentos eram aplicados na parede depois do gesso
secar. Em muitos afrescos medievais em que se usou a tcnica al secco, as
cores descarnaram.
 E. Borsook, The Mural Painters of Tuscany (1960); U. Procacci, Sinopie e
affreschi (1961)

frica A totalidade da frica do Norte era parte integrante do mundo clssico
e do comeo da Idade Mdia, mas s lentamente os ocidentais tomaram
conhecimento do resto do continente africano. Em 429, no decorrer das
"andanas tribais" dos povos germnicos, os vndalos passaram da Espanha
ao norte da frica e estabeleceram um reino que englobou grande parte da
Arglia e Tunsia atuais, com seu centro em Cartago. A provncia foi
reconquistada pelo Imprio Bizantino (533-48), mas as invases muulmanas
do sculo VII provocaram uma radical e permanente alterao nas estruturas
polticas do mundo mediterrneo. Em 700, todo o norte da frica estava em
mos muulmanas e, 20 anos depois, tambm a maior parte da Espanha.
Mercadores muulmanos abriram rotas atravs do Saara desde o sculo VIII
e seu controle poltico do Egito e do vale do Nilo asseguraram o contato
contnuo com o Sudo e a Etipia, e o perfeito conhecimento dessas regies.
       O envolvimento ocidental direto ocorreu em certa medida com os
cruzados, mas s a partir do final da Idade Mdia e das arrojadas expedies
portuguesas, encorajadas pelo Infante D. Henrique, se iniciou a metdica
explorao europia. Aps a tomada de Ceuta (1415), os portugueses foram
os pioneiros de uma srie de viagens ao longo da costa africana ocidental --
inicialmente numa tentativa de flanquear os mouros no Marrocos. O xito
comercial dessas viagens, graas  importao de especiarias pela Europa,
acelerou seu desenvolvimento; esperava-se alcanar as especiarias de melhor
qualidade da ndia e incentivar o lucrativo comrcio com os rabes.
     Em 1482, toda a costa da Guin era conhecida e em 1487 Bartolomeu
Dias dobrou o Cabo da Boa Esperana. Dez anos depois, Vasco da Gama
empreendia sua histrica viagem de descobrimento do caminho martimo para
a ndia, aportando em Calicute em setembro de 1498. Foi o comeo de uma
era de expanso ultramarina europia.
     [A data inicial das grandes viagens ultramarinas portuguesas na Idade
Mdia foi 1432, quando Gil Eanes dobrou o Cabo Bojador e ps fim s lendas
do Mar Tenebroso. Entre 1440 e 1445, Nunco Tristo descobria os cabos
Branco e das Palmas; em 1462 atingia-se o Cabo Verde, descobria-se a
Serra Leoa e eram exploradas as rias do Senegal. A chamada Costa da Mina
 explorada em 1471 por Joo de Santarm e Pedro Escobar, construindo-se
dez anos depois o castelo de So Jorge da Mina. Em 1484  a vez de Diogo
Co explorar a costa do Congo e chegar  foz do rio Zaire. Os navegadores
que mais se distinguiram nessa primeira fase dos descobrimentos africanos,
antes das navegaes decisivas de Bartolomeu Dias e Vasco da Gama, foram
-- alm dos j citados -- Tristo da Cunha, Gonalvez Zarco, lvaro
Fernandes, Afonso Gonalves, Dinis Fernandes, Gonalo Velho e Afonso de
Aveiro. NT]
 The Pelican History of Africa (1968)

Agobardo de Lyon (769-840) Arcebispo de Lyon. Natural da Espanha, ele foi
primeiro para Lyon como companheiro do enviado de Carlos Magno,
Leidradis. Ordenado sacerdote em 804, sucedeu a Leidradis como arcebispo
de Lyon em 816. Em conseqncia de seu apoio a Lotrio I contra o
imperador Lus, o Pio, foi deposto e banido no Conclio de Thonville em 834;
mas reconciliou-se com Lus e foi reintegrado em seu cargo em 838,
falecendo em Saintonge em 840. Seus principais escritos foram dirigidos
contra o adocionista Felix de Urgell, e tambm condenou a superstio e a
prtica do ordlio.
 A. Cabannis, Agobard of Lyon (1953)

Agostinho, Santo (354-430) Bispo de Hipona. Um dos quatro grandes Pais
da Igreja latina. Tendo nascido em Tagaste de pai pago e me crist,
Agostinho foi criado como cristo mas no batizado. Estudando retrica na
Universidade de Cartago e depois ensinando retrica na Itlia, Agostinho
abandonou totalmente sua criao crist, seguindo primeiro as crenas
neoplatnicas e, depois, maniquestas. Em 385, porm, foi convertido ao
Cristianismo por Santo Ambrsio e batizado no ano seguinte. Voltando ao
norte da frica, foi ordenado padre e, finalmente, bispo de Hipona em 395.
      Esteve ativo em seu papel pastoral e muito contribuiu para a refutao
das doutrinas de vrios grupos de herticos, como os maniquestas e os
donatistas.  sobretudo conhecido como filsofo e telogo. Suas obras
incluem as Confisses, onde relata a sua prpria converso, vrios sermes
sobre os Evangelhos e A Cidade de Deus (413-26). Nesta ltima obra,
Agostinho tentou responder s crticas daqueles que rejeitaram o Cristianismo
com o argumento de que Deus tinha consentido que Roma casse, procurando
mostrar-lhes a escala gigantesca do universo e o plano de Deus para o
homem, no mbito do qual a queda de Roma era apenas uma gota no oceano.
Considerou que todos os homens pertenciam a uma das duas cidades: a
cidade de Deus, composta por todos os fiis, e a cidade dos descrentes. Foi
o primeiro telogo cristo a expressar a doutrina da salvao do homem por
graa divina.
      Tambm escreveu uma srie de diretrizes para a vida clerical,
destinadas a um certo nmero de mosteiros locais, e que foram usadas no
sculo XI como base da chamada Regra de Santo Agostinho. Sua atitude
geral para com o governo poltico, que atribui  natureza pecaminosa do
homem e, no entanto, v como um meio efetivo de canalizao das
conseqncias malficas do pecado, provou ser imensamente influente no
pensamento eclesistico medieval.      AD
 P.R.L. Brown, Augustine of Hippo (1967), Religion and Society in the Age
of Augustine (1972) [A. Hamman, Santo Agostinho e seu tempo, S. Paulo,
Paulinas, 1989]

Agostinho, Santo (m. 604) Arcebispo de Canterbury. Italiano por nascimento,
Agostinho tornou-se monge e depois prior da abadia de Santo Andr no monte
Clio, uma das sete colinas de Roma, antes de ser escolhido pelo papa
Gregrio 1 para chefiar uma misso de converso  Inglaterra, em 596.
Desembarcando no Kent em 597, Agostinho e seus companheiros foram bem
recebidos pelo rei Etelberto, cuja esposa Bertha j era crist. Etelberto deu a
Agostinho uma casa em Canterbury e permisso para pregar ao seu povo.
Sabiamente, Agostinho no tentou abolir o paganismo no Kent de uma s vez
mas buscou, pelo contrrio, faz-lo gradualmente, enquanto que, ao mesmo
tempo, incorporava  liturgia da Igreja muitos costumes pagos e, sempre que
conveniente, usava antigos templos pagos para fins cristos. Seus mtodos
foram coroados de xito e, em 601, o rei Etelberto e muitos de seus sditos
tinham aceito o Cristianismo. Na prpria Canterbury, Agostinho instalou sua s
metropolitana de clrigos seculares. Tambm fundou um mosteiro dedicado
aos santos Pedro e Paulo (depois chamado de Santo Agostinho) e bispados
em Londres e Rochester.
 H. Mayr-Harting, The Corning of Christianity to Anglo-Saxon England
(1972)

agostinianos, cnegos Ordem religiosa de sacerdotes criada no sculo XI,
que obedecia a uma Regra baseada nos escritos monsticos de Santo
Agostinho de Hipona. Foi uma decorrncia do movimento de reforma da Igreja
que conclamava o clero secular a adotar uma vida comum e regular. Foi
especialmente popular em Roma, sul da Alemanha e Lorena, onde controlou
com freqncia grupos de igrejas ou formou os cabidos de catedrais. Na
Inglaterra, somente uma catedral, a de Carlisle (1133), era servida por
cnegos agostinianos, e poucas casas agostinianas, como a de Barnwell, no
Cambridgeshire, foram fundadas a fim de desempenhar tarefas paroquiais na
localidade. A tendncia da maioria das casas agostinianas era, pelo contrrio,
servir aos peregrinos (como em Walsingham) ou aos enfermos (como em St.
Bartholomew, Smithfield, Londres). Embora algumas casas fossem
estabelecidas na Inglaterra durante o sculo XI, o perodo de maior
crescimento foi no sculo seguinte, durante os reinados de Henrique I e
Estvo. As casas de cnegos agostinianos eram pequenas pelos padres
monsticos, consistindo usualmente em no mais de 12 cnegos e um prior.
 J.C. Dickinson, Origins of the Austin Canons (1950); L. Verheijen, La rgle
de St. Augustin (1967)

agostinianos, frades Ordem religiosa criada a partir de muitos grupos
diferentes de eremitas italianos, incluindo os valdenses ortodoxos, os quais
foram organizados em 1256 numa ordem mendicante pelo papa Alexandre IV.
Renunciando  sua anterior atividade apostlica, os frades agostinianos
juntaram-se a outras ordens mendicantes vivendo nas cidades uma vida de
apostolado inspirada na Regra de Santo Agostinho de Hipona.
 R. Brooke, The Corning of the Friars (1975)

agricultura As generalizaes acerca da agricultura europia na Idade Mdia
devem ser atenuadas pela nfase sobre as profundas diferenas regionais e
tambm pela grande diversidade dentro das regies. Os conhecimentos
tcnicos bsicos necessrios a um cultivo bem-sucedido de cereais estavam
ao alcance de todas as comunidades europias desde os tempos neolticos,
mas sua aplicao e organizao era uma questo muito diferente,
dependente da natureza dos solos, do equilbrio de atividades pastoris e
agrrias, do clima, da proximidade do mar e de uma dzia ou mais de outras
importantes variveis. Os hbitos sociais e os costumes fundirios tambm
estavam intimamente relacionados com a prtica agrria.
      O Imprio Bizantino preservou as estruturas clssicas bsicas em
princpios da Idade Mdia, com um persistente e forte elemento comercial e
monetrio na economia. Do sculo VIII em diante verificam-se claras
semelhanas entre os desenvolvimentos bizantino e ocidental na administrao
da propriedade fundiria e na exao e natureza da mo-de-obra. Influentes
grupos de camponeses livres aparecem na Anatlia e em partes dos Balcs.
No mundo ocidental, o Imprio Carolngio e seus sucessores, incluindo a
Bretanha e posteriormente as comunidades escandinavas e eslavas,
consideraram a agricultura de suprema importncia econmica durante a
maior parte da Idade Mdia. O perodo no foi estril em avanos tcnicos,
sobretudo nas reas que, por razes de fertilidade do solo e de clima,
constituram o centro nevrlgico da economia agrria medieval: a Frana ao
norte do Loire, a Lorena e as terras da Francnia, o sul e o leste da
Inglaterra.
        Uma economia senhorial bastante desenvolvida, que nunca foi
completamente isolada, porm mais propensa  auto-suficincia do que a
depender dos mecanismos de mercado, surgiu na Europa Carolngia dos
sculos VIII e IX. Uso extensivo de azenhas, mtodos melhorados de
atrelagem de animais para servios de lavoura e maior eficincia na
fertilizao do solo com adubos orgnicos e na rotatividade de culturas,
causaram lentamente um impacto sobre a demografia. Sempre que a paz
pde ser mantida (e a proteo contra as invases brbaras registrou uma
substancial eficcia no sculo XI), a economia senhorial provou ser capaz de
sustentar um constante aumento de populao. Seus mtodos clssicos de
lavoura baseavam-se no sistema de trs campos: a cada ano, em rotao, o
trigo era cultivado num campo; num outro, a aveia, a cevada, o feijo e as
leguminosas, enquanto que um terceiro campo era apenas alqueivado; em
algumas regies, era mais comum o sistema de dois campos, um cultivado e
um alqueivado. A cada aldeia era anexada uma rea de pastagem, a qual
assegurava a obteno de forragem para o gado. Mas o fundamental era o
arado e a diviso da terra em faixas, algumas pertencentes ao senhor e
outras aos seus homens, o que conjugava proteo e um esforo coletivo de
trabalho, e que propiciou o florescimento das comunidades.
      A superestrutura da civilizao medieval dos sculos XII e XIII baseou-se
nessa bem-sucedida economia senhorial, mas em fins do sculo XIII j eram
evidentes as inadequaes em sua organizao bsica. As fomes e as pestes
do sculo XIV so, conforme foi sugerido, sintomas de uma economia que
ultrapassou o seu ponto de saturao. A converso dos servios de mo-de-
obra em pagamentos monetrios ao senhor tinha se generalizado, e as
tentativas para voltar a impor o servio feudal contriburam para a inquietao
e as revoltas camponesas do final da Idade Mdia. O status do campons
variou muito, e as distines jurdicas nem sempre condiziam com a realidade
econmica e social. A escravatura clssica tinha declinado nos tempos
carolngios, embora elementos caractersticos dela ainda pudessem ser
encontrados no perodo central da Idade Mdia. A tendncia, porm, foi para
substituir a escravido por um regime uniforme de servido, mas na maioria
dos senhorios, homens livres (que deviam pouco mais do que servio judicial
aos seus senhores), agricultores e prsperos artesos viviam lado a lado com
servos de gleba a fim de trabalhar diretamente nas terras senhoriais trs dias
por semana e at mais.
      Tambm havia variaes nas tcnicas bsicas. Os campos abertos eram
comuns quando as condies do solo eram boas, mas em outras reas
optava-se por terrenos menores, cercados e retangulares. Em algumas
regies, para lavrar a terra mais levemente persistia o arado, um utenslio
herdado dos tempos romanos; em outras passou a dominar a charrua, capaz
de abrir sulcos profundos, enquanto que em reas remotas, como as ilhas
escocesas, continuaram sendo usados arados primitivos de escarificao
superficial. A colonizao trouxe suas prprias tcnicas, como na Floresta
Negra no sculo XII ou no avano alemo sobre as terras blticas da
Pomernia e da Prssia Oriental nos sculos XII e XIII; um status mais livre
era a recompensa normal para o colono empreendedor. No sculo XII, a
introduo do moinho de vento, originrio do Oriente, contribuiu para a
eficincia geral, sobretudo nas grandes propriedades. O surgimento de livros
sobre mtodos de lavoura e a maior divulgao das tcnicas de adubar com
marga e cal tambm depem a favor da eficincia agrcola nas grandes
propriedades reais, senhoriais e eclesisticas. O desempenho da agricultura
medieval no sustento de populaes em tempos perigosos no deve ser
subestimado, mas, por volta de 1300, novas tcnicas e uma nova atitude em
relao  terra eram indispensveis para se obter novos progressos.
Ver clima; fome; moinhos; vinho [64,130, 259]
 [B.H. Slicher van Bath, Histria agrria da Europa Ocidental, Lisboa,
Presena, 1987; G. Duby, Economia rural e vida no campo no Ocidente
medieval, 2 vols. Lisboa, Edies 70, 1987-1988; R.-H.Bautier, A economia
na Europa medieval, Lisboa, Verbo, 1973.]

Aidan (c. 600-51) Bispo de Lindisfarne e santo britnico. Inicialmente monge
em Iona, instalou-se depois na ilha de Lindisfarne e tornou-se seu primeiro
bispo em 635. Foi extremamente influente na reconverso ao Cristianismo do
povo de Nortmbria, tarefa empreendida por solicitao do rei Osvaldo (634-
42). Aps a morte de Osvaldo na batalha de Hatfield, Aidan continuou e
intensificou seus esforos sob a gide do novo rei Oswy (642-70), at sua
morte em Bamburgo, a 31 de agosto de 651.
 Bede's Ecclesiastical History of the English People, org. por B. Colgrave e
R.A.B. Mynors (1969)

Ailly, Pierre d' (1350-1420) Bispo de Cambrai. Telogo eminente e mais
tarde chanceler da Universidade de Paris, d'Ailly  lembrado principalmente
pelo papel que desempenhou em sanar o Grande Cisma no papado. No incio,
aceitou a idia de um Conclio ecumnico como o melhor meio de resolver o
cisma; posteriormente, porm, apoiou as pretenses papais de Bento XIII,
antes de voltar, uma vez mais,  posio conciliarista. Foi de Bento XIII que
ele recebeu primeiro o bispado de Le Puy (1395) e depois o de Cambrai
(1397). Como bispo de Cambrai, desempenhou papel de destaque no Conclio
de Pisa (1409) e, sobretudo, como o principal porta-voz francs no grande
Conclio de Constana (1414-18). Em 1411, d'Ailly era feito cardeal pelo Papa
Joo XXIII e serviu depois como legado papal sob Martinho V. Tambm
mereceram destaque suas sugestes a respeito da reforma do calendrio, as
quais foram finalmente postas em vigor por Gregrio XII, e seus escritos, os
quais incluram Imagem do Mundo, uma obra onde sustenta a idia de que o
mundo  redondo e as ndias Orientais poderiam, portanto, ser alcanadas
desde a Europa navegando tanto para oeste como para leste. Ver conciliar,
movimento.
 E.F. Jacob, Essays in Conciliar Thought (1953), [Ymago Mundi, org. por E.
Buron, 3 vols., Paris, Maisonneuve, 1930.]

Aix-la-Chapelle (Aachen) Originalmente um povoado romano. Em 765 foi a
construdo um palcio pelo rei Pepino, o qual foi posteriormente reconstrudo
por Carlos Magno, tornando-se assim a cidade o centro do Imprio carolngio.
Snodos a foram celebrados e desde a coroao de Lus I, o Piedoso, em
813, at a de Fernando I em 1531, os reis alemes continuaram sendo nela
coroados. A cidade tambm ficou clebre como lugar de peregrinao, pois l
estavam expostas as relquias coletadas pelos carolngios; um culto adicional
desenvolveu-se no sculo XII em torno do tmulo de Carlos Magno. Em 1172,
Aix-la-Chapelle foi fortificada com muralhas que seriam ampliadas por
Guilherme da Holanda em 1250. No final da Idade Mdia, a cidade era
estrategicamente importante na manuteno da paz na regio compreendida
entre o Mosa e o Reno. Ver Alcuno

Alain de Lille (1128-c.1203) Um dos mais importantes mestres das escolas
de Paris. Conhecido como doctor universalis, ficou famoso por suas
contribuies para a teologia e a filosofia, incorporando fortes elementos
msticos e neoplatnicos numa filosofia que argumentou serem as verdades
internas da religio suscetveis de descoberta mediante o exerccio da razo
pura e simples. Ele simboliza parte do paradoxo da Renascena do sculo XII,
na medida em que estava ativo na escolstica e, no entanto, era atrado para
os cistercienses. O ncleo central de seus ensinamentos consistiu em sua
definio da natureza como intermediria efetiva entre Deus e a matria, e
enfatizou a analogia, e tambm a distino, entre nascimento natural, o qual
depende das leis da natureza, e o nascimento do esprito resultante do
batismo e da regenerao sacramentai.
 [E. Gilson, La filosofia en la Edad Media, Madri, Gredos, 1965]
alamanos Confederao de tribos germnicas que comearam pressionando
as fronteiras do Imprio Romano no sculo III e no sculo V registraram sua
maior expanso territorial quando penetraram na Alscia e na Sua. Em 496,
os alamanos foram subjugados pelo rei franco Clvis I, que os incorporou aos
seus domnios. Confederao precariamente unida, os alamanos colocavam
suas foras militares sob a chefia conjunta de dois comandantes durante as
campanhas, mas, na maior parte do tempo, encontravam dificuldades para
permanecer unidos e no possuam um ncleo comum de governo
centralizado.

alanos Povo pastoril e nmade que ocupava inicialmente a regio das estepes
a nordeste do Mar Negro. Esto descritos na literatura romana do sculo I
como um povo guerreiro especializado na criao de cavalos. Durante os
sculos seguintes, realizaram freqentes incurses nas provncias
caucasianas do Imprio Romano. Os alanos foram derrotados pelos hunos e
no comeo do sculo V deslocaram-se na direo oeste e penetraram na
Glia. Alguns deles estabeleceram-se perto de Orleans, mas a grande maioria
acompanhou os vndalos na invaso da Pennsula Ibrica e do norte da
frica.
 B.S. Bachrach, The Alans (1969)

Alarico I rei dos Visigodos 395-410 Lembrado pelo saque de Roma em 410,
Alarico foi uma personalidade mais complexa do que o saqueador selvtico e
implacvel da lenda histrica. Serviu como um proeminente comandante dos
godos confederados no tempo do imperador Teodsio, e somente com a
morte deste (395)  que decidiu instaurar seu reino visigodo no Adritico. Na
primeira dcada do sculo V, continuou desempenhando um papel destacado
na poltica imperial, e mesmo depois do saque de Roma tomou a iniciativa de
um acordo com as autoridades imperiais. Foi o choque simblico, tanto quanto
a realidade da tomada de Roma, o que levou os historiadores da poca e os
que se lhes seguiram a considerar o ano de 410 como o fim do Imprio
Romano.
 T. Hodgkin, Italy and her Invaders, vol. I (1916)

Alberti, Leon Battista (1404-72) Arquiteto e humanista da Renascena,
natural de Veneza e educado em Pdua e Bolonha. Durante sua vida, a fama
de Alberti teve origem no seu livro Della Famiglia. Nessa obra, guiada pelo
princpio aristotlico, revivido por Santo Toms de Aquino, de que a arte imita
a natureza, Alberti postulou que cada criana deve ser educada de acordo
com a sua prpria natureza. Como arquiteto, restaurou o palcio papal em
Roma para Nicolau V (1447-55), construiu o palcio Rucellai (1446) e a
fachada de Santa Maria Novella (1456) em Florena, e projetou as igrejas de
So Sebastio (1460) e Santo Andr (1470) em Mntua, e de So Francisco
em Rimini. Tambm escreveu De Pictura (1435), uma exposio terica da
arte italiana, e De Re Aedificatoria (1452), obra que exerceu importante
influncia sobre a arquitetura renascentista. [Para uma informao mais
detalhada, ver o verbete sobre Alberti no Dicionrio do Renascimento
Italiano. Rio, Jorge Zahar Editor, 1988, pp. 19-20. NT]
 F. Borsi, Leon Battista Alberti: The Complete Work (1977)

Alberto I de Habsburgo imperador germnico 1298-1308 (n. 1250)
Primognito de Rodolfo 1. Em 1282 foi investido por seu pai no governo dos
ducados da ustria e da Estria. Rodolfo, porm, foi incapaz de garantir a
sucesso ao trono do Sacro Imprio para seu filho e, aps sua morte em
1291, os prncipes escolheram Adolfo de Nassau para rei.
Em 1298, Alberto derrotou Adolfo na Batalha de Gllheim e pde ento obter
sua prpria eleio para a Coroa germnica. Durante seu reinado, Alberto
desempenhou um papel ativo na poltica europia. Manteve sua posio
explorando habilmente a rivalidade entre Filipe IV da Frana e o papa
Bonifcio VIII, renovou as pretenses alems  Turngia, interferiu com xito
numa disputa pelo trono hngaro e pde garantir a coroa da Bomia para seu
filho Rodolfo. Sua derrota durante o ataque desencadeado contra a Turngia
em 1307, e a morte de seu filho no mesmo ano, enfraqueceram seriamente a
posio de Alberto na Europa Oriental. Seu governo tambm foi ameaado
pela revolta dos arcebispos renanos e do conde palatino do Reno, que se
indignaram muito com a abolio por Alberto de todos os tributos introduzidos
no Reno desde 1250. Embora essa revolta fosse sufocada com a ajuda das
cidades, a agitao prosseguiu com maior intensidade na Subia, e quando
partiu para resolver mais esse problema, Alberto foi assassinado por seu
sobrinho Joo em 1 de maio de 1308.
 F.R.H. du Boulay, Germany in the Late Middle Ages (1983)

Alberto V (II) de Habsburgo imperador germnico 1438-39 (n. 1397) Titular
do ducado da ustria em 1404, Alberto governou ativamente o pas apenas a
partir de 1411. Auxiliou Sigismundo, rei dos romanos e da Bomia e Hungria,
contra os hussitas e, em retribuio foi-lhe concedida a mo de Isabel, filha e
herdeira de Sigismundo, celebrando-se o casamento em 1422. Aps a morte
de Sigismundo em 1437, Alberto sucedeu-lhe no trono da Hungria, mas,
embora fosse tambm coroado rei da Bomia em 1438, no conseguiu obter
o domnio dessa regio. Esse mesmo ano presenciou ainda a sua eleio
como rei dos romanos (com o ttulo de Alberto II) pelos prncipes alemes
reunidos em Frankfurt, uma honra que ele parece no ter ativamente
procurado. Seu reinado, porm, foi efmero; em 1439 morreu em campanha
no Langendorf, enquanto defendia os hngaros contra as investidas turcas.

Alberto de Colnia (Alberto Magno), Santo (c. 1190-1280) Filsofo
medieval. Natural da Subia, estudou em Pdua antes de ingressar na Ordem
Dominicana. Em 1245 foi para Paris, onde lecionou com grande xito durante
muitos anos. Foi a que se encontrou pela primeira vez com Toms de Aquino,
sobre quem exerceria considervel influncia. Em 1254 foi nomeado Superior
da Ordem Dominicana na Alemanha, antes de ser eleito para o bispado de
Regensburg em 1260; foi durante esse perodo que ele condenou as obras do
filsofo rabe Averris. Em 1262 retirou-se para Colnia, onde permaneceu
at sua morte, se excetuarmos um breve perodo em 1270, quando foi 
ustria a fim de pregar a favor da Oitava Cruzada. Conhecido como doctor
universalis, deu contribuies permanentes para a filosofia, a teologia e a
histria da cincia. Sua obra foi um dos principais instrumentos para a
transmisso na Europa ocidental do saber aristotlico sobre o mundo natural.
 S.M Albert, Albert the Great (1948)

albigenses Seita hertica baseada em crenas ctaras. Teve seu incio por
volta de 1144, perto da cidade de Albi, no sul da Frana, devendo seu xito ao
apoio da nobreza e  vida asctica levada pelos perfecti, a qual estava em
contraste flagrante com o mundanismo do clero local. A seita era
suficientemente poderosa para realizar em 1167 o seu prprio snodo em
Saint-Flix-de-Caraman, nos arredores de Toulouse.
      No comeo, a Igreja tentou combater a propagao da refinada heresia
ctara pela persuaso. Foram inteis os esforos de So Bernardo, em 1147,
para reconvert-los, e Inocncio III enviou pregadores ao Languedoc em 1198
e 1203 mas sem obter o menor xito.
      Em 1208, o legado papal Pierre de Castelnau foi assassinado, o que
levou Inocncio III a desencadear a Cruzada contra os albigenses. A
estratgia papal consistiu em transferir a propriedade da terra das mos de
simpatizantes ctaros para senhores ortodoxos, que ajudariam na represso
da heresia. Embora o conde Raimundo de Toulouse, o principal patrocinador
ctaro, se retratasse rapidamente, os cruzados famintos de terras,
comandados por Simon de Montfort, o Velho, no se detiveram e deram incio
a massacres e incndios em massa, devastando Bziers e Carcassonne. Tais
aes puseram fim s esperanas papais de que os ctaros abjurassem o
credo maniquesta e aceitassem de novo o catolicismo.
      A vitria decisiva dos cruzados em Muret (1213) eliminou o apoio da
nobreza aos ctaros, e em 1226 a regio j se encontrava sob o efetivo
controle da Coroa francesa, embora s depois do horrendo massacre em
Montsgur (1244) a seita fosse substancialmente eliminada e forada 
clandestinidade. Indcios de ressurgimento espordico da heresia foram
assinalados durante todo o perodo final da Idade Mdia, apesar dos
instrumentos repressivos da Inquisio. Ver ctaros; heresia
      P. Belperron, La Croisade contre les Albigeois (1945); B. Hamilton,
The Albigensian Crusade (1974); J. Sumption, The Albigensian Crusade
(1978)

Albono rei dos lombardos 565-c.72 Tendo sucedido ao trono lombardo
durante a ocupao do territrio a oeste do Danbio conhecido como Pannia,
Albono derrotou os gpidas em sua fronteira oriental, matou o rei Cunimundo
e raptou e casou com Rosamunda, filha de Cunimundo. Em 568, invadiu a
Itlia a convite do general bizantino Narss, que entrara em conflito com o
imperador Justino II. Partindo da Lombardia, conquistou o Piemonte e a
Toscana, assim como grande parte do Benevento e de Spoleto. Seu avano,
porm, foi sustado em Pavia, que resistiu durante trs anos ao assdio das
foras de Albono. Por volta de 572, Albono foi assassinado, segundo parece
por instigao da esposa, a quem ele tinha insultado forando-a a beber em
uma taa feita com o crnio de seu pai.
 T. Hodgkin, Italy and her Invaders, vol. 5 (1916); L. Schmidt, Die
Ostgermanen (1969)

Albornoz, Gil (1310-67) Natural de Cuenca, na Espanha, educado em
Saragoa e Toulouse, tornou-se arcediago de Calatrava e conselheiro de
Afonso XI (1312-50), rei de Castela. Em 1337 foi nomeado arcebispo de
Toledo e em 1350 ascendeu ao cardinalato. Ativo contra os muulmanos,
participou na batalha de Tarifa (1340) e na tomada de Algeciras (1344).
Depois da morte de Afonso XI e sua sucesso por Pedro, o Cruel, Albornoz
deixou a Espanha. Foi nomeado cardeal-legado na Itlia e muito contribuiu
para restaurar a a autoridade papal. Em 1362, tinha preparado o caminho
para o regresso de Urbano V a Roma e faleceu enquanto o escoltava desde
Avignon para ali. Tambm  conhecido por seu trabalho sobre a constituio
da Igreja de Roma e pela fundao do Colgio de S. Clemente para
estudantes espanhis em Bolonha.
 E. Emerton, Humanism and Tyranny (1925)
Alcntara, Ordem de Um documento que  quase certamente falso situa a
fundao da ordem em 1156, anterior, portanto,  de Calatrava, mas a mais
antiga prova idnea aponta para 1176 como a verdadeira data de fundao.
Originalmente conhecida como Ordem de San Julian de Pereiro, obedecia 
Regra Cisterciense e era, em certa medida, dependente de Calatrava,
embora estabelecesse gradualmente sua autonomia. Em 1494, os Reis
Catlicos anexaram o Mestrado de Alcntara  Coroa, no muito depois de
terem feito o mesmo com o de Calatrava (1482) e por idnticas razes.
 J.F. O'Callaghan, `The Foundation of the Order of Alcantara, 1176-1218",
The Catholic Historical Review, 47 (1962)

Alcoro O livro sagrado muulmano. Compe-se de suras ou captulos,
contendo cada uma das mensagens que os muulmanos crem ser revelaes
de Al (Deus) transmitidas aos homens atravs do profeta Maom. Zayd ibn
Thabit, por ordem do primeiro califa, Abu Bakr, iniciou a tarefa de estabelecer
um texto definitivo do Alcoro aps a morte de Maom (632), e completou
essa obra em 651. Ver Isl
 W. Montgomery Watt, Bell's Introduction to the Qur'an (1970) [Alcoro
Sagrado, trad. S.El Hayek, S. Paulo, Tangar, 1975; R. Blachre, O Alcoro,
S. Paulo, Difel, 1969]

Alcuno (735-804) Natural de Nortmbria, Alcuno tornou-se o bibliotecrio da
catedral de York, antes de viajar para a corte de Carlos Magno na Francnia
em 782. Desempenhou a um papel proeminente na Renascena Carolngia e
fundou a escola do palcio em Aix-la-Chapelle, onde eram ensinadas as sete
artes liberais de acordo com o sistema educacional de Cassiodoro. Seus
prprios escritos incluram obras sobre retrica, lgica e dialtica, uma
reviso do sacramentrio gregoriano, uma edio do lecionrio e
colaboraes para os Libri Carolini, um tratado escrito por ordem de Carlos
Magno contra os Icondulos, que tinham voltado a ocupar uma posio
importante em Bizncio em 787. Suas mais importantes contribuies eruditas
so a sua reviso da Vulgata e suas volumosas cartas, as quais foram
coligidas no sculo IX para servir como modelo de composio latina.
Tambm teve parte ativa na condenao do arcebispo Elipando de Toledo e
da heresia adocionista. Fundou uma importante biblioteca e escola na abadia
de So Martinho de Tours, onde foi abade nos ltimos anos de sua vida (790-
804).
 E.S. Duckett, Alcuin, a Friend of Charlemagne (1956); L. Wallach, Alcuin
and Charlemagne (1959); S. Allott, Alcuin of York. c. 732-804 (1974)

Aldhelm, Santo (639-709) Parente do rei Ine de Wessex, foi educado em
Malmesbury e, mais tarde, estudou em Canterbury sob a orientao de Santo
Adriano. Tornou-se diretor da escola de Malmesbury e em 675 era nomeado
seu abade. Aps a diviso do Wessex em duas dioceses, Aldhelm foi
nomeado para o bispado mais ocidental, que tinha sua s em Sherborne.
Grande construtor, edificou a catedral de Sherborne e igrejas em Frome,
Bradford-on-Avon, Corfe, Langton, Maltravers e Wareham. Suas obras mais
influentes foram uma carta para o rei britnico Geraint sobre a fixao da data
da Pscoa, e um tratado sobre a virgindade dedicado s monjas de Barking, o
qual continuou sendo copiado durante todo o perodo anglo-saxnico. Seu
estilo latino era elaborado, devendo algo s influncias clticas, mas tambm
se harmonizava consideravelmente com o latim continental do seu tempo e
com o ensino da Escola de Canterbury; faltava-lhe a incomum simplicidade e
franqueza de seu contemporneo Beda. Sabe-se que seus versos religiosos
em anglo-saxo (os quais no sobreviveram) contriburam muito para a
propagao do Cristianismo em todo o Wessex. Seu corpo foi sepultado em
Malmesbury.
 M. Winterbottom, "Aldhelm's Prose-Style and its Origin", Anglo-Saxon
England, 6 (1977); Aldhelm, the Prose Works, trad. de M. Lapidge e M.
Herren (1979)

Aleixo I Comneno imperador do Oriente 1081-1118 (n. 1048) Terceiro filho
de Joo Comneno e sobrinho de Isaac I (imperador 1057-59), Aleixo
arrebatou o trono a Nicforo III Botaneiates em 1081. Restaurou o debilitado
poderio militar de Bizncio rechaando os normandos para a Grcia ocidental
em 1081 e derrotando os pechenegues dez anos depois. Tambm logrou
sustar novas incurses dos seljcidas na Anatlia. Suas faanhas foram
prejudicadas por sua relutncia em limitar o poder dos magnatas em Bizncio
e pela Primeira Cruzada, a qual perturbou o acordo de Aleixo com os
muulmanos e levou  perda de muitos antigos territrios gregos, que
passaram a mos ocidentais.
 The Alexiad of Anna Comnena, trad. de E.R.A. Sewter (1969)

Alemanha A histria da Alemanha na Idade Mdia est intimamente ligada 
histria da Itlia e  idia de "imprio" (Sacro Imprio Romano). Somente no
sculo IX, com a desintegrao do Imprio Carolngio,  que adquiriu forma a
idia de Alemanha como unidade poltica distinta. Pelo Tratado de Verdun
(843), Lus, o Germnico, neto de Carlos Magno, recebeu as terras francas
orientais, essencialmente os territrios dos saxes, subios, bvaros e
francos a leste do Reno. As fronteiras estavam longe de ser estveis e 
imprudente falar-se de um reino da Alemanha na plena acepo da palavra,
antes que a dinastia Otoniana tenha imposto sua vontade aos diversos
ducados no sculo X, baseando sua fora nas antigas regies
geograficamente centrais e de importncia poltica e estratgica crucial da
Lorena Carolngia, em combinao com os ducados da Francnia e da
Saxnia.
      A criao de um reino alemo, o I Reich, coincidiu com um
ressurgimento de ambies imperiais, e Oto, o Grande, foi coroado imperador
em Roma, em 962. A autoridade real na Alemanha provinha de quatro fontes
principais: poderio militar, rigoroso controle da Igreja, insistncia no direito de
nomeao de cargos ducais, e os atributos mais amplos que decorriam do
envolvimento na Itlia e do ttulo imperial, um eco consciente do passado
carolngio. Oto I pretendia ser o verdadeiro herdeiro de Carlos Magno,
embora o alcance de seu governo efetivo estivesse limitado  Alemanha e ao
Reino Central (Lorena, Borgonha e Lombardia). A estabilizao da fronteira
oriental depois da grande vitria sobre os hngaros na batalha s margens do
rio Lech (955) e o estabelecimento de uma impressionante faixa de territrios
fronteirios forneceram um trampolim para a expanso posterior e criaram
condies para que florescesse a vida institucional.
      Mesmo assim, algumas fraquezas fundamentais subsistiram na
constituio alem; a monarquia chegara relativamente tarde  cena e a
independncia da nobreza ganhara razes profundas. As crises em torno da
Questo das Investiduras, no reinado de Henrique IV (1056-1106), deram
ensejo ao surgimento de foras desintegradoras. Foram eleitos anti-reis,
mormente Rodolfo da Subia, em Forchheim (maro de 1077), e a nobreza
alem habituou-se a agir coletivamente contra o monarca, acabando por
forar Henrique V a entrar em acordo com a Igreja (1122). As guerras civis
enfraqueceram a monarquia num momento crtico de expanso e colonizao,
quando muita riqueza nova estava sendo gerada -- sobretudo em benefcio da
nobreza. Princpios eletivos eram lugar-comum no mundo medieval e no
necessariamente prejudiciais  monarquia, mas, no comeo do sculo XII,
eram afirmados em condies que encorajaram a instabilidade dinstica.
      Os xitos da famlia Hohenstaufen, com sua fora baseada na Subia
(1138-1254) e, em especial, a eleio de Frederico Barba-Ruiva, em 1152,
geraram uma revitalizao, embora as tentativas de reafirmao da
autoridade real fossem dificultadas pela independncia recm-estabelecida
dos pequenos principados. O uso inteligente de vnculos feudais foi a chave
para a poltica de Frederico. Deu a seu primo, o guelfo Henrique, o Leo,
mos livres no interior da Alemanha, como duque da Saxnia e da Baviera,
durante mais de 20 anos, e foi sob seu patrocnio que um impulso foi dado ao
processo de colonizao alem a leste, ao longo do Bltico. Quando Henrique
provou, finalmente, ser desleal, contribuindo para a derrota de Barba-Ruiva
em Legnano (1176) ao no lhe enviar os reforos pedidos, foi mediante
processo feudal que o rei o levou  justia e declarou confiscadas a maior
parte de suas terras e riquezas.
     O acordo celebrado aps a queda de Henrique em Gelnhausen (1179-
80) representa uma tentativa de legalizao de uma monarquia feudal, que no
entanto viria a fracassar. Aos Hohenstaufen faltava a forte base territorial que
era essencial ao xito de tal projeto, e a disputada sucesso (1197-1212)
debilitou o principado Hohenstaufen, penosamente construdo como um ncleo
de poder real. Mesmo assim, apesar de toda a sua preocupao com a Itlia
e, em especial, a Siclia, Frederico II (1212-50) estava muito longe de ser
insignificante na Alemanha. Seus privilgios a favor da Igreja e dos prncipes
no eram, em si mesmos, sintomas de fraqueza; mas, no final de seu reinado,
era dolorosamente bvio que das duas poderosas foras constitucionais
envolvidas no acordo de 1180 -- o rei e os grandes prncipes -- o futuro
estava com os prncipes. A rejeio dos Hohenstaufen e o longo Interregno
(1254-73) agravaram o processo. Em 1273 era eleito Rodolfo de Habsburgo e
no restante da Idade Mdia o poder poltico, a nvel real, permaneceu com
duas dinastias que retiraram sua autoridade de terras predominantemente
no-alems: os Habsburgos, com sua lenta consolidao sobre o Danbio
Mdio desde sua base austraca, e a casa de Luxemburgo, que construiu uma
impressionante base de poder na Bomia.
      Sob o mais forte dos reis da segunda casa acima mencionada, Carlos IV
(1346-78), uma constituio salvaguardando os processos de eleio para a
monarquia foi consubstanciada no Edito de Ouro (1356). Sete eleitores,
recrutados entre os grandes prncipes, assumiriam a responsabilidade pela
eleio dos reis-imperadores. Os prprios prncipes alemes tornaram-se
cada vez mais independentes, muitos deles virtuais soberanos em seus
prprios territrios. Um crescente elemento urbano e mercantil encontrou um
substitutivo para a autoridade e a proteo reais na criao de ligas de
cidades, como a Liga Hansetica e as ligas das cidades do sul da Alemanha.
A realeza ainda servia como ocasional referncia para as lealdades alems,
mas o centro do interesse constitucional transferiu-se nos sculos XIV e XV
para os principados e para as cidades. Na fronteira oriental, as faanhas dos
Cavaleiros Teutnicos e as presses constantes da colonizao e da iniciativa
mercantil antecipavam a fora poltica e o poderio militar de regies como o
Brandenburgo e a Prssia. Ver baviera; Hohenzollern, dinastia; gibelinos;
Rupert de Wittelsbach                      HRL

 J. Fleckenstein, Early Medieval Germany (1978); K. Leyser, Medieval
Germany and its Neighbours (1982); F.R.H. du Boulay, Germany in the Later
Middle Ages (1983); H. Fuhrmann, Germany in the High Middle Ages (1986)

Alexandre III papa 1159-81 (n. Orlando Bandinelli em Siena, 1105) Professor
de direito em Bolonha e depois cardeal, antes de ser eleito papa em 1159.
Como jurista especializado em direito Cannico, resolveu numerosos litgios
sobre disciplina e prtica eclesisticas, os quais culminaram na realizao do
Terceiro Conclio de Latro (1179). Durante boa parte do seu pontificado,
Alexandre teve a oposio do imperador germnico Frederico Barba-Ruiva,
que se recusava a sancionar sua eleio como papa e apoiava a candidatura
rival do cardeal Otaviano como papa Vtor IV. Alexandre viu-se forado a fugir
para a Frana por duas vezes, em 1162 e 1166; mas, depois da derrota do
imperador pela Liga Lombarda em 1176 na batalha de Legnano, ele pde
forar Frederico a aceitar a paz em Veneza, em 1177. Alexandre tambm deu
algum apoio a Toms Becket e cooperou na tentativa de reconciliao entre
Becket e o rei ingls Henrique II.
 M. Pacaut, Alexandre III (1956); Boso's Life of Alexander III, org. por P.
Murray (1973)

Alexandre IV papa 1254-61 (n. Rinaldo di Segni em Anagni, 1199) Nomeado
cardeal-dicono por seu tio Gregrio IX em 1227, e cardeal-bispo de stia
em 1231, antes de se tornar papa em 1254. Deu prosseguimento  guerra
papal contra os Hohenstaufen da Siclia, excomungando Manfredo, o filho
bastardo de Frederico II, e concedendo a Siclia como feudo papal a
Edmundo, o filho mais novo de Henrique III da Inglaterra. Na Europa, imps a
obedincia religiosa, aumentando os poderes da Inquisio na Frana, e
tambm contribuiu muito para incrementar a eficincia da administrao papal.
No leste, tentou realizar uma unio com Bizncio e organizar uma cruzada
contra os trtaros. Morreu em Viterbo.
 S. Sibilia, Alessandro IV (1961); W. Ullmann, The Papacy and Political
Ideas in the Middle Ages (1976)

Alexandre VI papa 1492-1503 (n. Rodrigo de Brgia, c. 1431, em Jativa,
Espanha) Estudou direito em Bolonha antes de ser eleito cardeal em 1456 e
papa em 1492. Mais um prncipe da Renascena do que um Santo Padre,
subordinou os interesses da Igreja s suas ambies polticas e  ampliao
da fortuna de sua famlia. Embora encorajando, em princpio, a guerra contra
os turcos otomanos, Alexandre no relutou em celebrar um tratado com eles
em 1494 contra Carlos VIII da Frana, que estava pretendendo o reino de
Npoles e Siclia. Durante o seu pontificado, Alexandre reorganizou as
finanas papais, restaurou o castelo de Santo ngelo e persuadiu
Michelangelo a traar planos para a reconstruo de So Pedro em Roma,
embora nunca fossem, de fato, executados.
 The Borgia Pope, Alexander the Sixth, trad. de RJ. Sheed (1942)

Alexandre Nevsky, Santo (c. 1220-63) Em 1236, Alexandre foi feito prncipe
de Novgorod por seu pai, o Gro-Duque Yaroslav II. Como o sul e o leste da
Rssia estavam ficando cada vez mais firmemente submetidos ao domnio
mongol, o principado setentrional de Alexandre cresceu em importncia.
Frustrou as ambies suecas de forma decisiva ao derrot-los na batalha do
rio Neva (julho de 1240) e em 1242 esmagou os Cavaleiros Teutnicos numa
grande batalha travada sobre a superfcie gelada do lago Paipus [hoje Pskov].
Aceitou o senhorio mongol na Rssia, fazendo inclusive uma visita pessoal ao
Gro-C. Em conseqncia de sua cooperao, em 1252 os mongis
reconheceram Alexandre como prncipe supremo da Rssia, nomeando-o
gro-duque de Vladimir e Kiev, no lugar de seu deposto irmo Andr. Suas
vitrias, sobretudo a batalha sobre o gelo, tornaram-se lendrias e
asseguraram-lhe a posio de heri nacional na Rssia medieval; o papel que
desempenhou na resistncia contra o avano do catolicismo levou a Igreja
Ortodoxa a reconhec-lo como santo.
 G. Vernadsky, The Mongols and Russia (1953)
Alexandria Capital provincial do Egito nos tempos romanos, declinou em
importncia aps a queda do imprio. Em 616 foi conquistada pelos persas e
em 642 pelos rabes, que estabeleceram uma nova capital em Fustat (Cairo).
Alexandria viu-se da em diante reduzida ao papel de uma base comercial e
naval. Entretanto, a cidade voltou a crescer em importncia durante as
Cruzadas do sculo XII e nas campanhas contra os mamelucos no sculo XIII.
Tornou-se tambm um importante centro para o comrcio de especiarias
entre o Ocidente e o Oriente, at a descoberta do caminho martimo para a
ndia em 1498.

alfndegas A partir de meados do sculo XII, direitos aduaneiros eram pagos
pelo vinho importado e um sistema de alfndegas nacionais nos portos foi
gradualmente estabelecido depois que o rei Joo Sem Terra promulgou em
Winchester, em 1204, uma lei aduaneira pela qual ficou criado um imposto de
um quinto sobre todas as importaes por via martima, exceto para o trfico
costeiro. Isso no foi permanentemente bem-sucedido, mas em fins do sculo
XIII direitos aduaneiros, sobretudo sobre vinhos e ls, constituam um
elemento de suma importncia nas finanas reais, e assim foi durante toda a
Idade Mdia.
 N.S.B. Gras, The Early English Customs System (1918); E.B. Fryde,
Studies in Medieval Trade and Finance (1983)

Alfredo, o Grande rei de Wessex 871-99 (n. 849) Filho caula do rei Etelwulf
de Wessex.  possvel que seu pai o destinasse  carreira eclesistica,
porquanto Alfredo visitou Roma em 853 e foi ritualmente recebido pelo papa.
Com a morte de Etelwulf (858), seus quatro filhos sucederam-lhe, cada um
por sua vez. Somente durante o reinado de Etelred (866-71) Alfredo comeou
a desempenhar um papel proeminente; embora Etelred tivesse filhos jovens,
Alfredo tinha provavelmente sido designado herdeiro do trono.
      Em 866, os Vikings atacaram a Inglaterra, dominando primeiro a
Nortmbria e depois East Anglia. Em 868, Alfredo contraiu matrimnio com
uma parente do rei de Mrcia, como parte de uma aliana defensiva entre
mercianos e saxes ocidentais. Essa aliana vigorou at 877 mas a partir de
874 Mrcia tambm estava sob domnio viking, e os ataques vikings contra
Wessex tornaram-se cada vez mais srios de 871 -- ano em que Alfredo
subiu ao trono -- em diante. Sua vitria em Edington (878) aliviou a presso e,
na dcada de 880, o estabelecimento viking em East Anglia e a partida de
uma numerosa fora viking para a Francnia setentrional permitiram a Alfredo
empreender uma ambiciosa estratgia defensiva que requeria uma
mobilizao sem precedentes de homens e de recursos, tendo por base burhs
fortificados e com guarnies militares permanentes. Ele anexou parte de
Mrcia, incluindo Londres, colocando o chefe merciano Etelred sob sua
autoridade e ligado a ele pelo casamento com sua filha Etelfled. Os prncipes
galeses do sul tambm reconheceram a suserania de Alfredo. Renovados
ataques vikings (892-96) foram repelidos com xito e Alfredo morreu em 20
de outubro de 899, deixando o Wessex mais unificado e com uma monarquia
mais forte.
      A unio de Wessex e Mrcia provou ser permanente. Alfredo tinha
procurado contatos mais estreitos com a Europa continental, especialmente
com a Francnia, cuja realeza e cultura o inspiraram. Desenvolvendo as
tradies vernculas nativas, Alfredo patrocinou a traduo para o ingls
arcaico de obras como Pastoral Care, de Gregrio Magno, e a realizao em
vernculo da Crnica Anglo-Saxnica, na qual a recepo papal de 853 a
Alfredo foi apresentada como uma sagrao regia. Ao fazer circular esses
textos e ao promover a alfabetizao da aristocracia no vernculo, Alfredo
difundiu deliberadamente a ideologia monrquica ao lado da cultura crist.
Embora sua reputao posterior seja parcialmente mtica, as realizaes
mpares de Alfredo justificam seu cognome de "o Grande". Ver
Asser                               JLN
 P. Wormald em The Anglo-Saxons, org. por J. Campbell (1982); Alfred the
Great: Asser's Life of King Alfred and other contemporary sources, trad. S.
Keynes e M. Lapidge (1983)
Alhambra Castelo construdo nas colinas da cidade andaluza de Granada
entre meados do sculo IX e 1162. Em 1248, o novo governante nsrida de
Granada, Maom I, que expulsara os almadas, iniciou a construo de um
palcio no mesmo local. Cada um de seus sucessores acrescentou novas
torres, pavilhes, ptios e portes monumentais, at que, ao tempo de
Maom V (1362-91), o Alhambra ficou virtualmente completo. Dotado de
amplos ptios e de jardins supridos de gua em abundncia, e prodigamente
decorado numa caracterstica mistura de estilos islmicos e ocidentais,
tornou-se com inteira justia o mais famoso edifcio da Espanha muulmana e
talvez o mais famoso de toda a pennsula. Os reis de Espanha adicionaram
construes aps a reconquista de Granada e alguns danos foram causados
ao longo dos sculos mas, depois das restauraes, o complexo sobrevivente
, em sua maior parte, o Alhambra do final do sculo XIV.

Ali (600-61) Primo e genro de Maom. Foi recebido muito jovem na casa de
Maom, casou com sua filha Ftima e participou da Hgira, a migrao de
Meca para Medina em 622. Aps a morte de Maom em 632, as pretenses
de Ali ao califado foram contrariadas, primeiro a favor de Abu Bakr e, depois,
de Ornar e Otm. Com o assassinato de Otm em 656, Ali foi aclamado califa
mas, acusado de participar no assassinato do seu predecessor, alguns de
seus adeptos uniram-se ao vingador de Otm, o governador da Sria, Moawia,
e o prprio Ali foi assassinado em 661. O conflito em torno do califado dividiu
permanentemente o Isl em dois campos: de um lado, a tradicionalista maioria
sunita que se ops a Ali e, do outro, os xiitas, que sustentaram ter sido Ali e
seus sucessores nomeados por determinao divina.

almadas (do rabe al-muwahhidn: crentes na unidade de Deus) Movimento
religioso muulmano fundado (c. 1120) nas montanhas do Atlas como reao
contra o estril legalismo dos almorvidas, cujo puritanismo original fora, por
esse tempo, corrompido. Os almadas pregavam um regresso  estrita
moralidade e ao texto das escrituras. Invadiram a Espanha em 1146 e em
1172 tinham conquistado todas as reas muulmanas, exceto as Baleares. O
Estado almada centralizado, governado desde Marrakesh pelo emir, era
ainda menos tolerante a outras religies do que os almorvidas tinham sido
(em acentuado contraste com a poltica tolerante do califado de Crdova e
dos reinos taifa que lhe sucederam); a emigrao de morabes cristos e de
judeus para o norte enfraqueceu a Espanha muulmana cultural e
economicamente. Os almadas venceram uma importante batalha em Alarcos
(1195) e pareciam estar prestes a invadir os reinos cristos, mas seu poder
foi quebrado em 1212 na decisiva batalha de Navas de Tolosa, e em poucas
dcadas seus sucessores estavam confinados ao reino de Granada, um
anacronismo dentro de uma vigorosa, embora ainda dividida, Espanha crist.
 [P. Guichard, Al-Andalus. Estructura antropolgica de una sociedad
islmica en Occidente, Barcelona, Barral, 1976; G.-H. Bousquet, Les
berbres, Paris, PUF, 1967]

almorvidas (do rabe al-murbit: devotos residentes numa comunidade
religiosa fronteiria) Tribo muulmana fundamentalista originria do Saara
meridional que conquistou o norte da frica e passou para a Espanha em
1086, a pedido dos reis muulmanos, que desejavam proteo contra as
extorses de Afonso VI de Leo e Castela. O governante almorvida Yusef
ibn Tashufin derrotou as foras de Afonso em Sagrajas (1086) e outras
batalhas, e voltou seu poder contra os reinos taifa hispano-muulmanos, que
ele considerava decadentes; o reino abssida de Sevilha foi derrubado em
1091. O xito militar dos almorvidas devia-se, em parte, ao seu fanatismo
puritano e, em parte, s suas inovaes tticas, incluindo o emprego de trs
fileiras de arqueiros e tambores que aterrorizavam os inimigos. Gradualmente,
porm, os almorvidas abrandaram em contato com a civilizao da Espanha
muulmana e, na dcada de 1140, o imprio desmoronou sob o duplo golpe
de revoltas na Espanha e de ataques no norte da frica pelo novo poder
emergente dos almadas. As ilhas Baleares permaneceram em mos
almorvidas at 1203, quando caram em poder dos almadas. [Ver
bibliografia de almadas]
Alp Arslan sulto seljcida 1063-72 (n. 1029) Sucedendo a seu pai como
governante de Curaso em 1059 e a seu tio Tugril Beg como sulto em 1063,
conquistou a Armnia e a Sebastia antes de invadir o Imprio Bizantino em
1064. Embora fosse derrotado em 1070, obteve uma retumbante vitria sobre
o imperador bizantino Romano IV em Manzikert, em 19 de agosto de 1071,
um golpe do qual o Imprio Bizantino nunca se recuperou por completo. Alp
Arslan foi assassinado quando tentava conquistar o Turquesto.

alquimia A alquimia praticada na Europa no perodo final da Idade Mdia era,
simultaneamente, uma cincia, com suas precisas leis prprias, e uma arte
secreta e mstica, gravitando em torno da transmutao de metais sem valor
em prata e ouro, libertando-os de suas impurezas. Tinha possudo sempre um
lado cientfico e um lado mstico desde que surgiu e se desenvolveu
inicialmente em Alexandria, nos primeiros quatro sculos da nossa era. Os
primeiros astrlogos aduziram de Aristteles a teoria segundo a qual a base
de todas as substncias era prima materia. Os quatro elementos (fogo, ar,
terra e gua) derivam todos dela e, em diferentes combinaes, formaram
toda a matria; por conseguinte, metais preciosos poderiam ser criados a
partir de outras substncias. Dos astrlogos mesopotmicos veio a idia de
que o tempo mais propcio para tentar uma transmutao podia ser previsto
por meios astrolgicos. Considerava-se que cada metal estava ligado a um
planeta, e smbolos e cdigos msticos foram criados para outras substncias
e para vrios processos qumicos.
      A alquimia continuou florescendo no Imprio Bizantino e, nos sculos VIII
e IX, foi descoberta e adotada pelos invasores muulmanos. Alquimistas
rabes desse perodo, em especial Jabir ibn Hayyan (Geber) e seus
seguidores, basearam-se em idias helensticas anteriores e produziram
numerosos e influentes tratados. Extraram dos chineses o conceito de
"medicina", um agente que podia transformar outros metais em ouro e que, se
comido, podia conferir a imortalidade. Isso ficou conhecido como a "pedra
filosofal" e passou a ser a meta primordial dos alquimistas subseqentes, no
caminho da realizao de seu propsito fundamental. Outros alquimistas
rabes modificaram a teoria aristotlica dos elementos ao sugerir que todos
os metais eram formados pela combinao de duas substncias: enxofre, que
representava as propriedades do fogo, e mercrio, que representava as
qualidades da gua. A mistura correta dos dois produziria ouro ou prata. As
idias msticas consubstanciadas no Corpus Hermeticum, uma compilao
efetuada entre os sculos I e III da nossa era e contendo as revelaes
ocultistas do deus egpcio Thoth ou Hermes Trismegistos, tambm foram
adotadas. Um enfoque experimental mais prtico foi preferido pelo notvel
mdico Avicena, entre outros.
      A alquimia era pouco conhecida no incio do perodo medieval no
Ocidente. Tratados isolados abordando o assunto foram, contudo, produzidos,
sendo seus exemplos Compositiones ad Tingenda, do sculo X, que fornece
conselhos prticos sobre o uso de metais em trabalhos de arte, e o mais
mstico, Mappe Clavicula. Depois que os cruzados chegaram  Terra Santa, e
a Itlia meridional e a Siclia caram em poder dos normandos, as
caractersticas idias alqumicas dos rabes comearam a aparecer em
escritos ocidentais. Provavelmente a primeira traduo de um texto rabe
sobre alquimia foi a de Roberto de Chester, no Book of Morienus (1144),
sendo dada como justificao o fato de que o Ocidente ignorava "o que  a
alquimia e qual a sua composio". No sculo XIII, eruditos como Arnaldo de
Villanova, Alberto Magno e Roger Bacon realizaram gigantescas compilaes
enciclopdicas, nas quais a explicao alqumica da natureza da matria
desempenhou um importante papel. Nos ltimos anos do sculo, a circulao
de outros importantes tratados focalizando a alquimia (o Turba Philosophorum
e as obras do alquimista espanhol Jabir, nome suposto inspirado no do mestre
rabe Geber) resultou num surto de experimentao e de produo de novos
escritos alqumicos no sculo XIV. O lado mais simblico e oculto da alquimia
tambm foi estimulado no decorrer desse processo e floresceu de novo,
apesar das tentativas papais no sentido de colocar fora de lei as prticas
alqumicas como um ramo da feitiaria. Uma indicao do crescente carter
secreto do saber e das tradies dos alquimistas  o fato de que, no sculo
XV, quando muitas obras de cincia estavam sendo impressas, tratados
alqumicos continuaram circulando em manuscrito. As crticas dos humanistas
da Renascena e de contestadores como Pico della Mirandola no lograram
suprimir os alquimistas, e algumas de suas idias continuaram aceitas por
muitos sculos.
     Apesar do sigilo e dos relativamente poucos praticantes da arte, a
literatura medieval est repleta de histrias sobre os xitos e fracassos dos
alquimistas. Os aspirantes devem ter recebido inspirao da histria de
Nicolau Flamel (1330-1418), um escrivo parisiense cuja fortuna se dizia ter
por origem a descoberta, em 1382, de um modo de produzir prata e ouro a
partir do mercrio. Sua fortuna foi gasta em obras de devoo e caridade, e
sua histria tornou-se amplamente conhecida. Em contraste, Chaucer, em The
Canon's Yeoman's Tale, demonstra o medo e a suspeio com que os
alquimistas eram encarados, e descreve a penria e o desespero a que a
obsesso com a alquimia podia levar. Vasari oferece-nos uma histria ainda
mais triste, no comeo do sculo XVI. O artista italiano Parmigianino, cujos
experimentos alqumicos o levaram  loucura, encarceramento e, por fim, 
morte prematura.                                                EMH

        L. Thorndike, A History of Magic and Experimental Science (1923-58);
G. Sarton, Introduction to the History of Science (1927-47) [A. M. A. Goldfarb,
Da alquimia  qumica, S. Paulo, Nova Stella-EDUSP, 1987]

Ambrsio, Santo (339-97) Filho do prefeito pretoriano da Glia, Ambrsio foi
nomeado governador da Emlia e Ligria em Milo, em 370. Aps a morte de
Auxncio, o bispo ariano de Milo em 374, Ambrsio foi eleito seu sucessor,
apesar de nunca ter sido batizado cristo; em uma semana tinha sido instrudo
na f crist, batizado e sagrado bispo. Ambrsio passou ento a estudar as
Escrituras e as obras de pensadores cristos como Orgenes e So Baslio, e
tornou-se rapidamente um telogo influente. Uma vez que Milo era a capital
administrativa do Imprio Ocidental no sculo IV, Ambrsio tambm
desempenhou um papel importante na poltica, aconselhando o jovem
imperador Graciano e reprovando o seu sucessor, Teodsio. Tambm atacou
vigorosamente o Arianismo e teve importante papel na reduo de sua
influncia no Ocidente. Ambrsio  lembrado como um dos quatro doutores da
Igreja primitiva e pela posio de defesa da superioridade dos valores
espirituais acima e contra o poder do Estado.
anais 21
 F.H. Dudden, The Life and Times of St. Ambrose (1935)

amor corteso (amour courtois, hfische Mnne) Termo criado em 1883 por
Gaston Paris, o amor corteso recebeu sua mais delicada expresso nas
canes dos trovadores do sculo XII no Languedoc. A natureza real desse
cdigo altamente ritualizado de amor continua discutvel; numerosas fontes
foram sugeridas -- a Ars Amatoria de Ovdio, a poesia hispano-rabe e o
pensamento platnico, entre outras --, mas a linguagem e as imagens do
amor corteso refletem, acima de tudo, o ambiente feudal, palaciano, em que
o conceito se desenvolveu.
      Os protagonistas assumiram distintos papis: o amante submetido  sua
dama como o cavaleiro ao seu senhor, jurando leal e permanente servio.
Chamando a ateno para o seu pretz ("valor") e valor ("coragem") -- ainda
mais reforados por seu nobre e puro amor --, ele solicitava merc
("piedade") e alguma recompensa. Embora a dama pudesse parecer a figura
dominante nesse drama privado, ela estava obrigada pelas convenes a
condescender com as solicitaes razoveis do cavaleiro, da mesma forma
que um senhor estava obrigado a recompensar seus fiis seguidores; se ela
no oferecesse algum favor ou esperana, era tachada de cruel e sem
corao. A natureza adltera do amor corteso tem sido muito debatida e
freqentemente exagerada; h pouqussimos casos em que a dama era
explicitamente uma mulher casada. Entretanto, ela era quase sempre
inatingvel, em virtude de sua alta posio ou distncia fsica e por medo da
censura social; paradoxalmente, era a prpria distncia dela que dava valor ao
paciente sofrimento do amante. Os merecimentos da amada podiam ser
aumentados por mostrar merc a um digno e merecedor pretendente;
contudo, a dama que se submetia depressa demais era condenada.
     A luta ntima do amante entre o seu desejo de satisfao imediata e sua
conscincia do valor moral implcito em batalhar pelo inatingvel; entre as
ambies pessoais e as restries sociais externas; entre o estado auto-
imposto de submisso e a necessidade irresistvel de expressar dor e
ressentimento: so essas antteses que emprestam  poesia de amor
corteso sua tenso dramtica e riqueza emocional.
       O verdadeiro amor, ou Fin'amors, contrastava com os Fals'amors da
maioria, caracterizado pela inconstncia, a insinceridade e o cime mesquinho,
o que os exclua da elite amorosa. O Fin'amors foi cada vez mais
"cristianizado" em fins do sculo XII, quando a imagem do amante ansioso foi
assimilada a um cdigo de busca religiosa de Deus, em que as virtudes crists
foram adquiridas atravs do servio a Maria.
       A tradio propagou-se do Languedoc at a Itlia, influenciando o dolce
stil nuovo (La Vita Nuova, de Dante), e na direo norte, onde se fundiu com
a tradio alegrica francesa para produzir obras como Lancelot, de Chrtien
de Troyes, e o Roman de la Rose, de Guilherme de Lorris. Outras respostas
incluem o Parzival de Wolfram von Eschenbach, na Alemanha, Troilus de
Chaucer e Confessio Amantis de Gower, na Inglaterra. [A mesma tradio
est representada na literatura portuguesa pelo romance Amadis de Gaula,
de Vasco de Lobeira (sculo XII).] Ver Andr Capelo; cavalaria; literatura
[327]
 CS. Lewis, The Allegory of Love (1936); M. Lazar, Amour Courtois et
"Fin'amors" (1964); The Meaning of Courtly Love, org. por F.X. Newman
(1968)

Ana Comnena (1083-1148) Princesa bizantina e filha de Aleixo I Comneno,
ficou principalmente conhecida pela biografia que escreveu de seu pai, a
Alexada. Em 1091 ficou noiva de Constantino Ducas, com quem Aleixo
compartilhava o trono. No mesmo ano, Aleixo deps Constantino e elevou seu
prprio filho Joo ao status de co-imperador. Ana nunca perdoou o irmo por
isso e, com a morte de Aleixo em 1118, Ana e sua me Irene tentaram
destronar Joo em favor de Nicforo Brinio Csar, marido de Ana. A
tentativa foi frustrada e Joo colocou Irene e Ana num convento. Ana comeou
ento a escrever a Alexada, a qual, embora sofra aqui e ali de certa confuso
cronolgica e de omisses, constitui a melhor fonte para o reinado de Aleixo.
 The Alexiad of Anna Comnena, trad. de E.R.A. Sewter (1969)

anais Juntamente com as Vidas de santos e as crnicas, os anais eram uma
importante forma de escrita histrica na Alta Idade Mdia. Consistiam em
breves relaes cronolgicas de eventos que eram importantes na histria de
um reino, bispado ou mosteiro. A mais antiga coleo ainda existente de anais
 constituda pelos Annales S. Amandi (708-810); outros famosos anais
europeus incluem os Annales Laurissenses Maiores, os Anais Reais, os
Annales Bertiniani (que cobrem toda a histria da Francnia Carolngia, 741-
882), os Anais de Hildesheim (818-1137), os Anais Quedlinburg (913-1025)
e os Annales Flodoard (919-68). Na Gr-Bretanha, as mais efetivas e teis
colees de anais so as incorporadas  Crnica Anglo-Saxnica, compilada
em 891 por inspirao do rei Alfredo e continuada numa verso remanescente
(a Crnica Peterborough) at 1155; e, do lado cltico, os Annales Cambriae
que, compilados em 954, continuam at fins do sculo XIII.

Anagni, Humilhao de (setembro de 1303) Cena da priso do papa
Bonifcio VIII por Guilherme de Nogaret, a qual marca o momento culminante
da luta entre o papa e o rei francs Filipe IV. Apoiado pela famlia Colonna,
Nogaret entrou em Anagni em 7 de setembro e capturou Bonifcio,
encarcerando-o no palcio Gaetani. O povo local, porm, sublevou-se em
defesa do papa e libertou-o trs dias depois, ao mesmo tempo que expulsava
Nogaret e seus homens da cidade. Em 12 de setembro, Bonifcio foi
reconduzido a Roma solenemente mas nunca se recuperou por completo de
sua humilhao e faleceu um ms depois no palcio Vaticano. A deteno de
um papa por funcionrios de um monarca secular repercutiu de forma
chocante em toda a Cristandade e, no entanto, o poder de Filipe no foi
afetado.

Andr Capelo Escritor do final do sculo XII, que em latim exerceu sua
atividade na corte do conde de Champagne a partir de aproximadamente
1170. Andr escreveu o que logo foi reconhecido como um tratado clssico
sobre o amor corteso, De Arte Honeste Amandi. Ele baseou algumas de
suas idias na Ars Amatoria de Ovdio, mas tambm foi consideravelmente
influenciado por noes poticas transmitidas atravs da Espanha muulmana.
 The Art of Courtly Love, trad. de J.J. Parry (1959) [ Trait de l'amour
courtois, org. por C. Buridant, Paris, Klincksieck, 1974]

Angelico, Fra Giovanni de Fiesole (1378-1455) Pintor italiano de afrescos e
frade dominicano. Batizado Guido di Pietro, adotou o nome de Fra Giovanni ao
ingressar no convento de So Domingos em Fiesole (c. 1418-21), mas ficou
conhecido como Beato ou Fra Angelico pela doura de seu esprito e de sua
arte. Suas primeiras obras foram muito influenciadas pelo estilo conhecido
como gtico internacional, como seu uso de fundos dourados, figuras
elegantes e delicadas, roupagens ricas e esvoaantes. Os afrescos de So
Marcos em Florena so considerados pela crtica o melhor exemplo da
pureza espiritual de seu estilo. Em 1445, comeou trabalhando nos afrescos
da Capela do Sacramento no Vaticano, depois destruda, seguindo-se-lhes as
cenas do Juzo Final na catedral de Orvieto. Em 1447 voltou ao Vaticano a
pedido do papa Nicolau V a fim de pintar cenas das vidas dos santos Estvo
e Loureno na recm-construda Capela Nicolau. Sua carreira de pintor foi
interrompida por um breve perodo entre 1449 e 1452, quando foi prior de
Fiesole, mas regressou depois a Roma, onde faleceu em 1455 e foi sepultado
na igreja de Santa Maria sopra Minerva.
 J. Pope-Hennessy, Fra Angelico (1974)

anglo-saxes Termo usado para designar as tribos de origem germnica
ocidental que se instalaram na parte oriental da Gr-Bretanha no sculo V e
vieram a exercer domnio sobre a Inglaterra e tambm sobre partes da Baixa
Esccia no decorrer dos sculos seguintes. O termo foi usado primeiro por
autores do sculo VIII para distinguir os anglos, saxes e jutos que tinham se
estabelecido na "Inglaterra", daqueles das mesmas raas que tinham
permanecido no continente. Eles tinham conscincia de sua herana
continental e foram pouco afetados pela cultura dos bretes nativos. Parte da
herana latina,  certo, foi-lhes devolvida com sua converso ao Cristianismo,
ocorrida principalmente no sculo VII. Persistiu, porm, a conscincia de
diversas origens tribais e seus reis eram conhecidos como reis dos Saxes do
Sul ou Saxes do Oeste, dos Anglos do Leste, dos Mercianos ou dos
Nortumbrianos. Quando o reino foi unificado, o ttulo de "rei dos ingleses" ou
rex Anglorum passou a ser a designao mais utilizada, mas anglo-saxo
continua sendo um termo conveniente para o conjunto de povos germnicos e
sua lngua at a poca da Conquista Normanda da ilha britnica.
 P. Hunter Blair, An Introduction to Anglo-Saxon England (1978); F.M.
Stenton, Anglo-Saxon England (1971)

Anjou Regio do centro-oeste da Frana, o Anjou converteu-se num condado
em tempos carolngios, e nos sculos X e XI foi ampliado pelos condes
Foulques III Nerra e Godofredo Martel. A casa reinante angevina alcanou o
apogeu com Godofredo Plantageneta, conde de Anjou de 1131 a 1151, e sua
esposa Matilda, viva do imperador Henrique V e filha do rei Henrique I da
Inglaterra. Aps a morte de Henrique I, Godofredo pde apossar-se da
Normandia, tomando-a ao sucessor do monarca falecido, Estvo de Blois,
em 1144; e por volta de 1153, o filho e sucessor de Godofredo, Henrique II,
foi conhecido como herdeiro de Estvo na Inglaterra, tornando-se rei no ano
seguinte. Os Plantagenetas detinham agora a Inglaterra, a Normandia e o
Anjou numa vasta reunio territorial a que se somou a Aquitnia, que Henrique
juntou aos seus domnios aps seu casamento com a herdeira Leonor em
1152.
       Embora o cime entre os filhos de Henrique fosse a causa de srios
conflitos familiares, o "imprio" permaneceu intato at 1204, quando a
Normandia e o Anjou foram confiscados por Filipe II da Frana ao rei Joo
Sem Terra. Entre 1245 e 1285, Anjou foi considerado dependncia da Coroa
francesa por Carlos, irmo de Lus IX. Foi ele quem, como Carlos I, rei da
Siclia, fundou a nova casa de Anjou, a qual deu reis para Npoles, Hungria e
Polnia. O condado foi incorporado s terras da Coroa francesa em 1480. Ver
Foulques IV; Foulques V.
 L. Halphen, Le Comt d'Anjou au XIe sicle (1906); R. Southern, The
Making of the Middle Ages (1953); O. Guillot, Le Comt d'Anjou et son
Entourage au XIe sicle (1972)

Anselmo, Santo (1033-1109) Arcebispo de Canterbury. Natural de Aosta, na
Lombardia, Anselmo tornou-se monge na abadia de Bec, na Normandia, onde
estudou teologia com Lanfranc. Em 1078 era nomeado abade de Bec,
sucedendo ao seu fundador, Herluino, e em 1093 era escolhido para o cargo
de arcebispo de Canterbury. Desde essa data at 1106, esteve envolvido
numa srie de disputas, a primeira com Guilherme Rufus e, depois, com
Henrique I, a respeito da questo da supremacia papal e das relaes entre
Igreja e Estado na Inglaterra. Os debates, que vieram a concentrar-se na
Questo da Investidura de prelados, terminaram em 1107 com uma soluo
de compromisso: as formalidades de investidura passaram para o arcebispo e
a hierarquia eclesistica, enquanto que ao rei eram deixados os meios de
influenciar a eleio e de salvaguardar seus interesses feudais nas grandes
propriedades da Igreja.
      No transcurso desse conflito, Anselmo foi forado a passar dois longos
perodos no exlio. Durante o primeiro deles (1097-1100), escreveu a sua mais
influente obra teolgica, Cur Deus Homo [Por que Deus se fez Homem?], na
qual estabelece, de um modo refinado, a doutrina ortodoxa referente 
Encarnao. Fora de qualquer dvida, o mais hbil telogo a ocupar as
funes de arcebispo de Canterbury, Anselmo provou ser tambm uma das
mentes mais criativas de toda a escolstica do sculo XII. Seu princpio
bsico, credo ut intelligam [Creio para compreender], tornou-se matria para
algumas das mais fecundas e construtivas discusses dessa poca.
      Aps a morte de Anselmo, o monge Eadmer de Canterbury escreveu um
relato sobre a vida do santo que abriu novas perspectivas no campo da
biografia.
 R. Southern, St. Anselm and his biographer (1963)

Anselmo de Laon (c. 1050-1117) Depois de estudar sob a orientao de seu
homnimo Santo Anselmo na escola monstica de Bec, Anselmo lecionou em
Paris, onde suas idias sobre o realismo foram apoiadas por seu aluno,
Guilherme de Champeaux. Em 1100 regressou  sua cidade natal de Laon, e
foi a que Pedro Abelardo se tornou um de seus alunos. Em seus escritos
teolgicos, Anselmo foi muito influenciado por idias platnicas e
neoplatnicas, transmitidas ao mundo medieval atravs dos escritos de Santo
Agostinho de Hipona. Uma de suas mais conhecidas obras  a Glossa
interlinearis, um completo comentrio sobre a Bblia Vulgata Latina, se bem
que apenas uma pequena parcela de sua volumosa obra sobreviveu.
 G. Lefebvre, De Anselmo Laudunensi scholastico, 1050-1117(1895)

Anskar Santo (801-65) Missionrio na Escandinvia. Educado em Corbie, na
Picardia, onde se tornou monge, transferiu-se depois para Corvey, na
Vestflia, onde foi nomeado bispo de Hamburgo; mais tarde, depois que os
dinamarqueses saquearam Hamburgo com grande ferocidade em 845, Anskar
foi arcebispo da s conjunta de Bremen e Hamburgo. A partir de seus centros
germnicos setentrionais ele encorajou expedies missionrias  Dinamarca
e  Sucia. Seus xitos variaram de acordo com o apoio dado pelos reis e
com as reaes pags mas, na pior das hipteses, ele e seus pupilos abriram
parte da Escandinvia  mensagem crist e conseguiram instalar igrejas,
sobretudo nas feitorias mercantis de Birka, na Sucia, Hedeby e Ribe na
Dinamarca.
 C.H. Robinson, Anskar, Apostle of the North (1921)
Antioquia Cidade sria e residncia de um dos patriarcas da Igreja primitiva
que, no sculo III, tornou-se sede de uma escola de teologia que defendia a
interpretao literal da Bblia, em oposio  interpretao mais alegrica
proposta pelos telogos alexandrinos. Em 341, Antioquia foi escolhida para
sediar um concilio eclesistico assistido pelo imperador oriental Constantino II
e uma centena de bispos, o qual, a respeito da questo da substncia de
Cristo, adotou um ponto de vista prximo do Arianismo e rejeitou os
ensinamentos do Credo de Nicia. A cidade declinou de importncia ainda nos
primeiros tempos da Idade Mdia, em parte por razes naturais (uma srie de
terremotos no sculo VI), mas sobretudo por causa da confuso poltica
gerada pelo xito muulmano ao ocupar a maior parte da Sria. O seu
prolongado cerco durante a Primeira Cruzada foi um evento crtico e, aps
sua tomada em 1098, Antioquia tornou-se o centro dos principados
"normandos" na Terra Santa. Sob os seus primeiros dois prncipes, Boemundo
de Tarento (1098-1111) e Rogrio (1112-19), o Estado de Antioquia passou a
ocupar toda a regio entre a Cilcia ao norte e a Sria central ao sul. Quando
Jerusalm caiu nas mos de Saladino, em 1187, Antioquia sobreviveu como
baluarte latino e assim se manteve at ser tomada e brutalmente saqueada
pelo exrcito de Baybars I em 1268.

Aquino, Santo Toms de (1225-74) Filsofo e telogo cristo. Natural de
Rocca Secca, perto de Aquino, na Itlia meridional, Toms foi educado
primeiramente em Monte Cassino e depois na Universidade de Npoles, antes
de ingressar na Ordem Dominicana em 1244. Os dominicanos enviaram-no a
Paris, onde estudou com Alberto Magno, que viria a exercer uma profunda
influncia em sua obra posterior. Aquino passou o resto de sua vida
lecionando tanto em Paris (1252-59, 1269-72) como na Itlia (1259-69, 1272-
74), onde foi o responsvel pela elaborao de um programa de estudo a ser
adotado nas Escolas Dominicanas. Embora escrevesse um manual para a
duquesa de Brabante sobre como tratar seus sditos judeus e um tratado
sobre o governante modelar intitulado De Regimine Principum, Aquino no foi
primordialmente um pensador poltico mas um telogo. Acima de tudo, estava
convencido de que era possvel reconciliar os escritos de Aristteles com os
princpios da teologia crist. Em Summa contra Gentiles (1259-64), por
exemplo, ele defende a doutrina crist dos ataques islmicos e judaicos, no
argumentando a partir de uma posio de f mas, pelo contrrio, apoiando-se
na razo pura deduzida dos escritos aristotlicos. Um mtodo escolstico
anlogo foi usado em sua maior mas inacabada obra, a Summa Theologica
(iniciada em 1266), a qual consiste numa declarao das crenas de Aquino
sobre todos os mistrios cristos, argumentando uma vez mais a partir de
uma posio de lgica, assim como de uma de revelao. Suas idias foram
rejeitadas por alguns escolsticos liderados por Joo Duns Scotus, e a
tendncia das universidades foi para se dividirem em dois campos: tomistas e
scotistas. O aforismo tomista, por exemplo, de que "a Razo no destri a f
mas a aperfeioa", e sua anlise da base teolgica para uma guerra justa,
tiveram um impacto de enorme influncia.
 F.C. Copleston, Aquinas (1955); J. Maritain, St. Thomas Aquinas, trad.
J.W. Evans e P. O'Kelly (1958); J.A. Weisheipl, Friar Thomas d'Aquino: His
Life, Thought and Works (1975) [MD. Chenu, Santo Toms de Aquino, Rio,
Agir, 1967; A. Kenny, So Toms de Aquino. Lisboa, Publ. Dom Quixote,
1981; Suma Teolgica, org. por A. Correa 11 vols., Porto Alegre, Sulina,
1980-1981]

rabes Nome dado aos povos semticos da Pennsula Arbica que, no sculo
VII, foram os primeiros convertidos ao Isl e que dominaram essa religio
durante o perodo do Emirado Omada. Entretanto, com a tomada do poder
pelos abssidas em 750, os rabes perderam sua hegemonia sobre o Isl. A
capital do imprio foi ento transferida para Bagd, onde predominavam no
os interesses rabes mas os persas. Ver sarracenos; Espanha
 N. Daniel, The Arabs and Medieval Europe (1979) [B. Lewis, Os rabes na
Histria, Lisboa, Estampa, 1982]

Arago Reino medieval do nordeste da Pennsula Ibrica que ( semelhana
de Castela) iniciou sua expanso no sculo XI, quando Sancho III de Navarra
o legou em testamento a seu terceiro filho, Ramiro I. Em 1110, Arago j tinha
duplicado seu territrio e, no decorrer do sculo XII, ampliou-o ainda mais
quando se uniu, atravs de casamento,  Catalunha. Tendo expulso os mouros
de seus domnios, os reis de Arago voltaram suas vistas para o alm-mar.
Em 1282 estabeleceram-se na Siclia, em 1320 na Sardenha e em 1442
dominavam Npoles. As longas ausncias de seus monarcas tendiam a tornar
os nobres aragoneses mais independentes do que seus congneres
castelhanos. Por isso Arago continuou seguindo uma poltica bastante
independente, mesmo depois da unio das duas coroas em 1475. Ver Afonso
V; Pedro III
 J.N. Hillgarth, The Spanish Kingdoms 1250-1516 (1976-78)

Arbroath, Declarao de (1320) Documento em que, aps suas vitrias em
Bannockburn (1314) e outras localidades, Roberto I Bruce e outros bares
escoceses se comprometeram com a causa da independncia escocesa. Em
decorrncia disso, Eduardo II assinou, em 1322, uma trgua com os
escoceses que seria anos depois formalizada na Paz de Northampton (1328).
Pelos termos desse tratado, a Inglaterra renunciava s suas pretenses de
suserania sobre a Esccia e assim os sonhos de independncia escocesa de
Bruce eram formalmente realizados.

Arianismo Crena hertica que surgiu na Igreja primitiva em virtude dos
ensinamentos do sacerdote alexandrino Ario (256-336). Em face da
dificuldade teolgica de combinar a divindade de Cristo com a unidade de
Deus na Trindade, Ario props a noo segundo a qual o Filho no era co-
eterno com o Pai. No Conclio de Nicia (325), o debate gravitou em torno da
questo de saber se o Filho era "da mesma substncia" que o Pai. Atansio
liderou os adeptos do ponto de vista que se tornou ortodoxo: o Pai e o Filho
eram efetivamente "da mesma substncia", o que levou  condenao do
Arianismo. Ario foi banido para a Ilria e morreu s vsperas de sua
reconciliao com a Igreja. Seus ensinamentos, porm, continuaram sendo
muito influentes quase, segundo parece, por acidente histrico. Muitas das
tribos germnicas situadas alm da fronteira do Imprio Romano foram
convertidas por missionrios liderados por Wulfila, um bispo ariano e, assim, o
Cristianismo ariano tornou-se a caracterstica predominante de um certo
nmero de ostrogodos na Itlia (at meados do sculo VI), de visigodos na
Espanha (at fins do sculo VI) e dos vndalos no norte da frica.

Aristteles (384-322 a. C.) Filsofo grego e aluno de Plato em Atenas,
tornou-se por volta de 343 o preceptor de Alexandre, filho de Filipe da
Macednia. Com a morte de Filipe em 335, Aristteles regressou a Atenas,
onde fundou a escola peripattica nos arredores da cidade. A era
empreendida a investigao cientfica sobre assuntos tais como a msica,
fsica, metafsica, matemtica e astronomia, numa tentativa de incrementar o
entendimento do homem acerca do mundo natural. Esse interesse cientfico
levou Aristteles, em seus oito livros da Poltica e nos dois tratados sobre a
tica, a considerar o homem como sendo nada mais do que uma espcie
superior de animal social e poltico. Embora os escritos de Aristteles fossem
conhecidos dos romanos, o estudo de suas obras declinou e desapareceu
quase totalmente aps a queda do Imprio Romano. O conhecimento de suas
obras limitava-se ao estudo de tradues de duas de suas obras menores e a
um certo nmero de comentrios feitos por Bocio. Nos sculos XII e XIII,
entretanto, a Poltica e a tica comearam sendo redescobertas, em conjunto
com os escritos de outros autores gregos, como Plato, Galeno e Hipcrates,
especialmente atravs das tradues de fontes muulmanas por eruditos
judeus na Espanha. Os escritos de Aristteles sobre o homem como animal
poltico e social pareciam conflitar com a geralmente aceita teologia
agostiniana, a qual concordava em que o homem era naturalmente social mas
que sua existncia poltica era inatural e s se fazia necessria por causa do
pecado. Muitos escolsticos, incluindo Toms de Aquino, iniciaram a tarefa de
reconciliar as filosofias aristotlica e agostiniana, e o debate que se seguiu
continuou por mais de uma centena de anos. Ver Aquino, Santo Toms de;
Duns Scotus, Joo.
 F. van Steenberghen, Aristotle in the West (1955)

Armnia Antigo reino situado entre os rios Araxes (hoje Araks) e Jura,
incluindo as guas superiores do Eufrates. Por volta de 390, a Armnia estava
dividida em duas partes sob a jurisdio dos bizantinos e dos persas,
respectivamente. Embora a Armnia bizantina fosse rapidamente assimilada
ao Imprio, houve muita resistncia na Armnia persa s tentativas de
converso da populao crist local ao zoroastrismo. Depois de 653, a
Armnia estava, pelo menos nominalmente, sob a suserania dos rabes mas
permaneceu virtualmente independente e governada por cristos. No sculo
XI, o pas foi devastado pelos sultes seljcidas Tugril Beg e Alp Arslan.
Muitos armnios emigraram para a Pequena Armnia na parte ocidental do
moderno Curdisto. Esse novo reino tinha laos estreitos com o Ocidente; na
poca da Primeira Cruzada, foram os armnios que ajudaram Balduno de
Bolonha a estabelecer o condado de Edessa [atual Urfa, na Turquia, NT],
enquanto que Leo II (1187-1219) jurou vassalagem ao imperador do
Ocidente, Henrique VI, e reformou a administrao armnia de acordo com
modelos ocidentais. No sculo XIV, o assassinato de dois dos seus reis,
Guido de Lusignan em 1344 e Constantino I em 1374, desencadeou a guerra
civil na Armnia e deixou o reino impotente para resistir ao avano mameluco.
Em 1375, a capital, Sis, foi tomada e o ltimo rei deposto.
 T.S.R. Boase, The Cilician Kingdom of Armenia (1978)

armadura Havia trs tipos de armadura medieval: (1) armadura macia, de
tecido acolchoado e couro; (2) de malha formada por anis metlicos
interligados, a chamada cota-de-malha; (3) de chapa metlica, cuirbouilli
(couro embebido em cera aquecida), osso de baleia ou chifre; chapas, no
caso, podiam ser placas grandes e inteirias, chapas menores rebitadas ou
costuradas no tecido ou pequenas chapas interligadas (construo laminada).
       Essas eram tcnicas antigas, mas aps a extino do Imprio Romano
virtualmente desapareceram da Europa ocidental as armaduras de chapa
inteira, com exceo dos elmos. As armaduras laminadas eram usadas pelos
vndalos, pelos francos do tempo de Carlos Magno, pelos vikings e no leste
europeu. A cota-de-malha manteve-se em uso, mas at cerca de 1250 a
armadura macia e a de chapa predominaram. A Idade Mdia assistiu 
transio da malha para a armadura inteiria, por volta de 1250.
Aproximadamente em 1330 existiam defesas metlicas para a maior parte do
corpo. No comeo do sculo XV, essas antigas couraas tinham evoludo para
uma armadura alwite (branca) completamente desenvolvida.
     Ao tempo da conquista normanda da Inglaterra, o equipamento defensivo
consistia numa cota-de-malha (hauberk ou byrnie), elmo e escudo. As cotas-
de-malha tinham freqentemente uma espcie de capuz e eram usadas sobre
um acolchoa-mento para o corpo (aketon) e a cabea (coil). Os elmos eram
usualmente cnicos com protetor para o nariz. Tambm eram conhecidos os
elmos com viseira mvel e os elmos de uma s pea para cobrir o crnio
como uma calota esferide. Os escudos eram de madeira com revestimento
de couro e reforados com metal. Eram longos e no formato de pipa ou,
ocasionalmente, circular e convexo. Introdues posteriores incluram a capa
para usar sobre a armadura, talvez como proteo contra o calor e a chuva,
ou para fins herldicos. Entre c. 1150 e comeos do sculo XIII, os elmos
desenvolveram-se, passando dos formatos redondo e cilndrico ao "grande"
elmo (dotado de cimeira e penacho, com vistas  mais fcil identificao). O
antigo bacinete (chapel-de-fer), semelhante ao capacete dos exrcitos
modernos, tambm reapareceu e, por volta de 1220, tornou-se popular a
cervellire, uma espcie de calota usada por baixo do elmo, ou com viseira.
     O reaparecimento da armadura original  obscuro. Os reforos na
proteo do corpo ocorreram a partir do incio do sculo XIII, com o emprego
da chapa metlica desde 1250, aproximadamente. Durante as primeiras
dcadas do sculo XIV, a defesa mais comum do tronco era a couraa, com
revestimento de chapa metlica (mais tarde, apareceu a brigandine). Essas
formas evoluram e aperfeioaram-se e, por volta de 1330, o equipamento
completo de uma armadura inclua a couraa (sketon), o espaldar e a
cotoveleira (protetores do brao: vambraces), a capa, usada sobre a
armadura (gambeson), a cota-de-malha e o coxote (protetores da bacia e das
coxas:(chausses), a joelheira (poleyn ou protetor do joelho), a greva (protetor
da perna: schynbalds ou greaves), os sapatos-polainas de ferro (sabatons), o
escudo, o aventai] (substituto da coifa de armas) e o bacinete, suplementado,
se sem viseira, pelo elmo.
     Por volta de 1410, esse conjunto evoluiu para uma cobertura mais
extensa. O peitoral (a couraa que cobre a parte anterior do tronco) tornou-se
independente e, com a couraa posterior, o saiote e, mais tarde, o gorjal,
formaram a defesa bsica. Peas tubulares articuladas foram desenvolvidas
para as pernas. Essas formas slidas requeriam apenas a remoo de seus
freqentes revestimentos de pano para tornar-se uma verdadeira armadura
branca (alwite).
Com a adoo no incio do sculo XV da alwite, surgiram estilos regionais,
sendo o norte da Itlia (Milo e Brscia) e o sul da Alemanha (Nuremberg,
Landshut e Augsburgo) os principais centros de produo. Foram populares
as variantes de bacinetes (armet na Itlia, sallet na Alemanha). Os escudos
eram agora, em grande parte, redundantes. A partir de 1460 floresceu o estilo
alemo alto gtico, favorecendo formas mais esguias com caneluras para
desviar as flechas.
     Cumpre lembrar que a maioria destes aperfeioamentos aplicava-se
unicamente s armaduras da alta nobreza. As da pequena nobreza variavam,
ao passo que a soldadesca contava apenas com a armadura macia, com
alguma proteo de malha, bacinetes para a cabea e escudos para aparar
os golpes. Havia tambm uma distino entre a armadura de batalha e a
decorativa, para desfiles. Para os torneios, armaduras reforadas
suplementavam a armadura de combate; peas especiais para duelo com
lana e trajes defensivos mais pesados no tardaram a aparecer. Um cavalo
ou mula transportava a armadura at ao local onde seria envergada e, a partir
do sculo XII, o corcel de batalha era freqentemente coberto por um arns
de       cota-de-malha        ou      pano. Ver     herldica;    cavalaria;
guerra                            MB
 F.M. Kelly e R. Schwabe, A Short History of Costume and Armour, vol. I
(1931); C. Blair, European Armour (1958); J. Mann, European Arms and
Armour, vol. I (1962)

Arnaldo-Amalric Abade de Cister (Frana) em 1192-1209 e arcebispo de
Narbonne em 1209-25. Enviado como legado pelo papa Inocncio III para
pregar contra os albgenses, Amalric assumiu a liderana espiritual da cruzada
contra eles aps a morte de Pierre de Castelnau em 1207. No pavoroso
massacre de Bziers, atribuiu-se-lhe a estarrecedora exortao aos cruzados,
logo obedecida com total desenvoltura: "Matem-nos a todos. Deus escolher
quem  inocente."
 B. Hamilton, The Albigensian Crusade (1974)

Arnaldo de Brscia (1100-55) Reformador religioso radical. Depois de
estudar em Paris com Abelardo, tornou-se cnego agostiniano e foi nomeado
prior de Brscia. Enfatizou a necessidade absoluta de pobreza clerical e o
abandono do poder temporal pela Igreja. Condenado por suas opinies em
1139, foi banido da Itlia e refugiou-se na Frana, ensinando na escola de
Mont-Saint-Genevive, em Paris. Reconciliou-se com a Igreja por um breve
perodo no Papado de Eugnio III, mas depois que se aliou a um partido
poltico rebelde em Roma, o qual tentou abolir o poder temporal do Papado,
foi excomungado em 1148. Foi expulso de Roma em 1155, capturado pelo
imperador Frederico I e entregue ao prefeito de Roma, que o sentenciou 
morte. Seus seguidores, os arnaldistas, foram condenados pelo Conclio de
Verona em 1184.
 G.W. Greenaway, Arnold of Brescia (1931)

Arnulfo, Santo (c. 580-c. 640) Bispo de Metz. Nomeado para a sua s em
614, Arnulfo foi um proeminente conselheiro do rei merovngio Dagoberto I
(628-39), antes de renunciar ao seu bispado a favor de uma vida de solido.
Tornou-se primeiro um eremita nas montanhas dos Vosges e depois um
monge no mosteiro de Remiremont, s margens do rio Mosela.

Arpd (c. 850-905) Chefe dos magiares que por volta de 895 liderou seu povo
desde as margens do Dnieper at o territrio semidesabitado do Mdio
Danbio. Estabeleceu-se como duque e iniciou a dinastia Arpdia, que se
manteve no controle da Hungria at 1301. A partir de 899, os magiares
continuaram sua expanso para oeste, penetrando na Itlia e na Alemanha, e
somente depois de sua derrota por Oto, o Grande, na batalha de Lechfeld
(955),  que se viram finalmente confinados  prpria Hungria. No reinado de
Estvo I (Santo Estvo, m. 1038), que foi coroado rei em 1000, a dinastia
aceitou o Cristianismo ocidental, dependente do papa.

Arquipoeta (m. c. 1165) Poeta latino annimo, provavelmente da Rennia,
que solicitou o patrocnio de Reinaldo de Dassel, arcebispo de Colnia e
chanceler de Frederico Barba-Ruiva. Sua obra mais famosa, Confessio,
expressa com brilhantismo os tormentos e paradoxos da Renascena do
sculo XII, fortemente combatida pela Igreja e contudo exultante em sua
recm-descoberta vitalidade e em sua confiana na razo e na natureza. Ver
goliardos, poetas
 H. Waddell, The Wandering Scholars (1935)

arquitetura Grande parte dos nossos conhecimentos sobre arquitetura
medieval baseia-se, inevitavelmente, em exemplos eclesisticos. O
Cristianismo foi buscar muitas de suas formas arquitetnicas nos edifcios
romanos pagos, modificando-os de acordo com suas necessidades
litrgicas, e as baslicas e as igrejas de plano central dos primrdios do
perodo cristo continuaram sendo edificadas, at os dias de hoje.
       Com a conquista da Europa ocidental pelos povos germnicos, os
desenvolvimentos arquitetnicos no leste e no oeste seguiram caminhos
distintos. Em Bizncio, o domo tornou-se caracterstico, sendo o de Santa
Sofia em Constantinopla (consagrada em 537) o exemplo mais audacioso. As
igrejas bizantinas combinaram freqentemente os tipos de cruz grega e domo-
octogonal (Hosios Lukas, 1011), e seus exteriores tornaram-se ricos graas
ao uso de materiais contrastantes e de decorao escultrica. Com o seu fim
em 1453 devido  queda de Constantinopla frente aos turcos, as tradies
artsticas bizantinas sobreviveram apenas nos pases balcnicos e na Rssia.
       Embora alguns edifcios de destaque estivessem sendo construdos na
Itlia, Espanha (antes da invaso rabe de 711), Glia e Inglaterra anglo-
saxnica, foi somente na esteira da renovao Carolngia que estruturas mais
ambiciosas e originais foram empreendidas. Carlos Magno desejou recriar a
glria de Roma, no da Roma pag mas da Roma crist de Constantino, o
Grande; assim, por exemplo, a porta de Lorsch  uma verso do sculo IX,
ainda que algo distante, do Arco de Constantino em Roma. A capela palatina
imperial em Aix-la-Chapelle, entretanto, teve por modelo a igreja octogonal
com domo de So Vitale em Ravena, construda por Justiniano (consagrada
em 548). O desenvolvimento do monasticismo encorajou um novo tipo de
edificao, necessria para o culto e o trabalho de vastas comunidades. A
famosa planta preservada do mosteiro de Saint Gallen constitui um layout
ideal para uma abadia Carolngia -- um modelo a ser seguido. A vista da
abadia de Centula (Saint-Riquier, consagrada em 799), hoje destruda, 
conhecida atravs de uma gravura que mostra em que medida uma igreja
medieval diferia de uma igreja crist primitiva, dando nfase igual s
extremidades leste e oeste da baslica e empregando torres opostas. As
torres ocidentais, que continuaram populares na arquitetura crist, foram
iniciadas nesse perodo, embora existisse o precedente das igrejas srias dos
sculos V e VI.
     A desintegrao do Imprio Carolngio resultou no declnio da atividade
de construo em quase toda a Europa. A reativao foi devida, em grande
parte,  reforma da vida religiosa inspirada pela Ordem de Cluny e ao
surgimento de uma Alemanha forte com a dinastia Otoniana, herdeira do
Imprio Carolngio. A arquitetura Otoniana deu prosseguimento s inovaes
do sculo IX, adicionando novos elementos como a alternao de pilastras e
colunas nas arcadas da nave (Gernrode, 960; So Miguel de Hildesheim,
1013-33), e essas caractersticas foram transmitidas s construes
romnicas.
    O estilo romnico na arquitetura evoluiu durante o sculo XI e alcanou o
apogeu no sculo seguinte, embora algumas experincias, sobretudo com a
abbada de pedra, fossem iniciadas no final do sculo X em igrejas
monsticas da costa mediterrnea. Essas primeiras construes romnicas
espalharam-se da Lombardia  Catalunha, na direo oeste; na direo leste,
at a Dalmcia e na direo norte at a Borgonha. A combinao das
realizaes tcnicas desses edifcios com o monumental estilo otoniano
produziu algumas das mais impressionantes igrejas romnicas.
      Alm de abobadar grandes vos e de tornar assim uma construo mais
segura -- visto que a madeira estava sempre sujeita a provocar incndios em
edifcios iluminados com velas -- o pedreiro romnico introduziu uma grande
inovao: o coro com deambulatrio e capelas irradiantes na abside oriental.
Isso era ideal para a exposio de sacrrios com relquias e para a fcil
circulao de grandes multides de peregrinos, porquanto a peregrinao
tinha-se convertido num movimento universalmente popular. A grande abadia
de Cluny e as igrejas de peregrinao de Saint-Martin-de-Tours, de Saint-
Sernin em Toulouse e de Santiago de Compostela tinham todas esse tipo de
coro. Os interiores das construes romnicas esto divididos em vos,
mediante o uso de colunas, semicolunas e outros recursos.
     A arquitetura romnica e a anglo-normanda contriburam para a evoluo
da abbada de nervuras que passou a ser caracterstica essencial do estilo
medieval tardio: o gtico. A expanso da Ordem Cisterciense ajudou a
divulgar as primeiras formas gticas por toda a Europa, do Atlntico ao
Vstula. A primeira estrutura gtica foi o coro de Saint-Denis, a abadia real
dos arredores de Paris (1140-44). As igrejas romnicas precisavam ter
paredes muito espessas a fim de suportar o peso da abbada de pedra; o
engenhoso arquiteto de Saint-Denis reduziu o peso das abbadas
empregando, em vez de arcos semicirculares, arcos e nervuras ogivais, o que
lhe permitiu cobrir vos de diferentes larguras e formas. Os compartimentos
entre as nervuras que suportam o peso eram preenchidos com alvenaria leve,
e as nervuras eram sustentadas no por paredes macias mas por pilastras
ou colunas mais finas. Alm disso, o espao de parede pde ser ento
reduzido pela introduo de enormes janelas com vitrais. Novos
desenvolvimentos objetivaram a obteno de maiores alturas, como nas
catedrais de Chartres, Reims, Amiens e Beauvais. Arcobotantes nessas e em
outras edificaes, ligando as nervuras da abbada aos contrafortes das
naves laterais, receberam formas mais finas e graciosas, aumentando a
beleza dos exteriores.
      Durante algum tempo, as formas romnicas e gticas continuaram lado a
lado mas, por volta do segundo quartel do sculo XIII, a vitria do novo estilo
francs era completa. Paris, capital de uma Frana agora poderosa, durante o
reinado de So Lus (1226-70), tornou-se um centro cultural e artstico que
inspirou todo o mundo cristo. A Sainte-Chapelle em Paris (1243-48),
construda para alojar as relquias da coroa de espinhos do Cristo,  "um
espao fechado por vitrais", com os intricados ornatos rendilhados da janela
repetidos em relevo nas paredes. O chamado gtico radiante substituiu o alto
gtico da primeira metade do sculo XIII e as catedrais de Colnia e
Estrasburgo constituem clebres verses alemes desse estilo, enquanto que
na Inglaterra, o mecenato de Henrique III (por exemplo, a abadia de
Westminster) pretendia claramente rivalizar com seu primo francs.
      A Inglaterra desempenharia um importante papel no desenvolvimento do
gtico tardio. O estilo arquitetnico conhecido por gtico decorado (1280-
1375), com nfase cada vez maior na decorao de todos os gneros --
molduras ricas e intricadas, modelagem superficial e abbadas de rede,
incorporando grande profuso de liernes [nervuras de pedra] -- prenuncia a
ltima fase da arquitetura gtica: o estilo perpendicular na Inglaterra e o
flamboyant na Frana. Ambos so expresses de uma arte em que o
virtuosismo tcnico e a opulncia decorativa passaram a ser um fim em si
mesmos.
      Das edificaes seculares durante a Idade Mdia, as mais
impressionantes so os castelos e as fortificaes, mas tambm existem,
especialmente na Itlia, importantes edifcios civis. A maioria das pessoas
comuns vivia em casas de madeira e sobre estas pouco se sabe. So as
residncias da gente rica, construdas em pedra, as que sobreviveram em
quantidades razoavelmente grandes.
      O arquiteto medieval adquiriu seus conhecimentos no atravs de
treinamento terico, mas no trabalho prtico, no decorrer do qual obtinha
alguns conhecimentos de matemtica e geometria que o habilitavam a
elaborar projetos, fazer plantas e desenhos. Deixava muitos dos detalhes para
serem resolvidos enquanto o edifcio estava sendo construdo e, no raras
vezes, quando um projeto demonstrava ser ambicioso demais ou
excessivamente oneroso, tinha que ser modificado no transcorrer da obra. O
arquiteto organizava o fornecimento de materiais de construo e de
maquinaria para iar cargas, e fiscalizava pessoalmente todas as fases da
obra, desde as fundaes at o telhado. Tambm era ele quem desenhava os
gabaritos de que os pedreiros e carpinteiros precisavam para fazer molduras,
capitis, nervuras, bases e outros elementos decorativos. Um arquiteto de
talento tinha todas as probabilidades de se tornar um homem prspero e at
famoso. Ver vitral; gtico; romnico; escultura; igreja de aduelas
 K.J. Conant, Carolingian and Romanesque Architecture (1959); P. Frankl,
Gothic Architecture (1962); J. Harvey, The Master Builders. Architecture in
the Middle Ages (1971) [H.E. Kubach, Arquitectura Romnica, Madri, Aguilar,
1974; L. Grodecki, Arquitectura Gotica, Madri, Aguilar, 1977]

arte Ver arquitetura; afresco; vitral; manuscritos, iluminao de; mosaico;
pintura e as artes menores; escultura

artes liberais A educao bsica para a elite instruda da Idade Mdia
consistia na aprendizagem das artes liberais. A tradio vinha diretamente dos
tempos clssicos, atravs dos escritos de Santo Agostinho, e foi refinada e
transformada numa estrutura de ensino por Cassiodoro e Bocio, no comeo
do sculo VI. A diviso formal das artes liberais em Trivium e Quadrivium
data provavelmente do perodo carolngio e continuou sendo a base terica da
educao medieval at o sculo XII.
      O Trivium, ou encontro de trs caminhos, consistia em gramtica,
dialtica e retrica. Esses trs ramos continham as disciplinas necessrias
para o servio na Igreja e, gradualmente, tambm na administrao secular:
domnio da estrutura da lngua, capacidade para apresentar argumentos e
apreciao da fora do discurso em prosa e poesia. Um equilbrio instvel era
mantido inicialmente entre o uso de textos clssicos e bblicos como exemplos
na instruo, com a balana pendendo fortemente, desde os tempos
carolngios, para o lado das Escrituras. A segunda parte do syllabus era mais
cientfica; o Quadrivium, ou encontro de quatro caminhos, inclua aritmtica,
geometria, astronomia e msica. Ver educao [348]
 [A. Murray, Razn y sociedad en la Edad Media, Madri, Taurus, 1982]

Artevelde, Jacques van (m. 1345) Nas fases iniciais da Guerra dos Cem
Anos, Van Artevelde, um prspero mercador de Gand, assumiu o controle da
cidade como aliado de Eduardo III da Inglaterra. Bruges e Ypres juntaram-se
a ele numa federao de cidades flamengas, mas seu assassinato em julho de
1345 redundou no retorno do conde. Quase 40 anos depois (1381), numa
poca de grande agitao social, os cidados de Gand procuraram de novo
uma liderana na pessoa de um representante da famlia: o filho de Jacques,
Filipe (1340-82). Aps os xitos iniciais, que voltaram a produzir a aliana de
Bruges e Gand, Filipe foi morto em batalha contra o poder condal, apoiado
pela Frana. No obstante, o nome de Van Artevelde perdurou como smbolo
da independncia urbana flamenga.
 H. van Werveke, Jacques van Artevelde (1948)

Artur Lendrio rei britnico que aparece num ciclo de romances medievais
como o soberano dos cavaleiros da Tvola Redonda. A narrativa bsica
encontrou fama na Historia Regum Britanniae de Geoffrey de Monmouth
(1136-38), mas foi ampliada por Chrtien de Troyes e Roberto de Boron, que
adicionaram alguns dos elementos mais romnticos da saga, como Excalibur,
a espada na pedra, a descoberta do Santo Graal e os amores de Lancelote e
Guinevere. A verdade histrica acerca de Artur  mais difcil de determinar.
Nennius, no sculo IX, e os Annales Cambriae, no sculo X, falam de Artur
como lder da resistncia galesa ao avano saxo, a qual culminou na vitria
de Artur na batalha de Mons Badonicus (Mount Badon); tal histria no
recebe confirmao, porm, nos escritos de Gildas. O mximo que se pode
dizer com segurana  que Artur parece ter sido um chefe de cl britnico que
capitaneou uma fora militar ao longo das linhas fronteirias romanas, agindo
em nome dos reis britnicos, e que pode ter tido uma participao decisiva
para garantir a vitria numa importante batalha em Mount Badon, nos
primeiros anos do sculo VI.  L. Alcock, Arthur's Britam (1970); S. Knight,
Arthurian Literature and Society (1983)

sia Menor rea de terra limitada pelo Mar Negro ao norte, o Mediterrneo
ao sul, o Egeu a oeste e a Armnia a leste. Inicialmente parte do Imprio
Bizantino no sculo XI, foi conquistada pelos turcos seljcidas comandados
por Solimo ibn Cutalmiche, que fixou sua capital em Nicia e fundou o
sultanato de Rum. Em conseqncia da Primeira Cruzada, a parte ocidental
da sia Menor voltou ao controle bizantino, sendo Nicia devolvida ao Imprio
pelos latinos enquanto que o imperador Aleixo I Comneno reconquistava a
maior parte do territrio costeiro entre Nicomdia e Ata-lia. Aps a queda de
Constantinopla em poder dos latinos em 1204, Nicia passou a ser o quartel-
general do contra-ataque bizantino, finalmente bem-sucedido em 1261. Depois
de 1265, entretanto, os bizantinos no conseguiram proteger com eficcia a
sia Menor contra as crescentes invases, primeiro pelos mongis e, depois
pelos turcos, que liderados por Otm tiveram uma vitria decisiva perto de
Nicia em 1301.

assassinos Seita religiosa de muulmanos xiitas fundada por volta de 1090
pelo persa Hassan ibn Sabbah e que durante dois sculos aterrorizou a Prsia
e a Sria. Era uma Ordem secreta governada por um gro-mestre, conhecido
como o "Ancio da Montanha". Os assassinos estavam divididos em sete
classes, de acordo com o grau de iniciao nos segredos da Ordem. Os
fedayin ou "devotos", que executavam assassinatos cumprindo regras de
estrita obedincia, pertenciam ao quinto grupo. Supe-se que tinham vises
de xtase sob a influncia do haxixe, o que deu origem ao nome da Ordem:
hashishin (o que, com o tempo, se corrompeu para assassino).
 M.G.S. Hodgson, The Order of the Assassins (1955); B. Lewis, The
Assassins (1967)

Asser (m. c. 909) Bispo de Sherborne. Autor de uma Vida do Rei Alfredo que
acrescenta sobre esse personagem muita informao que no figura na
Crnica Anglo-Saxnica ou outras fontes. Asser tambm inclui muito material
autobiogrfico. Natural do Pas de Gales, tornou-se monge no convento de St.
David's em Dyfed e depois, na dcada de 880, foi um dos principais
conselheiros de Alfredo, ajudando-o na elaborao de um programa
educacional e dividindo seu tempo, no comeo, entre St. David's e a corte dos
saxes ocidentais. Foi regiamente recompensado por seus servios,
recebendo o controle das casas religiosas de Congresbury e Banwell, no
Somerset, e tornando-se bispo com extensa jurisdio no West Country,
incluindo a Cornualha. Foi finalmente nomeado para a importante s de
Sherborne, entre 892 e 901.
 Asser's Life of King Alfred, org. por D. Whitelock (1959); Alfred the Great
Asser's Life of King Alfred and other contemporary sources, trad. de S.
Keynes e M. Lapidge (1983)

Astolfo rei dos lombardos 749-56 Foi eleito aps o destronamento de seu
irmo Raquis. O principal objetivo de Astolfo era unir a Itlia sob controle
lombardo. Em 751 apoderou-se do exarcado de Ravena, ameaando assim
muitos dos antigos territrios bizantinos na Itlia que estavam sendo
pretendidos pelo Papado. Em 756, o avano dos lombardos foi sustado
atravs da invaso da Itlia pelo rei franco Pepino III, o Breve. Os lombardos
foram derrotados e grande parte de seu antigo territrio foi cedida aos
francos pelo Papado. Foi durante essas campanhas que Astolfo morreu em
conseqncia de um acidente.  O. Bertolini, Roma e i Langobardi (1972); C.
Wickham, Early Medieval Italy (1981)

astrologia Arte de predizer acontecimentos na Terra mediante a observao
dos movimentos do Sol, Lua e demais corpos celestes, a qual impregnou as
concepes e perspectivas dominantes nos ltimos tempos da Idade Mdia.
Os astrlogos aconselhavam imperadores e reis (por exemplo, Guido Bonatti
na corte do imperador Frederico II), e houve ctedras de astrologia em muitas
universidades. Grandes pensadores, como Alberto Magno, foram
profundamente influenciados por idias astrolgicas, e mdicos eminentes,
como John Fusoris, aperfeioaram instrumentos astrolgicos como auxlio na
cura de seus pacientes. Escritos do perodo refletem claramente essa
influncia dominante: no Conto do Cavaleiro, por exemplo, Chaucer retrata
Saturno como uma divindade sumamente poderosa, influente e individualista.
Entretanto, s a partir do sculo XII a astrologia ganhou um forte impulso. Foi
ento que a redescoberta e traduo de muitos textos cientficos e filosficos
do grego e do rabe para o latim ps os homens de saber da Europa
ocidental em contato com as poderosas idias das grandes tradies
astrolgicas anteriores.
      Segundo parece, a astrologia originou-se na Mesopotmia, onde no
primeiro milnio a.C, se desenvolvera tanto a cincia astronmica de rastrear
os movimentos do Sol, Lua e estrelas, quanto a arte astrolgica de
adivinhao baseada nessas observaes cientficas. Os dois ramos,
astronomia e astrologia, iriam manter-se virtualmente indistinguveis um do
outro por muitos sculos; os gregos, que se apoiaram nos conhecimentos
astrolgicos mesopotmicos e egpcios, utilizaram, por um lado, sua nova
compreenso dos princpios geomtricos para descrever as rbitas dos
planetas; e, por outro lado, equipararam os corpos celestes ao seu prprio
panteo de deuses. Tambm desenvolveram inteiramente a idia das 12
constelaes do cinturo zodiacal. No sculo II a.C. comearam a ser
elaborados horscopos pessoais com base na configurao dos corpos
celestes no momento do nascimento. Assim, eram determinadas a posio e
as relaes do Sol, Lua, planetas e constelaes, bem como a influncia
exercida pelas 12 casas dos planetas, Sol e Lua, que faziam parte do
firmamento e governavam assuntos tais como riqueza, casamento e morte.
Apesar da oposio dos filsofos epicuristas, a astrologia foi aceita pelos
esticos e influenciou rapidamente toda a observao cientfica. Na medicina,
por exemplo, vrias funes e rgos do corpo foram associados a diferentes
combinaes de planetas e constelaes.
      Os romanos, que tinham seus prprios mtodos de adivinhao, no
acolheram favoravelmente, no incio, a astrologia grega. Entretanto, o
imperador Augusto cultivou-a como uma arte real e tentou em vo impedir os
astrlogos populares de inflamarem a plebe. A Igreja crist primitiva traou
uma distino entre astronomia e astrologia, rejeitando esta ltima como
superstio pag; ela foi regularmente condenada por conclios eclesisticos.
Santo Agostinho resumiu as crticas patrsticas  astrologia em sua Cidade de
Deus: o mundo no  governado pelo acaso ou os fados mas pela providncia
divina, e os astrlogos que predizem o carter de um homem pelos astros
fazem o trabalho de demnios na medida em que escravizam o livre-arbtrio
da espcie humana. Alguns dos seus contemporneos adotaram um ponto de
vista mais tolerante; Firmicus, por exemplo, acreditou que os astrlogos
podiam ser postos  prova e comprovar-se a exatido de seus vaticnios, e
que os ensinamentos deles podiam mostrar aos pecadores o modo correto de
viver. A prtica da astrologia teve prosseguimento na Glia, ao que parece,
at a queda do Imprio Ocidental.
      Aps muitos sculos de declnio, as idias astrolgicas ressurgiram no
Ocidente no perodo carolngio. No sculo XI, Raul Glaber escreveu sobre
prodgios e portentos, e h indcios de influncia astrolgica rabe nas obras
de muitos dos seus contemporneos. S no sculo XII os textos astrolgicos
rabes foram traduzidos em grande escala para o latim; depois, as idias de
autores muulmanos como al-Kindli -- que sugeriu poderem os astros irradiar
influncias ocultas e explicou a magia pela astrologia -- reentraram na
corrente dominante do pensamento intelectual europeu juntamente com o
Corpus das idias astrolgicas gregas. Alguns tradutores, como Juan de
Espanha, passaram a escrever seus prprios tratados astrolgicos, e
Bernardo Silvester combinou o interesse pela astrologia com a geomancia.
Alguns dos mais eminentes homens de saber do sculo XIII, como Alberto
Magno e Roger Bacon, aceitaram a influncia dos astros sobre eventos
terrenos, embora outros, incluindo Toms de Aquino, que considerou serem
muitos acontecimentos mais acidentais do que predeterminados, tenham
assumido uma opinio mais ctica. Entretanto, todos eles foram influenciados
em maior ou menor grau por conceitos astrolgicos.
      No perodo final da Idade Mdia, a astrologia foi usada em grande
escala para predizer acontecimentos: em 1337, por exemplo, Godofredo de
Meaux previu fome e distrbios em conseqncia do aparecimento de um
cometa e, como tantos outros, atribuiria a Peste Negra a uma conjuno
planetria maligna. A Guerra dos Cem Anos tambm proporcionou aos
astrlogos uma oportunidade de ouro para prever acontecimentos, e Carlos V
da Frana tinha muitos a seu servio. O uso de prognsticos astrolgicos em
medicina tambm era generalizado, e influa em matrias tais como o
diagnstico e a cura de doenas, assim como a data mais propcia para
efetuar uma cirurgia. Entretanto, crticos como Toms de Aquino tiveram seus
sucessores. No comeo do sculo XIV, o papa condenou algumas noes
astrolgicas como parte de sua ofensiva contra a magia e a bruxaria; e, cerca
de 50 anos depois, Nicolau d'Oresme negou com veemncia a influncia do
oculto e criticou a astrologia do seu tempo como perniciosa e desorientadora.
O telogo do incio do sculo XV, Jean Gerson, sublinhou a ausncia de
confiabilidade da arte, mas talvez o mais fulminante ataque contra a astrologia
tenha sido o de Pico della Mirandola na dcada de 1490 [na obra
Disputationes adversus astrologiam divinatricem libri XII NT]; nessa mesma
dcada, as obras astrolgicas de Simon de Phares foram condenadas pelo
Parlamento de Paris e pela Sorbonne. O humanismo renascentista e o
surgimento de novos mtodos astronmicos contriburam muito para abalar a
credibilidade da astrologia nos mais altos nveis intelectuais, mas sua
influncia      popular       iria     perdurar        atravs      dos
sculos.                                                 EMH
 L. Thorndike, A History of Magic and Experimental Science (1923-58); G.
Sarton, Introduction to the History of Science (1927-47); J. Tester, A History
of Western Astrology (1987)

astronomia Desde os seus mais recuados tempos, a astronomia esteve
estreitamente ligada  astrologia e, tal como esta, se bem que em menor
medida, sofreu um eclipse no comeo da Idade Mdia e um ressurgimento no
sculo XII. Os mesopotmicos, egpcios e gregos deram todos suas prprias
contribuies para a astronomia da era clssica, a qual dominou o
pensamento astronmico at ao sculo XVI. Os mesopotmicos, por exemplo,
teriam sido os primeiros a identificar e dar nomes s 12 constelaes do
zodaco, e a rastrear seus respectivos cursos atravs dos cus, ao passo que
os egpcios descobriram que a durao do ano anda muito prximo dos 365
dias. A astronomia grega assentou nessas bases mas tambm se vinculou 
especulao filosfica. Para Aristteles, o cosmo era esfrico, com a Terra
fixa em seu centro e a Lua, as estrelas e os planetas gravitando em suas
prprias rbitas em torno dela. A observao da variao na luz oriunda dos
planetas sugeriu que essa noo tinha suas falhas, e udoxo de Cnido tentou
explicar o movimento dos planetas em termos de esferas concntricas girando
em torno de seus eixos. O comportamento errtico de alguns corpos celestes
tambm tinha que ser explicado; em seu livro Almagesto (c. 150 a.C), o
grande astrnomo e astrlogo de Alexandria, Ptolomeu, atribuiu isso 
influncia de epiciclos, crculos deferentes e equantes, permitindo voltas de
retrogresso. Um certo nmero de astrnomos rabes, como Al-Bitruji
(Alpetragius), voltariam s idias de udoxo.
      A Igreja crist primitiva condenou as prticas astrolgicas e grande parte
desse saber perdeu-se, mas nas obras patrsticas foi traada uma distino
entre astrologia e astronomia, sendo esta ltima alvo de muito menos crticas.
Santo Agostinho admitiu nada haver de superstio em traar o curso dos
astros, e que o conhecimento do trajeto da Lua era til para prever a data da
Pscoa. Advertiu, contudo, contra uma preocupao com a astronomia, em
virtude de sua estreita relao com a perniciosa arte da astrologia. No incio
da Idade Mdia, praticamente nenhum trabalho especulativo foi executado em
astronomia no Ocidente, mas seu permanente valor prtico foi reconhecido.
Habilitaes astronmicas eram requeridas para um clculo rigoroso das
datas festivas da Igreja e, por volta de 525, Dionsio Exiguo inventou um
mtodo de clculo de anos pela era crist, gradualmente adotado na Europa
ocidental. Beda, o Venervel, entre outros, mostrou em sua obra um
considervel interesse por cronologia. Com o ressurgimento do saber
clssico, do reinado de Carlos Magno em diante, a astronomia voltou a ter o
seu lugar reconhecido, sendo aceita entre as quatro artes mais avanadas do
Quadrivium. Todo telogo e filsofo precisava ter algum conhecimento de
astronomia, que se tornou um assunto bastante popular no final da Idade
Mdia.
      Os sculos XII e XIII assistiram  traduo para o latim de muitas das
mais clebres obras gregas e rabes sobre astronomia. De vital importncia
foi a traduo de Almagesto por Gerardo de Cremona em 1175, mas as
idias de udoxo e de seus seguidores rabes tambm chegaram  Europa
pela mesma poca e, no sculo XIII, as duas concepes distintas
alimentaram importantes controvrsias intelectuais nas universidades. De um
lado estavam aqueles que apoiavam o sistema epicntrico de Ptolomeu, do
outro, os adeptos do sistema homocntrico de Al-Bitruji; e entre os
contendores estava Roger Bacon, que se considerou incapaz de aceitar
totalmente uma ou outra explicao. Nesse meio tempo, a astronomia era
envolvida no crescente entusiasmo pela astrologia e muitos trabalhos foram
realizados tendo em vista fins astrolgicos. Assim, no comeo do sculo XIII,
William, o Ingls, um mdico e astrlogo exercendo sua atividade em
Marselha, enfatizou a importncia de tabelas astronmicas corretas a fim de
permitir a realizao de predies acuradas. A preocupao com tais meios
de clculo estava muito generalizada; cite-se entre os mais importantes as
Tbuas Afonsinas, elaboradas para Afonso, o Sbio, rei de Castela e Leo,
no final do sculo XIII. Um outro permanente interesse astronmico era o
calendrio. No sculo XIII j estava claro que o ano juliano era
excessivamente longo, e Roger Bacon e Roberto Grosseteste, seguidos no
sculo XIV por Jean de Meurs, estavam entre os que tentaram sem xito
reform-lo. O ajuste foi finalmente realizado na maior parte do Ocidente em
1582, mas alguns Estados, como a Inglaterra, persistiram mesmo ento,
durante muitos anos, no uso do mtodo mais antigo de clculo, pelo qual havia
ainda menos correspondncia entre as estaes e as datas de calendrio.
      A crescente preciso e complexidade da astronomia e da astrologia no
final da Idade Mdia dependia de instrumentos astronmicos acurados. A
mais importante pea bsica de equipamento era o astrolbio, provavelmente
inventado por astrnomos helensticos, mas largamente usado no Ocidente
medieval. Um tratado de Chaucer mostra que o astrolbio era tanto um auxiliar
para o clculo de latitudes e declinaes como um meio de observao dos
cus. Tambm foram construdas verses mais complicadas, muitas por
mdicos-astrlogos. No comeo do sculo XV, por exemplo, John Fusoris
produziu um refinado equatrio mecnico para calcular horscopos. Ricardo
de Wallingford, astrnomo-abade de St. Albans, inventou numerosos
instrumentos, incluindo o rectangulus, utilizado para fazer observaes, e um
extraordinrio, dispendioso e elaborado relgio astronmico construdo para a
sua abadia por volta de 1320.
      Importantes crticos da astrologia, como Nicolau d'Oresme no sculo XIII
e Jean Gerson no sculo XIV, possuam considerveis conhecimentos
astronmicos. Oresme, por exemplo, discutiu at a possibilidade da rotao
diurna da Terra, embora sem renunciar  idia platnica de um universo
geocntrico. Somente em 1543  que Nicolau Coprnico publicou, pela
primeira vez, a sua teoria heliocntrica (isto , centrada no Sol), assim
revolucionando     todo     o    pensamento      astronmico. Ver   cometas;
eclipses.                                  EMH
 R.R. Newton, Medieval Chronides and the Rotation of the Earth (1972); O.
Pedersen, Early Physics and Astronomy (1974)

Atansio, Santo (c. 296-373) Bispo de Alexandria. Filho de pais cristos,
Atansio foi educado na escola catequtica de Alexandria, antes de se tornar
dicono e secretrio do bispo. Em 325, compareceu ao Conclio de Nicia,
que condenou a heresia ariana, e aps sua eleio para o bispado de
Alexandria em 328 defendeu vigorosamente os cnones desse Conclio,
apesar da perseguio. Atansio tambm deu ajuda prtica aos primeiros
grupos de monges no Egito e escreveu uma Vida de Santo Antnio do Egito.
Seus escritos incluem um famoso tratado sobre a Encarnao, mas ele 
principalmente lembrado pelo Credo Atanasiano, composto para o Conclio de
Nicia, no qual ele afirma que o Cristo e Deus Pai so de uma s substncia,
um credo que continua sendo at os dias de hoje a fundamental declarao de
f na maioria das Igrejas Trinitrias crists, ortodoxas orientais e ocidentais.

Atenas, ducado latino de Um dos principados que foi estabelecido pelos
cruzados aps a conquista de Constantinopla em 1204. Embora a prpria
Constantinopla fosse reconquistada pelos gregos em 1261, Atenas
permaneceu nas mos dos latinos por mais 200 anos. Governado primeiro
pela famlia Villehardouin e depois por Gautier de Brienne, em 1311 o ducado
foi atacado e tomado pela Grande Companhia Catal. Em 1381, entretanto, o
ducado submeteu-se voluntariamente a Pedro IV de Arago, antes de cair em
poder dos turcos otomanos no sculo XV.

tila rei dos hunos 434-53 Originalmente, dividia o governo dos hunos com
seu irmo Bleta, mas passou a reinar sozinho depois de mat-lo (445). Por
volta de 441, devastou grande parte dos Balcs e em 447 cruzou o Danbio,
assolando a Germnia e a Frana. Em 451, seu avano foi sustado em
Orleans por uma aliana de foras imperiais e visigticas, e pouco depois
sofreu nova derrota numa batalha nos Campos Catalunicos, a plancie da
Champagne [situada entre Chalns-sur-Marne e Troyes]. Em 452, invadiu a
Itlia, destruiu Aquilia, saqueou Milo e Pavia. Foi impedido de entrar em
Roma pelas splicas de So Leo e a promessa de tributo do imperador
Valentiniano III.
 E.A. Thompson, A History of Attila and the Huns (1948)

augustale ou agostaro Moeda de ouro de padro clssico introduzida pelo
imperador Frederico II no reino da Siclia em 1231, e mantida com um tipo
diferente por Carlos de Anjou at 1278. Pesava 5,25 gramas mas era de
apenas 20 quilates e meio, contendo assim 4,48 gramas de ouro puro.

aurora boreal Vises de estranhos fenmenos no cu, registradas em
crnicas e descritas, por exemplo, como "luzes santas", podem ser
freqentemente explicadas como manifestaes da aurora polar. Em 793, os
"gneos drages voadores" associados aos ataques vikings na Nortmbria
foram descritos como "uma chuva de sangue" por Alcuno, que observou a
aurora boreal de um telhado em York. Em 10 de setembro de 1173, Gervsio,
em Canterbury, fez uma descrio idnea de uma aurora vermelha nas
regies setentrionais e "raios brancos como lanas... atravessando a
vermelhido". Muitas descries de fenmenos ativos referem-se-lhes em
termos de batalhas celestiais entre o Oriente e o Ocidente. Os espetculos de
"luzes do Norte" atingem seu ponto culminante de 11 em 11 anos e so
observveis em extensas regies. Algumas vises celestiais de cruzados no
Oriente Mdio foram registradas nas mesmas noites em que a aurora boreal
foi relatada na Normandia e no Iraque, e coincidem, de fato, com relatos de
espetculos luminosos vistos na mesma poca no Extremo Oriente. Os
momentos culminantes ocorrem freqentemente em conjuno com os do ciclo
de manchas solares, e -- para dar um exemplo do bem documentado incio
do sculo XII na Europa ocidental -- foi possvel deduzir que 1111, 1119,
1128 e 1137 foram anos de intensidade mxima na atividade das manchas
solares. Tambm em termos gerais, as provas cumulativas sugerem que o Sol
esteve muito ativo no sculo VI e no final do sculo XIV, ao passo que no
sculo VII, em meados do XI e no XV, manchas solares e auroras boreais
foram muito menos freqentes. Ver astronomia; cometas.
 D.J. Schove, Sunspot Cycles (1983)

ustria Originalmente, um territrio fronteirio (Ostmark ou "marca leste") no
sudeste da Alemanha, criado pelos carolngios e otonianos como zona militar-
tampo contra as invases brbaras ao longo do Danbio. Tornou-se um
margraviato no sculo X e um ducado dentro do Imprio quando em 1156 foi
concedido a Henrique II (Jasonmirgott) de Babenberg o ttulo de duque, com
extensos poderes, em compensao pela perda do seu ducado da Baviera.
Os Babenbergs conservaram o ducado por grande parte do sculo seguinte,
at que a linhagem se extinguiu em 1246. Aps uma luta pelo poder na qual os
interesses bomios estavam intimamente envolvidos, os Habsburgos
emergiram como a famlia dominante e governaram o ducado desde 1282 at
o sculo XX. No final da Idade Mdia, a anexao de territrios na Carntia
(1335), Tirol (1363) e Trieste (1382) elevou a ustria  categoria de um
poderoso principado; foi cada vez mais considerada, no sculo XV, o centro
natural do Imprio, com Viena como a principal cidade imperial.
 A.W.A. Leeper, A History of Medieval Austria, org. por R.W. Seton-Watson
e C.A. Macartney (1941)

varos Tribo nmade mongol originria da sia central, que em meados do
sculo VI assolou o sul da Rssia, os Balcs e a Bomia, liderada por seu c,
Baian. Em 561, a expanso vara para oeste foi sustada na Turngia pelo rei
merovngio Sigeberto I da Austrsia e concentrou-se ento, com a ajuda
lombarda, na conquista da plancie hngara, a qual estava em poder dos
gpidas. Depois da partida dos lombardos para a Itlia, em 568, os varos
estabeleceram-se na Hungria, usando-a como base para a dominao dos
eslavos e para um ataque desencadeado contra o Imprio Bizantino. Embora
chegassem s portas de Constantinopla em 617, o prosseguimento do avano
foi sustado pela revolta vitoriosa dos eslavos do sul e do oeste (622-26) que
limitou efetivamente o poder dos varos, uma vez mais, s fronteiras da
Hungria.
      Entretanto, seu poderio no Ocidente s foi quebrado quando Carlos
Magno empreendeu uma srie de vitoriosas campanhas contra eles (791-97).
No incio do sculo IX, os varos comearam a perder sua identidade. Depois
de 805, muitos deles converteram-se ao Cristianismo e foram absorvidos
pelos blgaros, eslavos e, finalmente, pelos magiares.
 J.B. Bury, The Invasion of Europe by the Barbarians (1928)

Averris (1126-98) Nome latinizado do filsofo islmico Ibn-Rushd Abu al-
Walid, natural de Crdova, na Espanha. Em sua juventude estudou
jurisprudncia, teologia, matemtica, medicina e filosofia, e obteria mais tarde
importantes posies administrativas nos governos islmicos de Yacub Yusuf
e de Yusuf Yacub Al-Mansur na Espanha, alm de servir como mdico da
corte. Em 1196 foi banido juntamente com outros filsofos mas reabilitado
antes de sua morte em 1198 no Marrocos. Escreveu numerosas obras sobre
medicina e filosofia mas granjeou sua maior fama atravs de seus
comentrios a obras como De Anima e Metafsica de Aristteles, os quais
foram traduzidos para o latim e extensamente usados nas universidades da
Europa crist no sculo XIII, em especial na de Paris, onde Siger de Brabante
era o mais destacado seguidor de Averris. A grande nfase dada por
Averris  obra aristotlica e sua oposio  influncia da religio sobre a
filosofia levaram  desconfiana por parte dos ortodoxos. Alberto Magno e
Toms de Aquino atacaram os averrostas e em 1270 seus erros foram
condenados formalmente pela Igreja.
 J.H. Randall Jr., The School of Padua and the Emergence of Modern
Science (1961); Ibn Rushd, The Encyclopaedia of Islam, vol. 3 (1971)

Avicena (c. 980-1037) Mdico, cientista e filsofo rabe. Dominando a lgica,
a geometria e a astronomia desde muito cedo, Ibn-Sina Abu-Ali al-Hussein no
tardaria em tornar-se igualmente um especialista em medicina e filosofia.
Tendo ascendido a uma posio importante depois de curar o sulto de
Bokhara, passou a maior parte de sua vida ativa nas cortes de vrios
dignitrios muulmanos na Prsia. Foi profundamente influenciado por
pensadores gregos, tanto Aristteles quanto os neoplatnicos, e criou um
elaborado sistema filosfico que envolveu o mundo natural e a posio do
homem na natureza e na sociedade. Sua obra foi traduzida para o latim e
tornou-se um elemento significativo no desenvolvimento da escolstica
medieval. A nfase dada por ele  abordagem religiosa da filosofia atraiu os
ortodoxos, e o prprio Toms de Aquino ficou devendo a Avicena elementos
que usou na estrutura da Suma.
    A obra mdica de Avicena foi ainda mais influente e o seu Cnone de
Medicina, traduzido por Gerardo de Cremona, foi uma autoridade at o sculo
XVII.
 S.M. Afnan, Avicenna, his life and works (1958)

Avignon Cidade da Provena, famosa na Idade Mdia como residncia do
Papado no exlio durante o sculo IV e ainda cercada pelas muralhas que
foram construdas nessa poca. A histria dos primeiros tempos de Avignon
foi bastante tempestuosa, porquanto foi severamente hostilizada tanto pelos
brbaros do norte quanto pelos sarracenos antes de ficar ligada
sucessivamente aos reinos de Borgonha e de Aries e aos domnios dos
condes da Provena, Toulouse e Forcalquier. Embora a cidade obtivesse
status republicano no final do sculo XII, viu-se desmantelada em 1226 por
Lus VIII em conseqncia de seu apoio aos albigenses, e tambm foi forada
a submeter-se aos condes de Toulouse e Provena em 1251. Em 1309, o
papa Clemente V escolheu Avignon como sua residncia, e em 1348 a cidade
foi vendida a Clemente VI por Joana, condessa da Provena, da a Cria ter
permanecido em Avignon at Gregrio XI regressar a Roma em 1377. Dois
antipapas residiram tambm em Avignon, Clemente VII e Bento XIII, este
ltimo at sua expulso e fuga para a Espanha em 1408. O perodo de 1309-
77  s vezes conhecido por cativeiro ou exlio babilnico. Avignon
permaneceu como possesso papal aps o regresso a Roma e s viria a ser
anexada ao reino da Frana em 1791.
 G. Mollat, The Popes at Avignon 1305-78 (1963)
Azincourt, batalha de (25 de outubro de 1415) Travada no dia de So
Crispim entre as foras de Henrique V da Inglaterra e o exrcito francs
comandado por Albret, condestvel da Frana. Os ingleses tinham estado em
campanha na regio do Somme e os franceses tentaram barrar-lhes o
caminho para Calais mas foram completamente desbaratados. Seus
cavaleiros pesadamente armados foram impotentes contra as mais versteis
foras inglesas, cuja maior eficcia residia em seus besteiros. Calcula-se que
cinco mil soldados franceses foram mortos e outro milhar aprisionado, ao
passo que os ingleses teriam sofrido perdas de poucos homens de armas e
infantes. Ver Guerra dos Cem Anos
 A.H. Burne, The Agincourt War (1956) [Ph. Contamine (apres.), Azincourt,
Paris, Julliard, 1964]

Azo, o Glosador (c. 1150-1230) Jurista bolonhs, foi nomeado professor de
direito civil na universidade de sua terra natal e tambm teve papel ativo na
vida municipal de Bolonha.  principalmente conhecido por suas leituras
comentadas do Cdigo, as quais foram reunidas e compiladas por seu aluno,
Alessandra de Sant'Aegidio. Nessas leituras, Azo desenvolveu uma exposio
metdica do direito romano que foi de considervel utilidade para os juristas
de seu tempo.  Select Passages from the Works of Bracton and Azo, org.
por F.W. Maitland, Selden Society VII (1895)
                                     B
Bacon, Roger (1214-92) Filsofo e cientista ingls. Nasceu em Ilchester, no
Somerset, estudou em Oxford e foi protegido de Roberto Grosseteste, bispo
de Lincoln, antes de abandonar o escolasticismo a fim de se dedicar ao
estudo da linguagem e  cincia experimental. Em 1250 voltou a Oxford e
ingressou na Ordem Franciscana, mas no tardaram a surgir dvidas a
respeito de sua ortodoxia e em 1257 foi proibido de dar aulas, sendo enviado
para o convento da Ordem em Paris. Graas  interveno do papa Clemente
IV, Bacon foi autorizado a regressar a Oxford em 1265, onde continuou
escrevendo e realizando experimentos. Aps a morte de Clemente, porm,
Bacon foi novamente condenado por sua Ordem e chegou mesmo a ser
preso. Suas obras principais incluem Opus Majus, um tratado cientfico escrito
para seu protetor, Clemente IV, e o Compendium Studii Philosophiae, um
compndio incompleto do saber existente no sculo XIII, no qual atacou o
sistema educacional da Idade Mdia. Na compreenso e no domnio prtico
das cincias naturais, qumica e fsica, estava muito  frente do seu tempo.
Deram-lhe o ttulo de doctor admirabilis por seu vasto saber e extraordinria
capacidade de inveno (deixou diagramas e planos para mquinas a vapor,
mquinas voadoras etc), mas tambm foi suspeito, em parte por inveja, em
parte por incompreenso pura e simples, de feitiaria e de se dedicar  magia
negra.
 D.C. Lindberg, Roger Bacon's Philosophy of Nature (1983)

Bajazet I (Bayazid) sulto otomano c. 1389-1402 Consolidou o domnio turco
na sia Menor pela supresso da Bulgria (que j tinha sido conquistada por
seu pai, Murad I), a invaso da Valquia em 1394 e a derrota do exrcito
cruzado sob o comando de Joo Sem Medo, herdeiro da Borgonha, na
batalha de Nicpolis, em 1396. Embora subjugasse todas as dinastias turcas
secundrias na sia Menor, colocando-as sob seu domnio em 1390-93, no
conseguiu tomar Constantinopla, foi derrotado por Tamerlo perto de Ancara
em 1402 e morreu no cativeiro.

Balduno I rei de Jerusalm 1100-18 Com a morte de seu irmo Godofredo
de Bulho, "Defensor do Santo Sepulcro", Balduno, que tinha sido conde de
Edessa desde 1098, foi eleito o primeiro rei do recm-criado reino cruzado de
Jerusalm. Apesar dos graves problemas polticos, militares e econmicos
com que se defrontava, ele provou ser um governante capaz, hbil e bem-
sucedido. Repeliu as foras egpcias e, com ajuda genovesa, tomou os
importantes portos de So Joo de Acre, Cesaria e Sdon. Pelo competente
uso de sua autoridade como senhor feudal, aprecivel estmulo a
colonizadores e negociantes italianos, e com o apoio da Igreja, Balduno
logrou estabilizar os alicerces do seu novo reino.

Balduno IV, o Leproso rei de Jerusalm 1173-85 (n. 1160) Aos 12 anos de
idade, Balduno, filho de Amalric I e de Ins de Courtenay, sucedeu ao trono
de seu pai, se bem que j tivesse contrado a lepra que faria de sua vida um
tormento. Enfrentou dois grandes problemas que, a dois anos de sua morte,
iriam ser provadamente fatais para o reino: as faces surgidas no seio da
nobreza, intensificadas pelo casamento de sua irm e herdeira Sybil com Guy
de Lusignan, e o crescente poder de Saladino, conquistador da Sria e sulto
do Egito. A coragem pessoal e a sabedoria de Balduno eram indiscutveis, e
chegou a infligir uma derrota militar a Saladino em Montgisard (1177).
Preparou com uma regncia moderada a sucesso para seu jovem sobrinho,
Balduno V (1185-86), mas a morte do rapaz em Acre deixou o caminho
aberto para a sucesso de Guy de Lusignan e a perda de Jerusalm para
Saladino em 1187
 [S. Runciman, Historia de las Cruzadas, 3 vols., Madri, Alianza, 1973]

Baldus de Obaldus, Pietro (1320-4400) Jurisconsulto italiano, mestre em
direito Cannico e direito civil. Tendo-se diplomado na Universidade de
Pergia em 1344, Baldus lecionou em Bolonha at 1351, quando regressou 
Pergia, sua terra natal. A permaneceu at 1390, quando aceitou um cargo
docente em Pavia, onde ficou at morrer. Alm de produzir textos didticos
sobre direito romano e Cannico, que incluram comentrios sobre a obra de
Justiniano e sobre as Decretais, Baldus era um advogado que gozava de
considervel reputao. Em 1380, por exemplo, foi convocado a Roma pelo
papa Urbano VI para ajud-lo em sua luta contra Clemente VII. Mas Baldus
talvez tenha alcanado o auge da fama por sua contribuio para o estudo do
direito feudal, no comentrio sobre o Usus Feudorum.
 J.A. Wahl, Baldus de Ubaldis: a study in reluctant Conciliarism (1974)

Ball, John (m. 1381) Sacerdote e reformador social ingls. Defensor da
igualdade entre todos os homens, desempenhou um importante papel
instigando a rebelio camponesa atravs de sua pregao. Encarcerado
devido a essa pregao ousada, foi libertado pelos rebeldes liderados por
Wat Tyler durante sua marcha sobre Londres. Mais tarde foi recapturado
pelas autoridades e enforcado em St. Albans em 15 de julho de 1381. Ver
Camponeses, Revolta dos

Bannockburn, batalha de (24 de junho de 1314) Batalha em que Roberto
Bruce frustrou as tentativas inglesas para socorrer uma guarnio sitiada em
Stirling. O governador de Stirling prometera render-se aos escoceses se no
tivesse recebido auxlio militar da Inglaterra at uma determinada data. A fim
de cumprir o prazo fixado, uma fora inglesa marchou para a Esccia e foi
esperada pelos escoceses um pouco ao sul de Stirling, em terreno ngreme
flanqueado por um pequeno regato, o Bannock, que deu o nome  batalha
(Bannock burn significa precisamente "regato Bannock" NT.]. A capacidade de
Bruce como general, a forma como disps sua infantaria, e o xito dos
lanceiros escoceses para neutralizar a infantaria, desbarataram o formidvel
exrcito feudal sob o comando de Eduardo II, cujos remanescentes fugiram
primeiro para Dunbar e depois para o sul, cruzando a fronteira. A vitria dos
escoceses e a subseqente rendio de Stirling quebraram a hegemonia
inglesa na Esccia, que fora conseguida por Eduardo I. Na histria da guerra,
Bannockburn ilustra o ressurgimento de uma infantaria bem desenvolvida no
plano ttico, apoiada por arqueiros, em contraste com a preeminncia do
cavaleiro montado. Ver Arbroath, Declarao de
 G.W.S. Barrow, Robert Bruce (1976)

Barbour, John (1316-95) Poeta e eclesistico escocs. Arcediago de
Aberdeen, tornou-se depois um alto funcionrio do Tesouro escocs. 
freqentemente considerado o pai da literatura escocesa, sendo sua mais
famosa obra, The Bruce, um poema herico sobre a vida e as aventuras de
Roberto Bruce e seu lugar-tenente, Sir James Douglas.
 L.A. Ebin, "John Barbour's Bruce", Studies in Scottish Literature, 9 (1972)

Barcelona Cidade porturia espanhola do Mediterrneo que deve sua
importncia na Idade Mdia  sua posio estratgica. Os reis visigodos
Ataulfo e Amalric fizeram de Barcelona sua capital em 414-18 e 531,
respectivamente. Foi conquistada pelos muulmanos em 713 e reconquistada
pelos francos em 801. Aps a unificao de Arago e da Catalunha,
Barcelona transformou-se em importante centro mercantil, possuindo em 1258
seu prprio cdigo de direito martimo e comerciando com o Bltico, o Mar do
Norte e Alexandria. Era o centro da Grande Companhia Catal, que controlou
e dominou o ducado de Atenas durante a maior parte do sculo XIV. Em
1430, a magistratura da cidade estabeleceu uma universidade em Barcelona.
A importncia da cidade declinou no sculo XV, depois da unificao de
Arago e Castela.
 [P. Bonnassie, La Catalogue du milieu du X  la (in du XI sicle, 2 vols.,
Toulouse, Universit de Toulouse-Le Mirail, 1975-1976; C. Batlle Gallart,
Barcelona a mediados del siglo XV, Barcelona, El Albir, 1976]

Bartolo de Sassoferrato (1313-57) Jurista italiano. Depois de estudar
primeiro em Pergia e depois em Bolonha, onde recebeu seu doutorado em
1334, Bartolo foi nomeado professor de direito em Pisa (1339). Em 1343
regressou  Pergia, onde permaneceu at sua morte. Celebrizou-se por seu
comentrio sobre o Cdigo de Justiniano e por sua aplicao do direito
romano aos problemas de seu tempo atravs do uso do mtodo escolstico.
Sua preocupao principal era reconciliar os ensinamentos universais
(segundo ele os via) do direito romano com os costumes locais, e em suas
tentativas para o conseguir foi levado a argumentar que o costume local
dependia da vontade soberana do prncipe, uma concluso que contribuiu
consideravelmente para as atitudes do sculo XIV em relao  natureza da
soberania.
 C.N.S. Woolf, Bartolus of Sassoferrato (1913); M.H. Keen, "The Political
Thought of the Fourteenth-Century Civilians" em Trends in Medieval Political
Thought, org. por B. Smalley (1965)

Basilia, Conclio de (1431) Conclio geral da Igreja convocado para levar a
efeito uma reforma eclesistica, tratar da crescente ameaa dos hussitas e
chegar a um acordo com a Igreja grega. O Conclio teve um comparecimento
pequeno e foi comprovadamente um desastre do ponto de vista conciliar,
embora tenha conseguido trazer muitos hussitas de volta ao seio da Igreja.
Numa tentativa para controlar as atividades do Conclio de um modo mais
efetivo, o papa Eugnio IV dissolveu-o em 1437 e transferiu a discusso de
seus temas para um novo Conclio em Ferrara e depois em Florena, a fim de
ultimar o acordo com os gregos. Alguns dos bispos presentes em Basilia
recusaram-se, porm, a sancionar a mudana para Ferrara e, em 1439,
elegeram o duque de Sabia como o antipapa Flix V e declararam Eugnio
herege. A desorientao causada pela existncia simultnea de dois conclios
ecumnicos permitiu que os prncipes seculares da Europa fortalecessem seu
controle sobre as Igrejas nacionais, e tambm confirmou a autoridade
constitucional do Papado.

Baslio I imperador de Bizncio 867-86 (n. 812) Filho de uma famlia armnia
pobre, ganhou o favor do imperador Miguel III e foi por este nomeado co-
imperador em 866. Em 867 assassinou o seu benfeitor Miguel e estabeleceu a
dinastia macednia (867-1056). Numa tentativa para apaziguar Roma,
removeu o patriarca Fcio e reintegrou seu rival Incio no Patriarcado, embora
Fcio voltasse a gozar do favoritismo imperial aps a morte de Incio. Baslio
reconquistou Bari e partes da Calbria aos sarracenos e desbaratou os
rabes que estavam sitiando Dubrovnik. Reorganizou a marinha bizantina e em
872 desencadeou um ataque contra os paulicianos na sia Menor. Por
iniciativa sua, foi iniciada uma reviso do Cdigo de Justiniano. Compilou um
manual de direito intitulado o Prochiron e principiou a Baslica, uma nova
coleo de leis.

Baslio II, o Carniceiro Blgaro imperador de Bizncio 963-1025 (n. 958)
Tendo subido ao trono ainda menor de idade, adquiriu o poder efetivo aps
derrubar seu tio Baslio, o Eunuco, em 983. Entre 987 e 989 sufocou a revolta
de Bardas Focas com a ajuda de Vladimir, prncipe de Kiev, a quem
recompensou com a mo de sua irm, Ana Porfirognita. Em 991, Baslio
atacou a Bulgria e diz-se que em 1014 capturou e cegou 14.000 blgaros,
poupando apenas um olho de um homem em cada cem, para que ele pudesse
guiar seus compatriotas de volta  ptria. Em 1018 tinha anexado toda a
Bulgria, embora deixasse a Igreja independente. A fim de preservar o
tradicional sistema bizantino de soldados-agricultores oriundos do
campesinato, suprimiu implacavelmente a aristocracia. Durante seu reinado, o
patriarca omitiu o nome do papa Srgio IV (909-12) da liturgia, assim
comeando o cisma formal entre Roma e a Igreja ortodoxa.
 S. Runciman, A History of the First Bulgarian Empire (1930)

Baviera Regio da Alemanha situada entre os Alpes e a Bomia, que na
Idade Mdia formou um dos ducados constituintes do Sacro Imprio Romano-
Germnico. Regio semi-independente sob o mando do seu duque, Tassilo, a
Baviera foi forada a aceitar a soberania de Carlos Magno em 787 e tornou-
se parte do reino franco. Com a fragmentao do Imprio Carolngio, o
ducado recuperou boa parte de sua independncia anterior e, no comeo do
sculo X, o duque Arnulfo, o Mau, passou a executar sua prpria poltica
externa, autnoma em relao a seus vizinhos eslavos, e a outorgar-se o
direito de nomear bispos e cunhar moedas. A dinastia Saxnica apropriou-se
dos direitos de nomeao para o ducado e Henrique, irmo de Oto I, tornou-
se duque em 947, ampliando as fronteiras bvaras aps a vitria no rio Lech
em 955 e estabelecendo a Ostmark, que constituiu o alicerce da futura
ustria. Seu neto Henrique II (Santo Henrique) tornou-se imperador (1002-24).
Em 1070, o ducado passou para as mos da famlia Guelfa, mas aps a
queda de Henrique, o Leo, em 1180, Oto de Wittelsbach tornou-se duque. A
famlia Wittelsbach, com sucesso varivel, continuou governando o principado
da Baviera, o qual emergiu no mundo moderno como um dos elementos mais
estveis na comunidade poltica alem, sob a direo de Alberto, o Prudente
(1460-1508).

Bayeux, tapearia de Famoso bordado do sculo XI com 70 metros de
comprimento por 0,50 m de largura, atualmente em Bayeux, e executado em
ls coloridas sobre pano de linho. A obra narra a histria da conquista
normanda da Inglaterra desde a visita do conde Haroldo  Normandia at sua
morte no campo de batalha. Uma curta seo, hoje desaparecida, dava
provavelmente prosseguimento  histria at a coroao de Guilherme, o
Conquistador, como rei da Inglaterra em dezembro de 1066. Constitui uma
inteligente exposio do ponto de vista normando, retratando Haroldo como
um bravo guerreiro que traiu seu juramento de lealdade ao duque Guilherme e
subiu ao trono da Inglaterra como um perjuro e um usurpador. A vitria do
duque Guilherme na batalha de Hastings  interpretada como a justa
retribuio e o triunfo de uma causa legtima.  provvel que a tapearia tenha
sido executada em Canterbury a partir dos desenhos de um artista associado
 abadia de Santo Agostinho, e encomendada por Odo, bispo de Bayeux e
conde de Kent, por ocasio da sagrao da catedral de Bayeux em 1077.
 The Bayeux Tapestry, org. por F. Stenton (1958); The Bayeux Tapestry,
org. por D. Wilson (1985)

Beatriz (m. 1290) Jovem senhora da nobreza florentina a quem Dante dedicou
a maior parte de sua poesia. Usualmente identificada como Beatriz Portinari,
era a esposa de Simo de Bardi e morreu com apenas 24 anos de idade. Em
1293, Dante descreveu seu amor espiritual por Beatriz em La Vita Nuova, mas
sua principal glorificao dela deu-se na Divina Comdia (1308-20), na qual
Beatriz  a intercessora de Dante no Inferno, seu alvo enquanto viaja atravs
do Purgatrio e, finalmente, seu guia no Paraso.
 [E. Gilson, Dante et Batrice, Paris, Vrin, 1974; H. Franco Junior, "O poeta
que amava o amor: o discurso amoroso de Dante Alighieri", Ler Histria, 11,
1987, p. 15-27]

Beaufort, famlia Famlia que descende da unio de John de Gaunt, duque de
Lancaster, com Catarina Swynford. Seus filhos foram legitimados por Ricardo
II em 1397, e deles descenderam os duques de Somerset e os condes e
marqueses de Dorset do sculo XV. Henrique Tudor (Henrique VII) descendia
pela linha materna de John Beaufort (1373-1410), primognito de John de
Gaunt e Catarina, que, como conde de Somerset e marqus de Dorset, foi um
destacado partidrio de Ricardo II contra o Conselho dos Lordes.
      O mais interessante e importante dos filhos Beaufort de John de Gaunt
foi Henrique (1377-1447), mordomo real, bispo e cardeal. Foi ungido bispo de
Lincoln em 1398 e transferido para Winchester em novembro de 1404. Como
chanceler real em 1403 e de novo em 1413-17 e 1424-26, foi um destacado
administrador e importante figura poltica no reino ingls. Tambm exercitou
seus considerveis talentos num palco mais amplo, desempenhando papel
ativo no apoio a Martinho V no Conclio de Constana e, depois de nomeado
cardeal em 1425, atuando como legado papal num complexo e, em ltima
instncia, malogrado esforo para organizar uma cruzada contra os hussitas
na Hungria e Bomia. Coroou o jovem Henrique VI como rei da Frana em
Paris (1431), mas sobressaiu-se como um proeminente negociador da paz
com as revividas foras francesas. Em seus ltimos anos, concentrou-se nos
assuntos internos em Winchester, e  principalmente lembrado pelo
restabelecimento do Hospital de Santa Cruz, em Winchester.
      O terceiro irmo, Thomas Beaufort, foi um leal servidor de Henrique IV e
Henrique V. Foi nomeado chanceler em 1410 e tambm exerceu cargos na
Aquitnia e na Normandia. Foi feito conde de Dorset em 1412 e duque de
Exeter em 1416. Granjeou boa reputao como soldado e foi executor do
testamento de Henrique V. A famlia sobreviveu  Guerra das Duas Rosas
apesar de uma srie de desastres polticos, durante os quais trs sucessivos
condes e duques de Somerset foram assassinados ou decapitados. Os atuais
duques de Beaufort descendem de Henrique, terceiro duque de Somerset (um
lancastrense e firme adepto de Henrique VI), que foi executado aps a batalha
de Hexham em 1464.
 R.L. Storey, The End of the House of Lancaster (1966)

Becket, So Toms (1117-70) Educado no priorado de Merton, Surrey, e na
Universidade de Paris, tornou-se secretrio de um mercador em Londres,
antes de ingressar no servio do arcebispo Teobaldo de Canterbury. Em
1154, por recomendao do arcebispo, Becket foi nomeado chanceler real
por Henrique II e demonstrou ser um eficiente e leal servidor. Em 1162, foi
nomeado arcebispo de Canterbury.
      Aps sua eleio, mudou sua orientao poltica e comeou resistindo
vigorosamente s constantes violaes das liberdades eclesisticas por parte
do monarca. A situao tornou-se crtica a respeito da questo de clrigos
criminosos, sustentando Becket que eles no deveriam ser punidos pelos
tribunais seculares. Recusou-se a aceitar as Constituies de Clarendon
(1164) e fugiu para a Frana, apelando para o papa Alexandre III. As
negociaes foram muito demoradas e acrimoniosas, e nova crise ocorreu
quando Henrique II teve seu herdeiro coroado pelo arcebispo de York em
1170. Deu-se uma reconciliao que provou ser apenas temporria.
      Becket no conseguiu chegar a um acordo com os bispos que tinham
apoiado a coroao do jovem rei, e Henrique, em sua ira, proferiu palavras em
sua corte na Normandia que instigaram quatro de seus cavaleiros a atravessar
o Canal e assassinar Becket em sua prpria catedral, a 29 de dezembro de
1170. O homicdio chocou profundamente a opinio pblica em toda a
Cristandade. Henrique foi forado a fazer penitncia pblica e Canterbury
converteu-se num grande centro de peregrinao. Becket foi rapidamente
canonizado (1173). Ver Foliot, Gilberto
 D. Knowles, "Archbishop Thomas Becket", Proceedings of the British
Academy (1949); F. Barlow, Thomas Becket (1986)

Beda, o Venervel (672-735) Monge, telogo e historiador. Natural de
Nortmbria, foi enviado muito jovem para o mosteiro de So Pedro e So
Paulo em Wearmouth e Jarrow, onde se tornou primeiro dicono e depois
padre. Seus escritos so muito diversos; escreveu sobre gramtica e
cronologia, comps muitos e valiosos comentrios sobre as Escrituras, e
compilou uma histria das Vidas dos abades de Wearmouth e Jarrow, bem
como, em mtricas, uma Vida de So Cuteberto; tambm popularizou a
datao de eventos a partir do nascimento de Cristo. Sua mais importante
obra, aos olhos modernos,  a Ecclesiastical History of the English People,
uma obra-prima no estilo e no uso de um mtodo histrico de inexcedvel
rigor, a qual relata a histria da converso da Inglaterra ao Cristianismo e a
histria da Igreja inglesa at a poca em que a obra foi escrita (731). Beda foi
o notvel produto da Renascena nortumbriana, e sua obra continuou
exercendo poderosa influncia ao longo de toda a Idade Mdia.
 Bede's Ecclesiastical History of the English People, org. por B. Colgrave e
R.A.B. Mynors (1969); P.H. Blair, The World of Bede (1970)

Bedford, John, duque de (1389-1435) O mais velho dos irmos
sobreviventes do rei Henrique V (m. 1422). J possuidor de grande
experincia em administrao inglesa, John tornou-se virtualmente o regente
na Frana em nome de seu sobrinho Henrique IV, ento uma criana. Aps
xitos iniciais, os quais dependeram consideravelmente da aliana
borgonhesa, Bedford sofreu severos reveses infligidos por Joana d'Arc. O
papel que desempenhou no julgamento e execuo de Joana enegreceu sua
reputao. Ele morreu em Rouen, num momento em que a desintegrao da
aliana borgonhesa significou o fim do domnio ingls e o incio das fases
finais da Guerra dos Cem Anos.

Beguinas (Beguinos) Poderosa fora dentro da Igreja ocidental desde o
incio do sculo XIII, as Beguinas eram comunidades de mulheres, no comeo,
com freqncia, de origem urbana e abastada ou comparativamente
abastada, que dedicaram suas vidas, por vezes com grande austeridade, a
fins filantrpicos: assistncia aos leprosos, doentes e pobres. O foco inicial
das Beguinas foi Lige, na primeira dcada do sculo XIII, e esse nome
parece ter-lhes sido dado depreciativamente pelos ortodoxos, que as
associavam aos hereges albigenses. Propagaram-se ao longo das rotas de
comrcio do noroeste europeu e foram excepcionalmente poderosas em
Colnia, onde comunidades beguinas ainda existiam no sculo XVIII.
Mantinham estreitas ligaes com os franciscanos mas nunca foram aceitas
como Ordem. Seus equivalentes masculinos eram conhecidos como
"beghards" [beguinos], em aluso a Robert le Bgue (o Gago), pregador de
Lige. Devoo a Deus, celibato e emprego em boas obras eram suas
caractersticas dominantes. As relaes com a Igreja institucional foram
difceis durante toda a Idade Mdia, e a suspeita de heresia nunca foi
afastada. No sculo XV, muitas comunidades beguinas tinham-se convertido
virtualmente em instituies de caridade.
 [R.W. Southern, A Igreja Medieval, Lisboa, Ulissia, s/d]

Belisrio (c. 505-65) General bizantino. Tendo servido primeiro na guarda
pessoal de Justiniano, foi nomeado depois comandante do exrcito. Em 530
levou a efeito uma vitoriosa campanha contra os persas e sufocou o motim
conhecido por Nike, em Constantinopla, em 532. Foi-lhe confiado o comando
da expedio  frica vndala (533), quando tomou Cartago e aprisionou o rei
vndalo. Em nome de Justiniano, invadiu a Siclia e a Itlia (535), combateu a
os ostrogodos e conquistou-lhes a capital, Ravena, em 540. Na dcada de
560 caiu em desgraa e foi envolvido numa conspirao contra o imperador,
embora tivesse sido reintegrado na plena posse de suas honrarias antes de
sua morte.
 L.M. Chassin, Blisaire (1957); R. Graves, Count Belisarius (1938)

Bento de Aniane, So (m. 822) Espanhol de nascimento, Bento comeou em
780 a promover a estrita observncia da Regra de seu homnimo do sculo
VI, So Bento de Nrsia, em sua comunidade monstica de Aniana. Sua fama
no tardou em crescer e ele foi nomeado por Lus, o Pio, para superintender a
reforma dos mosteiros francos, impondo-lhes uma verso estrita da Regra de
So Bento em 817. O movimento no sobreviveu por muito tempo  morte de
Bento de Aniane, visto que muitas casas religiosas, inclusive Saint-Denis, em
Paris, relutavam em abandonar seus prprios costumes adotados de longa
data; mas sua Regra revista tornou-se geralmente aceita como o enunciado
ortodoxo da observncia beneditina.
 W. Williams, "St. Benedict of Aniane", Downside Review, 54 (1936); C. H.
Lawrence, Medieval Monasticism (1984)

Bento de Nrsia, So (c. 480 - c. 550) O "patriarca dos monges ocidentais"
foi um abade italiano algo obscuro em seu prprio tempo. Tudo o que se
conhece de sua vida  derivado do segundo livro dos Dilogos do papa
Gregrio Magno, escritos por volta de 593-94. Natural da regio de Nrsia,
hoje Norcia -- a data tradicional de 480  simples conjetura -- foi enviado a
escolas em Roma, contudo desgostoso com a vida de deboche da capital,
fugiu para Afide sem completar sua educao e da para a solido de
Subiaco, onde adotou a vida asctica, vivendo durante trs anos numa
caverna. Atraiu discpulos a quem organizou em pequenas comunidades de 12
membros. Finalmente, mudou-se para Monte Cassino, onde construiu um
mosteiro no topo de um cerro e que ele prprio dirigiu at morrer. Em 577,
Cassino foi saqueado pelos lombardos, ficando deserto e em runas durante
140 anos. Foi no decorrer desse perodo, ao que parece, que um grupo de
monges oriundos da Glia chegou a Monte Cassino, exumou o corpo de So
Bento e o transferiu para a abadia de Fleury Saint-Benot no Loire. Os
monges de Cassino negaram mais tarde esse traslado, pelo que ambos os
mosteiros reivindicam a posse do corpo do santo.
     A Regra de So Bento contm um prlogo e 73 captulos, estabelecendo
um plano detalhado e coerente para a organizao interna e a vida cotidiana
de uma comunidade monstica. A anlise interna da Regra prova que ela foi
compilada e ampliada ao longo de um decnio, talvez por volta de 535-545.
Recentes estudos textuais mostraram que no  to original quanto outrora se
acreditou, e que Bento se apoiou substancialmente na Regra do Mestre, uma
obra annima composta na Itlia uns 40 anos antes. Ambas as Regras devem
muito  tradio monstica oriental, especialmente aos escritos de Joo
Cassiano.
      Embora So Bento reconhea a vocao do eremita, considera um
mosteiro uma comunidade completamente cenobtica vivendo em uma casa --
uma espcie de mosteiro rural -- e dirigida por um pai espiritual, um abade,
que  eleito pelos irmos. Em comum com outros legisladores monsticos
primitivos, ele admite que a maioria dos monges, incluindo o abade, sero
leigos, sendo ordenados apenas alguns deles a fim de celebrar a Eucaristia
semanal. Ele providencia para que pais doem filhos ao mosteiro a fim de
serem criados como monges, prtica que se tornou uma importante fonte de
recrutamento na Idade Mdia. A Regra requer que o postulante adulto passe
por um ano de noviciado antes de professar seus votos, os quais incluem uma
promessa de estabilidade -- permanecer na mesma comunidade at a morte.
So Bento considera a pobreza pessoal e a obedincia centrais para a
profisso de monge. A Regra requer que o novio renuncie completamente 
propriedade de bens pessoais; tudo  propriedade comum da coletividade.
Pressupe-se que um mosteiro ser sustentado por dotaes na forma de
terras, que sero em muitos casos cultivadas por locatrios. Mas ele parece
no ter previsto a grande riqueza fundiria acumulada por muitas abadias nos
sculos seguintes.  semelhana de outros autores ascticos, So Bento faz
da total obedincia  vontade do superior o princpio bsico da vida
monstica.
      O mosteiro deve ser "uma escola do servio ao Senhor", programada
para treinar na vida espiritual os que nele ingressam. Para esse fim, a Regra
ocupa o dia do monge com uma rotina cuidadosamente ordenada de orao
em comum, leituras e trabalhos manuais. A estrutura do dia  determinada
pelas horas de culto, a que So Bento deu o nome de opus dei: as oito
missas dirias cantadas no oratrio monstico (o ofcio divino da noite ou
Viglia, o ofcio das primeiras horas do dia ou Matinas, Laudes, as horas
cannicas que se seguem s Matinas, Prima, a primeira das sete horas
cannicas, Tera, Sexta, Nona, Vsperas e Completas, as ltimas horas
cannicas do ofcio divino).  recomendado ao monge que evite o contato com
o mundo exterior e se mantenha em clausura o maior tempo possvel, mas a
Regra faz da hospitalidade uma obrigao solene -- o hspede deve ser
recebido como se fosse o prprio Cristo.
      Embora a Regra inclua um Penitencial (lista de punies para violaes
da disciplina monstica), a ascese de So Bento no  excessivamente
rigorosa ou cruel. Permite oito horas de sono no inverno e seis horas no vero
com direito  sesta. O suprimento alimentar, se no  copioso,  adequado; a
carne  proibida, exceto para os doentes, mas as refeies podem incluir uma
rao moderada de vinho. A moderao da Regra de So Bento e seu
detalhamento recomendaram-na aos fundadores monsticos, mas seu
estabelecimento como cdigo-padro de observncia ainda levaria algum
tempo a consolidar-se. Nenhum mosteiro romano parece t-la adotado antes
do sculo X. Na Glia do sculo VII  mencionada (primeiramente em
Solignac, c. 629) em conjuno com a Regra cltica de So Columbano como
guia para a vida cenobtica. Essa "Regra mista" persistiu nas abadias francas
at os Snodos de Aix-la-ChapelIe, celebrados em 816 e 817, sob os
auspcios do imperador Lus, o Pio, os quais prescreveram a Regra
Beneditina como modelo exclusivo de observncia monstica do Imprio
Carolngio. O agente do imperador na promoo desse modelo foi um monge
oriundo da aristocracia gtica da Glia meridional que tambm se chamava
Bento:     So    Bento     de    Aniane. Ver Fontevrault; Geraldo de
Brogne                                                            CHL
 C. Butler, Benedictine Monachism (1961); D. Knowles, The Monastic Order
in England (1963); C.H. Lawrence, Medieval Monasticism (1984) [C.J.
Nesmy, So Bento e a vida monstica, Rio, Agir, 1962]

Beowulf Poema pico de cerca de 3.000 versos, freqentemente datado do
sculo VIII, embora tendo sobrevivido num nico manuscrito de c. 1000 que se
encontra atualmente na Cottonian Collection da biblioteca do Museu Britnico.
Trata-se de um poema altamente requintado em estrita mtrica aliterativa e
que se constitui em uma inestimvel fonte, tratada criticamente, sobre a
sociedade anglo-saxnica, sobretudo no que se refere aos ideais de realeza,
lealdade, servio e vnculos de parentesco. O poeta era cristo e tinha alguns
conhecimentos de Virglio e de tradies clssicas, embora a substncia de
sua histria seja germnica, tratando das faanhas de seu heri epnimo na
Dinamarca e sul da Sucia.
      As trs grandes batalhas de Beowulf contra o monstro Grendel, contra a
ainda mais monstruosa me de Grendel e contra o drago que guarda o
tesouro, situam-se entre as mais brilhantes passagens da literatura germnica
primitiva e tm sido assunto de numerosas anlises como alegorias do conflito
entre o Bem e o Mal. Existe uma forte corrente da crtica moderna que coloca
a elaborao do poema em uma data mais prxima da do manuscrito (que
alguns consideram escrito pela mo do poeta), entre o final do sculo X e o
comeo do XI.
 J.R.R. Tolkein, "Beowulf: the monsters and the critics" Proceedings of the
British Academy, 22 (1936); D. Whitelock, The Audience of Beowulf (1951);
The Dating of Beowulf, org. por C. Chase (1981); Beowulf, org. por M.
Magnusson, S. Mackie e J. Glover (1987), [trad. A.G. Galvo, S. Paulo,
Hucitec, 1990]

berberes Nativos da frica do Norte que resistiram com xito  dominao,
primeiro dos romanos e depois dos rabes. Aceitando voluntariamente o Isl
em 711, os berberes auxiliaram os rabes na conquista da Espanha visigoda.
Durante o perodo almorvida, os berberes governaram a Espanha e o norte
da frica at o sculo XII.
 [G.H. Bousquet, Les Berbres, Paris, PUF, 1967]

Berengrio de Tours (c. 1000 - c. 88) Telogo e autor da heresia
eucarstica. Educado em Chartres, tornou-se superintendente da Escola de
Tours em 1031, e em 1041 foi nomeado arcediago de Angers. Seguiu e
desenvolveu a doutrina de Ratramno, que no sculo IX negou a existncia da
presena real do Cristo na Eucaristia. Berengrio sustentou que, na
consagrao, a transubstanciao no ocorria nos prprios elementos mas
somente nos sentimentos dos crentes. Suas doutrinas foram condenadas em
1050 e suas opinies encorajaram telogos da Igreja, como Lanfranc e
Guitmund, arcebispo de Aversa, a tornar mais rigorosa a doutrina da Igreja
sobre a Eucaristia.
 A.J. Macdonald, Berengar and the reform of Sacramental Doctrine (1930)

Bernardino de Siena, So (1380-1444) Natural de Massa di Carrera,
Bernardino ingressou na Ordem Franciscana em 1402 e juntou-se aos
Observantes no ano seguinte, instalando-se primeiro em Colombaio, perto de
Siena, e mais tarde em Fiesole, nas vizinhanas de Florena. Em 1417,
tornou-se Vigrio-Geral dos franciscanos observantes e, graas  sua
influncia, o nmero de suas casas aumentou de umas 20 para mais de 200.
Por sua orientao, o movimento afastou-se da vida eremtica e os frades
foram encorajados a tomar uma parte mais ativa na Igreja como pregadores e
professores, estabelecendo escolas de teologia em Pergia e Monteripido
para a instruo deles. Em 1443, Bernardino exonerou-se de suas funes e
voltou a pregar, mas sua sade declinava e ele faleceu no ano seguinte em
Aquila.
 J. Origo, The World of San Bernardino (1963)

Bernardo, So (1090-1154) Abade de Clairvaux (Claraval). Nasceu em
Fontaine, na Borgonha, e ingressou na Ordem Cisterciense em 1112. Em
1115 foi enviado a Clairvaux para fundar a terceira casa de Cteaux (Cister).
Na data da morte de Bernardo, Clairvaux contava com cerca de 700 monges,
enquanto que suas prprias casas irms incluam Rievaulx no Yorkshire
(1132), Whitland (1140) e Margam (1147) no Pas de Gales. [O mosteiro
Cisterciense de Alcobaa, Portugal, um dos mais belos e grandiosos
espcimes dos monumentos cistercienses,  de 1178. NT]
     Bernardo tambm teve grande influncia na Igreja como um todo; em
1146 foi nomeado pelo papa Eugnio III para pregar a Segunda Cruzada e
exerceu um papel preponderante na condenao dos escritos de Pedro
Abelardo. Suas prprias obras incluem numerosos sermes e um tratado
teolgico sobre o amor de Deus; mas seus mais famosos escritos so, talvez,
as cartas que endereou a Pedro, o Venervel, abade de Cluny, nas quais
condena o carter cerimonial e a suntuosidade da liturgia cluniacense. Durante
a ultima dcada e um pouco mais de sua vida, foi o defensor do pensamento
ortodoxo no Ocidente, tendo grande influncia em sua vida poltica e espiritual.
 J. Leclercq, tudes sur S. Bernard et le texte de ses crits (1953); Bernard
of Clairvaux: Studies presented to Dom J. Leclercq (1973) [Obras completas
de San Bernardo, 7 vols., Madri, BAC, 1983-1990J

Bernardo Gui (1261-1331) Inquisidor. Frade dominicano que atuou como
inquisidor em Toulouse desde 1307 at os primeiros anos da dcada de 1320,
Bernardo produziu um formidvel opsculo por volta de 1325, conhecido como
Practica lnquisitionis Heretice Pravitatis [Prtica da Inquisio na
Perversidade Hertica]. E a mais importante de suas numerosas obras
escritas, fixando os procedimentos da Inquisio, sua justificao e tambm,
de passagem, fornecendo muitos esclarecimentos acerca das crenas de
valdenses, ctaros, beguinos e judeus. O opsculo no  completamente
original, aproveitando muito de autores anteriores sobre o tema, mas a
experincia prtica do autor adiciona elementos impressionantes  descrio
de uma instituio arbitrria e muito temida.
 G.G. Coulton, Inquisition and Liberty (1938)

Bernardo de Chartres (m. c. 1130) Um dos maiores professores do incio do
sculo XII e eminente humanista da Escola de Chartres at 1124,  hoje
lembrado principalmente pelo comentrio que lhe  atribudo por Joo de
Salisbury, de que os modernos devem ser comparados aos antigos como
anes empoleirados nos ombros de gigantes; podem ver mais e mais longe,
no por qualquer virtude intrnseca que lhes seja prpria mas por que foram
iados pela grandeza dos gigantes. Mergulhado no estudo da gramtica e da
lgica, Bernardo contribuiu muito para fortalecer o conhecimento do
platonismo no Ocidente, mas parece claro que sua preeminncia era pessoal
e que atribuir continuada preponderncia  Escola de Chartres aps seu
afastamento em 1124  distorcer o verdadeiro quadro. Paris, e no Chartres,
 que emerge como o principal centro de investigao escolstica e humanista
no segundo quartel do sculo XII. Ver Renascena do sculo XII
 Renaissance and Renewal in the Twelfth Century, org. por R.L. Benson e
G. Constable (1982)

Berno (850-927) Primeiro abade de Cluny. Ingressou na Ordem Beneditina na
abadia de Saint-Martin em Autun, reformou o mosteiro de Baume-les-
Messieurs e em 890 fundou a abadia de Gigny, antes de ser solicitado por
Guilherme, o Piedoso, duque da Aquitnia, para fundar uma nova abadia em
Cluny em 909. A nova abadia, que estava colocada sob a autoridade direta da
Santa S, tornou-se extremamente popular, e muitas outras casas, incluindo a
abadia de Souvigny, foram tambm confiadas aos cuidados de Berno. Antes
de morrer, Berno nomeou Santo Odo para suceder-lhe como abade de Cluny.

besante Nome dado na Europa ocidental  moeda corrente bizantina de ouro
(solidus ou nomisma), a qual, at a dcada de 1030, era praticamente de
ouro puro e pesava 4,55 gramas. Aps um perodo de depreciao, foi
restabelecida em 1092 com o nome de hyperpyron (em italiano, perpero), que
tinha apenas 20 e meio quilates em vez de 24. A nova moeda, por sua vez,
tambm foi progressivamente adulterada nos sculos XIII e XIV, at que
deixou de ser cunhada na dcada de 1350, embora o termo hyperpyron fosse
conservado como moeda de conta.
 [P.D.Whitting, Monnaies byzantines, Friburgo, Office du Livre, 1975]
bibliotecas Tal como so hoje usadas e entendidas, as bibliotecas constituem
um legado dos primrdios da Europa e da era dos manuscritos. Embora
bibliotecas pessoais e institucionais fossem uma caracterstica importante da
cultura greco-romana, nenhuma sobreviveu  dissoluo do Imprio Romano
ocidental. Entre o final do sculo VI e meados do sculo VIII, as igrejas
europias, sobretudo as comunidades monsticas, possuam pequenas
colees de livros bsicos, o mesmo acontecendo com um pequeno nmero
de indivduos (em sua maioria clrigos, exceto no litoral mediterrneo); mas
no havia bibliotecas na plena acepo da palavra.
     Verdadeiras bibliotecas -- colees considerveis de livros focalizadas
num ncleo de textos clssicos, estveis, seguras, acessveis e
adequadamente conservadas -- surgiram de sbito no Imprio franco com
Carlos Magno (768-814). Foram iniciadas em catedrais e abadias como parte
do programa do imperador de reanimar o saber latino-cristo em seus
domnios. Em fins do sculo IX, algumas dessas bibliotecas continham entre
200 e 500 livros, e nunca cresceriam muito alm disso. Entre o colapso do
Imprio Carolngio e  sculo XII, as bibliotecas propagaram-se por toda a
Europa na esteira da atividade missionria e da reforma monstica.
     Muitas generalizaes que podem ser feitas acerca das bibliotecas
europias no sculo IX so vlidas at cerca de 1300. Dentro desse perodo,
com poucas excees, as bibliotecas existiam em instituies religiosas:
catedrais e as muito mais numerosas abadias beneditinas. Entre 200 e 500
livros constitua uma grande coleo, como as que se poderiam encontrar
numa populosa casa monstica. A composio de tais colees, e mesmo os
livros especficos que nelas figuravam, eram semelhantes em dado momento
em toda a Europa. As bibliotecas eram catalogadas, tendo sobrevivido at
nossos dias listas do sculo IX em diante. Essas colees eram para uso dos
membros das comunidades que as alojavam; das pessoas de fora, somente
as particularmente privilegiadas podiam ter acesso a elas. Entretanto, os livros
eram comumente emprestados por uma comunidade a outras, muitas vezes
para recopi-los, o que indica um dos principais mtodos pelos quais as
bibliotecas eram formadas; esse trabalho de cpia poderia ser feito in loco ou
onde o exemplar estava guardado, quer pelos prprios clrigos ou por
copistas profissionais. O outro principal mtodo de aquisio era por doao,
um ato virtuoso realizado por aqueles que se tornaram monges ou cnegos
depois de terem feito uma carreira universitria. Alguns catlogos de
bibliotecas registraram os nomes dos doadores e os ttulos de seus livros, e
essas listas indicam que uma biblioteca individual tenha usualmente entre 6 e
24 livros, embora alguns biblifilos ricos -- cujo nmero aumentou a partir do
sculo XII -- pudessem ter muito mais. At o sculo XIV, as instituies
religiosas no conservavam seus livros num recinto especial, nem mesmo num
nico lugar. Os livros eram guardados em arcas ou armrios, o mais
importante deles geralmente perto da entrada da casa do cabido, outros
talvez na prpria igreja. Segurana e manuteno eram de responsabilidade
do chantre. As instituies escreviam, com freqncia, alguma forma de
identificao da propriedade em seus livros, uma inscrio ex-libris, seguida
por um severo antema contra roubo ou dano. Quando foram construdos
recintos especiais para biblioteca, durante os sculos XIV e XV, eles foram
equipados como mobilirio especializado -- estantes ou leitoris -- e os livros
eram colocados em posio prpria e presos com corrente.
       Importantes mudanas intelectuais e sociais afetaram o desenvolvimento
das bibliotecas europias entre os sculos XIII e XV. A primeira delas foi o
crescimento das universidades. Inicialmente, como as escolas anteriores, no
possuam suas prprias bibliotecas. Isso era um problema, pois o nmero
crescente de novas universidades, de estudantes e de textos prescritos para
estudo criou uma demanda de livros sem precedente. Isso pde ser
enfrentado, em parte, simplificando e barateando a produo de livros, mas
estes ainda eram dispendiosos. Uma soluo era tornar acessvel o grande
nmero de bibliotecas institucionais j existentes. Os franciscanos ingleses, na
segunda metade do sculo XIII, criaram o primeiro "catlogo unificado",
arrolando autores e obras, bem como a indicao das bibliotecas monsticas
onde poderiam ser encontradas, usando-se para tanto um sistema de
nmeros e uma explicao. Mas, finalmente, as universidades tiveram que
fundar suas prprias bibliotecas; estas situavam-se nos colgios constituintes,
o mais antigo em Paris (a Sorbonne), seguido de Oxford (Merton College), em
fins do sculo XIII. A segunda influncia importante foi a crescente classe de
leigos ricos e instrudos, nobres ou mercadores, para quem o patrocnio do
saber e a posse de belos livros eram manifestaes de status social. Reis e
prncipes tinham desde h muito possudo pequenas colees de livros
devocionais para seu uso pessoal ou de exemplares de luxo de obras que lhes
eram dedicadas e presenteadas. Tais livros, freqentemente em vernculo,
continuaram formando o ncleo de suas bibliotecas ao norte dos Alpes --
sendo as mais famosas as dos reis da Frana e dos duques de Borgonha e
de Berry. Entretanto, naquelas reas influenciadas pelo humanismo, sobretudo
em seu bero do norte da Itlia, prncipes-mercadores com gostos e
ambies mais esclarecidos possuam considerveis bibliotecas cujo contedo
era generosamente emprestado ao seu crculo de relaes eruditas. A
biblioteca do convento de So Marcos, em Florena, fundada em 1444 por
Niccol Niccoli e Csimo de Medici, foi a primeira biblioteca da Europa que
realizou emprstimos pblicos. Os livros de propriedade de todas essas
pessoas eram profissional e esplendidamente executados.
       Durante todo esse perodo, dos sculos IX ao XV, os livros bsicos das
bibliotecas institucionais mantiveram-se razoavelmente constantes: as obras
dos grandes padres latinos e uma seleo de clssicos pagos. Com o
avanar do tempo, somaram-se-lhes um pequeno nmero de trabalhos de
literatura tcnica sobre assuntos tais como direito e medicina, os escritos de
telogos europeus e de estudiosos da Bblia, e itens de interesse local, como
as crnicas relacionadas com a vida da prpria instituio e do pas onde esta
se situa. O acesso a novo material tornou-se torrencial nos sculos XII e XIII,
formado pelos textos usados em escolas e universidades: livros bblicos
glosados e as obras de Aristteles e seus comentadores rabes e ocidentais.
Os humanistas italianos acrescentaram mais clssicos latinos e, pela primeira
vez, escritos gregos, tanto pagos quanto cristos. Durante esse perodo, o
pblico leitor, em especial o leitor de latim, era uma frao minscula da
populao e, antes de 1300, estava limitado ao clero. Mesmo assim, dado
que os livros eram terrivelmente dispendiosos, ler um livro de biblioteca era
uma experincia muito mais comum para a pessoa instruda do que a
propriedade pessoal de um volume. Assim, o papel das bibliotecas
institucionais na preservao e disseminao do conhecimento foi vital, ao
passo que o papel desempenhado por livros de propriedade privada foi
insignificante    antes    do    sculo    XIV. Ver   livros  manuscritos;
caligrafia                     RT
 J.W. Clark, The Care of Books (1902); The Medieval Library, org. por J.W.
Thompson (1939); F. Wormald e C.E. Wright, The English Library before
1700 (1958); Medieval Scribes, Manuscripts and Libraries; Essays presented
to N.R. Ker, org. por MB. Parkes e A.G. Watson (1978)

Biondo, Flavio (1392-1463) Humanista, historiador da Antigidade romana e
secretrio da Cria papal. Tendo ingressado no servio papal em 1433, foi
nomeado scriptor [escrevente] das letras apostlicas e, com exceo de um
breve perodo (1449-53), permaneceu nesse cargo at morrer. Considerado
um dos fundadores da historiografia moderna, suas obras incluem as
Dcadas, uma histria geral cobrindo o perodo de 410-1410, e publicado em
Veneza, em 1483; Roma Instaurata, um catlogo descritivo dos monumentos
e runas de Roma, completado em 1446 e publicado em 1471, e Italia
Illustrata, uma descrio arqueolgica e histrica da Itlia que fornece valiosas
informaes sobre os monumentos existentes na Itlia quatrocentista.
 D. Hay, `The Decades of Flavio Biondo", Proceedings of the British
Academy (1959)

Bizncio Antiga cidade grega no Bsforo, transformada na cidade de
Constantinopla por Constantino, o Grande, em 330. Converteu-se na nova
Roma, segunda capital do Imprio Romano, o centro de irradiao do que 
conhecido como civilizao bizantina. Sua cultura era um amlgama de grega,
romana e crist; sua lngua oficial era o grego, embora seus cidados se
chamassem romanos. Suas leis baseavam-se no direito romano, e suas vidas
estavam impregnadas de f crist em sua forma ortodoxa.
     A converso de Constantino ao Cristianismo e a fundao de
Constantinopla determinaram o futuro da parte oriental do Imprio Romano.
Quando a parte ocidental foi invadida pelos brbaros no sculo V, a Nova
Roma adquiriu ainda maior importncia como residncia do imperador e do
seu bispo, o patriarca de Constantinopla. Foi da que, no sculo VI, Justiniano
dirigiu a reconquista do norte da frica, Itlia e Espanha, com sucesso
limitado. Mas no sculo VII o mundo mediterrneo era permanentemente
afetado pela chegada dos rabes e dos eslavos. Os rabes conquistaram as
mais ricas provncias de Bizncio no leste; os eslavos instalaram-se nos
Balcs e na Grcia, introduzindo uma cunha que rachou ao meio o antigo
mundo romano. Constantinopla e seus territrios remanescentes estavam
empobrecidos e separados do Ocidente; sua sobrevivncia dependia da
defesa.
       Os imperadores dos sculos VII e VIII, principalmente Herclio I e Leo
III, dividiram as provncias em "temas" ou zonas militares, cada uma com o
seu prprio comandante. Os agricultores locais forneciam e equipavam os
soldados em troca de um direito inalienvel  terra que cultivavam. Os
padres sociais e econmicos anteriores foram assim radicalmente mudados.
Foram os exrcitos das "temas" que asseguraram a sobrevivncia do Imprio,
rechaando os eslavos na Europa e os rabes na sia Menor.
     Os missionrios partiram para espalhar o evangelho do Cristianismo
ortodoxo entre os eslavos e os russos -- e com ele a cultura, a arte e as
letras bizantinas. Um novo puritanismo refletiu-se no movimento iconoclasta
iniciado por Leo III, quando decretou que a verdadeira religio no tinha
necessidade de auxlios visuais. Sua poltica provocou um virulento conflito
mas, quando a batalha pela sobrevivncia tinha sido ganha, a tradio
reafirmou-se. O iconoclasmo tambm aprofundou a brecha entre cristos
ocidentais e orientais, porquanto o papa declarou essa doutrina hertica. Em
800, ele coroou um imperador de sua prpria escolha na pessoa de Carlos
Magno.
    A idade dourada de Bizncio foi, aproximadamente, de 850 a 1050. O
Imprio estendia-se de novo desde o sul da Itlia at a Sria e Armnia.
Dispunha de um exrcito e de uma marinha poderosos, e de uma economia
monetria vigorosa, baseada em sua moeda de ouro. A vitoriosa dinastia dos
imperadores "macednios", iniciada com Baslio I em 867, reforou o mito de
sua superioridade e permanncia por deciso divina. Eles encomendaram
alguns dos mais refinados produtos da arte e da arquitetura bizantinas; o
saber e a literatura floresceram graas ao mecenato de homens como o
patriarca Fcio e o imperador Constantino VII Porfirogneto. Os soldados-
imperadores, Nicforo II Focas e Joo I Tzimiskes, levaram as fronteiras
orientais mais longe do que nunca. Baslio II solucionou o demorado problema
de seus vizinhos setentrionais anexando implacavelmente a Bulgria. Mas o
declnio comeou pouco depois de sua morte em 1025; o sistema de "temas"
foi abalado pelo crescimento de uma nova classe de aristocrticos
proprietrios rurais hereditrios, aptos a comprar as terras aos camponeses
livres, e a autoridade centralizada comeou a desmoronar. Em 1071, os
turcos seljcidas derrotaram o exrcito bizantino em Manzikert, na Armnia, e
penetraram na sia Menor. No mesmo ano, os normandos conquistaram a
ltima possesso bizantina no sul da Itlia.
       O declnio de Bizncio coincidiu com o renascimento da Europa. Os
ocidentais chegavam ao Oriente Mdio primeiro como peregrinos  Terra
Santa, e depois como cruzados. Sua presena e aes fortaleceram os
preconceitos bizantinos contra eles. O cisma entre as Igrejas de Roma e de
Constantinopla, dramaticamente anunciado em 1054, era sintoma de uma
divergncia ideolgica muito mais profunda. Os mercadores venezianos que
acompanhavam os cruzados adquiriram um extraordinrio apetite pela riqueza
de Bizncio. Em 1204, eles saciaram-no atravs da Quarta Cruzada, que
encontrou (ou perdeu) seu caminho para Constantinopla.
      Durante um certo tempo, a Nova Roma e grande parte de seu territrio
estiveram sob administrao latina, estrangeira. Bizncio nunca se recuperou
totalmente do choque da Quarta Cruzada. Os latinos foram expulsos de
Constantinopla em 1261 e um Imprio fragmentado continuou vivendo por
quase 200 anos. No sculo XIV produziu um notvel renascimento de arte,
erudio e vida monstica. Mas sua estrutura, economia e defesas tinham
sido despedaadas; no encontrou fora bastante para resistir ao novo e
vigoroso ataque dos turcos otomanos quando irromperam na sia Menor. Os
apelos de ajuda dirigidos ao Ocidente obtiveram pouca ressonncia, os papas
no acudiriam a cristos que estavam em cisma com Roma. Em 1439, no
Conclio de Florena, o imperador engoliu seu orgulho e foi proclamada a
unio das Igrejas grega e romana. A maioria de seus sditos denunciou o
acordo como uma traio  sua f ortodoxa, mas era tarde demais: os turcos
j tinham conquistado a maior parte da Europa oriental. Constantinopla estava
isolada. Em 29 de maio de 1453, aps uma longa e herica resistncia, as
muralhas da cidade que tinha, durante mil anos, defendido o flanco oriental da
Cristandade, foram quebradas pela nova tecnologia da artilharia pesada. A
Constantinopla bizantina converteu-se na Istambul turca, capital do Imprio
Otoniano. Ver Igreja Ortodoxa Oriental; Ducas, dinastia; Isauriana, dinastia:
Nicia, imprio de; Palelogo; Trebizonda, imprio de                 DN
 G. Ostrogorsky, History of the Bizantine State (1968); D.M. Nicol, The Last
Centuries of Byzantium 1261-1453 (1972); D. Obolensky, The Byzantine
Commonwealth (1974); R. Browning, The Byzantine Empire (1980); C.
Mango, Byzantium, the Empire of New Rome (1980); M. Angold, The
Byzantine Empire, 1025-1204 (1984) [A. Vasiliev, Historia del Imperio
Bizantino, 2 vols., Barcelona, Joaquin Gil, 1946; L. Brhier, El mundo
bizantino, 3 vols., Mxico, UTEHA, 1955-1956; S. Runciman, A civilizao
bizantina, Rio, Zahar Editores, 1961]

Blondel Trovador da corte de Ricardo Corao de Leo. De acordo com os
relatos sobre o cativeiro de seu real senhor, Blondel teria identificado Ricardo
em seu castelo-priso ao escutar o rei cantando uma de suas canes
favoritas; isso possibilitou abrir as negociaes para o resgate do monarca.
Boaventura, So (1221-74) Natural de Bagnoreggio, perto de Orvieto,
Boaventura tornou-se franciscano em 1243, estudou com Alexandre de Hales
em Paris e em 1253 tornou-se mestre na Escola Franciscana dessa cidade.
Em 1257 foi eleito Geral da Ordem. Embora Boaventura sustentasse muitas
das idias originais de So Francisco, rejeitou a posio extremada dos
Espirituais que condenavam o saber em sua busca da pobreza absoluta. Entre
1266 e 1268, escreveu um comentrio  Regra de So Francisco que ajudou
a remodelar a Ordem como um todo, mas tambm alienou ainda mais os
Espirituais. Boaventura desempenhou um papel influente na Igreja. Em 1273
foi nomeado cardeal-bispo de Albano, enquanto em 1274 assumia um papel
de destaque no Conclio de Lyon, o qual ps temporariamente fim ao cisma
entre Oriente e Ocidente. Telogo mstico, Boaventura advogou uma
abordagem mais emocional dos mistrios divinos, em vez do mtodo
puramente racional empregado pelo seu contemporneo Toms de Aquino.
Seus principais escritos incluem o Breviloquium, o Itinerarium Mentis ad
Deum e um comentrio sobre as Sentenas de Pedro Lombardo.
 S. Bonaventura 1274-1974, org. por J.G. Bougerol (1973-74) [So
Boaventura, Obras escolhidas, org. por L.A. De Boni, Porto Alegre, Sulina,
1983]

Boccaccio, Giovanni (1313-75) Natural de Certaldo ou de Florena, foi
desde muito cedo colocado no banco Bardi e estudou direito antes de se
voltar para a literatura. Grande parte de sua juventude foi passada em
Npoles mas, depois de 1340, regressou a Florena, onde teve uma vida ativa
em embaixadas  Romanha, Milo, Npoles e Avignon (1365) e como um dos
magistrados florentinos para um mandato de dois anos j no perodo final de
sua vida.  principalmente recordado por sua grande contribuio para a
literatura verncula, sobretudo por seu Decameron (c.1350), uma comdia
humana baseada na extenso do bem e do mal no ocaso da sociedade
medieval. O enredo diz respeito a dez jovens aristocratas que se retiram para
uma colina da regio de Fiesole durante a peste, instalam uma corte de prazer
e contam histrias uns aos outros sobre vrios temas, em sua maior parte
explicitamente sexuais. Seu realismo, tom secular e explorao profunda e
voluptuosa da natureza humana, sua cupidez e sexualidade, no tardaram em
exercer inegvel influncia numa escala europia, se bem que Boccaccio
lamentasse muitos anos depois a falta de gravitas [seriedade] da obra.
     Seus escritos posteriores em latim, produzidos sob a influncia de
Petrarca, reagem fortemente contra o esprito do Decameron que, no
obstante, permaneceu como uma das mais importantes obras da literatura
europia, admirada e copiada por humanistas e poetas desde Chaucer at os
principais escritores italianos do sculo XVI.
 C. Muscetta, Boccaccio (1972) [V. Branca, Bocado y su epoca, Madri,
Alianza, 1975; Decamero, trad. T. Guimares, S. Paulo, Abril, 1970]

Bocio (Ansio Mnlio Torquato Severino, 480-524) Educado em Atenas e
Alexandria, o romano Bocio exerceu considervel influncia sobre o
desenvolvimento do pensamento medieval. Em 510, foi cnsul de Roma
durante o governo do rei ostrogodo Teodorico, o Grande, at que, acusado de
traio, foi encarcerado em Pavia e executado. Enquanto esteve na priso
escr eveu Consolatio Philosophiae [Consolao da Filosofia], na qual
descreveu a busca da sabedoria e o amor a Deus como as verdadeiras fontes
da felicidade humana. Embora pretendesse traduzir todo o Corpus da obra de
Plato e Aristteles para o latim, esse projeto nunca foi concludo. Seu uso do
mtodo aristotlico provou exercer imensa influncia no incio da Idade Mdia.
Pensadores cristos aceitaram Bocio como um de seus grandes mestres e
sua obra era amplamente conhecida.            Alfredo, o Grande, traduziu a
Consolatio para o anglo-saxo. Foi principalmente atravs da influncia de
Bocio que o esquema romano de diviso da educao em sete artes liberais
foi adotado como base do sistema medieval de ensino. [267]
 Boethius: His Life, Thought and Influence, org. por M. Gibson (1981); H.
Chadwick, Boethius (1981)

Bomia Territrio que no incio da Idade Mdia era predominantemente
povoado por uma etnia eslava conhecida como tchecos. Estes eram
governados pela dinastia Premislida, por volta de 870-1306, a qual aceitou o
Cristianismo na sua forma ocidental no sculo IX. As relaes com povos
eslavos vizinhos (morvios e poloneses), com magiares e sobretudo com
germnicos, eram conturbadas e com freqncia hostis, se bem que, no
sculo XIII, a influncia germnica fosse muito forte e os bomios se vissem
aceitos como importante unidade poltica no mbito do Sacro Imprio
Romano-Germnico. Depois de 1306, com a morte do ltimo monarca da
antiga dinastia, Joo de Luxemburgo, filho do imperador Henrique VII, foi
escolhido para rei. O reino bomio alcanou o seu apogeu poltico com o filho
e sucessor de Joo, Carlos IV, Sacro Imperador Romano em 1346-78, que
fundou a grande Universidade de Praga em 1348 e elaborou uma constituio
imperial (a Bula de Ouro de 1356), a qual confirmou o rei da Bomia como um
dos sete eleitores. A posterior histria medieval bomia  dominada por lutas
religiosas em que as aspiraes nacionais tchecas se entrelaaram com
profundas paixes religiosas dirigidas contra a riqueza e as doutrinas da
Igreja. A morte de Joo Huss na fogueira, durante o Conclio de Constana
(1415) precipitou uma luta implacvel, no decorrer da qual o gnio militar do
general hussita Ziska ganhou grande independncia, confirmada por um ajuste
entre os hussitas moderados e os catlicos em 1433. Ver Venceslau
 F. Dvornik, The Making of Central Europe (1949); R. Betts, Essays in
Czech History (1969); J.F.N. Bradley, Czechoslovakia (1970)

Boemundo I (1052-1111) Prncipe de Antioquia. Primognito de Roberto
Guiscard, duque normando da Aplia e Calbria. Boemundo lutou ao lado de
seu pai contra o Imprio Bizantino em 1081-85. Embora deserdado na morte
do pai (1085), Boemundo reuniu um exrcito e juntou-se  Primeira Cruzada
em 1096. Em 3 de junho de 1098 foi o principal responsvel pela tomada de
Antioquia, tornando-se o seu primeiro prncipe latino. Em 1100 foi feito
prisioneiro pelo emir de Capadcia e, aps sua libertao, foi atacado em
1104 pelo imperador bizantino Aleixo Comneno, que reclamava Antioquia como
feudo do Imprio; a frota bizantina devastou muitas das propriedades de
Boemundo na Cilcia. Regressando ao Ocidente, Boemundo revidou atacando
os bizantinos na Dalmcia, mas foi derrotado e forado a aceitar as condies
que estabeleciam a suserania bizantina sobre Antioquia.

bogomilos Adeptos de uma seita hertica que surgiu na Bulgria em meados
do sculo X, e que no sculo seguinte se propagou pela sia Menor e
Provena. Devendo sua origem ao Maniquesmo, os bogomilos eram dualistas
que acreditavam na existncia de um Deus bom, criador do esprito, e de um
Deus mau, criador do mundo material. Foram esmagados na Bulgria em
1211 mas sobreviveram na Bsnia por quase dois sculos aps a invaso
trtara. Foi somente em 1340 que os missionrios franciscanos comearam
pregando o Catolicismo na Bsnia e s em 1450 o rei Tom obrigou seus
sditos a aceitarem o Cristianismo ortodoxo. Os adeptos bogomilos restantes
fugiram ento para a Herzegovina, onde muitos deles se converteram ao
Islamismo. Ver albigenses
 D. Obolensky, The Bogomils (1948) [S. Runciman, Le manichisme
mdival. L'hrsie dualiste dans le Christianisme, Paris, Payot, 1972]

Boileau, Etienne de (c. 1205 - c. 70) Seus laos de famlia eram com
Orlans, onde ele exerceu o cargo de preboste, mas granjeou sua reputao
como advogado e administrador a servio de So Lus, a quem acompanhou
na malfadada cruzada de 1250. Uma medida de sua importncia  que um
resgate de 2.000 libras de ouro tenha sido pago para retirar Boileau de seu
cativeiro. No regresso  Frana, recebeu o honorfico e rendoso cargo de
preboste de Paris, e foi a experincia adquirida nessa funo que o habilitou a
escrever o Livre des Mtiers [Livro dos Ofcios], uma fonte de primordial
importncia para a histria da indstria do sculo XIII, de sua organizao e,
na verdade, do desenvolvimento urbano medieval e das guildas e corporaes
profissionais.
 R. de Lespinasse e F. Bonnardot, Les Mtiers et Corporation de la Ville de
Paris (1879); E. Farei, La Vie quotidienne au temps de St. Louis (1938)
Boleslau I, o Grande (tambm cognominado "o Valente") rei da Polnia 992-
1025. Filho de Mieszko I, o primeiro prncipe cristo da Polnia, Boleslau
sucedeu a seu pai em 992. Em 996, conquistou a Pomernia e
subseqentemente ocupou a cidade tcheca de Cracvia. Aumentou ainda mais
sua influncia por sua defesa do bispo Adalberto de Praga (que foi mais tarde
martirizado e finalmente canonizado) e por sua coroao no ano 1000, pelas
mos do imperador Oto III. Aps a morte de Oto, Boleslau no perdeu
nenhuma oportunidade de expandir as fronteiras da Polnia. Penetrou at o
Elba e ocupou grande parte da Bomia antes de obter vantajosas condies
de paz em Bautzen, em 1018. Antes de sua morte, atacou ainda Yaroslav,
gro-duque de Kiev, a quem desbaratou nas margens do rio Bug, que nessa
poca formava a fronteira natural entre a Rssia e a Polnia.

Bolonha, Universidade de Fundada no sculo XI em conseqncia do
ressurgimento do interesse pelo estudo do direito, a fama de Bolonha era to
grande em meados do sculo XII que o imperador Frederico I convocou seus
doutores em leis a Roncaglia para emitirem um parecer em seu conflito com
as comunidades lombardas.  semelhana da Universidade de Paris, a de
Bolonha estava organizada em naes e em 1265 estas incluam estudantes
vindos de pases to distantes como a Inglaterra, a Polnia e a Hungria. O
prestgio de Bolonha baseou-se principalmente na obra de dois homens:
Irnrio, que por volta de 1080 separou o estudo do direito das outras artes, e
Graciano, que em 1140 unificou o direito Cannico em seu Decretum e o
distinguiu da teologia. Hondrio III concedeu  Universidade um certo grau de
autonomia em 1218 e mais adiante, nesse mesmo sculo, l comeou a se
desenvolver uma notvel escola de medicina.
 CM. Ady, The Bentivoglio of Bologna (1969)

Bonifcio, So (c. 675-754) Apstolo da Germnia. Batizado com o nome de
Winfrith de Crediton, Bonifcio nasceu em Devon e foi educado em Exeter e
em Nursling (Hampshire). Sua primeira expedio missionria  Frsia em 716
foi um fracasso, mas em 719 recebeu instrues papais para empreender
trabalho evanglico a leste do Reno. Foi sagrado bispo dos germanos em 722
e arcebispo em 732, quando instalou finalmente sua s em Moguncia [Mainz
em alemo]. Ao longo de sua carreira, permaneceu em contato ativo com sua
ptria, que lhe forneceu muitos missionrios e considervel apoio material. Em
contrapartida, Bonifcio provou ser uma grande fonte de energia espiritual
para a Igreja inglesa, encorajando, instruindo e admoestando o Estado secular
e a ordem espiritual.
     Na prpria Germnia, fundou numerosos bispados, incluindo as ss de
Salzburgo, Regensburg e Passau, no sul, Wrzburgo, Erfurt e Braburg, no
norte. Criou mais tarde a abadia de Fulda, da qual ele prprio foi abade. Os
francos apoiaram suas misses com o poder militar e Bonifcio tornou-se uma
figura-chave em acontecimentos que culminaram na reforma eclesistica na
Francnia, na dcada de 740, durante o reinado de Pepino, o Breve. Apoiou a
deposio do ltimo rei merovngio e coube-lhe sagrar Pepino, em 751, como
rei dos francos; com efeito, o papel de Bonifcio no campo missionrio, como
reformador ativo, ajudou a estabelecer uma fecunda parceria entre Roma e a
nova monarquia crist da Francnia. Em 754, Bonifcio partiu para uma nova
tentativa de converso dos frsios mas, em 5 de junho, foi martirizado em
Dokkum com cerca de 50 companheiros.
 W. Levison, England and the Continent in the Eighth Century (1946)

Bonifcio VIII papa 1294-1303 (n. Benedetto Gaetani em Anagni, c. 1233)
Estudou direito antes de se tornar cardeal-dicono em 1281, cardeal-bispo em
1291 e, finalmente, papa em 1294. Deu substanciais contribuies para o
direito Cannico no Liber Sextus, uma anlise dos principais desenvolvimentos
jurdico-eclesisticos desde 1234 at seus prprios dias. Conflitou com os reis
da Frana e da Inglaterra em torno da questo de tributao do clero e em
sua Bula Clericis Laicos (1296) estabeleceu o princpio de que tal tributao
requeria o prvio consentimento papal para que pudesse ser considerada
legalmente vlida. Em Roma, e na Itlia de um modo geral, tornou-se cada
vez mais poderoso, derrotando seus arqui-rivais, a famlia Colonna, em 1298,
e proclamando com pleno xito o primeiro Ano Santo em 1300 (comemorado
pelo afresco de Giotto na igreja de So Joo de Latro em Roma). As
relaes com o monarca francs Filipe IV tornaram-se cada vez mais
tempestuosas, sobretudo depois da priso do amigo de Bonifcio, Bernard
Saisset, bispo de Poitirs, em 1301. Um excesso de confiana levou o papa a
promulgar a Bula Unam Sanctam [Una e Santa] em 1302, e  uma das ironias
da histria medieval que essa declarao extrema em favor da supremacia
teocrtica papal, quer em questes espirituais quer em temporais, fosse
divulgada num momento em que as monarquias da Inglaterra e da Frana
estavam construindo fortes sistemas estatais que envolviam um rigoroso
controle da temporalidade de suas respectivas Igrejas. A reao francesa 
divulgao da Unam Sanctam foi rpida e brutal: o papa foi capturado,
maltratado em Anagni e faleceu em 1303, principalmente em conseqncia do
tratamento impiedoso que recebeu e da humilhao sofrida. [200]
       [Em Portugal, coube ao rei D. Dinis (1261-1325), usando de grande
sagacidade diplomtica, tomar a deciso de desvincular a autoridade real da
jurisdio da Santa S, em resposta  Bula Unam Sanctam e na esteira do
movimento de fortalecimento do Estado que se registrava na Frana e na
Inglaterra. As divergncias com o clero puderam ser sanadas sem a
ocorrncia de graves conflitos. Ver Clemente V; Filipe IV, o Belo; Templrios
NT]
 T.S.R. Boase, Boniface VIII (1933)

Brgia, famlia Famlia de origem espanhola que desempenhou um importante
papel na poltica da Itlia. Em 1455, Afonso Brgia, bispo de Valncia, foi
eleito papa, adotando o nome de Calisto III, e a famlia mudou-se para Roma.
Ele favoreceu enormemente seus parentes, sobretudo seu sobrinho Rodrigo
Brgia, a quem fez cardeal. Em 1492, o prprio Rodrigo era eleito como papa
Alexandre VI, e passou a maior parte de seu pontificado consolidando o poder
de sua prpria famlia. Em 1496, fez seu filho Giovanni (m. 1497) duque de
Benevento; nomeou seu segundo filho, Csar (n. 1476), cardeal em 1493. Em
1498, Csar foi dispensado de seus votos, casou com uma princesa francesa
e empreendeu em seguida a conquista da Romanha e mbria. Era totalmente
inescrupuloso; a fim de proteger suas fronteiras setentrionais, assassinou o
marido de sua irm Lucrcia e casou-a com o futuro duque de Ferrara.
Tambm eliminou o cardeal Paolo Orsini e o duque de Gravina, que estavam
resistindo ao seu governo em Urbino. Aps a morte de seu pai em 1503,
Csar foi banido de Roma pelo papa Jlio II e preso na Espanha, mas
escapou e morreu combatendo em Castela (1507).
 M. Mallett, The Borgias (1969)

Borgonha O primeiro reino de Borgonha foi criado no sculo V nos vales do
Saona e do Rdano pelos burgndios, um povo germnico cuja ptria
tradicional situava-se s margens do Bltico e na ilha de Bornholm. As lendas
sobre a movimentao deles atravs do continente e de seus conflitos com os
hunos nos anos caticos de meados do sculo V, constituem a base do maior
poema pico alemo da Idade Mdia Central: a Cano dos Nibelungos.
Historicamente, eles ficaram sob o domnio dos francos no incio do sculo VI,
embora preservando certa identidade legal e tnica.
      Com a desintegrao do Imprio Carolngio no sculo IX, surgiram duas
unidades polticas: o reino do Borgonha, que passou depois de 1032 para
mos imperiais, e o ducado de Borgonha, o qual se tornou parte do reino da
Frana e era governado por um ramo secundrio dos capetos (1031-1361). O
reino formava um tampo entre a Frana e a Itlia, e consistia essencialmente
no vale inferior do Rdano e territrios para leste, incluindo Lyon, Vienne,
Aries e o condado da Provena at o Mediterrneo. O ducado localizava-se a
leste de Saona, com importantes centros em Dijon e Autun, e causou o maior
impacto sobre a civilizao medieval atravs de sua vida monstica nos
sculos XI e XII; fortemente influenciado por Cluny, foi ainda a ptria de
Vzelay e Cteaux (Cister).
      A situao territorial foi ainda mais complicada no sculo XII pelo
surgimento de uma Borgonha Cisjurana virtualmente independente (depois de
1127), no incio governada pelos condes de Mcon, o chamado Franco-
Condado, Besanon e as terras frteis entre o curso setentrional do Saona e
o Doubs. No sculo XIV, o ducado e o condado uniram-se (1384) quando
Filipe, o Calvo, duque de Borgonha, casou com Margarida de Flandres,
herdeira do Franco-Condado, iniciando assim um sculo de grandeza
borgonhesa. Os duques buscaram os ingleses como aliados em seus esforos
para evitar o controle francs e, sob Filipe, o Bom (1419-67), e Carlos, o
Temerrio (1467-77), criaram uma poderosa unidade poltica ao longo da
chamada "linha crtica" da Europa ocidental, dividindo franceses e alemes.
Uma ampla renovao da erudio, da arte, da literatura e da civilizao teve
lugar nessa Borgonha alargada do sculo XV. Ver Maria de Borgonha
 J. Calmette, The Golden Age of Burgundy (1962); R. Vaughan, Valois
Burgundy (1975)

Boron, Roberto de Escritor que inspirou um vasto ciclo Graal-Lancelote de
romances arturianos e completou sua cristianizao associando-o  histria
bblica. Ignora-se se chegou a completar a sua pretendida Grant Estoire dou
Graal; apenas dois fragmentos sobrevivem: Verse Joseph e Merlin. Verses
em prosa desses romances, o Didot-Perceval, o Mort Artu, a Vulgata ou o
ciclo Walter Map e o ciclo Pseudo-Boron foram-lhe atribudos mas so muito
provavelmente de redatores posteriores que se apoiaram em sua obra.
Roberto era, ao que se supe, de Boron (Borgonha) e de formao clerical.
Ele menciona ter lido sua obra para Gautier de Montbliard que partiu em
Cruzada (1202) e suas obras foram provavelmente produzidas em Montbliard
(Borgonha), por volta de 1200. Ver Santo Graal
 W.A. Nitze, "Messire Robert de Boron: Enquiry and Summary", Speculum,
28 (1953); L. Charvet, Des Vaus d'Avalon  la Queste du Graal (1967)

Bsnia Originalmente parte da Srvia, a Bsnia tornou-se uma entidade
poltica independente em 960. No sculo XII, a Bsnia foi invadida pelos
hngaros e converteu-se oficialmente ao Cristianismo latino nos banatos de
Kulin Col (c. 1204) e Ninoslav (m. 1250). Entretanto, os hereges Bogomilos
continuaram sendo numerosos na Bsnia at o sculo XV, quando muitos
deles foram convertidos ao Isl depois que o pas passou a estar sob o
controle dos turcos. S em 1463  que a Bsnia se tornou oficialmente uma
provncia turca.
 S. Seton-Watson, A Short History of the Yugo-Slavs (1938)

Botticelli, Sandro (1445-1510) Pintor florentino. Filho de um curtidor, foi
primeiro aprendiz de ourives antes de estudar arte com Fra Filippo Lippi. Em
1470 comeou trabalhando independentemente, tendo participado da
decorao do Palazzo dell'Arte na Cercania e executado vrios afrescos na
Capela Cristina (1481). Sua principal obra foi em Florena, onde foi
patrocinado pela famlia Medici; para ela executou seus dois mais famosos
quadros: Primavera e O Nascimento de Vnus. Na dcada de 1490 tornou-se
adepto de Savonarola e, da em diante, suas pinturas foram
predominantemente austeras e de temtica religiosa.
 R. Lightbown, Sandro Botticelli (1978)

Bouvines, batalha de (27 de junho de 1214) Batalha em que Filipe II da
Frana obteve uma vitria decisiva contra uma coalizo formada pelas foras
de Joo Sem Terra e do Sacro Imperador Romano Oto IV. O plano imperial
da campanha fracassou quando Joo Sem Terra, que deveria instigar a
revolta contra Filipe na regio oeste da Frana, foi derrotado em La Roche-
aux-Moines, perto de Angers, em 2 de julho de 1214. Usando essa vitria,
Filipe voltou todo o poderio de seu exrcito contra Oto e obteve uma vitria
decisiva em Bouvines, na Flandres. Essa vitria fortaleceu bastante o monarca
francs, ao passo que Joo da Inglaterra e Oto IV tiveram que enfrentar
srios problemas internos em conseqncia da derrota. Bouvines 
considerado o smbolo do surgimento da Frana como a potncia dominante
na Europa do sculo XIII.
 G. Duby, Le Dimanche de Bouvines (1973)

Bracciolini, Poggio (1380-1459) Humanista e calgrafo renascentista.
Embora servisse como secretrio na Cria papal em 1415 e de novo em
1423, Bracciolini passou grande parte de seus anos de formao visitando
bibliotecas monsticas em toda a Europa, empenhado em descobrir obras
perdidas de antigos autores romanos. Foi atravs do estudo dessas obras,
muitas das quais tinham sobrevivido at os dias de Bracciolini em exemplares
do sculo IX, que ele foi levado a inventar o estilo humanista de escrever
baseado na escrita Carolngia.
     As mais importantes obras de Bracciolini, as quais incluem De Avaritia
(1428-29), De Varietate Fortunae (1431-48) e De Nobilitate (1440),
destacam-se de outros escritos moralistas da poca por causa do talento do
autor para a apresentao acurada do carter e da conversao humanos.
Nos ltimos anos de sua vida, Bracciolini devotou-se menos a
empreendimentos de natureza intelectual por causa de seu envolvimento nos
assuntos administrativos como chanceler da cidade de Florena (desde 1453).
 E. Walser, Poggius Florentinus (1914)

bracteado (do latim bractea = folha) Nome dado pelos estudiosos a partir do
sculo XVII aos pennies muito finos e de uma s face que eram cunhados em
muitas partes da Alemanha setentrional e algumas terras vizinhas
(Escandinvia, grande parte da Europa central e oriental) desde meados do
sculo XII at o final do sculo XIII. Mais tarde, aos pennies das mesmas
regies que so em alto relevo e menores no dimetro deu-se o nome de
Hohlpfennige (pennies cncavos).

Bracton, Henrique de (m. 1268) Juiz rgio desde 1245, Bracton teve uma
carreira ativa como jurista, serviu no King's Bench [O Supremo Tribunal de
Justia ingls] como juiz para os condados do sudoeste e, nos ltimos anos de
sua vida, atuou como membro de uma comisso dotada de poderes para
acolher as queixas dos deserdados, depois da rebelio de Montfort. Tambm
demonstrou ser um dos mais destacados pensadores jurdicos de seu tempo,
e seu tratado De Legibus et Consuetudinibus Angliae [Sobre as Leis e os
Costumes da Inglaterra], escrito na dcada de 1250, converteu-se numa obra
clssica e de autoridade competente para os juristas do final da Idade Mdia,
Seu mtodo de classificao e anlise foi influenciado, indubitavelmente, pelo
direito romano, mas a substncia do seu tratado, com nfase sobre a
jurisprudncia, encarnou a essncia do direito consuetudinrio ingls. No nvel
constitucional superior, Bracton no seguiu os princpios arbitrrios
encontrados no Cdigo de Justiniano, como faziam, por exemplo, colegas
franceses do seu tempo, mas sustentou, pelo contrrio -- conforme declarou
numa famosa sentena -- que o rei estava sujeito ao imprio da lei: "O
prprio rei no deve estar abaixo de nenhum homem mas submetido a Deus e
 Lei, porque  a lei que faz o rei."
 Bracton on the Laws and Customs of England, trad. S.E. Thorne (1977)

Bretanha At o sculo VI, a Bretanha era conhecida como Armrica
[topnimo derivado do celta Armor, que significa "regio do mar" NT] mas, em
conseqncia da migrao proveniente da Gr-Bretanha durante os dois
sculos precedentes, passou a ser conhecida como Britannia Minor ou
Pequena Bretanha. Sua populao no incio da Idade Mdia era quase
inteiramente cltica, falando uma lngua estreitamente relacionada com o
crnico e o gals; por volta do sculo IX, a fronteira lingstica situava-se na
parte leste da pennsula (excluindo Rennes e Nantes). Os reis francos
apareceram para controlar grande parte da Bretanha oriental durante os
sculos VI, VII e comeos do VIII. Os carolngios realizaram um esforo
combinado para conquistar a Bretanha completamente, organizando
numerosas expedies entre 753 e 824. A reao liderada pelo breto
Nominoe (que derrotou Carlos, o Calvo, em 845) e seus sucessores foi ainda
mais complicada por ataques vikings na dcada de 860 e resultou no
desenvolvimento de uma identidade poltica prpria na Bretanha, durante o
qual seus governantes adotaram temporariamente ttulos reais. Um
arcebispado separado foi criado para a Bretanha, em Dol. A partir de meados
do sculo X, um ducado nico foi estabelecido, com uma histria contnua e
estreitamente interligada com a Normandia e seus ltimos soberanos, os reis
Capeto.
 L. Fleuriot, Les Origines de la Brtagne (1980)

Brtigny, tratado de (1360) A Frana sofreu muito nas fases iniciais da
Guerra dos Cem Anos com as desastrosas derrotas militares infligidas pelos
ingleses (Crcy 1346, Poitiers 1356), a que se somaram as devastaes da
Peste Negra, a turbulncia constitucional e as pilhagens realizadas pelas
Grandes Companhias. O rei Joo II, o Bom foi feito prisioneiro em Poitiers
mas a paz s foi estabelecida, finalmente, quando se negociou um tratado em
Brtigny, perto de Chartres, em maio de 1360, e o mesmo foi selado em
Calais a 24 de outubro. O rei Joo foi libertado de seu cativeiro ingls,
combinou-se um resgate de trs milhes de coroas em ouro a ser pago a
prestaes, e o ducado da Aquitnia, com seu territrio aumentado, foi cedido
a Eduardo III em plena soberania, juntamente com Calais e Ponthieu. Em
contrapartida, Eduardo abandonou sua pretenso ao trono francs. O tratado
assinalou um dos pontos altos da Inglaterra na Guerra dos Cem Anos, embora
restassem ainda brechas legais que impediram uma soluo de questes
constitucionais bsicas a respeito de soberania. O rei Joo II voltou
cavalheirescamente  Inglaterra quando as condies de sua soltura no
foram cumpridas em sua plenitude, morrendo no cativeiro em 1364.
 [E. Perroy, La guerra de los cien aos, Madri, Akal, 1982]

Brian Borumha rei da Irlanda c. 1005-14 (n. 941) Em 976 tornou-se rei de
Thomond no lugar de seu irmo assassinado Mahon, e em 978 rei de Munster,
com seus principais centros em Tara e Cashel. Durante os 20 anos seguintes,
forou as tribos de Munster e Cashel a submeterem-se-lhe e derrotou os
dinamarqueses em Co, Dublin. To grande foi seu xito que por volta de 1005
forou Malaquias, principal rei da Irlanda, a reconhecer sua soberania. Em
1014, pegou de novo em armas contra os dinamarqueses mas foi morto na
batalha de Clontarf, a 23 de abril.

Brgida, Santa (m. c. 525) Filha de pais humildes, nasceu em Vinmeras, perto
de Kildare (Irlanda). Foi batizada por So Patrcio e tornou-se monja muito
jovem. Consta que teria fundado mais tarde o mosteiro de Kildare e assim
contribudo especialmente para a expanso do Cristianismo na Irlanda. Pouco
mais se sabe de sua vida, a qual ficou envolta em lenda, mas seu culto era
certamente popular, s perdendo para o do prprio So Patrcio. A Vida de
Santa Brgida foi traduzida para o francs arcaico, o ingls medieval e o
alemo, e na Inglaterra e no Pas de Gales muitas igrejas, incluindo St.
Bride's, na Fleet Street (Londres), foram-lhe consagradas. Ver clticas,
Igrejas
 K. Hughes, Early Christian Ireland (1972)

Brunelleschi, Filippo (1377-1446) Artista e arquiteto florentino de
extraordinrio talento. Sua experincia anterior no trabalho com metais levou-o
a participar no concurso para o desenho das portas do batistrio em Florena
(o qual foi ganho por Lorenzo Ghiberti), mas sua carreira, da em diante,
direcionou-se solidamente para a arquitetura, onde seu sentido de proporo,
preocupao com espao e perspectiva, e domnio das leis matemticas e
cientficas de construo o habilitaram a criar, embelezar ou iniciar os edifcios
que ainda hoje contribuem tanto para a elegncia e a dignidade de sua cidade
natal: o Spedale degli Innocenti, a Antiga Sacristia em S. Lorenzo, as baslicas
de S. Lorenzo e S. Spirito, e, sobretudo, a magnfica cpula da catedral. A
influncia de Roma (que seu bigrafo Manetti nos diz ter sido visitada por ele
na companhia de Donatello) foi grande, mas as atenes foram mais
recentemente atradas para a igual ou at mais poderosa influncia de Ravena
e Bizncio.
 E. Battisti, Brunelleschi (1981)

Bruno, So (m. 965) Arcebispo de Colnia desde 953. Filho mais novo de
Henrique I, o Passarinheiro (919-36), irmo de Oto, o Grande, e tambm
cunhado do rei carolngio Lotrio I, rei da Frana em 954-86, e do poderoso
ancestral dos Capeto, Hugo, o Grande, duque dos francos em 923-56. Bruno
desempenhou um papel importante na poltica europia, como arquichanceler
real a partir de 950, como duque da Lorena desde 955 e como partidrio do
movimento em prol da coroao imperial de seu irmo Oto em Roma, em 962.
Deixou a reputao de poderoso lder espiritual e intelectual; contribuiu muito
para criar a chamada Renascena Otoniana e foi um proeminente reformador
eclesistico, principalmente da observncia monstica em Lorsch e Corvey.
Na poltica francesa, tambm desempenhou um papel estabilizador, e seu
governo no ducado da Lorena ajudou a garantir a posio deste como parte
integrante do reino alemo, embora sua administrao futura fosse
prefigurada pela delegao da autoridade de Bruno a dois prncipes,
Godofredo na Lorena Baixa e Frederico na Lorena Alta.

Bruno, So (c. 1030-1101) Fundador da Ordem Cartuxa. Educado em Reims
e Colnia, foi cnego da catedral de Colnia antes de ser nomeado professor
de teologia e gramtica em Reims, em 1052. Veio a ser mais tarde chanceler
da diocese de Reims mas renunciou ao cargo e  autoridade de que estava
investido a fim de se dedicar  vida eremtica. Juntou-se inicialmente aos
seguidores de Roberto de Molesme mas depois mudou-se para a diocese de
Grenoble, onde o bispo Hugo lhe cedeu a terra montanhosa e florestal de La
Chartreuse. Em 1084, Bruno e seus companheiros a construram suas celas
e um oratrio para viver uma existncia de solido, pobreza e austeridade. Em
1090, Bruno foi convocado a Roma por seu antigo aluno, Urbano II, para
aconselh-lo em questes de reforma eclesistica. Tendo recusado o
arcebispado de Reggio, morreu em La Torre, que tinha fundado na Calbria,
segundo as mesmas normas que haviam inspirado a Grande Cartuxa, aps
sua partida de Roma.
 A. Ravier, Saint Bruno (1967)

bruxaria No final da Idade Mdia havia na Europa a crena generalizada em
concilibulos de bruxas canibais e adoradoras do Diabo que praticavam o mal
por meio de artes mgicas. A intensidade crescente da perseguio a
supostas bruxas culminaria, finalmente, nas grandes caadas em que, nos
sculos XVI e XVII, milhares de pessoas encontraram a morte. No obstante,
houve reas, como na Inglaterra, onde o esteretipo da bruxa progrediu
pouco, tanto em crculos educados quanto na conscincia popular. Alm disso,
mesmo onde o esteretipo se convertera em ortodoxia estabelecida, nunca
deixou de haver gente importante que o rejeitou. A bruxaria continuou
significando coisas diferentes para pessoas diferentes durante toda a Idade
Mdia.
    Nos tempos clssicos, a idia de magia (ou seja, causar a ocorrncia de
eventos atravs de meios externos mas no-naturais) estava bem
estabelecida, e acreditava-se que a magia podia ser usada tanto para fins
benficos quanto malficos. Desde o comeo, a Igreja crist atacou toda a
magia como malfica, hertica e inspirada diabolicamente. Entretanto, na era
de seu avano triunfante, a Igreja no temeu a magia e acabou por entend-la
como uma iluso engendrada pelo demnio para ludibriar o homem. Por outro
lado, os limites para a influncia da Igreja nessa matria na sociedade em
geral foram demonstrados pela permanente distino feita na lei secular entre
as chamadas magia branca e magia negra. A magia branca, com suas
inmeras manifestaes por toda a Europa, estava freqentemente
associada, o que no deixa de ser uma ironia, aos smbolos sagrados e
poderes mgicos da Igreja, e suas celebraes persistiram mesmo depois do
advento do Iluminismo.
      As atitudes comearam a se alterar na Idade Mdia Central. Em crculos
educados, havia um interesse crescente pelas idias da magia ou invocao
ritual. Inevitavelmente, a detalhada investigao teolgica pelos escolsticos
das legies celestiais, seus graus, relaes e poderes, encorajou a
especulao sobre os membros das legies demonacas. Tornou-se corrente
a noo de que os possuidores de saber, ou magos, podiam invocar espritos,
control-los por meio de conjuros ou feitios, e us-los para seus prprios
planos e desejos. Tal desenvolvimento foi vigorosamente atacado pela Igreja:
o papa Joo XXII, na bula Super Illius Specula, promulgada na dcada de
1320, condenou a magia ritual como diabolismo e heresia. A sociedade
ocidental estava cada vez mais propensa a sentir-se insegura e ansiosa a
respeito dos poderes do Mal e, como as provas apresentadas no julgamento
de supresso dos Templrios (1307-14) pareciam demonstrar, menos
inclinada a rechaar a magia como irreal. Como o processo provou, o ataque
clerical  magia foi um importante fator na formao de idias posteriores
sobre bruxaria. As crenas populares sobre magia sempre tinham existido,
indo desde a magia branca at a feitiaria. Na tentativa de incutir um certo
nexo a esse conjunto amorfo de idias populares durante o sculo XIV, a
Igreja chegou gradualmente  concluso de que toda a feitiaria envolvia um
pacto implcito com o demnio. Em 1398, a Universidade de Paris condenou a
bruxaria como idolatria e heresia, e vinculou assim, de modo inelutvel, a
bruxaria ao diabolismo.
      Tem sido largamente sustentada a idia de que a bruxaria medieval era
um culto ou seita com suas razes no culto romano de Jano e em prticas
populares e ritos de fertilidade. Diz-se que as seitas herticas dos sculos XII
e XIII eram propagadoras desse culto e estavam diretamente ligadas s
bruxas do final da Idade Mdia. Investigaes recentes descartaram idias
desse tipo e formularam srias dvidas sobre a validade da teoria de que o
esteretipo da bruxa surgiu no sculo XIII nos julgamentos de hereges
acusados de catarismo. No obstante, a demonizao das seitas herticas
pela sociedade, no comeo um subproduto da perseguio, comeou mais
tarde a estimul-la. Alm disso, essas perseguies acarretaram um novo
procedimento legal inquisitorial em que a acusao no  apresentada por um
indivduo, como nos trmites acusatrios normais, mas pelas autoridades. O
acusado era interrogado em segredo, quase nenhuma defesa lhe era
permitida, e sua confisso era-lhe extrada atravs de tortura. Gradualmente,
os vrios elementos de feitiaria, magia ritual e diabolismo fundiram-se no
conceito de bruxaria como adorao do Diabo. O perodo crucial nessa fuso
parece ter sido o comeo do sculo XV, quando os acusados de feitiaria e
magia foram tratados como herticos e seguidores dos demnios, e julgados
de acordo com procedimentos inquisitoriais. Desse tempo em diante, os
julgamentos de bruxas, ao produzirem confisses manipuladas, reforaram e
refinaram o esteretipo em desenvolvimento. O processo era encorajado por
um crescente acervo de literatura erudita sobre o assunto, sendo duas das
mais influentes obras Formicarius (1435), de Joo Nider, e Malleus
Malefcarum (1486), de Jacob Sprenger e Henrique Institoris.
     Por causa da vasta perseguio desenvolvida na regio sua de Vaiais,
em 1428, o esteretipo acabado da bruxa apareceu desde cedo. Na
Inglaterra, Frana e Alemanha, e em menor medida na Itlia, houve grande
nmero de julgamentos de bruxas no restante do sculo XV, com as
perseguies e as fogueiras atingindo o auge em 1455-60 e 1480-85. Em
1459, por exemplo, um julgamento em massa em Arras redundou num
verdadeiro reinado do terror na cidade. Na Inglaterra, em contraste, os
julgamentos de bruxas foram virtualmente desconhecidos na Idade Mdia,
talvez em parte resultado do sistema judicial, com base no direito
consuetudinrio, e em parte,  resistncia inglesa a muitas das idias sobre
bruxas      que      tinham    ampla      aceitao      no     resto     da
Europa.                                                  TSS
 R. Kieckhefer, European Witch Trials: their Foundation in Learned and
Popular Culture (1976) [N. Cohn, Los demonios familiares de Europa, Madri,
Alianza, 1980; J.R. Russell, Witchcraft in the Middle Ages, Ithaca, Cornell
University Press, 1972]

Bulgria Em sua origem, os blgaros eram um povo no-eslavo de origem
asitica que s adquiriu organizao poltica no sculo IX, embora por essa
poca j estivessem to maciamente misturados com os eslavos e outros
habitantes que constituam, na verdade, um agrupamento tnico virtualmente
novo, no qual predominavam a lngua e os costumes eslavos. A migrao do
Volga para os Balcs tinha comeado no sculo V, atingindo o auge no sculo
VII. Em 864, durante o canato de Bris I (852-89), os blgaros foram
convertidos ao Cristianismo ortodoxo oriental. Seguiu-se um perodo de
expanso e assimilao com Simeo I (893-927) quando, com o ttulo de Czar
(Csar), governou seu "imprio dos gregos e blgaros", o qual se estendia do
Adritico ao Egeu e ao Mar Negro. Politicamente, os blgaros continuavam
sendo uma sria ameaa para o Imprio Bizantino, at ocorrer sua selvtica
derrota s mos do imperador Baslio II, o Carniceiro Blgaro, em 1014. Um
segundo e poderoso imprio blgaro nasceu no final do sculo XII mas,
debilitado por presses de todos os lados e pela pretenso de independncia
por parte de prncipes de menor importncia, os blgaros viram-se forados 
subordinao pelos trtaros, srvios e, finalmente, na ltima dcada do sculo
XIV, pelos turcos otomanos. Ver Samuel
 S. Runciman, The First Bulgarian Empire (1930); D.M. Lang, The
Bulgarians(1976); J,.V". Fine Jr., The Early Medieval Balkans (1983)

Burchard bispo de Worms 1000-25 Reformador eclesistico que publicou em
1012 o Decretum, que continha excertos do direito Cannico classificados por
assuntos. Isso foi um grande avano em relao s coletneas anteriores de
direito Cannico, as quais adotavam a abordagem cronolgica. Sua obra
sobre jurisdio eclesistica foi considerada uma autoridade na matria em
todo o Ocidente durante quase um sculo, e s comeou a ser lentamente
substituda pelo ressurgimento do direito romano e os escritos de homens
como Ivo de Chartres e, finalmente, de Graciano.
 A.M. Koeniger, Burchard von Worms und die deutsche Kirche seiner Zeit
1000-25 (1905)

Buridan, Jean (c. 1297-depois de 1358) Discpulo de Guilherme de Ockham
em Paris, de cuja Universidade foi reitor em 1327, e onde estava ainda ativo
como filsofo e professor em 1358. Representou uma posio nominalista
extrema no mundo filosfico, e seus comentrios sobre a lgica e o
pensamento aristotlico em geral permaneceram influentes no final do perodo
medieval e no comeo do moderno.  principalmente lembrado por seu
tratamento independente e ctico da questo do livre-arbtrio, o que levou
logicamente  limitao de tal liberdade. A analogia que lhe  atribuda
comparava o livre-arbtrio a um burro, incapaz de agir e morrendo de fome,
quando colocado entre dois pastos ou montes de feno eqidistantes. Essa
imagem (o burro de Buridan) no  encontrada em suas obras escritas que
chegaram aos nossos dias e supe-se que seja um de seus recursos orais
favoritos em aula, ou ento uma pardia criada por seus adversrios
filosficos.
 G. Leff, Paris and Oxford Universities in the Thirteenth and Fourteenth
Centuries (1968)
                                    C
Cade, Jack (m. 1450) Irlands de nascimento, Cade foi residir em Kent
depois de servir como soldado na Frana, nas fases finais da Guerra dos
Cem Anos. Surgiu como cabea de uma rebelio no vero de 1450 e conduziu
os rebeldes at Londres em 4 de julho, conseguindo a execuo de James
Fiennes, baro Saye e Sele, e do xerife de Kent, William Crowmer. Cade
retirou-se ento para Southwark e, a 6 de julho, foi impedido de reentrar em
Londres pelos cidados. A paz foi negociada pelo arcebispo de York e o
bispo de Winchester, e Cade foi perdoado mas continuou liderando os
rebeldes. Eles arrombaram a priso de Southwark e tentaram apoderar-se do
castelo de Queenborough. Cade foi ferido e capturado em 12 de julho mas
morreu antes de ir a julgamento. Sua rebelio teve efeito pouco duradouro,
mas serviu para manter viva a tradio de descontentamento agrrio e ajudou
a chamar a ateno para o desgoverno na corte de Henrique VI.
 R.A. Griffiths, The Reign of Henry VI (1981)

Caedmon (m. c. 680) Beda, em sua Ecclesiastical History of the English
People, faz uma enternecedora descrio de Caedmon, o primeiro poeta
ingls que conhecemos pelo nome. Conta ele como Caedmon, um humilde
servo nas propriedades da abadessa de Whitby, sentia tanta vergonha de sua
falta de talento para a poesia e a msica que se afastava da companhia dos
outros quando a harpa era passada de mo em mo, at que, certa noite, por
intercesso de uma viso divina que se lhe apresentou quando estava
adormecido nos estbulos, revelou-se capaz de transmitir em versos
melodiosos passagens das escrituras e de textos religiosos. A abadessa Hilda
recebeu-o como um irmo no mosteiro e Beda preserva um fragmento do
poema que ocorreu a Caedmon na viso, o que  suficiente para sugerir a
existncia de uma refinada tradio de poesia aliterativa.
 M. Alexander, The Earliest English Poems (1977)
Calatrava, Ordem de A mais antiga das Ordens Militares da Espanha
medieval. Calatrava combinou os ideais monsticos e de cavalaria no modelo
estabelecido no sculo XII pelos Templrios e Hospitalrios. A Ordem foi
fundada em 1158 pelo abade Raimundo de Fitero, cujos monges
empreenderam a defesa da cidade de Calatrava, em Castela-a-Nova, contra
os almadas. Em 1164, a Ordem foi reconhecida pelo papa e formalmente
filiada  Ordem Cisterciense, cuja Regra adotou. Quando foram fundadas a
Ordem de Alcntara e outras Ordens Militares, foram concedidos direitos
como seus visitadores aos mestres de Calatrava. No sculo XIV, a sede da
Ordem foi instalada em Almagro e, em seu apogeu, a Ordem possua cerca
de 350 cidades, vilas e aldeias com mais de 200.000 habitantes. No sculo
XV, suas filiaes e funes tinham mudado muito; era uma associao de
nobres envolvidos em poltica, e ento, em 1489, os Reis Catlicos anexaram
o mestrado  Coroa.
 J.F. O'Callaghan, The Spanish Military Order of Calatrava and its Affiliates:
Collected Studies (1975)

Calcednia, Conclio de (451) O quarto Conclio ecumnico da Igreja,
convocado pelo imperador Marciano em 451 e assistido por 600
representantes eclesisticos. Aprovou os Credos de Nicia (325) e
Constantinopla (381) e aceitou o Tomo de Leo I como base para novas
reformas doutrinrias. Mais importante, condenou o monofisismo e afirmou a
crena ortodoxa bsica de que Cristo, embora uma pessoa, possua duas
naturezas. Finalmente, o Conclio decretou que, da em diante, o Patriarcado
de Constantinopla devia ser considerado a segunda mais importante s em
todo o Imprio, subordinada unicamente  s de Roma.

calendrios Os numerosos mtodos medievais de calcular datas tornaram os
calendrios sumamente importantes. Muitos manuscritos litrgicos eram
precedidos de um calendrio, freqentemente de acordo com o uso de um
determinado centro, e a incluso neles dos dias de santos locais especficos
ajuda muito na localizao de tais obras. Os calendrios tambm figuravam
em documentos oficiais (como no Livro Negro do Tesouro ingls), em obras
de devoo particular e em produtos para uso universitrio. Portanto, grande
parte da comunidade possua meios de avaliao cronolgica, embora as
prticas variassem.
     A Idade Mdia herdou o calendrio romano Juliano (Estilo Antigo), usado
at a introduo do calendrio Gregoriano (Novo Estilo) pelo papa Gregrio
XIII em 1582, e at por mais tempo em algumas regies. O calendrio
Juliano, introduzido por Jlio Csar em 45 a.C, continha um ano de 365 dias,
com um dia extra a cada quatro anos para corrigir a discrepncia entre o ano
do calendrio e o ano solar (calculado como 365V4 dias), sendo 24 de
fevereiro duplicado num annus bissextilis a cada quatro anos, a partir de 4
d.C. O ano estava dividido em 12 meses, contendo cada um perodos de
Calendas, Nonas e Idos (sendo os dias aps os Idos calculados de trs para
diante desde as Calendas seguintes); os dias reais das Calendas, Nonas e
Idos eram s vezes excludos dos clculos. Dies Aegyptiacae tambm
apareciam, representando dias aziagos. Esses dias romanos eram
comumente usados, mas competiam desde longa data com o moderno
sistema de clculo dos dias do ms e com a datao por referncia s festas
da Igreja e  diviso eclesistica do ano em semanas. A datao baseada em
dias e festas de santos era obviamente popular no seio da Igreja e os
cronistas usavam-na com freqncia, mas s a partir do sculo XIII isso se
tornou usual em cartas e documentos. Tambm especificavam feiras, dias de
vencimento de aluguis e ocasies semelhantes. Um outro mtodo de contar
dias era o "costume de Bolonha" (consuetudo Boloniensis), um sistema
predominantemente notarial indicando o dia por sua posio nos primeiros 16
(15 nos meses de 30 dias) ou nos ltimos 15 dias do ms.
      O ano histrico comea no 1 de janeiro,  semelhana do ano civil
romano que foi usado at o sculo VII, mas suas conotaes pags levaram 
formulao de um ano cristo (annus gratis ou annus domini). Esse ano
resultou da Tbua Pascal Dionisaca, compilada por volta de 525, e calculada
a partir da Encarnao, AD 1. Foi usada por Beda e no tardou em ser
adotada por todos os pases cristos da Europa ocidental, exceto a Espanha.
Usava-se o Natal, a Anunciao ou a Pscoa para determinar em que ponto
do calendrio comeava o ano da graa. O Natal foi usado teoricamente por
Beda e tornou-se popular, sendo utilizado no Imprio at o segundo quartel do
sculo XIII, pelo Papado (962-1098), pela realeza inglesa at os
Plantagenetas, em cartas comuns (antes do sculo XII) e pelos beneditinos. A
Anunciao (Dia de Nossa Senhora, 25 de maro, calculado a partir do 25 de
maro precedente) foi adotada por Aries no final do sculo IX, propagando-se
pela Borgonha e norte da Itlia, e usada pela chancelaria papal at por volta
de 1145. Sobreviveu em Pisa at 1750, com a designao de calculus
Pisanus. O uso do 25 de maro (calculado a partir do Natal) como ponto de
partida talvez se deva, em ltima instncia,  influncia de Cluny, e foi adotado
pelos cistercienses. A rivalidade com Pisa levou  sua adoo por Florena
(calculus Florentinus). Estendeu-se  Frana e  chancelaria papal (depois de
1098) e persistiu na Inglaterra desde o final do sculo XII at 1752
( denominado secundum consuetudinem                 ou secundum cursum et
computationem ecclesiae Anglicanae). O clculo a partir da Pscoa (mos
Gallicanus) foi introduzido por Filipe Augusto mas nunca foi popular. A
Alemanha restabeleceu esporadicamente o clculo a partir de 1 de janeiro.
      Outros tipos de ano foram freqentemente usados com o ano da graa
ou em vez deste. Um desses mtodos era a indico, originalmente uma
estimativa civil, que calculou a partir de AD 312 em ciclos de 15 anos. Havia
trs datas de abertura: 1) a Indico Grega ou Constantinopolitana,
comeando em 1 de setembro e usada pelo Papado at 1087; 2) a Indico
Bedana, Cesrea ou Imperial (Indico de Constantino), comeando em 24 de
setembro, usual na Inglaterra e adotada pelo Papado com Alexandre III; 3) a
Indico Romana ou Pontificai, comeando em 25 de dezembro ou,
ocasionalmente, 1 de janeiro, utilizada de modo espordico pelo Papado e
em outros locais. As in-dices mostravam simplesmente o lugar do ano num
ciclo de 15 anos no especificado; eram usadas para privilgios formais e
documentos legais at serem relegadas para uso notarial em fins do sculo
XIII. (Para encontrar o nmero de indico do ano, subtrair 312 do ano da
graa e dividir por 15.) O comeo da indico era ocasionalmente usado para
iniciar o ano da graa (por exemplo, Ecclesiastical History, de Beda.) Os anos
pontificais e de incio de reinados figuravam em documentos oficiais e estavam
relacionados com a pessoa em cuja jurisdio eles eram emitidos. Havia
outros anos, como o ano financeiro do Tesouro ingls (de um dia de So
Miguel, 29 de setembro, ao outro). Espanha, Portugal e sudoeste da Glia
mantiveram a Era Hispnica, comeada a 1 de janeiro de 38 a.C. e usada em
algumas regies at o sculo XV. (Para encontrar o ano da graa equivalente,
subtrair 38.)
       A importncia do clculo das festas mveis originou numerosos
esquemas dentro do calendrio, tornando-o "perptuo" (continuamente
funcional). O Nmero de Ouro (numerus aureus, cyclus decemnovennalis)
calculava a data da lua pascal. Empregava ciclos de 10 anos a contar de 1
de janeiro de 1 a.C, sendo o nmero para cada ano (1-19) o Nmero de Ouro.
(Para ach-lo, soma-se 1 ao ano da graa, divide-se por 19 e o resto ser
igual ao Nmero de Ouro, salvo se for igual a 0, quando ser 19.) A Epacta
(epacta lunaris) estabelecia a relao entre o ano solar e a fase da Lua em
22 de maro, a mais antiga data pascal. (Para achar o nmero da Epacta,
dividir o ano da graa por 19, multiplicar o resultado por 11 e dividir por 30.) A
Letra       Dominical (littera dominicalis) determinava a Pscoa pelo
estabelecimento da seqncia de dias da semana a seguir ao plenilnio
pascal. As letras A-G indicavam um ciclo de sete dias a partir de 1 de
janeiro; a Letra Dominical do ano era a de seu primeiro domingo (se o
domingo caa a 4 de janeiro, a letra era D). Os anos intercalares ou bissextos
tinham duas letras, uma antes e uma depois de 28 de fevereiro. As
Concorrentes (concurrentes septimanae) representavam o nmero de dias
entre o ltimo domingo do ano precedente e 1 de janeiro. Correspondiam s
Letras Dominicais por terem ambos os mtodos o mesmo objetivo.
      Os calendrios eram freqentemente ilustrados, sendo os esquemas
mais populares, ambos de origem clssica, os trabalhos dos meses
(calendrios ocupacionais) e os signos zodiacais. Esquemas especializados
incluam os calendrios astronmicos e mdicos. A iconografia calendarista
aparecia tambm em outros veculos, como pedra e vitral. Ver Pscoa, data
da [96]                              MB
 Handbook of Dates, org. por CR. Cheney (1970); F.P. Pickering, The
Calendar Pages of Medieval Service Books (1981)

caligrafia A maioria dos exemplos remanescentes de caligrafia antiga tardia e
medieval foi obra de copistas especialmente treinados para escrever livros ou
documentos -- s vezes as duas coisas. Na caligrafia vertical
convencionalmente usada em livros, cada letra separada era formada por um
certo nmero de traos de pena, enquanto que as letras na escrita
documental cursiva eram feitas com menos traos e podiam ser ligadas umas
s outras de vrias maneiras. A letra vertical tinha em vista, primordialmente,
a legibilidade; a cursiva preocupava-se no s com a legibilidade mas tambm
com a rapidez. Diferentes tipos de caligrafia literria e documental foram
usados em todos os perodos: um saltrio seria escrito mais formalmente do
que comentrios nas margens de um texto clssico; uma bula papal ou cartas
rgias mais decorativamente do que um registro notarial ou uma epstola
particular. Exemplos de caligrafia de copistas inbeis, alguns dos quais
tambm eram escritores, so muito raros antes do sculo XV, quando a
habilidade para escrever estava comeando a ser considerada ponto pacfico.
Alm de um ou mais tipos e at mesmo de estilos de escrita, o treinamento de
um copista inclua os sistemas de pontuao e abreviao, os quais, tal como
a prpria caligrafia, variavam consideravelmente conforme perodos e reas.
      O desenvolvimento geral da arte caligrfica na Europa ocidental foi
determinado predominantemente por quatro fatores. A caligrafia vertical podia
evoluir para a cursiva atravs de mudanas no ductus das letras (isto , no
nmero, ordem e direo de seus traos componentes); da, a gradual
evoluo, no perodo romano, do AEBDGP vertical maisculo para o cursivo
aebdgp minsculo. Inversamente, o rpido ductus de uma escrita cursiva
documental podia ser elaborado a fim de criar uma nova escrita vertical
apropriada para livros. Assim que uma nova escrita tivesse adquirido um estilo
normatizado, novos desenvolvimentos comprometiam quase sempre sua
qualidade e, por vezes, at sua legibilidade. Finalmente, uma escrita antiquada
podia ser substituda de forma deliberada por uma verso mais ou menos
revista de alguma escrita anterior mais adequada e atraente. Um ou mais
desses fatores atuou em cada uma das seis fases principais do
desenvolvimento da caligrafia na Europa ocidental depois de cerca de 400.
      Na fase antiga tardia (sculos V e VI), importantes textos clssicos
como Virglio ainda podiam ser escritos em capital rstica (1), a escrita
romana original para livros; mas a maioria dos textos pagos e cristos era
em escrita livresca uncial (2), uma escrita mais simples e ainda formal,
derivada da cursiva romana primitiva. A semi-uncial (4), uma nova escrita
baseada na cursiva da poca, rivalizava com a uncial no sculo VI; os
apontamentos escolares nas margens de livros profissionalmente escritos
apresentam-se num despretensioso cursivo literrio. A cursiva romana tardia
(3) de documentos oficiais e notariais, uma caligrafia algo decorativa, tinha
atingido a maturidade por volta de 350. Os padres so elevados e o sistema
de escrita era suficientemente diversificado para satisfazer todas as
necessidades de uma sociedade altamente letrada. Os alfabetos semi-uncial e
cursivo so facilmente reconhecveis como os ancestrais de todas as escritas
europias subseqentes. No leste europeu, os textos de direito romano eram
escritos em verses regionais da caligrafia uncial e semi-uncial.
      Durante a fase pr-carolina (sculos VII-VIII), a escrita uncial ainda era
amplamente usada para textos bblicos e litrgicos, e a elaborada variedade
romana foi engenhosamente imitada em muitos centros anglo-saxnicos; mas
outros textos foram escritos em vrias minsculas pr-carolinas, baseadas em
tipos regionais de escrita documental derivados da cursiva romana posterior.
Esses tipos incluam a minscula visigtica na Espanha e a minscula
beneventana no sul da Itlia, as quais sobreviveram at os sculos XII e XIII,
respectivamente. Na Frana, os tipos locais desenvolveram-se em scriptoria
monsticos ou de catedrais, como Luxeuil (5), Corbie e Laon. As escritas
insulares, que os irlandeses ensinaram aos anglo-saxes (sculo VII) e se
propagaram a certos scriptoria do continente (sobretudo os das misses
anglo-saxnicas e irlandesas na Alemanha), parece descenderem da caligrafia
da Gr-Bretanha sub-romana (sculo V). O sistema, que inclua diversos
graus de minscula (6) e semi-uncial (7), nada devia  escrita continental sua
contempornea; mas os anglo-saxes aperfeioaram-no sob a influncia da
escrita livresca antiga tardia, que eles conheciam de livros mais antigos
importados da Itlia. Para os textos no vernculo, a minscula irlandesa durou
at o sculo IX e a minscula anglo-saxnica at o sculo XII.
      A crucial fase Carolina (final do sculo VIII ao sculo XII) comeou com
novas escritas livrescas experimentais em numerosos scriptoria influenciados
pela renovatio cultural de Carlos Magno; algumas eram simplificaes sbrias
e diretas da minscula pr-carolina, ao passo que outras dependiam
substancialmente da semi-uncial romana. A minscula Carolina cannica (8),
que surgiu por volta de 800 no Scriptorium do palcio de Carlos Magno e em
Saint-Martin-de-Tours, devia algo a ambas as tendncias. A nova escrita
tornou-se quase universal no continente por volta de 850 e dominou o sul da
Alemanha e a Itlia central (9) at fins do sculo XII.
      A fase protogtica (final do sculo XI - final do sculo XII) originou-se na
Inglaterra e em partes da Frana setentrional, influenciada pela verso da
minscula Carolina, incorporando caractersticas da minscula anglo-saxnica
do seu tempo, que tinha sido adotada nos scriptoria ingleses em torno de 950
para textos em latim (10). A minscula protogtica (11) logo substituiu a
Carolina como escrita livresca dos Pases Baixos, norte da Alemanha,
Escandinvia e Espanha. Entre, aproximadamente, 875 e 1125, a escrita
documental pr-carolina tinha sido substituda na maioria das reas por
escritas documentais Carolina ou protogtica, as quais, entretanto,
mantiveram com freqncia a qualidade decorativa de suas predecessoras.
      Durante a fase gtica (final do sculo XI - incio do sculo XVI),
numerosos tipos de minscula mais pesada e mais comprimida (textura) foram
usados para fins literrios, desde os textos litrgicos (12) aos universitrios
(13) e ao vernculo; depois do sculo XIV, os tipos superiores s
sobreviveram para textos bblicos e litrgicos, enquanto que os inferiores
foram substitudos pelos da caligrafia livresca cursiva gtica. Alguns
mandados rgios ingleses j eram escritos em caligrafia semi-cursiva por volta
de 1150 e, em 1230, a cursiva anglicana gtica plenamente desenvolvida (14)
era a norma para todos os documentos e registros pblicos e privados na
Inglaterra. Um cursivo documental semelhante estava em uso em toda a
Europa por volta de 1250 e a maior parte de seus tipos regionais mais antigos
tinha sido abandonada em 1375-1425, em favor de um tipo elegante que fora
aperfeioado na chancelaria real francesa por volta de 1350 (15); as
caligrafias quinhentistas da secretaria e da corte na Inglaterra descenderam
desse cursivo gtico francs e da escrita anglicana, respectivamente.
      Na Itlia, com a escrita protogtica limitada a regies de influncia
francesa nos extremos norte e sul, a minscula Carolina deu lugar, por volta
de 1200, a caligrafias livrescas gticas, incluindo a litera rotunda tpica de
livros litrgicos e a litera bonomiensis (16) dos compndios jurdicos, ambas
introduzidas por copistas da Universidade de Bolonha. Tambm de origem
bolonhesa foi a cursiva notarial gtica, enquanto que a cursiva mercantil gtica
era de origem toscana. Petrarca (m. 1374) escreveu em minsculas
semigticas que criaram moda e incluram tipos de cursiva largamente usadas
por notrios e alguns humanistas (17) no sculo XV. A litera hybrida (18),
criada depois de 1425 nos Pases Baixos e norte da Alemanha, baseou-se na
escrita semigtica dos breves papais.
      A fase final, humanstica, principiou em Florena (c. 1400) quando
Poggio Bracciolini inaugurou a litera antiqua (19), uma verso revista da
minscula Carolina da Toscana do sculo XII. Niccol Niccoli cruzou-a com a
sua prpria cursiva mercantil (c. 1420) para produzir a mais rpida e mais
econmica cursiva humanstica que  a ancestral direta de toda a moderna
caligrafia europia. Ambas as escritas se destinavam  transmisso de textos
clssicos mas, por volta de 1460, a cursiva (20) tinha sido adotada para
breves papais e correspondncia diplomtica. Os tipos romano e itlico
basearam-se    na litera antiqua (c. 1460) e na cursiva (c. 1500),
respectivamente. Na Itlia, por volta de 1500, os livros litrgicos e a
correspondncia comercial ainda eram em caligrafia gtica, e os documentos
notariais, em sua maioria, na semigtica, mas o triunfo de escritas e de
desenhos humansticos de caracteres estava assegurado. No resto da
Europa, a escrita gtica sobreviveu at o sculo XVIII, e na Alemanha at
1945. Ver manuscritos, estudos           TJB
 E.M. Thompson, An Introduction to Greek and Latin Paleography (1912);
E.A. Lowe, Codices Latini Antiquiores (1934-71); B. Bischoff, G.I. Lieftinck e
G. Battelli, Nomenclature des critures livresques (1954); B. Bischoff,
Palographie des Rmischen Altertums und des Abendlndischen Mittelalters
(1979)

Calmam, Unio de (1397) Assemblia de nobres escandinavos que uniu os
reinos da Noruega, Dinamarca e Sucia sob uma nica Coroa. Foi prescrita
uma regra comum de sucesso, embora cada Estado mantivesse suas
prprias leis. O primeiro rei dessa provncia unida foi rico da Pomernia,
neto do rei Alberto da Sucia, embora a unio nunca fosse totalmente
ratificada por causa da recusa dos prelados noruegueses em terem qualquer
participao no processo. A instigadora de toda a iniciativa foi Margaret, filha
de Valdemar da Dinamarca, esposa de Haakon VI da Noruega e tia-av de
rico, em cujo nome ela governou como regente. As tenses entre as prprias
comunidades escandinavas e a intromisso da Liga Hansetica diminuram a
fora da Unio (que no entanto continuou at 1523) aps a morte de Margaret
em 1412.

Camponeses, Cruzada dos Nome dado a um movimento espontneo no
interior da Frana quando comearam a circular notcias da captura do rei
Lus IX na Cruzada (1250). Liderados por um visionrio, os "cruzados"
entregaram-se  pilhagem e devastao pelo caminho, tendo que ser
suprimidos pelas foras reais. Mesmo assim, o movimento indica o grande
carinho e respeito que o povo tinha pelo rei.
 A.S. Atiya, The Crusade in the Later Middle Ages (1938)

Camponeses,     Revolta    dos   Agitaes   camponesas    ocorreram
esporadicamente no decorrer de toda a Idade Mdia, associadas, de um
modo geral, a mudanas histrias. Antes do sculo XIV, os movimentos eram
localizados e de mbito limitado, como os que defendiam o estabelecimento
de comunas rurais na Itlia do sculo XI e a emancipao de vilas (as vilas
francas, isentas de tributos) na Frana dos sculos XII e XIII. As questes
sobre liberdade, servios laborais, arrendamentos, impostos, acesso a
direitos comuns e a administrao de justia, eram desde longa data motivos
de litgio, mas do sculo XIV at o incio do sculo XVI, a agitao popular
tornou-se mais concentrada e violenta, talvez como subproduto das
dificuldades e mudanas econmicas com que a Europa se defrontava. Os
ambiciosos movimentos de massa fracassaram totalmente na realizao de
seus objetivos, mas como fator de mudana gradual ajudaram a que tais
metas fossem finalmente alcanadas.
     As aes camponesas do final da Idade Mdia incluem a revolta na
Flandres martima (1323-27), a Jacqurie em redor de Paris (1358), o
movimento Tuchin na Frana central (da dcada de 1360 at o final do sculo
XIV), a sublevao inglesa de 1381 e as guerras dos remensas na Catalunha
(nas dcadas de 1460 e de 1480).
       A "Grande Revolta" inglesa (1381)  uma das melhores documentadas
(por exemplo, na Anonimalle Chronicle e na Crnica de Froissart). A Peste
(1348-49) e epidemias causaram um declnio de populao que afetou as
relaes entre camponeses e proprietrios rurais. O Regulamento de
Trabalhadores (leis laborais reacionrias que tentaram congelar os salrios e
vincular a mo-de-obra aos senhores) revogava as melhorias que vinham
sendo obtidas nas condies de trabalho do campesinato, causando
indignao, a par das queixas contra um governo incompetente --
conselheiros impopulares, gastos excessivos com a guerra, tributos, em
especial o novo imposto por cabea, abusos na cobrana do fisco e na
administrao de justia.
     A ao do governo contra a evaso fiscal redundou em levantes no
Essex e no Kent em finais de maio de 1381. Os rebeldes do Kent ocuparam
Dartford, Maidstone e Canterbury (10 de junho), destacando-se Wat Tyler
como seu lder, ao passo que os homens do Essex atacaram a propriedade
dos Cavaleiros de So Joo, cujo gro-mestre, Sir Robert Hales, era tambm
seu tesoureiro. Os rebeldes de Kent e Essex reuniram-se em Blackheath (12
de junho), quando John Ball se lhes dirigiu com um discurso radical. Um
encontro com Ricardo II foi assim abortado, e os rebeldes prosseguiram em
sua ao contra as propriedades de figuras destacadas do governo. Em 13
de junho, eles entraram em Londres sem encontrar oposio, j tendo os
londrinos destrudo o palcio Savoy de Joo de Gaunt. Ricardo encontrou-se
com os rebeldes em Mile End (14 de junho) e concordou com as exigncias
deles, incluindo a abolio da servido da gleba e a captura de traidores. Os
rebeldes ocuparam a Torre, decapitaram Sudbury e Hales, e massacraram os
flamengos. Ricardo teve novo encontro com os rebeldes remanescentes em
Smithfield (15 de junho), onde Tyler apresentou mais reivindicaes e foi
morto pelo prefeito de Londres. Os rebeldes dispersaram-se e Ricardo
revogou todas as concesses que lhes tinham sido feitas (2 de julho). O
movimento de Londres foi acompanhado por outros no sudeste (East Anglia e
o s Home Counties), com surtos espordicos em outras localidades, e os
artesos e a pequena nobreza tambm participaram.
     O ano de 1381 inaugurou um sculo de sublevaes regionais (incluindo
a de William Cade, em 1450, e a revolta da Cornualha em 1497); e embora a
Revolta dos Camponeses fracassasse a curto prazo, ela ps fim  tributao
experimental na Inglaterra, reduziu os gastos militares (permitindo a trgua de
1394 com a Frana) e deflagrou uma resistncia  servido que a tornou to
improfcua      que       acabaria       gradualmente        por       extinguir-
se.                                        MB
 R.H. Hilton, Bondmen made free (1973); E.B. Fryde, The Great Revolt of
2381 (1981); R.B. Dobson, The Peasants' Revolt of 1381 (1970)

Cano de Gesta Nome genrico para os 80 a 100 poemas picos medievais
em francs arcaico, usualmente annimos, que constituem a maior parte das
lendas em torno de Carlos Magno. Essa literatura, dominada por
preocupaes feudais e aristocrticas, narra as faanhas guerreiras dos
grandes bares merovngios e carolngios. Os poemas formam dois grupos
que coincidem em parte. O primeiro grupo ocupa-se da luta entre a Frana
crist, liderada por Carlos Magno, e o Isl; Rolando e seus poemas afins
pertencem a esse grupo. A segunda srie inclui os poemas dos bares, como
Girart de Roussillon, Doon de Mayence, Ogier, o Dans, e Raoul de Cambrai.
Os poemas apresentam o novo ideal de um heri que se dedica a lutar contra
os inimigos de Deus. Os personagens refletem os valores dos ouvintes,
comungando com o amor dos poetas pela descrio intricada e estilizada. Ao
combinar a tradio oral local e os temas convencionais, foi produzida uma
literatura de complexa vitalidade.
 M.D. Legge, Anglo-Norman Literature and its Background (1963); R.S.
Loomis, The Development of the Arthurian Romance (1963)

Cano de Rolando (Chanson de Roland) A mais clebre e a melhor das
picas medievais francesas, a Cano de Rolando sobrevive em sua mais
antiga forma num manuscrito anglo-normando que compreende 3.998
decasslabos em rima atoante. Essa verso que, ao que tudo indica,  de
provenincia normanda, data provavelmente do incio do sculo XI. Num estilo
convencional, a narrativa descreve de forma habilmente estruturada a herica
derrota dos francos nos Pireneus em 778, a morte de Rolando, impulsiva mas
inteiramente confidente, a vingana dos cristos, com a ajuda de Deus, contra
o inimigo sarraceno, e a punio de Ganelon, cuja vingana pessoal contra
Rolando o levara a desprezar traioeiramente suas obrigaes feudais para
com seu suserano, Carlos Magno.
 D.D.R. Owen, The Legend of Roland (1973) [La chanson de Roland, org.
por J. Bdier, Paris, Piazza, 1928; A cano de Rolando, trad. L. Vassalo,
Rio, Francisco Alves, 1988]

Canuto, o Grande rei da Dinamarca 1019-35 e da Inglaterra 1016-35 (n. c.
995) A primeira viagem de Canuto  Inglaterra teve lugar em 1013, quando
invadiu a ilha com seu pai, Sewyn Barba. Forqueada, e participou na derrota
de Etelred, o Irresoluto. Aps a morte de Etelred (1016), Canuto neutralizou a
resistncia de Edmundo Ironside para tornar-se rei da Inglaterra. No incio, ele
foi ativamente hostil em relao aos nativos da ilha e premiou generosamente
seus prprios seguidores, mas aps seu casamento com a viva de Etelred,
Ema de Normandia, em 1017, Canuto mostrou-se muito mais disposto a usar
elementos locais em sua administrao.
      Em 1019, Canuto tornou-se tambm rei da Dinamarca. A, sua posio
estava constantemente ameaada pelo perigo de ataques vindos da Noruega
e da Sucia, embora, em 1026, o equilbrio fosse ao menos parcialmente
restabelecido, pelo papel que Canuto desempenhou no destronamento do rei
noruegus Olaf II Haraldsson (Santo Olavo). Canuto tambm era conhecido
como um promotor do comrcio e um patrono da Igreja, fundando mosteiros e
realizando at uma peregrinao a Roma (1027). Foi sucedido por seu filho
bastardo Haroldo P-de-Lebre (m. 1040) e depois por seu filho legtimo
Harthecnut (m. 1042).
 L.M. Larson, Canute the Great (1912)

Capetngia, dinastia Srie contnua de reis da Frana desde a ascenso ao
trono de Hugo Capeto at 1328. Em 987, a dinastia adotou esse nome por
causa do apelido dado a Hugo, em aluso a uma capa (capet) caracterstica
que usava. Hugo descendia de Roberto, o Forte, marqus de Nustria (m.
866), cujos descendentes se situavam entre os homens mais fortes da
Francnia ocidental no sculo seguinte; trs deles (Odo, 887-98, Roberto,
922-23 e Raul, 923-36) ostentaram ttulo rgio.
      Os primeiros Capeto pouco mais podiam fazer do que se manter
aferrados  sua base de poder em torno de Paris, mas sob Filipe I (1060-
1108) e ainda mais com Lus VI, o Gordo (1108-37), os domnios reais foram
lentamente consolidados em redor de Paris e Orlans, com importantes
extenses ao norte na direo do Canal. O abade Suger, que atuou
virtualmente como primeiro ministro dos monarcas no reinado de Lus VI e
primeiros anos do reinado de Lus VII (1137-80), muito contribuiu para
promover o culto da realeza, e os poetas e juristas da segunda metade do
sculo XII aumentaram o prestgio da realeza francesa considerando-a
descendente direta dos carolngios e tendo mesmo razes merovngias. Em
virtude da fora do rei angevino da Inglaterra, Henrique II, pouco desse
potencial pde ser concretizado at a derrota de Joo Sem Terra em 1204 e
a conseqente aquisio da Normandia, do Anjou e de boa parte do Imprio
Plantageneta por Filipe II Augusto; o prestgio moral e religioso de seu neto
Lus IX (So Lus, 1226-70) elevou a reputao da dinastia ao seu mais alto
grau. Ver Filipe IV, o Belo
 E.M. Hallam, Capetian France 987-1328 (1980)
Carlos I, o Calvo rei da Frana 840-77 (n. 823) Filho mais moo de Lus, o
Piedoso, e seu nico filho com a imperatriz Judite. O reinado de Carlos
assistiu  formao de um reino franco ocidental que mais tarde se tornou a
Frana, e assinalou, em grande parte graas ao seu patrocnio das artes e da
erudio, o apogeu da Renascena Carolngia. Tambm oferece um exemplo
excepcionalmente bem documentado do modelo inicial de poltica medieval,
dominada por rivalidades no seio da famlia real e por concomitantes
sectarismos aristocrticos. Os planos de sucesso de Lus, o Piedoso,
envolveram deserdar seu neto, Pepino II da Aquitnia, a favor de Carlos. Com
a morte de Lus (840), seu primognito, o imperador Lotrio, em aliana com
Pepino, tentou excluir Carlos. Numa contra-aliana com seu meio-irmo, Lus,
o Germnico, Carlos derrotou Lotrio e Pepino em Fonteney (junho de 841) e
em Verdun (agosto de 843), assegurando assim uma diviso das regies
centrais da Francnia entre ele prprio, Lotrio e Lus. Carlos ganhou o
territrio a oeste do Escalda, mais a Aquitnia; as terras francas ocidentais,
que formaram a sua base de poder, deram o nome ao seu reino.
       Na primeira metade do seu reinado, Carlos enfrentou repetidas revoltas
sectrias na Aquitnia, em parte ligadas ao apoio a Pepino, e na Nustria,
associadas ao separatismo breto; esses problemas eram agravados por
ataques vikings que atingiram o auge por volta de 845-65. As rivalidades
carolngias prosseguiram: em 858, Lus, o Germnico, explorou a dissidncia
para expandir-se a leste do Sena e invadir o reino de Carlos. Apoiado por
importantes nobres e eclesisticos, Carlos recuperou rapidamente o controle.
A segunda metade do seu reinado registrou sucessivos xitos na defesa
inovadora contra os vikings, na manuteno mais firme do apoio aristocrtico,
em alguma centralizao administrativa no nordeste e na aquisio de
territrio atravs de sucessivas redistribuies carolngias. Finalmente, Carlos
obteve a Coroa imperial (873) como imperador Carlos II, mas faleceu a 6 de
outubro de 877.
 Charles the Bald: Court and Kingdom, org. por M. Gibson e J. Nelson
(1981); R. McKitterick, The Frankish Kingdoms under the Carolingians (1983)

Carlos V, o Sbio rei da Frana 1364-80 (n. 1338) Embora somente
sucedesse ao trono em 1364, a carreira poltica de Carlos comeou alguns
anos antes, em 1356, quando entabulou negociaes com os ingleses para a
libertao de seu pai, Joo III, o Bom, que tinha sido capturado na batalha de
Poitiers. Carlos estava obrigado pelos tratados de Brtigny e Calais a tentar
pagar um resgate de trs milhes de coroas de ouro aos ingleses, assim
como a ceder-lhes grande parte do sudoeste da Frana. Entretanto, com a
morte do pai em 1364, Carlos comeou revertendo sua anterior capitulao.
Com a ajuda e orientao do grande soldado Bertrand DuGuesclin -- pois ele
prprio no tinha formao militar -- restaurou a ordem nos territrios
franceses, reorganizou o exrcito e criou uma marinha; em 1375, tinha
recuperado muitos dos territrios anteriormente cedidos  Inglaterra. A fim de
fortalecer a sua posio, procurou derrotar a poderosssima casa da Bretanha
e conseguiu despojar o rei de Navarra da maior parte de suas terras
francesas. Carlos tambm foi um mecenas das artes: construiu o Hotel de
Saint-Pol e redecorou o Louvre como uma sede condigna para a sua
magnfica biblioteca.
 J. Calmette, Charles V (1945)

Carlos VI, o Bem-Amado rei da Frana 1380-1422 (n. 1369) Coroado em
Reims, Carlos passou grande parte de sua menoridade sob o controle de seu
tio, Carlos, o Temerrio, duque da Borgonha. Em 1388 comeou governando
sozinho e, com a ajuda dos antigos conselheiros de seu pai, iniciou um
programa de reforma administrativa. A partir de 1392, porm, Carlos comeou
sofrendo de crises peridicas de loucura e o controle poltico passou para as
mos das vrias faces rivais de sua famlia, a principal delas constituda
pela esposa de Carlos, Isabel da Baviera, e seu irmo, o duque de Orlans.
Em 1418, o filho de Carlos, o delfim Carlos, declarou-se regente, mas em
1420 Henrique V da Inglaterra foi proclamado regente e tornou-se herdeiro do
trono francs em virtude de seu casamento com a princesa real Catarina de
Valois.

Carlos VII, "le bien servi" rei da Frana 1422-61 (n. 1403) Aps a morte de
seu pai em 1422, Carlos defrontou-se com uma grave situao. Seu governo
s era reconhecido no sul da Frana, uma vez que o norte aceitara como rei
Henrique V da Inglaterra, a quem Carlos VI designara como seu herdeiro,
alm do fato de existir tambm uma poderosa aliana anglo-borgonhesa. Em
1429, entretanto, a sorte de Carlos VII comeou mudando, principalmente
atravs da Donzela de Orlans, Joana d'Arc. Ela recuperou a confiana do
exrcito de Carlos, libertou Orlans e promoveu a coroao de Carlos VII
como rei em Reims.
      Aps a captura e execuo de Joana (1431), Carlos deu continuidade s
vantagens conseguidas; em 1435 celebrou a paz com a Borgonha e em 1436
conquistou Paris, enquanto que em 1453 consumava a conquista da Guiana,
pondo fim  Guerra dos Cem Anos. Por influncia de seus conselheiros, que
incluam Pierre de Brz e Jacques Coeur, Carlos reorganizou a
administrao e superou suas dificuldades financeiras graas  obteno do
direito permanente de criar tributos sem a permisso prvia dos Estados
Gerais. Tambm fortaleceu a autoridade real sobre a Igreja francesa na
chamada Sano Pragmtica de Bourges, em 1438. Seu favorecimento a
conselheiros recrutados na burguesia inspirou a rebelio por parte da nobreza
ao longo de seu reinado, sendo o mais famoso exemplo a revolta da
Pragurie, em 1440, liderada pelo filho de Carlos, o delfim Lus XI.
 M.G.A. Vale, Charles VII (1974)

Carlos I de Anjou rei da Siclia e de Npoles 1266-85 (n. 1226) Conde de
Anjou e da Provena. Irmo mais novo do rei Lus IX da Frana, a quem
acompanhou numa cruzada ao Egito em 1248-50, os condados de Anjou e
Provena foram-lhe outorgados como apangios da Coroa francesa em 1246.
Na dcada de 1260, auxiliou o Papado em sua guerra contra os Hohenstaufen,
derrotando Manfredo, o filho ilegtimo de Frederico II, na batalha de
Benevento (1266), e capturando e executando Conradino, ltimo membro
sobrevivente da dinastia, em 1268. Nessa altura dos acontecimentos, Carlos
manteve o reino da Siclia como feudo papal. Seu governo, entretanto, estava
longe de ser popular; sua transferncia da capital de Palermo para Npoles e
o seu uso de funcionrios franceses deflagraram a rebelio comumente
conhecida como as Vsperas Sicilianas (1282). Carlos foi expulso do reino em
1284 e enquanto planejava uma contra-ofensiva faleceu.

Carlos IV de Luxemburgo Sacro Imperador Romano 1355-78 (n. 1316) Neto
do imperador Henrique VII, Carlos sucedeu a seu pai, Joo de Luxemburgo,
como rei da Bomia em 1346, quando este ltimo foi morto na batalha de
Crcy, na qual Carlos tambm combateu. No mesmo ano, ele foi eleito para o
trono germnico no lugar do deposto Lus da Baviera e em 1355 tornou-se
imperador. Como rei da Bomia, Carlos centrou sua administrao mais nesse
pas do que na prpria Alemanha e durante seu reinado a Bomia desfrutou
de um perodo de grande prosperidade. Em Praga, construiu uma ponte sobre
o rio Ultava e fundou a Universidade em 1348. O Palatinato Superior foi
anexado  Bomia em 1355, assim como os principados de Jaue e
Schweidnitz, na Slsia, que constituram parte do dote de sua terceira
esposa, a princesa polonesa Ana (m. 1362). Carlos era aliado dos papas de
Avignon, e isso o habilitou a obter o controle da Borgonha (1365). Em 1376,
pouco antes de sua morte, Carlos tambm conseguiu garantir o trono
germnico para seu primognito, Venceslau, uma ao sem paralelo durante
todo o sculo anterior. Talvez tenha ficado mais conhecido como o autor da
Bula de Ouro de 1356, a qual fixou os procedimentos a serem seguidos nas
eleies imperiais. [16]
 J. Speracek, Karl IV (1978); F.R.H. du Boulay, Germany in the Later Middle
Ages (1983)

Carlos Magno rei dos francos 768-814 e imperador 800-814 (n. 742) Uma
grande figura tanto na lenda quanto na histria, s vezes parece quase uma
ampliao de suas reais propores. Seus contemporneos enfatizaram sua
estatura fsica, sua fora, sua irrequieta energia (quer nadando e caando,
quer governando e guerreando), sua simplicidade, sua curiosidade e argcia
intelectuais. Se no conseguiu aprender a escrever (essa era, no sculo VIII,
uma ocupao altamente especializada e ele comeou tarde sua
aprendizagem), Carlos mostrou-se de uma esplndida competncia em outros
campos culturais, como na leitura e na controvrsia; era um competente
lingista, tanto em latim quanto em sua lngua natal, o alemo austrasiano, e
interessava-se profundamente pela matemtica, astronomia e, sobretudo,
astrologia. Sua escola palaciana em Aix-la-Chapelle, orientada pelo humanista
ingls Alcuno, tornou-se o motor da vida intelectual para o mundo ocidental.
       difcil, por vezes, avaliar at que ponto as dignidades rgias eram uma
novidade para a famlia de Carlos. O ttulo real tinha sido outorgado a seu pai,
Pepino, em 751, quando Carlos tinha apenas 9 anos de idade. Como que para
enfatizar a nova natureza crist do reino franco e a transmisso do poder real
dos merovngios para a nova dinastia, Carlos e seu irmo Carlomano, os dois
jovens prncipes, receberam a consagrao em 753. Com a morte de Pepino
(768), o reino franco foi dividido entre os dois irmos, um ajuste infeliz que
quase redundou em guerra civil. A morte de Carlomano em 771 deixou o
caminho livre para Carlos entrar na posse integral da herana e nos 40 ou
mais anos subseqentes coube ao rei dos francos dominar e remodelar a vida
poltica do Ocidente.
       Suas realizaes podem ser resumidas de forma simples: ele consolidou
e aperfeioou o reino cristo dos francos herdado de seu pai; estendeu a
autoridade implcita desse reino a todas as outras comunidades crists
existentes na Europa ocidental continental at a fronteira com o Imprio
Bizantino na Itlia meridional; ampliou ainda mais essa autoridade mediante
uma poltica de incentivo aos esforos missionrios e de fortalecimento militar
em todos os povos germnicos continentais, estabelecendo uma slida
fronteira militar com os dinamarqueses e os povos eslavos, e derrotando os
varos, que foram forados a retroceder para suas terras do Danbio Mdio.
Numa grande cerimnia em Roma, no dia de Natal de 800, o papa Leo III
coroou Carlos como Imperador e Augusto, imperador dos romanos. Isso foi
uma adequada concluso para o trabalho de um chefe militar que tinha
submetido ao controle poltico e militar os povos romnicos e germnicos
cristos ou recm-cristianizados da Europa ocidental.
      O processo de consolidao das comunidades crists iniciara-se cedo
no reinado de Carlos. Em 773, ele invadiu o reino lombardo do norte da Itlia,
em parte para defender o interesse papal, e derrotou o rei lombardo (que se
retirou para um mosteiro), assumindo a Coroa de ferro da Lombardia. Na
Alemanha meridional, os bvaros tinham se convertido ao Cristianismo, e
Carlos, por presso poltica macia e por fora militar, pde compelir o duque
Tassilo a aceit-lo como seu senhor feudal. Na Espanha, apesar de um
desastre em Roncesvales (778), no qual morreu o conde Rolando, Carlos
imps sua autoridade na orla setentrional, criando a Marca Espanhola. A
extenso da realeza crist dependia essencialmente do que provou ser o mais
imediato problema poltico do reinado de Carlos, a conquista e converso dos
saxes e frsios, vizinhos dos centros favoritos do monarca na Lorena,
especialmente em Aix-la-Chapelle (Aachen). As primeiras campanhas, at
780, foram pouco mais do que incurses punitivas, mas nos 20 anos seguintes
a conquista tornou-se o objetivo. O massacre de prisioneiros em 782, o uso
aberto da Igreja nos interesses do exrcito e dos governantes francos, a
resistncia herica do chefe saxo pago Widukind, e medidas como a
retirada forada de populaes camponesas, obscureceram a reputao de
Carlos e dos francos; mas o resultado foi, sem dvida, coroado de xito. A
converso compulsria trouxe saxes e frsios para dentro do novo Imprio; e,
paradoxalmente, foi a partir da Saxnia, no sculo X, que o Imprio Carolngio
foi, por sua vez, revivido.
      A administrao de um Imprio to vasto e complexo (para o seu tempo)
mostrou-se inopervel e s em parte eficaz; entretanto, havia elementos de
fora em seu seio e o precedente carolngio serviu como modelo para muitos
dos reinos cristos que lhe sucederam no Ocidente. Carlos promulgou
capitulares, dispositivos jurdicos de carter geral destinados  aplicao em
todo o Imprio, sobretudo nos anos que se seguiram  coroao do monarca
como imperador do Ocidente. Apoiava-se maciamente nos condes, que
estavam investidos de poderes civis e militares num territrio confiado  sua
guarda, e na Igreja, atravs dos bispos e abades. Do seu centro real, enviava
comissrios (Missi Dominici) com autoridade para fiscalizar a atuao dos
governos locais. A interpenetrao das esferas eclesistica e secular deu um
certo sabor teocrtico  realeza e ao Imprio. O prprio Imprio era vasto
demais para que a base econmica ruralizada e senhorial existente pudesse
sustent-lo, e o sculo IX assistiu  sua diviso de acordo com o que passou
a ser o padro medieval familiar: o reino da Frana, um Reino Central
(Lorena, Borgonha e Lombardia) e um reino da Alemanha (que acabou
estreitamente ligado ao Reino Central).
      A fora e a personalidade dinmica de Carlos foram necessrias para
criar o Imprio e, sem ele, os elementos desintegradoras ganharam impulso
rapidamente.  um tributo  sua personalidade, assim como  sua habilidade
militar e poltica, que tanto tenha sobrevivido. Sua obra situa-se no final de
uma idade, o perodo sub-romano, e no incio de um novo, o Sacro Imprio
Romano, do qual iriam emergir as monarquias feudais familiares da Idade
Mdia Central. Ver Libri Carolini [11] HRL
 H. Fichtenau, The Carolingian Empire (1957); D.A. Bullough, The Age of
Charlemagne (1965); F.L. Ganshof, Frankish Institutions under Charlemagne
(1968); The Carolingians and the Frankish Monarchy (1971); H.R. Loyn e J.
Percival, The Reign of Charlemagne (1975) [J. Boussard, La civilizacin
Carolngia, Madri, Guadarrama, s/d; L. Halphen, Carlos Magno e o Imprio
Carolngio, Lisboa, Inicio, s/d; R. Mussot-Goulard, Charlemagne, Paris, PUF,
1984]

Carlos Martel (688-741) Mordomo do palcio da Austrsia a partir de 719.
Filho ilegtimo de Pepino de Herstal, Carlos deu prosseguimento 
consolidao do poder poltico franco que caracterizou a obra de seu pai,
estendendo sua autoridade sobre toda a Austrsia, Nustria e Borgonha, e
obtendo o reconhecimento de suserania por parte da Aquitnia. Embora
oficialmente fosse apenas o mordomo do palcio, concedeu livremente cargos
eclesisticos e seculares, governando de modo efetivo durante alguns anos
sem necessidade de estabelecer um rei merovngio fantoche. Apoiou-se nas
finanas da Igreja para equipar seu exrcito, um ato que lhe granjeou
reputaes contraditrias entre os autores eclesisticos. Os germes de
instituies feudais rudimentares podem ser encontrados em suas disposies
militares.  principalmente lembrado por sua grande vitria sobre uma
incurso muulmana macia em territrio franco, obtida em 732 em Poitiers, a
q u a l  hoje reconhecida no s como smbolo da resistncia e do
ressurgimento cristos, mas tambm como uma grande faanha militar. O
governante muulmano Abd el-Rahman foi morto e as baixas muulmanas
foram muito pesadas; a Francnia estava salva, ao passo que os domnios
islmicos na Espanha eram assolados por guerras civis. Foi em virtude dessa
vitria que Carlos ganhou seu apelido Martel, "o martelo".
 [J. Deviosse, Charles Martel, Verviers, Marabout, 1978]

Carlos, o Temerrio (1433-77) Duque de Borgonha. Filho de Filipe, o Bom, e
de Isabel de Portugal, Carlos assumiu o governo da Borgonha durante a ltima
doena de seu pai e imediatamente entrou em conflito com o rei francs Lus
XI. Tornando-se duque por direito prprio em 1467, passou a ampliar seus
domnios at o Reno, mas isso acarretou o confronto com o imperador
germnico, Frederico III, e com os suos, que temiam a perturbao do
equilbrio de poderes na Europa em conseqncia da expanso territorial
borgonhesa. Carlos foi morto durante essa luta numa batalha com os suos
travada s portas de Nancy em 1477. Com sua morte, findou o mais
ambicioso dos planos polticos borgonheses.
 R. Vaughan, Charles the Bold (1973)

carmelitas (Frades Brancos) Ordem mendicante fundada em meados do
sculo XII por eremitas no Monte Carmelo. Na Regra da Ordem (1206-14) era
recomendada uma vida eremtica, embora os carmelitas possussem um
oratrio comum; abstinncia, jejum e silncio tambm eram praticados. Em
1238 foram expulsos da Palestina pelos muulmanos e estabeleceram sua
principal base em Chipre. Com o papa Inocncio IV, no final da dcada de
1240, a constituio carmelita foi harmonizada com a dominicana e a Ordem
foi autorizada a ter casas nas cidades. No final do sculo XIII j havia mais de
150 casas em toda a Europa e sua popularidade persistiu, em certa medida,
at fins da Idade Mdia. Uma Ordem de freiras carmelitas foi criada no sculo
XV.  D. Knowles, The Religious Orders in England (1948)

Carmina Burana Coleo de canes latinas, atribudas a estudantes e
letrados errantes dos sculos XII e XIII, que contm elementos de penetrante
stira  ordem vigente, assim como de regozijo em poesia amorosa,
expressando deleite pela natureza, juventude e vida estudantil. A obra do
Arquipoeta  transmitida atravs dessa coleo, a qual foi reunida por um
editor annimo no segundo quartel do sculo XIII, possivelmente na abadia de
Benediktbeurer, na Baviera, Ver goliardos, poetas; vagantes
 J. Lindsay, Medieval Latin Poets (1934); Carmina Burana, org. por A. Hilke,
O. Schumann e B. Bischoff (1970) [Carmina Burana, trad. L. Molles,
Barcelona, Barral, 2 ed., 1981]
Carolngia, dinastia A histria da famlia Carolngia comeou no sculo VII,
quando o rei merovngio Clotrio II nomeou Pepino de Landen (m. 640)
mordomo do palcio da Austrsia. Pepino foi sucedido nessas funes por
seu sobrinho Pepino, o Moo, dito de Herstal (m. 680) e em seguida pelo filho
deste ltimo, Carlos Martel, que deu seu nome  dinastia.
     Entretanto, o primeiro membro da famlia a ostentar o ttulo real foi
Pepino, o Breve, que em 750 deps o ltimo dos monarcas merovngios,
Childerico III, e foi coroado rei da Francnia (751) com beneplcito papal. Os
carolngios atingiram o apogeu com o filho de Pepino, Carlos Magno. Este,
graas a um reinado imbudo de grande vigor pessoal, manteve coeso os
extensos domnios do seu Imprio e em 800 recebeu o ttulo imperial do papa
em Roma. Com sua morte, em 814, Carlos Magno foi sucedido em todos os
seus domnios por seu nico filho, Lus I, o Piedoso, mas com a morte deste
em 840 o Imprio foi dividido  maneira tradicional entre seus trs filhos. Pelos
termos do Tratado de Verdun (843), Lotrio, o primognito (m. 855), recebeu
o Reino Central, que abrangia partes da Itlia, a Lotarngia e a Provena;
Lus, o Germnico (m. 876), recebeu a Francnia oriental, enquanto que
Carlos II, o Calvo (m. 877), recebeu a parte ocidental do reino de seu pai.
Todos esses territrios voltaram a ser divididos entre seus filhos e netos, de
modo que, 60 anos aps a morte de Carlos Magno, a unidade de seu Imprio
j tinha desaparecido por completo.
       Os membros dos respectivos ramos da famlia, entretanto, continuaram
governando seus reduzidos patrimnios at o sculo X: na Francnia oriental
at a morte de Lus, o Menino, neto de Lus, o Germnico, em 911; e na
Francnia ocidental at a morte do ltimo dos descendentes de Carlos, o
Calvo, Lus V, que no teve filhos (987).
 H. Fichtenau, The Carolingian Empire (1957); E. James, The Origins of
France: from Clovis to the Capetians 500-1000 (1982); R. McKitterick, The
Frankish Kingdoms under the Carolingians (1983)

Carolngia, Renascena Nome dado ao florescimento da arte, arquitetura e
saber que teve lugar na corte de Carlos Magno e seus sucessores.
Gravitando em redor da escola do palcio real de Aix-la-Chapelle, essa
Renascena tinha como seu principal objetivo a reunio de todos os
remanescentes do passado clssico. Isso envolveu a cpia de manuscritos
clssicos e o uso de modelos clssicos de arquitetura (como na igreja do
palcio de Aix-la-Chapelle que inspirava-se na igreja de Justiniano de So
Vitale em Ravena -- apesar da influncia do estilo da Europa do Norte em sua
execuo -- e era enriquecida com colunas do palcio de Teodorico). Isso
tambm levou ao desenvolvimento de um novo tipo de escrita muito clara,
conhecida como minscula Carolina, que teve grande influncia na histria da
caligrafia medieval e foi o principal modelo para o chamado tipo romano
quando a imprensa foi inventada no sculo XV.
      Os intelectuais mais destacados incluam Alcuno (m. 804), um erudito
da Nortmbria, excelente professor e epistolgrafo, que ajudou a criar uma
verso melhor da Vulgata; o historiador e gramtico Paulo, o Dicono, oriundo
da Lombardia; o poeta visigodo Teodulfo, bispo de Orlans (m. 821); e, de
uma gerao ligeiramente mais moa, Eginhard (m. 840), que escreveu uma
soberba biografia de Carlos Magno. A nfase caracterstica sobre a latinidade
e a herana romana prosseguiu durante todo o sculo IX nas obras de
humanistas do calibre de Rbano Mauro, Valfrido Estrabo, Duns Scotus e
numerosos construtores de igrejas e artistas annimos, muitos trabalhando em
escolas de catedrais e em mosteiros como Corbie, Saint-Martin-de-Tours
(onde Alcuno era abade), Reichenau e St. Gallen.
 D.A. Bullough, The Age of Charlemagne (1965); W. Ullmann, The
Carolingian Renaissance and the Idea of Kingship (1969) [Ph. Wolff, O
despertar da Europa, Lisboa, Ulissia, 1973]

Carrara, famlia Famlia latifundiria que dominou a histria de Pdua no
sculo XIV. Com destaque para Francisco, o Velho (1350-88), a famlia
Carrara defendeu a independncia da cidade contra as ambies de Milo e
Veneza -- em ltima anlise, sem xito. Francisco foi um mecenas das artes,
especialmente interessado em afrescos e moedas, e Petrarca deixou-lhe em
herana a maior parte de seus livros.

Cartuxa, Ordem Ordem monstica fundada em 1084 por So Bruno de
Colnia no vale de La Chartreuse [Cartuxa  a latinizao do topnimo
Chartreuse NT], ao norte de Grenoble. O modo cartuxo de vida proporcionava
a oportunidade de viver como eremita no seio de uma comunidade religiosa.
Cada monge tinha sua prpria cela onde orava, comia, estudava e dormia,
mas tambm se encontrava diariamente com seus confrades na igreja para o
ofcio da noite, missa matinal e Vsperas. Cada mosteiro cartuxo tinha
tambm um certo nmero de irmos leigos que viviam uma vida comunal e
forneciam a mo-de-obra necessria para o funcionamento regular da casa.
      A Ordem nunca foi muito popular, possivelmente por causa da
austeridade do seu modo de vida, e em 1521 existiam apenas 195 mosteiros
cartuxos [duas casas cartuxas estavam em Portugal, sendo uma em vora e a
outra em Caxias, perto de Lisboa NT]. Na Inglaterra, o nmero de casas
cartuxas foi sempre muito pequeno, com exceo de Witham, no Somerset,
fundada no sculo XII por Henrique II. A ttulo de reparao, ainda que parcial,
pelo assassinato de So Toms Becket, no houve priorados cartuxos na
Inglaterra at o sculo XIV, quando diversas casas foram fundadas, incluindo
a Cartuxa de Londres e o Priorado de Mount Grace no Yorkshire. Uma Regra
foi elaborada pelo quinto prior, Guigis de Chatel, em 1127, e com
modificaes serviu como base da observncia Cartuxa de elementos
cenobticos e eremticos para os sculos seguintes. Isso levou  orgulhosa
afirmativa Cartuxa de que a Ordem nunca foi reformada porque nunca foi
deformada.
 E.M. Thompson, The Carthusian Order in England (1930); D. Knowles, The
Monastic Order in England (1963)

Cashel, snodo de (1172) Reunio da Igreja irlandesa convocada pelo legado
papal (que era tambm o bispo de Lismore), a qual promulgou decretos de
reforma para a Igreja local e reconheceu Henrique II da Inglaterra como rei da
Irlanda. [210]

Casimiro III, o Grande rei da Polnia 1333-70 (n. 1310) Na poca da
sucesso de Casimiro ao trono, a Polnia estava passando por srias
dificuldades. Embora seu pai, Vladislav I, tivesse conseguido unir a Grande e
a Pequena Polnia sob uma s Coroa, ainda havia numerosas diferenas
regionais entre os dois territrios que constituam uma fonte potencial de
conflito. Alm disso, Casimiro enfrentava a guerra em duas frentes, com Joo
de Luxemburgo, rei da Bomia, que queria a Polnia para si, e com os
Cavaleiros Teutnicos, que disputavam os direitos da Polnia  Pomernia
oriental. Por volta de 1349, entretanto, Casimiro tinha estabelecido a paz com
ambos os adversrios e ampliara seu reino mediante a anexao da Rssia
Vermelha e Masvia. Consolidou ainda mais suas fronteiras casando duas de
suas filhas com os mais importantes vizinhos da Polnia, a primeira com Lus
de Brandenburgo em 1345 e a segunda com Wenzel, filho do Sacro Imperador
Romano, Carlos IV, em 1369.
      Dentro da prpria Polnia, Casimiro iniciou a tarefa de unir as vrias
provncias do reino sob uma nica administrao. Embora a Rssia Vermelha
e Masvia conservassem suas prprias leis consuetudinrias, as leis escritas
da Grande e Pequena Polnia foram codificadas, enquanto que um tribunal
especial de arbitragem era estabelecido em Cracvia. Casimiro tambm
incrementou o potencial econmico da Polnia atravs da fundao de
numerosas cidades reais com amplos privilgios comerciais, ao mesmo tempo
que a fundao de uma universidade em Cracvia, em 1364, assegurou para
o pas um lugar no mundo intelectual da Europa medieval.

Cassiodoro, Flvio Magno Aurlio (c. 490-580) Natural de Silcio, na Itlia,
Casssiodoro iniciou sua vida pblica como administrador a servio dos reis
ostrogodos da Itlia. De 507 a 511 serviu como questor, em 514 foi nomeado
cnsul e em 526 tornou-se chefe do servio civil. Em 540 renunciou  carreira
poltica e regressou s propriedades de sua famlia em Vivarium, onde fundou
um mosteiro. A se dedicou a coligir muita literatura pag e crist, que era
copiada pelos seus monges, e assim foi o responsvel pela sobrevivncia de
uma substancial quantidade de saber clssico que de outra forma teria se
perdido. O mais importante dos escritos do prprio Cassiodoro, Instituio
das Letras Divinas e Humanas, dedicado aos monges de Vivarium, no s
examina o estudo das Escrituras como faz tambm uma breve exposio do
saber do seu tempo, baseado nas sete artes liberais tal como tinham
sobrevivido  poca.
 J.J. O'Donnell, Cassiodorus (1979)

Castela Nome usado pela primeira vez no sculo IX para referir-se a um
pequeno distrito, politicamente fragmentado, nas montanhas cantbricas ao
norte de Burgos. A importncia de Castela s emergiu no sculo X, quando
Fernando Gonzalez (m. 970) se fez conde de toda Castela e estabeleceu sua
capital em Burgos. No sculo XI, o condado perdeu sua independncia quando
passou para o domnio de, primeiro, Sancho III de Navarra e, depois, de seu
filho Fernando I de Leo. No sculo XII, porm, foi Castela quem assumiu o
principal papel na reconquista da Espanha aos mouros e no tardaria em
suplantar Leo em importncia. No sculo XIII, Castela controlava a totalidade
da Pennsula Ibrica com exceo de Portugal e de Arago, e da regio em
torno de Granada, ainda em poder dos mouros. Embora as tentativas
castelhanas de conquistar Portugal fossem derrotadas em 1385, Arago e
Castela passaram a estar unidos, pelo menos nominalmente, com o
casamento entre Fernando de Arago e Isabel de Castela, em 1469; assim se
criaram os alicerces da Espanha moderna. Ver Afonso VI; Afonso VIII; Afonso
X
 [J. Valdeon, El reino de Castilla en la Edad Media, Bilbao, Moreton, 1968;
H. Franco Junior, Peregrinos, monges e guerreiros. Religiosidade e Feudo-
Clericalismo em Castela medieval, S. Paulo, Hucitec-EDUSP, 1990]

castelos O castelo talvez seja o mais conhecido e o menos compreendido
dos monumentos medievais. Era a residncia fortificada e a fortaleza
residencial de um senhor; essa dualidade de funo  peculiar ao castelo na
histria das fortificaes e aponta para a sua feudalidade. Todos os edifcios
refletem a sociedade que os produz, e os castelos so o produto
caracterstico de uma sociedade feudal, dominada por uma aristocracia militar
para a qual eles so a moldura apropriada. Embora existissem tambm
palcios e casas no fortificadas, assim como residncias dotadas de
fortificaes comparativamente ligeiras, conhecidas na Inglaterra como
manors, na Frana como maisons fortes e em Portugal como solares, os
castelos estavam entre as mais prestigiosas das casas senhoriais no perodo
feudal e converteram-se tambm em smbolos da nobreza feudal. O castelo
era a residncia fortificada no s do rei ou prncipe, mas de qualquer senhor;
e enquanto representa, portanto, aquela fragmentao ou delegao de poder
civil e militar que  essencialmente feudal, tambm  propriedade estritamente
privada, em oposio  pblica, sede e centro do senhorio de um homem, de
sua famlia, seus servidores e dependentes: um conceito muito diferente da
vila ou cidade fortificada, a chamada praa forte.
       Com exceo das defesas lineares, as fortificaes do perodo pr-
feudal eram comunais e pblicas, como, por exemplo, os acampamentos da
idade do Ferro, os acampamentos e cidades amuralhadas romanos, seus
sucessores merovngios e carolngios, os burghs anglo-saxnicos, ou os
grandes acampamentos vikings como Trelleborg. Por outro lado, excetuando-
se as defesas lineares e as praas fortes, as fortificaes modernas,
comeando na Inglaterra com os fortes costeiros de Henrique VIII, so, ao
invs do castelo, puramente militares e, uma vez mais, so edificaes
pblicas, pertencentes ao Estado.
       essencial sublinhar que o papel residencial do castelo era, pelo menos,
to importante quanto o castrense. Tanto quanto qualquer considerao ttica
ou estratgica,  isso o que pode explicar a localizao de um castelo; suas
suntuosas acomodaes internas -- sales, alcovas, capelas etc; e
(combinados com a solidez do castelo como lugar seguro) tais usos
subsidirios como tesouraria, arsenal e priso; e, enfim, sua funo geral,
quer real ou senhorial, como centro do governo local.  significativo que, na
Frana, o bero do feudalismo, a palavra Chteau foi conservada para a
grande casa, embora j no seja fortificada. Na Inglaterra, o castelo de
Windsor continua sendo a principal residncia da rainha, e Arundel, a do
primeiro duque de Norfolk. Os suntuosos aposentos em ambos nada tm,
obviamente, de casernas, nem a majestade da Capela de So Jorge, em
Windsor, tem algo a ver com uma capela de quartel.
    E igualmente importante enfatizar que o papel militar do castelo no era
apenas defensivo. A defesa determinou seu trao e todas as caractersticas
arquitetnicas mais salientes. Uma grande torre de menagem dominava o
conjunto como ltimo reduto, mas tambm continha as melhores acomodaes
residenciais. Slidas e robustas muralhas, com ameias e caminho de ronda,
cercavam o castelo, entremeadas de torres salientes como baluartes -- torre
de ngulo, torre de flanquear -- de guaritas e seteiras, capazes de abrir fogo
de flanco na face exterior exposta; a entrada era defendida e reforada por
posternas, barbacs e taludes que precediam a chegada  ponte levadia, e
que, em caso de ataque, revelavam-se como a melhor forma de defesa;
muralhas, torres e portas eram, com freqncia, adicionalmente protegidas
por galerias salientes de madeira (adarves) ou de pedra (machiclis).
Grandes cercos, como os de Rochester (1215), Bedford (1224) ou Kenilworth
(1266) na histria inglesa, so as ocasies mais conhecidas na histria dos
castelos. Mas a razo pela qual os castelos tinham que ser atacados e
tomados por um exrcito inimigo era que controlavam todas as terras
circunvizinhas por meio da tropa montada neles aquartelada. O raio de ao
do castelo correspondia ao raio de ao do cavalo e do cavaleiro armado, no
ao limitado alcance dos armamentos defensivos que ali tinham sua base e
que, pela forma como eram dispostos, faziam dele um lugar quase
inexpugnvel. Na anlise militar, o papel ofensivo do castelo  primordial, seu
papel defensivo, secundrio, embora ambos os aspectos se conjuguem para
decidir uma guerra.
      O castelo teve sua origem na Frana setentrional, possivelmente no
sculo IX mas com certeza no sculo X, concomitantemente com o advento da
prpria sociedade feudal. Os mais antigos castelos conhecidos ainda
remanescentes so os de Dou-la-Fontaine (c. 950) e de Langeais (c. 994),
ambos na regio do Loire. Pertenceram a grandes senhores, prncipes feudais
em ascenso (respectivamente, Teobaldo, conde de Blois, e Fulque, o Negro,
conde de Anjou), que estavam nessa poca fundando seus principados
feudais. Na Inglaterra, os castelos chegaram por volta de 1066 com os
normandos, que impuseram suserania feudal a um antigo reino; levaram
subseqentemente os castelos com eles para o Pas de Gales, Esccia e
Irlanda. Estando os castelos to intimamente vinculados ao feudalismo, o
declnio daqueles foi sintomtico da lenta decadncia deste; a plvora teve
muito pouco a ver com esse fato.
      [O feudalismo no teve em Portugal a mesma importncia, como
organizao poltica e social, que no resto do Ocidente, o que significou que o
castelo, durante a Idade Mdia, poucas vezes teve como destinao a
residncia de um nobre, seus homens de armas, vassalos e dependentes.
Alguns foram residncias reais -- como, por exemplo, os castelos de
Guimares e de Leiria, que abrigavam os monarcas e suas cortes nos
deslocamentos pelo pas. Entretanto, em sua grande maioria, os castelos
tinham funes sobretudo estratgicas e estavam quase sempre confiados s
Ordens religiosas e militares responsveis pela formao territorial e, mais
tarde, de defesa das fronteiras e das vias de penetrao de eventuais
invasores. Estavam nesse caso as Ordens dos Templrios e de Santiago e
castelos como os do Almourol e de Palmela. Muitos castelos foram
adaptaes de anteriores edificaes castrenses mouras (alcceres), como o
de Lisboa. Vila da Feira, bidos, Ourm, Montemor, Santarm possuem
ainda hoje exemplares bem conservados de castelos medievais. NT] Ver
feudalismo; guerra                   RAB
 W. Anderson e W. Swann, Castles of Europe (1970); R.A. Brown, English
Castles (1976); The Architecture of Castles (1984). [G. Fournier, Le Chteau
dans Ia France mdivale: essai de sociologie monumentale]
Catal, Grande Companhia Tropa mercenria espanhola, chefiada pelo
alemo Roger de Flor, que em 1303 foi alugada pelo imperador bizantino
Andrnico II para combater os turcos. A Companhia derrotou os otomanos
mas, como no lhe fosse feito o pagamento combinado, voltou-se contra os
antigos patres e devastou o Estado bizantino. Aps o assassinato de Flor em
1306, a Companhia concentrou suas atenes na Europa. Em 1308, aliou-se
aos turcos da Anatlia em seus ataques contra a Macednia e a Trcia.
Finalmente, em 1311, derrotou Gautier de Brienne, duque de Atenas, na
batalha de Cfiso, e instalou-se ela prpria no ducado pela maior parte do
sculo XIV (at 1388), introduzindo costumes e idioma catalos, e
reconhecendo a suserania dos governantes aragoneses da Siclia.
 A History of the Crusades, vol. 3, org. por H.W. Hazard (1975); J.N.
Hillgarth, The Spanish Kingdoms 1250-1516, vol. I (1976)

Catarina de Siena, Santa (1347-80) Filha de um tintureiro de Siena, Giacomo
Benincasa, Catarina rejeitou o casamento desde muito cedo, devotando-se a
uma vida de oraes, penitncias e boas obras. Depois de ingressar na
Ordem Dominicana como Terciria, ela reuniu  sua volta um certo nmero de
seguidores e juntos viajaram por toda a Itlia pregando o arrependimento e a
reforma da Igreja. Catarina estava particularmente ansiosa por ver o Papado
reinstalado em Roma e foi a Avignon exortar o papa Gregrio XI a voltar para
l. Depois da morte de Gregrio em 1378, ela apoiou Urbano VI contra o seu
rival de Avignon, e morreu a servio de Urbano em Roma, em 1380. Suas
composies literrias, que foram sempre ditadas por causa de seu
analfabetismo, incluem o Livro da Doutrina Divina, que passou a ser
considerado uma das mais importantes obras msticas do sculo XIV.
Catarina influenciou consideravelmente seu Confessor e bigrafo, Raimundo
de Cpua, que em 1380 se tornou Geral dos dominicanos e iniciou a fundao
de conventos de Observantes.
 Life of Catherine of Siena, org. por C. Kearns (1980)

ctaros Grupo de herticos que desafiou seriamente os principais dogmas do
Cristianismo ortodoxo. Suas crenas derivavam dos ensinamentos de um
mestre religioso do sculo III na Mesopotmia chamado Mani, que tentou
conciliar o Cristianismo com antigas idias persas e interpretou o mundo como
o campo de batalha entre as duas poderosas foras do Bem e do Mal, a vida
do esprito e a vida da carne. As atitudes resultantes, vagamente rotuladas de
maniquesmo, levaram  rejeio da teologia crist bsica referente ao papel
de Deus na criao,  humanidade do Cristo na Encarnao e  ressurreio
do corpo. A desconfiana profunda dos ctaros em relao s coisas
materiais, consideradas provncias do demnio, fez com que os mais
convictos dentre eles renunciassem  atividade sexual, especialmente quando
se tratava de procriar, praticassem uma forma austera de vegetarianismo e se
recusassem a cumprir obrigaes seculares, como aquelas que pediam a
formulao de um juramento.
      Os ctaros entraram na Europa ocidental no comeo do sculo XI,
vindos da Bulgria, e muitos foram condenados  morte e executados, por
suas crenas herticas, em Orlans. O mais famoso grupo floresceu no sul da
Frana em fins do sculo XII, e foram chamados de albigenses por terem seu
principal centro em Albi, no Languedoc. Os adeptos estavam divididos em
duas categorias: os perfecti, ou "perfeitos", e os credentes, ou "crentes", que
viviam uma vida normal mas se esperava que recebessem a absolvio ou
consolamentum em alguma fase da existncia, antes de morrer. Aps a
absolvio, esperava-se que tambm esses se sujeitassem  intensa
austeridade dos perfecti. Ver Robert le Bougre; valdenses
 S. Runciman, The Medieval Manichee (1947) [R. Nelli, Os ctaros, Lisboa,
Edies 70, 1980]

catedrais A principal igreja de uma diocese, assim chamada porque continha
o assento ou cathedra de um bispo ou arcebispo. Na Igreja primitiva esses
edifcios eram freqentemente despretensiosos, mas quando as obrigaes
polticas e administrativas dos bispos aumentaram, sentiu-se a necessidade
de um centro solene para a diocese, sobretudo nas grandes cidades como
Constantinopla, Roma e Ravena. Desde os tempos do Imprio Carolngio no
Ocidente, imponentes edifcios romnicos e depois gticos passaram a
simbolizar a majestade e o poder da f e de seus servidores. A organizao
da catedral era freqentemente complexa. O bispo permaneceu como figura-
chave durante toda a Idade Mdia, mas outros dignitrios eclesisticos, nem
sempre em total concordncia com o bispo, tendiam a aumentar e florescer
em torno das catedrais. Na Inglaterra, por exemplo, a partir do sculo X,
monges serviam nas catedrais, inclusive Canterbury, Winchester e Worcester,
exercendo o bispo a funo de um abade que presidia a um captulo
monstico. Aps a conquista normanda, o sistema ampliou-se e captulos
monsticos foram instalados em Durham, Norwich, Ely e Bath. Nos demais
lugares, as catedrais eram comumente confiadas a uma comunidade de
clrigos, chamados cnegos, organizados em captulos, a maioria dos quais
adquiriu o direito de eleger os seus prprios dees.
      A prpria existncia de grandes edifcios, que freqentemente exigiam
um sculo ou mais para construir e reclamavam constante cuidado e ateno
para manter, levou ao desenvolvimento de um forte senso de coletividade
entre os membros do cabido de uma catedral, na maioria das dioceses. As
grandes faanhas arquitetnicas dos construtores de catedrais na Idade
Mdia ainda podem ser admiradas por toda a Europa, de Trondheim a
Palermo. Inglaterra, Espanha e norte da Frana so especialmente ricos em
grandes catedrais sobreviventes, como as de Durham ou Canterbury, Burgos
e Toledo, Amiens e Chartres. Ver arquitetura
 [D. Macaulay, A catedral. Histria de sua construo, Lisboa, Publ. D.
Quixote, 1979; J. Gimpel, Les btisseurs de cathdrales, Paris, Seuil, 1973]

cavalaria Corretamente descrita como "o cdigo secular de honra de uma
aristocracia marcial-mente orientada", a cavalaria floresceu em seu contexto
europeu ocidental entre meados do sculo XII e o sculo XVI. H muitos
elementos diferentes na evoluo do que se converteu num complexo conjunto
de regras e convenes que se aplicavam primordialmente aos guerreiros
aristocrticos, mas que tambm tiveram um profundo efeito no prprio
funcionamento da sociedade medieval.
     Inicialmente, o impacto da Igreja foi grande e a noo de comportamento
cavaleiresco pode ser apropriadamente atribuda a um abrandamento das
picas virtudes de bravura em combate e de coragem na adversidade, a uma
atitude mais gentil, invocando um certo grau de respeito pela vida e a
dignidade humanas, at mesmo quando estavam envolvidos inimigos mortais.
A beno de estandartes, a incluso de preces litrgicas de especial
intercesso a favor dos guerreiros que defendiam a Cristandade contra os
pagos, e o crescente interesse pelos santos-guerreiros, So Miguel e So
Jorge, antecederam as Cruzadas mas coincidiram com a ascenso do
guerreiro montado e armado na Europa Carolngia e Otoniana.
      A evoluo da sociedade feudal na Idade Mdia Central, tanto na Europa
ocidental quanto nas Cruzadas, gerou condies especialmente favorveis ao
desenvolvimento dos ideais de cavalaria, com seus elementos gmeos, mas
nem sempre inseparveis, de Cristianismo e de belicosidade. Associado
etimologicamente (chevalier, "cavaleiro")  elite montada da sociedade feudal,
a cavalaria desenvolveu suas instituies, regras e convenes caractersticas
no decorrer dos sculos XII e XIII, por iniciativa tanto de poetas quanto de
legisladores. As cerimnias de armar cavaleiro, de concesso de armas, de
adoo de insgnias e brases como distintivos de nobreza, enfatizaram os
atributos seculares da aristocracia militar dominante. A formao de Ordens
Militares para as Cruzadas tambm voltou a introduzir um forte elemento
religioso.
       O torneio passou a ser uma instituio caracterstica do mundo da
cavalaria, reprovado pela Igreja mas florescente durante a segunda metade
do sculo XII e durante todo o sculo XIII. Os arautos tornaram-se figuras
importantes e influentes, em parte por causa do papel que desempenharam na
regulamentao dos torneios. Apesar de todos os perigos dos torneios,
tambm chamados justas -- e as baixas eram, com freqncia, muito
pesadas -- o mundo feudal secular adotou-os como proveitoso campo de
adestramento para jovens guerreiros e como grandes espetculos nos quais a
coragem e o valor militares podiam ser exibidos de forma vibrante e colorida.
      Um outro elemento se inseriu fortemente na histria cavaleiresca: as
mulheres estavam presentes como espectadoras nos torneios, e as idias de
servir  sua dama e de amor corteso acabaram por entrelaar-se com a
noo do guerreiro ideal. Um poema do sculo XIII estipulou quatro
obrigaes para um cavaleiro: repudiar o falso julgamento e a traio, honrar
as mulheres, assistir  missa diariamente e jejuar s sextas-feiras. De modo
geral, os poetas tratando de temas ligados  histria de Roma,  histria de
Carlos Magno e seus paladinos, ou  de Artur, da Tvola Redonda e do Santo
Graal, ajudaram a implantar de maneira firme noes de comportamento
cavaleiresco na conscincia ocidental.
      Essas idias sobreviveram  perda da Terra Santa e, na verdade, viram-
se fortalecidas no perodo final da Idade Mdia, sobretudo pelo patrocnio de
grandes reis e duques, e pela formao de Ordens de cavalaria como a
Ordem da Jarreteira, na Inglaterra, e a Ordem do Toso de Ouro, na
Borgonha. Cavaleiros andantes, consubstanciando o esprito de aventura e o
fervor religioso, saam em busca do Santo Graal ou da unio com Deus,
tornando-se parte significativa da conscincia potica do Ocidente. A herldica
e o interesse pela genealogia asseguraram que as tradies de descendncia
e de boa famlia continuaram sendo uma forte caracterstica do grupo
dominante; mas era prestada ateno crescente  noo de que honra e
nobreza de maneiras significavam mais do que nobreza de raa.
      A cavalaria civilizou lenta mas seguramente uma sociedade militar que,
partindo das rudes e violentas razes do mundo pico do incio do sculo XI,
floresceu atravs do romance, secular e religioso, dos sculos XII e XIII, para
culminar no mundo formal e regulamentado do perodo medieval final, quando
os cavaleiros, pelo menos em teoria, tambm eram cavalheiros. Ver amor
corteso; cavaleiros
 B.B. Broughton, Dictionary of Medieval Knighthood and Chivalry (1986); J.
Barker, The Tournament in England 1100-1400(1987) [G. Duby, A sociedade
cavaleiresca, S. Paulo, Martins Fontes, 1989; M. Keen, La caballera,
Barcelona, Ariel, 1986; V.D. da Silva, Cavalaria e nobreza no fim da Idade
Mdia, Belo Horizonte, Itatiaia-EDUSP, 1990]

cavaleiros Com sua indumentria especfica, seus petrechos e todo um
vistoso cerimonial, o cavaleiro foi um elemento caracterstico da sociedade e
da cultura europias durante boa parte da Idade Mdia. Em essncia, o
cavaleiro combinava as funes de ginete, armado de lana e espada, e as de
servidor; o primeiro  representado pelas comuns nomenclaturas euro-
ocidentais de knight, chevalier, cavaliere, caballero e Ritter, e o segundo pelo
ingls arcaico cniht e o alemo knecht (servo, servial). Apesar das tentativas
no sentido de se apontar na equites romana ou nas tropas montadas dos
brbaros a origem do desenvolvimento da cavalaria, esse carter dual do
cavaleiro surgiu, ao que tudo indica, bem mais tarde, no Imprio Carolngio
dos sculos IX e X, quando as prticas medievais mais antigas de vassalagem
e recomendao (a obteno por um homem livre da proteo e proviso de
um senhor, em troca de servio ou mercadorias) foram ampliadas para incluir
o servio militar e a doao de terras pelo senhor (um feudo, domnio,
benefcio). As inovaes da poca em equipamento de montar e em
armaduras (sobretudo o estribo e a ferradura) serviram para ampliar a
prestao de servio a cavalo, produzindo o guerreiro especialista montado ou
cavaleiro.
       As origens utilitrias da cavalaria foram gradualmente obscurecidas
pelas implicaes financeiras e polticas da posse da terra por cavaleiros e da
manuteno de armas, o que levou cada vez mais  identificao do cavaleiro
com as classes superiores, um processo que estava virtualmente completo
por fins do sculo XII. A imagem do cavaleiro foi muito favorecida e exaltada,
nos planos cultural e moral, durante as Cruzadas, quando a prpria Igreja se
preocupou com a tica da cavalaria, incutindo-lhe uma natureza quase
religiosa como o brao secular da Igreja, responsvel pela proteo e defesa
dos fracos e da prpria instituio. Isso foi realado pela instituio das
Ordens Religiosas de Cavalaria no comeo do sculo XII.
    O crescimento da prtica cortes e cavaleiresca durante o sculo XII
cristalizou ainda mais o conceito medieval de cavaleiro, assumindo conotaes
msticas e romnticas, favorecidas pela proliferao de uma literatura de
cavalaria consubstanciada primordialmente nas canes de gesta e nos
romances de aventura. As exigncias para treinamento (aprendizado como
pajem e escudeiro) de um cavaleiro at ser armado, e os elaborados rituais
de investidura sofreram considervel evoluo; esses rituais incluam, por
exemplo, um banho preparatrio, vesturio, viglia noturna e a declamao da
frase: "S um cavaleiro", acompanhada de uma leve pancada no ombro (a
esse gesto simblico chamavam os ingleses dubbing, os franceses cole,
paume). No sculo XIII, a prerrogativa de armar cavaleiro era geralmente
privativo de um prncipe reinante. Do mesmo modo, surgiu um cdigo
humanizante de comportamento do cavaleiro (cavalheiro), envolvendo
reverncia pela religio e pelas damas da nobreza, e uma etiqueta de
combate em relao a outros cavaleiros. Em fins do sculo XII desenvolveu-se
ainda um orgulho acentuado pela ancestralidade, o que exaltou a ascendncia
patriarcal e a herana por progenitura; e, associado  necessidade de clara
identificao em combate, encorajou o progresso da herldica.
      Tais elaboraes prosseguiram durante os sculos XIV e XV; o cavaleiro
declinou como importante fora militar quando suas energias passaram a ser
cada vez mais canalizadas para torneios e cerimnias de grande pompa e
riqueza. Criaram-se ordens seculares predominantemente honorficas (como a
Ordem da Jarreteira, na Inglaterra, em 1348) e, no sculo XVI, a
transformao do cavaleiro em gentil-homem (gentilhomme na Frana,
gentleman na Inglaterra) estava virtualmente completa. Um outro fator nessa
transformao foi o papel poltico do cavaleiro, adquirido na Inglaterra do final
do sculo XIII, onde ele tomou assento no Parlamento como um "cavaleiro do
condado", contribuindo para a perpetuao moderna da cavalaria como um
sinal de privilgio. Ver armadura; cavalaria; guerra; herldica [28] MB
 R. Barber, The Knight and Chivalry (1974); R. Rudorff, Knights and the Age
of Chivalry (1974); B. Arnold, German Knighthood 1050-1300(1985)

Cavaleiros da Espada (Fratres Militiae Christi, Irmos da Milcia de Cristo)
Uma pequena Ordem Militar alem, fundada por volta de 1202 no turbulento
campo missionrio bltico da Livnia (hoje Estnia, Letnia e Litunia).
Violenta oposio pag e a rivalidade comercial dos bispos de Riga forou-os,
em 1230, a negociar uma unio com a Ordem Teutnica, j interessada na
rea graas  absoro da pequena Ordem de Dobrin. Poucos progressos
foram feitos at que uma considervel parte da fora dos Cavaleiros da
Espada foi aniquilada em Saulen (1236), levando Gregrio IX a impor a unio.
Livnia continuou perturbando os Cavaleiros Teutnicos, resistindo 
converso, rebelando-se e ocasionando conflitos com os prncipes russos.
Somente em 1290 a rea foi decisivamente unida ao territrio prussiano,
embora a atividade persistisse na Litunia (com interveno polonesa) e
atingisse um clmax na derrota teutnica em Grnwald (1410).
 F. Benninghoven, Der Orden der Schwertbrder (1965)

Cavaleiros de So Joo (Hospitalrios) Cavaleiros de Jerusalm, Rodes e
Malta. Essa Ordem Militar Religiosa originou-se como um hospital beneditino
para peregrinos nas vizinhanas do Santo Sepulcro e foi fundada por volta de
1070 por comerciantes de Amalfi. Essa instituio de caridade, dedicada 
distribuio de esmolas, hospitalidade e assistncia aos enfermos, floresceu
sob o patrocnio de Godofredo de Bulho (m. 1100) e, sob a direo do gro-
mestre Geraldo, cristalizou-se numa Ordem (confirmada em 1113).
Estabeleceu hospitais e comendadorias na Europa e no Oriente, e foi
completamente transformada numa Ordem Militar (com votos monsticos 
semelhana dos Templrios) para defesa dos peregrinos. Os Hospitalrios e
seus rivais Templrios formaram a melhor fora combatente em ao na Terra
Santa.
       Aps a queda de Acre (1291), assinalando a perda da Terra Santa, os
Hospitalrios mudaram-se para Chipre, onde instalaram a Gr-Comendadoria
em Kolossi; mas depois que conquistaram Rodes (1307), o gro-mestre
Foulques de Villaret a estabeleceu em 1310 seu novo quartel-general,
formando efetivamente um Estado soberano independente que se beneficiou
dos confiscos templrios. Os Hospitalrios continuaram combatendo os
muulmanos para o controle do Mediterrneo oriental at serem compelidos 
rendio por Solimo, o Magnfico (1522). A Ordem declinou
subseqentemente, transferindo sua sede principal para Malta (1530), onde
continuou suas atividades antimuulmanas. A conquista de Malta por Napoleo
(1798) ps fim efetivo  Ordem, a qual foi restaurada em Roma (1878) como
uma organizao secular de caridade.
 A History of the Order of the Hospital of St. John of Jerusalem, org. por L.
Butler (1967); The Medieval Nobility, org. por Reuter (1978)

Cavaleiros do Templo (Templrios) A primeira das Ordens Militares
Religiosas, destinada a suprir e proteger os Estados cruzados. Os Templrios
originaram-se por volta de 1115 nas atividades de Hugo de Payens (m. 1136)
e cavaleiros franceses seus companheiros (os Pobres Soldados de Cristo),
dedicados  proteo dos peregrinos entre Jaffa e Jerusalm. Obtiveram o
apoio de Balduno de Jerusalm por volta de 1118 e, subseqentemente, o de
Bernardo de Claraval, que os elogiou em seu panfleto, De Laude Novae
Militiae, e elaborou sua Regra monstica, aprovada pelo Conclio de Troyes
em 1128. A Bula de Inocncio II (1139) estabeleceu sua vassalagem exclusiva
ao papa, e os Templrios desenvolveram uma constituio com um gro-
mestre eleito, provncias, distritos e preceptorados individuais, adotaram uma
tnica branca com cruz vermelha e construram caractersticas igrejas
redondas do tipo que ainda hoje pode ser visto na Temple Church em
Londres.
       Ao contrrio dos Hospitalrios, a quem influenciaram, os Templrios
empenharam-se primordialmente em campanhas militares contra os
muulmanos. Muitssimo populares e enriquecidos por doaes durante as
Cruzadas, tornaram-se poderosos na Europa e no Oriente, dedicando-se 
atividade de banqueiros. A queda de Acre (1291) e sua transferncia para
Chipre deixou-os sem objetivo definido e, como banqueiros, impopulares.
Resistiram s tentativas de fuso com seus rivais Hospitalrios, e conflitos
com Filipe IV da Frana levaram o monarca, de acordo com o papa Clemente
V, a planejar a extino da Ordem. Acusaes de heresia provocaram sua
supresso (Conclio de Viena, 1312)); o gro-mestre Jacques de Molai e
outros foram executados e os bens da Ordem confiscados, passando para os
Hospitalrios e prncipes seculares. A Ordem foi restabelecida em Portugal
como Ordem de Cristo.
      [O restabelecimento da Ordem do Templo como Ordem de Cristo em
Portugal ocorreu em 1318, no reinado de D. Dinis. O esplio templrio era
imenso, acumulado desde: sua instalao em Portugal com a fundao do
reino para auxiliar D. Afonso Henriques na tarefa de Reconquista. Seu primeiro
Mestre, Gualdim Pais, foi cruzado, edificou o castelo e convento de Tomar,
sede da Ordem, os castelos de Almourol e Idanha, e consolidou o avano das
fronteiras portuguesas at o sul do Alentejo. Grande parte dos territrios do
Ribatejo e Alentejo era propriedade templria quando a Ordem foi suprimida e
substituda pela Ordem de Cristo. Seu poderio financeiro contribuiria
substancialmente, um sculo depois, para a empresa de descobrimentos
martimos, iniciada pelo Infante D. Henrique, gro-mestre da Ordem. A
arquitetura templria em Portugal est patente no convento de Cristo em
Tomar, onde subsiste sua famosa rotunda, e no panteo de Santa Maria do
Olival. NT]
 E. Simon, The Piebald Standard: A Biography of the Knights Templar
(1959)

Caxton, William (1422-91) Tipgrafo ingls. Natural de Kent, Caxton foi
aprendiz de um influente negociante de tecidos de Londres, Robert Large, em
1439. Com a morte de Large em 1441, ele viajou para Bruges a fim de
completar seu treinamento e, por volta de 1464, tinha alcanado a influente
posio de governador em exerccio da Liga dos Aventureiros Mercantis nos
Pases Baixos. Durante uma visita a Colnia em 1471, aprendeu a arte
tipogrfica. Regressando  Inglaterra, foi responsvel pela publicao do
primeiro livro impresso ingls, o Recuyel of the Histories of Troye (1474). Em
1476 instalou uma impressora em Westminster, onde imprimiu 96 livros,
incluindo Canterbury Tales, de Chaucer, e Morte d'Arthur, de Malory. Seu
assistente Wynkyn de Worde sucedeu-lhe no negcio. Ver imprensa
 N.F. Blake, Caxton: England's First Publisher (1976); G.D. Painter, William
Caxton (1976)

Celestino V papa 1294 (n. Pietro de Merone, 1209-96) Foi primeiro monge
beneditino e depois eremita nos montes Abruzos, onde fundou a Ordem
Celestina para os seus seguidores. Quando foi eleito papa j estava com 85
anos de idade. Carente de habilidade administrativa, tornou-se dependente de
Carlos II de Npoles e encheu a Cria de seus partidrios; Celestino
tampouco teve xito em suas tentativas de estabelecimento da paz entre
Arago, de um lado, a Frana e a Inglaterra, do outro. Durante o seu
pontificado, mostrou-se favorvel aos Espirituais franciscanos, permitindo-lhes
que se separassem da Ordem. Aps um pontificado de apenas cinco meses,
Celestino renunciou e Benedetto Gaetani foi eleito em seu lugar como papa
Bonifcio VIII. Como alguns consideraram a abdicao de Celestino um ato
ilegtimo, no lhe foi consentido voltar  vida eremtica, sendo mantido em
rigoroso confinamento at sua morte.

clticas, Igrejas O Cristianismo chegou s comunidades clticas da Gr-
Bretanha nas fases finais do domnio romano e alastrou-se para alm da velha
fronteira imperial at a Irlanda e a Esccia nos sculos V e VI. Os cristos
celtas deram uma contribuio especial para a cena europia em dois
aspectos: pela inspirao e reputao de seus santos, e por sua atividade
missionria direta no continente. santos celtas Diz a tradio que, durante o
sculo VI, uma grande quantidade de pessoas das regies clticas da Gr-
Bretanha tornaram-se santos ascticos, retirando-se freqentemente para
ilhas, e que muitos desses santos partiram para distantes e ignotas paragens,
influenciando as populaes locais e fundando mosteiros pelo caminho. Essa
tradio exagera o nmero de pessoas envolvidas e o ascetismo delas, e
concentra indevidamente a atividade no sculo VI. Entretanto, h evidncia de
viagens de alguns santos do sculo VI e houve, indubitavelmente, um
movimento de fundao monstica durante o perodo final daquela centria e
ao longo da seguinte na Gr-Bretanha ocidental e na Irlanda; essas fundaes
eram caracteristicamente feitas em lugares centrais, no isolados. As
melhores provas existentes referem-se a movimentos de galeses, viajando do
Pas de Gales para a Irlanda nos sculos V e VI, e para a Cornualha e a
Bretanha nos sculos VI e VII.
      Como os mesmos santos eram venerados no Pas de Gales, Cornualha
e Bretanha, autores medievais e outros mais recentes supuseram
erradamente que a nica explicao possvel para o to difundido culto comum
eram as origens tambm comuns. No havia contudo uma Igreja cltica
dotada de organizao unitria e prtica comum em todas as reas celtas. A
prtica e as instituies eram extremamente diversas nas diferentes regies;
os clrigos celtas nunca se reuniram como um grupo nem reconheceram uma
figura que lhes presidisse. Compartilhavam, porm, de uma caracterstica
comum: a venerao de santos locais secundrios, como Cadogou Mochutu,
sem culto pan-europeu, parece ter sido muito mais habitual e mantida por
muito mais tempo nas regies clticas do que em outras. A misso cltica
para o continente O movimento monstico dos sculos VI e VII encorajou
alguns indivduos a procurarem obter sua plena realizao espiritual fazendo
uma peregrinao para longe de seu lar e pas, cortando todo o contato com
fontes conhecidas de apoio e alcanando a superao do prprio eu atravs
da luta espiritual. Durante essas peregrinaes, faziam-se pregaes e novas
fundaes monsticas eram erguidas como fonte de contnuo apoio espiritual
para a populao, fosse ela pag ou j crist.
      A misso cltica para o continente era dominada por irlandeses, embora
inclusse tambm alguns britnicos. O mais famoso desses primeiros
peregrinos foi So Columba, que saiu do norte da Irlanda por volta de 565 e
fundou o mosteiro de Iona ao largo da costa oeste da Esccia. Embora Iona
fosse de considervel importncia em misses para os pictos e os ingleses
pagos, Columba conservou seu interesse pela poltica irlandesa e voltou
freqentemente  Irlanda.
     Um peregrino mais tpico foi So Columbano. Educado em Bangor, partiu
por volta de 590 para a Europa continental, tendo como objetivo encontrar-se
com os governantes merovngios dos francos; com o patrocnio deles, fundou
mosteiros em Annegray, Luxeuil e Fontaines. Depois desentendeu-se com os
governantes e, em dado momento, foi forado a deixar o pas. Mais tarde,
viajou pela Francnia oriental e entrou na Itlia, encorajando a fundao de
mosteiros em So Galeno e, finalmente, em Bobbio, onde morreu em 615.
Outros se lhe seguiram, alguns parando, como Fursa, por volta de 630, na
East Anglia pag antes de passar ao continente; outros, como Tomiano, bispo
de Angoulme, exercendo o cargo no seio da Igreja franca; ainda outros,
como Ciliano de Wrzburg (martirizado em 689), viajando para regies pags
que o fizeram chegar ao leste europeu.
      O exemplo dos irlandeses levou outros a estabelecerem mosteiros na
Francnia: Richarius, um nobre da Picardia que fundou Saint-Riquier, e
Wandregisl, que fundou Saint-Wandrille, por exemplo. O movimento monstico
prosseguiu no sculo VII e comeo do VIII, mas foi suplantado em meados do
sculo VIII pela misso inglesa  Alemanha pag. Entretanto, uma esfera de
influncia irlandesa tinha sido estabelecida na Sua, ustria e sul da
Alemanha, e isso foi um manancial de tradies duradouras. No sculo XII,
numerosos mosteiros nessa rea proclamavam-se de origem irlandesa,
mesmo quando isso no era verdade, e fica muito difcil distinguir
caractersticas intrinsecamente irlandesas no mbito do primitivo monasticismo
medieval no continente.
      Os centros estabelecidos pelos irlandeses, ou atravs de influncia
irlandesa, no foram importantes meramente por razes espirituais, pois
contriburam para o progresso do saber e da educao; lugares como Luxeuil,
sua filial Corbie, e Bobbio, revestiram-se de significado especial na produo
e cpia de manuscritos -- obras clssicas, patrsticas e jurdicas. O principal
movimento monstico pode ter terminado em fins do sculo VIII, mas o
movimento de indivduos irlandeses prosseguiu, e as cortes francas
continuaram atraindo homens de saber irlandeses durante todo o sculo IX. O
poeta e pensador Sedlio e o telogo e filsofo Joo Escoto Ergena
destacaram-se entre os muitos estrangeiros que deram valiosas contribuies
para o renascimento intelectual carolngio, e a tradio que associou a Irlanda
e o saber continuou sendo uma fora poderosa no desenvolvimento europeu.
Ver Aidan                                                    WD
 G.H. Doble, The Saints of Cornwall (1960-70); L. Bieler, Ireland: Harbinger
of the Middle Ages (1963); E.G. Bowen, Saints, Seaways and Settlements in
the Celtic Lands (1969)

cesaropapismo Teoria de governo segundo a qual os poderes rgios e
sacerdotais combinam-se para ser exercidos por um nico governante leigo. A
idia promanou do conceito do imperador romano clssico como chefe da
Igreja e do Estado, uma vez que era cultuado como uma divindade. O primeiro
imperador cristo, Constantino (306-37), tentou controlar a Igreja
promulgando os princpios religiosos a serem observados por seus sditos
como dogmas, e nomeando e demitindo pessoalmente os dignitrios
eclesisticos. Apesar das promulgaes do Conclio de Calcednia (451),
essa poltica foi mantida pelos imperadores Zeno (474-91) e Justiniano.
Embora na Idade Mdia a autoridade papal fosse largamente aceita no
Ocidente, os imperadores bizantinos continuaram exercendo o papel dual
como chefe do Estado e da Igreja, e isso, em parte, foi responsvel pela
ruptura com a Igreja romana.
 [S. Runciman, A teocracia bizantina, Rio, Zahar Editores, 1978]

Champagne, feiras da Nas encruzilhadas das estradas que vinham              de
Flandres, Alemanha, Itlia e Provena, essas feiras converteram-se          no
mercado internacional da Europa nos sculos XII e XIII. A l inglesa,       as
especiarias e os corantes mediterrneos, as peles e os linhos alemes,      os
artigos espanhis de couro, eram as principais mercadorias de troca.        As
grandes feiras duravam 49 dias cada, e eram em nmero de seis: uma em
Lagny e em Bar-sur-Aube, duas em Provins e duas em Troyes. A primeira
semana passava-se recebendo mercadorias e a ltima liquidando contas.
Assim, as feiras tornaram-se regulares e importantes centros bancrios. O
final do sculo XIII assistiu ao declnio das feiras, com o crescente uso das
comunicaes martimas entre o norte da Europa e o Mediterrneo, e a
expanso do estado de guerra na Frana. Ver comrcio
 [F. Bourquelot, tudes sur les foires de Champagne, 2 vols., Paris, Le
Portulan, 1970]

Chaucer, Geoffrey (c. 1340-1400) Um dos maiores poetas ingleses, Chaucer
foi tambm um homem de negcios e um londrino ativo nos crculos da corte,
principalmente sob o patrocnio de Joo de Gaunt, duque de Lancaster. Viajou
muito, sobretudo pela Itlia na dcada de 1370, e seus cargos incluram o
controle de importantes aspectos dos servios aduaneiros em Londres.
Durante um certo perodo, foi tambm secretrio na administrao das obras
no palcio de Westminster, na Torre de Londres e na Capela de So Jorge,
em Windsor. Sua obra publicada comeou aparecendo no final da dcada de
1360 mas  pelas criaes de sua maturidade, mormente Troilo e Crssida
(c. 1382) e, acima de tudo, os Contos de Canterbury (depois de 1382), que
Chaucer  principalmente lembrado.
      Escolheu o ingls como o principal veculo de sua obra numa poca em
que o triunfo da lngua nativa sobre o francs ainda no estava assegurado de
forma absoluta, e introduziu estilos franceses e italianos de prosdia que
acabaram substituindo a predileo tradicional do ingls pelo verso aliterativo.
Sua combinao soberba de realismo e viso imaginativa, sua humanidade e
senso de comdia, destacam-no como um dos maiores espritos criativos da
poca. A estrutura dos Contos de Canterbury (contados por um grupo de
peregrinos, um perfil transversal da sociedade de seu tempo, na viagem de
Southwark para o tmulo de So Toms Becket, em Canterbury) deve muito
a o Decameron de Boccaccio, mas o tratamento  ingls, original e
especialmente valioso para todos os historiadores             interessados   no
pensamento e nas atitudes sociais do final do sculo XIV.
 D. Brewer, Chaucer, the Criticai Heritage 1385-1933 (1978) [G. Chaucer,
Os contos de Canturia, trad. P. Vizioli. S. Paulo, T.A. Queiroz, 1988; J.
Batista Neto, As viagens de Chaucer a Itlia, S. Paulo, FFLCH-USP, 1977]

China A conquista mongol da China comeou por volta de 1206, quando
Gngis Khan ascendeu a uma posio de supremacia entre os povos mongis
das estepes e iniciou um perodo de expanso. Aliando-se ao Estado Tangute
no nordeste do Tibete em 1209, Gngis Khan passou ento a atacar a
dinastia Chin, que governava o Estado setentrional chins de Juchen. Em
1215, ele tinha tomado a capital de Ta-tu (Pequim) e reduzido o territrio Chin
a uma pequena rea da China central. Em 1250, os mongis reiniciaram seus
ataques, dessa vez contra a dinastia Sung da China meridional. Sob a
liderana dos netos de Gngis Khan, o Gro-Khan Mangu e seu irmo Kublai
Khan, os mongis invadiram e dominaram o Estado Sung e em 1276 j
controlavam tambm a capital, Lin-an (Hangchow), onde estabeleceram a
dinastia Yuan (1279-1368). Na esfera governamental, os mongis introduziram
poucas mudanas quer na China setentrional ou na meridional, porquanto
permitiram que permanecesse tudo o que parecia ser o melhor da
administrao e religio existentes na China da poca. O impacto da
civilizao chinesa sobre o mundo ocidental foi mnimo, embora viajantes para
"Cathay", como Marco Polo, trouxessem de volta histrias do sculo XIII em
diante que ajudaram a enriquecer a imaginao ocidental.
 China among equals, org. por M. Rossabi (1983)

Chipre Tendo passado para o domnio grego aps a queda do Imprio
Romano no Ocidente, Chipre foi tomada pelos rabes em 644. Nos sculos
que se seguiram, a histria poltica da ilha foi turbulenta. Reconquistada pelos
gregos, capturada de novo pelos rabes de Harun al-Rachid e finalmente
devolvida  influncia bizantina pelo imperador Nicforo Focas (963-69). Em
1191, em retaliao pelo tratamento dispensado aos seus cruzados pelo
imperador Isaac Comneno, Ricardo I de Inglaterra conquistou a ilha e vendeu-
a aos Cavaleiros Templrios, que pouco depois a revenderam ao rei de
Jerusalm, Guy de Lusignan. Sob o governo de Guy, de seu irmo Amaury e
seus sucessores, a administrao da ilha assemelhava-se  da Europa feudal.
Durante os sculos XIV e XV, a influncia italiana tornou-se mais importante;
entre 1376 e 1464 a cidade mercantil de Famagusta esteve em mos dos
genoveses, enquanto que em 1489, aps a morte do rei Jaime III, a ilha toda
passou para a esfera do imprio veneziano, assim permanecendo at ser
capturada pelos turcos em 1571.
 G. Hill, A History of Cyprus (1948-52)

Chrtien de Troyes (c. 1135-83) Escrevendo para um pblico culto nas
cortes aristocrticas da Frana setentrional entre 1165 e 1180 (Maria,
condessa da Champagne, e Filipe, conde de Flandres, estavam entre seus
patrocinadores), Chrtien destaca-se como a mais influente e inovadora figura
da literatura verncula do sculo XII. Fundador do gnero romanesco, suas
obras foram traduzidas e imitadas por toda a Europa. Inspirou-se num corpus
de lendas arturianas, essencialmente clticas, e na cultura e sociedade
cortes de seu tempo; suas obras mais conhecidas incluem cinco longos
poemas narrativos: Erec e Enide, Cligs, Yvain ou o Cavaleiro do leo,
Lancelote ou o Cavaleiro da carreta e Percival ou o Conto do Graal.
      Sua principal preocupao parece ter sido as atitudes, hbitos e crenas
que caracterizavam a cavalaria de seu tempo, e suas implicaes morais. A
ao de seus romances concentra-se na busca de aventuras por parte do
cavaleiro andante, que diante de vrios problemas e crises, precipitados
usualmente pelo amor, cresce em estatura quando adquire uma identidade e
novos valores, o que o habilita a realizar melhor seu potencial individual e a
cumprir plenamente seu papel na sociedade. Com seu ltimo e inacabado
romance, Percival,  introduzida uma dimenso religiosa onde antes estava
presente o amor por uma mulher como a influncia mais civilizadora e
enobrecedora sobre o homem. Alguns crticos contentam-se em interpretar as
obras de Chrtien como ilustrativas da reconciliao da necessidade dual do
homem entre o amor dentro do casamento e a aventura. Outros preferem ler
nas entrelinhas, vendo-o como um provocante, at subversivo, formulador de
questes difceis.
      possvel que os leitores modernos de Chrtien se impressionem com
sua constante variao de tom e, em particular, sua justaposio de ostensivo
realismo e bvia fantasia. Alm de sua verstil manipulao do octosslabo,
sua explorao teatral do dilogo e da retrica, e de sua habilidade na
estruturao da narrativa, a erudio discreta de Chrtien, seu talento para a
observao e a anlise psicolgica (especialmente do amor), seu humor e
penetrante uso de ironia combinam-se para dar um sentido de desenvolta
elegncia e refinamento  sua obra. Ver romances de aventura IS
 J. Frappier, Chrtien de Troyes (1957); L. Topsfield, Chrtien de Troyes: A
Study of the Arthurian Romances (1981)

Chrysoloras, Manuel (1350-1415) Nobre bizantino e fundador dos estudos
gregos na Itlia renascentista. Chegou pela primeira vez  Itlia em 1394
numa misso diplomtica para o imperador Manuel II. Em 1396 era nomeado
professor de grego na Escola de Florena. Depois de 1400 residiu
permanentemente na Europa, lecionando em Veneza, Milo, Pavia e Roma. O
papa Gregrio XII enviou-o em diversas misses, e Chrysoloras faleceu
quando participava do Conclio de Constana (1414-1418). Suas tradues de
Homero e Plato para o latim, bem como sua gramtica grega, muito
contriburam para reanimar o estudo do grego no Ocidente. Foram seus
alunos, entre outros, Leonardo Bruni e Guarino de Verona.
 G. Cammeli, I dotti Bizantini e le origini dell'humanesimo: I Manuele
Crisolora (1941)

Cid, el (Rodrigo Diaz) (c. 1043-99) Nascido na aldeia de Bivar, perto de
Burgos, de uma famlia de infanzones, o mais baixo grau na hierarquia da
nobreza castelhana. Armado cavaleiro por Sancho II de Castela, Rodrigo
passou a ser o seu alfrez (porta-estandarte mas, de fato, comandante-em-
chefe) e derrotou Afonso VI de Leo em Golpejera (1072). Alguns meses
depois, o assassinato de Sancho e a volta de Afonso aos tronos de Leo e
Castela afastaram Rodrigo do centro do poder. Embora Afonso combinasse o
casamento de Rodrigo (1074) com Jimena Diaz, de sangue real leons, como
um gesto de reconciliao, a desconfiana persistiu. (Rodrigo e Jimena no
eram aparentados: Diaz no era um sobrenome mas um patronmico, "filho ou
filha de Diego".) Cortesos invejosos da alta nobreza teciam intrigas contra
Rodrigo, a quem viam como uma ameaa, tanto por suas qualidades pessoais
quanto por ser membro de uma nova classe vigorosa.
      A oportunidade deles chegou em 1081, quando Rodrigo efetuou uma
incurso contra o reino muulmano de Toledo. Foi banido e colocou-se a
servio do emir de Saragoa, cujo exrcito comandou por vrios anos com
grande xito; nada havia de inslito em tais alianas at a invaso dos
almorvidas. A lhe foi dado o ttulo rabe de sayyid ("senhor"), hispanizado
como Cid. Uma reconciliao com o rei Afonso (1087) durou apenas dois anos
e, banido de novo, Rodrigo avanou para sudeste, usando seus talentos
militares e polticos e seu ntimo conhecimento dos muulmanos hispnicos
para formar o reino de Valncia, sua esfera de influncia. Manteve os
almorvidas em xeque (foram suas as nicas vitrias obtidas contra eles por
qualquer general cristo nessa poca) e, quando o seu protegido, o rei de
Valncia, foi assassinado num golpe pr-almorvidas (1092), El Cid sitiou a
cidade, que se rendeu aps dois anos de cerco. A partir de 1094, Rodrigo
governou Vlncia, nominalmente para Afonso, na prtica como soberano (por
exemplo, nomeou um monge francs de Cluny para bispo). Desbaratou uma
ofensiva almorvida e, de novo reconciliado com Afonso, manteve Valncia em
seu poder at sua morte.
      O nico filho de Rodrigo e Jimena morreu em combate sem deixar
descendncia. Uma de suas filhas casou com um prncipe navarro e a outra
com o conde de Barcelona. Seus descendentes vieram a ser reis de Castela e
de Leo no sculo XII, e o sangue de Rodrigo penetrou na linhagem real
inglesa em meados do sculo XIII atravs de Leonor de Castela. El Cid 
retratado pelos historiadores rabes como um opressor cruel, mas pela
Historia Roderici do sculo XII e pelas lendas do mosteiro de So Pedro de
Cardea (onde ele e Jimena esto sepultados) como um santo leigo. O
homem real poder destacar-se com maior clareza do Poema del Cid (c.
1207), ainda que boa parte do enredo seja fico; Rodrigo  apresentado
como um governante bravo, leal, sagaz e realista -- talvez o nico heri pico
que se preocupou com sua capacidade em pagar seus soldados. Baladas
posteriores, das quais Le Cid de Corneille descende indiretamente, oferecem
um                                 quadro                               mais
fantasioso.                                                          ADD
 S. Clissold, in Search of the Cid (1965) [R. Menendez Pidal, La Espaa del
Cid, 2 vols., Madri, Espasa-Calpe, 7 ed., 1979; Poema de mio Cid, org. por
I. Michael, Madri, Castalia, 1980]

cidades O desenvolvimento de uma vida urbana prpria  um importante
aspecto da Europa medieval. Nos ltimos sculos do mundo antigo, a
civilizao dos gregos e romanos, em sua mais plena forma, era urbana, e sua
literatura e instituies refletiam valores urbanos. Na verdade, o Imprio
Romano era a maior das antigas cidades-Estado, com seus privilegiados
sditos gozando de uma cidadania comum a todos. O colapso final do governo
centralizado no sculo V e o gradual povoamento do Ocidente por invasores
germnicos, enfraqueceu a economia urbana do Imprio e, com ela, sua
cultura. A subseqente reaglutinao de populaes urbanas  um aspecto
significativo da nova cultura da Idade Mdia, surgida das runas de Roma.
       Tal mudana nunca foi precisa e completa. Em grande parte da Europa
continental, a Igreja crist manteve tradies do governo romano e, portanto,
algo de vida urbana, na medida em que utilizou as fundaes remanescentes
para apoiar-se nelas. A diocesis romana tornou-se uma instituio
eclesistica; a civitas tribal e as capitais provinciais da Glia, como Paris,
Reims ou Tours, tornaram-se ss episcopais. A transio da Antigidade para
a Renascena na Itlia foi mais breve e mais ambgua do que no resto da
Europa, e na prpria Roma e cidades maiores, as populaes concentradas
sugerem certa continuidade de instituies. Mesmo ao norte dos Alpes, em
lugares como Bordus, e na Espanha e Norte da frica antes das invases
rabes, vestgios do sistema jurdico e administrativo romano sobreviveram no
novo perodo, com escolas para sustent-los.
     Essas sobrevivncias tiveram apenas efeitos leves na Glia setentrional,
Bretanha e bacia do Reno, onde a influncia romana tinha sido sempre
atenuada pela distncia do Mediterrneo. Na Gr-Bretanha, algumas cidades
romanas foram inteiramente abandonadas, como Silchester (Calleva
Atrebatum) no Hampshire, e Venta Icenorum no Norfolk. De modo geral,
entretanto, a importncia estratgica dos melhores locais garantiu alguma
continuidade de ocupao, e a questo a debater consiste em apurar em que
medida e quando as comunidades podem ser consideradas urbanas. Uma
cidade caracteriza-se por uma certa densidade de povoamento, que supera a
capacidade da comunidade para produzir seu prprio alimento; um padro de
ocupao que inclui a permuta regular de bens e servios; e um status civil
bem definido. A populao das cidades medievais era densa, pelos padres
contemporneos, mas nunca muito numerosa. Na Inglaterra, somente Londres
se aproximava dos 50.000 habitantes, ao passo que as maiores cidades
provincianas ficavam perto dos 10.000. Os burgos rurais menores contavam
com artesos e mercadores, mas somavam apenas algumas centenas de
habitantes. No continente, os maiores centros eram superiores a Londres, e a
proporo entre a metrpole e a cidade de mercado era
correspondentemente ampliada. Todas tinham em comum o fato de
dependerem da zona rural para obteno da maior parte de seu alimento e
para a imigrao.
     O status civil, conceito indefinvel nos primeiros tempos, no deve ser
considerado exageradamente. No obstante, o interesse comum de reis e
bispos conferiu a alguns lugares uma preeminncia especial. Os palcios reais
e as comunidades religiosas tinham que ser sustentados, e onde suas
propriedades estavam muito espalhadas, os transportes e um sistema de
trocas originavam e mantinham mercados em localidades antigas e novas. A
Igreja, em particular, necessitava de incenso e de outros produtos que a
Europa ocidental no podia fornecer, e tanto as especiarias do Oriente quanto
as peles do Norte encontravam uma clientela permanente. Embora esse
comrcio a grande distncia nunca cessasse, esteve durante alguns sculos
nas mos de mercadores e transportadores que freqentavam as feiras e
outros locais temporrios, em vez de povoaes permanentes. Os frsios
eram um dos povos que mantinham tal comrcio, at serem finalmente
eclipsados pelos vikings. A crise das invases escandinavas do Ocidente, as
quais destruram alguns dos primeiros entrepostos, como Dorestadt, ajudaria
mais tarde a encaminhar o comrcio e uma administrao mais ordenada para
cidades populosas e mais eficazmente defensveis.
      A partir do sculo X, a sociedade europia era sustentada por uma rede
de ncleos urbanos, embora suas condies e dimenses variassem muito. Na
Inglaterra, onde o poder real foi precocemente consolidado, as cidades
caracterizavam-se por um certo grau de dependncia consentida e de
uniformidade. Por mais danosas que as incurses escandinavas tivessem sido,
a reao contra elas produziu um sistema relativamente bem planejado. O
nome em ingls arcaico para um forte, burh, passou gradualmente a significar
um burgo (borough = cidade pequena e cercada de muralhas de defesa).
Durante um sculo antes da conquista normanda, burgos fortificados foram
comumente centros de administrao, com seus tribunais prprios, mercados
protegidos e privilgios especiais para os seus habitantes. Tambm possuam
casas de moeda que cunhavam peas de excepcional qualidade, sob rgido
controle real.
      Por toda a Europa, as cidades refletiram as condies polticas vigentes
pelo seu grau de autonomia ou de subordinao. Na Frana, a autoridade dos
reis atingia mais levemente os sditos fora de seus prprios domnios, mas se
as vilas e cidades estavam livres de controle real, tinham que levar em conta a
presena de condes e outros senhores locais. As maiores cidades alems
beneficiaram-se do declnio da fora dos imperadores, e aquelas que
finalmente expressaram seu poderio na Liga Hansetica j desfrutavam de
substancial independncia em seus territrios. Na Itlia, Pisa, Gnova e
Veneza possuam frotas mais poderosas do que as da Hansa, enquanto que
centros interiores de comrcio e comunicaes, como Milo, Florena e
Siena, podiam mobilizar exrcitos para se protegerem e aos seus hinterlands.
     Para cada uma das novas cidades-Estado, entretanto, havia muitos
milhares de pequenas povoaes, as quais se pareciam com suas vizinhas
maiores no tocante a funes e pretenses, e eram essenciais  existncia
no s das cidades maiores mas tambm dos nobres poderosos, leigos ou
eclesisticos, com quem cidades como Veneza tratavam e rivalizavam.
Embora no perodo formativo dos sculos XI e XII, burgueses e cidados
brigassem com reis, prelados e nobres, e fossem usualmente intimidados por
eles, suas querelas escondiam uma forte interdependncia. Cidades e
mercadores aspiravam ao controle de seus prprios negcios, mas
precisavam e desejavam a proteo do Estado quando estavam longe. Reis e
nobres no viam com agrado a conduta altiva dos cidados e alarmavam-se
com a propenso destes para formar associaes juramentadas,
especialmente as Comunas do sculo XII. Tais manifestaes pareciam
subversivas e ameaadoras, mas ao mesmo tempo a aristocracia recorria s
cidades no s para obter suprimentos, como tambm para cobrar os tributos
com que era paga a proteo poltica e para conseguir emprstimos junto aos
comerciantes que, ao contrrio dos agricultores, podiam produzir em qualquer
estao do ano.
       O comrcio, com algumas indstrias, mantinha as cidades; a
administrao das leis assegurava-lhes a independncia. Num perodo em que
comunidades de toda espcie se distinguiam por seus costumes, os das
cidades eram marcados (entre os usos que poderiam ser encontrados em
qualquer comunidade rural) por prescries que favoreciam um grau de
relativa liberdade pessoal, a livre disposio de bens, incluindo com freqncia
sua legao testamentria, a observncia e execuo de contratos e o
ressarcimento de dvidas. Tais costumes no eram uniformes, mas
constituam um meio conveniente para salvaguardar e desenvolver as regras
que definiam e protegiam a comunidade. As cidades permutavam, de bom
grado, informaes sobre tais matrias; a mais antiga carta entre duas
municipalidades inglesas descreve os termos da carta rgia de Northampton
para benefcio dos burgueses de Lancaster, que em 1200 estavam
procurando obter a concesso de iguais privilgios. Os direitos do burgo
normando de Breteuil (Eure) foram outorgados a inmeras localidades da
Inglaterra, Gales e Irlanda por senhores anglo-normandos, e os direitos
consuetudinrios de Magdeburgo propagaram-se a centenas de cidades da
Europa oriental quando cavaleiros, mercadores e artesos alemes
avanaram em direo s plancies do Vstula e do Dniester.
       Protegidos por muralhas e definidos por seus direitos, os cidados
viviam em comunidades distintas mas no isoladas. Sditos de seus senhores
e soberanos, exceto numa minoria de verdadeiras cidades-Estado, os
cidados administravam a lei em seus prprios tribunais e lanavam seus
prprios impostos. Fundavam e patrocinavam igrejas e capelas; mantinham
escolas e hospitais, estradas e pontes. Seus funcionrios mantinham livros de
atas e redigiam sentenas dos tribunais, escrituras e outros documentos
cartoriais, escrituravam os livros contbeis e escreviam crnicas em que eram
celebrados os mitos e os fatos histricos da cidade. Os pblicos a que se
dirigiam eram exigentes e atentos aos seus prprios interesses, mas no
ignoravam a existncia de um mundo mais vasto. Os nobres tinham casas na
cidade, e os cidados mais prsperos e bem-sucedidos adquiriam
propriedades no campo. Uns e outros patrocinavam os mesmos artistas e
artesos. As prprias cidades adotavam alguns dos adornos da sociedade
aristocrtica. Os homens dos Cinque Ports, cujos barcos compunham a fora
naval permanente do rei, e os cidados de Londres, eram coletivamente
intitulados bares em determinadas ocasies solenes. As municipalidades
passaram a exibir brases, escudos de armas e outros distintivos herldicos.
       Uma das primeiras ocasies para tais exibies ocorreu com o uso de
um selo comum para autenticar atos realizados em nome da cidade. Selos
municipais apareceram no norte da Europa no sculo XII e estabeleceram-se
rapidamente como uma das marcas do privilgio urbano. Quando os negcios
cvicos tornaram-se mais complexos, havia selos para tribunais especializados
e para funcionrios individuais. As divisas dos primeiros selos inspiravam-se
tanto em smbolos religiosos quanto em herldicos, em paisagens da cidade
com seus portes e muralhas, e ocasionalmente em retratos. O selo de
Doullens (Somme) reproduz as cabeas dos Scabini, ou magistrados
municipais, por exemplo.
      O selo era uma expresso da unidade dos cidados; o cerimonial era
outra, especialmente os rituais da irmandade ou da guilda. As guildas, com
sua irmandade juramentada e a sano de uma paz especial entre os irmos,
estavam perfeitamente ajustadas s condies da vida urbana. S por breve
tempo estiveram associadas aos benefcios e ao exerccio do governo
democrtico, mas dotaram todas as classes da sociedade dos meios de
associao formal. As corporaes religiosas e sociais possibilitaram
agremiaes para a magistratura e sociedades beneficentes para os cidados
em geral. As guildas de ofcios, sujeitas  fiscalizao municipal,
regulamentavam as admisses e as condies de trabalho em cada profisso,
e zelavam pelo bem-estar dos artesos. Todas as corporaes pblicas e a
maioria das corporaes privadas tinham sede numa igreja ou capela, e
mantinham sacerdotes como seus capeles. Do sculo XIV em diante, e
sobretudo com o recrudescimento do culto de Corpus Christi, os autos teatrais
patrocinados pelas guildas giravam em torno de temas bblicos, sendo
organizados pelas municipalidades no ritual do ano civil.
      A crise econmica do final da Idade Mdia acarretou srios problemas
para as cidades. Sob presso de uma populao crescente, desde o sculo
XI at fins do sculo XIII, muitos e novos centros urbanos foram estabelecidos
e emancipados, hoje assinalados apenas, com freqncia, por topnimos
como Newton, na Inglaterra, e seus equivalentes Vila Nova, Villeneuve,
Neumarkt etc. no continente. Numa economia estacionria ou em contrao,
nem todas as novas urbes foram viveis e algumas entraram em declnio. Ao
mesmo tempo, novos centros de fabricao de vesturio floresceram no sul
da Inglaterra, embora uma populao especializada corresse o risco de
desemprego cclico, o que era um srio problema nas cidades flamengas de
Gand, Bruges e Ypres no incio do sculo XVI. Entretanto, as cidades
continuaram atraindo imigrantes do interior e, a par da decadncia em
algumas zonas, h evidncia da subdiviso e da construo mais intensiva em
outras reas, bem como da multiplicao de edifcios especializados, como as
estalagens. A chamin, despejando  sua volta a fumaa dos quartos do
andar trreo, em vez de o fazer atravs dos andares superiores, era uma
caracterstica das casas urbanas desde, pelo menos, o sculo XII, tal como
era tambm a estreita fachada para a rua, formada pela oficina ou loja, e uma
entrada para carruagens que dava para um longo e variadamente ocupado
ptio, do qual muitos exemplos sobrevivem hoje por toda a Europa.
      A imagem da cidade medieval amuralhada, compacta e densamente
edificada no  falsa, embora a realidade seja mais complexa. As muralhas e
portas serviam mais freqentemente para regularizar o trfego e facilitar a
cobrana dos tributos do que para defender a cidade de ataques. Havia
hortas e pomares do lado de dentro das muralhas, e at as maiores cidades
possuam campos extramuros. Eram um lembrete de que a comunidade rural
era dominante na sociedade medieval, tal como a comunidade urbana o  na
sociedade moderna. Contudo, as cidades desempenharam funes vitais na
concentrao de pessoas e misteres, e na produo de riqueza. As
universidades, que desalojaram os mosteiros como centros de saber e
tornaram-se vitais para a Igreja e o Estado como locais de treinamento para
administradores, foram ldimos produtos da cidade medieval. Tambm o
foram, num outro sentido, as viagens de explorao que abririam um mundo
mais vasto para as potncias europias na era renascentista. Ver comrcio;
feiras; guildas; l, comrcio de; universidades; ver tambm cidades
individualmente registradas         GM
 M.W. Beresford, New towns of the Middle Ages (1967); S. Reynolds, An
Introduction to the history of English medieval towns (1977) [Ph. Dollinger, La
Hanse, Paris, Aubier, 1964; R.S. Lopez, A cidade medieval, Lisboa,
Presena, 1988]

cincia No sentido de que a cincia envolve a busca da verdade em todos os
ramos do conhecimento, sustenta-se com freqncia que a Idade Mdia na
Europa foi um perodo relativamente estril; entretanto, um exame atento dos
principais ramos do conhecimento humano leva a uma considervel
modificao de tal ponto de vista.  verdade que a teologia era considerada a
rainha das cincias e, como tal, podia ter, e teve, um srio impacto sobre o
livre exerccio do intelecto. Supersties irracionais, crenas profundamente
enraizadas na magia, animismo pago tenuemente disfarado por um verniz
cristo, serviram tambm para inibir a investigao cientfica de fenmenos
naturais.
       No obstante, a transmisso do saber clssico por homens doutos da
estirpe de Bocio e Beda, no comeo da Idade Mdia, e o trabalho de
eruditos dos sculos XII e XIII, apoiados em fontes rabes, produziram
significativos esclarecimentos e avanos. Pelos rabes foram transmitidos o
uso do baco, o conhecimento matemtico e os progressos na lgebra; e em
fins da Idade Mdia os algarismos rabes eram de uso comum no Ocidente,
sobretudo na Itlia, nas comunidades mercantis mais avanadas. Gerberto
d'Aurillac (papa Silvestre II, 996-1003) foi um matemtico precocemente
notvel, ao passo que Roger Bacon, na Inglaterra (1214-92) e Leonardo de
Pisa (Fibonacci, m. c. 1240) deram significativas contribuies originais. A
astronomia foi estudada em profundidade, embora com as inevitveis
distores devidas ao fato de apoiar-se em Ptolomeu e ao estreito
relacionamento estabelecido com a astrologia. A base experimental da
alquimia, embora corrompida pela busca do "elixir da vida" e da "pedra
filosofal" serviu para lanar os fundamentos da qumica. Remdios populares
e o interesse pelas propriedades curativas das plantas resultaram num
acmulo de conhecimentos talvez mais efetivos na prtica, do que sob a
tmida forma que muitas vezes assumiram quando foram registrados por
escrito. Nicolau d'Oresme, bispo de Lisieux (m. 1382), anteviu descobertas na
fsica e as leis do movimento planetrio, incluindo a proposta de que a Terra
girava em torno do seu eixo.
      Nos campos cientficos prticos da arquitetura, construo de castelos,
catedrais, igrejas e barcos, a Idade Mdia apresenta uma invejvel lista de
realizaes. Em muitas questes prticas relacionadas com uma sociedade
predominantemente agrria, foram obtidos avanos positivos e permanentes:
a utilizao de animais nas tarefas de lavrar a terra, a manuteno da
fertilidade do solo, drenagem, o desenvolvimento de eficientes tcnicas de
moagem. Os moinhos de vento foram introduzidos na Europa desde o inundo
rabe no decorrer do sculo XII. Uma melhor apreenso de tcnicas
mecnicas acumulou-se em fins da Idade Mdia, e foram realizados
progressos nos campos da tica, da construo de relgios, e na elaborao
de processos para uma cunhagem mais eficiente de moeda.
         a ausncia de confiana no que o mundo moderno passou a
reconhecer como mtodo cientfico, que d  Idade Mdia sua precria
reputao; na prtica, porm, muitos progressos lentos mas permanentes
foram feitos na compreenso de fenmenos naturais e no uso de recursos
naturais. Ver Geraldo de Cremona; medicina [40, 315]
 L. Thorndike, A History of Magic and Experimental Science (1923-58); C.H.
Haskins, Studies in the History of Medieval Science (1926); [J. Gimpel, A
Revoluo Industrial da Idade Mdia, Zahar Editores, 1977]; D.C. Lindberg,
Science in the Middle Ages (1978)

Ciompi, revolta dos (1378) Uma sublevao de artesos em Florena,
dirigida contra o elevado grau de controle exercido pelas principais guildas nos
negcios da cidade. Os rebeldes, que exigiram salrios mais altos e uma
participao das guildas menores na administrao da cidade, assumiram o
controle da municipalidade em 22 de julho e assim deram origem a um dos
governos mais democrticos de toda a histria de Florena. Um pequeno
grupo, os Ciompi, cardadores e espadeladores de l que auferiam salrios
muito baixos, estavam porm insatisfeitos com o novo regime e em agosto
rebelaram-se contra ele; as guildas maiores e menores uniram-se ento num
supremo esforo para derrot-los. Embora aps a supresso dos Ciompi as
guildas menores permanecessem nominalmente no controle, as guildas mais
importantes comearam tomando de novo a iniciativa e quatro anos depois
tinham recuperado o poder. Ver Lando, Miguel de
 F. Schevill, Medieval and Renaissance Florence (1961)

Cirilo, So (826-69) Apstolo dos eslavos. Natural de Tessalnica, Cirilo
tornou-se bibliotecrio de Santa Sofia, em Constantinopla, e uma figura
influente na corte. Em 868, satisfazendo um pedido de Roteslav, prncipe dos
eslavos ocidentais, Cirilo e seu irmo Metdio foram enviados como
missionrios cristos  Morvia pelo imperador Miguel III. Eles converteram
muitos ao Cristianismo e traduziram a liturgia e algumas das Escrituras para o
eslavo, tendo Cirilo inventado para esse fim um novo alfabeto. Tiveram
problemas com os missionrios alemes que os tinham precedido e foram
forados a sair. Cirilo morreu em Roma em 869, mas Metdio voltou mais
tarde  Morvia e tornou-se arcebispo dos eslavos ocidentais. Na prpria
Morvia, a influncia germnica e a liturgia latina persistiram e passaram a
dominar aps um acordo em 872, mas em todas as demais regies, entre os
povos eslavos, para o leste na Rssia moderna e para o sul na moderna
Iugoslvia, a contribuio de Cirilo provou ser permanente; a escrita cirlica,
baseada em sua adaptao do alfabeto grego aos sistemas de sons eslavos,
tornou-se o instrumento normal para a liturgia e o trabalho litrgico.
D S. Runciman, A History of the First Bulgarian Empire (1930)


Cisneros, Francisco Ximenes de (1436-1517) Arcebispo de Toledo. Cardeal
espanhol que, aps a capitulao dos mouros de Granada (1492), se recusou
a sancionar a prometida tolerncia religiosa. Suas aes resultaram numa
longa e implacvel insurreio por parte dos muulmanos, a qual s terminou
em virtude de um decreto (1502) que lhes concedia a alternativa de banimento
ou converso. Portanto, muitos mouros tornaram-se cristos nominais ou
moriscos, mas suas convices religiosas permaneceram duvidosas.
 J. Garcia Oro, Cisneros y la reforma del clero espaol en tiempo de los
Reyes Catolicos (1970)

Cister, Ordem de Uma das novas Ordens religiosas que cresceram no
comeo do sculo XII em resposta ao apelo por maior ascetismo. Fundada
por Roberto, abade de Molesmes, que tinha deixado sua prpria abadia por
discordar da brandura de sua observncia religiosa, a Ordem adotou para seu
nome o do pequeno povoado de Cteaux, na regio de Dijon. [Cister  o
topnimo derivado do latim Cistercium, nome da povoao romana
antepassada de Cteaux. NT] O objetivo da ordem Cisterciense era viver de
acordo com a Regra de So Bento interpretada literalmente. Embora o
prprio Roberto fosse obrigado a voltar a Molesmes em 1099, sua obra teve
continuidade com os dois abades seguintes de Cister, Alberico (1099-1100),
que obteve o formal reconhecimento papal da Ordem, e Estevo Harding (m.
1134), que foi o responsvel pela compilao de grande parte do primeiro
documento legislativo da ordem, a Carta Caritatis (Carta do Amor Divino).
      A mxima expanso da Ordem, entretanto, ocorreu sob a direo de
So Bernardo, abade de Clairvaux (ou Claraval), uma figura eminente tanto na
prpria Ordem quanto na Cristandade como um todo. O crescimento da
Ordem foi rpido: em 1132 j havia casas cistercienses na Frana, Itlia,
Alemanha, Inglaterra e Espanha; posteriormente atingia pases to distantes
como a Noruega, a Siclia e a Romnia. Por volta de 1200 havia mais de 500
casas cistercienses e esse nmero aumentaria para uma estimativa de 742
casas no incio do sculo XVI.
     [Os monges cistercienses entraram com D. Henrique de Borgonha no
que viria a ser o Condado Portucalense, na primeira dcada do sculo XII.
Fundado o reino portugus pelo filho de D. Henrique, D. Afonso I, em 1140, a
Ordem Cisterciense acompanhou a expanso para o sul e em 1178 era
fundado o mosteiro de Alcobaa, um dos mais grandiosos espcimes de toda
a arquitetura Cisterciense do sculo XII. NT]
     Os cistercienses estavam divididos em dois tipos diferentes de monges:
os monges de coro, muitos dos quais eram padres e, portanto, dotados de
boa educao, e os irmos leigos, que cultivavam os campos ou cuidavam do
errio e das transaes comerciais dentro do mosteiro. Portanto, os
cistercienses propiciavam a homens comuns, de antecedentes no-
aristocrticos, a oportunidade muito solicitada de se dedicarem  vida
monstica. Em conseqncia da estrita observncia da Regra de So Bento,
a liturgia dos cistercienses era muito mais simples do que a dos beneditinos
seus contemporneos. Suas construes monsticas tambm eram mais
singelas, com poucos detalhes decorativos e, no sculo XII pelo menos, a
maioria de suas igrejas eram simples e quadrangulares. Para resistir s
tentaes mundanas, os cistercienses escolheram lugares ermos para as
suas abadias; Fountains e Rievaulx, por exemplo, foram instaladas nas
charnecas do Yorkshire, enquanto que umas 15 casas estavam situadas nas
terras baldias a leste do rio Elba, na Alemanha.
      Economicamente, portanto, a Ordem de Cister tornou-se muito
importante, uma vez que foi responsvel pela recuperao e arroteamento de
muitos territrios marginais, integrando-os  agricultura. Os cistercienses
visavam a auto-suficincia, cultivando seu prprio trigo e criando seu prprio
rebanho a fim de lhes fornecer l para os hbitos. Ao contrrio dos
beneditinos, os cistercienses no arrendavam suas vastas propriedades rurais
a lavradores leigos; cultivavam eles prprios suas terras atravs de uma srie
de granjas ou quintas administradas pelos irmos leigos. Uma outra
caracterstica notvel da Ordem Cisterciense era a estreita vigilncia mantida
pela abadia de Cister sobre as outras casas da Ordem. Esperava-se que
todos os abades cistercienses viajassem anualmente a Cteaux para um
captulo geral, embora fossem feitas excees por causa das distncias
envolvidas. Nesse captulo geral eram elaboradas regulamentaes vlidas
para toda a Ordem, e cada abade era repreendido ou elogiado. Alm disso, o
abade de cada casa-me era responsvel por visitas a todas as suas filiais. A
utilidade dessa estrutura constitucional no tardou em ser reconhecida por
toda a Igreja, e no IV Conclio de Latro (1215) a obrigao de realizar
periodicamente   captulos   gerais   foi   imposta   a   todas   as   Ordens
religiosas.                                 AC
 Statuta Capitulorum Generalium Ordinis Cisterciensis, org. por J.M.
Canivez, vol. I (1933); C.N.L. Brooke, The Monastic World (1974) [L.J. Lekai,
Los cistercienses, Barcelona, Herder, 1987]

Clara de Assis, Santa (1194-1253) Nascida em Assis, no seio da famlia
Offreduccio, Clara foi to profundamente inspirada pela vida de So Francisco
que em 1214 renunciou a todos os seus bens materiais e juntou-se a ele na
Porcincula. Relutante em permitir que mulheres participassem de sua vida
errante de pedinte e pregador, Francisco instalou Clara e suas companheiras
numa casa adjacente  igreja de So Damio em 1215, fundando assim a
Ordem das Clarissas Pobres. Embora fosse uma Ordem de clausura,
devendo muitas de suas tradies  Regra de So Bento, as Clarissas Pobres
levaram uma vida de grande austeridade e pobreza, logo se tornando
extremamente populares. Em fins do sculo XIII havia 47 casas s na
Espanha, enquanto que conventos de Clarissas Pobres eram estabelecidos
tambm na Inglaterra, Frana e Bomia. [Em Portugal, o convento de Santa
Clara, em Coimbra, foi fundado por Isabel de Arago (1274-1336), esposa do
rei D. Dinis e canonizada no sculo XVII. A Rainha Santa, como ficou
popularmente conhecida, tem seu corpo incorruto exposto na igreja do
convento. NT]
 J. Moorman, A History of the Franciscan Order (1968); R.B. e C.N.L.
Brooke, "St. Clare", Medieval Women, org. por D. Baker (1978) [D. Elcid,
Clara de Asis. La hermana ideal de San Francisco, Madri, BAC, 1981. Os
escritos de Santa Clara, trad. G. van Buul e S. Lunter, Petrpolis, Vozes,
1981]

Claredon, Constituies de (1164) Decretos de Henrique II da Inglaterra que
tentaram estabelecer um relacionamento formal entre Igreja e Estado. Nas
Constituies, os apelos a Roma eram proibidos sem a permisso real; todos
os litgios entre clrigos respeitantes a benefcios tinham que ser ouvidos no
tribunal rgio; era requerida autorizao regia para clrigos deixarem o reino e
tambm para grandes vassalos serem excomungados. Houve grande
oposio ao decreto, que estipulava que clrigos criminosos deviam ser
julgados primeiro em tribunal secular e s depois enviados ao tribunal
eclesistico, reservando-se tambm o tribunal secular o direito de punio.
Embora pretendendo regulamentar usos comuns no reinado de Henrique I, as
Constituies no foram aceitas por So Toms Becket e pelo clero ingls; os
costumes prejudiciais  Igreja foram abandonados por Henrique II em
Avranches (1172) aps o assassinato de Becket.
 C. Duggan, `The Becket Dispute and the Criminous Clerks", Bulletin of the
Institute for Historical Research (1962); W.L. Warren, The Governance of
Norman and Angevin England 1086-1272 (1987)

Clemente V papa 1305-14 Depois de estudar direito Cannico em Orlans e
Bolonha, foi nomeado bispo de Commignes em 1295 e arcebispo de Bordus
em 1299. Gasco de nascimento, foi coroado papa em Lyon e, de fato, nunca
esteve na Itlia. Em 1309 transferiu a Cria para Avignon e nomeou nove
novos cardeais franceses. Na maioria dos casos, no conseguiu exercer
influncia sobre o rei francs Filipe IV. Isentou Filipe de culpa na questo do
julgamento do papa Bonifcio VIII, a quem Filipe denunciara e encarcerara; e
a pedido do monarca aboliu a Ordem dos Templrios no Conclio de Viena em
1312. Entretanto, Clemente fez muito em prol da centralizao da
administrao papal, e tambm fundou a Universidade de Pergia em 1307.
      [O Conclio de Viena decidira, a pedido de Filipe, o Belo, que os bens da
extinta Ordem dos Templrios fossem transferidos para a Ordem de So
Joo de Jerusalm. Contudo, o rei D. Dinis decidiu fundar uma Ordem
exclusivamente portuguesa, sob controle direto da Coroa, a Ordem de Cristo,
a qual viria a desempenhar to relevantes servios na era dos
descobrimentos. O Infante D. Henrique foi mestre da Ordem e seus cavaleiros
foram muitos dos descobridores de novas terras e novos mares. NT] D G.
Mollat, The Popes at Avignon (1952)
Clermont, Conclio de (1095) Foi nesse Conclio que, em conseqncia de
um pedido de auxlio militar contra os muulmanos formulado pelo imperador
Aleixo I Comneno, o papa Urbano II deu incio  Primeira Cruzada. A inteno
de Urbano era no s auxiliar os bizantinos mas tambm reconquistar
Jerusalm para o Cristianismo e canalizar os incmodos e belicosos
cavaleiros para uma til campanha fora da Europa. Sua pregao foi acolhida
com um notvel grau de entusiasmo por todos os presentes ao Conclio,
muitos dos quais se apressaram em assumir seus votos de cruzados com
gritos de Deus volt ("Deus o quis"), frase que se converteu no grito de guerra
da campanha.
 H.E.J. Cowdrey, "Pope Urban II's preaching of the First Crusade", History
(1970)

clima O clima da Europa na Idade Mdia era geralmente mais quente do que
na Pequena poca Glaciria que se seguiu (1590-1850), sendo os sculos
mais quentes comparveis ao sculo XX e os mais frios ao sculo XIX. As
provas referentes ao incio da Idade Mdia vm especialmente dos estudos
dendrocronolgicos, na medida em que os anis concntricos existentes no
tronco das rvores refletem flutuaes da temperatura estivai; nos perodos
medievais posteriores, os cronistas fornecem informaes sobre gelo e neve,
sendo assim possvel determinar a temperatura de cada dcada. As
flutuaes na precipitao pluviomtrica so difceis de avaliar para o comeo
da Idade Mdia, embora as mudanas na densidade da turfa corroborem a
hiptese de que na poca das migraes do sculo V as plancies da Europa
setentrional estavam especialmente secas.
      A principal seqncia de mudana climtica foi, portanto, a seguinte: por
volta de 400, o tempo seco e quente, e at 800 foi principalmente quente,
embora veres mais amenos tivessem ocorrido em meados do sculo VI e
finais do sculo VII. O perodo de 800-950 foi particularmente frio, mas
seguiu-se-lhe uma fase de muito calor (950-1100), o perodo em que a
Groenlndia foi colonizada. Os veres voltaram a ser frios na primeira metade
do sculo XII mas muito quentes na segunda metade. Ocorreram ento
flutuaes de menor importncia, mas uma outra fase fria em meados do
sculo XV foi seguida de um longo perodo quente que comeou em 1470 e
durou at 1560. Durante os perodos quentes da Idade Mdia fazia-se vinho
em muitas regies do norte da Frana e, como o Domesday Book confirma,
vinhedos foram cultivados com xito em regies da Inglaterra.
     No perodo de 1000-1500, provas documentais tornam possvel
determinar com maior preciso as caractersticas de quase todas as
dcadas. Algumas, como a de 1090 (poca da Primeira Cruzada), de 1190 e
de 1360 (quando a expanso demogrfica cessou), foram muito chuvosas no
noroeste da Europa; outras, como as dcadas de 1130, 1200, 1300 e 1470,
foram excepcionalmente secas.
      As ms colheitas, crises demogrficas e fome refletem com freqncia
uma srie de anos chuvosos na Europa, os quais resultaram em epidemias de
tifo no inverno, ergotismo nas localidades onde se cultivava o centeio e
distomatose heptica das ovelhas, com todas as suas desastrosas
conseqncias para a economia. No noroeste europeu, os anos de 1125,
1151, 1174, 1193, 1195, 1224, 1233, 1256, 1257, 1258, 1271, 1294, 1315,
1316, e 1330 foram excessivamente midos. O perodo de 1257-58
caracterizou-se por chuvas abundantes em toda a Europa (possivelmente
associadas s erupes vulcnicas desse perodo), o que provocou uma fome
tamanha que os pobres devoravam carne de cavalo, cascas de rvores ou
coisas piores. Em 1315 e 1316, as chuvas foram ainda mais fortes e a
enchente de So Swithin de 17 de julho de 1316 explica em parte a lenda.
     Existem boas provas de dcadas de invernos quentes no noroeste da
Europa, centradas em torno de 1187, 1197, 1240, 1292, 1387 e 1475.
Dcadas de invernos frios foram aproximadamente as de 1128, 1206, 1218,
1305,1376,1398,1403,1422, 1436, e 1455. Invernos frios prolongados
ocorreram em 671, 764, 860, 913, 1074, 1150, 1205, 1225, 1282, 1306,
1264, 1299, 1408, 1423, 1435, 1443, 1458, 1460, 1465, 1481 e 1491.
     As provas inglesas esto espalhadas mas so comparativamente
abundantes; sabe-se, por exemplo, que o inverno de 764 foi excepcionalmente
severo, perdurando a neve e o gelo pela primavera adentro, e que o ano de
871, quando houve uma grande mortandade de pssaros, tambm sofreu um
inverno muito rigoroso. Um quadro completo em escala europia s ser
possvel quando todas as provas forem reunidas tanto do sul como do norte
da Europa, com detalhes referentes s secas e ao frio, a extensos incndios
no vero (como em 764 e 1089 na Inglaterra) e s queixas relativas  chuva
excessiva,     enchentes    e   outros      desastres   dessa natureza. Ver
dendrocronologia
 H.H. Lamb, Climate: present, past and future (1972) [E. Le Roy Ladurie,
Histoire du climat de-puis d'an mil, Paris, Flammarion, 1967]

Clvis rei dos francos 480-511 (n. 465) Filho de Childerico I, tornou-se rei dos
francos slios em Tournai, em 480. Aumentou seu poder pela fora bruta,
eliminando inimigos como o rei Cloderico de Colnia. Em 486 derrotou Sigrio,
um governador romano independente, em Soissons; e no decorrer dos 20
anos seguintes obteve vitrias decisivas contra os alamanos e os visigodos,
adquirindo o controle da maior parte da Glia, com exceo do litoral
mediterrneo. Em 508, o imperador Anastcio reconheceu-o como cnsul e
patrcio. Seu poder foi enormemente favorecido por sua converso ao
Cristianismo catlico numa poca em que a maioria das tribos brbaras tinha
aderido ao Arianismo. Em seu cdigo jurdico, a Lei Slica (508), Clvis
combinou elementos das tradies germnicas e romanas.  geralmente
reconhecido como o fundador da monarquia francesa histrica.
 E. James, The Origins of France from Clovis to the Capetians (1982)

Cluny, abadia de Fundada em 910 pelo duque Guilherme, o Piedoso, da
Aquitnia e colocada sob a estrita proteo do Papado, a abadia alcanou
seu apogeu com os abades Odilo (994-1048) e Hugo, o Grande (1049-1109).
Durante esse perodo, Cluny contou com mais de 300 monges e possua mais
de 200 dependncias. Para fazer face a essa expanso, a igreja abacial foi
reconstruda duas vezes em pouco mais de um sculo, sendo Cluny II
dedicada em 981 e Cluny III no incio do sculo XII. O perodo de grandeza de
Cluny, entretanto, chegou ao fim com o desastroso abadado de Pons (1109-
22). Embora isso fosse parcialmente remediado pelo prudente abade Pedro, o
Venervel (1122-57), este foi incapaz de neutralizar as crescentes tendncias
na Igreja, como um todo, no sentido do ascetismo e de uma simplificao da
liturgia. Ver Berno; Odo [352]
 J. Evans, The Romanesque Architecture of the Order of Cluny (1938); K.J.
Conant, Cluny, les glises et ia maison du chef d'ordre (1968)

Cluny, Ordem de Ordem de beneditinos reformados, a qual recebeu seu
nome da abadia de Cluny, na Borgonha francesa. Embora seguindo
nominalmente a Regra de So Bento, os cluniacenses davam grande nfase
ao elemento litrgico da vida monstica, dispondo assim de pouco tempo para
o trabalho manual, que era executado por criados leigos. Embora inicialmente
as casas reformadas por Cluny permanecessem independentes do ponto de
vista constitucional, durante o sculo XI a abadia comeou a reunir um grande
nmero de dependncias sobre as quais mantinha rigoroso controle. Todos os
monges cluniacenses deviam obedincia direta ao abade de Cluny, enquanto
que a todos os priores era solicitado o comparecimento a um captulo geral
que se realizava anualmente na casa matriz. Uma vez que Cluny tinha sido
fundada em dependncia direta do Papado, a Ordem pde, com o tempo,
livrar-se da jurisdio episcopal e, da em diante, nomeou os seus prprios
Visitadores. Extremamente influente na reforma moral da Igreja, reconhece-se
hoje que os cluniacenses tiveram uma influncia apenas indireta na situao
que levou  declarao de monarquia papal por Gregrio VII e  Questo das
Investiduras.
 L.M. Smith, Cluny in the Eleventh and Twelfth Centuries (1930); J. Evans,
Monastic Life at Cluny 910-1157 (1931); G. Constable, Cluniac Studies
(1980)

Cdigo de Justiniano (Codex Justinianus) Coleo de leis e textos jurdicos
da antiga Roma reunida por ordem do imperador Justiniano I. O Cdigo
consistia em quatro partes: o Codex Constitutionum (527-34), uma coletnea
de antigas leis romanas reunidas em 10 livros; o Digesto (530-33), que
consiste em 50 livros de citaes de juristas romanos; os Institutas (533), um
compndio elementar de instituies jurdicas para aqueles que estudam
direito; e Novellae (514-65), uma coleo de todas as leis promulgadas pelo
prprio Justiniano. Com exceo das Novelas, que foram escritas
parcialmente em grego, o Cdigo foi escrito em latim e tornou-se a obra
clssica de referncia sobre direito romano em grande parte da Idade Mdia.
Ver direito; Triboniano
 P. Collinet, La gense du Digeste, du Code e des Institute de Justinien
(1952); J.A.C. Thomas, The Institutes of Justinian (1975)

Coeur, Jacques (1395-1456) Filho de um abastado mercador de Bourges,
Coeur comerciava com o Levante em 1432, competindo com os italianos por
sua freguesia. Em 1436, foi nomeado diretor da Casa da Moeda de Paris, e
em 1438, nobilitado tesoureiro da casa real. Em 1444 presidiu ao novo
Parlement do Languedoc; em 1445, seus agentes negociaram um tratado com
o sulto do Egito e em 1448 com os cavaleiros de Rodes. Em 1451, foi
acusado de envenenar Agnes, ex-amante do rei Carlos VII; seus bens foram
confiscados e Coeur preso. Fugiu em 1455, foi acolhido pelo papa Nicolau V e
nomeado capito das foras navais do Papado na tentativa de reconquistar
Rodes. Morreu nessa expedio em Quios, a 25 de novembro de 1456.
 A.B. Kerr, Jacques Coeur (1927); P. Clment, Jacques Coeur et Charles VII
(1966)

Coimbra, Universidade de Fundada pelo rei D. Dinis em 1290, Coimbra foi a
primeira universidade em Portugal e a nica a ser a estabelecida na Idade
Mdia. A Universidade compunha-se de quatro faculdades -- medicina, direito
civil, direito Cannico e artes. No sculo XIV, foi principalmente famosa pelo
estudo de astronomia e contribuiu muito na preparao do caminho para os
exploradores portugueses. No sculo XV, a Universidade estava
profundamente dedicada ao estudo das matemticas.
 [M. Brando e L. Almeida, A Universidade de Coimbra. Esboo da sua
histria, Coimbra, Universidade de Coimbra, 1937]

Colleoni, Bartolomeu (c. 1400-75) Mercenrio italiano. Servindo inicialmente
nas foras de outros mercenrios, como Braccio da Montone, Colleoni foi
contratado para servir  repblica veneziana em 1432. No governo de
Francisco Maria Gonzaga, obteve muitas vitrias para Veneza, incluindo as
batalhas de Brscia e Verona. Quando Veneza reconciliou-se com Milo em
1441, Colleoni mudou de lado mas, em 1455, diante da oferta de maiores
incentivos por parte dessa repblica, regressou a Veneza com a patente de
capito-general vitalcio. Quando no estava guerreando, ocupava o seu
tempo melhorando a produo agrcola de suas propriedades.
 B. Belotti, La Vita di Bartolomeo Colleoni (1971)

Colonna, famlia Poderosa famlia romana cujo apoio ao partido imperial e
lutas tanto com o Papado quanto com a famlia Orsini desempenharam um
papel importante na poltica medieval italiana. Membros da famlia Colonna
apoiaram os imperadores Frederico I e Frederico II em seus conflitos com o
Papado, enquanto que Sciarra de Colonna auxiliou o francs Guilherme de
Nogaret em seu ataque e priso do papa Bonifcio VIII em 1303. Embora os
membros seculares da famlia estivessem assim, com freqncia, em
desavena com o Papado, os Colonna tambm se orgulhavam de contar com
sete cardeais entre os seus membros: Giovanni (nomeado em 1212), que
serviu como legado  Terra Santa na Quinta Cruzada; Giacomo (nomeado em
1278); Pietro (nomeado em 1288); Giovanni (nomeado em 1327), que foi
responsvel pela construo dos primeiros degraus para a escadaria do
monte Capitolino em 1348; Stefano (m. 1379); Agapito (m. 1380), que tinha
servido previamente como nncio junto do imperador Carlos IV; e Oddone,
que em 1417 foi eleito papa Martinho V.
      Os Colonna seculares foram clebres, com freqncia, como grandes
generais: Prospero e Fabrizio Colonna, por exemplo, tornaram-se to
importantes nessa funo, que quando Carlos VIII da Frana visitou Roma em
1495, eles formaram parte da cavalgada que saiu ao encontro do monarca
francs para lhe dar escolta de honra. Os Colonna deviam inicialmente seu
poderio s vastas propriedades que possuam em torno de Roma e
desfrutaram de um perodo de excepcional autoridade em Roma e nos
Estados pontifcios quando o Papado se retirou para Avignon (1309-77).
 J. Hook, "Clement VII, the Colonna and Charles V", European Studies
Review (1972)

Columba, So (521-97) Natural de Gartran, em Donegal (Irlanda), Columba
recebeu formao monstica sob a orientao de Finnian de Moville e de
Finnian de Clonard, antes de fundar seus prprios mosteiros em Derry, em
546, e em Durrow, dez anos depois. Em 563 deixou a Irlanda e estabeleceu
um mosteiro em Iona. Embora Iona se tornasse mais tarde um centro influente
para a disseminao do monasticismo cltico por toda a Esccia e norte da
Inglaterra, o trabalho missionrio do prprio Columba foi sobretudo o de fazer
converses ao Cristianismo naquelas regies da Esccia onde a influncia
irlandesa era particularmente forte e, em especial, nas ilhas ocidentais. Foi
tambm o copista do saltrio do final do sculo VI, o Cathach de Columba, o
mais antigo exemplo ainda existente de escrita maiscula irlandesa.
 A.D. e M.O. Anderson, Adomnam's Life of Columba (1961); A.P. Smyth,
Warlords and Holy Men (1984)

Columbano, So (543-615) Natural de Leinster (Irlanda), Columbano tornou-
se discpulo de Comgall de Bangor, com quem permaneceu at partir para a
Glia em 590. Estabelecendo o seu primeiro mosteiro em Annegray, num local
que lhe foi cedido pelo rei Childeberto II da Austrsia, Columbano no tardou
em atrair apoio mais amplo e fundou uma nova casa em Luxeuil, onde seus
monges viviam de acordo com a tradio irlandesa. Com a morte de
Childeberto, Columbano viu-se alvo de crescentes ataques por sua recusa em
aceitar a data romana da Pscoa e em abenoar os filhos ilegtimos de
Teodorico II. Expulso da Francnia, foi instalar-se em Bobbio, na Itlia (613),
onde fundou um mosteiro que depois ficaria famoso por sua excelente
biblioteca. Os escritos de Columbano incluem um Penitencial e uma Regra,
mas esta ltima nunca foi to popular quanto a muito menos rigorosa Regra
de So Bento.
 K. Hughes, The Church in Early Irish Society (1966); Columbanus and
Merovingian Monasticism, org. por H.B. Clarke e M. Brennan (1981)

Comentadores Escola de juristas italianos dirigida por Bartolus de
Sassoferrato (1314-57), a qual no se propunha meramente descobrir o
significado do direito civil romano mediante o estudo objetivo, como os
Glosadores tinham feito, mas tambm aplicar esse direito  sociedade de seu
tempo, fundindo-o com elementos oriundos do direito Cannico, direito
municipal e direito feudal. Embora os Comentadores fossem muito influentes
na Frana e na Alemanha, sua metodologia, que envolvia com freqncia uma
lgica bizantina, tendia mais para confundir do que para esclarecer a lei; por
essa razo, foram muito criticados pelos humanistas italianos no sculo XV.
Ver Lucas de Penna
 W. Ullmann, Law and Politics in the Middle Ages (1975)

comrcio A atividade comercial desempenhou um papel importante na vida
econmica da Idade Mdia. Em primeiro lugar, havia os mercados locais,
estabelecidos para a troca de produtos alimentcios excedentes e outras
mercadorias necessrias. Uma vez que era to lucrativo, o direito de
concesso desses mercados era ciosamente preservado pelos monarcas da
Europa: Carlos Magno, por exemplo, ordenou a compilao de uma lista
completa dos mercados locais em seu Imprio.
     Entretanto, o comrcio tambm envolveu transaes a grande distncia
com artigos de luxo. No comeo da Idade Mdia, o Imprio Bizantino deu
prosseguimento ao antigo comrcio romano de sedas, especiarias e corantes
com o Oriente, e no sculo IX estava tambm transacionando com a colnia
escandinava em Kiev. O perodo de maior expanso mercantil para o
Ocidente ocorreu no sculo XII. O crescimento da agricultura na Europa
ocidental resultou em crescentes margens de lucro e, por conseguinte,
padres de vida mais elevados, enquanto que a descoberta das minas de
prata de Freiburg significou um aumento no montante de moeda disponvel, o
que  sempre um incentivo para o comrcio. Um resultado de tudo isso foi o
surgimento de novas cidades por toda a Europa, e as j existentes cresceram
em poder e independncia. Assim, as cidades lombardas da Itlia e as
cidades do sul da Frana, por exemplo, estiveram envolvidas num comrcio
que exportava madeira, ferro e peles da Europa, importando por sua vez
algodo, sedas e especiarias para distribuio nas feiras da Europa.
       No sculo XIII, uma outra e vigorosa linha de comrcio floresceu entre as
cidades produtoras de l da Inglaterra e as cidades fabricantes de tecidos
dos Pases Baixos. Uma das mais famosas alianas comerciais da Idade
Mdia  a Liga Hansetica, que forneceu grande apoio econmico para as
cidades do litoral bltico e atingiu seu apogeu em meados do sculo XIV.  a
Itlia, entretanto, no final da Idade Mdia, que d provas de intensssima
atividade comercial, com a evoluo dos bancos e do sistema de concesso
de crditos, numa escala verdadeiramente internacional. Ver feiras; San
Giorgio, Banco de; vinho, comrcio de; l, comrcio de
 The Cambridge Economic History of Europe, vol. 2. org. por M. Postan e
E.E. Rich (1952); E. Carus-Wilson, Medieval Merchant Venturers (1955);
M.M. Postan, Medieval Trade and Finance (1973); E. Ashtorn, East-West
Trade in the Medieval Mediterranean (1986); R.S. Lopez, The Shape of
Medieval Monetary History (1986) [J. Le Goff, Mercadores e banqueiros da
Idade Mdia, Lisboa, Gradiva, 1986; R.S. Lopez, A Revoluo Comercial da
Idade Mdia, 950-1350, Lisboa, Presena, 1980]

cometas Tal como os eclipses, os cometas so igualmente teis para a
datao precisa de crnicas, embora os historiadores nem sempre conheam
suas datas corretas. O cometa de Beda, datado de 678, foi realmente de
676, e seus "dois" cometas de 729 podem ter sido subconscientemente
deslocados para um ano antes a fim de precederem duas mortes. Por certo,
na Crnica Anglo-Saxnica, um copista transferiu o cometa de 989 para 995,
para que precedesse a morte em vez da elevao do arcebispo Sigerico. A
data correta de cometas pode ser determinada com maior segurana
baseada em relatos objetivos do Extremo Oriente do que se confiarmos nos
cronistas cristos.
      O cometa de Halley, que volta a cada trs quartos de sculos, foi
especialmente impressionante na Idade Mdia, aparecendo em 451, 530, 607,
684, 760, 837, 912, 989, 1066, 1145, 1222, 1301, 1373 e 1456.  descrito na
tapearia de Bayeux como um pressgio da conquista normanda da
Inglaterra. Na Rssia (Moscovia), foi igualmente interpretado como um augrio
militar. A Crnica Lavrentiesky declara: "Por essa poca observou-se um sinal
no ocidente. Uma estrela muito grande, com raios de sangue, erguia-se ao
cair da noite, depois que o sol se punha, e ali ficou durante sete dias. Essa
apario no significava nada de bom. Depois disso, houve muitas lutas
internas e uma invaso da terra russa pelos infiis. Tudo isso aconteceu
porque a estrela era sangrenta e prenunciava derramamento de sangue." Em
Constantinopla, o cometa de Halley de 530 foi responsabilizado pela seca,
fome e mortalidade que se seguiu em 536. Contou Toscanelli: "Sua cabea
era redonda e to grande quanto o olho de um boi, e dela saa uma cauda em
forma de leque, como a de um pavo. Era uma cauda prodigiosa, pois
arrastava-se atravs de um tero do firmamento." Outros cometas
importantes foram vistos em 539, 565, 770, 773, 838, 975, 1006 (Supernova),
1106, 1264, 1337, 1366, 1402, 1468 e 1472. Ver astronomia DJS
 D.J. Schove, Chronology of Eclipses and Comets, AD 1-1000 (1985)

Commynes, Filipe de (c. 1447-1511) Poltico e bigrafo cujas memrias da
vida de Lus XI da Frana o consagraram como um dos maiores historiadores
medievais. Afilhado de Filipe, o Bom, duque de Borgonha, Commynes foi
criado na corte borgonhesa e em 1464 passou a servir como escudeiro de
Carlos, o Temerrio, herdeiro da coroa ducal. Quando Carlos se tornou
duque, fez de Commynes um de seus principais conselheiros. Esteve presente
no famoso encontro entre Carlos, o Temerrio, e Lus XI em Pronne, em
1468, e tambm serviu como embaixador na Inglaterra, Bretanha e Espanha.
Em 1472, bandeou-se para a corte de Lus XI, onde provou ser extremamente
til a seu novo patro. Embora aps a morte de Lus ficasse preso durante
alguns meses por causa de sua alegada participao numa conspirao
contra a regente, Ana de Beaujeu, ele voltou mais tarde a ser empregado na
rea das relaes exteriores, como embaixador em Veneza, 1494-98, e como
um dos principais formuladores da poltica italiana do novo monarca francs,
Lus XII. Commynes considerava Veneza "a mais triunfal das cidades".
 Memoirs: The Reign of Louis XI, trad. de M. Jones (1972)

comunas Cidades na Europa ocidental medieval que adquiriram instituies
municipais autnomas por rebelio ou pela fora; o termo tambm 
freqentemente usado para descrever cidades que obtiveram direitos
anlogos por meio de carta rgia. Os privilgios caractersticos assim obtidos
incluam liberdade pessoal para o cidado, liberdade de propriedade,
autoridade para regulamentar o comrcio local, para lanar impostos e
controlar os procedimentos judiciais das cidades. As comunas eram
particularmente numerosas em reas onde a autoridade poltica era dbil,
como no norte da Itlia e em Flandres. Finalmente, porm, as lutas civis no
norte da Itlia redundaram na desintegrao da organizao comunal, e as
cidades caram nas mos de signoricomo os Medici em Florena. Ver cidades
 S. Reynolds, An Introduction to the History of English Medieval Towns
(1977); C. Petit-Dutaillis, The French Communes in the Middle Ages (1978)
[H. Pirenne, As cidades da Idade Mdia, Lisboa, Publ. Europa-Amrica, 1964;
Ch. Petit-Dutaillis, Los municpios franceses, Mexico, UTEHA, 1959]

comunicaes Durante a Idade Mdia, o transporte e, portanto, a
comunicao, realizava-se por estrada, mar e rio. Poucas novas estradas
foram construdas e a rede viria continuou sendo, em sua maior parte, a
criada pelos romanos. Na Inglaterra, os reis normandos promulgaram
freqentes leis para a proteo dos viajantes e o corte e retirada de
vegetao das beiras de estradas. Embora a viagem a p, a cavalo ou em
mula fosse necessariamente lenta e dispendiosa, as distncias percorridas
eram, com freqncia, maiores do que se poderia esperar. As estradas para
Roma estavam sempre movimentadas, e havia peregrinaes freqentes para
Jerusalm e Santiago de Compostela.
     Os grandes mestres do transporte aqutico eram os escandinavos, cujas
viagens de colonizao os levaram a paragens to distantes como a Islndia e
a Groenlndia, enquanto que as iniciativas comerciais os levaram a
Constantinopla. As viagens combinavam freqentemente percursos terrestres
e fluviais; um viajante medieval de Lincoln para York, por exemplo, viajaria por
estrada at Burton Stather, nas margens do Trent, da por barco subiria o
Trent e o Ouse, no Yorkshire, at Howden, onde desembarcaria para
percorrer as 18 milhas finais de estrada plana at York. A sociedade medieval
no era, em absoluto, necessariamente esttica. Ver estradas romanas;
navios e navegao [206, 271]

conciliar, movimento Teoria que proclamava que um Conclio geral da Igreja
tinha autoridade superior  do papa e poderes para, se necessrio, o depor.
Originou-se nos escritos de canonistas dos sculos XII e XIII que estavam
tentando impor limitaes jurdicas ao poder do Papado. Os mais radicais
expoentes do conciliarismo foram Marslio de Pdua, que rejeitou a origem
divina do Papado, e Guilherme de Ockham, que ensinou que somente a Igreja
como um todo estava preservada de erro em f. No sculo XV houve uma
sria tentativa de empregar o conclio geral para sanar o Grande Cisma e
reformar a Igreja. Embora em 1417 o Conclio de Constana (1414-18)
declarasse que os conclios gerais deviam ser convocados periodicamente, a
determinao do Papado em reafirmar sua independncia e as contnuas
disputas que surgiram entre os delegados significaram que novos conclios
no voltaram a ser convocados aps a dissoluo do Conclio de Basilia em
1449. Ver Ailly, Pedro d'; Martinho V; Zabarella, Francisco; ver tambm os
verbetes referentes a vrios Conclios
 E.F. Jacob, Essays in the Conciliar Epoch (1953); B. Tierney, Foundations
of Conciliar Theory (1955)

Conrado V (Conradino) rei nominal da Alemanha e da Siclia 1254-68 (n.
1252) Filho de Conrado IV e neto de Frederico II. Com a morte do pai em
1254, foi criado por seu tio, o duque da Baviera. Teve desde cedo a oposio
do Papado, que desejava quebrar o poder hegemnico dos Hohenstaufen,
oferecendo o papa Alexandre IV as terras dos Hohenstaufen a Afonso X de
Castela e proibindo a eleio de Conradino como rei dos romanos. Em 1262,
Conradino tornou-se duque da Subia e em 1266 invadiu a Siclia. Vitorioso,
no incio, contra Carlos de Anjou, que detinha o controle da ilha, acabou sendo
derrotado na batalha de Tagliacozzo (1268) e entregue a Carlos. Foi
decapitado em 29 de outubro de 1268 e, com sua morte, a linhagem
Hohenstaufen chegou ao fim.

Conrado de Marburgo (1180-1233) Inquisidor alemo. Educado em Bolonha,
foi encarregado pelo papa Inocncio III de pregar uma cruzada. Em 1226 era
escolhido para Confessor de Santa Isabel da Hungria e em 1227 Gregrio IX
confiava-lhe a tarefa de eliminar a heresia e reprimir os desmandos
eclesisticos na Alemanha, mostrando-se especialmente ativo e implacvel no
Hesse e na Turngia. Em 1233, acusou Henrique, conde de Sayn, de heresia.
Henrique foi absolvido pelos prncipes e bispos alemes em Moguncia, e
Conrado foi assassinado pouco depois, em seu caminho para Marburgo.

Conrado de Montferrat (1146-92) Aventureiro e cruzado italiano que
defendeu com xito a cidade de Tiro contra os sarracenos, depois da queda
de Jerusalm em poder de Saladino. Em 1191 foi feito rei nominal de
Jerusalm em lugar do deposto Guy de Lusignan, a quem foi dado Chipre em
compensao. O reinado de Conrado foi, porm, muito curto, visto que em
1192 foi morto pela seita muulmana dos assassinos.

Conrado de Zhringen (m. 1152) Duque alemo do sculo XII a quem foi
concedido o reitorado de Borgonha pelo imperador Lotrio III (1125-37). A
construiu uma forte base de poder e ampliou suas terras na direo leste.
Tambm apoiou Henrique, o Leo, duque da Saxnia, em suas lutas contra o
sucessor de Lotrio, Conrado III (1138-52).

Constana (1154-98) Filha de Rogrio II da Siclia. Em 1186, Constana
esposou o futuro titular do Sacro Imprio Romano, Henrique VI, filho de
Frederico I Barba-Ruiva, e foi coroada imperatriz em Roma (1191). J em
1189 Constana estava contestando as pretenses de seu sobrinho natural,
Tancredo de Lecce, ao reino da Siclia, mas foi somente aps a morte de
Tancredo, em; 1194, que ela pde consolidar suas prprias pretenses ao
trono. Quando Henrique VI morreu em 1197, Constana conseguiu manter sua
posio na Siclia, sobretudo atravs da ajuda do papa Inocncio III. Pouco
antes de sua morte, ela ainda pde conseguir a coroao de seu filho
Frederico como rei da Siclia, posio que ele continuou mantendo mesmo
depois de ter sido eleito Sacro Imperador Romano em 1212.

Constana, Conclio de (1414-18) O 16 Conclio ecumnico da Igreja,
convocado numa tentativa de solucionar o Grande Cisma. Deps os papas
rivais Gregrio XII, Bento XIII e Joo XXIII, e elegeu Oddone Colonna para o
lugar deles como papa Martinho V. Os delegados em Constana, que incluam
representantes leigos e eclesisticos vindos de toda a Europa, divulgaram
tambm o decreto Sacrosancta, o qual declarou que o Conclio geral da Igreja
era superior ao papa e tomou providncias para que novos conclios gerais
fossem realizados a intervalos regulares. Alm disso, o Conclio condenou um
certo nmero de crenas de Wycliffe e Hus. Embora Hus possusse uma
promessa de salvo conduto, foi, no obstante, entregue s autoridades
seculares e morto em auto-de-f como herege, uma deciso desastrosa que
em vez de enfraquecer serviu para fortalecer seus seguidores. O Conclio foi
impedido de tomar novas iniciativas reformadoras por causa das diferenas
nacionais profundamente arraigadas que existiam entre os delegados, mas
teve considervel xito no tocante a pr fim ao Cisma. Ver conciliar,
movimento
 J. Gill, Constance et Ble-Florence (1965)

Constantino VII Porfirogneto imperador oriental 908-59 (n.905) Coroado
em criana, Constantino s chegou ao poder com a deposio, em 944, do
usurpador Romano I. Em Bizncio foi muito bem-sucedido e conseguiu
preservar a propriedade e o status dos soldados-camponeses de quem seu
exrcito dependia. Tambm promoveu um renascimento cultural, reunindo 
sua volta eruditos que publicaram excertos dos clssicos antigos, enquanto
que ele prprio escreveu uma parfrase sobre as caractersticas e tticas de
vrias naes. Em sua poltica externa, Constantino no foi to bem-sucedido,
obtendo apenas um xito moderado contra os rabes na Sria, j perto do
final de seu reinado. No sul da Itlia e na Siclia teve que pagar um humilhante
tributo. Estabeleceu a paz ao longo das fronteiras setentrionais do Imprio e,
durante seu reinado, Olga, a primeira princesa crist da Ucrnia, foi batizada.
Ele foi assassinado por seu filho Romano II em 959.
 [A. A Vasiliev, Historia del Imperio Bizantino, 2 vols., Barcelona, Joaquin
Gil, 1946]

Constantinopla, Conclios de Quatro conclios da Igreja que trataram de um
certo nmero de importantes questes doutrinrias. O Primeiro Conclio de
Constantinopla (381) definiu a posio da Igreja sobre a doutrina da
Santssima Trindade e estabeleceu o Credo de Nicia como a base da crena
crist; o Segundo Conclio (553) definiu a unidade da pessoa do Cristo como
consistindo em duas naturezas distintas, humana e divina, rejeitando assim a
posio dos nestorianos; o Terceiro (680-81) condenou os monotelistas,
declarando que o Cristo tinha duas vontades correspondentes s suas duas
naturezas; enquanto que o Quarto (869-70) excomungou Fcio, o patriarca de
Constantinopla, e proibiu a interferncia leiga em eleies episcopais. Embora
a Igreja Catlica considerasse todos os quatro conclios como ecumnicos,
a Igreja Ortodoxa Grega somente reconhece os trs primeiros.

Contarini doge de Veneza 1368-82 Membro de uma distinta famlia veneziana
que j tinha dado vrios doges  repblica, Andrea Contarini foi eleito em
1368. Durante seu governo, os venezianos foram vitoriosos em sua guerra
contra os genoveses, que tinham tomado o porto de Chioggia e estavam
assediando a prpria Veneza. Contarini mandou fundir sua prpria prata e
hipotecou suas propriedades a fim de angariar fundos, e depois, com a ajuda
do almirante Victor Pisani, atacou e expulsou os sitiantes genoveses em pleno
inverno de 1379-80.  A. da Mosto, I Dogi di Venetia nella vita pubblica e
privata (1977)

conventuais A maioria da Ordem Franciscana que, pouco depois da morte de
So Francisco, se desviou da observncia original da Regra e passou a
possuir bens contra os desejos expressos do santo. Tinham a oposio firme
dos franciscanos espirituais, em nmero muito menor, que interpretavam
literalmente os ensinamentos de So Francisco sobre a pobreza. Os
espirituais foram perseguidos pelo papa Joo XXII e forados a passar 
clandestinidade quando, em 1322, o pontfice declarou hertica a doutrina da
pobreza absoluta de Cristo e dos Apstolos. Os conventuais tornaram-se
cada vez mais complacentes at que, no final do sculo XIV, ocorreu um
revigoramento da Ordem com os Frades da Estrita Observncia, liderados
por So Bernardino de Siena.
 C.N.L. Brooke, The Monastic World 1000-1300 (1974)

Cornualha No incio da Idade Mdia, a Cornualha juntou-se a Devon e ao
Somerset ocidental formando um reino britnico relativamente vasto -- o reino
de Dumnnia -- e do qual h comprovaes da existncia de reis desde o
comeo do sculo VI. Muitas tradies com ampla circulao em toda a Idade
Mdia, como a de Tristo e Isolda, localizaram seus heris do passado nessa
regio. A colonizao irlandesa j tinha provavelmente ocorrido por volta de
500 na parte mais ocidental do reino, pois o movimento deixou vestgios de
palavras irlandesas em nomes de lugares, e de escrita irlandesa em pedras
tumulares. Entretanto, a presso vinda do leste era mais forte e os ingleses
tinham conquistado Somerset e Devon no sculo VIII, atingindo o rio Tamar
em 710, penetrando na Cornualha oriental em 722, e assim confinando o reino
de Dumnnia  rea agora conhecida como Cornualha; o termo ingls
"Cornwall" originou-se nessa poca. O reino de Dumnnia assim reduzido
sobreviveu por quase dois sculos mais, embora os ingleses j viessem
realizando exploraes na Cornualha durante todo o sculo IX, e a morte de
seu ltimo rei ocorreu em 875. Depois disso, a Cornualha independente
desapareceu.
      Os ingleses estabeleceram-se em muitas partes do sudoeste, mas no
em nmero suficiente para varrer a forma caracterstica de fala britnica na
pennsula, conhecida como Crnico Primitivo, e ancestral da moderna
linguagem crnica. Embora houvesse alguma colonizao de ingleses nas
terras mais ricas do leste do condado, a Cornualha manteve seu carter
cltico e contatos permanentes com seus vizinhos celtas ao norte e ao sul, no
Pas de Gales e na Bretanha, compartilhando do culto a santos celtas,
preservado nessas regies. Apesar de suas pequenas dimenses e dos
ataques constantes, suas instituies religiosas (como a de Bodmin) e seus
centros de cultura parecem ter prosperado. No sculo X, os ingleses
apoiaram-se nos manuscritos e nos homens doutos da Cornualha para a
renovao da cultura escrita associada  reforma religiosa do sculo
X.              WD
 G.H. Doble, The Saints of Cornwall (1960-70); S. Pearce, The Kingdom of
Dumnonia (1978)

Cortes Parlamento dos reinos hispnicos medievais que se desenvolveu
quando, por causa das necessidades de ajuda financeira dos monarcas,
representantes eleitos das municipalidades livres comearam a ser admitidos,
no sculo XIII, s reunies da corte a fim de se debater certas questes de
administrao. As Cortes de Leo e Castela, que compreendiam a nobreza, o
clero e representantes das cidades (procuradores), mostraram uma
acentuada tendncia para converter-se em instrumento da administrao
rgia; mas as Cortes de Arago, e suas dependncias da Catalunha e de
Valncia, exerceram uma poltica muito mais independente, a qual estava,
com freqncia, em oposio direta aos interesses da Coroa. Ver estados
     [Em Portugal, foi nas Cortes de Leiria, em 1254, que os procuradores
municipais foram admitidos pela primeira vez, escolhidos entre os chamados
homens bons. Dotadas de carter mais consultivo do que deliberativo, raras
vezes as Cortes se revestiram de grande significado poltico-administrativo
durante a primeira dinastia, finda em 1383. Foi justamente ao iniciar-se a
dinastia de Avis, com D. Joo I, que as Cortes exerceram papel influente na
legitimao do novo monarca como ocupante do trono portugus, graas ao
talento jurdico de Joo das Regras e  ascenso irresistvel da nova classe
burguesa, derrotando no campo do direito as mesmas pretenses castelhanas
que vinham sendo derrotadas pelo condestvel Nun'lvares Pereira no campo
de batalha, NT]
 [G. Jackson, Introductin a la Espaa medieval, Madri, Alianza, 1974; A.R.
Myers, Parliaments and Estates in Europe (1975); E.S. Procter, Curia and
Cortes in Len and Castile, 1072-1295, Cambridge, CUP, 1980]

Cortes do reino de Jerusalm Cdigo de leis baseadas nos costumes e
prticas que se desenvolveram no reino latino de Jerusalm durante o sculo
XII. A base desse cdigo foi estabelecida pelo primeiro rei de Jerusalm,
Godofredo de Bulho (m. 1100), que ordenou a realizao de um inqurito
entre os cruzados a respeito das leis e costumes a que tinham estado sujeitos
no Ocidente. O cdigo resultante, as Lettres du Spulchre, era
essencialmente francs no carter e continha detalhes dos deveres dos
funcionrios reais, da concesso de feudos, da administrao da justia e da
regulamentao do comrcio. Aps a conquista de Jerusalm por Saladino em
1187, o cdigo original parece ter desaparecido, mas um semelhante foi
redigido em Chipre no sculo XIII, onde foi usado como base para o governo
da comunidade latina que sobreviveu no Oriente por mais 300 anos.

costumes fnebres Durante a Idade Mdia, vrios mtodos de dispor dos
mortos foram usados em diferentes pocas e diferentes lugares. Os persas,
por exemplo, expunham os cadveres de seus mortos ao ar livre para serem
devorados por aves de rapina; mas na Europa os mortos eram cremados ou
sepultados. Na era pr-crist, a cremao era o procedimento mais
favorecido, sobretudo entre os anglos, saxes e escandinavos, embora os
jutos seguissem o exemplo romano de enterrar seus mortos. Entretanto,
assim que o Cristianismo ganhou razes, a cremao foi abandonada em favor
da inumao, para que os mortos pudessem ter corpos a que poderiam voltar
no dia do Juzo Final, Uma outra mudana provocada pelo advento do
Cristianismo foi que os mortos deixaram de ser enterrados com artigos
sepulcrais, como suas armas, jias e moedas para uso no Alm. Na Idade
Mdia Central, tmulos de pedra, freqentemente com tampas
elaboradamente esculpidas, eram usados pelo menos no sepultamento das
pessoas ricas mas, no final da Idade Mdia, os esquifes de madeira
passaram a ser a regra. Ocasionalmente, o corao ou os intestinos de
pessoas importantes eram sepultados separadamente do resto de seus
corpos.
      Os mais elaborados costumes medievais de sepultamento conhecidos
estavam associados  inumao de barcos, como o exemplo do sculo VII do
Grande Cmoro no cemitrio de Sutton Hoo -- com sua brilhante coleo de
preciosos artigos sepulcrais em ouro, prata e granada -- ou os soberbos
sepultamentos noruegueses do sculo IX em Gokstad e Oseberg.
 A. Meaney, Early Anglo-Saxon Burial Sites (1964); T.S.R. Boase, Death in
the Middle Ages (1972)

Courtrai, batalha de (11 de julho de 1302) O exrcito francs comandado
pelo conde de Artois foi severamente derrotado nessa ocasio pelos cidados
de Bruges, Ypres e Courtrai, que assim demonstraram sua crescente
independncia da tutela francesa. A Flandres voltava com insistncia seus
olhares para a Inglaterra, em busca de apoio para a sua poltica e seu
comrcio, e as tenses resultantes contriburam para a ecloso da Guerra
dos Cem Anos.
 H. Pirenne, Histoire de Belgique, vol. I (1929)

Crcy, batalha de (26 de agosto de 1346) Batalha em que Eduardo III da
Inglaterra derrotou o rei francs Filipe VI. Embora as foras inglesas fossem
numericamente muito inferiores, elas foram ajudadas tanto pela
desorganizao das tropas francesas como pela percia de seus prprios
arqueiros, que podiam atirar mais depressa e mais longe do que os besteiros
franceses. O exrcito francs sofreu pesadas baixas e a conseqente tomada
de Calais pelos ingleses abriu caminho para o prosseguimento da presso
contnua sobre o reino francs. Joo, o rei cego da Bomia, foi morto em
Crcy, e sua divisa Ich dien ("Eu sirvo") e emblema (as trs penas) foram
adotados pelo Prncipe Negro e demais prncipes de Gales.
 A. Burne, The Crcy War (1976)

Crianas, Cruzada das (1212) Curioso subproduto do entusiasmo religioso
do comeo do sculo XIII, a chamada Cruzada das Crianas originou-se na
Frana e nos Pases Baixos quando uma grande multido de crianas, com
uma mistura de adultos -- alguns para dar apoio, outros mais propensos 
explorao -- partiu para a Terra Santa com o propsito de libertar Jerusalm
dos infiis. O movimento terminou em fiasco e tragdia. Muitas crianas foram
devolvidas ao lar, mas algumas pereceram no Mediterrneo e outras foram
embarcadas de portos no sul da Frana para a escravido nos territrios
muulmanos do norte da frica.
 [M. Schwob, A Cruzada das Crianas, S. Paulo, Iluminuras, 1987]

Crisstomo, So Joo (347-407) Bispo de Constantinopla. Nasceu em
Antioquia e em 373 tornou-se monge numa austera comunidade das
montanhas. Em 381, porm, regressou a Antioquia, onde foi ordenado padre,
tornando-se depois o principal auxiliar do bispo. Em 397 foi nomeado patriarca
de Constantinopla e no tardou em desfechar um ataque contra a imoralidade
que descobriu existir indistintamente entre clrigos e leigos. Isso valeu-lhe a
hostilidade da imperatriz Eudxia, que aliada a Tefilo, patriarca de
Alexandria, trabalhou no sentido de desmoraliz-lo. Foram em grande parte
bem-sucedidos. Joo foi exilado em duas ocasies diferentes, a segunda vez
em 404, e continuou sendo perseguido por todo o Imprio at sua morte no
Ponto, em 407. Ele  bem conhecido por seu tratado sobre o sacerdcio e
por seus comentrios bblicos sobre as Epstolas e os Evangelhos, nos quais
insistiu por uma interpretao literal das Escrituras e tentou aplicar seus
ensinamentos, num sentido prtico, aos problemas de seu tempo.
 B. Janin, Constantinople byzantine (1964) [So Joo Crisstomo, O
sacerdcio, trad. O. Rosbach, Petrpolis, Vozes, 1979]

Cristianismo De acordo com a definio do Conclio de Nicia (325),  a
crena num Deus nico manifestado em trs pessoas -- o Pai, o Filho e o
Esprito Santo -- e na redeno do mundo pela Encarnao, Paixo e
Ressurreio de Jesus Cristo. Conclios subseqentes em feso (431) e
Calcednia (451) adicionaram novas definies no campo da Cristologia,
declarando que o Filho, que  o Verbo Divino, foi verdadeiramente encarnado
pelo Esprito Santo na carne da Virgem Maria, e que ele combina em si
prprio, sem distino de pessoas, as naturezas perfeitas e completas de
Deus e do homem. O cdigo de comportamento que deve vincular todos os
crentes tinha sido prescrito pelo prprio Cristo na Regra de Ouro (Mateus
XXII, v. 37-40).
      Durante os primeiros trs sculos da nossa era, todas as implicaes
dessa f tinham-se desenvolvido lentamente numa sociedade que tratava os
seus adeptos, na melhor das hipteses, com indiferena, e na pior, com
perseguio ativa. Os governantes do Imprio Romano consideravam os
cristos como membros irritantes e ligeiramente loucos de uma sociedade
secreta potencialmente perigosa. Somente depois que o imperador
Constantino promulgou o edito de tolerncia (312)  que o Cristianismo foi
aceito como uma religio respeitvel, e a reunio do Conclio de Nicia foi um
testemunho do fato de que a Igreja deixara de ser uma seita proscrita e
tornara-se uma religio corrente. Entretanto, s em 395 o culto pblico de
deuses pagos seria oficialmente suprimido pelo imperador Teodsio. Entre
325 e 451, pelos decretos de conclios ecumnicos, o Cristianismo ortodoxo
foi desembaraado de diversas heresias importantes (Gnosticismo, Arianismo,
Nestorianismo e Apolinarianismo) que tinham crescido desde o final do
perodo apostlico.
     Por volta de 400 at cerca de 1500, o Cristianismo foi aceito como o
aspecto espiritual da sociedade civilizada, primeiramente naquelas regies da
Europa, sia e norte da frica que tinham feito parte do Imprio Romano. Por
intermdio de missionrios, propagou-se gradualmente aos reinos brbaros da
Europa sententrional e oriental, ao mesmo tempo que o avano dos
muulmanos reduzia a posio dos cristos na sia, frica e Pennsula Ibrica
 de minorias dependentes, se bem que, em geral, no-perseguidas.
      Nas terras crists, pressupunha-se que o normal era todas as pessoas
integrarem-se  Igreja o mais cedo possvel, pelo sacramento do batismo, e
nela permanecerem, revigoradas periodicamente pelo sacramento da
eucaristia, at o momento da morte. O IV Conclio de Latro (1215) estipulou
a regra segundo a qual a comunho, precedida pela confisso de pecados,
deveria ser recebida pelo menos uma vez por ano. Alm do batismo e da
eucaristia, a Igreja reconheceu cinco outros sacramentos: confirmao,
penitncia, extrema-uno, ordens sacras e casamento. Como a grande
maioria dos leigos no sabia ler nem escrever (a palavra clericus tem duplo
significado: um homem que tomou as ordens e aquele que  letrado), a
educao -- desde o mais simples ensino pelo proco at as mais profundas
especulaes nas escolas de estudos superiores -- era responsabilidade da
Igreja, e a teologia era aceita como o ramo supremo do conhecimento.
Embora a maioria das pessoas no vivesse de acordo com os padres morais
impostos pela f crist, h poucas provas (depois dos problemas iniciais de
converso) de resistncia  prpria f. Os ataques ao clero surgiam quase
sempre mais por controvrsias sociais e polticas do que doutrinrias ou
morais, e os ataques aos no-cristos, judeus, muulmanos, hereges ou
infiis, eram mais freqentemente o resultado de intolerncia popular do que
de desaprovao oficial.
     O ensino ortodoxo da Igreja era garantido pela doutrina da Sucesso
Apostlica. A autoridade para ensinar tinha sido dada por Cristo a So Pedro
(Mateus XVI, v. 18-19) e confirmada aos Apstolos no Pentecostes. Os
Apstolos tinham transmitido a doutrina aos bispos, sendo a correo da
tradio garantida pelo fato de que os bispos e todos os seus sucessores
tinham que receber a consagrao na presena de, pelo menos, trs bispos
da ortodoxia aceita. Os padres e os de ordens inferiores (porteiros, leitores,
exorcistas, aclitos, subdiconos e diconos) recebiam, por sua vez,
ordenao das mos do bispo local. Os bispos estavam submetidos
tradicionalmente  autoridade de cinco patriarcas (de Roma, Constantinopla,
Jerusalm, Antioquia e Alexandria), mas a partir do sculo VII as trs ltimas
dessas cidades passaram para mos muulmanas e a supremacia de Roma e
Constantinopla, as duas cidades governantes do Imprio, ficou firmemente
estabelecida pelo Conclio de Calcednia (451). Este declarara a supremacia
de Roma, que era a cidade honrada pela dupla tradio de So Pedro e So
Paulo, mas do sculo VI em diante Roma e Constantinopla enveredaram por
caminhos cada vez mais distintos, e as profundas divises polticas foram
complicadas por uma disputa doutrinria (em torno da procisso do Esprito
Santo) que culminou num cisma, ainda no superado, em 1054.
      A autoridade coerciva da Igreja estava consubstanciada no direito
Cannico, definido como o ramo do direito que trata de cinco assuntos
principais: jus, judicium, clerus, connubia e crimen. Abrangia todos os casos
de pecado (em contraste com o crime, que  de competncia dos tribunais
leigos), e todos os casos respeitantes s igrejas, s pessoas do clero e seus
bens (exceto quando isso era mantido em domnio laico), casamento,
legitimidade e herana; tambm dedicava especial ateno s miserabiles
personae, como vivas, rfos e refugiados. Baseava-se nas Escrituras, nos
ensinamentos dos padres da Igreja e nos decretos de conclios eclesisticos
gerais e regionais. Estes eram suplementados na Igreja ocidental (o
Patriarcado de Roma) pelos decretos de sucessivos papas e, antes do final
do sculo XI, por algumas leis promulgadas por governantes leigos
credenciados sobre matrias tais como o casamento e a supresso da
idolatria. Era geralmente aceito que os ensinamentos das escrituras e os
decretos dos primeiros quatro conclios ecumnicos -- Nicia (325),
Constantinopla (381), feso (411) e Calcednia (451) -- eram inviolveis, mas
que outros decretos poderiam ser modificados mais tarde pelo papa em
Conclio, sempre que a Igreja tivesse recebido novas luzes sobre um assunto.
      Do sculo XII em diante, o direito Cannico da Igreja ocidental foi
reunido em cinco grandes colees oficiais -- o Decretum de Graciano, as
Decretais gregorianas, a Sexta, as Clementinas e as Extravagantes -- as
quais formam juntas aquela seo do direito Cannico que se designa por Jus
Novum. Era considerado obrigatrio para todas as pessoas batizadas, e
tribunais eclesisticos zelavam por seu cumprimento em todas as partes da
Cristandade ocidental. A autoridade final estava com o papa, como sucessor
de So Pedro, a quem Cristo tinha dado o poder de atar e desatar. A ele,
como o ordinante (aquele que confere ordens eclesisticas) universal, cabia o
poder de conceder dispensa, aliviar o rigor da lei, desde que no subvertesse
seus princpios fundamentais.
      No Imprio oriental (o Patriarcado de Constantinopla), que permaneceu
fiel ao direito romano, era aceita a base evanglica, patrstica e conciliar do
direito Cannico, porm quanto ao mais, a legislao imperial sobrepunha-se
 lei da Igreja. Imperadores cristos, como Justiniano, introduziram
considerveis modificaes no direito romano em benefcio da religio crist,
mas o poder de legislar permanecia com eles. O imperador, como vice-rei de
Deus, era o governante supremo da Igreja e do Estado. "Eu sou aquele", nas
palavras de Leo III, o Isauro, "a quem Deus ordenou que alimentasse o seu
rebanho, como Pedro, o Prncipe dos Apstolos." A nica compilao
sobrevivente de direito Cannico, a Exegesis Canonum de Balsemo de
Antioquia, data de cerca de 1175.
     As doutrinas bsicas do Cristianismo foram extensamente estudadas
durante toda a Idade Mdia, mas nunca foram seriamente questionadas na
Europa, exceto por um nmero relativamente pequeno de herticos.
Contendas entre chefes da Igreja e do Estado eram comuns e freqentemente
implacveis, mas gravitavam em torno de rivalidades polticas e econmicas e
no a respeito de questes fundamentais da crena. Por mais deplorvel que
fosse a conduta dos cristos na prtica, eles estavam unidos, em teoria, pela
convico de que "o verdadeiro fim do homem  glorificar Deus e comprazer-
se n'Ele para sempre". Ver Igreja Catlica; Igreja Ortodoxa Oriental;
Cruzadas;                                                     monasticismo;
Papado                                                RH
 R.H. Bainton, The Penguin History of Christianity (1967); Oxford History of
the Christian Church (1967) [A. Donini, Histria do Cristianismo, Lisboa,
Edies 70, 1980; Ch. Guignebert, El Cristianismo medieval y moderno,
Mxico, Fondo de Cultura Econmica, 1969]

Cristina de Pisa (1364-c. 1430) Destacada poetisa francesa de sua gerao,
Cristina era italiana de nascimento, filha de um humanista e estadista ativo em
Bolonha e Veneza, que se tornou astrlogo do rei Carlos V da Frana. Cristina
casou com o notrio e secretrio do rei, Etienne du Castel e, aps a morte
deste (1389), concentrou-se no trabalho literrio, patrocinada pelos monarcas
franceses e pelos duques da Borgonha. Inicialmente, ela escreveu muitos
poemas de amor  moda da poca, mas depois voltou-se para temas mais
didticos e histricos. Suas obras mais importantes foram produzidas na
primeira dcada do sculo XV, incluindo uma histria de Carlos V, panfletos
em defesa da honra das mulheres e contrrios aos floreados satricos do
sempre popular Roman de la Rose, e sugestes para a educao literria das
mulheres. Nos ltimos anos de sua vida escreveu um poema em louvor de
Joana d'Arc. Sua obra contm muita coisa de grande valor para a histria da
vida cortes e para compreenso das atitudes da poca em relao s
mulheres.
 J.M. Pinet, Christine de Pisan (1927); Christine de Pisan: The Treasure of
the City of Ladies, trad. de S. Lawson (1985) [Christine de Pizan, La cit des
dames, org. por T. Moreau e E. Hicks, Paris, Stock, 1986]

Crodegangue, So (m. 766) Bispo de Metz. Nasceu perto de Lige e foi
educado na abadia de Saint-Trond. Foi sucessivamente secretrio, chanceler
e primeiro ministro de Carlos Martel. Aps a morte deste (741), Crodegangue
continuou servindo a seu filho, Pepino, o Breve. Nomeado bispo de Metz em
742, foi o principal responsvel pelas negociaes entre Pepino e o Papado,
as quais resultaram no reconhecimento de Pepino como rei dos francos pelo
papa Estvo III em 754; tambm contribuiu muito para estabelecer o domnio
franco na Itlia aps a derrota dos lombardos. Talvez seja mais famoso por
sua Regra para cnegos, que se tornou na poca muito influente na
regulamentao da vida de vrios captulos em catedrais alems e inglesas.
 The Old English version of the Enlarged Rule of Chrodegang, org. por A.S.
Napier (1916)

Crnica Anglo-Saxnica Sobrevivendo em numerosos manuscritos, trs dos
quais levam a histria da Inglaterra at e para alm da crise da Conquista
Normanda, a Crnica  uma fonte histrica de superlativa importncia,
especialmente notvel por seu uso precoce do vernculo. A tradio de
construo de quadros de eventos e de registro dos principais acontecimentos
recebeu nova orientao durante o reinado de Alfredo, quando foi tomada a
deciso, provavelmente por influncia direta do monarca, de se escrever uma
crnica contnua em base anual. Existe grande variedade no alcance e
intensidade do registro;  muito detalhado, por exemplo, para as ltimas
campanhas do reinado de Alfredo (891-96) e tambm a respeito das guerras
dinamarquesas do tempo de Etelred (991-1016). A Crnica continuou sendo
atualizada na abadia de Peterborough at meados da dcada de 1150,
fornecendo uma vigorosa descrio dos dramticos acontecimentos do
reinado de Estvo de Blois numa linguagem que constitui visivelmente uma
transio do anglo-saxo para os comeos do Ingls Mdio.
 The Anglo-Saxon Chronicle, org. por D. Whitelock (1961); The Anglo-
Saxon Chronicle MSA, org. por J. Bately (1986)
crnicas  semelhana dos anais, as crnicas desempenharam um
importante papel no desenvolvimento da literatura histrica na Idade Mdia.
Descrevem tambm acontecimentos, geralmente com mais detalhes do que
os anais, chegando s vezes o cronista a produzir histria aceitvel, ainda que
sua obra esteja, quase sempre, limitada a uma estrita seqncia cronolgica.
As primeiras crnicas eram as chamadas "crnicas universais" ou "crnicas do
mundo", que abrangiam a histria desde a Criao at os prprios dias do
cronista. A mais antiga delas  a crnica de Eusbio de Cesaria, escrita no
sculo III,  qual se seguiu, j no sculo IV, a crnica do mundo de Sulpcio
Severo.
      Embora crnicas mundiais continuassem sendo escritas at o sculo XI,
quando Mariano Escoto (1028-83) escreveu sua Histria Universal, do sculo
IX em diante tornaram-se mais populares as crnicas locais, descrevendo a
histria de um determinado reino ou abadia. Exemplos das primeiras incluem a
Crnica Anglo-Saxnica em suas diferentes verses (reunidas inicialmente em
forma de crnica durante o reinado de Alfredo, c. 891), a Histria dos Reis da
Saxnia por Thietmar de Marseburgo no sculo X, a Gesta Regum de
Guilherme de Malmesbury no sculo XII e o Polychronicon de Ranulfo Higden
no sculo XIII, enquanto que famosas crnicas monsticas incluem a Battle
Abbey Chronicle na Inglaterra e a Histoire de l'Abbaye de St. Evroul de
Ordrico Vital, na Frana, ambas pertencentes ao sculo XII. No final da
Idade Mdia, os cronistas ainda se orgulhavam, de maneira ostensiva e
deliberada na Itlia, de sua percia em expor de forma apenas fatual, numa
ordem cronolgica apropriada, mesmo quando j estavam avanando no
sentido de uma nova concepo de histria.
      [A primeira histria universal conhecida em lngua portuguesa  o
chamado Livro do Conde D. Pedro, filho bastardo de D. Dinis, que deu
continuidade  tradio literria da corte de seu pai. A fonte principal dessa
introduo historiogrfica  a Crnica Geral de Espanha, de Afonso, o Sbio.
O momento culminante da crnica em nossa lngua ocorreria cerca de um
sculo depois, na Crnica de D. Joo I, obra do maior escritor medieval
portugus: Ferno Lopes. Outros cronistas medievais portugueses dignos de
meno foram Gomes Eanes de Zurara e Rui de Pina. NT]
 L. Green, Chronicle into History (1972)

Cruzadas Guerra proclamada pelo papa em nome de Cristo e travada como
iniciativa do prprio Cristo para recuperao da propriedade crist ou em
defesa da Cristandade contra inimigos externos ou internos.
       O movimento das Cruzadas, que era num certo sentido uma extenso da
guerra que estava sendo travada contra os muulmanos na Espanha e na
Siclia, foi muito influenciado pelo conceito de Santo Agostinho de Hipona de
violncia divinamente autorizada, conceito esse que foi revigorado pelos
reformadores papais durante a Questo das Investiduras. A Primeira Cruzada,
pregada pelo papa Urbano II no Conclio de Clermont em 1095, tomou
Antioquia em 1098 e Jerusalm em 1099, estabelecendo o principado de
Antioquia, os condados de Edessa e Trpoli, e o reino latino de Jerusalm, os
quais sobreviveram at 1291. Foi justificada com dois argumentos: a
recuperao da herana de Cristo (Jerusalm e a Terra Santa  sua volta) e a
defesa de irmos cristos no leste contra o avano muulmano. Essa dupla
causa foi peculiar das Cruzadas para o leste e desde o princpio deu-lhes o
carter de peregrinaes.  Primeira Cruzada seguiu-se uma srie de
grandes expedies, das quais as mais importantes foram a Segunda Cruzada
(1146-48); a Terceira Cruzada (1188-92), no decorrer da qual Chipre passou
a estar sob domnio latino, sendo governada por europeus ocidentais at
1571; a Quarta Cruzada (1202-04), que se desviou de seu curso, tomou
Constantinopla e estabeleceu o domnio latino na Grcia, vestgios do qual
sobreviveram at os tempos modernos; a Quinta Cruzada (1217-21) e a
Primeira Cruzada de Lus IX da Frana. Houve tambm um grande nmero de
empreendimentos menores, e foram estes que no perodo de 1254-91 se
converteram na mais popular forma de Cruzada. Houve Cruzadas e planos
para Cruzadas nos sculos XIV e XV; houve cruzados no Mediterrneo
oriental no sculo XVI; e a Ordem de So Joo, uma das Ordens Militares
que nasceram do movimento, ainda estava envolvida numa guerra ocasional
contra os turcos no sculo XVIII.
     A atividade dos cruzados foi estendida  Espanha pelo papa Urbano II
quase em seguida a ter pregado a Primeira Cruzada: ele j vinha sendo
pressionado no `sentido de uma poltica mais ativa na fronteira ao sul de
Barcelona e no queria desviar cavaleiros da para outras frentes. At o
sculo XVI, as Cruzadas foram periodicamente pregadas na Espanha. O
combate aos adversrios polticos do Papado parece ter sido introduzido
entre os objetivos das Cruzadas pelo papa Inocncio II em 1135, quando
concedeu uma indulgncia aos que lutavam contra os normandos e o antipapa
Anacleto; tal poltica foi extensamente usada pelos papas nos sculos XIII e
XIV na Itlia, contra os Hohenstaufen e contra os gibelinos. A realizao de
Cruzadas ao longo do Bltico foi autorizada pelo papa Eugnio II em 1147 e
prosseguiu at o sculo XV. Uma caracterstica das Cruzadas alems era
serem tambm guerras de converso, e os missionrios atuavam em conjunto
com os cruzados. A primeira Cruzada contra hereges foi deflagrada pelo papa
Inocncio III em 1208, quando perdeu as esperanas na habilidade e
disposio dos poderes seculares para esmagar os ctaros no Languedoc.
Seguir-se-iam Cruzadas contra os camponeses de Staedinger, na Alemanha,
e contra os ctaros na Lombardia, no sculo XIII, contra os adeptos de frei
Dolcino, no Piemonte, no sculo XIV, e contra os hussitas, na Bomia, nas
dcadas de 1420 e 1430.
    Do ponto de vista da maioria dos seus contemporneos, essas cruzadas
eram todas igualmente vlidas, embora uma Cruzada em defesa da Terra
Santa ou para a reconquista de Jerusalm tivesse mais prestgio e fosse o
padro pelo qual se aferia o mrito das demais. Por vezes, no sculo XIII, os
papas desencorajavam Cruzadas numa direo, a favor de mais esforo e
mais recursos numa outra. Acabaram por envolver-se ativamente em decises
estratgicas desse gnero, em parte porque aps a instaurao da tributao
obrigatria de rendimentos clericais em favor das Cruzadas, havia, pelo
menos em teoria, vastas somas de dinheiro com que as expedies podiam
ser dotadas. Houve crticas ocasionais s Cruzadas -- algumas delas radicais
-- engendradas em parte pela irritao que essa tributao causou, mas de
modo geral no parece que elas representassem a opinio pblica.
     De 1095 at pelo menos 1400, as Cruzadas foram uma atividade
devocional genuinamente popular, sendo o perodo de sua maior popularidade
o de 1187 a 1250. Atraindo leigos de todas as classes, eram acompanhadas
por exerccios penitenciais e litrgicos que constituam caractersticas
marcantes do culto popular da poca. Alguns dos participantes tomavam votos
baseados nos dos peregrinos, e tambm recebiam indulgncias. As primeiras
indulgncias eram declaraes solenes que tornavam a Cruzada um exerccio
de penitncia to severo que absolvia o cruzado de todos os seus pecados
anteriores. A idia mais avanada, proposta na dcada de 1140, sustentava
que a satisfao nunca podia ser adequada e que, por conseguinte, a
indulgncia era uma livre e generosa remisso do castigo devido por se pecar.
Essa idia s foi definitivamente adotada para os cruzados no pontificado de
Inocncio III.
      Embora cada Cruzada deva ter tido seus aventureiros, e muitos se
beneficiassem materialmente ao se instalarem na Palestina, Sria, Grcia,
Espanha e no litoral do Bltico, h poucas provas de que a maioria ganhasse
ou pretendesse ganhar outra coisa alm de mrito e honra. Com efeito, de
acordo com a opinio de seus contemporneos, era mais srdido evitar
participar numa Cruzada do que ser avarento no apoio a uma Cruzada. Ver
albigenses; Crianas, Cruzada das; Camponeses, Cruzada dos;
wendes                                    JR-S
 R.C Smail, Crusading Warfare 1097-1193(1956); H.E. Mayer, The
Crusades (1972); E. Christiansen, The Northern Crusades (1980); P.M. Holt,
The Age of the Crusades (1986); J. Riley-Smith, The First Crusade and the
Idea of Crusading (1986); The Crusades (1987) [S. Runciman, Histria de las
Cruzadas, 3 vols.; Madri, Alianza, 1973; P. Rousset, Histria das Cruzadas,
Rio, Zahar Editores, 1980; A. Maalouf, As Cruzadas vistas pelos rabes, S.
Paulo, Brasiliense, 1988]
cumanos Povo turco nmade que no sculo XII forneceu tropas mercenrias
a prncipes russos. O fracasso dos cumanos em organizarem qualquer
resistncia russa efetiva contra a investida mongol forou-os, em 1237, a
procurar refgio nos territrios de Bla IV, rei da Hungria. O filho de Bla,
Estvo V, casou com uma princesa cumana e, no reinado do filho deles,
Vladislav II, a influncia cumana aumentou consideravelmente. Embora os
cumanos tivessem se convertido ao Cristianismo antes de sua chegada 
Hungria, encontraram dificuldades na assimilao e no foram inteiramente
absorvidos na sociedade hngara durante sculos.

cunhagem e moeda As moedas medievais eram muito delgadas e leves
pelos padres modernos (cerca de 1 a 4 gramas), uma vez que o poder de
compra dos metais preciosos era alto, e feitas sobretudo de prata ou billon
(prata menos de 50% pura, em liga geralmente de cobre). Elas foram
precedidas nos sculos VI e VII por uma cunhagem de ouro, e as moedas
nesse metal voltaram a ser de uso geral entre meados do sculo XIII e
meados do sculo XIV. Na maior parte da Europa, o cobre no era cunhado,
embora o billon de baixa qualidade, largamente usado nos sculos XIV e XV,
fosse quase indistinguvel do cobre; tanto este metal quanto o chumbo foram
usados para fichas no-oficiais que suplementavam a cunhagem regular
nesses sculos. A unidade bsica, desde finais do sculo VII em diante, era o
penny ou dinheiro (denier). Generalizaes sobre sua histria so difceis;
embora o mesmo padro evolutivo seja encontrado quase por toda parte, a
cronologia variou de pas para pas.
      Os Estados germnicos estabelecidos dentro das antigas fronteiras
romanas tinham principalmente cunhagens de imitao de tremisses de ouro
(um tero de solidus), s distinguveis de seus prottipos imperiais por suas
inscries imperfeitas e tipos distorcidos. S raramente se cunhavam
imitaes de solidus -- depois de 550, virtualmente apenas em Marselha -- e
moedas fracionrias de prata e cobre estavam limitadas  Itlia ostrogoda, 
frica vndala e ao vale do Rdano at cerca de 550. Finalmente, as
tremisses pseudo-imperiais foram substitudas por cunhagens nacionais em
ouro, variando em tipo e organizao de um povo para outro. A cunhagem
franca, a mais desorganizada, era de carter essencialmente privado,
apresentando as moedas, normalmente, o nome da oficina onde eram
cunhadas e do moedeiro responsvel, sem referncia alguma ao governante.
A mudana de sistema que ocorreu por volta de 580 no reino merovngio foi
acompanhada de uma reduo no peso das moedas de l,5g para l,3g, e
envolveu uma mudana no sistema de pesos, l,5g representando oito siliquae
romanos e sendo l,3g o equivalente a 20 gros, ou ao xelim germnico. Esse
peso tambm foi adotado para as moedas de ouro anglo-saxnicas no sculo
VII, sendo as moedas tradicionalmente denominadas thrymsas pelos
numismatas, na realidade, xelins de 20 sceattas (gros).
     O xelim de ouro, por essa altura um tanto depreciado, comeou sendo
substitudo no reino franco, por volta de 670, por um denarius (dinheiro) de
prata do mesmo peso e, por conseguinte, valendo 1/12 do xelim de ouro, visto
que a razo ouro/prata na poca era de 1:12. Uma mudana anloga ocorreu
na Inglaterra, provavelmente na mesma poca e certamente antes de 690,
porquanto as novas moedas aparecem nas Laws of Inc com o nome de
pennies. Com Pepino, o Breve, e Carlos Magno, os padres das moedas
francas foram uniformizados e sua emisso colocada sob controle real,
terminando o processo com a criao do novus denarius de Carlos Magno
por volta de 793. Uma vez mais, desenvolvimentos correspondentes foram
registrados na Inglaterra no governo de Offa de Mrcia, embora os pesos
finais das duas moedas diferissem: o novo dinheiro franco pesando
aparentemente, em princpio, l,75g (32 gros de trigo) e o penny ingls l,56g
(24 gros de cevada).
      A cunhagem assim criada dominou a Cristandade latina ao longo dos
cinco sculos seguintes. Dinheiros de prata modelados de acordo com os da
Frana disseminaram-se por toda a Itlia setentrional e central (781), norte da
Espanha (comeo do sculo IX), Alemanha (sculo X), Bomia (na dcada de
930), Polnia (na dcada de 980) e Hungria (c. 1000), passando ao
Mediterrneo oriental com os cruzados e  Itlia meridional e Siclia com os
Hohenstaufen. Da Inglaterra, o penny passou  Irlanda e Escandinvia no
sculo XI, e  Esccia no sculo XII. Em algumas partes da Europa tambm
foram cunhados meios pennies (halfpennies) e quartos de penny (farthings)
(os franceses oboles ou mailles, pites), mas as fraes eram usualmente
feitas cortando os delgados pennies em metades ou quartos. No eram
cunhados mltiplos e as moedas de ouro s ocasionalmente eram emitidas, e
para fins cerimoniais. Excees a essa regra eram a Espanha crist, a Itlia
meridional, a Siclia e os Estados cruzados, pois estavam familiarizados com
os dinares de ouro muulmanos e imitaes desses (besanti sarracenati) ou
de suas fraes (taris).
     [A imitao portuguesa do dinar de ouro muulmano recebeu o nome de
morabitino ou maravedi ureo, presumindo-se que a sua primeira cunhagem
ocorreu no reinado de D. Sancho I (c. 1190). At o reinado de D. Afonso II
(1185-1223), era permitida a cunhagem de moeda privada pela Igreja, como,
por exemplo, no caso do arcebispado de Braga para financiar a construo de
sua catedral. Aquele monarca aboliu tal privilgio e a cunhagem passou a ser
desde ento um direito exclusivo da Coroa. NT]
     O nmero de casas da moeda na Europa feudal era muito grande. A
cunhagem de forma geral era executada regionalmente, mesmo nos Estados
onde o controle real da moeda permaneceu intato. Numa dada altura, havia
mais de 70 casas de cunhagem de moeda na Inglaterra, embora estivessem
todas cunhando moedas de um tipo e peso uniformes. Na Frana e no
Imprio, o direito de moeda (jus monetae) passou a ser exercido (por
concesso ou usurpao) por uma multido de feudatrios, e na Itlia por
muitas das comunas. Os desenhos eram extremamente variados e, a partir de
meados do sculo XI, houve na maioria dos lugares um considervel declnio
dos padres carolngios em peso e pureza. A maioria das moedas era
cunhada em pesos que variavam entre 0,7g e l,4g, sendo entre 50% e 90%
puras. Mas a depreciao era, por vezes, levada muito longe. No final do
sculo XII, o denaro veneziano, um dos piores da Europa, pesava cerca de
0,36g e tinha somente 25% de pureza, pelo que o seu contedo em prata
estava abaixo de 0,lg contra l,7g da poca Carolngia.
     No sculo XIII, mltiplos em prata de metal virtualmente puro comearam
sendo cunhados sob os nomes genricos de groats (francs gros, alemo
Groschen, italiano grosso, isto , grossus denarius), em contraste com os
"pequenos" pennies correntes (francs petits deniers, italiano piccoli, parvuli).
Pesavam em geral 2-4g e seus valores dependiam do nvel em que o penny
local tivesse sido depreciado. Os grossi venezianos pesavam 2,lg e, na poca
de sua criao (1201?), valiam 24 denari; o gros tournois francs (1200)
pesava 4,22g e
valia um sou (soldo), equivalente a 12 dinheiros; ao passo que o groat ingls
(1351), embora pesasse 4,67g, valia apenas quatro pennies (esterlinos), uma
vez que o penny ingls, em comparao com seus equivalentes continentais,
tinha sido apenas levemente reduzido no peso e absolutamente nada na
pureza. Moedas de ouro tambm comearam sendo cunhadas numa base
regular, iniciando com o agostaro ou augustale (1231), e continuando com o
muito mais influente florim florentino (1252), o genovino d'oro genovs (1252)
e o ducado veneziano (1284). A cunhagem de moeda de ouro difundiu-se mais
lentamente ao norte dos Alpes, sendo a primeira moeda de ouro francesa
bem-sucedida a masse d'or de Filipe, o Belo, e o noble ingls de Eduardo III,
que datam de 1295 e 1344, respectivamente. No perodo intermdio, o uso do
florim de ouro foi propagado pelos grandes mercadores e banqueiros
florentinos, ao passo que o ducado veneziano dominava a circulao do
Oriente Prximo.
      A introduo de mltiplos de ouro e prata tornou a vida mais fcil para os
mercadores, pois as novas moedas, de bons metais, eram aceitas
internacionalmente de um modo que nenhuma moeda ocidental anterior tinha
sido,  exceo do esterlino ingls. Suas desvantagens eram o surgimento de
padres denominativos extremamente complicados e as constantes flutuaes
de valor, pois o sistema era virtualmente trimetlico, envolvendo ouro, prata e
liga de prata e cobre. As taxas de cmbio flutuavam, em parte por causa das
mudanas nos preos do mercado do ouro e da prata e, tambm em parte,
por causa da ocasional superproduo de moedas em liga (billon), ou ainda
porque os governos estavam alterando constantemente o peso e a pureza das
moedas. Isso ocorria, usualmente, na esperana de manter estveis os
valores monetrios em termos do tradicional sistema sd, mas, por vezes,
derivava simplesmente do desejo de aumentar seus prprios lucros. A partir
de finais do sculo XIII, os mercadores concluram ser necessrio compilar
listas cada vez mais complexas de moedas e seus valores, das quais a mais
famosa consta de La Pratica della Mercatura (c. 1340), do mercador
florentino Pegolotti, e os governos tiveram que publicar tabelas de taxas de
cmbio. A abundncia de prata disponvel em fins do sculo XIII e comeos
do XIV, proveniente das minas da Bomia e da Srvia, foi seguida, antes de
findar o sculo XIV, por uma sria escassez, s parcialmente compensada
pela vasta produo das minas de ouro hngaras, na regio da Eslovquia
moderna. Somente a partir da segunda metade do sculo XV ocorreu um
acentuado progresso, quando o aumento de suprimentos de prata europia, e
o acesso direto ao ouro africano em conseqncia da explorao portuguesa
da costa ocidental africana foram um preldio  chegada no sculo XVI dos
vastos suprimentos de metais preciosos, aps a descoberta das Amricas.
Ver augustale; besante; bracteado; ducado; escudo; esterlino; florim; gulden;
marco; noble; pound; quilate; renovatio monetae; solidus; tar; xelim [1, 18,
142, 212, 332         PG
 P. Grierson, Monnaies du Moyen Age (1976); P. Grierson e M. Blackburn,
Medieval European Coinage, Vol. I (1986); P. Spufford, Money and its Role
in Medieval Europe (1988)

Cuteberto, So (634-87) Bispo de Lindisfarne. Monge de observncia cltica
em Melrose desde 651, Cuteberto tornou-se prior desse convento antes de
aceitar os costumes romanos no Snodo de Whitby em 664. Foi ento
nomeado prior de Lindisfarne, mas em 676 renunciou ao cargo e retirou-se
para Inner Farne a fim de tornar-se eremita. Em 685 foi escolhido por Egfrith,
rei da Nortmbria, e pelo arcebispo Teodora para bispo de Hexham, mas
pouco depois trocou com o bispo Eata essa s pela de Lindisfarne. Ao
morrer, Cuteberto foi sepultado em Lindisfarne, porm depois do saque dessa
localidade pelos dinamarqueses em 875, seu corpo foi exumado e andou
sendo levado por todo o norte, at chegar a Durham em 995. Durante o
sculo XI, o local do tmulo de Cuteberto cresceu em importncia. Um
mosteiro beneditino foi fundado para servi-lo pelo bispo Guilherme de St.
Carlief em 1083, e construda uma nova catedral para onde as relquias de
Cuteberto foram trasladadas em 1104. Seu culto foi popular durante toda a
Idade Mdia, sendo-lhe dedicadas 83 igrejas desde a Esccia at a
Cornualha. [318]
  B. Colgrave, Two Lives of St. Cuthbert (1940)
                                    D
Damasco Cidade santa muulmana situada entre o deserto e as montanhas.
Bem irrigada e frtil, Damasco desenvolveu-se desde muito cedo como um
grande mercado e caravanar. A conquista muulmana (636) confirmou o
controle islmico da Sria, pondo fim a mil anos de dominao ocidental. Aps
sculos de anarquia, Damasco atingiu seu perodo de apogeu nos sculos XII
e XIII com Nuradino e Saladino, como um centro para a guerra santa contra
os cruzados. Os mamelucos fizeram de Damasco uma dependncia poltica
do Egito depois de 1260.
 H.A.R. Gibb, The Damascus Chronicle of the Crusades (1932)

Dana da Morte (danse macabre) Um motivo comum na arte do final da
Idade Mdia, refletindo algumas das manifestaes da extrema histeria
religiosa associada s procisses penitenciais. Originou-se nos autos de
moralidade ou devoo e nos poemas que tratavam da inevitabilidade da
morte e do convite  penitncia. Esse tema tambm est representado em
murais onde trs moos se defrontam com trs esqueletos, com variaes na
legenda: "Como eu sou, tu sers." A imagem de uma longa fila de seres
humanos contorcendo-se e tentando escapar do caminho inevitvel para a
sepultura desenvolveu-se artisticamente no final da Idade Mdia, ao ponto de,
em seu nvel mais complexo, envolver toda a sociedade, desde o papa e o
imperador at o mais humilde campons. [204]
 J.M. Clark, The Dance of Death in the Middle Ages and the Renaissance
(1950); Encyclopaedia of World Art, vol. 4 (1971)

Dandolo, Enrico (c. 1107-1205) Doge de Veneza desde 1192, iniciou um
perodo de governo vigoroso, ao jurar a "promessa ducal" que descrevia, em
linhas gerais, a natureza de seu cargo. Procedeu  reviso do cdigo penal,
publicou a primeira coletnea de leis estatutrias e reformou o sistema
monetrio. Dandolo desempenhou um papel decisivo nos eventos da Quarta
Cruzada: forneceu transporte martimo aos cruzados para o Egito; em
pagamento por esse servio, aceitou ajuda na tomada de Zara, uma cidade
dlmata em poder dos hngaros; e encorajou o desvio da Cruzada para
Constantinopla. Dandolo morreu na cidade, aps t-la conquistado, tendo
efetuado valiosas aquisies para Veneza na Grcia e no Egeu.
 D.E. Queller, The Fourth Crusade: The Conquest of Constantinople (1978)

danegeld Termo usado para descrever pagamentos formais realizados por
reinos cristos, na Era Viking, para subornar os dinamarqueses invasores.
Tais pagamentos eram feitos por monarcas francos e ingleses no sculo IX,
mas todo o processo foi posto numa base mais sistemtica na Inglaterra aps
a derrota de Maldon em Essex (991). Somas gigantescas eram levantadas e
pagas aos dinamarqueses durante a segunda metade do reinado de Etelred, e
o sistema de coleta desse geld ou imposto foi refinado e tornou-se mais
eficiente sob a presso da necessidade de satisfazer as imposies e
exigncias dinamarquesas. O uso de geld para organizar e manter esquadras
e um elemento eficiente no exrcito (heregeld) levou a complexidades na
terminologia, mas o termo "danegeld" continuou sendo usado em sentido geral
[como sinnimo de imposto territorial NT] at 1162.

Dante Alighieri (1265-1321) Um dos maiores poetas da Idade Mdia. Dante
passou alguns anos adaptando romances occitnicos a uma forma que fosse
mais do agrado do crescente pblico burgus de Florena, reduzindo
elementos romnticos para realar a essncia bsica do amor. Isso
complementou o seu prprio sentimento por Beatriz, o amor de infncia que
inspirou seus poemas. Sua morte, em 1290, foi um terrvel golpe para Dante,
que produziu La Vita Nuova, uma obra hagiogrfica de adorao, em memria
de Beatriz. Durante sua amizade com o influente Guido Cavalcanti, Dante
travou conhecimento com o neoplatonismo de Bocio e a filosofia aristotlica
dos escolsticos. Envolveu-se apaixonadamente na poltica de Florena,
apoiando o partido guelfo, dividido ento em faces intransigentes. Foi eleito
um dos priori (o mais elevado cargo na comuna) e nessa funo visitou a
corte papal de Bonifcio VIII. Durante sua ausncia, ocorreu um golpe de
Estado e Dante foi banido de Florena, sob pena de morte.
      Em sua peregrinao por vrias cidades, continuou o trabalho sobre
Aristteles, produzindo o Convvio baseado na tica do pensador grego.
Propunha-se oferecer ao leigo um vislumbre da vitalidade filosfica dos
pensadores universitrios de seu tempo. Por volta de 1309, iniciou a
Monarchia, enunciado fundamental de suas idias polticas, no qual ampliou
as teorias que se encontram no Convvio, em especial as que dizem respeito
 monarquia mundial. Usou idias aristotlicas e neoplatnicas de perfeio
para formular uma defesa elaborada do Sacro Imprio Romano; nesse ponto,
sua obra era um reflexo da dos franciscanos, que desejavam a retirada do
poder temporal da Igreja. Assim, Dante apoiou o imperador Henrique VII
quando este invadiu a Itlia em 1310, mas em 1313 esse empreendimento j
havia fracassado.
     Foi nesse cenrio que a Divina Comdia adquiriu forma, no decorrer de
um perodo de 15 anos. Ela consiste em trs sees principais: Inferno,
Purgatrio e Paraso. A obra  um quebra-cabeas para eruditos, combinando
uma alegoria que provoca o leitor, com um realismo spero que envolve
personagens florentinas e figuras histricas hoje esquecidas. Esses elementos
esto reunidos pela intrincada simetria do poema.  uma narrativa coesa
sobre a ascenso do homem das trevas at Deus. Um comentador recente
destaca Dante como um "gnio isolado por sua originalidade", mas foi um
gnio admirado pelas geraes futuras em sua forma suprema na Divina
Comdia.
 [E. Gilson, Dante et la philosophie, Paris, Vrin, 1972; G. Holmes, Dante,
Lisboa, Publ. Europa-Amrica, 1981; C. Marchi, Dante, Milo, Rizzoli, 1985;
U. Cosmo, Vita di Dante, Florena, La Nuova Italia, 1965; H. Franco Junior,
Dante Alighieri. O Poeta do Absoluto, S. Paulo, Brasiliense, 1986]

Davi, So O santo padroeiro de Gales, cujo dia  celebrado a 1 de maro.
Davi foi um proeminente missionrio asctico do sculo VI, associado 
fundao de mosteiros e  obra de dois snodos reformadores. Em torno de
seu nome, criou-se uma grande quantidade de material lendrio que adquiriu
forma literria nos sculos XI e XII, com o objetivo de afirmar a independncia
da s de So Davi contra Canterbury. O cognome de aquaticus no significa
provavelmente mais do que suas qualidades ascticas, embora tenham sido
feitas vrias tentativas para relacionar as lendas de So Davi com o primitivo
culto cltico de deidades fluviais e aquticas. Em arte, ele  freqentemente
retratado com uma pomba pousada em seu ombro.
 Rhigyfarch's Life of St. David, org. por J.W. James (1967); W. Davies,
Wales in the Early Middle Ages (1982)

Decretais Forjadas O direito Cannico do Papado passou a apoiar-se em
colees que pretendiam consubstanciar toda a legislao decretal de
pontificados anteriores. Grande parte desse trabalho de compilao era obra
de estudiosos do sculo IX, sobretudo os que atuavam em torno de Reims. As
Decretais Pseudo-Isidorianas revestiram-se de especial importncia e foram
reunidas por volta de 847-52 como resposta  vigorosa interveno secular
em assuntos eclesisticos nos reinados de Lus, o Piedoso, e seus
sucessores, quando muitos bispos foram exonerados ou exilados (Paris em
829 e 845-46).
      As falsificaes esboavam uma idade de ouro de intricados
regulamentos sobre liturgia, sacramentos e matrias jurisdicionais; o poder do
Papado era enfatizado, mas de tal modo que favorecia os direitos episcopais
contra a autoridade dos arcebispos, o laicado e o clero privativo de cada
bispo. As falsificaes tinham chegado a Roma em 865, mas os papas
reformistas s as citaram parcimoniosamente at Urbano II (1088-99). Seu
principal canal de influncia no era o Papado mas as colees de cnones,
mormente a Collectio Anselmo Dedicata (c. 890) e as de Burchard de Worms,
Ivo de Chartres e Graciano. Hincmar de Reims tinha rejeitado parte do
material das Decretais no sculo IX como esprio e estudiosos posteriores,
incluindo Marslio de Pdua, duvidaram de sua autenticidade. Entretanto, os
textos continuaram sendo citados como autoridades at o sculo XVII.
Incorporavam algum material autntico e sua nfase sobre a primazia papal e
a oposio ao controle laico dentro da Igreja asseguraram a sobrevivncia e a
fora poltica dessas compilaes. Ver Isidorus Mercator
 W. Ullmann, Law and Politics in the Middle Ages (1975)
della Scala, famlia (Scaligeri) Sob o governo da famlia della Scala, a cidade
de Verona tornou-se muito poderosa no norte da Itlia, chegando em dado
momento a ameaar a supremacia comercial de Veneza. Aps a morte do
desptico Ezzelino da Romano, a comuna de Verona escolheu Mastino della
Scala como podest (1260). Antes de seu assassinato em 1277, ele pde
ampliar seu controle sobre algumas regies circunvizinhas. Alberto, seu irmo
e sucessor, consolidou a posio de autoridade mantida pelos della Scala. O
mais hbil membro da famlia foi Cangrande della Scala (1311-29), que fez de
sua corte um asilo para gibelinos exilados e um refgio para poetas e
intelectuais [o principal deles, Dante Alighieri], alm de submeter ao seu
controle muitas cidades do norte da Itlia.
 J. Larner, Italy in the Age of Dante and Petrarch (1980)

della Torre, famlia (Torriani) Aristocrtica famlia milanesa que depois de
obter a liderana da Credenza de Sant'Ambrogio (uma organizao de
pequenos patres) em meados do sculo XIII, estabeleceu-se como
governante de Milo. Em 1263, Martino della Torre tornou-se signore
perptuo, sendo sucedido por Napoleone della Torre (1265-77). A esperana
de consolidar ainda mais o poder da famlia foi frustrada pela nomeao de
um membro da famlia rival, os Visconti, como arcebispo de Milo em 1262; e
embora os Torriani tivessem conseguido impedir durante 15 anos que ele
tomasse posse de sua s arcebispal, foram finalmente derrotados pelos
Visconti em Desio, em 1277, e novamente em 1281, perto de Vaprio. Aps um
breve exlio, os Torriani regressaram a Milo (1302) e em 1308 j haviam se
restabelecido, tendo Cassone della Torre como arcebispo e Guido della Torre
como senhor perptuo. Entretanto, a signoria no sobreviveu muito  chegada
do imperador Henrique VII  Itlia. Aps a frustrada revolta Torriani de 1311,
sufocada pelo imperador e pelos Visconti, Matteo Visconti foi nomeado vigrio
imperial em Milo, e os Torriani nunca mais voltaram  cidade.
 J.K. Hyde, Society and Politics in Medieval Italy (1973); M. Mallet,
Mercenaries and their Masters (1974)

dendrocronologia Mtodo de datao, pelo estudo dos anis concntricos
existentes nos troncos de rvores, baseado nos padres caractersticos de
diferentes sculos, muito proveitoso na elucidao da cronologia de um
edifcio, como no caso, por exemplo, da catedral de Trier, onde a idade das
vrias partes da construo pode ser determinada comparando os padres de
anis do madeiramento. Em Trier, um canto da madeira fora cortado de forma
arredondada e mostrava os anis exteriores, mais perto da casca, de modo
que os anos em que os carvalhos foram abatidos podiam ser determinados
com preciso. Em muitos casos, falta o anel exterior e a data do mais recente
anel visvel pode corresponder aproximadamente a uma dcada antes da data
da construo. Numerosos anis so necessrios para uma datao
inequvoca, de modo que os moinhos de gua (como na Irlanda dos primeiros
sculos de nossa era) ou as mesas (por exemplo, a Tvola Redonda do Rei
Artur em Winchester, c. 1200) so mais facilmente datados do que os
pequenos objetos. Os arquelogos subaquticos podem datar velhos navios
afundados e at localizar a origem de algumas das tbuas, mas no se deve
permitir que o madeiramento molhado seque rapidamente se for necessrio
obter uma data dendrocronolgica. A dendrocronologia tem sido um til
mtodo de datao, e mais exato, alis, para o perodo medieval do que a
datao pelo carbono radiativo; ela permitiu a datao precisa de muitas
estruturas medievais, desde chals at retbulos.
      A datao por anis de rvores em carvalhos e olmeiros  muito bem-
sucedida nas montanhas galesas ou alems, onde nos anos de seca o anel 
estreito. Nas altas montanhas escandinavas e alpinas, o calor do vero 
necessrio para que se desenvolva um largo anel, e a densidade da madeira
recente (medida por raios X) reflete de maneira fidedigna a temperatura do
mais recente vero. De um modo geral, as relaes climticas so complexas
e o progresso na datao foi lento at se desenvolverem programas de
computador.
    Onde as rvores so sensveis s precipitaes pluviais, como na
Alemanha meridional, podemos verificar os anos de estiagem pelos estreitos
anis caractersticos de anos como 67-69, 591-92, as dcadas de 680 e de
850, 931-50 e 977-98. Um anel estreito em rvores inglesas em 1137, por
exemplo, confirma a informao do cronista de que "regatos e poos, e
grande nmero de rios... secaram".
 M.G.L. Baillie, Treering Dating and Archaeology (1982); D.J. Schove,
Chronology of Eclipses and Comets, AD 1-1000 (1984)

Despensers Famlia inglesa cujos membros ganharam notoriedade a servio
de Eduardo II. Em 1308, Hugo, o Velho, apoiou o rei e seu favorito, Piers
Gaveston, contra a oposio dos bares; em conseqncia disso, recebeu o
cargo de conselheiro principal da Coroa (1312-15). Hugo, o Moo, tornou-se
camarista da corte em 1318. Suas tentativas para obter o controle exclusivo
da vasta herana de Clare, atravs dos direitos de sua esposa como co-
herdeira, provocaram a censura dos bares e o banimento dele prprio e de
seu pai. Contudo, voltaram ao poder em 1322 e continuaram a usar sua
posio para ganhos pessoais, conseguindo, por exemplo, o condado de
Winchester para Hugo, o Velho. A rebelio da rainha Isabel e de Roger
Mortimer em 1326 resultou na queda dos Despensers e sua execuo.
 G. A. Holmes, The Estates of the Higher Nobility in Fourteenth-Century
England (1957); N. Fryde, The Tyaranny and Fall of Edward II (1979)

Dias, Bartolomeu (m. 1500) Zarpou de Portugal com uma frota de trs
caravelas em 1487, com ordens do rei D. Joo II para encontrar a
extremidade meridional da costa ocidental da frica. Sua misso foi bem-
sucedida e sua descoberta batizada de Cabo da Boa Esperana, porquanto
revelava a possibilidade de viagem martima para a sia.
Dictatus Papae Importante lista ou memorando consistindo em 27 breves
prescries referentes aos objetivos e normas de natureza teocrtica do
Papado durante o pontificado de Gregrio VII (1073-85). Seu propsito exato
 incerto, mas seria provavelmente uma forma de ndice para documentos e
argumentos considerados teis para a cria papal em sua luta com o
imperador, comumente conhecida como Questo das Investiduras. As
prescries so de carter diverso, indo desde detalhes at declaraes
positivas e absolutas de supremacia papal. Dois argumentos dominam a
coletnea: em primeiro lugar, que o papa era superior ao imperador, tendo at
o direito de o depor; e, em segundo lugar, que o papa era superior a todos os
outros metropolitas e bispos na hierarquia eclesistica.
 E. Caspar, Das Register Gregors VII (1920); W. Ullmann, The Church and
the Law in the Earlier Middle Ages (1975)

Dietrich de Berna Ver Teodorico, o Grande

Dinamarca O mais meridional dos reinos escandinavos, a Dinamarca recebeu
esse nome por sua posio na fronteira (Mark = regio limtrofe) dos Imprios
Carolngio e Germnico. Consistia na pennsula da Jutlndia, um certo nmero
de ilhas, sobretudo Funen e Zeeland, e parte do que se considera hoje a
Sucia meridional. Adquiriu preeminncia no antigo perodo viking, quando os
governantes dinamarqueses resistiram efetivamente a Carlos Magno e seus
sucessores, iniciando a construo de um grande aterro (o Danevirke) cuja
finalidade primordial era proteger o porto de Hedeby (Schleswig). Na Era
Viking, os dinamarqueses revelaram-se ativos mercadores, colonizadores e
homens do mar, especialmente na Inglaterra e Normandia.
       Politicamente, atingiram o auge com Canuto, rei da Inglaterra (1016-35)
e da Dinamarca (1019-35). Nessa poca, completaram sua converso ao
Cristianismo (iniciada efetivamente em meados do sculo X) e pensadores e
eclesisticos dinamarqueses passaram a desempenhar um papel importante
na Renascena do sculo XII.
       No reinado de Valdemar H (1202-41), os dinamarqueses ampliaram seus
interesses comerciais e religiosos a leste at o Bltico, atuando por vezes em
colaborao com os mercadores alemes, porm, mais freqentemente, em
oposio a eles. Nos sculos XIII e XIV, a formao da Liga Hansetica
aumentou a debilidade interna da organizao poltica dinamarquesa. Pelo
tratado de Stralsund (1370), por exemplo, Valdemar IV, que tentou restringir a
atividade dos mercadores alemes, foi forado a reconhecer, aps a derrota
militar, o virtual domnio germnico do Bltico, e at a permitir que eles
tivessem poder de deciso na escolha de um rei dinamarqus. Pela Unio de
Calmar (1397), a Dinamarca passou a fazer parte de uma no muito bem
definida federao de reinos escandinavos, at a dissoluo dessa Unio em
1523. Ver Gorme, o Velho; Valdemar I, o Grande
 J.H. Birch, Denmark in History (1938); L. Mus-set, Les peuples
scandinaves au Moyen-Age (1951); A.E. Chistensen, "Denmark between the
Viking Age and the time of the Valdemars", Medieval Scandinavia I (1968) [R.
Boyer, Le Christ des barbares. Le monde nordique, IX-XIII sicle, Paris, Cerf,
1987]

direito O imprio da lei  um dos mais poderosos conceitos legados pelo
mundo medieval ao mundo moderno, mas suas origens so complexas,
provenientes de razes tanto germnicas quanto latinas. Para Bizncio e a
parte oriental do mundo romano, a herana jurdica sobreviveu intata, embora
dramaticamente modificada, primeiro sob o impacto das invases
muulmanas, depois pelas Cruzadas e, finalmente, pelas conquistas turcas
que culminaram na tomada de Constantinopla (1453).
      O maior dos primeiros imperadores orientais, Justiniano, encarregou-se
de codificar o direito romano (527-34) com a ajuda de seu jurisconsulto
Triboniano. As publicaes resultantes, conhecidas dos estudiosos medievais
como o Corpus Juris Civilis, devem ser colocadas entre as mais influentes
obras escritas at hoje produzidas na Europa. Ele se divide em duas partes
principais: o Digesto e o Cdigo. O Digesto (ou Pandectas) enunciava
princpios bsicos e ocupava-se sobretudo de leis concernentes ao direito
privado; consistia em 50 livros, divididos em ttulos e leges (leis), conjugando
numa unidade sistemtica material recolhido nos livros de direito do Imprio. O
imperador era reconhecido como a fonte do direito escrito positivo e no se
pensava que estivesse sujeito  lei. Historicamente, porm, o Digesto
acompanha Ulpiano ao atribuir a base da autoridade imperial a uma lex regia,
mediante a qual o povo romano tinha transmitido poder ao governante nos
tempos da Repblica: essa atribuio provou revestir-se de grande
significao para os pensadores polticos da Idade Mdia, em sculos
subseqentes.
       O Cdigo publicou constituies ou decretos e respostas do imperador
sobre pontos controvertidos. Consistia em 12 livros que se ocupavam
substancialmente de assuntos eclesisticos, aplicando ao Imprio cristianizado
noes derivadas dos tempos pagos, quando o imperador era pontifex
maximus. O Cdigo tambm continha matria relacionada com a mquina
judicial e as funes de servidores pblicos. Duas outras compilaes
associadas com Justiniano so tambm importantes para a transmisso do
direito romano. Suas decises legais subseqentes, muitas delas ligadas a
assuntos eclesisticos, e publicadas de modo significativo em grego em vez
do latim do Digesto e do Cdigo, foram coligidas (168 ao todo) como as
Novellae, ao passo que seus Institutes (em quatro livros) eram um compndio
oficialmente aprovado, enunciando princpios gerais mas nada contendo que
no estivesse no Digesto ou no Cdigo.
     Para a parte oriental do Imprio, o direito romano, tal como apresentado
por Justiniano e seus consultores, continuou sendo a base da vida social. No
Ocidente foi diferente. Os rudimentos de direito romano sobreviveram na Itlia
e no sul da Frana, e alguns dos cdigos brbaros, mormente o dos
visigodos, revelam forte influncia romana; notrios ligados a concesses de
terras e direitos na Itlia Carolngia tiveram,  lcito presumir, mais do que
noes superficiais de direito romano.
      Foi sobretudo a Igreja que manteve vivas as idias romanas. As leis dos
francos ripurios reconheciam, em meados do sculo VIII, que a Igreja vivia
de acordo com o direito romano. De outras formas mais sutis, a Igreja
tambm preservou a herana do direito romano: sua estrutura institucional
tomou por modelo o Estado romano e pedia um certo grau de direito territorial
universal; a Vulgata, a grande Bblia latina, estava impregnada de vocabulrio
jurdico latino, transmitindo para o mundo medieval noes inteligveis de uma
realeza ordenada e de um Estado territorial.
     Os governantes do mundo ocidental foram, durante muitos sculos, reis
brbaros germnicos e seus seguidores, cujas idias bsicas de direito eram
radicalmente diferentes das romanas. A nfase que se observa em seus
cdigos de leis sobre status, sobre wergeld (preo do sangue), sobre vendeta
ou temor de vendeta, indica uma sociedade em que estar  altura da lei e do
juramento dependia de se pertencer a uma famlia livre; a base do direito
germnico era a filiao a um grupo tribal livre.
      Noes de realeza crist e de uma sociedade justa ajudaram a
reintroduzir vestgios de romanismo; havia, porm, escasso conhecimento
especfico do direito romano em que se apoiar. Somente na segunda metade
do sculo XI, coincidindo com a ecloso da Questo das Investiduras, houve
um verdadeiro ressurgimento do direito romano. O nico exemplar
sobrevivente do Digesto foi redescoberto por volta de 1070, provavelmente
em Monte Cassino, e o estudo sistemtico do direito romano desenvolveu-se
rapidamente no norte da Itlia, sob a inspirao de grandes mestres: Irnrio
em Bolonha, seguido pelos glosadores no sculo XII e depois pelos
Comentadores. Necessidades da Igreja e do Estado instigaram o exame
atento da herana romana, se bem que as diferenas na organizao social
entre o Imprio Romano e a Europa do sculo XII exigissem uma dura
disciplina intelectual das escolas de direito para tornar as sentenas
inteligveis. O direito Cannico desenvolveu-se por caminhos prprios, e o
gnio de Graciano, no comeo da dcada de 1140, colocou a lei da Igreja
numa nova base metodolgica. Sua Concordncia dos Cnones Discordantes
tinha uma imensa dvida com a Escola Bolonhesa.
       O mundo secular tambm se beneficiou, e o direito civil tornou-se
coerente. Pedro Crasso, que escreveu em defesa do imperador Henrique IV,
parece ter sido o primeiro a perceber todo o potencial do direito romano em
defesa do poder laico; mas os servidores reais nos sculos XII e XIII
apoiaram-se maciamente nas mximas jurdicas de Roma para apoiar seus
senhores imperiais e reais. O direito tornou-se, depois da teologia, a mais
prestigiosa das disciplinas acadmicas, um treinamento para a elite letrada
que, no perodo central da Idade Mdia, progredia nos escales do governo.
Surgiram naturalmente conflitos entre os novos advogados civilistas e os
mergulhados na tradio, no direito feudal e no costume (consuetudo). Os
juristas, ao tempo dos imperadores Hohenstaufen, aceitaram e exploraram a
universalidade explcita do direito romano, mas as monarquias francesa e
inglesa foram inicialmente menos receptivas e houve ocasies em que seu
estudo foi at proibido. A reconfortante doutrina de que o rei era imperador
em seu prprio reino ajudou a encorajar seu estudo, sobretudo na Frana,
mas na Inglaterra o direito romano continuou sendo de pouca influncia
prtica, e a textura do direito consuetudinrio surgiu nas mos de autores tais
como Glanville e Bracton, no afetados pelo direito romano e estruturalmente
mais dependentes do costume e da prtica dos tribunais de justia reais.
       No nvel terico, a teologia e o direito estavam intimamente interligados.
No sculo XIII foram introduzidos refinamentos -- de maneira sumamente sutil
e efetiva por Santo Toms de Aquino -- nas idias bsicas de Santo
Agostinho a respeito da relao entre o direito divino (revelado pela f), o
direito natural e o direito positivo. A poltica, a teoria poltica e o estudo do
direito tambm eram parceiros ntimos, e muitos dos grandes mestres juristas
do final da Idade Mdia envolveram-se ativamente em controvrsias sobre o
fim do Grande Cisma e o movimento conciliar. Conceitos de soberania e de
utilitas pblica foram formulados pelos juristas romanos. A disciplina de direito
persistiu academicamente como uma das mais gratificantes, nas acepes
intelectual e prtica da palavra. Organizado em universidades, como a de
Bolonha, ou nos Inns of Court ingleses, o estudo do direito exerceu um
poderoso e permanente efeito sobre a vida intelectual da Europa. Ver floresta,
lei da; Liber Augustalis; Teodosiano, Cdigo HRL
 W. Ullmann, Law and Politics in the Middle Ages (1975); Jurisprudence in
the Middle Ages (1980); H.J. Berman, Law and Revolution: the Formation of
the Western Legal Tradition (1983)

Dmitri Donskoi (Dimitri do Don) (1350-89) Gro-duque de Moscou e
Vladimir desde 1359, Dmitri estabeleceu os rumos do seu principado em
Moscou de forma a torn-lo a mais influente das unidades constitucionais
russas mais ou menos independentes. Fortificou Moscou, edificando o Kremlin
com uma formidvel cidadela, e obteve uma grande vitria sobre os trtaros
na batalha de Kulikovo (1380). A dominao trtara foi rapidamente
restabelecida, mas o exemplo e a lenda dessa vitria permaneceram como
poderoso elemento no sentimento nacional russo.

Doao de Constantino Passava por ser uma concesso pela qual o
imperador Constantino (306-37) outorgava autoridade suprema  Igreja e
domnio absoluto sobre a Itlia ao papa Silvestre I (314-35). Tratava-se,
porm, de uma falsificao papal do sculo VIII, divulgada pela primeira vez
em 755, quando Pepino, rei dos francos, concluiu uma campanha militar para
defender o territrio papal de incurses lombardas, confirmando o documento.
Este continuou sendo sempre citado em apoio s reivindicaes papais de
autoridade temporal na Itlia, at que Loureno Valia demonstrou, em 1440,
ser um documento esprio. Ver Valia, Loureno
 W. Ullmann, The Growth of Papal Government in the Middle Ages (1955)

Domesday Book O resultado de um ambicioso e bem-sucedido
cadastramento das terras do reino de Inglaterra, iniciado por Guilherme I em
importante conselho no natal de 1085.O Domesday Book consiste em dois
grandes volumes, tratando o primeiro, mais refinado, da maior parte da
Inglaterra, enquanto o segundo, mais detalhado, abrange os condados
orientais de Essex, Suffolk e Norfolk. Juntos, eles fornecem uma enorme
quantidade de dados referentes s terras reais, s terras dos grandes
locatrios (eclesisticos e laicos),  riqueza e  capacidade tributvel da terra,
 natureza dos proprietrios rurais e do campesinato, e aos recursos naturais
da comunidade: florestas, moinhos, direitos de pesca e muitos outros e
variados itens.
       nico entre os registros europeus medievais em seu detalhamento, e
produto das circunstncias extraordinrias que acompanharam a conquista
normanda da Inglaterra. Foi usado como declarao oficial inquestionvel da
situao de posse territorial, e recebeu o nome de Domesday (isto , Dia do
Juzo Final) no sculo XII, por no haver apelao contra seus vereditos. Sua
importncia legal e financeira assegurou-lhe a sobrevivncia como prestigioso
documento do Tesouro e, depois, do Errio Pblico (Exchequer). Foram
realizados resumos e a maioria dos grandes latifundirios teve acesso s
informaes relativas ao estado de suas terras na poca do Domesday Book.
Recorreu-se com freqncia ao seu contedo at fins da Idade Mdia,
especialmente a respeito da situao de antigos senhorios e dos direitos
urbanos.
 V.H. Galbraith, the Making of Domesday Book (1961); E.M. Hallam,
Domesday Book through Nine Centuries (1986); Domesday Studies, org. por
J. C. Holt (1987)

Domingos (de Guzman), So (c. 1170-1221) Fundador da Ordem
Dominicana. Oriundo de uma famlia da nobreza castelhana, iniciou sua
carreira eclesistica como pregador e foi cnego (c. 1196) e prior-substituto
(1201) de Osma; participou de embaixadas reais ao Languedoc, onde se
encontrou com os albigenses; decidido a reconcili-los com a Igreja, juntou-se
 misso Cisterciense e permaneceu no Languedoc at 1217. O comeo da
Cruzada Albigense (1208) contrariou o trabalho de Domingos, que preferia
empregar a lgica, a teologia e o exemplo da pobreza pessoal, em vez do
argumento da fora, para rebater o catarismo. Assim, resolveu fundar ele
prprio uma Ordem caracterizada pela pobreza mendicante, a erudio e a
pregao, a qual recebeu a confirmao do papa Honrio III em 1216. Ao
contrrio dos membros de Ordens anteriores, os frades dominicanos (Ordem
dos Pregadores ou dos Frades Negros, assim chamados por usarem uma
capa negra sobre o hbito branco) no se permitiam a propriedade coletiva e
tinham que esmolar o alimento. Seguiam a Regra Agostiniana e recebiam
rigorosa formao teolgica, com a finalidade de produzir um laicado
esclarecido e imune a erros herticos.
     A Ordem propagou-se rapidamente por toda a Europa ocidental. Estava
dividida em provncias, sob a direo de um provincial-geral, e isenta de
jurisdio episcopal. Concentrou-se especialmente em cidades universitrias
(Paris, 1217; Bolonha, 1218; Oxford, 1221), produzindo intelectuais da
envergadura de Alberto Magno e Toms de Aquino. Nesse ponto, a Ordem
Dominicana divergiu substancialmente da outra e importante Ordem de frades,
os franciscanos, que no consideravam a erudio urna parte de sua vocao.
       Os dominicanos estavam intelectualmente preparados para combater a
heresia, mas a converso acabou dando lugar  represso, sendo a
Inquisio medieval descrita freqentemente como a Inquisio Dominicana
(embora somente uma minoria participasse dela e os franciscanos tambm
estivessem envolvidos na ao inquisitorial). O papel pastoral dos dominicanos
deu uma contribuio igualmente significativa para a luta contra a heresia. Do
sculo XIV em diante, apesar de misses na frica, ndia e China, a Ordem
declinou                         de                            importncia. Ver
carmelitas                                        MB
 M.H. Vicaire, St. Dominic and his Times (1964); W.A. Hinnebusch, A History
of the Dominican Order (1965); B. Hamilton, The Medieval Inquisition (1981)

Donatello di Niccol (1386-1466) Um dos maiores escultores de seu tempo,
Donatello  principalmente lembrado por seu soberbo trabalho em bronze, em
especial o seu Davi, um nu em tamanho natural feito para os Medici, seus
mecenas florentinos. Natural de Florena, Donatello trabalhou no Batistrio em
seus primeiros anos de carreira, e estabeleceu sua reputao tanto no
mrmore quanto no bronze. Florena, Siena e Pdua (desde 1443) foram
seus principais campos de atuao, constituindo o monumento eqestre a
Gattamelata e o quadro em relevo Os Milagres de Santo Antnio os principais
testemunhos de seu perodo paduano.
 H.W. Janson, The Sculpture of Donatello (1957)

Donati, famlia Proeminente na poltica florentina do sculo XIII como principal
representante da velha elite. A famlia, chefiada pelo "baro" Corso Donati,
liderou a mais radical faco guelfa, os Negros, principalmente lembrada por
seu golpe (1301) sob a proteo de Valois, que resultou, entre outras coisas,
no exlio de Dante. Corso, morto em 1307, foi um dos ltimos representantes
significativos do grupo de ativos e belicosos magnatas que tinham ameaado
a estabilidade da constituio florentina.

Donatista, Cisma Pretendeu proteger a Igreja ao norte da frica do estigma
do contato com traditores, aqueles que tinham abandonado o Cristianismo
durante as perseguies de Diocleciano (303-05). O cisma iniciou-se em 311,
aps a consagrao de Ceciliano pelo alegado traditor Flix de Aptunga, e
recebeu esse nome de Donato, o segundo bispo a ser eleito em oposio a
Ceciliano. Como o donatismo retirava foras do regionalismo africano, resistiu
 represso imperial e  censura eclesistica, especialmente por parte de
Agostinho, e sobreviveu at a Igreja africana se desintegrar diante da
expanso islmica durante os sculos VII e VIII.
 W.H.C. Frend, The Donatist Church (1952)

Donato Gramtico de meados do sculo IV, cuja Ars Minor foi muito usada na
Idade Mdia como instrumento regular de ensino. Mesmo no sculo XV, este
ainda era um dos compndios mais comuns que podiam ser encontrados nas
novas escolas secundrias.

Dubois, Pedro (c. 1250-c. 1320) Jurista e escritor poltico francs. Estudou
em Paris e Orlans antes de voltar  sua Normandia natal, por volta de 1295,
para seguir a carreira de direito em Coutances. Por volta de 1300 apareceu
como advogado do rei na balliage local e representou a cidade nos Estados
Gerais de 1302 e 1308. Sua ambio de obter um cargo poltico em Paris, o
que no se concretizou, contribuiu para o surgimento de Dubois como
destacado panfletista poltico. Seu mais famoso tratado foi De Recuperatione
Terre Sancte (c. 1306). Sob o disfarce de conselhos quanto aos mtodos
mais apropriados para uma Cruzada, essa obra expressa as convices que
caracterizam todo o trabalho de Dubois: a de que a Coroa francesa devia
aumentar seus poderes administrativos nos interesses da paz interna, e
assumir a liderana da Europa nos interesses da paz externa.
 W.I. Brandt, The Recovery of the Holy Land (1956)

ducado (de ducatus, o ducado de Veneza) Moeda de ouro veneziana,
pesando 3,56g, cunhada pela primeira vez em 1284 e continuando inalterada
no peso, pureza e desenho at o fim da repblica veneziana em 1797. Era a
moeda de ouro dominante na rea do Mediterrneo oriental, no final da Idade
Mdia, e o nome de "ducado" foi aplicado em muitos pases da Europa a
moedas do mesmo peso e pureza.

Ducas, dinastia Famlia imperial bizantina proeminente na segunda metade
do sculo XI e que entrou em declnio com a subida ao trono em 1081 de
Aleixo I Comneno. Constantino X Ducas (1059-67) ficou devendo sua
ascenso ao partido civil em Constantinopla, reagindo contra a poltica do
imperador militar, Isaac I Comneno. Os tempos no eram favorveis para a
posse de um imperador civil, e Constantino X e seu filho Miguel VII (1071-78)
assistiram ao colapso do poder bizantino na sia Menor, causado pelas
incurses turcas. Os problemas da aristocracia civil, liderada pela famlia
Ducas, facilitaram o caminho para a ascenso da aristocracia militar depois de
1081.
 D.I. Polemis, The Doukai (1968)

DuGuesclin, Bertrand (c. 1320-80) Bravo e competente chefe militar, cujos
talentos de soldado permitiram a Carlos V mudar o rumo dos acontecimentos
para a Frana, aps as desastrosas fases iniciais da Guerra dos Cem Anos.
Breto de origem, DuGuesclin adquiriu sua reputao atravs das campanhas
na Normandia e depois na Espanha, suprimindo as Companhias Livres que
assolavam o pas e conseguindo, em ltima instncia, colocar um aliado da
Frana, Henrique de Trastamara, no trono de Castela (1369). Como
condestvel, desempenhou o principal papel na reorganizao dos exrcitos, e
apoiou a poltica judiciosa e prudente que resultou na virtual rejeio do
domnio ingls. Pelo Tratado de Bruges (1375), os ingleses ficaram apenas
com Calais e uma faixa costeira na Gasconha.
 M. Dulud, DuGuesclin (1958); P. Contamine, Guerre, tat et socit  la fn
du Moyen-Age (1972)

Duns Scotus, Joo (c. 1265-1308) Doctor subtilis, foi um filsofo e telogo
da maior importncia. Escocs de nascimento, ingressou na Ordem
Franciscana por volta de 1280, passou 13 anos em Oxford estudando teologia
(1288-1301) e solicitou sua ordenao em 1291. Morreu na posse de uma
ctedra de teologia em Colnia, tendo lecionado em Oxford, Cambridge e
Paris. O pensamento escolstico scotiano, que era mais profundo e
conservador do que inovador e excitante, estava consolidado como fora
influente, sobretudo em crculos franciscanos, em meados do sculo XIV.
 John Duns Scotus: "God and Creatures", org. por F. Alluntis e A.B. Wolter
(1975)

Dunstan, So (c. 900-88) Abade de Glastonbury e arcebispo de Canterbury.
Foi educado na abadia de Glastonbury antes de ingressar no squito de seu
tio Atelmo, arcebispo de Canterbury. Foi residir depois na corte do rei
Atelstan, de quem tambm era parente, mas seus inimigos conseguiram sua
expulso, acusando-o de estar envolvido na prtica de magia negra.
Influenciado por Elfheah, bispo de Winchester, tornou-se monge e padre,
quando ento se retirou para viver como eremita em Glastonbury.
      Em 939 foi convocado pelo sucessor de Atelstan, Edmundo. Seus
adversrios tramaram nova expulso de Dunstan da corte, mas Edmundo
protegeu-o e f-lo abade de Glastonbury, aps ter milagrosamente escapado
da morte quando caava perto de Cheddar Gorge, por volta de 943. Dunstan
serviu como conselheiro e tesoureiro de Eadred, mas foi exilado para Flandres
com a subida ao trono de Eadwig em 955. Permaneceu no mosteiro de Monte
Blandin, em Gand, onde conheceu em primeira mo o movimento de reforma
monstica no continente, at que Edgar conquistou o poder em 957 e o
chamou de volta. Foi imediatamente nomeado bispo de Worcester, tornando-
se bispo de Londres em 959 e arcebispo de Canterbury em 960. Com Edgar,
foi o mentor intelectual de uma reforma da Igreja e do Estado, a qual tinha
razes num restabelecimento do monasticismo beneditino. Em Wessex,
encorajou a propagao dos valores beneditinos que promovera em
Glastonbury, ao mesmo tempo que restaurava o mosteiro aps as invases
dinamarquesas. Tambm apoiou a obra de Ethelvold, bispo de Winchester, e
de Osvaldo, bispo de Worcester, em projetos semelhantes baseados nas
casas de Abingdon e de Westbury-on-Trym, respectivamente. Alm disso, por
volta de 970, tentou coordenar esses esforos independentes convocando um
snodo que concordou sobre a observncia monstica comum conhecida como
Regularis Concordia. Dunstan continuou sendo influente durante o reinado de
Eduardo, o Mrtir (975-78), mas entrou em eclipse poltico com a subida ao
trono de Etelred, passando ento a preocupar-se cada vez mais com os
assuntos diocesanos.
 E.S. Duckett, Saint Dunstan of Canterbury (1955); Tenth-Century Studies,
org. por D. Parsons (1975)

Durando de Saint-Pourcain (c. 1275-1334) Dominicano, bispo de Le Puy e
de Meaux,  principalmente lembrado como um dos mais acrrimos opositores
teolgicos de Toms de Aquino. Durando era um nominalista e, em certa
medida, um precursor de Ockham. Enquanto Aquino se empenhou em
reconciliar razo e f, Durando sustentou existir um contraste to profundo
entre elas que era impossvel fazer uma defesa, racional dos mistrios
ocultos. Ele tambm era claramente ctico acerca da realidade de idias
universais abstratas, insistindo no ponto de vista de que a realidade consistia
unicamente no especfico e individual. Os comentrios sobre as Sentenas de
Pedro Lombardo e o seu folheto sobre a viso beatfica das almas justas
foram muito apreciados no perodo final da Idade Mdia. Em virtude do poder
de sua personalidade como professor e da tenacidade com que debatia suas
opinies, ficaria conhecido como doctor resolutissimus.
 [P. Boehner e E. Gilson, Histria da filosofia crist, Petrpolis, Vozes, 1970]

Durando, o Velho, Guilherme (c. 1230%) Notvel intrprete de direito
Cannico, Durando -- conhecido como "Especulador" em decorrncia do ttulo
de sua obra mais conhecida, o Speculum Judiciale -- esteve ativo como
administrador nos Estados pontifcios e contribuiu grandemente para o estudo
da liturgia. Sua reviso do Pontificale Romanum e seu Rationale Divinorum
Officiorum converteram-se rapidamente em autoridades na matria. Foi eleito
bispo de Mende, no Languedoc (1285), cargo em que foi sucedido por seu
sobrinho, Guilherme Durando, o Moo (c. 1271-1330).
 A.C. Flick, The Decline of the Medieval Church (1930); L. Falletti,
"Guillaume Durand" Dictionnaire de droit canonique, vol. 5 (1953)
                                       E
Eckhart, Mestre (1260-1327) Mstico dominicano. Aristocrtico humanista
alemo educado em Paris, demonstrou ser um mestre na arte de pregar e de
ensinar, tanto em latim quanto no vernculo alemo. Seu principal centro era
Colnia, e foi a que o misticismo em seu ensino, prximo de uma
interpretao pantesta da Trindade, provocou acusaes de heresia. Foi
condenado em Colnia no ano de 1326. Apelou para o papa em Avignon, mas
faleceu antes de ser conhecida a deciso papal (condenando parte de sua
obra). Sua reputao e influncia continuaram sendo marcantes, ajudando a
criar um fundo de incerteza e inquietao teolgicas no perodo final da Idade
Mdia na Alemanha.
 J.M. Clark, The Great German Mystics (1949) [Mestre Eckhart, A mstica
do ser e de no ter, trad. L. Boff, Petrpolis, Vozes, 1983]

eclipses O conhecimento astronmico das causas de eclipses foi transmitido
na Idade Mdia por estudiosos interessados no calendrio e cronologia para
fins religiosos e litrgicos. Dungal, da Irlanda, por exemplo, t-los-ia explicado
a Carlos Magno, e existem provas de predies corretas de eclipses. No
mundo muulmano, os conhecimentos gregos foram melhor preservados e os
eclipses foram estudados cientificamente em Bagd, no sculo IX, e no Cairo,
em fins do sculo X.
      Os cronistas e historiadores medievais no Ocidente, entretanto, estavam
mais inclinados a tratar os eclipses como pressgios e, em conseqncia,
dataram s vezes de forma incorreta os acontecimentos histricos: os autores
de sagas, por exemplo, associaram a morte de Santo Olavo na batalha de
Stiklestad, perto de Trondheim, em 29 de julho de 1030, a um eclipse que no
poderia ter ocorrido at 31 de agosto. Em outras oportunidades, os cronistas
recorreram a notcias de eclipses dadas por outros cronistas ou historiadores
em regies distantes, mesmo que o fenmeno no pudesse ter sido
observado, de maneira nenhuma, na rea onde o escritor estava vivendo. No
obstante, se tratadas criticamente, as referncias servem amide como
indicaes acuradas do quadro cronolgico para eventos, e os estudos
comparativos numa base mundial tm demonstrado uma equivalncia na
observao de eclipses entre a Europa, a China e at a civilizao maia da
Amrica pr-colombiana.
 R.R. Newton, Medieval Chronides and the Rotation of the Earth (1972);
D.J. Schove, Chronology of Eclipses and Comets, AD 1-1000 (1986)

Edas Nome dado s duas principais fontes islandesas para a mitologia
escandinava. A Eda Antiga, ou Potica, contm 33 poemas, alguns dos quais
datam do sculo IX, embora a compilao fosse efetuada no sculo XIII. A
Nova Eda, ou Eda Prosaica, tambm foi organizada no sculo XIII, por Snorri
Sturluson, mas  geralmente considerada como de meados do sculo XII.
Contm o Gylfaginning, o "delrio de Gylfi", que fornece um relato sinptico
em prosa da mitologia nrdica e serviu de base para os posteriores e
populares Contos de Asgarth.
 U. Dronle, The Poetic Edda (1969); C. Clover, The Medieval Saga (1982)
[Snorri Sturluson, Textos mitologicos de las Eddas, trad. E. Bernardez, Madri,
Nacional, 1982]

Edgar, o Pacfico rei da Inglaterra 959-75 (n. 943) Um dos monarcas mais
capazes da dinastia Saxnica ocidental, Edgar  geralmente considerado o
primeiro governante de uma monarquia inglesa unificada, embora seu tio
Athelstan (924-30) tambm possa ser assim considerado. Edgar teve a sorte
de viver num perodo de relativa calmaria nos ataques escandinavos e
aproveitou a oportunidade para firmar-se no trono, apoiado nos xitos de seus
predecessores.  lembrado por seus cdigos de leis, seu vigoroso apoio ao
movimento monstico beneditino reformado e por sua solene coroao em
Bath, em 973, quando todo o repertrio de pompa e ritual eclesisticos foi
explorado pelo arcebispo Dunstan para incutir um acrscimo de vitalidade ao
reino cristo de uma Inglaterra unida.
edito Breve instruo escrita publicada em nome do rei em execuo de sua
vontade. Os editos (writs) anglo-saxnicos ainda existentes notificam
geralmente as concesses de terras ou de direitos sobre a terra, e depois de
cerca de 1070, tais documentos eram usualmente redigidos em latim. Todos
recebiam selos e protocolos que indicavam o remetente e os destinatrios, e
incluam uma saudao. Essa forma bsica desenvolveu-se depois numa
grande variedade de cartas e editos, tanto em francs quanto em latim, que
constituam os instrumentos executivos correntes da administrao inglesa
medieval. Breves instrues escritas, de um modelo semelhante, eram
tambm promulgadas por outros governantes medievais, incluindo os reis da
Frana e da Alemanha.
 F.E. Harmer, Anglo-Saxon Writs (1952); R.C. van Caenegem, Royal Writs
In England from the Conquest to Glanvill (1959)

Edito de Ouro (1356) Acordado entre Carlos IV e os prncipes alemes,  um
importante documento constitucional que reconhece e codifica a estrutura
federal para o governo que se desenvolvera na Alemanha. Prescreveu os
procedimentos para a eleio e a coroao do imperador e enfatizou a
preeminncia dos sete eleitores, alm de atender  aceitao implcita da
autonomia dos prncipes.
 B. Jarrett, The Emperor Charles IV (1935)

Edmundo, o Mrtir Santo rei da nglia Oriental c. 855-69 (n. 841) Derrotado
pelos dinamarqueses em Hoxne ou seus arredores, no Suffolk, Edmundo foi
aprisionado e martirizado em 20 de novembro de 869. Detalhes de sua morte
foram vivamente preservados na lenda: ele teria sido torturado, crivado de
flechas at morrer e depois decapitado. Alguns relatos dizem que ele foi
sepultado primeiro numa igreja de madeira em Hellesdon, em Norfolk, e
depois inumado de novo em Beadoricesworth, mais tarde Bury St. Edmunds.
Certamente a emisso de uma moeda no nome do santo em fins do sculo IX
indica o rpido e, na verdade, espetacular crescimento do culto em torno da
pessoa do rei morto. Sua morte foi atribuda a uma inabalvel recusa em
renunciar  f crist, e  como mrtir cristo que passou a ser lembrado tanto
na Inglaterra quanto no norte escandinavo. Mais tarde, Bury St. Edmunds
converteu-se num importante centro de peregrinao popular na Idade Mdia
central.
 D. Whitelock, "Fact and Fiction in the legend of St. Edmund", Proceedings of
the Suffolk Institute of Architecture (1969)

Eduardo I rei da Inglaterra 1272-1307 (n. 1239) Um dos mais poderosos reis
ingleses da Idade Mdia, Eduardo foi responsvel por realizaes
permanentes tanto no campo poltico quanto constitucional. Suas conquistas
no Pas de Gales foram estabilizadas pela imposio do Estatuto de Rhuddlan
(1284) e fisicamente asseguradas pela construo de uma rede de grandes
castelos (em especial Caernarvon, Harlech, Conway e Beaumaris), a partir
dos quais governadores militares mantinham a paz em todo o territrio at
Gwynedd, o corao da independncia galesa. As tentativas para impor uma
autoridade semelhante  Esccia pareciam estar perto do xito na dcada de
1290, mas acabaram fracassando em conseqncia das revoltas de William
Wallace e de Robert Bruce. Internamente, Eduardo teve um rduo
aprendizado como jovem, o Lorde Eduardo, na Guerra dos Bares, at surgir
finalmente como um lder vitorioso na luta contra Simo de Montfort. Estava
em uma Cruzada, ausente da Inglaterra, quando seu pai, Henrique III, morreu;
mas a reputao e o prestgio de Eduardo eram to elevados que no houve
qualquer oposio  sua subida ao trono.
       mencionado algumas vezes como o Justiniano ingls pelo trabalho de
reorganizao do seu Estado feudal, nos nveis central e local. Os mais
importantes textos legislativos promulgados durante o seu reinado foram os
Estatutos de Westminster (1275 e 1285), o Estatuto de Gloucester (1278) e
os Estatutos Quo Warranto e Quia Emptores (ambos de 1290). Apoiando-se
em precedentes, com destaque para os de Montfort em 1264 e 1265,
Eduardo convocou sistematicamente os representantes de comunidades
locais, cavaleiros dos condados e burgueses das cidades, para assemblias
centrais, e assim promoveu e estimulou a noo de uma comunidade mais
refinada do reino. Por exemplo, em novembro de 1295, baseado na idia de
que aquilo que afetava a todos devia ser justamente aprovado por todos, o
monarca ordenou a seus condes, bares, prelados e tambm cavaleiros
selecionados de cada condado, burgueses e representantes do clero inferior,
que comparecessem ao que os historiadores viriam mais tarde a descrever
como um "modelo" de Parlamento.
       Com a morte de sua esposa, Leonor de Castela, em 1290, Eduardo
mandou construir as chamadas grandes cruzes de Leonor, algumas ainda
existentes, para assinalar a passagem de seu corpo desde Harby, no
Lincolnshire, at a abadia de Westminster. Apesar de suas grandes
realizaes e, em certa medida, por causa dos grandes gastos que elas
acarretaram, o reino sofreu crises financeiras peridicas. Deixou uma herana
difcil para seu filho, Eduardo II, cujo reinado desastroso (1307-27) conheceu
a derrota militar na Esccia (Bannockburn, 1314), bem como conflitos de
natureza constitucional implacveis e, em ltima instncia, fatais.
 F.M. Powicke, King Henry III and the Lord Edward (1947); The Thirteenth
Century 1216-1307 (1953); M.C. Prestwich, War, Politics and Finance under
Edward I (1972)

Eduardo III rei da Inglaterra 1327-77 (n. 1312) Filho de Eduardo II e de Isabel
(filha do rei Filipe IV da Frana e apelidada "a loba francesa"). Em 1328,
Eduardo casou com Filipa, filha do conde de Hainault, e com ela teve 12 filhos,
incluindo Eduardo (o Prncipe Negro), Joo de Gaunt, duque de Lancaster, e
Edmundo de Langley, duque de York. Eduardo III conduziu a Inglaterra ao
auge na Guerra dos Cem Anos com a Frana, embora seus ltimos anos
fossem toldados pela recuperao francesa e por sua prpria falta de sade.
Uma vitria naval em Sluys (1340) colocou-o em situao de ditar condies.
O Prncipe Negro comandou o exrcito em Poitiers, aprisionando o rei francs
Joo II.
       Socialmente, o reinado de Eduardo destacou-se pelo crescimento dos
ideais de cavalaria; a Ordem da Jarreteira foi instituda em 1348, resultando
no refinamento dos conceitos de conduta cavalheiresca e no progresso da
cincia da herldica. Dificuldades financeiras acumularam-se nas ltimas
dcadas de sua vida, provocadas em parte pela desarticulao social e
econmica resultante da Peste Negra e repetidas epidemias, e em parte pelos
gastos da guerra com a Frana, a qual se renovara com vantagem francesa
sob o comando de Carlos V (1365-80) e DuGuesclin. O Parlamento ficou mais
desenvolvido e poderoso; a diviso entre lordes e comuns tornou-se mais
ntida, quando aumentaram as necessidades financeiras do rei. A morte do
velho rei logo em seguida  de seu primognito, o Prncipe Negro, redundou
num lamento geral em face da perda de "duas nobres figuras de to alta
estirpe"; e uma difcil herana foi transmitida a seu jovem neto, Ricardo II.

Eduardo, o Confessor, Santo rei da Inglaterra 1042-66 (n. 1003) Filho do rei
Etelred II e de sua esposa normanda Ema, filha do duque Ricardo II da
Normandia, Eduardo passou sua juventude em exlio na Normandia, mas foi
chamado de volta  Inglaterra em 1041, e sucedeu a seu meio-irmo
Harthecnut no trono, no ano seguinte. Num perodo de grande turbulncia
poltica, Eduardo manteve seu reino em relativa paz, embora tivesse que
confiar na capacidade militar do conde Godwin de Wessex (m. 1053) e de
seus filhos, especialmente Haroldo, que lhe sucedeu no trono em janeiro de
1066. Eduardo levou alguns normandos consigo para a Inglaterra, e manteve-
se em contato com o ducado; os apologistas normandos asseveraram que o
duque Guilherme j estava por ele designado seu sucessor desde 1051. A
devoo de Eduardo era imensa e consumiu boa parte de suas energias na
construo da abadia de Westminster. Foi canonizado em 1161. [366]
 F. Barlow, Edward the Confessor (1966)

educao Em comparao at com as fases iniciais do perodo moderno, a
educao na Idade Mdia foi um luxo sempre reservado  minoria; estava
principalmente organizada para benefcio do sexo masculino e, na medida em
que era acessvel ao leigo, o mais provvel  que fosse solicitada, na grande
maioria dos casos, por aqueles que precisavam adquirir algum conhecimento
no governo, na administrao ou no comrcio, e por aqueles que podiam se
permitir dedicar-lhe seu tempo e seus recursos materiais. Na prtica, isso
significou, na maior parte da Idade Mdia, demanda aristocrtica ou urbana.
       Mesmo onde se realizaram esforos no sentido de manter baixos os
custos do estudo ou de subsidiar o acesso do pobre, as oportunidades de um
indivduo adquirir educao formal dependiam da facilidade de acesso  sua
oferta. Ao longo da Idade Mdia, era a Igreja que ministrava a educao. Os
mosteiros, que tinham empunhado o facho da sabedoria e da erudio atravs
da Era das Trevas, as catedrais e, gradualmente, as escolas paroquiais,
formaram uma rede que as autoridades tinham tentado manter durante
sculos com xito muito limitado. Na Alta Idade Mdia, esse sistema
desabrochou plenamente, recebendo seu estmulo do espetacular crescimento
das escolas das catedrais no norte da Frana, o lar da Renascena do sculo
XII, do ponto de vista acadmico. O desenvolvimento registrado nos sculos
XI e XII foi duradouro, recebendo novos estmulos com o surgimento formal e
autnomo de universidades a partir do ltimo quartel do sculo XII e
prolongando-se por todo o sculo XIII; com o aumento das Ordens
Mendicantes, que atribuam nfase especial  aprendizagem e ao ensino, e,
finalmente, com a proliferao, j em fins da Idade Mdia, de escolas
resultantes de doaes particulares.
     Seria errneo supor, entretanto, que a Igreja tinha monoplio sobre a
educao. No sculo XIII, muitas cidades, sobretudo na Itlia, estavam
tomando a iniciativa de contratar professores para ensinar em vrios nveis; e
h provas evidentes de um surpreendente aumento da alfabetizao em
algumas dessas cidades. Deve-se somar a isso as escolas palacianas (sendo
um dos seus primeiros e mais clebres exemplos a escola do palcio de
Carlos Magno) e familiares, as quais poderiam ter eclesisticos como
mestres-escolas mas eram independentemente criadas e dirigidas. De
qualquer modo, a escolaridade era apenas um aspecto da educao, que
poderia tambm assumir a forma de treinamento e aprendizado (um papel vital
foi desempenhado pelas guildas ou corporaes no fornecimento de uma
vasta gama de qualificaes artesanais e profissionais), ou de ensino
particular, informal e mesmo autodidata.
      Havia grande divergncia entre teoria e prtica na estrutura da educao
formal. As disciplinas estavam divididas, em termos nocionais, nas sete artes
liberais: gramtica, retrica e dialtica (o Trivium), aritmtica, geometria,
astronomia e msica (o Quadrivium), e as matrias de nvel superior, que
eram a teologia, o direito e a medicina. Mas, enquanto a diviso das matrias
de ensino superior estava estritamente refletida na organizao da
universidade, pelo menos at o final da Idade Mdia, no nvel inferior, no se
tratava na realidade de um programa de estudo mas de uma estrutura
conceitual indefinida, no mbito da qual havia grande liberdade de variao de
nfase e de desenvolvimento. Os professores podiam selecionar e dar maior
destaque s matrias de seu prprio interesse, ou discutir aqueles tpicos e
textos que consideravam mais importantes para a sua poca. Finalmente,
alguns, como Hugo de Saint-Victor, propuseram classificaes alternativas, se
bem que estas continuassem sendo tambm modelos de teoria pedaggica,
muito mais do que causa para uma revoluo no que era realmente ensinado.
Na prtica, o modelo de programa de estudo mostra grande consistncia, pelo
menos no que se refere  educao bsica. No nvel elementar, as crianas
eram ensinadas a ler, e depois a escrever, cantar e realizar algum computus
bsico (essencial para o clculo do calendrio cristo). Desde cedo, o saltrio
figurou com destaque; os salmos podiam ser aprendidos de cor, sem grande
compreenso da lngua latina.
      O nvel seguinte centrava-se no latim, passaporte para o mundo cultural
srio, para todas as profisses e para uma compreenso mais profunda da
Bblia e dos ritos e doutrinas da Igreja. Aos textos bsicos legados pelo
perodo final da Antigidade, como Ars Minor, de Donato (um breve tratado
que descreve as oito partes do discurso), a Gramtica de Prisciano, as
Fbulas de Esopo, e os Dsticos de Cato (uma coleo de aforismos), foram
gradualmente adicionadas as reformulaes ou reinterpretaes do mesmo
material pelos mestres medievais, por vezes mais auxiliares de ensino do que
novos textos: a Gramtica de Elfric (sculo X), Doctrinale de Alexandre de
Villedieu (c. 1200), Graecismus de Evrard de Bthune (sculo XIII). As
escolas de gramtica, como se subentende, ensinavam mais do que uma
segunda lngua internacional; elas treinavam os estudantes na anlise e uso da
linguagem (gramtica, retrica, dialtica, lgica), e esse treinamento, por sua
vez, transformava-se gradualmente naqueles ramos da filosofia que, em ltima
instncia, preparavam o estudante para os assuntos mais elevados, de
natureza universitria. Os elementos do Quadrivium, os quais tambm
poderiam, sem dvida, ser ensinados em escolas de nvel mdio, ou escolas
de gramtica, tornaram-se freqentemente o foco de um tipo diferente de
escola, conhecida em sua forma mais humilde como uma escola de "baco",
muito prxima de uma escola de comrcio na gama de qualificaes a
ensinadas (por exemplo, qualificaes notariais e dictamen, a arte de
escrever cartas).
       Embora variassem no tipo e no programa de estudos, as escolas
medievais possuam algumas caractersticas essenciais em comum. Na maior
parte da Europa, os escolares tinham status clerical (apesar de, no final desse
perodo, isso no significar muito); assim, eles estavam submetidos 
jurisdio eclesistica e eram alvo dos ideais e restries morais da Igreja. A
vida na escola era severa: a punio corporal era parte integrante da
educao e o dia escolar era longo e extenuante, embora a folga e o repouso
fossem proporcionados, em parte, pelo calendrio religioso e, sem dvida, por
tendncias dos prprios estudantes.
      Talvez o contraste mais fundamental com os sistemas educacionais
modernos se relacione ao mtodo de aprendizagem. Na aula, os textos eram
usados sobretudo pelos professores; a raridade e o custo dos livros
colocavam-nos fora do alcance da maioria dos alunos, muitos dos quais eram
afortunados por possuir um saltrio, tradicionalmente o primeiro livro dado a
uma criana. A sala de aula medieval refletia a natureza preponderantemente
oral da cultura medieval, com o professor lendo e explicando o texto, e o
estudante absorvendo-o e confiando-o  memria; a capacidade da memria
estava altamente desenvolvida na Idade Mdia. Essa nfase na transmisso
oral impregnou todos os nveis de educao e afetou o mtodo de estudo e
exerccio (por exemplo, o debate e o dilogo), a estrutura dos compndios e
at mesmo as atitudes para com os auctores estudados. Ver artes liberais;
universidades
 N. Orme, English Schools in the Middle Ages (1973); J. Bowen, A History
of Western Education, vol. 2 (1975); A. Piltz, The World of Learning (1981)
[P. Rich, Education et Culture dans l'Occident barbare, Paris, Seuil, 3? ed.,
1962; R.A. Costa Nunes, Histria da Educao na Idade Mdia, S. Paulo,
EPU-EDUSP, 1979]

feso, Conclio de (431) Terceiro conclio ecumnico da Igreja, qualificado
depreciativamente pelo grande historiador Gibbon como um "tumulto de
bispos". Foi convocado para decidir o ponto de vista ortodoxo em matrias
referentes  pessoa e natureza de Cristo. O influente sacerdote e telogo
Nestrio, patriarca de Constantinopla (429-31), pregava idias que pareciam
levar  concluso de que Cristo possua no uma mas duas pessoas -- uma
humana e uma divina. Em 431, Cirilo de Alexandria, o legado papal, iniciou
imprudentemente o Conclio na ausncia do clero da parte oriental do Imprio,
e sua assemblia condenou Nestrio. Quando o clero oriental chegou,
decidiram instalar um conclio paralelo, sob a direo de Joo de Antioquia.
Seguiram-se recriminaes, condenaes e excomunhes mtuas, antes que
o imperador Teodsio interviesse e mandasse os prelados de volta.
      Em 433, Joo de Antioquia e Cirilo de Alexandria chegaram a um acordo
sobre a questo central: Cristo teria duas naturezas distintas, unidas e
atribudas a uma s pessoa. O papa Sisto III confirmou as disposies do
conclio de Cirilo, o qual tinha promulgado um decreto proibindo qualquer outra
frmula de f exceto a do Credo de Nicia. Essa formulao iria ter
considerveis conseqncias para a atividade conciliar posterior, reforada
pela sobrevivncia da Acta Conciliar de feso.
 P.T. Camelot, Histoire des Conciles Oecumniques, vol. 2 (1962)

Eginhard (c. 770-840) Intelectual e funcionrio da corte franca, clebre por
sua biografia de Carlos Magno, seu amigo e senhor. Foi educado na Escola
de Fulda, ingressando na corte real em torno de 793 e alcanando uma
importante posio na escola do palcio de Aix-la-Chapelle. Tornou-se um
ntimo e leal amigo de Carlos Magno e de seu sucessor, Lus I, e permaneceu
no servio pblico at por volta de 830, quando se retirou para as
propriedades que Lus lhe tinha doado em Michelstadt e Mhlheim
(Seligenstadt).
 Eginhard, La Vie de Charlemagne, org. por L. Halphen (1923); A.
Kleindausz, Eginhard (1942)

Egito No comeo da Idade Mdia, o Egito era uma prspera provncia do
Imprio Bizantino e sua principal cidade era Alexandria -- sede de um
patriarcado e um dos mais importantes centros culturais do mundo helnico. O
crescente descontentamento poltico e religioso com Constantinopla por parte
dos egpcios, sendo a heresia monofisista popular entre eles, facilitou a
conquista muulmana na dcada de 630, e durante o resto do perodo o Egito
foi parte integrante do mundo muulmano, s vezes submetido  autoridade de
Bagd ou Damasco, porm na maioria das vezes virtual ou completamente
independente.
      Nos primeiros sculos, graas a Alexandria, o Egito tornou-se uma das
principais regies atravs da qual a sabedoria grega, filosfica e cientfica,
era transmitida (por traduo) ao mundo rabe. Os xitos polticos dos
fatmidas na segunda metade do sculo X, e a fundao de uma nova cidade
no Cairo, colocaram o Egito numa posio central no mundo muulmano xiita.
      Os xitos turcos, seguidos do estabelecimento de principados cruzados
na Palestina, levaram a um perodo de declnio, e somente com as vitrias de
Saladino, que uniu a Sria e o Egito em 1174,  que sua importncia foi
recuperada. No sculo XIII, os esforos dos cruzados foram dirigidos contra o
Egito, de um modo geral sem sucesso, em Damietta em 1219 e, novamente
em 1250, sob o comando de So Lus. Internamente, as prementes
necessidades militares do Egito resultaram no surgimento dos mamelucos,
elementos militares contratados que preservaram o controle poltico at o
sculo XVI.
 S. Lane-Poole, A History of Egypt in the Middle Ages (1901); P. Hitti,
History of the Arabs (1951)

Ekkehard (910-71) Monge de Saint Gall e um dos mais engenhosos poetas
latinos de seu tempo, Ekkehard  sobretudo lembrado por seu papel na
transmisso da histria pica de Waltharius para a tradio ocidental. Lendas
poticas germnicas referentes  Aquitnia, Borgonha e corte do rei tila, no
sculo V, haviam sido reunidas num poema pico que Ekkehard traduziu do
alemo para hexmetros latinos, segundo o estilo de Virglio.
 Waltharius, org. por K. Strecker (1907) [Cantar de Valtario, trad. L.A.
Cuenca, Madri, Siruela, 1987]

Elfric (955-1020) Abade de Eynsham, reformador monstico e gramtico
ingls. Elfric devia seu mpeto reformador  educao que recebeu em
Winchester sob a direo do bispo Ethelvold, defensor da reforma da vida
monstica. Em 981, foi enviado a Cerne, no Dorset, a fim de supervisionar a
escola monstica e em 1005 foi nomeado abade de Eynsham. Suas principais
obras, que constituem uma contribuio de extrema importncia para o ltimo
perodo da literatura anglo-saxnica, incluem uma coleo de homlias, uma
verso mtrica das Vidas dos santos e uma gramtica latina.
 M. McGatch, Preaching and Theology in Anglo-Saxon England: Aelfric and
Wulfstan (1977)

Ema, senhora de Winchester (m. 1051) Esposa do rei Etelred II e depois de
Canuto, Ema foi, durante toda a sua vida, uma figura influente na poltica
inglesa. Era filha do duque normando Ricardo II e por isso acostumou a corte
inglesa aos hbitos normandos. Aps um perodo de exlio por ordem dos
filhos de Canuto, Ema voltou sob o governo de seu prprio filho, Eduardo, o
Confessor, mas acumulou tanta riqueza e poder durante os primeiros anos do
reinado dele, que Eduardo se viu forado a tomar medidas contra ela,
confiscando-lhe o tesouro e mantendo-a mais ou menos confinada em
Winchester, onde morreu.


Errio Pblico na Inglaterra (Exchequer) Em conseqncia da Conquista
Normanda, a administrao financeira da Inglaterra tornou-se mais rigorosa e
mais eficiente. Nos primeiros anos do reinado de Henrique I (1100-35), foi
dada nova forma institucional aos servios financeiros centrais, o que resultou
na criao do Exchequer, assim chamado por causa do padro em xadrez do
pano usado para cobrir a mesa onde eram prestadas as contas. Em essncia,
a novidade do Exchequer, em contraste com o Tesouro, consistia em sua
eficincia como agncia contbil, sua autoridade como tribunal de contas e
sua capacidade como arquivo de documentos. Os Arquivos do Errio (Rolls of
the Exchequer) do perodo 1120-1130 ainda existem e so contnuos a partir
de 1150. Um detalhado registro dos procedimentos adotados, Dialogue of the
Exchequer, de Richard FitzNigel, foi escrito na dcada de 1170, poca em
que o Exchequer j contava com uma sede permanente em Westminster e
apenas algumas sesses eram realizadas ocasionalmente em outros lugares.

     A finalidade primordial do Exchequer era examinar duas vezes por ano
as dvidas e os tributos devidos ao rei, e conferir as contas do xerife, a
principal autoridade administrativa do condado. Tornou-se uma das mais
eficientes reparties financeiras da Europa e teve grande influncia sobre a
organizao da Normandia. Havia tambm fortes contatos com a Siclia
normanda, onde Thomas Brown atuou como juiz e oficial de finanas (1143-
58), antes de regressar  Inglaterra para tornar-se uma figura-chave no
Exchequer nas dcadas de 1160 e 1170.
      O Exchequer passou por uma srie de reformas em 1236-42; foi
introduzido um novo sistema de contagem para simplificar as contas dos
xerifes, e ocorreram especializaes com o uso de novos procedimentos
contbeis para confiscos e contas estrangeiras. Essas medidas reduziram a
carga de trabalho dos xerifes. Estatutos promulgados em 1270 e 1284
desenvolveram esses processos, e as reformas de 1223-1226 institudas pelo
bispo Stepledon os aprimoraram ainda mais, simplificando simultaneamente a
cobrana de dvidas. Poucas mudanas substanciais ocorreram antes da
Reforma.   O Exchequer forneceu o modelo burocrtico para outros
departamentos; um Exchequer subsidirio existia para a Normandia em 1130,
e esses departamentos, com o tempo, acompanharam o Exchequer na
adoo de uma localizao fixa, abandonando seu carter itinerante. Ver pipe
rolls; Roger de Salisbury
 R.L. Poole, The Exchequer in the Twelfth Century (1912); C. Johnson,
Dialogus de Scaccario (1950); G.L. Harris, King, Parliament and Public
Finance in Medieval England (1975)

ervas, tratados sobre Alguns dos mais belos manuscritos que chegaram at
ns da Idade Mdia so tratados ilustrados sobre as propriedades de ervas
(isto , plantas teis, largamente usadas para fins medicinais). As
informaes, e tambm muito material lendrio acerca de plantas como a
mandrgora, derivam de fontes clssicas, especialmente de Plnio e de seu
contemporneo Dioscrides, no sculo I de nossa era, e do escritor do sculo
IV, Apuleius Platonicus. At a mais humilde das plantas era exaltada quanto s
suas infalveis virtudes.
 W. Blunt e S. Raphael, The Illustrated Herbal (1979)

Esccia Havia quatro grupos culturais distintos na Esccia no incio da Idade
Mdia -- irlandeses, pictos, bretes e anglos -- e um quinto, os
escandinavos, do final do sculo VIII em diante. Cada grupo tinha sua lngua
prpria. Os irlandeses (conhecidos como escotos) habitavam as terras
costeiras a oeste, mantendo inicialmente estreitas relaes com a Irlanda do
Norte. Durante o sculo VI, os reis de Dl Riata saram de sua metrpole
irlandesa para instalar-se em Argyll, na costa oeste escocesa, a fundando
uma dinastia que durou sculos. Na Esccia oriental, ao norte do rio Forth, e
no extremo norte, estavam os pictos, o mais forte grupo no perodo Pr-
Viking. Ao sul da linha Forth/Clyde e na rea do rio Clyde, havia povos e
reinos britnicos, enquanto que os governantes ingleses tinham estabelecido
uma posio segura na costa leste em meados do sculo VI. As relaes
entre esses povos flutuavam, mas a longo prazo os ingleses ficaram
confinados na Nortmbria; a influncia irlandesa expandiu-se, a identidade
pctica submergiu e os bretes perderam, em ltima instncia, a
independncia poltica.
      Durante o sculo VII, reis ingleses e irlandeses promoveram incurses
numa vasta rea, com os ingleses obtendo considervel controle nas terras
dos pictos. foram, entretanto, derrotados em Dunnichen em 685 e, embora
efetivamente expulsos depois disso do que  a Esccia atual, mantiveram
contatos em assuntos religiosos, com os reis pcticos, como Nechtan (706-
24), solicitando conselhos ao clero ingls, em detrimento dos clrigos
irlandeses situados a oeste.
      No sculo VIII, famlias reais irlandesas e pcticas ligaram-se por
casamento, resultando em herdeiros que tinham pretenses tanto a reinos
pcticos quanto irlandeses; reis como Constantino e seu irmo Oengus II, no
incio do sculo IX, governaram, portanto, ambos os reinos. Nesse meio
tempo, a colonizao viking estava mudando o carter do norte e das ilhas
setentrionais e ocidentais, e o controle viking dos mares estava confinando os
interesses dos irlandeses da Esccia  prpria Esccia. Logo um rei irlands,
Kenneth MacAlpin, voltou a governar ambos os reinos (843).
      A unio dos pictos ao reino irlands no se desfez da em diante e uma
sucesso patrilinear foi estabelecida. Tinha surgido assim a monarquia da
Esccia, apoiando-se em tradies e instituies de ambos os pases. Os
reinos britnicos a sudoeste foram efetivamente absorvidos no recm-
estabelecido reino da Esccia em fins do sculo IX, embora reis de
Strathclyde continuassem sendo mencionados at 1034. Depois de 954 e da
conquista do reino viking de York, o condado de Nortmbria tornou-se parte
integrante da Coroa inglesa, embora sua fronteira setentrional permanecesse
indefinida. Lotiana passou para o firme controle escocs depois de 1018
aproximadamente.
     O impacto da conquista normanda da Inglaterra sobre os assuntos
escoceses provou ser profundo e permanente. Expedies anglo-normandas
assolaram a Lotiana, e pedidos de vassalagem de reis escoceses foram
apresentados, s vezes com xito. O rei Malcolm Canmore (1057-93) casou
com Margaret, irm de Edgar Atheling e representante da dinastia Saxnica
ocidental. Seus filhos governaram a Esccia em 1097-1153, seguindo-se-lhes
uma srie de poderosos reis (Malcolm IV, 1153-65; Guilherme I, o Leo,
1165-1214; Alexandre II, 1214-49; e Alexandre III, 1249-86). Eles
estruturaram o reino escocs nos moldes de uma verdadeira monarquia
feudal. Seus contatos com o mundo feudal anglo-normando foram fortes,
como magnatas na Inglaterra (o grande Senhorio de Huntington) e como
recrutadores de homens capazes, por vezes os filhos mais moos, dispostos
a ajudar os monarcas escoceses em troca de rendosos feudos ao norte da
fronteira; os Stuarts foram a maior das famlias a adquirir proeminncia desse
modo, mas outras, como os Bruce, Balliol, Morville e Mowat, tambm
prosperaram.
      As pretenses de suserania por parte dos reis ingleses persistiram, se
bem que, a partir de 1189, os prprios governantes escoceses considerassem
seu preito de vassalagem dirigido exclusivamente para seus senhores ingleses
e no tivesse a menor relao com o reino da Esccia. Dentro da Esccia, a
dinastia obteve considervel xito na consolidao de seus territrios; as Ilhas
Ocidentais foram submetidas ao seu controle poltico, aps a derrota do rei
noruegus na batalha de Largs (1263).
     As relaes com a Inglaterra atingiram um ponto crtico em 1290 com a
disputada sucesso que se seguiu  morte da rainha Margarida, a Donzela da
Noruega, ltimo descendente da linha direta de Malcolm Canmore. Havia
muitos pretendentes, e o poder de definio acabou ficando nas mos de
Eduardo I, o rei ingls. Ele escolheu Balliol (1292-96), mas a questo passava
a ser agora a da total independncia para a Esccia, uma vez que Eduardo
(com seus xitos galeses em mente) tentava fazer de sua suserania uma
realidade concreta. A fraqueza e o fracasso de Balliol, as revoltas de William
Wallace e o surgimento de Roberto Bruce (neto de um dos mais destacados
pretendentes de 1290) frustraram os planos de Eduardo, que morreu
desapontado em 1307. A grande vitria em Bannockburn (24 de junho de
1314), na qual Bruce derrotou as foras de Eduardo II, confirmou a
independncia escocesa. Os ataques ingleses foram renovados aps a morte
de Bruce em 1329, mas toda a questo das relaes anglo-escocesas se
complicaria com a Guerra dos Cem Anos e o crescimento de "Auld Alliance"
entre Esccia e Frana contra a Inglaterra.
      Em 1371, Roberto II, neto de Roberto I por sua filha Marjory, sucedeu
ao trono escocs como o primeiro representante real da casa de Stuart.
Apesar de grandes problemas pessoais e dinsticos, os Stuarts mantiveram-
se firmes no trono, e uma retomada geral da prosperidade, conjugada com o
xito da Frana na guerra contra a Inglaterra, fez da segunda metade do
sculo XV algo como uma idade de ouro na histria escocesa, sobretudo no
reinado de Jaime IV (1488-1513). Fundaram-se universidades em St. Andrews
(1414), Glasgow (1451) e Aberdeen (1495). A vida literria floresceu
(Henryson, c. 1430-1506; Dunbar, C.1460-C. 1520). Nem mesmo o desastre
militar de Flodden em 1513 pde esconder o permanente avano realizado em
direo  nacionalidade escocesa nos ltimos sculos da Idade Mdia. Ver
clticas, Igrejas; pictos
 G.W.S. Barrow, The Kingdom of the Scots (1973); R. Nicholson, Scotland:
The Later Middle Ages (1974); A.A.M. Duncan, Scotland, The Making of the
Kingdom (1975)

escolstica Inicialmente, no sculo XVI, o termo era usado de forma
depreciativa, em relao ao sistema de filosofia praticado nas escolas e
universidades medievais. Os escolsticos procuraram dar sustentao terica
 verdade da doutrina crist, assim como reconciliar pontos de vista
contraditrios na teologia crist; e, para esse fim, desenvolveram um mtodo
extremamente requintado de investigao das questes filosficas e tericas.
Na histria inicial da escolstica, muito material teolgico foi organizado de
forma sistemtica. No sculo XII, os escolsticos estavam coligindo
Sentenas, que eram citaes ou sumrios de dogmas compilados da Bblia e
da literatura patrstica; ao interpret-los (expositio, catena, lectio), eles
adotaram gradualmente uma discusso sistemtica de textos e problemas
(quaestio, disputatio). Isso deu finalmente lugar a um sistema que tentou
oferecer uma viso abrangente da "toda a verdade atingvel" (summa), um
desenvolvimento que coincidiu com uma clara progresso no sentido da
autonomia intelectual, com pensadores da envergadura de Alberto Magno e
Toms de Aquino.
     Os escritos sobre lgica tiveram um importante efeito sobre a
escolstica; por volta de 1200, a "nova lgica" de Aristteles, baseada em
tradues de seus Analticos, Tpicos e Refutaes Silogsticas, tinha
produzido uma teologia "cientfica" em contraste com os escritos bblicos do
sculo XII. Toms de Aquino, por exemplo, acreditava que s a razo era
necessria para entender verdades bsicas acerca de Deus e da alma,
embora a revelao divina ampliasse tal conhecimento. A nfase atribuda 
razo foi rejeitada em certa medida no sculo XIV, por homens como
Guilherme de Ockham e Joo Duns Scotus.
 J. Pieper, Scholasticism (1961); A. Piltz, The World of Medieval Learning
(1981)

escravido No comeo da Idade Mdia, a escravido estava generalizada em
todo o mundo europeu, instituio herdada tanto de fontes clssicas quanto
germnicas. A atitude da Igreja crist foi ambivalente, opondo-se  venda de
escravos cristos a no-cristos, mas propensa a aceitar a prpria escravido
como conseqncia da natureza pecaminosa do homem. As tentativas de
melhoria legal foram poucas; houve uma certa tendncia no sentido do
reconhecimento do casamento cristo e da concesso de direitos limitados,
como possuir pequenas somas de dinheiro e at adquirir terra. A natureza do
trabalho era ditada pela vontade do senhor e havia pouca ou nenhuma
reparao contra a sua autoridade arbitrria.
     Com a evoluo de uma economia dominial a partir do sculo VIII, surgiu
uma elaborada gradao de liberdade e no-liberdade, a qual tornou todas as
generalizaes, na melhor das hipteses, conjeturais e, na pior, positivamente
enganadoras. Os senhores mostraram-se inclinados a considerar mais
lucrativo utilizar camponeses, melhor descritos em termos modernos como
servos, do que escravos: quer dizer, homens que possuam alguns lotes de
terra que usavam para manter-se a si mesmos e s suas famlias, mas
vinculados  gleba, s disciplinas do domnio senhorial, e responsveis pelo
cultivo exaustivo das terras do senhor. A escravido como posse de um bem
mvel persistiu, e em algumas reas da Europa foi renovada no sculo XII
pelo direito romano. A presena do mundo muulmano e, na verdade, do
mundo bizantino com sua contnua herana clssica, preservou a teoria do
servus como um homem virtualmente desprovido de direitos em face do seu
senhor.
      No Ocidente, um momento crtico nas atitudes em relao  escravido
foi meados do sculo XI, o final da Era Viking. Os vikings tinham sido grandes
traficantes de escravos; suas depredaes no mundo eslavo e a venda de
eslavos em mercados de escravos ajudaram a dar ao mundo ocidental o
termo "slave" [em ingls, slav (eslavo) e slave (escravo) so vocbulos quase
homfonos e homgrafos NT]. A Inglaterra fornece um exemplo claro, e seus
registros mostram como as elaboradas distines legais entre os camponeses
ao tempo do Domesday Book (1086) evoluram no sculo XIII para uma
situao mais uniforme do campesinato. No sculo XI, as duas principais
marcas distintivas de um homem livre, o direito de portar armas e o direito de
testemunhar sob juramento em tribunais pblicos, ainda eram poderosas, mas
ambas diminuram de significao na fortemente regulamentada sociedade
feudal da Idade Mdia central. No  por coincidncia que, no mesmo
perodo, a escravizao de cristos por outros cristos (em 1100 a grande
maioria dos povos escandinavos e eslavos tinha sido cristianizada) tenha
passado a ser cada vez mais considerada no-tica, no-lucrativa e
desnecessria.         HRL

 Slavery and Serfdom in the Middle Ages: Selected Papers by M. Bloch,
trad. e org. por W.R. Beck (1975); H.R. Loyn, The Free-Anglo Saxon (1975);
The Transition from Feudalism to Capitalism, org. por R.H. Hilton (1976)

escudo (cu) Nome dado a uma moeda de ouro francesa mandada cunhar
por So Lus em 1266, apresentando um escudo como seu emblema,
posteriormente aplicado a muitas moedas (sobretudo francesas). Seu peso
variava entre 4 e 5 gramas, sendo de contextura delgada e compacta. As
moedas eram usualmente identificadas com algum epteto descritivo, por
exemplo, cu  la chaise, com o rei sentado, ou cu  la couronne, com um
escudo coroado. Como este ltimo foi o tipo mais comum de 1380 em diante,
a moeda ficou conhecida na Inglaterra como "crown" (coroa).

escultura Os exteriores das primeiras igrejas crists so simples, o que pode
gerar a falsa impresso de que a escultura no desempenhou qualquer papel
na arte crist da poca. Isso, porm, est longe de ser verdade, pois mesmo
que a decorao estivesse confinada aos capitis do interior (e, com
freqncia, eles eram spolia de templos pagos), o sarcfago esculpido ainda
era muito usado. Atualmente existem poucas esculturas figurativas da Bizncio
dos primeiros sculos, por causa de sua destruio durante a controvrsia
iconoclasta (726-843). A converso de igrejas em mesquitas, aps a queda
de Bizncio (1453), infligiu tambm enormes perdas; por isso o conhecimento
sobre a escultura bizantina est limitado  ornamentao no-religiosa, com
predomnio de capitis, frisos e painis.
      No Ocidente, a escultura do perodo pr-carolngio tinha passado por
espetaculares mudanas desde os tempos romanos. Tornara-se cada vez
mais bidimensional, tendendo para a escultura em relevo com muito pouca
profundidade. Como no existia ningum no seu Imprio que pudesse realizar
tais obras, Carlos Magno usou na capela de seu palcio de Aix-la-Chapelle
capitis romanos levados da Itlia, e uma esttua eqestre de Teodorico que
estava em Ravena foi instalada como um monumento a ele prprio no ptio-
de-armas do palcio. Muitas esculturas da poca eram em estuque, uma
tcnica largamente usada pelos romanos. Documentos mencionam relevos
narrativos em Centula (Saint-Riquier) e fragmentos de decorao em estuque
sobrevivem em Germigny-des-Prs. Em Cividale, no norte da Itlia, sobrevive
um impressionante grupo de santas de estuque em tamanho natural (incio do
sculo IX) e que testemunha a alta qualidade desse tipo de escultura durante
a Renascena Carolngia. As esculturas do sculo IX na Espanha e,
sobretudo, na Gr-Bretanha (cruzes de Ruthwell e Bewcastle, friso de
Breedon-on-Hill) podem ser associadas, em parte,  Renascena Carolngia.
       Os vikings pagos, que contriburam de forma to selvtica para a
queda do Imprio Carolngio e de sua vigorosa arte, foram eles prprios
patrocinadores de requintadas esculturas em madeira que empregavam
intricados motivos animais para decorar objetos cerimoniais, como os
encontrados no barco funerrio de Oseberg, por exemplo. Com os povoados
vikings nas Ilhas Britnicas, esse tipo de arte foi transmitido  Inglaterra e 
Irlanda, e tornou-se uma das fontes para a arte crist dos pases
escandinavos.
       Os escultores otonianos produziram algumas notveis imagens de culto
(a Madonna de Essen e a Cruz de Gero, em Colnia, ambas do final do
sculo X), as quais combinam um naturalismo herdado da arte clssica com
uma estilizao geomtrica de formas, levando diretamente ao nascimento do
romnico. Este estilo estava estreitamente ligado  arquitetura e servia para
enriquec-la, com a escultura aplicada em determinados elementos, primeiro
os capitis, depois os portais, msulas, frisos e, ocasionalmente, fachadas
inteiras. A escultura romnica da Itlia e Frana estava na vanguarda desse
desenvolvimento, com a Espanha, Portugal, Alemanha e Inglaterra seguindo-
lhes em breve o exemplo. No sculo XII, toda a Europa que reconhecia a
autoridade papal empregava formas de arte romnica, a qual, em casos
isolados, penetrou at em pases ortodoxos como a Srvia e a Rssia.
Desnecessrio acrescentar que a escultura romnica floresceu no reino
cruzado.
     Embora alguns capitis romnicos esculpidos sejam obras-primas (por
exemplo, em Cluny, Silos, Moissac, Abadia de Hyde, Winchester), a glria da
escultura romnica encontra-se nos gigantescos tmpanos de Moissac, Autin e
Vzelay e no friso de Wiligelmo na fachada da catedral de Modena. Durante
esse perodo de grande atividade artstica, inspirada por genuna devoo,
muitas obras de notvel qualidade foram criadas e  possvel distinguir
numerosas escolas regionais de escultura (por exemplo, na Borgonha,
Aquitnia, Normandia, Lombardia, Toscana, Aplia, Herefordshire, Yorkshire e
Kent).
      A escultura romnica favoreceu as formas abstratas, e as figuras
humanas eram usadas de maneira totalmente arbitrria; o tamanho de cada
uma, por exemplo, dependia muitas vezes de sua importncia, sendo o Cristo
sempre maior do que os Apstolos. Era a arte de uma f ingnua e estava
dominada pelo medo da condenao eterna, descrita com tanta intensidade
em numerosos tmpanos.
Enquanto a arquitetura romnica era suplantada pelo gtico em Saint-Denis,
na escultura houve um perodo de cerca de 50 anos (1170-1220) em que o
estilo se tornou mais naturalista. Isso foi devido em grande parte  influncia
da arte mosana. Os grandes portais das catedrais de Senlis, Laon, Chartres e
Reims so os melhores exemplos desse novo estilo, por vezes chamado "de
transio".
      A escultura gtica emergiu desse estilo no primeiro quartel do sculo
XIII, e a oficina responsvel pela escultura da fachada da catedral de Notre-
Dame em Paris foi a primeira a substituir o suave naturalismo do estilo de
transio e seus drapeados graciosamente fluentes, por faces, gestos e
panejamentos mais expressivos. As esttuas da Sainte-Chapelle (1243-48)
so consubstanciaes do novo estilo que, atravs dos marfins produzidos em
massa em Paris nessa poca, no tardaria em ser transmitido a toda a
Europa.
      A figura-coluna, ou seja, uma esttua ligada a uma coluna -- criao
caracterstica dos portais do gtico primitivo na Frana, iniciada com Saint-
Denis, que inspiraria depois obras similares -- perdeu gradualmente sua
influncia e, em fins do sculo XIII, a figura j estava destacada da coluna e,
finalmente, dispensou todo suporte externo. 0 portal do grande escultor
holands Claus Sluter na Cartuxa de Champmol (dcada de 1390), o
mausolu de Filipe II, o Intrpido, duque de Borgonha, so momentos
culminantes nessa tendncia, pois as figuras dramticas, umas ajoelhadas,
outras em p, so como atores num palco e independentes de seu cenrio
arquitetural.
O sculo XIV assistiu ao nascimento do retrato na escultura tumular. At
ento, as efgies eram, por via de regra, imagens idealizadas, sem a menor
relao com o verdadeiro aspecto fsico do morto. O recurso a mscaras
morturias em cera ou gesso resultou em retratos mais fiis dos rostos em
efgies.
       Durante o sculo XV, os Pases Baixos e a Alemanha produziram um
certo nmero de notveis mestres, trabalhando em pedra, madeira e bronze:
Hans Multscher, Nikolaus Gerhaert, Michael Pacher, Tilman Riemenschneider
e Veit Stoss, para citar alguns.
       Tal como na arquitetura gtica, tambm na escultura a contribuio
italiana foi muito independente, e  mais apropriado, portanto, consider-la em
relao mais com o nascimento da arte da Renascena do que com o gtico.
Ver gtico; pintura e artes menores; Pisano, Nicola; romnico [328] GZ
 R. Salvini, Medieval Sculpture (1969); W. Saurlnder, Gothic Sculpture in
France 1140-1270 (1972); L. Stone, Sculpture in Britam: The Middle Ages
(1972) [W. Saurlnder, Escultura medieval, Lisboa, Verbo, 1968]

eslavos A migrao e assentamento dos povos eslavos em seus conhecidos
grupos modernos foi uma caracterstica dos primeiros tempos da histria
medieval tanto quanto os movimentos germnicos. Historicamente,
estabeleceram-se em trs poderosos grupos: os eslavos do noroeste
(poloneses, tchecos, bomios, vnedos etc), os eslavos do sudoeste (srvios,
croatas, "iugoslavos" em geral) e os eslavos orientais (russos). Todos esses
termos so generalizados e nenhum dos agrupamentos , em qualquer
sentido, racialmente puro, mas as lnguas bsicas derivaram todas da mesma
famlia indo-europia, e os prprios povos, no incio da Idade Mdia,
instalaram-se principalmente na Europa Oriental, com pontos focais nos
Crpatos, a partir dos quais penetraram para o norte e o oeste at o Elba,
para o sul e o oeste at os Balcs, e para leste ao longo de ambas as
margens dos grandes rios da Rssia histrica.
      Receberam o Cristianismo, o smbolo do assentamento e da aceitao
no novo mundo medieval, em diferentes pocas e de diferentes fontes. A obra
de So Cirilo (m. 869), de Bizncio, criou uma liturgia na tradio da Igreja
oriental e uma escrita que formou a base da moderna escrita cirlica usada na
Rssia e na Bulgria. Os missionrios ocidentais, entretanto, predominavam
na fronteira germnica. Em fins do sculo X, os bomios eram cristos, com
uma s estabelecida em Praga. Os poloneses tambm foram convertidos pelo
Ocidente, com um episcopado principal em Gniezno e -- apesar da
persistncia de prticas pags, sobretudo entre os vnedos -- o Cristianismo
ocidental e a influncia de Roma constituram as principais foras culturais
entre os eslavos do noroeste desde cerca de 1000 em diante. O quadro era
diferente no sul e no leste: o Cristianismo bizantino ortodoxo predominou entre
os srvios e iugoslavos em geral, a partir do ltimo quartel do sculo IX. A
leste, os passos decisivos foram dados tardiamente, durante o reinado de
Vladimir, o Grande (980-1015), que aceitou a f ortodoxa para os seus povos
eslavos orientais, os russos.
     Experincias polticas profundamente diferentes nos sculos seguintes
aumentaram as divergncias entre os povos eslavos, mas nenhuma fora foi
mais poderosa do que a religio na criao das caractersticas especiais dos
Estados na Polnia e na Tchecoslovquia catlicas, por um lado, na Rssia e
na Servo-Crocia ortodoxas, por outro. Ver Bomia; Srvia; wendes;
iugoslavos                      HRL
 A. Florovsky, The Czechs and the Eastern Slavs (1935); G. Vernadsky,
Ancient Russia (1943); F. Dvornik, The making of Central and Eastern Europe
(1949) [R. Portal, Os eslavos, povos e naes, Lisboa, Cosmos, 1968]

Espanha O domnio imperial romano foi varrido da Pennsula Ibrica quando
sucessivas ondas de povos brbaros -- suevos, alanos e vndalos --
crusaram os Pireneus em 409. A presena deles foi transitria e
predominantemente destrutiva [da o etnnimo "vndalo" ter adquirido, em
sentido figurado, o significado de destruidor de tudo o que por sua
antigidade, valor ou beleza, merece respeito NT]; mas sucederam-lhes em
456 os visigodos, ainda semi-selvagens mas j cristos (embora herticos
arianos) e falando latim, que se fixaram e se ligaram pelo casamento com a
populao hispano-romana. O reino visigodo, com Toledo por capital e as
obras de Isidoro de Sevilha como imperecvel monumento cultural, durou dois
sculos e meio. Mas era uma monarquia eletiva; as faces rivais no seio da
casa real enfraqueceram-na fatalmente e, quando em 711 um grupo decidiu
levar tropas rabes e brberes do Marrocos a fim de o ajudar em suas
ambies, o poder visigodo desmoronou. Em 718, os muulmanos
controlavam a pennsula inteira, com exceo de algumas pequenas regies
montanhosas do norte que dificilmente pareciam valer a pena ser ocupadas, e
no tardaram em transpor os Pireneus para ameaar a Frana.
       Uma escaramua nas montanhas cantbricas, localizadas por tradio
em Covadonga, iniciou em 718 a Reconquista, com a fundao do reino das
Astrias; o outro ncleo de resistncia foi o reino basco de Navarra, nos
Pireneus. Na dcada de 740, a guerra civil entre os muulmanos permitiu uma
vasta expanso do territrio asturiano; simultaneamente, os francos tinham
rechaado os muulmanos para o outro lado dos Pireneus e estabelecido no
nordeste da pennsula uma rea de segurana da fronteira hispano-franca.
Nessa regio, que tinha caractersticas genuinamente europias, tais como o
rito romano, a escrita Carolngia e um autntico sistema feudal, o poder
poltico cristalizou-se gradualmente em torno dos condes de Barcelona, e o
mosteiro de Ripoll tornou-se um dos grandes centros culturais da Europa. No
sculo IX, o avano da Reconquista transformou o reino das Astrias no de
Leo [com a transferncia concomitante da capital da cidade de Oviedo para
a de Leo NT]. Castela era um mero condado de Leo, assim como Arago
era-o de Navarra, mas Castela j estava desenvolvendo traos lingsticos e
poltico-jurdicos que a distinguiam como uma fluida, enrgica e
potencialmente rica sociedade de fronteira. Em meados do sculo X, o conde
Fernando Gonzalez, jogando habilmente Navarra contra Leo, conseguiu a
independncia de Castela. No prazo de um sculo, seus condes tinham-se
tornado reis, e Castela estava desempenhando um papel de destaque. A
Galcia (e sua metade meridional, que se tornaria o condado Portucalense e
ncleo do futuro reino de Portugal) a oeste, Arago e a Catalunha, a leste,
eram s intermitentemente importantes nos negcios do centro, cuja poltica
era dominada por Navarra, Leo e Castela, alternadamente. Por mais de uma
vez, um forte e ambicioso monarca (como Sancho III de Navarra) criou um
reino unido pela conquista, mas que acabaria sendo dividido entre seus
herdeiros, que ento se guerreavam em busca da supremacia.
     A Espanha muulmana, dominada em seus primeiros 40 anos por
governantes dependentes do califa de Damasco, tinha desde h muito
adquirido sua autonomia, com o estabelecimento por Abd el-Rahman I do
emirado de Crdova em 756; este cobria dois teros da pennsula,
estendendo-se para norte at os rios Douro e Ebro. Desenvolveu-se uma
prspera sociedade multilingstica e multirracial, com grandes comunidades
judaicas assim como de morabes cristos (espanhis nativos vivendo sob o
domnio rabe), e um florescimento cultural que rivalizou com o da corte do
califa em Damasco. A segunda metade do sculo IX foi perturbada pelas
incurses nrdicas e a agitao religiosa, mas Abd el-Rahman III (912-61)
pacificou a fronteira, fortaleceu as administraes central e provinciais, usou
novas tcnicas de agricultura e irrigao para criar ainda maior prosperidade,
e fez de Crdova o mais poderoso Estado da Europa, com uma cultura cujo
brilho eclipsou a de Damasco e de Bagd. Em 929, proclamou-se califa, lder
espiritual e temporal; pela primeira vez, houve dois califas no Isl. Al-Mansur,
chefe militar e regente (na verdade, ditador) do Califado a partir de 979,
arrasou grande parte do norte cristo, mas enfraqueceu de tal modo o poder
dos califas, que  data de sua morte em 1002, o Califado desintegrou-se,
sendo sucedido por uma srie de pequenos reinos taifa, e os reinos cristos
tornaram-se dominantes.
    As incurses de Al-Mansur e a hegemonia de Sancho III quebraram a
dependncia poltica da Catalunha da Frana, e o conde Ramon Berenguer I
(1035-76) garantiu uma identidade poltica e jurdica especificamente Catal.
Quando o rei de Arago morreu em 1137 sem deixar herdeiro varo, formou-
se uma imprecisa mas duradoura unio, a Coroa de Arago confiada ao
conde de Barcelona; o novo reino incluiu Saragoa, que tinha sido
reconquistada em 1118. As vitrias de Afonso VI contra os reinos taifa
provocaram a invaso almorvida e, apesar do triunfo temporrio de El Cid
em Valncia, os almorvidas, e depois deles, os almadas, retardaram de
forma efetiva a Reconquista por um sculo e meio. Entretanto, alguns avanos
foram realizados e, o mais importante, o grande trofu de Afonso VI, Toledo,
permaneceu em mos crists. Foi a que uma escola de tradutores alimentou
a Renascena do sculo XII com verses latinas de textos cientficos rabes
(e, conseqentemente, gregos). A Espanha crist fortaleceu-se demogrfica,
econmica e culturalmente por causa da intolerncia dos almadas, que
forou morabes e judeus a refugiarem-se em grande nmero no norte;
Castela substituiu a Andaluzia como o grande centro da cultura judaica.
     Aps a vitria de Las Navas de Tolosa (1212), a Reconquista adquiriu
grande impulso com Fernando III. Suas conquistas (Crdova, Sevilha, Mrcia,
Jaen) foram flanqueadas pela captura de Badajoz (1230) por Afonso IX de
Leo, e pela rendio de Valncia a Jaime I de Arago em 1238. 0 reinado de
Fernando tambm marca a unio definitiva de Leo e Castela, sob liderana
castelhana. Seu sucessor, Afonso X, pagou o preo do espetacular sucesso
de Fernando III e de sua prpria fraqueza. Problemas econmicos e
demogrficos agudos assediaram Castela, e os grandes nobres, ajudados
pelo herdeiro de Afonso, Sancho IV, desafiaram com xito a autoridade
central da Coroa, causando a misria do povo e protelando a Reconquista.
Afonso XI (1312-50) dominou os nobres e estava marchando contra Granada
quando morreu vtima da peste. Sobreveio o desastre; enquanto a peste
devastava a pennsula, uma guerra civil entre filhos legtimos e ilegtimos de
Afonso trouxe exrcitos estrangeiros para dentro das fronteiras de Castela e
fortaleceu a nobreza s custas da Coroa e do povo. Os judeus, prsperos e
numerosos, eram um bvio bode expiatrio para os infortnios castelhanos, e
os pogroms, a partir de 1391, redundaram em converses semiforadas (os
conversos, por sua vez, tornaram-se suspeitos e perseguidos), no
estabelecimento da Inquisio espanhola (1478) e na expulso dos judeus da
Espanha.
       A participao da Coroa de Arago na Reconquista completou-se com a
rendio de Valncia; Mrcia, mais ao sul, caiu em poder de Castela quase ao
mesmo tempo. Arago voltou ento suas energias na direo leste: Pedro III
tomou a Siclia em 1282; Crsega e Sardenha foram somadas ao reino; e
aventureiros catales capturaram o ducado de Atenas (foi mantido para os
reis de Arago durante a maior parte do sculo XIV). A hegemonia econmica
de Arago no Mediterrneo igualava-se ao seu poderio militar, mas o
excessivo expansionismo acarretou problemas demogrficos; a economia
debilitou-se e ocorreram sublevaes, primeiro do campesinato, depois do
proletariado urbano contra a nobreza e, finalmente, dos nobres contra a
Coroa. Em 1410, o ltimo rei em linha direta de sucesso dos condes de
Barcelona morreu sem descendncia varonil e, aps um interregno de dois
anos, subiu ao trono um prncipe da dinastia castelhana de Trastamara.
      Afonso V, o magnnimo, realizou uma recuperao temporria mediante
reformas sociais no pas e expanso militar no estrangeiro. Tomou Npoles
em 1442 e a estabeleceu sua corte, embora fracassasse a sua tentativa,
cinco anos depois, de apoderar-se do norte da Itlia. Aps a morte de Afonso
V, os conflitos internos agravaram-se com uma srie de monarcas rivais e
transitrios, e o reino de Npoles separou-se do de Arago. Em Castela, a
gradual recuperao demogrfica no sculo XV e a riqueza criada pelos
grandes rebanhos ovinos da Mesta e pelos mercadores que transacionavam
desde a Biscaia at a Andaluzia proporcionaram uma base para novas etapas
de expanso; o primeiro passo na direo de um imprio atlntico foi dado
quando as Ilhas Canrias foram colonizadas.
     S estava faltando uma liderana, e esta foi fornecida pelos Reis
Catlicos: Isabel, que subiu ao disputado trono de Castela em 1474, e seu
marido Fernando, rei de Arago desde 1479. Governaram seus dois reinos e
prepararam-nos para a fuso; Navarra, desde h muito confinada a uma
pequena regio pirenaica, foi adicionada em 1512 a uma Espanha unida.
Isabel e Fernando fomentaram a educao e o saber humanista; impuseram
finalmente a autoridade da Coroa aos grandes nobres (embora  custa de
lhes darem excessivo poder no reino); financiaram Colombo no que provou ser
(para surpresa geral) a descoberta da Amrica; e conquistaram Granada. O
reino Nasrid tinha sobrevivido com fronteiras quase inalteradas desde 1350 e
tornara-se cada vez mais um anacronismo na orla da Espanha crist; tato
diplomtico e riqueza granadina preservaram o reino enquanto Castela no
teve motivos convincentes para desencadear uma guerra total, mas os Reis
Catlicos no puderam tolerar mais o obstculo que Granada representava
para a sua viso do destino cristo do pas.
      A fronteira entre cultura medieval e cultura moderna  inevitavelmente
mal definida, mas a convergncia cronolgica oferece-nos uma fronteira
histrica de uma surpreendente preciso: num nico ano (1492), Granada
caiu, os judeus foram expulsos da Espanha, Antonio de Nebrija publicou a
primeira gramtica sria de qualquer vernculo europeu, e Colombo
reivindicou o Novo Mundo para os Reis Catlicos. No final do ano, a Espanha
estava irrevogavelmente transformada; estavam lanados os alicerces do
Imprio, mas com uma intolerncia que, em ltima instncia, debilitaria toda a
estrutura. Ver Abdida, dinastia; Abssida, dinastia; Cortes; Santiago, Ordem
dos Cavaleiros de; Toledo, Conclios de; Omada, dinastia; ver tambm reis
individualmente registrados                                              ADD
 J.H. Elliott, Imperial Spain (1963); W. Montgomery Watt e P. Cacchia, A
History of Islamic Spain (1965); H.V. Livermore, The Origins of Spain and
Portugal (1971). J.F. O'Callaghan, A History of Medieval Spain (1975); J.N.
Hillgarth, The Spanish Kingdoms 1250-1516 (1976-78) [G. Jackson,
Introduction a la Espaa medieval, Madri, Alianza, 1974; J.A. Garcia de
Cortzar, Historia de Espaa Alfaguarra. La epoca medieval, Madri, Alianza,
1974; R. Collins, Espaa en la Alta Edad Media, Barcelona, Critica, 1986;
D.W. Lomax, La Reconquista, Barcelona, Critica, 1984; A. MacKay, La
Esparta de la Edad Media, Madri, Ctedra, 1980]

estados A idia bsica de "estados do reino" foi prenunciada pelo trabalho de
humanistas dos sculos IX e X que dividiram a sociedade em trs grupos:
aqueles que oravam, aqueles que guerreavam e aqueles que trabalhavam.
Essa diviso rudimentar foi complicada no vigoroso sculo XII pelo surgimento
de grupos ativos de cidados, indo desde os abastados mercadores at os
artesos pobres, mestres, jornaleiros, artfices e trabalhadores no-
qualificados. Quando passou a ser dada expresso poltica  noo de uma
comunidade do reino, e conseqentemente se desenvolveram instituies
representativas, persistiu a idia de diviso em estados (normalmente trs).
       O Parlamento ingls fornece um notvel exemplo. Desde fins do sculo
XIII, tornou-se costume convocar os burgueses das cidades e os cavaleiros
dos condados para uma assemblia central: esses grupos, finalmente, e de
um modo algo atpico na Europa como um todo, juntaram-se numa Cmara
dos Comuns, exercendo significativo poder sobre a fixao e a coleta de
impostos. Por sua vez, os bares e o alto clero uniram-se numa Cmara dos
Lordes, embora a Igreja convocasse o baixo clero para as suas prprias
instituies.
       A experincia francesa era algo diferente, em parte por causa da fora
da monarquia mas tambm por causa da contnua existncia de assemblias
provinciais. Nos primeiros anos do sculo XIV, Filipe IV convocou
representantes das cidades, junto com os vassalos feudais, para os Estados
Gerais. A pequena nobreza e os burgueses no trabalharam juntos, como na
Inglaterra, e os estados mantiveram-se mais diferenciados.
      Em outros pases europeus, as Cortes na Espanha e em Portugal, as
Landstndeversammlungen nos principados alemes, as assemblias das
comunidades escandinavas e eslavas (mormente na Polnia) apresentavam
caractersticas semelhantes, se bem que s raramente tais assemblias
fossem convocadas de forma regular. No final da Idade Mdia, com uma
economia monetria mais dinmica, a noo de estados rgidos e separados
foi ficando cada vez mais inadequada em vastas regies da Europa, embora
-- no plano social -- conservasse sua fora at o perodo moderno,
certamente          at        o       tempo         da        Revoluo
Francesa.                                                         HRL
 A.R. Myers, Parliament and Estates in Europe to 1789 (1975)

Estados Gerais A primeira reunio dos Estados Gerais (tats gnraux)
franceses teve lugar em 1302, a pedido de Filipe, o Belo. Ansioso por frustrar
o conclio eclesistico proposto pelo papa Bonifcio VIII, o rei convocou os
trs estados do seu reino -- nobres, clero e comuns -- para uma reunio em
Paris. Em conseqncia dessa assemblia, todos os trs grupos escreveram
separadamente a Roma em defesa do rei e de seu poder temporal. Dessa
poca em diante, os estados Gerais somente se reuniram em emergncias
(isto , usualmente para fins de apoio  monarquia em tempos de crise), e as
reunies eram cuidadosamente controladas pelos juristas que serviam ao rei
como um conselho de Estado (conseil d'tat). Essa assemblia representativa
continuou reunindo-se esporadicamente nos sculos seguintes, mas no foi o
incio de uma instituio governamental efetiva; o conceito de governo do reino
por consenso ainda estava nas fases iniciais de desenvolvimento.
 J.P. Strayer, Medieval Statecraft and the Perspectives of History (1971)

Estados pontifcios As terras diretamente sob a autoridade soberana do
papa eram conhecidas como Estados pontifcios ou patrimonium de So
Pedro. Formados especialmente pelo papa Gregrio I a partir das
possesses particulares dos bispos de Roma e seus territrios circundantes,
foram ampliados com a concordncia dos governantes francos, no final do
sculo VIII, de modo a abranger a maior parte do territrio do antigo exarcado
de Ravena. Esses territrios passaram por todas as vicissitudes comuns na
sociedade medieval europia, sofrendo interveno imperial, disputas
fronteirias e, por vezes, violentos tumultos feudais. A retirada dos papas para
Avignon no sculo XIV intensificou os problemas; na dcada de 1350, porm,
o cardeal Albornoz conseguiu restaurar substancialmente a autoridade papal.
Boa parte da energia dos papas do sculo XV foi consumida na manuteno
de seu governo na prpria Roma e nas provncias do Lcio, mbria, Ancona,
Ravena e Bolonha -- as frteis terras que formam uma faixa que corre de
norte para leste desde Roma e constituam seu patrimnio. Ver Vaticano
 L. Duchesne, Les Origines de l'Etat Pontifica] au Moyen-Age (1912); P.
Partner, The Papal State under Martin V (1958); D.P. Waley, The Papal State
in the Thirteenth Century (1961); P. Partner, The Lands of St. Peter (1972)

esterlino (ingls sterling, do ingls medievo stere = "forte"; francs, esterlin)
Nome dado ao penny ingls no perodo ps-Conquista Normanda. Desde o
final do sculo XII at o comeo do sculo XIV, circulou correntemente nos
Pases Baixos, noroeste da Alemanha, Escandinvia e Frana, visto que o seu
peso (1,46 gramas) e pureza (925/1000) eram superiores aos da maioria das
moedas continentais, tornando-o internacionalmente aceitvel. Foi muito
imitado, sobretudo nos Pases Baixos, s vezes em metal de baixo valor (por
exemplo, por Joo, o Cego, conde de Luxemburgo). O termo tambm  usado
para prata de pureza padronizada (11oz 2dwt = 925/1000).

Estvo de Blois rei da Inglaterra 1135-54 (n. c. 1097) Neto de Guilherme, o
Conquistador, Estvo sucedeu a seu tio Henrique I em dezembro de 1135,
graas  sua energia pessoal combinada com a habilidade poltica de seu
irmo Henrique, bispo de Winchester, e a aquiescncia do mais velho dos
irmos, Teobaldo, conde de Blois. Seu reinado foi turbulento, mas  um erro
consider-lo um perodo de continuada anarquia. A guerra civil (que teve seu
perodo mais intenso em 1141-44) entre Estvo e sua prima Matilde, filha
legtima de Henrique I, acarretou grande infortnio e devastao a partes do
pas. O acordo final que assegurou a sucesso do filho de Matilde, Henrique
de Anjou (Plantageneta), ao trono aps a morte de Estvo, foi geralmente
bem recebido e inaugurou um perodo de forte administrao monrquica.
     A crise do reinado ajudou a resolver alguns dos principais problemas da
instituio feudal na Inglaterra e preparou o caminho para uma permanente
soluo legal de questes de sucesso e herana, no s no nvel real mas
tambm em toda a ordem feudal. A reputao do perodo como tendo sido de
permanente e terrvel sofrimento assenta predominantemente na Crnica
Anglo-Saxnica (Peterborough Chronicle), que o descreve como "dezenove
invernos durante os quais Cristo e seus Santos dormiram".
 R.H.C. Davis, King Stephen (1967)

estradas romanas O papel das estradas romanas na rede viria medieval 
discutvel, porquanto sua sobrevivncia parece ter sido espordica e variada.
O sistema romano tinha sido planejado para servir e unir um imprio coeso, ao
passo que a autoridade e os interesses medievais eram de natureza mais
local. A tendncia das estradas medievais era menos para constiturem obras
de engenharia do que simples direitos de passagem. As estradas romanas
foram destrudas, abandonadas, invadidas, depredadas, incorporadas aos
poucos aos caminhos medievais ou conservadas (como a Via Flaminia pelos
reis godos). A principal conservao dependia obviamente da fora da
autoridade central, e a responsabilidade parece ter sido, de um modo geral,
compartilhada, como na Antigidade, pelo governo central, pelas autoridades
regionais e pelas localizadas  beira de estrada, como era o caso dos frres
pontifes e dos hospcios.
      Tem-se duvidado que as estradas romanas coincidissem com as
medievais, uma vez que eram difceis de conservar, mas h casos de uso
continuado, por exemplo, na Picardia e nos Landes, onde a estrada romana
foi usada como um percurso de peregrinao at o sculo XIV. A existncia
de estradas romanas como fronteiras, configuraes de povoamentos e
topnimos (incorporando elementos tais como straet) subentende tambm
uma certa continuidade, como em alguns casos especficos, por exemplo, a
proteo especial do monarca ingls sobre Watling Street, Ermine Street,
Fosse Way e o Icknield Way. Contudo a topografia era importante. Novas
cidades, como Oxford, precisavam de novas estradas e parece ter havido
tambm um retorno ao sistema pr-romano de comunicaes, de construo
improvisada, entre povoaes secundrias.
 R. Chevallier, Roman Roads (1976); B.P. Hindle, Medieval Roads (1982)

Estrasburgo, Juramentos de Aps a morte de Lus, o Piedoso (840), seus
trs filhos sobreviventes continuaram a luta pelo controle do Imprio. Carlos, o
Calvo, e Lus, o Germnico, que pretendiam assegurar autoridade real
independente na Francnia ocidental e oriental, respectivamente, formaram
uma aliana contra Lotrio, pretendente ao ttulo imperial indivisvel. Como
ratificao dessa aliana contra Lotrio, foram prestados juramentos bilinges
em fevereiro de 842 por Carlos e Lus, cada um no vernculo do outro, para
que seus exrcitos pudessem entend-los. O texto, tal como foi preservado
na s Histrias de Nithard, fornece alguns dos mais antigos exemplos das
lnguas francesa e alem.
 H.R. Loyn e J. Percival, The Reign of Charlemagne; documents on
Carolingian government and administration (1975)

Etelbert rei de Kent c. 560-616 ou 618 Sua data de nascimento, de incio de
carreira e de subida ao trono permanecem obscuras. Beda afirma que
Etelbert herdou o reino de Kent em 560, enquanto que a Crnica Anglo-
Saxnica fornece a data de 565, mas pode ter havido uma confuso entre a
data de nascimento e a data de posse. O certo  que casou com Berta,
princesa crist, filha do rei Cariberto de Paris, antes de 589.
      Em 597, exercia nominalmente o controle supremo de todos os reinos
anglo-saxnicos ao sul do Humber e tinha completo domnio do esturio do
Tmisa, com poderes de suserania sobre o reino do Essex, onde seu sobrinho
Seberto ocupava o trono. Essa poderosa posio permitiu a Etelbert garantir
a segurana de Santo Agostinho e seus companheiros missionrios quando
empreenderam a tarefa de converter os ingleses ao Cristianismo em 597.
Permitiu-lhes tambm realizar converses no Kent e estabelecer bispados em
Canterbury, Rochester e Londres. Entre os benefcios imediatos que obteve,
resultantes da presena dos missionrios, cite-se o contato intensificado com
o continente e a competncia, como nos informa Beda, para promulgar leis (o
mais antigo cdigo de leis sobrevivente da Inglaterra anglo-saxnica, juxta
Romanorum exempla). Na poca de sua morte, entretanto, sua posio como
Bretwalda ou rei supremo j se encontrava abalada pelo crescente poderio de
Redualdo, rei de East Anglia.
      Beda, que  a nossa principal fonte para a biografia de Etelbert, pinta o
retrato de um monarca poderoso mas prudente e supersticioso, relutante em
receber os missionrios num recinto fechado com temor de bruxaria e
hesitante em renunciar  f de seus antepassados. Afirma-se que ele no
compeliu ningum a aceitar o Cristianismo, embora aps sua prpria
converso, tenha passado a favorecer seus correligionrios cristos. Em seu
comentrio sobre a morte de Etelbert, Beda descreve-o como o terceiro
monarca a administrar todos os reinos meridionais mas o primeiro a entrar no
Reino dos Cus.
 H. Mayr-Harting, The Corning of Christianity to Anglo-Saxon England
(1972)

Etelfled (m. 918) Senhora dos mercianos. Filha mais velha de Alfredo, o
Grande. Por volta de 886, casou-se com Etelred, que se tornou ealdorman
[ttulo anglo-saxnico equivalente ao de regedor administrativo NT] de Mrcia
e, juntos, empreenderam a defesa de Mrcia contra os dinamarqueses.
Quando Etelred adoeceu, e ainda aps sua morte em 911, Etelfled continuou
governando Mrcia sozinha, jogando dinamarqueses, noruegueses, escoceses
e galeses uns contra os outros. Em 916, ela comandou uma expedio contra
os galeses e em 917 tomou Derby aos dinamarqueses; Leicester e York
tambm se submeteram ao seu domnio em 918. Colaborando estreitamente
com seu irmo Eduardo, rei do Wessex (899-924), Etelfled tambm foi
responsvel pela construo de uma srie de defesas contra os
dinamarqueses, que incluiu as fortalezas de Runcorn, Stafford, Tamworth e
Warwick.

Etelred II, o Irresoluto rei da Inglaterra 978-1016 (n. 968-969) Filho do rei
Edgar e de sua segunda esposa, Etelfryth. Seu reinado foi perturbado por
uma srie de incurses dinamarquesas e norueguesas. Sua reputao foi
denegrida pelo relato hostil apresentado na Crnica Anglo-Saxnica, mas
estudos recentes enfatizaram alguns dos atributos positivos do reinado, como
o florescimento da literatura vernacular e a eficincia dos aspectos
administrativos e financeiros do governo. O prprio pagamento do danegeld
no significou um prejuzo, na medida em que incentivou o desenvolvimento de
um bom sistema monetrio e tributrio. Incidentes como o massacre dos
dinamarqueses em 1002, histrias de traio e o fracasso em encontrar um
comandante militar competente apontaram, entretanto, um grave
enfraquecimento moral e justificaram o xito dinamarqus final. Em 1013, o rei
dinamarqus Sweyn recebeu a submisso da Inglaterra setentrional e de
Londres. Etelred escapou com a famlia para a Normandia, mas em 1014 foi
chamado de volta, depois de prometer governar melhor no futuro. Aps sua
morte, o reino foi inicialmente dividido entre seu filho nico, Edmundo, o Bravo,
e o filho de Sweyn, Canuto. Quando Edmundo faleceu (1016), Canuto herdou
todo o reino e casou com a viva de Etelred, Ema, filha do duque normando
Ricardo II.
 S. Keynes, The Diplomas of King Aethelred "The Unready" (1980)

Etelvold, Santo (c. 912-84) Bispo de Winchester, monge e reformador
beneditino. Natural de Winchester, Etelvold passou os primeiros tempos de
sua vida na corte do rei Atelstan (924-39), antes de juntar-se a So Dunstan
no mosteiro de Glastonbury. Insatisfeito com as observncias monsticas a
vigentes, solicitou permisso para viajar ao estrangeiro a fim de estudar o
movimento de reforma no continente. Quando essa permisso lhe foi
recusada, preferiu instalar-se em Abingdon, onde comeou restabelecendo a
vida monstica de acordo com o modelo beneditino.
     Depois do exlio de So Dunstan em 956, Etelvold tornou-se o lder do
movimento de reforma monstica e tambm serviu como tutor do futuro rei
Edgar, que se tornou o maior amigo e benfeitor dos monges. Em 963, Etelvold
tornou-se bispo de Winchester e em 964 substituiu os cnegos da catedral por
monges. Como bispo, foi responsvel pela reformulao da vida monstica em
Milton (Dorset) em 964 e em Newminster e Nunnaminster, em Winchester, em
965; criou os mosteiros de Peterborough (966), Ely (970) e Thorney (972).
Etelvold foi tambm a principal figura no Snodo de Winchester (c. 970), no
qual foi divulgada a Regularis Concordia, e aceita-se de um modo geral ter
sido ele o responsvel pelas mudanas na Regra Beneditina consubstanciada
nesse documento.
 Regularis Concordia, org. por D.T. Symons (1959); Tenth-Century Studies,
org. por D. Parsons (1975)

Evangelhos de Lindisfarne Contm os mais impressionantes exemplos ainda
existentes da primitiva arte decorativa hiberno-saxnica e uma bela verso do
texto da Vulgata. Foram escritos e decorados no mosteiro de Lindisfarne (c.
696-98) e dedicados a So Cuteberto. Durante o sculo X foi adicionada uma
glosa interlinear em anglo-saxo e um clofon em apndice, atribuindo a
feitura dos Evangelhos a Edfrith, mais tarde bispo de Lindisfarne. Ver
Renascena nortumbriana
 J. Backhouse, The Lindisfarne Gospels (1981)

Ezzelino III da Romano (1194-1259) Nobre gibelino. Tirano cruel e
implacvel, Ezzelino esteve ativo durante 40 anos nas guerras do norte da
Itlia. Com a ajuda do imperador Frederico II, pde em apenas alguns anos
estabelecer controle sobre Verona, Vicenza e Pdua. Foi excomungado pelo
papa Alexandre IV e morreu quatro anos depois em conseqncia de um
ferimento recebido na batalha de Cassano, quando recusou-se a aceitar ajuda
mdica e a reconciliar-se com a Igreja.
                                     F
Fatmida, dinastia (909-1171) Califado xiita que governou o norte da frica e
o Egito, e cujo nome derivou de Ftima, filha de Maom. Sua pretenso 
soberania universal, em virtude de um decreto divino, foi contestada pelos
abssidas. O objetivo primordial dos fatmidas era uma poltica oriental que
lhes permitisse acabar com o controle dos abssidas. Para esse fim, uma
esquadra no Mediterrneo e o controle fatmida do Egito (973) tornaram-se
necessrios, colocando-os dentro das esferas poltica e militar, primeiro de
Bizncio, e depois dos cruzados. As peridicas expedies contra os cristos
eram custosos desvios de suas constantes tentativas para controlar Damasco,
mobilizando muita energia na diplomacia e na guerra. O Califado atingiu o
auge de seu poder no sculo XI, mas as condies instveis do sculo XII,
conjugadas com a anarquia interna, as crises econmicas e fomes
devastadoras precipitaram o declnio dos fatmidas. Saladino aboliu a dinastia
em 1171.
 P. Hitti, History of the Arabs (1951) [B. Lewis, Os rabes na Histria,
Lisboa, Estampa, 1982]

feiras Oriundas, em sua maior parte, das reunies de negociantes em dias
festivos da Igreja ou feriados (do latim feriae = dia de repouso em honra dos
deuses), as feiras floresceram e converteram-se, no perodo central da Idade
Mdia europia, em grandes eventos regionais, nacionais e at internacionais
onde mercadores, cambistas e operadores bancrios se reuniam. Privilgios
especiais e poderes de jurisdio eram normalmente concedidos a essas
feiras, muitas das quais ficaram famosas por se especializarem em
determinados produtos: vinhos, couros, txteis, metalurgia, produtos agrcolas
ou cavalos. Era comum as feiras durarem muitos dias, s vezes semanas, e
conservarem vestgios de suas origens religiosas ao adotarem nomes de
santos, como a Feira de So Bartolomeu em Londres ou a de So Gil em
Oxford e Winchester. A importncia das feiras era grande para a vida cultural
e intelectual da Europa, tanto quanto para a comercial, na medida em que
serviam como locais regulares de encontro em determinados dias fixos,
quando homens de vrias comunidades, mesmo as mais distantes, podiam
trocar notcias e idias, alm de mercadorias e servios. Ver Champagne,
feiras da; comrcio
 C. Verlinden, "Markets and Fairs", Cambridge Economic History of Europe,
vol. 3 (1963)

Feltre, Vittorino da (1378-1446) Pedagogo e humanista, esse intelectual
mantuano estabeleceu uma escola, a Casa Giocosa, que se empenhou em
educar os jovens em latim e grego, sem desprezar a educao fsica e a
instruo moral. Alguns rapazes pobres, e at algumas meninas, eram
includos em seus grupos, embora o suporte fundamental de seu
empreendimento viesse de aristocratas e ricos. Suas realizaes significam,
entre outras coisas, uma reao contra a concentrao no vernculo, e uma
reverso consciente por parte dos intelectuais  universalidade latina do
perodo central da Idade Mdia, que muitos no sculo XV consideraram ter-se
perdido.
 W.H. Woodward, Vittorino da Feltre and other Humanist Educators (1963)

Fernando II rei de Arago 1479-1516 (n. 1452) Filho de Joo II de Arago,
esposou Isabel de Castela em 1469, o que resultou na instaurao de uma
forma de diarquia para os dois reinos quando Fernando sucedeu ao pai em
1479. Os dois monarcas concluram a Reconquista com a tomada de Granada
em 1492. Aps a morte de Isabel em 1504, Fernando concedeu apenas
limitado apoio s tentativas do cardeal Cisneros de ampliao da obra de
Reconquista, estendendo-a  frica (1505-1510). Conquistou Npoles em
1503 e Navarra em 1512, resultando da primeira dessas vitrias uma
participao mais profunda na arena poltica europia. Tentou consolidar sua
dinastia mediante uma srie de casamentos cuidadosamente planejados, mas
que se frustraram em conseqncia de mortes inesperadas. Sua escolha
arguta de embaixadores e uma diplomacia astuta e habilmente conduzida
granjearam-lhe respeito, alm da admirao de seus contemporneos,
incluindo Maquiavel.
       [O reinado de Fernando e Isabel, os Reis Catlicos, foi assinalado por
eventos de extraordinria repercusso nos destinos das naes ibricas e
para o curso da histria do mundo: a chegada de Colombo s ndias
Ocidentais, a assinatura do Tratado de Tordesilhas, que fixou as reas de
domnio espanhol e portugus nas Amricas, o estabelecimento da Inquisio
e a expulso dos judeus da pennsula. NT]
 J.H. Elliot, Imperial Spain 1479-1716 (1963)

Fernando III, So rei de Castela e Leo 1217/ 30-52 (n. c. 1201) Filho de
Afonso IX de Leo e de Berenguela, herdeira do trono de Castela por parte
de seu pai Afonso VIII. Quando o matrimnio de seus pais foi anulado, ele
viveu em Leo, mas com a morte sbita de Henrique I de Castela (1217),
Berenguela renunciou a seus direitos ao trono, levou o filho para Castela e
proclamou-o rei, derrotando simultaneamente rebelies de nobres castelhanos
e uma invaso leonesa que quase chegou a Burgos. Seguiram-se outras
rebelies mas nenhuma chegou to perto de destronar o jovem rei. Fernando
casou com Beatriz de Subia, neta de Frederico Barba-Ruiva, em 1219. Cinco
anos depois, desencadeou suas campanhas contra os almadas, que tinham
sido decisivamente enfraquecidos em Navas de Tolosa e, como os principais
baluartes almadas tivessem cado em mos de rivais muulmanos, Fernando
lutou contra os estados sucessores.
      Ele se tornou tambm rei de Leo: Afonso IX morreu em 1230, deixando
o reino para suas duas filhas, mas com a ajuda de Berenguela, Fernando
persuadiu-as a cederem-lhe a Coroa. Dessa poca em diante, Leo e Castela
ficaram definitivamente unidos, com Castela como parceiro principal. Alm
disso, a economia expandiu-se e Fernando desenvolveu as universidades. O
que havia sido uma guerra de investidas e cercos frustrados (por exemplo,
Jaen em 1225 e em 1230) tornou-se uma conquista permanente: Crdova caiu
em 1235, Jaen em 1245 e Sevilha em 1248, aps um cerco que durou dois
anos; o reino de Mrcia rendeu-se pacificamente em 1243. Fernando havia
realizado no somente o primeiro avano importante na Reconquista em 150
anos; quando subiu ao trono, encontrara a Espanha muulmana ocupando
quase metade da pennsula e, quando faleceu, planejando a invaso do norte
da frica, o domnio muulmano estava confinado ao reino de Granada. Esse
fato e sua devoo pessoal justificaram sua canonizao em 1671.
 [J. Gonzlez Gonzlez, Campanas de Fernando III en Andalucia, Hispania,
25, 1946, pp.515-631J

feudalismo "Feudal" e "feudalismo" so termos que tm sido empregados,
com freqncia, de forma inadequada; na fala popular e coloquial, so usados
erroneamente como insultos ainda mais pejorativos do que "medieval". At
mesmo os historiadores raras vezes concordam numa data para determinar o
incio e o fim do feudalismo, ou sobre o que ele foi precisamente. Na melhor
das hipteses, uma explicao para o uso impreciso dessas palavras  que se
trata, na verdade, de termos modernos para descrever uma sociedade que
estava morrendo ou j pertencia ao passado; a palavra "feudal" apareceu pela
primeira vez em 1614 e tem sua raiz no baixo latim feudum: posse,
propriedade ou domnio, ao passo que a palavra "feudalismo" s viria a ser
inventada no sculo XIX.
      Admitido o desenvolvimento contnuo e, portanto, um comeo e um fim
graduais, as origens da sociedade feudal situam-se melhor na Frana
setentrional dos sculos IX e X, com o declnio da monarquia Carolngia (na
Inglaterra, de maneira mais dramtica, em 1066, com a conquista normanda),
e seu desaparecimento no sculo XVI.
      Marc Bloch assim o definiu: "Um campesinato mantido em sujeio; uso
generalizado do servio foreiro (isto , o feudo) em vez de salrio...; a
supremacia de uma classe de guerreiros especializados; vnculos de
obedincia e proteo que ligam homem a homem e, dentro da classe
guerreira, assumem a forma especfica denominada vassalagem;
fragmentao da autoridade -- levando inevitavelmente  desordem; e, em
meio a tudo isso, a sobrevivncia de outras formas de associao, famlia e
estado..."
     Entretanto,  enganoso colocar em primeiro lugar "um campesinato
mantido em sujeio", o que no constitui uma caracterstica primordial nem
nica. Muito prefervel, sem dvida,  comear com "a supremacia de uma
classe de guerreiros especializados" e chamar-lhes cavaleiros, pois estes
formavam a classe dominante. Com efeito, na concepo clssica, as origens
do feudalismo situam-se numa revoluo militar pela qual os francos, que
tinham at ento combatido a p, adotaram cada vez mais a cavalaria pesada
a partir de meados do sculo VIII. Sendo a guerra montada muito
dispendiosa, especializada e exclusiva, a elite militar converteu-se numa elite
social e ancestral de uma nova nobreza feudal. Somente no sculo X ou ainda
mais tarde, os cavaleiros obtiveram hegemonia militar e, portanto social, e a
tendncia moderna  de enfatizar a sobrevivncia de uma aristocracia
Carolngia nos primrdios da era feudal; mas no h dvidas quanto 
importncia desses desenvolvimentos militares, que tambm deram origem 
cavalaria (no h cavaleiro sem cavalo) e s divisas herldicas que distinguiam
o cavaleiro dentro de sua armadura.
     Os mesmos desenvolvimentos militares tambm justificam o feudo, que 
a essncia dominial do feudalismo e vincula o senhorio e as relaes feudais 
terra. O feudo era terra de um senhor, confiada a seu vassalo em troca de
servios meritrios, os quais incluam servios militares, ajuda e conselhos.
Embora no perodo inicial, sobretudo, abundassem os cavaleiros sem terra --
homens jovens e os filhos mais jovens de famlias nobres servindo diretamente
na corte do senhor e fazendo parte do seu squito -- o feudo, outorgado por
investidura, era a mais desejada forma de manuteno e desde muito cedo se
tornou hereditrio. Logicamente, porm, numa anlise das caractersticas
fundamentais do feudalismo, poderamos colocar a vassalagem antes do
feudo, porquanto se trata de uma sociedade baseada numa suserania, numa
hierarquia de vassalos e senhores que culminava no rei ou prncipe. O
relacionamento era criado por uma desenvolvida e elevada forma de
encomendao germnica antiga, pela qual um homem livre se submetia a um
outro por um ato de homenagem (as mos juntas colocadas entre as do
senhor), confirmado por um juramento sagrado de fidelidade e vassalagem e
usualmente acompanhado pela outorga de um feudo. A cerimnia e o vnculo
eram solenes, pois eram os laos de sociedade em seus nveis superiores e
politicamente conscientes.
      A prpria monarquia tornou-se feudalizada e foi desse modo fortalecida,
obtendo o rei mais poder de seus direitos feudais de suserano, o senhor dos
senhores, do que dos privilgios consagrados pelo tempo.  lamentvel, pois,
que Bloch por sua referncia  "fragmentao de autoridade -- conduzindo
inevitavelmente  desordem", subscreva a aparentemente inextirpvel heresia
de que o feudalismo  uma fora poltica mais negativa do que positiva. A
monarquia feudal foi, de fato, chamada o Novo Leviat (R.H.C. Davis) e o
feudalismo foi um dos alicerces do moderno Estado ocidental. Impossibilitou o
Absolutismo, pois o senhor tinha obrigaes (administrar a justia no era, por
certo, a menor delas), assim como direitos, e a obrigao do vassalo de dar
conselhos misturava-se ao direito de ser consultado e, em ltima instncia, de
dar consentimento. Assim, os grandes conselhos de reis e de seus principais
feudatrios so os ancestrais diretos dos modernos parlamentos.
      A definio de Bloch deveria ser tambm adicionado o castelo (cujo mais
antigo exemplar sobrevivente data de meados do sculo X); essa foi uma
manifestao arquitetural mpar da sociedade feudal. Como residncia
fortificada de um senhor, era o smbolo e a essncia do senhorio feudal, que
se impunha  terra por meio dos homens montados que tinham sua base
dentro de suas slidas muralhas. s "outras formas de associao"
sobreviventes no perodo feudal deve certamente ser adicionada a Igreja,
tambm feudalizada; os prelados tornaram-se vassalos e os monges eram
considerados "cavaleiros de Cristo", possuindo feudos em troca do servio de
rezar. Quando rezamos com as mos juntas estamos rendendo homenagem a
Deus -- um exemplo da poderosa influncia de conceitos feudais, os quais
incluem os princpios das relaes pessoais, as obrigaes recprocas e a
disciplina, a lealdade institucionalizada, e o servio honroso amenizando a
realidade da hierarquia. Ver castelos; cavaleiros  RAB
 P. Guilhiermoz, Essai sur l'orgine de la noblesse en France (1902); EM.
Stenton, The First Century of English Feudalism 1066-1166 (1961) [M. Bloch,
A sociedade feudal, Lisboa, Edies 70, 1979; EL. Ganshof, Que  o
feudalismo?, Lisboa, Publ. Europa-Amrica, 4 ed., 1976; A. Guerreau, O
feudalismo, um horizonte terico, Lisboa, Edies 70, s/d; H. Franco Junior,
O feudalismo, S. Paulo, Brasiliense, 8 ed., 1989]

Fibonacci, Leonardo (c. 1180-c. 1240) Conhecido tambm como Leonardo
de Pisa, devido  cidade onde nasceu,  principalmente lembrado por sua
notvel exposio das prioridades de certos nmeros em seqncia, os
nmeros de Fibonacci, os quais tm aplicao no s no campo da
matemtica pura mas tambm nas cincias biolgicas e em arte. Quando
expressos como fraes, os nmeros (1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34 etc.) tm
uma relao direta com o crescimento em espiral das folhas e os caules das
plantas (1/2: 2/3: 3/5: 5/8: 8/13 etc.) e com a chamada "Seo de Ouro" em
arte (3/5: 5/8:8/13 etc, convergindo em termos decimais para 0,618). Sua
carreira esteve muito ligada aos desenvolvimentos culturais da corte do
imperador Frederico II, e escreveu tratados sobre o baco e sobre a prtica
da geometria e da trigonometria, os quais foram influentes na introduo do
uso dos algarismos rabes na Europa medieval.
 D.J. Struik, A Concise History of Mathematics (1948)

Filipe II Augusto rei da Frana 1180-1223 (n. 1165) Filho de Lus VII e Adle
de Champagne, mereceu o cognome de Augusto porque ampliou
verdadeiramente o reino Capeto, primeiro consolidando seu domnio nas
fronteiras orientais com a Alemanha, e depois, ajudado por dissenses entre
Henrique II e seus filhos, expandiu-se a oeste s custas do Imprio Angevino.
Em 1204, arrebatou ao rei Joo Sem Terra o controle total da Normandia.
Novas anexaes de territrios angevinos e o apoio  Cruzada contra os
albigenses deixaram a casa dos Capeto bem situada para, no final de seu
reinado, tornar-se a verdadeira governante de virtualmente toda a Frana.
Com efeito, seu filho e herdeiro, o futuro Lus VIII (1223-26), apresentou-se
como srio candidato ao trono ingls com a morte do rei Joo em 1216. Seus
xitos foram obtidos em parte por diplomacia e em parte pela guerra.
    A derrota do imperador Oto IV (aliado de Joo Sem Terra e adversrio
de Frederico II Hohenstaufen) na batalha de Bouvines (1214) provou ser
decisiva. A Frana tornou-se a mais poderosa monarquia do Ocidente, e Filipe
e seus ministros estabeleceram um sistema eficiente de administrao real
baseado na crescente e prestigiosa rea geogrfica central de Paris, de
crucial importncia econmica e estratgica, e na Ile-de-France, usando os
recursos da nova universidade de Paris e explorando a autoridade real sobre
os grandes nobres feudais por meio de funcionrios reais: bailios no norte e
senescais no sul. Foi durante o reinado de Filipe Augusto que se tornou
evidente toda a fora da autoridade monrquica no mundo feudal e puderam
ser colhidos os frutos da centralizao.
 E.M. Hallam, Capetian France 937-1328(1981); J.W. Baldwin, The
Government of Philip Augustus (1986)

Filipe IV, o Belo rei da Frana 1285-1314 (n. 1268) Um dos mais poderosos
e enrgicos monarcas franceses, Filipe IV deixou uma reputao muito
contraditria. Sua excessiva confiana em servidores capazes, treinados em
direito romano, gerou resistncia provincial, a qual continuou sendo uma causa
de fraqueza durante toda a Guerra dos Cem Anos. Sua oposio s
pretenses papais durante o pontificado de Bonifcio VIII foi, em ltima
instncia, coroada de xito mas envolveu o brutal tratamento dado ao papa e
sua conseqente morte aps a Humilhao de Anagni (1303). O malvolo
tratamento dos Templrios (depois de 1308) por Filipe e a abolio dessa
Ordem, resultaram num ganho financeiro para a Coroa mas indignaram a
opinio pblica responsvel. Demorados conflitos com a Inglaterra sobre a
Gasconha e com as cidades da Flandres acarretaram pesados gastos e uma
desastrosa derrota s mos dos cidados flamengos em Courtrai (1302).
Filipe no conseguiu superar os reconhecidamente srios problemas
econmicos da poca, refreando as atividades de mercadores e banqueiros,
expulsando os judeus (em 1306) e desvalorizando a moeda.
     No obstante, incentivou uma poderosa administrao central em Paris,
convocou os Estados Gerais, o que encorajou o sentimento de unidade
nacional na Frana e exerceu firme controle sobre a Igreja francesa. Aps a
eleio do arcebispo Bertrand de Bordus como Clemente V e sua posterior
retirada para o vale do Rdano e Avignon, a influncia monrquica francesa
sobre o Papado tornou-se poderosa. Os interesses italianos foram deixados,
sobretudo, nas mos de seu irmo, Carlos de Valois, que sucedeu nos feudos
de Anjou e Maine (1302) em troca do apoio que tinha dado ao prncipe
francs Carlos II, rei de Npoles.
      A tendncia geral para centralizar a autoridade e a administrao na
Frana de Filipe IV representou um ponto culminante no processo iniciado por
seu av, Lus IX, mas  monarquia filipina faltou o prestgio moral e espiritual
da era anterior.
 R. Fawtier, The Capetian Kings of France (1960); J.R. Strayer, The Reign
of Philip the Fair (1980)

filosofia Afirma-se com freqncia que a Idade Mdia testemunhou um
escasso desenvolvimento em filosofia (a busca da verdade especulativa),
maciamente submetida como estava aos preceitos e ditames da f crist,
judaica ou islmica. A reflexo filosfica autnoma estava severamente
restringida, mas a imposio de um quadro de referncia teolgico ofereceu
um novo desafio, apresentando novos temas e problemas para considerao,
um pouco como no caso das cincias em tempos mais recentes. A filosofia
medieval tambm justifica sua considerao pelo papel que desempenhou na
transmisso do pensamento antigo, na preservao de um certo grau de
continuidade e por sua influncia sobre pensadores mais recentes, como
Descartes e Leibniz.
      Durante a Idade Mdia, a "filosofia" abrangeu um campo mais amplo do
que em tempos modernos. A filosofia natural englobava muitas cincias
particulares, como a astronomia, e os mtodos filosficos eram tambm
aplicados ao direito e  poltica. Apesar de seu estreito relacionamento e
interao, a filosofia (um sistema de conhecimento regulado pela razo) e a
teologia (um corpo de verdades reveladas apoiado na f) eram claramente
distintas. A justaposio de f e razo formou a filosofia crista,
predominantemente preocupada com a reconciliao de Deus e do mundo
natural; mas, dentro desse quadro de referncia, existiam grandes variaes.
      As fontes do pensamento ocidental medieval eram: a Bblia; as obras
que constituam o conjunto da patrstica; as filosofias grega e, em menor grau,
romana (especialmente o platonismo e o aristotelismo); o neoplatonismo; os
sistemas rabe e hebraico dos sculos X--XII (especialmente os de Alfarabi,
Avicena, Averris, Avicebrol e Maimnides); e noes ligeiras de cincia grega
e arbica (a matemtica de Euclides e a astronomia de Alacens). Tudo isso
foi transmitido ao mundo ocidental em pocas diferentes e em diferentes
propores, misturando-se para formar muitos conceitos diferentes. Antes de
obras rabes e hebraicas chegarem ao Ocidente, durante o sculo XII, ele
no possua um conhecimento direto da parte principal e mais significativa das
obras de Aristteles ou do neoplatonismo, e o platonismo s veio a ser
totalmente redescoberto no final da Idade Mdia. Anteriormente, recorria-se
aos escritos neoplatnicos/platnicos dos padres da Igreja, sobretudo Santo
Agostinho. S no sculo XIII surgiu uma srie de sistemas baseados num
corpo coerente de metafsica, resultando enfim a crescente independncia da
filosofia na dissoluo de sua parceria com a teologia e no colapso da
estrutura da filosofia medieval.
      Flon (sculo I) tinha sido o primeiro a tentar uma sntese da f revelada
e da razo filosfica, seguida pelos neoplatnicos. Santo Agostinho iniciou a
assimilao do neoplatonismo na doutrina crist para fornecer sua
interpretao racional. Bocio traduziu para o latim algumas das obras de
Aristteles e Porfrio (neoplatnico), e sua De Consolatione Philosophiae foi
influente durante toda a Idade Mdia; Joo Ergena foi, entretanto, o primeiro
a desenvolver um sistema completo, de carter acentuadamente neoplatnico
e baseado em sua traduo dos padres da Igreja grega (Orgenes, Pseudo-
Dioniso).
     As escolas das catedrais no sculo XI promoveram a discusso
filosfica em torno do debate sobre os universais (relao de gneros e
espcies com indivduos) e a controvrsia sobre dialtica, defendida por
Abelardo e os peripatticos, contrariada por Pedro Damio e os msticos, e
reconciliada por Anselmo e a Escola de Bec. O sculo XII viu um movimento
no sentido de uma escolstica desenvolvida, um amplo sistema de
conhecimento no mbito de um quadro dogmtico de referncia
consubstanciado nos vrios ensinamentos dos novos escolsticos
universitrios. A exploso de conhecimento causada pelas obras rabes e
hebraicas foi utilizada por telogos escolsticos como Roberto Grosseteste e
Roger Bacon no sculo XIII, numa tentativa de criao de um saber universal
que abrangesse todas as cincias e fosse organizado pela teologia. A
crescente independncia filosfica e o triunfo final do aristotelismo, atravs
das tentativas de Alberto Magno e Toms de Aquino para assimilar o novo
conhecimento, geraram conflitos, principalmente na Universidade de Paris.
Guilherme de Auvergne (1180-1249) e Egdio de Roma (1247-1316)
denunciaram a ameaa do pensamento pago e islmico, e da razo
independente, enquanto que os averrostas sustentaram o dever do filsofo de
seguir a razo humana at as suas concluses naturais. Tinha comeado a
ciso entre filosofia e teologia.
      No final da Idade Mdia, os mtodos filosficos mais antigos foram
formalizados em escolas definidas de pensamento, como o tomismo, o
averrosmo e o scotismo, promulgado por Duns Scotus, que negou a auto-
suficincia da filosofia. No sculo XIV, tomismo e scotismo eram a via antiqua,
em contraste com a via moderna fundada por Guilherme de Ockham, que
tentou desvincular a f e a razo, e refor-las separadamente. Essa
tendncia de afastamento do aristotelismo foi ampliada por Jean de Mirecourt
e Nicole d'Autrecourt, e acentuada pelo misticismo especulativo de Eckhart.
Pensadores cristos como Nicolau de Cusa retornaram ao neoplatonismo,
abrindo caminho para o platonismo renascentista. Ver Alain de Lille; Alberto de
Colnia; Buridan, Jean; Durando de Saint-Pourcain; Guilherme de Champeaux;
Siger de Brabante                                                       GE
 G. Leff, Medieval Thought (1958); F. Copleston, A History of Philosophy
(1963); J. Marenbon, Early Medieval Philosophy 480-1150: An Introduction
(1983) [E. Gilson, La filosofia en la Edad Media, Madrid, Gredos, 1965; P.
Boehner e E. Gilson, Histria da filosofia crist, Petrpolis, Vozes, 1970]

Finlndia Os finlandeses eram um povo asitico cuja lngua, parente distante
do hngaro, pertence ao grupo comumente designado como fino-grico, o qual
no faz parte da famlia indo-europia de lnguas. Solidamente instalados em
sua ptria moderna a partir do sculo VIII, s foram convertidos ao
Cristianismo no sculo XII, sob presso predominantemente sueca. Seu santo
padroeiro  um ingls, Henrique, que veio a ser bispo de Uppsala em torno de
1152 e foi martirizado durante uma expedio missionria  Finlndia, por
volta de 1160. Na poltica, seu destino estava intimamente ligado aos altos e
baixos do poderio sueco e, em fins da Idade Mdia, a Finlndia era apenas
um ducado dependente da Sucia, quando, justamente nesse mesmo perodo,
Novgorod caa sob domnio moscovita. Entretanto, os finlandeses
conservaram elementos de autogoverno e uma forte identidade social e
lingstica.
 E. Jutikkala e K. Pirinen, A History of Finland (1962); E. Kivikoski, Finlndia
(1967)

Flandres A partir do sculo IX, um condado cada vez mais autnomo resultou
da desintegrao da Europa Carolngia. Vrios governantes de comprovada
competncia (Balduno IV, 988-1035; Balduno V, 1035-67; Roberto, o Frsio,
1071-93) uniram esses principados heterogneos mas dinasticamente
aparentados, os quais atingiram o auge de seu prestgio com Thierry de
Alscia (1128-68) e seu filho Filipe (1168-91). A unidade e prosperidade de
Flandres foram obtidas quando as antigas estruturas feudais foram
substitudas por uma organizao administrativa e fiscal que empregava
funcionrios assalariados, e complementadas por um sistema judicial
centralizado. A riqueza da regio foi fomentada pela cesso de certos direitos
de suserania, o que permitiu s cidades conhecerem grande expanso
econmica.
     Investidas e maquinaes francesas para incorporar o principado foram
superadas durante o sculo XII. Entretanto, o crescimento de divises internas
entre faces aristocrticas e grupos sociais dentro das cidades permitiu aos
franceses obterem considervel controle em 1300, antes de serem
severamente derrotados em Courtrai, em 1302. O tratado de Athis-sur-Orge
(1305) reconheceu a independncia flamenga, mas imps substanciais
encargos financeiros ao condado e a perda de Lille, Douai e Orchies.
      No sculo XIV, as cidades, sobretudo Gand, tentaram estabelecer a
autonomia comunal do condado, um conflito agravado pelas exigncias da
Guerra dos Cem Anos. O conde ficou do lado do seu suserano francs; as
cidades, dependentes de l e dos panos ingleses, eram favorveis 
Inglaterra. Lus de Mle (1346-84) reconciliou essas correntes discordantes
numa poltica mais flexvel. Com sua morte, Flandres passou para o domnio
dos duques de Borgonha, que eram usualmente aliados dos reis ingleses nas
lutas dinsticas da Frana. Carlos, o Temerrio, tentou desenvolver um
Estado neerlndico-borgonhs, mas com sua morte em 1477, os territrios
passaram para sua filha Maria de Borgonha. Seu casamento subseqente
com Maximiliano da ustria resultou na unio de Flandres aos domnios da
casa imperial de Habsburgo. Riqueza, complexos desenvolvimentos urbanos e
divises polticas, refletidos em parte por divises lingsticas entre o francs
e o flamengo, fornecem os principais temas da histria flamenga na Idade
Mdia. Ver Pases Baixos
 H. Pirenne, Histoire de Belgique, vol. I (1929)

Florena De importncia relativamente secundria no incio da Idade Mdia,
apesar de seu papel como sede de um ducado lombardo e, mais tarde, como
residncia ocasional do margrave da Toscana, Florena ascendeu a um lugar
de destaque na Toscana e a uma posio proeminente na economia europia
depois do sculo XII. Sua grande riqueza, derivada principalmente da indstria
(em especial a txtil), combinada com o comrcio e a atividade bancria,
encorajou a imigrao, o que resultou no rpido crescimento de sua populao
mas tambm contribuiu para as divises internas.
     Desde os comeos do sculo XIII, a nobreza e os grandes mercadores,
secundados por grupos sociais inferiores, estavam divididos em dois partidos:
os gibelinos, que apoiavam a causa imperial na luta entre o Imprio e o
Papado desde 1230, aproximadamente, e os guelfos, que eram favorveis 
causa papal, embora os interesses e lealdades de ambos os partidos fossem
predominantemente locais. O conflito civil exigiu novos dispositivos para
manter a ordem e, no final do sculo XII, o governo consular que administrara
a comuna independente de Florena desde pouco depois da morte de Matilde
da Toscana (1115), foi substitudo pelo cargo de podest para o exerccio da
magistratura suprema. A fim de assegurar uma administrao imparcial, o
podest foi recrutado, a partir do comeo do sculo XIII, fora da cidade.
     No transcurso do sculo XIII, o poder poltico passou a repousar cada
vez mais nos mercadores organizados nas maiores guildas, graas ao
sucesso internacional do comrcio e dos bancos florentinos, o que foi
confirmado pela emisso, desde 1252, do florim de ouro. Dois anos antes, a
populao no-nobre tinha estabelecido sua prpria organizao -- uma
espcie de Estado dentro do Estado -- duplicando as instituies comunais
em suas prprias magistraturas e conselhos. Isso durou at a vitria gibelina
sobre a Florena guelfa em 1260, e foi restabelecido numa base
corporativista, agora de forma permanente, em 1282. Em 1293, a vitria do
novo regime do popolo culminou na excluso das famlias nobres do governo,
definidas como magnatas, e sua sujeio a severas punies por delitos
contra os popolani. Os seis, depois oito, priores e o gonfaloneiro de justia
foram mantidos at o sculo XVI no governo da cidade, ficando o podest
reduzido s suas funes judiciais. A construo, iniciada no final do sculo,
da nova catedral e do Palazzo Vecchio, indica a prosperidade de Florena e o
orgulho dos cidados por suas realizaes; tambm reflete o espetacular
crescimento populacional, que por volta de 1338 tinha provavelmente
superado a marca dos 100.000 habitantes.
     O regime popular adotou o guelfismo como sua bandeira mas a diviso
do partido guelfo, na virada do sculo, prenunciou o surgimento de faces de
que Florena continuou sofrendo durante todo o sculo XIV, e que foi
intensificado depois da Peste Negra. Outras fontes de conflito interno foram o
antagonismo, aguado pelas Ordenaes de Justia de 1293, entre a nobreza
magnata e setores do popolo, e, cada vez mais, os contrastes sociais entre
os artesos das guildas menores e os patrcios das guildas maiores. Aps o
efmero governo desptico (1342-43) de Gautier de Brienne, duque de
Atenas, os "novos homens" organizados nas guildas de ofcios conseguiram
aumentar substancialmente sua participao no governo; mas  recuperao
patrcia seguiu-se uma tentativa da liderana oligrquica do partido guelfo,
com vistas ao estabelecimento do controle virtual do Estado. Na esteira da
reao contra essa poltica, o descontentamento entre os trabalhadores
submetidos s guildas da l e da seda explodiu em 1378 na revolta dos
Ciompi. A Peste Negra de 1348 tinha reduzido dramaticamente, talvez em
mais da metade, a populao de Florena, mas os efeitos econmicos s
estavam indiretamente relacionados com essa convulso social. O regime
democrtico de guildas instalado aps sua supresso foi a ltima e a mais
radical manifestao de organizao corporativa no governo da cidade.
      O regime que o substituiu em 1382 j no era dominado pelas guildas ou
o partido guelfo. Instituies e valores corporativos continuaram sendo
elementos importantes na poltica florentina mas deixaram de ter a influncia
de que desfrutavam anteriormente. O novo regime era aristocrtico, na
medida em que o patriciado ocupava uma posio predominante dentro de
uma classe governante definida pela elegibilidade para altos cargos; mas as
guildas de ofcios no estavam inteiramente excludas do regime. A autoridade
do governo foi reafirmada, embora as decises mais importantes
continuassem sujeitas ao consentimento dos conselhos legislativos. Uma das
notveis realizaes do regime foi a expanso dos domnios florentinos pela
aquisio de Arezzo, Pisa e Cortona com seus territrios, e a gradual
transformao dos mesmos num Estado territorial. A oposio toscana ao
expansionismo florentino ajudou o duque de Milo, Giangaleazzo Visconti, em
sua investida rumo a essa regio. Em suas guerras contra ele, desde 1390,
os florentinos autoproclamaram-se defensores da liberdade contra a tirania; a
morte de Giangaleazzo em 1402 e a conquista de Pisa em 1406 garantiram
no s a independncia da cidade mas tambm sua hegemonia na Toscana.
     O regime aristocrtico gozou de um notvel grau de coeso at a dcada
de 1420, quando, diante de uma crise fiscal e de renovada guerra com Milo,
a cidade dividiu-se uma vez mais em duas faces. Tanto a implantao em
1427 de um imposto progressivo baseado na propriedade, o catasto, quanto a
paz com Mio em 1428 no atenuaram essa diviso, que culminaria em 1433
com a vitria dos Albizzi sobre os Medici, e no exlio de Cosimo de Medici. O
regresso deste em 1434 assinalou a derrota dos Albizzi, seguido por seu exlio
e o de muitos de seus adeptos. Atravs de reformas, especialmente no
mtodo de eleger a Signoria, Cosimo estabeleceu gradualmente sua
ascendncia pessoal e a do seu partido, at obter o controle da administrao
e da legislao. Mas essas reformas defrontaram-se com repetida resistncia
e sofreram seu mais srio revs em 1456-66. Embora efmero, o xito dessa
oposio aos controles medicianos demonstrou a robustez das tradies
republicanas.
      Em 1478, a hostilidade dos Pazzi, apoiados por Roma, ocasionou um
atentado contra a vida de Loureno de Medici, do qual ele saiu ileso mas em
que seu irmo Giuliano morreu apunhalado. A conspirao dos Pazzi resultou
em guerra contra o papa e o rei de Npoles; na concluso da paz, a posio
de Loureno como chefe virtual da repblica estava decisivamente estabilizada
e fortalecida, mas o papel da elite poltica do regime tambm foi promovido
pela criao de um Conselho Supremo dos Setenta, a quem incumbia
controlar a legislao, assim como a poltica externa e interna; estabelecido
para mandatos de cinco anos, o Conselho foi periodicamente renovado at a
queda do regime. Aps a morte de Loureno em 1492, Pedro no conseguiu
preservar o delicado equilbrio entre interesses divergentes que seu pai tinha
realizado em Florena e do qual fizera a pedra angular de sua poltica externa.
Impotente para impedir a invaso da Toscana por Carlos VIII, Pedro fugiu da
cidade em meio a um levante popular (1494). Todas as instituies medicianas
foram abolidas mas os patrcios, que tinham desempenhado um papel decisivo
na queda do regime Medici, e que haviam pertencido ao seu mais prestigioso
grupo, no conseguiram restaurar o regime aristocrtico do incio do sculo
XV. A criao, devida em grande parte  pregao de Savonarola, de um
Grande Conselho de mais de 3.000 cidados que -- imitando o maggior
consiglio veneziano -- eram exclusivamente responsveis pela legislao e as
eleies para cargos oficiais, significou uma radical reforma constitucional que,
embora ampliando substancialmente a participao ativa dos cidados na
poltica, tornou possvel para uma elite poltica manter um papel predominante
no governo de Florena. Mesmo assim, o descontentamento patrcio com as
crescentes tendncias democrticas no Grande Conselho levou em 1502 
transformao do gonfaloneirato de justia num cargo vitalcio. No obstante,
no foi a oposio interna mas a presso militar resultante da batalha de
Ravena que constituiu a principal causa da queda do regime republicano e do
restabelecimento dos Medici em 1512.                                    NR
 F. Schevill, History of Florence (1936); G.A. Brucker, Florentine Politics and
Society, 1343-1378 (1962); Renaissance Florence (1969; nova edio com
bibliografia suplementar, 1982); N. Rubinstein, The Government of Florence
under the Medici, 1434 to 1494(1966) [R. Davidsohn, Storia di Firenze, 8
vols., Florena, Sansoni, 1956-1965; P. Antonetti, L'Histoire de Florence,
Paris, Laffont, 1973]

Florena, Conclio de (1438) Com seu claro reconhecimento da autoridade
papal e suas tentativas, quer bem-sucedidas quer frustradas, de realizao da
unidade crist, o Conclio de Florena revela elementos de fraqueza e de
fora no movimento conciliar do sculo XV. Em 1437, o papa Eugnio IV
transferiu o pernicioso Conclio de Basilia para Ferrara e em 1438 para
Florena. Um grupo remanescente permaneceu em Basilia, num desafio ao
papa. Uma poderosa delegao grega visitou o Conclio, chefiada pelo
imperador bizantino Joo VIII, procurando ajuda militar para Constantinopla e
oferecendo em troca a unio religiosa; frmulas de acordo, mediante
concesses mtuas, foram combinadas em relao a divergncias teolgicas
a respeito da clusula Filioquee o tipo de po usado para a Eucaristia. Em
compensao, iniciava-se uma Cruzada com patrocnio papal, mas que foi
desbaratada em Varna em 1444. A queda de Constantinopla, em uma
dcada, liquidou com todas as esperanas de unio.
       Outras unies religiosas estabelecidas em Florena foram mais
permanentes: os latinos foram unidos  Igreja copta do Egito (1440), aos
armnios (1439), caldeus e maronitas (1445). O Conclio tambm desferiu um
significativo golpe nos elementos antipapais do movimento. Srias
deliberaes com os gregos tiveram lugar em Florena, no em Basilia;
considerou-se que a autoridade suprema residia no papa e no no Conclio
per se. Aps a morte de Eugnio IV (1447), Nicolau V conseguiu a
reconciliao com os cardeais recalcitrantes que permaneceram em Basilia.
 J. Gill, The Council of Florence (1959)

floresta, lei da Direitos de caa e o estabelecimento de reservas de terra,
bosques ou pastagens, para uso da nobreza eram comuns em toda a Europa
feudal, mas foi na Inglaterra normanda que o desenvolvimento de uma lei da
floresta, paralela  legislao normal sobre o uso da terra, tornou-se muito
pronunciado. A criao por Guilherme I da Nova Floresta e as penalidades
selvagens (inclusive a mutilao) impostas para salvaguardar a caa so
notrias, mas as leis florestais, com sua elaborada parafernlia de tribunais,
meirinhos, couteiros e fiscais, eram fruto do legalista sculo XII, mormente de
Henrique II e seus juristas. As Cortes de Woodstock (1184) estabeleceram o
comparecimento compulsrio a tribunais florestais e em 1215 as florestas
tinham se tornado um smbolo to ostensivo da tirania real que a Magna Carta
recebeu clusulas especiais proibindo os piores abusos. Estatutos Florestais
separados foram introduzidos durante a menoridade de Henrique III,
estritamente associados s reedies da Magna Carta e, no final da Idade
Mdia, a lei florestal tinha comeado a cair em desuso. As mais conhecidas
entre as florestas inglesas eram a prpria Nova Floresta, as florestas de
Dean, de Windsor e de Sherwood, mas terras com florestas eram
encontradas esporadicamente em muitos condados; num dado momento,
quase a totalidade do Essex foi declarada sob legislao florestal. As lendas
de Robin Hood condensam a verdade potica de que, na opinio comum,
florestas e lei da floresta eram sinnimos dos piores aspectos do arbitrrio
governo real.
 C. Petit-Dutaillis, Studies Supplementary to Stubbs' Constitutional History,
vol. 2(1935); CR. Young, The Royal Forests of Medieval England (1979)

florim (latim florenus, italiano forino) Moeda florentina de ouro pesando 3,54
gramas e cunhada continuamente sem alterao de peso, pureza e padro de
1252 a 1533. Seu valor inicial era de L1 em moeda de conta local mas a
inflao de cunhagem em prata e em liga aumentou-lhe muito o valor; em 1450
valia  4 16s. No final do sculo XIII e durante todo o sculo seguinte, foi o
meio de cmbio internacional mais geralmente aceito em toda a Europa
ocidental, e no sculo XIV foi muito imitado, especialmente nos reinos de Aries
e de Arago.

Fcio (c. 820-91) Patriarca de Constantinopla.  recordado por seu papel na
precipitao de um cisma entre Oriente e Ocidente. No incio de carreira, foi
um leigo que exerceu funes elevadas na corte de Bizncio e ensinou na
Universidade de Constantinopla. Em 858 foi eleito patriarca de Constantinopla,
depois que seu predecessor, Incio, foi deposto por ter censurado o
imperador Miguel. O papa Nicolau I apoiou Incio, recusando o pedido de
reconhecimento de Fcio, e a questo do Patriarcado acabou identificada com
a da jurisdio papal sobre a Igreja oriental, o que permitiu a Fcio tirar
vantagem pessoal do sentimento anti-ocidental. A disputa foi ainda mais
agravada pela atividade de missionrios latinos na Bulgria. Nicolau I
excomungou Fcio, que em 867 convocou um conclio em Constantinopla, o
qual anatematizou e deps o papa, e denunciou erros latinos, incluindo a
adio Filioque no Credo, o jejum de sbado e a ausncia de barba em
clrigos. No mesmo ano, Fcio caiu em desfavor na corte e Incio foi
reconduzido ao cargo. Com a morte de Incio (879), Fcio foi reempossado,
agora com o reconhecimento do papa Joo VIII, mas a forma desastrada
como conduziu um conclio em Constantinopla f-lo perder o favor papal,
causando um novo cisma; a assdua campanha de intrigas movida contra
Fcio pelos partidrios de Incio acabou por levar o imperador Leo VI a
ordenar seu permanente exlio (886).
 M. Jugie, Photius et la primaut de St. Pierre et du pape (1921); F. Dvornik,
The Photian Schism (1948)

fogo grego Arma naval bizantina inventada por Calmaco, um engenheiro
srio, e usada pela primeira vez no cerco de Constantinopla (674-78). Era um
composto altamente combustvel, baseado numa mistura de petrleo, enxofre,
salitre e cal viva no-queimada, que se inflamava com o impacto e ardia na
gua. Era usado balisticamente na forma de uma granada de mo ou em
conjunto com um "sifo" de cobre ou catapulta. Ver guerra

Foliot, Gilberto (m. 1188) Bispo de Londres. De famlia aristocrtica
normanda, Foliot foi educado em Cluny e desempenhou um papel destacado
na histria eclesistica inglesa, representando um forte elemento de oposio
a So Toms Becket. Foi abade de Gloucester em 1138 e bispo de Hereford
a partir de 1148, mantendo-se fiel  causa angevina durante toda a sua
carreira. Ficou evidentemente decepcionado quando Becket foi nomeado para
Canterbury em 1162, embora sua prpria transferncia para Londres no ano
seguinte tenha ocorrido como uma espcie de contrapeso em relao a
Becket; Foliot atuou como agente de Henrique II nas negociaes com o
Papado, desempenhou um papel importante na coroao do jovem rei
Henrique em 1170 e estava na Normandia na poca do martrio de Becket.
Excomungado por sua participao nesses turbulentos acontecimentos, foi
absolvido em 1172 e continuou desempenhando um papel ativo na vida
eclesistica inglesa.
 D. Knowles, The Episcopal Colleagues of Archbishop Thomas Becket
(1951)

fome  importante definir a fome na Europa medieval de modo que se distinga
a fome "verdadeira" da grande escassez espordica de vveres que era
inevitvel numa era em que a economia agrria, bsica, dependia em grande
parte dos caprichos do clima e da colheita. De um modo geral, as tcnicas de
produo e distribuio de alimentos eram suficientes para sustentar a
populao, desde que -- e essa  uma importante condio -- ela estivesse
livre de guerras, banditismo, pirataria e a selvageria geral associada a tal
violncia, especialmente em pocas de invases de brbaros. Havendo uma
relativa paz, o solar medieval e as prticas agrrias e pastoris, dentro e fora
da economia senhorial, eram eficientes o bastante para impedir a fome.
       No perodo central da Idade Mdia a situao prosperou e, durante o
perodo de melhores condies climticas que transcorreu entre meados do
sculo XI at o final do sculo XIII, a maior parte da Europa ocidental esteve
bem alimentada, apesar de contnuos desastres polticos, culminando com as
invases mongis, terem gerado grande desolao e habituais condies de
escassez de alimentos em vastas reas do leste do continente. Somente
depois de 1300  que se tornaram claros os registros de srias e prolongadas
fases de fome no Ocidente, tanto nas cidades como nos campos. Duas
razes gerais foram sugeridas para o fenmeno: um declnio climtico e uma
exausto da economia que atingira seu ponto de saturao -- quer dizer, o
ponto em que as tcnicas existentes de explorao agrria e de organizao
urbana no podiam continuar sustentando o aumento populacional que
resultara do perodo precedente de crescimento; em outras palavras,
passaram a ocorrer controles malthusianos.
     Sem dvida, as primeiras dcadas do sculo XIV foram duras e as
carestias de 1315-17 excepcionalmente severas. A Peste Negra, em meados
do sculo, e os subseqentes surtos de pestilncia exacerbaram ainda mais a
situao, e a diminuio da populao rural no Ocidente foi duradoura, sem
qualquer indcio significativo de recuperao antes do final do sculo XIV. A
vivida representao artstica de desastres apocalpticos em fins da Idade
Mdia -- fome, pestilncia, guerra e morte -- serve para nos lembrar das
"verdadeiras" fomes causadas pelos deslocamentos econmicos desse
perodo. Ver agricultura    HRL
 H.S. Lucas, The Great European Famines of 1315, 1316 and 1317 (1930);
E. LeRoy Ladurie, Times of Feast, Times of Famine (1971); R. Tannahill,
Food in History (1973) [G. Duby, Economia rural e vida no campo no
Ocidente medieval, 2 vols., Lisboa, Edies 70, 1987-1988]

Fontenoy, batalha de (841) Evento decisivo na histria do Imprio Carolngio,
a batalha destruiu as esperanas de Lotrio, neto de Carlos Magno, de
estabelecer uma efetiva suserania unitria sobre seus irmos, Lus II, o
Germnico, e Carlos, o Calvo, de Frana. Derrotado pela coligao destes
dois, Lotrio foi forado a concordar com os termos do tratado de Verdun
(843), pelo qual o Imprio era efetivamente repartido em trs unidades
prontas para se converterem nos moldes histricos da Frana, Alemanha e o
Reino do Meio, governado diretamente por Lotrio, o qual inclua a Lorena, a
Borgonha e a Lombardia, assim como boa parte da Itlia.

Fontevrault Abadia fundada por volta de 1100 pelo eremita e pregador
breto Roberto de Arbrissel. Era um mosteiro duplo para monges e monjas. A
Ordem inspirou-se na Regra Beneditina, mas a abadessa tinha completa
autoridade sobre ambas as casas. Mais de uma centena de mosteiros da
Ordem foram instalados na Frana, muitos na Espanha e trs na Inglaterra.
Sua clientela era principalmente constituda por filhas da aristocracia. Na
prpria Fontevrault existem oito tmulos reais de Plantagenetas ingleses,
incluindo os de Henrique II, Leonor de Aquitnia, Ricardo I e Isabel de
Angoulme, esposa de Joo Sem Terra.  D. Knowles, The Monastic Order
in England (1963)

Fortunato, Venncio (c. 530-600) Poeta e apologista cristo, foi influente na
propagao da mensagem crist na Igreja primitiva atravs de suas Vidas de
santos e de seus poemas. Foi protegido pela dinastia Merovngia,
principalmente pelo rei Sigeberto e sua famlia (c. 565-87). Encorajado por
Gregrio de Tours, foi admitido ao sacerdcio e acabou sendo bispo de
Poitiers pouco antes de sua morte.
 F.J. Raby, A History of Secular Latin Poetry in the Middle Ages, vol. I
(1957)

Foscari, Francisco (1373-1457) Eleito doge de Veneza em 1423. Sua
poltica era a do partido da guerra, que advogava a expanso territorial na
Itlia continental, na terra ferma; em 1425 reiniciou a guerra com Milo, a qual
s veio a terminar com a Paz de Lodi, em 1454. As preocupaes italianas de
Foscari deixaram os interesses orientais venezianos vulnerveis aos ataques
turcos, e isso contribuiu para a perda de Constantinopla (1453), e Foscari
ento teve que aceitar um tratado desvantajoso a fim de conservar o acesso
s rotas comerciais com o Oriente. Enfrentou crescente oposio em Veneza
e foi finalmente desacreditado por uma srie de acusaes formuladas contra
seu filho Jacopo. Foi forado a demitir-se em outubro de 1457.
 W.C. Hazlitt, The Venetian Republic, vol. I (1915)

Foulques IV Rechin (1068-1109) Conde de Anjou. Filho mais novo do conde
Godofredo Martel, herdou terras ao sul do Loire com a morte de seu pai em
1060, mas avanou para o norte, depondo seu irmo Godofredo em 1067 e
obtendo o reconhecimento como conde de Anjou no ano seguinte. Sob sua
vigorosa liderana militar, as ambies normandas foram repelidas com xito
e Foulques consolidou seu feudo ao norte do Loire ao ponto de transform-lo
numa das mais poderosas unidades na Frana feudal, famosa por seus
castelos e eficincia administrativa.
 O. Guillot, Le Comt d'Anjou et son entourage au XIe sicle (1972)

Foulques V rei de Jerusalm 1131-43 (n. 1095) Conde de Anjou, 1109-28,
Foulques V deu significativas contribuies em duas esferas importantes para
o desenvolvimento geral da Europa do sculo XII, a saber: ajudou a lanar os
alicerces do Imprio Angevino e contribuiu de modo considervel para a
consolidao do reino do Ultramar. Em ambas as comunidades mostrou as
mesmas caractersticas: habilidade no governo e administrao e soberba
viso estratgica na instalao de castelos e fortalezas. Tendo herdado um
poderoso feudo de seu pai, Foulques TV, herdou tambm a intensa rivalidade
e hostilidade em relao aos normandos. Numa extraordinria inverso da
poltica tradicional, concordou com o casamento, em 1128, de seu filho
Godofredo Martel (Plantageneta) com a nica filha legtima sobrevivente do rei
Henrique I da Inglaterra, a princesa Matilda, e abdicou a favor de seu filho,
trocando sua terra natal pelo reino cruzado na Terra Santa. Casou a com
Melisanda, herdeira de Balduno II, e foi proclamado rei de Jerusalm em
1131. Como recm-chegado, teve dificuldades para afirmar a autoridade real
com os grandes vassalos regionais de Trpoli, Antioquia e Edessa, mas no
principado central de Jerusalm provou ser um monarca eficiente e capaz.
 H.E. Mayer, Studies in the History of Queen Melisande (1972)

Frades Brancos Ver carmelitas

Frades da Estrita Observncia Sob a liderana de So Bernardino de Siena,
um grupo reformista do movimento franciscano tentou voltar  simplicidade
primitiva recomendada pelo seu fundador, sobretudo em questes referentes
 pobreza e ao uso de propriedade. Tornaram-se uma das mais poderosas
foras religiosas na Itlia, mas suas relaes com a generalidade mais
complacente da Ordem, os Conventuais, como passaram a ser chamados,
foram sistematicamente difceis e, por vezes, tempestuosas, at que em 1517
o papa Leo X resolveu estabelec-los como Ordem autnoma.
 D. Douie, The Nature and Effect of the Heresy of the Fraticelli (1932); M.D.
Lambert, Franciscan Poverty (1961)

Frades Menores Ver Francisco de Assis, So

Frades Observantes Ver Domingos, So

Frades Pregadores Ver Domingos, So

Frana Durante o perodo entre a dissoluo do Imprio Carolngio e o final
do sculo XV, a Frana no era nem uma comunidade poltica homognea,
nem uma rea geogrfica bem definida. Que um mapa do sculo XIII possa
sugerir que o bispado de Le Mans era capaz de situar-se fora do reino da
Frana, indica claramente que as fronteiras territoriais do poder da monarquia
francesa raras vezes coincidiam com as indeterminadas fronteiras da
"Frana". Com efeito, durante boa parte de sua histria medieval, o reino da
Frana parece ter sido pouco mais do que uma conveniente expresso
geogrfica, no interior da qual era possvel localizar vrios dos mais
importantes desenvolvimentos formativos do perodo medieval, como a
expanso normanda, o incio do monasticismo Cisterciense e das Cruzadas, a
renovao dos estudos teolgicos do sculo XII ou o Papado de Avignon.
      Durante um longo perodo, a fragmentao poltica e a diversidade
regional foram os temas dominantes. Desde o sculo IX at o incio do sculo
XIII, a monarquia era fraca e carente de influncia. A conquista do Imprio
Angevino por Filipe Augusto em 1203-04 foi um importante ponto de
transformao; contudo, ao longo dos sculos XIII e XIV, somente em parte
foram bem-sucedidos os esforos para centralizar a jurisdio real e para
lanar impostos extraordinrios atravs de instituies representativas,
tomando por modelo os critrios adotados pelas monarquias inglesa e
espanhola. O que transformou fundamentalmente a monarquia e o reino no
sculo XV foi o triunfo Valois na Guerra dos Cem Anos, o qual abriu o caminho
para o Absolutismo do sculo XVI.
     Durante os sculos X e XI, a forma dominante de organizao poltica
era o principado territorial. Tais concentraes locais de poder, reconhecendo
pouca ou nenhuma autoridade externa, emergiram, durante as condies
sumamente desordenadas do sculo X, em Flandres, na Normandia, no Anjou
e na Aquitnia, entre numerosos casos. Por toda parte ocorreram mudanas
sociais centradas na construo de castelos tecnicamente rudimentares, os
quais se tornaram o foco de um tipo de poder a que as autoridades modernas
do o nome de "senhorio banal". Tal senhorio identificava-se com o domnio
total sobre o campesinato local atravs do uso da fora e do exerccio dos
direitos reais de outrora. Associada a isso ocorria uma complexa e
fundamental transformao social: o rebaixamento dos camponeses de status
livre e a substituio da escravatura pela servido como o mtodo mais
comum de explorao. O ritmo de mudana variou de regio para regio, mas
suas manifestaes estavam claras na maioria dos lugares no incio do sculo
XI. Como conseqncia, quando Hugo Capeto (o primeiro da dinastia
Capetngia) subiu ao trono em 987, a autoridade real efetiva estava
circunscrita  regio em redor de Paris e Orlans, onde a famlia tinha suas
terras. Pouca coisa sobrava para os primeiros Capeto alm do direito mpar e
nunca contestado de se intitularem reis, e dos direitos, predominantemente
nominais, de suserania sobre os prncipes territoriais. De um modo mais geral,
as mudanas at ameaaram desmembrar muitos dos principados, incluindo o
real. A autoridade do prncipe era fortssima na Normandia e em Flandres; em
algumas regies do sul desmoronou completamente.
      O equilbrio territorial entre monarquia e cada principado foi
drasticamente alterado pelas conquistas de Filipe Augusto. Suas realizaes,
entretanto, apoiaram-se nos esforos de seus predecessores e nos
desenvolvimentos econmicos do sculo XII, propensos a favorecer aqueles
que j possuam riqueza. A unicidade do ttulo real era um importante fator
para emprestar legalidade  destruio do Imprio Angevino por Filipe
Augusto. No sculo XIII, a grande superioridade de recursos em relao aos
demais prncipes consolidou o prestgio de um governante como So Lus,
que pde se apresentar como o monarca medieval ideal, garantindo os
direitos de todos os homens e comandando Cruzadas. Mas o legado do longo
perodo de poderes locais foi um particularismo regional que obstruiu os
intensos esforos de centralizao da autoridade desenvolvidos por Filipe, o
Belo. Durante os sculos XIII e XIV, as administraes dos principados
territoriais remanescentes de Flandres, Bretanha, Borgonha e Aquitnia --
este ltimo sob domnio do rei ingls -- desenvolveram-se de acordo com
uma orientao paralela  adotada pela administrao real. Choques cada vez
mais freqentes, como a guerra com Flandres, no reinado de Filipe, o Belo, e
as ligas provinciais de nobres (1314-15), fundiram-se depois de 1328 com a
disputa sucessria Valo is, para culminar na Guerra dos Cem Anos. Se bem
que, em ltima anlise, fosse o solvente de muita autonomia poltica local,
essa srie de conflitos levou a monarquia Valois  beira do desastre, depois
da vitria de Henrique V em Azincourt (1415).
      A histria medieval do reino francs deve, em muitos aspectos, ser vista
em termos da soma de suas partes constituintes. Por essa razo, escreveu-
se muita histria regional. Entretanto, a monarquia nunca pode ser
completamente ignorada porque, em conformidade com atitudes medievais
aceitas, jamais algum pensou em aboli-la. Em conseqncia disso, at
mesmo os maiores principados nunca desenvolveram uma autoridade poltica
que fosse verdadeiramente independente da monarquia, enquanto que os reis
podiam regularmente pretender possuir poderes que na realidade no tinham,
se bem que, quando o faziam, pareciam s vezes ser loucos. No se pode
esquecer que, em 1202, Filipe Augusto pde processar judicialmente o rei
Joo Sem Terra como o ltimo senhor feudal da Frana, ou que foi para a
castigada corte de Carlos VII que as vozes de Joana d'Arc a encaminharam.
Com o surgimento do patriotismo francs durante a Guerra dos Cem Anos, a
monarquia tornou-se uma fora positiva em prol da unidade. Ao mesmo
tempo, apesar da presena de formidveis Estados locais na Normandia e na
Bretanha, por exemplo, a ausncia de instituies consultivas nacionais
autnticas permitia que os monarcas e seus conselheiros lanassem tributos
sem prvio consentimento e formulassem regras arbitrrias de procedimento
judicial. Ver Estados Gerais; francos; ver tambm reis individualmente
r egi str ados
DB
 R. Fawtier, Les sources de l'histoire de France des origines  la fn du XVe
sicle (1971); E.M. Hallam, Capetian France (1980) [J.-F. Lemarignier, La
France mdivale, Paris, Armand Colin, 1970]

francs anglo-normando O francs importado na Gr-Bretanha pelos
conquistadores normandos continuou sendo o vernculo falado na aristocracia
at pelo menos o final do sculo XIII, embora mais como uma lngua adquirida
do que como uma lngua materna. Em sua forma escrita, o francs insular foi
empregado nos documentos e registros administrativos, suplantando s vezes
o latim. O francs jurdico persistiu anacronicamente at fins do sculo XVII.
Tambm foi o veculo para um vasto conjunto de literatura predominantemente
didtica, desde Filipe de Thaon em 1120 at Gower por volta de 1400. O
enriquecimento do vocabulrio ingls por simbiose lexical  a contribuio mais
duradoura e tangvel do francs anglo-normando para a cultura britnica. Ver
lngua e dialeto

Francisco de Assis, So (c. 1181-1226) Filho de um abastado comerciante
de Assis, Francisco foi criado de modo a conhecer a diferena entre riqueza e
pobreza e entre os padres da cavalaria e os do escritrio comercial. Mostrou
pela primeira vez sua independncia ao saborear a vida de cavaleiro e depois
-- aps um longo perodo de indeciso e profunda reflexo -- renunciar a
todos os confortos materiais de seu lar para converter-se num pedinte: optou
pela dura vida de pobreza, mitigada por uma cavalheiresca devoo 
Senhora Pobreza, mas inspirado, mais verdadeiramente, pela interpretao
literal da exortao de Jesus para renunciar a tudo e segui-Lo. No Testamento
de Francisco, escrito no final de sua vida, ele descreveu as fases por meio
das quais superou sua impertinncia e orgulho naturais: assistindo aos
leprosos, que at ento o enchiam de repulsa; mostrando amor e reverncia
at ao mais humilde dos padres de parquia; e acatando e interpretando
literalmente a palavra de Deus. "Depois que o Senhor me concedeu irmos
ningum me mostrou o que eu tinha que fazer, mas foi o Altssimo quem me
revelou que eu devia viver de acordo com o modelo das Sagradas Escrituras."
      Depois de sua converso em 1206, Francisco tornou-se um andarilho e
um pedinte em Assis e suas circunvizinhanas: reparou a igreja de So
Damiano e outras igrejas, prestou assistncia a leprosos e auxiliou o clero da
regio. Em 1209, os discpulos comearam a se reunir  sua volta e em 1210
a Regra Primitiva foi redigida e levada ao papa. A mensagem de Francisco
era intensamente pessoal, em sua prpria opinio comunicada por Deus,
espontnea e influenciada pelas palavras dos Evangelhos. Essa no ,
entretanto, toda a verdade, pois no existem dvidas de que ele foi inspirado
por duas outras influncias, uma obscura, a outra razoavelmente clara.
      No vale de Spoleto, nos arredores de Assis, havia uma forte comunidade
de herticos ctaros, com um bispo prprio. Nos escritos de Francisco e nas
primeiras Vidas, eles so virtualmente ignorados. Acreditavam eles que o
mundo material era totalmente perverso e maligno; a viso que tinham do
destino humano era sombria. Francisco pregou que o mundo era criao de
Deus e bom -- convocou os pssaros e, no Cntico do Irmo Sol de seus
ltimos anos, toda a criao para juntar-se a ele nos louvores ao Criador.
Quando pregou aos pssaros mostrou sua profunda simpatia pelos animais;
tambm ensinou aos que estavam com ele, com o discernimento inspirado de
um professor nato, a adorar a Deus atravs de sua criao. Contestou assim
a doutrina ctara de um modo muito direto e positivo. At que ponto isso se
deve a ter meditado seriamente sobre a mensagem ctara est longe de ser
esclarecido.
      Mais evidente  a influncia de grupos e comunidades semelhantes 
dele j existentes. Tinham-se inspirado na busca de vida apostlica, em
imitao aos primeiros discpulos de Jesus; no sentimento de que a pobreza
era parte da convocao para o servio de Deus, assim como parte da face
mais dura e sofrida do mundo; no impulso irrefrevel para formar comunidades
de pregadores evanglicos que realizassem o trabalho pastoral que muitos
consideravam estar sendo negligenciado pelo clero paroquial. Essas idias
faziam parte do ar que um homem sensvel da idade de Francisco devia
respirar. Tampouco era ele o primeiro a solicitar a Inocncio III que desse sua
aprovao. No  fcil determinar onde reside a originalidade de Francisco;
havia, porm, a marca de uma personalidade e de uma inspirao muito
individuais em tudo o que disse e fez, e o seu sucesso foi espetacular. Levou
a recusa de propriedade a um ponto extremo e proibiu at seus discpulos de
manusearem moedas; treinou pregadores mas esperava que a maioria de
seus seguidores fossem leigos provenientes do povo comum, ensinando pelo
exemplo e merecendo o respeito e as esmolas pelo trabalho rduo; dava
nfase particular ao respeito pelo clero; e estabeleceu um relacionamento
especial com o papa atravs de cardeais escolhidos, sobretudo com Ugolino,
o futuro papa Gregrio IX.
      Nesse meio tempo, a Ordem cresceu. De uma dzia de membros em
1210, aumentou para centenas, talvez milhares, e espalhou-se por toda a face
da Cristandade; Francisco tentou lev-la ainda mais alm, at a corte do
sulto do Egito. Em 1212 deu a tonsura a Santa Clara, que veio a ser a
fundadora da Ordem Segunda -- a das Clarissas Pobres. No final da dcada
de 1210, foram tomadas medidas para formar misses e provncias na
Frana, Alemanha e Espanha, e em 1244 os franciscanos chegaram 
Inglaterra.
      Francisco tinha pouca f na organizao -- ou em sua capacidade de
organizao. Em certa medida, a Ordem foi estabelecida a despeito dele, e
os esforos para definir uma hierarquia e um status dentro dela, para
prescrever um ascetismo ritual em vez de sua prtica mais individual, e para
abrandar suas medidas extremas de pobreza, causavam-lhe evidente
consternao. Contudo, tinha a mais slida f na Regra e num certo nmero
de princpios centrais que definiram a vida e a natureza do "frade". A Regra
Primitiva tinha recebido aprovao verbal de Inocncio III em 1210, mas em
1215 o Quarto Conclio de Latro tentou, segundo parece, refrear a
generosidade do papa Inocncio para com os grupos informais de religiosos
(que tinham provado ser, em algumas regies da Frana e da Itlia,
sobretudo, as pontas-de-lana do inconformismo) proibindo novas Regras.
Francisco sustentou inabalavelmente que sua Regra no devia ser afetada,
uma vez que tinha sido aprovada, se bem que apenas de viva voz; e, aps
uma longa pausa e muitas revises, sua forma final foi consagrada na bula
papal de Honrio III (1223), que ainda pode ser vista no tesouro da baslica
de So Francisco em Assis.
      Os ltimos anos de vida de Francisco foram toldados pela doena, mas
a eles pertencem muitas das histrias mais caractersticas de seu herosmo e
ensino, reunidas pelo Irmo Leone e outros fiis companheiros. Faleceu na
noite de 3 de outubro de 1226 e, com grande rapidez, seu amigo, o papa
Gregrio IX, canonizou-o (1228), enquanto seu discpulo, o Irmo Elias,
edificava a bela igreja que ainda abriga o corpo de So Francisco. Esse
monumento pode ser visto como uma brilhante expresso do paradoxo de sua
vida, a dedicao da riqueza e da criao artstica ao apstolo da pobreza --
ou como uma simples negao de seus ideais. Na mesma ordem de idias, o
crescimento de sua Ordem foi considerado a apoteose de seus ideais e seu
abandono; em seu destino, tal como em sua vida, Francisco seguiu o mesmo
padro de seu Criador. Ver Bernardino de Siena; conventuais; Frades da
Estrita Observncia; Joo de Parma; Miguel de Cesena; Ordem Terceira de
So Francisco [95]                                       RB
 P. Sabatier, Vie de St. Franois d'Assise (1893-94); R.B. Brooke, Early
Franciscan Government (1959); M.D. Lambert, Franciscan Poverty (1961); J.
Moorman, A History of the Franciscan Order (1968); R.B. Brooke, The
Corning of the Friars (1975) [Escritos e biografias de So Francisco de
Assis, trad. O. Reis et alii, Petrpolis, Vozes, 2 ed., 1982; J. Joergensen,
So Francisco de Assis, Petrpolis, Vozes, 1982; L. Boff, So Francisco de
Assis: ternura e vigor, Petrpolis, Vozes, 1982; R. Manselli, San Francesco,
Roma, Bulzoni, 3 ed., 1982]
francos Um dos principais povos germnicos do Ocidente. Na poca das
migraes tribais dos sculos IV e V, os francos instalaram-se em dois grupos
principais, os slios, que ficaram a noroeste da fronteira do Reno, incluindo
grande parte da Blgica moderna, e os ripurios, em redor de Colnia, nas
terras entre o Mosela e o Reno. Aliados dos romanos durante a maior parte
do sculo V, assumiram o domnio poltico da Glia sob a liderana do slio
Clvis I (481-511). Ainda pagos nessa poca, com seus governantes, os
merovngios, afirmando-se descendentes de um deus marinho, os francos
passaram pelo que Gibbon chamou uma "converso oportuna" ao Catolicismo
romano (496-506).
      Essa nova identidade da religio com a populao romnica da Glia
ajudou-os politicamente, em especial na luta contra os visigodos arianos, a
quem Clvis derrotou na batalha de Vouille (507). A preservao de costumes
de uma herana dividida favoreceu a grande perturbao poltica no decorrer
dos sculos subseqentes, mas o seu Catolicismo, o crescente interesse
mtuo entre bispos e reis, e a preservao de uma reserva agrria e fundiria
no nordeste da Glia permitiram aos francos lanar os alicerces do que viria a
ser o reino da Frana.
 J.M. Wallace-Hadrill, The Long-Haired Kings (1962); E. James, The Origins
of France from Clovis to the Capetians (1982)

Frankfurt, Snodo de (794) Frankfurt-am-Main, local de um dos palcios
prediletos de Carlos Magno,  importante na histria eclesistica da Europa
ocidental por causa de um snodo realizado sob a superviso direta do
monarca franco, no qual o excessivo culto bizantino de imagens foi condenado
e se tomaram decises que aceitaram o ponto de vista de telogos
espanhis, de que a clusula Filioque devia ser aceita como parte integrante
do Credo (isto , que o Esprito dimana tanto do Pai como do Filho). Este 
um poderoso smbolo do modo como o rei estava preparado para interferir
at nas atividades e resolues mais ntimas da Igreja crist, um prenncio da
teocracia imperial que estava para chegar em breve.
 J.M. Wallace-Hadrill, The Frankish Church (1983)

frankpledge Sistema anglo-normando, baseado em prticas mais antigas,
pelo qual cada homem livre estava vinculado a um tithing, ou associao de
dez homens, que assumia a responsabilidade coletiva pelo bom
comportamento do grupo. O tribunal da comarca obrigava  participao
nesse sistema e o xerife realizava uma "inspeo de frankpledge" bienal, em
cada comarca de seu condado, a fim de verificar a eficincia desses tribunais.
 W.A. Morris, The Frankpledge System (1910); W.L. Warren, The
Governance of Norman and Angevin England 1086-1272 (1987)

Frederico I Barba-Ruiva imperador do Sacro Imprio Romano-Germnico
1152(55)-90 (n. c. 1123) Filho de Frederico II, duque da Subia, e de Judite,
filha de Henrique, o Orgulhoso, Frederico foi eleito rei alemo e rei dos
romanos em 1152. Esperava-se que ele pusesse termo  destrutiva luta entre
guelfos e gibelinos, sendo ele prprio meio-guelfo e meio-Hohenstaufen por
nascimento.
       Sua nica ambio era devolver ao Imprio sua antiga glria. Tendo
garantido primeiro a paz interna, voltou suas atenes para a Pennsula
Italiana. Frederico partiu para Roma em 1154, a primeira de seis expedies,
e foi coroado imperador por Adriano IV um ano depois. No seu regresso 
Alemanha, restaurou a lei e a ordem concedendo a Henrique, o Leo, o
ducado da Baviera, e a Henrique Jasomirgott a transformao de seu
margraviato da ustria num ducado.
      Em 1158, Frederico parte de novo para a Itlia, desta vez empenhado
em submeter as comunas lombardas. Reafirmou o seu controle na Dieta de
Roncaglia e tambm elegeu podests como seus representantes em vrias
cidades. O cisma de 17 anos do Papado que deflagrou em 1159 com a morte
de Adriano, isolou Barba-Ruiva na Europa; ele apoiou as pretenses dos
antipapas contra Alexandre III. Sua quinta expedio  Itlia (1174) redundou
em desastre; derrotado em Legnano (1176) pelas foras da Liga Lombarda,
Barba-Ruiva foi obrigado a solicitar a paz com Alexandre. Conseguiu obter
uma posio segura na Itlia em 1186, com o casamento de seu filho
Henrique com Constana, herdeira do reino da Siclia. No caminho para a
Cruzada contra Saladino, morreu afogado no rio Salef. Governante austero e
exigente, notabilizou-se pela sagacidade e entusiasmo com que se dedicou 
restaurao do Imprio. Ver Reinaldo de Dassel
 Otto of Freising, The Deeds of Frederick Barba-rossa, trad. de C.C. Mierow
(1953); M. Pacaut, Frederick Barbarossa (1967); P. Munz, Frederick
Barbarossa (1969) [F. Cardini, Barbarroja, Barcelona, Pennsula, 1987]

Frederico II imperador do Sacro Imprio Romano-Germnico (1212(20)-50)
(n. 1194) Rei alemo desde 1212, rei da Siclia desde 1198 e rei de
Jerusalm desde 1229. Filho do imperador Henrique VI e de Constana de
Siclia, e neto de Barba-Ruiva, foi oferecida a Frederico em 1212 a Coroa
imperial pelos prncipes da Alemanha que se opunham ao governo de Oto IV;
em 1220, estabeleceu a o seu governo e foi coroado imperador.
       No perodo de 1220-25 disps-se a consolidar seu domnio na Siclia.
Apesar de suas promessas de chefiar uma Cruzada  Terra Santa em 1215 e
1220, somente iniciou seus preparativos em 1227. Irritado pelos constantes
atrasos, o papa Gregrio IX acabou excomungando-o. No obstante,
Frederico partiu assim mesmo para a Terra Santa e, atravs de negociaes
com o sulto, pde assegurar a posse de Jerusalm e outros importantes
lugares. No seu regresso triunfal  Itlia, a excomunho foi-lhe cancelada, de
acordo com o tratado de So Germano (1230).
     A s Constituies de Melfi (1231), promulgadas pelo imperador,
representaram uma importante declarao sobre os fundamentos legais de
seu reino. Seu envolvimento nos assuntos das comunas italianas setentrionais,
na dcada de 1230, provocou um colapso nas relaes imperiais-papais.
Gregrio IX desencadeou uma guerra de propaganda contra ele e, aps a
morte do papa em 1241, seu sucessor, Inocncio IV, excomungou e destronou
Frederico no Conclio de Lyon (1245).
     Personalidade complexa, o imperador foi descrito como stupor mundi
(espanto do mundo) por Mateus Paris. Seus interesses cientficos e filosficos
esto representados por seu tratado de falcoaria, De Arte Venandi cum
Avibus, e tambm escreveu poesia no vernculo siciliano. Ver Giacomo; Liber
Augustalis; Iolanda de Brienne
 E. Kantorowicz, Frederick the Second (1931); Stupor Mundi, org. por G.
Wolf (1966); D. Abulafia, Frederick the Second (1988)

frsios Povo germnico ocidental. Os frsios eram os principais navegantes e
negociantes no noroeste da Europa no princpio da Idade Mdia. Foram
convertidos ao Cristianismo no sculo VIII pelos esforos de missionrios
anglo-saxnicos e francos, e tambm pela fora militar destes ltimos. So
Bonifcio, o maior dos missionrios anglo-saxnicos, foi martirizado pelos
frsios em Dokkum, em 754. Derrotas militares inflingidas por Carlos Magno
confirmaram o domnio franco, alteraram o equilbrio de poder e deram aos
vikings sua oportunidade de dominar o Mar do Norte, instalando uma poderosa
base de pirataria em Walcheren. A Frsia foi reconquistada pelos otonianos,
mas provou ser excepcionalmente resistente na preservao de suas antigas
instituies livres, opondo-se ao feudalismo at um perodo j bem avanado
da Idade Mdia. A percia em todas as artes relacionadas com o mar e em
todas as tcnicas de recuperao de terras mediante a construo de polders
e a instalao de diques, continuaria sendo uma caracterstica social
dominante.

Froissart (c. 1337-c. 1410) Natural de Valenciennes, desfrutou, no perodo de
1361-69, do patrocnio de Filipa de Hainault, esposa de Eduardo III da
Inglaterra. Mais tarde, foram tambm seus benfeitores, Venceslau de
Luxemburgo, duque de Brabante, e Guy, conde de Blois. No perodo de 1373-
82 foi proco de Les Estinnes, perto de Thun, e em 1383 tornou-se cnego
em Chimay.  famoso por sua descrio em quatro volumes dos principais
pases da Europa no perodo de 1325-1400. Essas crnicas, de notvel
realizao literria, esto profundamente interessadas no retrato imaginativo
da cavalaria aristocrtica.
 H. Wilmotte, Froissart (1958); Froissart, org. por J.J. Palmer (1987) [Jean
Froissart, Crnicas, trad. V. Cirlot e J.E. Ruiz Domenec, Madri, Siruela, 1988]

Fulbert (c. 960-1028) Bispo de Chartres. Provavelmente natural do norte da
Frana, estudou com Gerbert em Reims e Chartres. Foi nomeado mestre da
Escola de Chartres e estabeleceu a reputao desta como um dos mais
notveis centros do saber na Europa. Em 1007, foi eleito para a s de
Chartres e iniciou a reconstruo da catedral depois do incndio de 1020. Foi
tambm conselheiro de Roberto II de Frana e exerceu o cargo de tesoureiro
de Saint-Hilaire-le-Grand, em Poitiers, nomeado pelo duque Guilherme V da
Aquitnia.
 H. Johnstone, Fulbert of Chartres (1926)
                                     G
Gaetani, famlia De acordo com uma tradio da famlia, os Gaetani (ou
Caetani) eram descendentes dos cnsules e duques de Gaeta (sculo X).
Registros de suas atividades sobrevivem desde pelo menos o sculo XII, e
membros da famlia aparecem em Npoles, Roma, Anagni e Pisa. Os Gaetani
de Anagni adquiriram sbita proeminncia com a eleio de Benedetto
Gaetani (Bonifcio VIII) para o Papado em 1294. Durante seu pontificado,
Bonifcio procurou diminuir o poder dos Colonna, a famlia feudal dominante
em Roma nessa poca. No sculo XIV, essa posio tinha sido assumida
pelos Gaetani.
 V. Novelli, I Colonna e i Gaetani, storia del medioevo di Roma (1892-93)

Gaimar, Geffrei Autor de L'Estoire des Engleis, um longo romance histrico
em verso francs normando, escrito sob o patrocnio de Richard Fitz-Gilbert.
Baseada numa verso perdida da Crnica Anglo-Saxnica, a obra trata da
histria inglesa desde a poca das colonizaes do sculo V at a morte de
William Rufus em 1100. Repleta de material lendrio, seu principal interesse
consiste em mostrar as novas atitudes romnticas do sculo XII em face do
material histrico e a sensibilidade crescente dos artistas da poca para o uso
da poesia no vernculo. Gaimar no era um grande estilista, mas as
passagens que dedica a Haveloc, o Dans, a Hereward, o Vigilante, e  morte
de William Rufus so vigorosas e bem escritas.
 Geffrey Gaimar, L'Estoire des Engleis, org. por A. Bell (1960)

Gales Embora includa nas provncias romanas da Bretanha, excetuando-se o
sudeste, Gales foi pouco afetada pela cultura material romana e, por
conseguinte, relativamente pouco abalada pelo fim do contato formal com a
administrao central romana no comeo do sculo V. No sculo seguinte,
porm, surgiram vrios reinos; um deles, Dyfed, ocupou a rea e adotou o
nome de uma antiga unidade tribal, a Demetae; outros tiveram um
relacionamento diferente com o passado.
     At o sculo IX, somente as linhas mais gerais de desenvolvimento so
discernveis: Gwynedd, no noroeste, tinha reis cujas pretenses eram sempre
ambiciosas, e que podem ter sido reconhecidas por outros; no sudeste, um
novo reino de Glywysing (mais tarde conhecido como Morgannwg) substituiu e
absorveu um certo nmero de reinos menores no decorrer do sculo VIL Esse
padro de expanso de alguns reinos s custas de outros, com escassa
consolidao, pode ter sido tpico de outras reas.
       As incurses inglesas perturbavam intermitentemente a estabilidade da
vida local, embora tivessem poucos efeitos duradouros,, exceto no nordeste.
A, a constante presso abalou efetivamente a base do reino de Powys, que
consistia em suas terras de plancie; os galeses viram-se confinados  regio
altiplana e permitiram que a plancie fosse absorvida pelos ingleses. Tal
situao ficou bem clara por volta de 823, quando os ingleses tomaram a
fortaleza de Degannwy, na costa setentrional, mas pode ter sido efetivada em
fins do sculo VIII, quando o rei Offa de Mrcia parece ter construdo o dique
que ostenta seu nome. Isso traou uma clara linha de fronteira entre Gales e a
Inglaterra. Ao comprimido Powys, s restou ser absorvido por Gwynedd em
855.
       Nesse meio tempo, os horizontes galeses e os rumos polticos adotados
pelos galeses estavam mudando. Os ataques vikings foram pesados durante
a segunda metade do sculo IX, sobretudo nas duas pennsulas ocidentais, e
o rei ingls Alfredo enviou ajuda militar a Gwynedd, solicitando a sujeio dos
reis de Gales. O problema viking continuou sendo srio nos sculos X e XI.
Embora nenhum efeito viking a longo prazo seja evidente, exceto na
toponmia,  mais do que possvel que Gwynedd fosse, em alguns perodos
do sculo XI,
controlado por vikings de Dublin. As exigncias inglesas de submisso
prosseguiram, e reis galeses apresentaram-se em tribunais ingleses, em
meados do sculo X, como testemunhas de transaes, na qualidade de sub-
reis. A influncia inglesa em alguns aspectos da lei galesa pode muito bem ser
um resultado desses contatos.
    Dentro da Gales, enquanto que o sculo IX foi dominado pela expanso
de Gwynedd, o sculo X foi dominado por conflito e interao entre Gwynedd
e Dyfed, cujos reis eram ento oriundos da mesma dinastia mas cujas
realezas permaneciam separadas. No sudeste, os negcios mantiveram-se
desconexos at o sculo XI, mas at mesmo quando se efetuou uma certa
consolidao do reino, novas dinastias se estabeleceram no interior de
Morgannwg, abalando o poder da linha principal. Essa tendncia anrquica
intensificou-se quando os reis da linha Dyfed e Gwynedd comearam a se
intrometer e levaram o sudeste, finalmente, para a arena principal da poltica
galesa.
      Gruffydd ap Rhydderch e Gruffydd ap Llywelyn bateram-se pelo controle
de toda a Gales em meados do sculo XI, usando mercenrios vikings e
ingleses para ajud-los em seus planos pessoais. As tentativas despertaram
de novo o interesse ingls e, pouco depois da vitria de Gruffydd ap Llywelyn
em 1055, os ingleses revidaram e mataram-no em 1063. Os reis da Gales do
Norte foram ento nomeados pelos ingleses, cuja influncia seria em breve
suplantada pela dos normandos. A partir de 1070, eles decidiram conquistar a
Gales, beneficiando-se da anarquia reinante no sculo XI e do limitado
desenvolvimento das instituies governamentais; em 1093, eles tinham levado
a cabo vitoriosas campanhas militares em muitas partes da Gales e obtiveram
o controle efetivo do sul.
      O comeo do sculo XII foi um perodo de relativa calma. No reinado de
Estvo, entretanto, a disputada sucesso e a guerra civil debilitaram o
controle anglo-normando e resultaram no ressurgimento de Gwynedd, Powys
e Deheubarth. Em 1171 Henrique II firmou um pacto com Rhys ap Gruffydd de
Deheubarth (1153-97), ganhando assim a aliana e o apoio de uma destacada
figura poltica. Existia, porm, um forte esprito de independncia na Igreja e
no povo galeses, e as tenses entre normandos e galeses esto bem
exemplificadas na carreira e nos escritos de Geraldo de Gales (c. 1146-
1223).
     A hegemonia entre os principados galeses foi tirada de Deheubarth por
Llywelyn ab Iorwerth de Gwynedd, que tambm se tornou uma figura de
destaque na poltica inglesa. Seu neto Llywelyn ap Gruffydd consolidou ainda
mais sua autoridade mediante uma aliana com Simon de Montfort; uma
medida do seu poder  que, mesmo depois da queda de Montfort, Henrique III
o reconheceu e confirmou como prncipe de Gales e suserano dos outros
prncipes galeses (1267). Em 1276 surgiu uma disputa entre Llywelyn e
Eduardo I, culminando em conflito e derrota de Llywelyn, e numa drstica
reduo de seus poderes. Ele esteve envolvido numa outra sublevao em
1282, a qual resultou na conquista e subjugao da Gales. Eduardo I, em
1301, conferiu a seu prprio filho, Eduardo II, o ttulo de Prncipe de Gales,
ttulo que da em diante passou a ser normalmente dado aos herdeiros vares
do rei.
       Pelo Estatuto de Gales (1284), o principado de Gwynedd foi colocado
sob o domnio direto da Coroa inglesa e dividido em trs condados:
Caernarvon, Merioneth e Anglesey. Mais ao sul, os antigos condados de
Cardigan e Carmarthen foram reorganizados e, na fronteira do Cheshire,
criou-se o condado de Flint. Castelos foram construdos e burgos fundados
em lugares estratgicos, mas os senhorios fronteirios foram consolidados e
ampliados.
     O sculo XIV assistiu a revoltas isoladas na Gales, mas tambm a uma
crescente prosperidade sob o domnio ingls. Em 1400, entretanto, Owain
Glyndwr, um descendente de Rhys ap Gruffydd, rebelou-se para defender
seus direitos, que considerou ameaados, e tornou-se o lder de uma
resistncia generalizada. Os ingleses no conseguiram esmag-lo e Owain
passou a exercer os poderes de um prncipe; mais tarde, tornou-se um
grande heri nacional gals. Seu poder caiu por volta de 1410, precipitando
um grande perodo de desordem, s resolvido depois de 1485, quando
Henrique Tudor, um gals, foi aclamado rei da Inglaterra. Ver clticas,
Igrejas                                      WD
 J.E. Lloyd, History of Wales from the Earliest Times to the Edwardian
Conquest (1911); W. Rees, South Wales and the March (1924); G. Williams,
The Welsh Church from Conquest to Reformation (1962); R. Griffiths, The
Principality of Wales in the Later Middle Ages (1972); W. Davies, Wales in
the Early Middle Ages (1982); R.R. Davies, Conquest, Coexistence and
Change: Wales 1063-1415 (1987)

Gall, So (c. 550-645) Monge irlands que foi para a Glia com So
Columbano por volta de 590 e iniciou sua obra missionria nos arredores de
Luxeuil, regio dos Vosges. Em 610 acompanhou So Columbano a Bergenz
mas no o seguiu at a Itlia em 612. Optou, em vez disso, pela vida de
eremita. Recusou um bispado oferecido pelo rei Sigeberto e no assumiu as
funes abaciais para que fora eleito pelos monges de Luxeuil.
      Um sculo aps sua morte, era erigido o famoso mosteiro beneditino de
Saint Gall (Sankt Gallen em alemo), no local de um de seus eremitrios. O
Scriptorium e a coleo de manuscritos desse mosteiro estiveram por muito
tempo entre os mais clebres da Europa. Uma planta arquitetural do sculo IX
de Saint Gall, um dos primeiros desenhos deste tipo da Idade Mdia, mostra
o layout de um mosteiro beneditino ideal, com as edificaes para residncia
e trabalho agrupadas em torno da igreja.
 J.M. Clark, The Abbey of St. Gall as a Centre of Literature and Art (1926);
W. Horn e E. Born, The Plan of St. Gall (1979)

Gautier de Brienne (m. 1356) Conde de Lecce e duque de Atenas. De uma
importante famlia francesa, foi criado na corte do rei de Npoles. Em 1331
tentou sem xito recuperar o ducado de Atenas, perdido por seu pai para a
Grande Companhia Catal em 1311. Em seguida foi para a Frana a fim de
combater ao lado de Filipe IV em suas guerras contra os ingleses (1339-40);
e em 1342 foi feito signore de Florena, que estava sofrendo em suas guerras
contra Pisa. Seu governo no foi um sucesso, e seu comportamento desptico
redundou em sua expulso e abdicao em 1343. Regressou  Frana e ao
servio do rei Joo II, o Bom, e foi morto na batalha de Poitiers.
 N. Cheetham, Medieval Greece (1981); G. Dennis, Byzantium and the
Franks 1350-1420 (1982)

Gautier "Sem Vintm" (m. 1096) Lder do contingente popular francs da
Primeira Cruzada. Ele e seus 2.000 a 3.000 seguidores camponeses foram os
primeiros cruzados a chegar a Constantinopla (julho de 1096) e formaram a
vanguarda do grande exrcito peregrino de Pedro, o Eremita. Gautier morreu
lutando contra os turcos em Civetot.

Gelasiana, doutrina Proposta pelo papa Gelsio I numa carta escrita ao
imperador bizantino Anastcio I em 494, tentou definir as relaes entre os
poderes seculares e espirituais no governo temporal. Ao que parece, Gelsio
advogou um sistema de responsabilidade igual e conjunta, mas como sua
terminologia se prestava a que a doutrina fosse interpretada de outros modos,
tornou-se um dos ingredientes fundamentais das controvrsias posteriores
sobre essa matria, sendo citada em apoio tanto da superioridade papal
quanto da autonomia real.

Gngis Khan (c. 1154-1227) Um dos mais bem-sucedidos conquistadores
militares de todos os tempos, imps um brutal despotismo mongol  maior
parte das estepes da sia e da China. Ele prprio de estirpe mongol,
governou um imprio que foi estruturado, cada vez mais, com base em tribos
turcas subordinadas. Durante sua vida, os efeitos de suas conquistas na
Europa foram indiretos mas potencialmente imensos; parte desse potencial foi
concretizado uma gerao aps sua morte, quando hostes mongis ou
trtaras penetraram profundamente na Europa, ao longo do vale do Danbio,
governando a Hungria por algum tempo, e causando um impacto permanente
na conformao poltica da Rssia. [262]
 H.D. Martin, The Rise of Chingis Khan (1950)

Gnova A histria de Gnova na Idade Mdia  primordialmente a de seus
xitos comerciais e mercantis e a de suas rivalidades com outras cidades
italianas, sobretudo Pisa e Veneza, para o controle do comrcio mediterrneo.
Sua prosperidade j estava em ascenso antes das Cruzadas, mas sua
grande oportunidade chegou com a Primeira Cruzada, em conseqncia da
qual obteve privilgios especiais em Acre. A cidade cresceu rapidamente, em
populao (estimada em cerca de 100.000) e em influncia poltica (a maior
parte da Ligria, poder efetivo nas ilhas de Crsega e Elba, privilgios na
Siclia normanda), no decorrer do sculo XII. Com o retrocesso da causa
motivadora das Cruzadas e sua derrota final, Gnova procurou uma
compensao em outras regies. Consolidou seu domnio no comrcio com o
Mediterrneo ocidental e (apesar de srias perdas para os venezianos)
ampliou suas atividades no renovado Imprio Bizantino depois de 1261,
instalando colnias e feitorias no Mar Negro, na foz do Danbio e na Crimia,
abrindo assim o caminho para o comrcio com os mongis. O final da Idade
Mdia assistiu ao declnio gradual de Gnova e sua ocasional dominao
poltica por outras potncias, se bem que a Crsega permanecesse sob sua
autoridade at fins do sculo XV.
 [D. Waley, Las ciudades-repblica italianas, Madri, Guadarrama, 1969; J.
Heers, Gnes au XV sicle, Paris, Flammarion, 1971]

Genserico rei dos vndalos c. 429-77 Um dos notveis lderes dos povos
germnicos. Durante as "migraes em massa", Genserico foi quem
coordenou o movimento dos povos vndalos para o sul (sob presso
visigtica), da Espanha para a provncia norte-africana. No perodo de 429-39
toda essa provncia, que estivera submetida a forte romanizao, encontrava-
se virtualmente sob o controle de Genserico; este organizou de tal modo o seu
reino que durante a maior parte do sculo teve o domnio do Mediterrneo
ocidental. De todos os povos germnicos, os vndalos foram os nicos a
adaptar-se ao mar de forma efetiva; em 455, saquearam Roma. Cristo
ariano, propenso  perseguio ocasional dos provinciais catlicos ortodoxos,
Genserico estabeleceu uma dualidade de funo dentro do seu reino, com o
que deixou aos vndalos a responsabilidade pelo exrcito e coleta de
numerosas receitas provenientes da tributao sobre grandes propriedades
(principalmente das propriedades imperiais), e aos romanos que continuassem
vivendo sob suas prprias leis e magistratura, numa posio subordinada aos
vndalos. Salvaguardou sua sucesso por uma forma de primogenitura virtual,
mas as tenses sociais e polticas dentro do reino vndalo foram agravadas
pela diviso bsica entre arianos e ortodoxos.

Geraldo de Brogne (m. 959) Reformador monstico. O senhor de Brogne,
perto de Namur, na Baixa Lorena, foi um dos mais influentes membros do
grupo que ajudou a revitalizar o monasticismo beneditino em meados do
sculo X. Tal como Gorze, na Alta Lorena, a abadia de Brogne converteu-se
num centro para os que permaneciam fiis ao princpio de autonomia de cada
casa e  manuteno de ntimo contato com os bispos diocesanos.
 J.M. de Smet e J. Wollasch em Revue Bndictine, 70 (1960)

Geraldo de Cremona (c. 1114-87) Embora nascido em Cremona, passou
grande parte de sua vida em Toledo, onde foi para aprender rabe. Foi o mais
prolfico tradutor de obras cientficas e filosficas do rabe na Idade Mdia;
cerca de 80 tradues foram atribudas a ele ou  sua escola. A qualidade e a
latitude de seu trabalho, que incluiu textos sobre medicina, matemtica,
astronomia, astrologia e alquimia, representaram uma decisiva contribuio
para o progresso da cincia latina medieval.
 C.H. Haskins, Studies in the History of Medieval Science (1927)

Gerberto d'Aurillac Ver Silvestre II

Germano, So (c. 378-448) Exerceu cargos civis na Glia antes de ser
nomeado bispo de Auxerre em 418. Efetuou duas visitas  Gr-Bretanha a fim
de opor-se  propagao do pelagianismo; em 429 esmagou a heresia em
Verulmio e comandou uma fora de bretes na vitria contra os salteadores
pictos e saxes, usando "Aleluia" como seu grito de guerra, de acordo com a
tradio. Em 443 ou, possivelmente, um pouco mais tarde, em 447, voltou 
Gr-Bretanha para combater a heresia. Morreu em Ravena, enquanto
advogava a causa de alguns rebeldes armoricanos junto ao imperador
Valentiniano III.
 The Life of St. Germanus by Constantinus, trad. F.R. Hoare (1954)

Gerson, Jean (1363-1429) Aluno de Pedro d'Ailly, Gerson doutorou-se em
teologia em 1394 e nos anos seguintes era escolhido para chanceler da
catedral de Notre-Dame e da Universidade de Paris. Um dos mais eminentes
telogos da poca, Gerson trabalhou com zelo para sarar as feridas do
Grande Cisma e tornou-se um dos principais porta-vozes do movimento
conciliar no Conclio de Constana (1414-18). Embora no tivesse xito em
dois dos seus principais objetivos -- a afirmao da superioridade de um
conclio geral sobre o papa, e sua defesa dos direitos da Igreja galicana em
matrias de dogma -- a influncia de suas obras e exemplo foi grande no
pensamento poltico e eclesistico do sculo XV.
 J.L. Connoly, John Gerson, Reformer and Mystic (1928)

Ghiberti, Loureno (1378-1455) Escultor e escritor florentino. Ghiberti
executou dois pares de portas de bronze para o Batistrio de Florena,
encomendas que o ocuparam durante a maior parte de sua carreira. Fez um
extenso estudo da escultura da Antigidade e foi perito na modelagem da
forma humana. Seus Comentrios sobre Arte so de grande importncia para
o estudo da arte italiana.
 R. Krautheimer, Lorenzo Ghiberti (1971); The Florence Baptistery Doors,
introduo de Kenneth Clark (1980)

Giacomo Arcebispo de Cpua. Participou na compilao do Liber Augustalis
(Constituies de Melfi) publicado por ordem de Frederico II em 1231, e foi
provavelmente o responsvel pela redao das sees que tratam da Igreja e
do clero sicilianos. Formado em direito pela Universidade de Bolonha, era
considerado uma das melhores mentes jurdicas de seu tempo. Foi tambm
um dos Cortesos em quem Frederico depositava mais confiana,
acompanhando o imperador na Cruzada de 1228.

Giano della Bella (m. 1305) Na dcada de 1290, Florena foi dilacerada por
contendas entre os magnati ou nobres que dominavam a poltica da cidade.
Esse nobre florentino decidiu pr fim s lutas. Conseguiu obter o apoio dos
homens das guildas mdias e pequenas da cidade e, em janeiro de 1293,
ajudou a redigir as Ordenaes de Justia, as quais tinham a finalidade de
controlar o comportamento dos magnati. Embora as Ordenaes fossem
mantidas, ainda que numa forma algo modificada, o prprio Giano caiu do
poder em 1295 e passou o resto de sua vida exilado na Frana.
 F. Schevill, Medieval and Renaissance Florence (1961)

gibelinos As duas palavras "gibelino" e "guelfo" entraram no vocabulrio da
poltica italiana no tempo de Frederico II (1220-50). Derivadas do alemo
"Waiblingen" e "Welf", foram gradualmente adotadas por faces rivais
florentinas que, na dcada de 1240, favoreciam o imperador ou o papa
(Inocncio IV). Em 1256, o uso desses termos tinha-se propagado  Itlia
setentrional, com os partidrios papais conhecidos como guelfos, e seus
adversrios como gibelinos.
       Uma importante mudana ocorreu em 1256-58 com a derrota da causa
Hohenstaufen. Depois de 1270, o guelfismo passou a ser cada vez mais
identificado com os adeptos angevinos, ao passo que os gibelinos eram
antifranceses. Seus autores retrataram os angevinos como usurpadores dos
Hohenstaufen, carecendo de toda e qualquer pretenso legtima ao trono
imperial. Em 1300, os dois termos, na grande maioria dos casos,
representavam apenas faces locais ou familiares, em vez de partidrios
papais ou imperiais.
 P. Brezzi, I communi medioevali nella Storia d'Italia (1959) [D. Waley, Las
ciudades-repblica italianas, Madri, Guadarrama, 1969]

Gilberto de la Pore (1076-1154) Um dos principais estudantes da escola
teolgica de Chartres, Gilberto foi escolhido para diretor da escola da catedral
de Poitiers e, em 1142, bispo da diocese. Seu ensino foi considerado um
enunciado extremo da teologia da escola universalista e como tal foi
condenado por Bernardo de Clairvaux, que no entanto no conseguiu fazer
com que as doutrinas de Gilberto fossem declaradas herticas no Conclio de
Reims (1148).
 N.M. Haring, The Case of Gilbert de la Pore (1951)

Gilberto de Sempringham, So (c. 1089-1189) Fundador da ordem
Gilbertina. Gilberto celebrizou-se entre os seus contemporneos por sua
santidade pessoal, mas sua reputao duradoura assenta no fato de ter
fundado a nica Ordem monstica puramente inglesa. Nasceu de uma famlia
abastada que tinha propriedades no Lincolnshire. Teve problemas de sade na
juventude, e em vez de abraar uma carreira secular, preferiu fazer um curso
de estudos eclesisticos na Frana. Aps seu regresso  Inglaterra, viveu por
algum tempo na residncia do bispo de Lincoln, onde seu modo asctico de
vida atraiu as atenes e a admirao. Gilberto, entretanto, se fez padre com
relutncia e recusou posies mais elevadas dentro da hierarquia da Igreja.
      Preferiu regressar a Sempringham e dedicar-se a servir os pobres e
ignorantes que encontrou nas propriedades de seu pai. Cumprindo sua
vocao pastoral, organizou uma escola, hospitais e orfanatos para eles. Em
1131 fundou uma pequena comunidade de freiras que obedeciam a uma forma
simplificada da Regra Beneditina. Irms e irmos leigos juntaram-se ao
contingente religioso e, mais tarde, cnegos. Essa forma de casa religiosa
dupla era comprovadamente popular no sculo XII e outras foram fundadas,
sobretudo no Lincolnshire e no Yorkshire. O papa Eugnio III conferiu a
Gilberto autoridade sobre a nova Ordem em 1147. Ele aceitou a contragosto
essa responsabilidade, mas da em diante passou o resto de sua longa vida
supervisionando assiduamente suas comunidades religiosas e, em particular, a
manuteno de rigorosa disciplina. A prpria santidade de Gilberto deu origem
a histrias de milagres que ocorreram ainda durante sua vida e depois de sua
morte. Um relato foi remetido ao papa, juntamente com uma biografia e
depoimentos de muitos homens eminentes; e em 1202 Gilberto era
canonizado pelo papa Inocncio III.
 The Book of St. Gilbert, org. por R. Foreville e G. Keir (1986)

Gildas Clrigo britnico do sculo VI, cujo opsculo De Excidio et Conquestu
Britanniae constitui a mais antiga obra literria a descrever a marcha dos
acontecimentos na Gr-Bretanha aps a retirada romana de 410. O opsculo
fornece uma descrio fundamentalmente idnea dos eventos em suas linhas
gerais, mas como seu contedo histrico  secundrio em relao ao intuito
principal de exortar ao arrependimento pela corrupo moral que Gildas
sustenta ser caracterstica desse perodo,  problemtico como fonte
histrica. A data tradicional para a redao da obra  por volta de 540, mas
estudiosos modernos esto inclinados a situ-la mais no final do sculo.
 Gildas: The "Ruin of Britam" and other works, org. por M. Winterbottom
(1978); Gildas: New Approaches, org. por M. Lapidge e D. Dumville (1984)

Giotto di Bondone (1267 ou 1277-1337) Pintor e arquiteto toscano.
Provavelmente treinado na oficina do grande mestre florentino Cimabue,
Giotto foi reconhecido por seus contemporneos Dante, Petrarca e Boccaccio
como o principal artista de seu tempo. Unindo em sua arte o estudo da pintura
talo-bizantina e da escultura gtica toscana, Giotto situa-se no trmino de um
longo desenvolvimento na pintura gtica italiana; sua arte tambm aponta, de
muitas maneiras, para novas tendncias na Renascena. Sua obra destaca-se
por suas claras e simples solues para o problema da representao do
espao e da figura humana -- ele foi tambm um mestre inigualvel da
narrativa dramtica. A tremenda solidez de suas figuras impressionou o
prprio Michelangelo, que realizou um estudo dos afrescos de Giotto na
Capela Peruzzi, os quais sobreviveram at hoje.
       quase impossvel estabelecer uma cronologia precisa de seu
desenvolvimento. O mosaico Navicella em Roma (c. 1300), considerado por
seus contemporneos sua mais bela obra,  agora uma sombra do original,
porquanto foi tantas vezes restaurado e remodelado que a mo de Giotto no
 mais discernvel. Embora sem assinatura e sem documentao, o ciclo de
afrescos da Cappella dell'Arena, Pdua (c. 1304-13), sempre lhe foi atribudo,
assim como os afrescos das capelas Bardi e Peruzzi em Santa Croce,
Florena, que pertencem ao seu perodo maduro. Os trs retbulos assinados
por Giotto -- A estigmatizao de S. Francisco do Louvre, o retbulo
Baroncelli e o polptico A Madona de Todos os Santos de Bolonha --
parecem ter sido, em grande parte, produtos de sua oficina. Sua autoria do
ciclo de afrescos sobre A Vida de S. Francisco ainda no deixou de ser
matria de controvrsia entre os especialistas. Os investigadores ingleses, de
um modo geral, rejeitam a atribuio a Giotto, embora isso no impea a
apreciao das obras como algumas das mais belas do perodo. Uma das
ltimas encomendas de Giotto foi para o campanile da catedral de Florena
(1334); somente o primeiro andar da base estava concludo  data de sua
morte.
      Apesar do fato de Giotto ser usualmente apresentado como o precursor
da Renascena italiana, vale a pena assinalar que muitas pinturas bizantinas
do sculo XIV na Srvia e em Constantinopla suportam comparao com sua
obra. Isso de maneira nenhuma lhe diminui o gnio mas sugere um
desenvolvimento       paralelo      de       expresso       artstica.     [
]                                                          CH
 A. Martindale, The Complete Paintings of Giotto (1969); A. Smart, The
Assisi problem and the art of Giotto (1971) [M. Gabrielli, Giotto e l'origine del
realismo, Roma, Bardi, 1981; E. Battisti, Giotto, Genebra, Skira, 1960]

Giovanni de Plano-Carpini (m. 1252) Frade franciscano que partiu em 1237
numa misso para converter os mongis ao Cristianismo. Chegou  corte do
gro--c em Karakorum, regressando  Itlia via Kiev em 1240. Seu livro
sobre suas viagens fornece uma das primeiras descries do imprio mongol.
 J.J. Saunders, "John of Plan Carpini", History Today, 22 (1972)

Glastonbury, abadia de Com a notvel e dramtica colina de Glastonbury
Tor, que lhes fica perto, as runas da abadia de Glastonbury ainda transmitem
um sentimento de mistrio e antigidade. Havia um mosteiro cltico no lugar, e
a continuidade parece ter sido virtualmente ininterrupta durante todo o perodo
saxnico. Em meados do sculo X foi reconstrudo sob a direo de So
Dunstan e tornou-se uma das principais bases para o ressurgimento
beneditino na Inglaterra. Na poca da conquista normanda, era a mais
abastada casa monstica do reino, com uma renda registrada superior a
800.O sculo XII assistiu ao florescimento das lendas que tornaram a abadia
famosa numa escala europia: a atribuio de uma visita de Jos de Arimatia
no sculo I de nossa era e a proliferao das lendas arturianas, culminando na
descoberta dos supostos tmulos de Artur e Guinevere no comeo da dcada
de 1190. Glastonbury tornou-se um grande centro de peregrinao e outros
temas lendrios se desenvolveram  sua volta, como os relacionados com o
Santo Graal e o Espinho de Glastonbury que florescia duas vezes por ano, em
maio e no Natal.
 R.F. Treharne, The Glastonbury Legends (1967); J. Carley, Glastonbury
(1987)

Glendower, Owen (Owain Glyndwr) Terra-tenente que descendia de
prncipes galeses, Glendower (c. 1365-c. 1417) tornou-se o lder da rebelio
contra Henrique IV da Inglaterra que se desenrolou com xito no interior de
Gales, numa aliana difcil com os Percy e os Mortimer. Reivindicou um ttulo
principesco, estabeleceu relaes diplomticas com os escoceses e
franceses, e no auge de seu poder, em 1405, foi amplamente reconhecido por
toda a Gales como um governante virtualmente independente. A omisso de
seus aliados redundou em derrota, mas a lenda de sua bravura, fielmente
preservada por bardos Cortesos, e as atas de seus conselhos, incluindo as
convocaes do primeiro parlamento gals, serviram como inspirao para
futuras geraes. Glendower nunca foi capturado e acredita-se que tenha
morrido no incio do reinado de Henrique V.
 R.R. Davies, Conquest, Coexistence and Change: Wales 1063-1415 (1987)

glosadores Termo comumente aplicado na Idade Mdia aos hermeneutas
que escreveram extensos comentrios sobre textos de direito civil e cannico
mas que, numa acepo mais geral, tambm podia referir-se aos que
escreveram a respeito de textos bblicos ou rabnicos. De notvel reputao
foi a obra de Irineu, no final do sculo XI e comeos do XII, e a de Acrcio, no
sculo XIII, cujas glosas foram largamente aceitas como autoridades sobre o
direito romano, porquanto se baseavam no Cdigo de Justiniano. Da mesma
forma, glosas sistemticas foram tambm feitas para as grandes colees de
direito Cannico associadas  obra de Graciano, no sculo XII, e seus
sucessores. Ver Vacrio, o Glosador.
 H. Kantorowicz, Studies in the Glossators of the Roman Law (1969)

Godofredo de Bulho (c. 1060-1100) Governador de Jerusalm. Filho do
conde Eustquio II de Bolonha e sobrinho do duque Godofredo da Baixa
Lorena, sucedeu em 1082 a seu tio na chefia do ducado como Godofredo IV.
Juntou-se  Primeira Cruzada em 1096 e substituiu Raimundo de Toulouse
como seu lder popular em 1099. Jerusalm
foi tomada nesse mesmo ano e Godofredo foi eleito para govern-la,
adotando o ttulo de Defensor do Santo Sepulcro. Segundo parece,
considerou a possibilidade de confiar Jerusalm a um governo teocrtico mas
faleceu antes que a questo fosse decidida, e seu irmo e sucessor, Balduno
I, tomou o ttulo de rei.

Godofredo de Monmouth (c. 1100-54) Bispo de St. Asaph (1152) que ficou
famoso por sua Historia Regum Britanniae, publicada por volta de 1136-38.
Essa crnica pretendia ser a traduo de um antigo manuscrito breto; na
realidade era uma obra de criatividade ficcionista que entrelaava livremente
material baseado em lendas galesas e em primitivas fontes britnicas, como
Gildas e Nennius. Apesar de sua falta de exatido histrica, desfrutou de
ampla circulao durante a Idade Mdia, e como forneceu a base para a
subseqente tradio popular em torno de personagens tais como o rei Artur
e Merlin, firmou-se como obra de importncia seminal para o desenvolvimento
literrio da Europa ocidental.
 The History of the Kings of Britain, org. por L. Thorpe (1973)

godos Embora o termo passasse a ser aplicado indistintamente a muitos dos
povos germnicos que invadiram o Imprio Romano, refere-se historicamente
a um ramo especfico dos germanos orientais, cujo bero natal pode muito
bem ter sido a Escandinvia meridional e a ilha de Gotland. Eles migraram
para o leste e o sul e, no sculo XIV, formaram uma federao errante de
tribos instaladas ao longo dos cursos de gua da Rssia, os ostrogodos em
sua maior parte nas terras entre o Don e o Dniester, e os visigodos entre o
Dniester e o Danbio. Graas ao labor de lfila (lfilas), por volta de 311-85,
muitos deles foram convertidos ao Cristianismo, embora do credo ariano, e os
Evangelhos foram traduzidos para a lngua gtica, sendo criado para esse fim
um novo alfabeto gtico -- uma combinao de elementos gregos e latinos.
Os godos cruzaram a fronteira do Danbio em 376, sob forte presso dos
hunos e, em conseqncia da complicada e dramtica poltica da gerao
seguinte, ramificaram-se permanentemente em suas duas divises histricas:
os visigodos, que desempenharam um papel destacado na derrubada do
domnio poltico romano no Ocidente na primeira metade do sculo V, e os
ostrogodos que, sob a liderana de Teodorico, levaram um equilbrio
temporrio  Itlia e grande parte do Mediterrneo ocidental em fins do sculo
V e comeos do VI.
 E.A. Thompson, The Early Germans (1965) [E.A. Thompson, Los godos em
Esparta, Madri, Alianza, 1971]

Gokstad, barco de Escavado no fiorde de Oslo em 1881,  um belo
exemplar viking de meados do sculo IX que foi usado como barco funerrio
para um chefe viking uns 50 anos aps sua construo. Tem cerca de 23
metros de comprimento, construdo quase inteiramente de carvalho, com
mastro, coberta e 16 pares de remos de pinho. O barco possua robustez e
flexibilidade em alto-mar, graas  sua construo escamada do costado em
torno da quilha, popa e cadaste; seu pequeno calado de pouco mais de um
metro tornava-o facilmente manobrvel em esturios de escassa profundidade
e podia ser carregado facilmente. Ver navios e navegao
 P.H. Sawyer, The Age of the Vikings (1971)

goliardos, poetas Canes estudantis, versos crticos ferozes e satricos,
delicados poemas exaltando o amor humano e a natureza, tendem a ser
atribudos (nem sempre com justia) ao lendrio poeta Golias e seus
seguidores. Constituem um produto direto da Renascena do sculo XII,
sintomtico do vigor das comunidades urbanas e dos grupos de estudantes e
humanistas reunidos em torno das escolas e novas universidades da Europa
ocidental. Compunham em latim e, em seu auge, produziram excelentes obras
de arte, mais disfaradas do que realadas pela predileo dos goliardos por
estribilhos facilmente decorveis, mas generosamente reveladas nas melhores
tradues modernas. A obra do Arquipoeta, sobretudo sua Confisso,
classifica-se entre as mais conhecidas e as melhores de suas realizaes.
 H. Waddeell, The Wandering Scholars (1935) [R. Garca-Villoslada, La
poesia rtmica de los goliardos medievales, Madri, Fundacin Universitaria
Espaola, 1975]

Gorme, o Velho rei da Dinamarca c. 936-c. 950 Fundador de uma poderosa
dinastia de governantes dinamarqueses cujo centro de autoridade se situava
na Jutlndia, especialmente em Jelling, onde as duas colinas tumulares ainda
esto associadas aos nomes de Gorme e seu filho, Haroldo Dente Azul. Ele
ergueu uma esteia memorial para sua esposa Thyri, e Haroldo ergueria
tambm uma outra, magnfica, um dos mais notveis monumentos da Era
Viking, a fim de homenagear seus pais -- e, ao mesma tempo, proclamar que
ele, Haroldo, ganhara para a sua Coroa toda a Dinamarca e Noruega, e fizera
os dinamarqueses cristos. O prprio Gorme era um pago e devia seu
poderio a uma vitoriosa coligao de chefes dinamarqueses contra a forte
presso vinda do sul, pelo ressurgido reino cristo de Henrique, o
Passarinheiro, e Oto, o Grande, na Alemanha.
 G. Jones, A History of the Vikings (1968)
gtico Termo usado pela primeira vez por Vasari (1511-74) para descrever
toda a arte entre a queda do Imprio Romano e o incio da Renascena. Ele
no fez qualquer distino entre o pr-romnico, o romnico e o gtico,
considerando-os todos brbaros. Seu desprezo, baseado na ignorncia, no
durou muito tempo, mas o nome, embora absurdo, sobreviveu.
     O gtico era essencialmente uma arte urbana, centrada nas grandes
catedrais, e apoiava-se no no mecenato monstico -- como no caso da arte
romnica -- mas nas cortes e nas guildas citadinas. Esse estilo, nascido em
meados do sculo XII na le-de-France, prevaleceu ao norte dos Alpes at a
primeira metade do sculo XVI, abrangendo assim quase 400 anos. Houve,
por conseguinte, considerveis mudanas no estilo durante esse longo
perodo. A arte gtica palaciana de meados do sculo XIII tem, por exemplo,
pouca coisa em comum com a arte atormentada e mstica que se seguiu 
Peste Negra. O estilo gtico internacional de cerca de 1400 volta a ser
palaciano, quase sentimental, e fornece um contraste com a ltima fase
dramtica e realista desse estilo, que tem sua melhor ilustrao na arte alem
do final do sculo XV.
      Durante todo esse perodo, o domnio real francs, com seu centro em
Paris, foi o mais inventivo e influente em todos os campos da criatividade
artstica; no causa surpresa que o estilo gtico se tornasse conhecido na
Europa como opus francigenum. Isso no significa, porm, que os demais
pases imitassem servilmente os franceses. A contribuio da Inglaterra, em
especial, foi notvel, seja na arquitetura eclesistica, na construo de
castelos, na iluminao de livros, na escultura ou rendilhado em pedra, em que
os ingleses foram clebres. Durante a segunda metade do sculo XIV, a
Bomia tornou-se um importante centro artstico, graas ao mecenato do
imperador Carlos IV, que fez de Praga a sua capital.
       Na Itlia, onde as tradies da arte antiga eram onipresentes, a
influncia da arte francesa foi, em seu todo, superficial, e os edifcios
inteiramente gticos, como a catedral de Milo, so raros. Os grandes
escultores gticos italianos Nicola Pisano e seu filho Giovanni mostram possuir
o conhecimento das formas gticas mas so devedores, sobretudo, 
escultura antiga. Muitos outros artistas italianos recorreram a detalhes
decorativos gticos mas seus objetivos eram, de um modo geral, diferentes. A
preocupao deles com o relacionamento entre figuras, o uso lgico de luz e
sombra, as qualidades expressivas da figura humana e outras preocupaes
que levaram ao surgimento do estilo renascentista, colocam a arte italiana 
p a r t e . Ver             arquitetura;           escultura            [251,
253]                                                  GZ
 A. Martindale, Gothic Art (1967); J. Pope-Hennessy, Italian Gothic Sculpture
(1970); G. Zarnecki, Art of the Medieval World (1975) [M.C. Gozzoli, Como
reconocer el arte gtico, Barcelona, Ed. Medica y Tecnica, 1980; O. von
Simson, La catedral gtica, Madri, Alianza, 1980]

Gottfried von Strassburg Um dos principais poetas alemes medievais,
escreveu quase toda a sua obra na tradio do amor corteso do sculo XII e
comeos do XIII. Sua maior contribuio para a literatura europia foi o
poema [inacabado] de Tristo e Isolda. Escrito na primeira dcada do sculo
XIII, contribuiu muito, em sua grande extenso e engenho potico, para o
reconhecimento universal do vernculo alemo como veculo apropriado para
elevadas realizaes poticas.
   J. Ferrante, The Conflict of Love and Honour: The Medieval Tristan
Legend in France, Germany and Italy (1973) [Gottfried von Strassburg,
Tristn e Isolda, trad. B. Dietz, Madri, Nacional, 1982]

Graciano (m. c. 1179) Um dos maiores juristas da Idade Mdia, estudou nas
escolas de Bolonha, aplicou tanto o novo saber baseado no direito romano
quanto os avanados mtodos dialticos de seu tempo na criao de um
compndio de valor permanente para o direito da Igreja, conhecido como o
Decretum (1139-40). Seu ttulo original para essa obra foi Concordantia
Discordantium Canonum (Concordncia de Cnones Discordantes); apoiou-se
consideravelmente na autoridade dos Santos Padres, nos Conclios e nos
decretos de imperadores e papas. Forneceu uma ordenao sistemtica e
atualizada do direito Cannico e tornou-se rapidamente um auxiliar infalvel e
essencial na formao e prtica dos juristas cannicos. Como tal, era
avidamente aproveitado pelos papas e, na verdade, reflete as aspiraes
legais do Papado reformado do sculo XII. Graciano, monge do credo
camaldunense, foi feito cardeal pelo papa Alexandre III. [317]
 Corpus Juris Canonici, org. por E. Friedberg (1879-81); S. Kuttner, Gratian
and the Schools of Law 1140-1234 (1983)

Grande Cisma (1378-1417) Ao regresso do Papado de Avignon a Roma, em
1378, seguiu-se um longo perodo de diviso e discrdia. A maioria dos
cardeais elegeu, sob presso, o arcebispo italiano de Bari como papa Urbano
VI em Roma, no ms de abril desse ano, mas o apoio foi-lhe rapidamente
retirado, em parte por causa da crueldade e natureza autocrtica do novo
pontfice. No ano seguinte, com base no argumento de que a eleio de
Urbano carecia de validade, o cardeal Roberto de Gnova, fortemente
apoiado pelo poderoso cardinalato francs, foi eleito como Clemente VII, que
voltou a instalar a s pontificai em Avignon. A Europa estava dividida em sua
obedincia por motivos de natureza poltica: o apoio a Avignon era dado pela
Frana, Esccia, Castela, Arago e alguns prncipes alemes; o imperador, a
Inglaterra, a Escandinvia e a maioria dos italianos apoiaram Roma.
      A existncia de dois papas, cada um com substancial apoio, causou
grande escndalo e problemas financeiros em todo o Ocidente. Humanistas
em Paris, formando um grupo conhecido como os pensadores conciliares,
tentaram encontrar uma soluo para o problema na convocao de um
conclio geral. Esse conclio foi realizado em Pisa (1409); declarou os papas
existentes depostos e procedeu  eleio do cardeal-arcebispo de Milo
como papa Alexandre V. No houve suficiente vontade e fora poltica, porm,
para tornar as exoneraes efetivas, o resultado imediato foi a Europa ficar
com trs papas em vez de dois.
      A situao foi facilmente resolvida no Conclio de Constana com a
eleio do poderoso cardeal Colonna, em novembro de 1417, como papa
Martinho V. Eleito antes que um programa efetivo de reforma pudesse ser
redigido, Martinho foi capaz de reafirmar de maneira brilhante a liderana
papal da Igreja. No obstante, apesar de todos os seus esforos, alguns
elementos do cisma continuaram, com algum apoio espanhol at meados da
dcada de 1420.
 G. Mollat, The Popes at Avignon (1963); Y. Renouard, The Avignon Papacy
1305-1403 (1970); W. Ullmann, The Origins of the Great Schism (1972)

Grcia Houve um considervel interesse pela recuperao da cultura grega,
com freqncia atravs de fontes muulmanas, o que foi uma das notveis
caractersticas da vida intelectual da Europa na Idade Mdia Central. Mas a
histria poltica das terras de fala grega, incluindo a rea hoje considerada a
Grcia continental e suas ilhas dependentes,  matria de grande
complexidade e tem sido tratada pelos historiadores ocidentais como sujeita a
outros temas, como a histria do Imprio Bizantino, as Cruzadas ou a
ascenso dos otomanos.
      De um modo geral, Bizncio ou o Imprio do Oriente, com base em
Constantinopla, era considerado o imprio dos gregos at ser derrubado pela
Quarta Cruzada (1204). Desde ento at sua conquista final pelos turcos
otomanos em 1460, a histria da "Grcia" foi acidentada e fragmentria. Sob
domnio bizantino havia alguma imigrao eslava, mas mantinha razovel
identidade atravs do predomnio da lngua grega e da religio ortodoxa
grega. A presso muulmana era, por vezes, intensa, e Creta foi governada
por muulmanos de 823 a 961. Nos sculos XI e XII, a interveno normanda,
partindo da Itlia meridional, foi uma provocao constante.
      Aps a queda de Constantinopla (1204), as terras gregas atraram as
ambies polticas de vrios povos ocidentais: senhores feudais "francos",
borgonheses, angevinos, italianos e os interesses feudais e comerciais
associados  Grande Companhia Catal e s grandes cidades italianas,
sobretudo Veneza. A restaurao do Imprio Bizantino em 1261 teve pouco
impacto na poltica grega at o incio do sculo XV, quando as ambies
expansionistas dos turcos otomanos tornaram-se irresistveis, resultando na
conquista da Grcia e na tomada da prpria Constantinopla em 1453.
 D.M. Nicol, The Last Centuries of Byzantium, 1261-1453 (1972)

Gregrio I Magno, So papa 590-604 (n. c. 540) De uma abastada famlia
romana, Gregrio esteve envolvido na administrao secular de Roma por
volta de 573, possivelmente como prefeito. Renunciou ao seu cargo para
tornar-se monge e, tendo herdado as propriedades da famlia, nelas instalou
sete mosteiros, num dos quais, Santo Andr, anteriormente residncia da
famlia no monte Clio, ele prprio ingressou. Obedecendo a uma convocao
do papa, deixou Santo Andr a fim de ser ordenado como dicono. Em 579,
os lombardos sitiaram Roma e talvez tenha sido ento que Gregrio foi
enviado a Constantinopla com o objetivo de procurar ajuda do imperador.
Regressou ao seu diaconato de Latro por volta de 586. Com a morte do
papa Pelgio II (590), Gregrio foi unanimemente eleito para suceder-lhe.
       No obstante a sua crnica sade precria -- atribuda por Gregrio de
Tours ao excessivo jejum -- ele dedicou-se irrestritamente s suas
responsabilidades pontifcias, como  testemunhado pelas suas 854 cartas
sobreviventes. Coube  Igreja alimentar a considervel populao indigente de
Roma, e Gregrio foi o primeiro a sistematizar tais atividades caritativas,
referindo-se a si mesmo como "intendente da propriedade dos pobres". Dando
continuidade  obra de seu predecessor, Gelsio I (m. 496), Gregrio instituiu
importantes reformas na administrao dos domnios papais para
salvaguardar os interesses da Igreja. Foi inevitavelmente atrado para a arena
poltica, onde as incurses dos lombardos criavam um srio problema.
Gregrio negociou com seus chefes, intervindo sempre que as aes do
exarca bizantino se mostraram comprovadamente inadequadas. Ao contrrio
de muitos de seus sucessores, Gregrio no estava preocupado em cercear a
autoridade imperial, reconhecendo o imperador como soberano temporal e
protetor da Igreja. Reconheceu a prioridade do patriarca de Constantinopla no
Oriente, mas defendeu zelosamente o primado papal dentro da Cristandade.
Tentou resolver disputas doutrinais, especialmente com os Trs Captulos
cismticos na stria, assim como entre os lombardos que tinham aceito o
Catolicismo.
      Gregrio atribuiu grande importncia  atividade missionria, instruindo
Agostinho, prior de Santo Andr, para se dedicar  converso dos ingleses,
em 596. O famoso dilogo de Gregrio com o jovem Angles em Roma pode,
contudo, ser simplesmente lenda; o incidente  relatado pela primeira vez pelo
seu mais antigo bigrafo, o Annimo de Whitby (704-14), e por Beda. 
improvvel que a formulao do Canto Gregoriano deva alguma coisa a
Gregrio I, e somente uma parte do sacramentrio gregoriano lhe  atribuvel.
Ele criticou a condenao de pinturas religiosas, considerando-as "os livros
dos que no sabem ler". Seu prprio estilo literrio era, com freqncia, e de
forma deliberada, mais anedtico do que esotrico. A base para a aceitao
de Bento de Nrsia como personagem histrica  o relato de Gregrio sobre a
vida e os milagres de Bento em seus Dilogos (593). As outras principais
obras de Gregrio so: Regula Pastoralis, um manual para bispos; as
Homlias, discursos sobre Ezequiel e os Evangelhos, proferidos em 591-93; e
uma exegese sobre J, a Magna Moralia (595).
     Primeiro papa com antecedentes monsticos, Gregrio foi um ardoroso
promotor do monasticismo.  reconhecido como o ltimo dos quatro grandes
Pais da Igreja latina.                                  JF
 J. Richards, Consul of Cod: The Life and Times of Gregory the Great
(1980) [Grgoire le Grand, Paris, CNRS, 1986]

Gregrio VII (Hildebrando) papa 1073-85 Corretamente considerado o lder
e a figura representativa do grande movimento de reforma eclesistica da
segunda metade do sculo XI, o papa Gregrio VII adquiriu uma reputao de
tenacidade de propsitos e de viso imaginativa sobre o modo como a Igreja
ocidental devia ser governada. Ganhou proeminncia quando estava ainda a
servio do papa Gregrio VI (1045-46), e passou o resto de sua vida
exercendo um papel ativo na poltica e administrao papais. Sua carreira foi
favorecida pelo papa reformista Leo IX (1049-54) e durante mais de 20 anos
esteve ocupado com os negcios da cria pontifcia, atuando como emissrio
papal na Frana e na Alemanha e destacando-se no vigoroso grupo que
desenvolveu lentamente a idia de reforma centralizada que transcenderia as
fronteiras polticas e as peculiaridades de cada comunidade eclesistica do
Ocidente.
     A preocupao com a reforma moral estava no mago de toda a sua
atividade poltica. No final da dcada de 1050, a aliana do Papado com os
normandos da Itlia meridional e a afirmao do princpio de eleio livre para
os cargos papais fortaleceram a posio da Igreja romana, se bem que, num
certo sentido, essas iniciativas possam ser interpretadas meramente como um
meio para se atingir um fim. A ansiedade sobre o estado moral da Igreja
proporcionava a fora motivadora da ao poltica. Uma preocupao especial
foi expressa a respeito da simonia (a venda de cargos clericais), das
violaes do celibato (o casamento clerical era comum, especialmente na
Alemanha) e da nomeao de leigos para os altos cargos da Igreja; isso era
simbolizado no ato de investidura, pelo qual um rei empossava um prelado em
seu cargo, instruindo-o para "receber esta igreja". Os princpios de controle
laico no nvel inferior tambm causavam grande preocupao por parte dos
reformistas; os grandes latifundirios nomeavam seus prprios apaniguados
para benefcios (por vezes -- sobretudo, de novo, em terras alems -- seus
prprios servos). Os ataques contra esses princpios, entretanto, tinham que
ser necessariamente conduzidos com mais circunspeo. O controle
hierrquico dos altos cargos da Igreja passou a ser plataforma principal do
chamado movimento de Reforma Gregoriana; a transmisso de autoridade
passava, numa linha clara, do papa (sucessor de So Pedro), atravs dos
cardeais e metropolitas, at os bispos livremente eleitos.
      Tais idias eram contrrias  prtica em grande parte da Europa, onde
imperadores e reis estavam acostumados a escolher seus prprios bispos,
que na maioria das vezes eram grandes proprietrios de terras e homens-
chave no governo e na administrao em virtude de seu cargo. No obstante,
em sua eleio para o Papado, Gregrio decidiu concretizar sua viso do que
era uma Igreja reformada, livre e eficiente. "Eu no sou o costume mas a
verdade", tornou-se um dos seus lemas favoritos, citado com freqncia no
volumoso acervo de cartas que sobreviveram do seu pontificado. O resultado
foi a precipitao de um dos maiores conflitos entre o Imprio e o Papado de
toda a histria medieval. O nome que lhe foi dado, a "Questo das
Investiduras",  algo enganador: a questo dos erros e acertos da investidura
leiga era apenas acessria; as verdadeiras questes diziam respeito 
supremacia do papa no mbito da Igreja. Era, na verdade, como foi sugerido
por muitos historiadores, uma luta comparvel  Reforma do sculo XVI, uma
luta pela "ordem certa" no mundo ocidental.
      A posio assumida pelo prprio Gregrio VII foi bem enunciada nos
Dictatus Papae, um memorando sobrevivente dos primeiros dias de seu
pontificado, no qual so expostos os argumentos respeitantes  natureza do
Papado.  primeira vista, h certas incongruncias no documento -- o que 
evidentemente importante mistura-se com o evidentemente secundrio -- mas
h uma lgica rgida que est presente no conjunto de 27 proposies, da
primeira  ltima delas.  uma clara afirmao da infalibilidade da Igreja
romana e da supremacia do Papado. Somente o papa tinha direito  insgnia
imperial e o direito de depor bispos; tinha o direito de destronar imperadores
indignos. A teoria de um Papado centralizado e centralizador emerge,
inteiramente desenvolvida, no Dictatus, e foi rapidamente testada na prtica.
       As pendncias com o jovem rei alemo Henrique IV em torno da
recepo rgia a bispos excomungados, da omisso em implementar as
reformas morais requeridas e dos princpios que devem nortear a eleio para
o arcebispo-chave de Milo acabaram eclodindo num confronto dramtico e
violento entre dezembro de 1075 e maro de 1077. A iniciativa coube, em
primeiro lugar, ao monarca, que em janeiro de 1076, numa grande assemblia
de notveis alemes, apoiou fortemente seus bispos, que Gregrio tinha
exonerado. A resposta do papa foi rpida e efetiva: no snodo da Quaresma,
em Roma, ele deps tambm o rei, excomungando-o e isentando seus sditos
cristos dos votos de fidelidade  Coroa. Henrique viu-se rapidamente sem
apoio e elementos dissidentes, dentro do reino, tanto eclesisticos quanto
laicos, no desperdiaram a oportunidade. No outono, num confronto que
quase redundou em guerra aberta, eles ameaaram o monarca excomungado
em Tribur e Oppenheim. Graas a uma manobra poltica de certa destreza,
Henrique evitou ser capturado e rumou para o sul, atravessando os Alpes em
pleno inverno a fim de se defrontar cara a cara com o papa, no castelo de
Canossa, em uma das mais dramticas cenas de toda a histria medieval. As
crnicas da poca e depois os historiadores exploraram ao mximo essa
histria, descrevendo o jovem rei, descalo e trajando vestimenta humilde,
aguardando como penitente a absolvio do papa Gregrio. O papa, como
sacerdote, no podia fazer outra coisa seno absolv-lo, mas os adversrios
polticos de Henrique, dentro da Alemanha, prosseguiram com sua
conspirao, depondo Henrique e elegendo Rodolfo da Subia como anti-rei
em maro de 1077.
       Gregrio parece ter tentado manter o equilbrio, concentrando-se na
reforma moral, ampliando sua rea de influncia e tentando implementar os
princpios de monarquia papal em toda a Europa. Sua energia era fenomenal
e a interferncia ativa do pontfice foi sentida muito alm das fronteiras do
Imprio, na Hungria, Polnia, Escandinvia, Inglaterra e Espanha. Gregrio foi
forado a voltar  cena poltica e a, a partir de 1080, seu discernimento
poltico parece t-lo abandonado. Interveio a favor de Rodolfo, que foi morto
numa escaramua. Sua segunda deposio de Henrique mostrou-se ineficaz;
o rei alemo ganhava agora fora, marchou para a Itlia, nomeou um
respeitvel antipapa na pessoa de Clemente III, arcebispo de Ravena, e fez-
se coroar imperador. Gregrio viu-se forado a convocar seus turbulentos
aliados normandos, mas as devastaes por eles causadas em Roma foram
to grandes que, em 1084, Gregrio teve que acompanhar os normandos
quando estes se deslocaram para o sul.
      Ele morreu no exlio em Salerno e seu ltimo e amargo comentrio,
"Amei a justia, portanto morro no exlio", seria relembrado por muito tempo.
Como homem, suscitou paixes violentas e os eptetos que o descrevem vo
desde "o feio monge toscano" at "Santo Sat". Apesar de todo o evidente
fracasso e tragdia de seus ltimos anos, as realizaes de Gregrio VII
foram fenomenais. Nenhum imperador, depois de Canossa, nem mesmo o
mais poderoso dos Hohenstaufens, tentou reafirmar a teocracia dos
carolngios, dos otonianos ou de Henrique III. O forte Papado do perodo
central da Idade Mdia, confiante em sua supremacia sobre as coisas
espirituais e em sua superioridade nas temporais, ficou estabelecido com
firmeza.                             HRL
 A.J. Macdonald, Hildebrand: a Life of Gregory VII (1932); J.P. Whitney,
Hildebrandine Essays (1932); G. Tellenbach, Church, State and Christian
Society at the time of the Investiture Contest (1940)

Gregrio IX papa 1227-41 (n. 1148) Cardeal-bispo de stia, ao ser eleito
excomungou Frederico II por no ter cumprido um voto de participao em
Cruzada. Aps ter tentado sem xito invadir a Siclia, base do poder imperial,
Gregrio aceitou a reconciliao de Frederico com a Igreja nos termos do
Tratado de So Germano (1230). As atividades antipapais do imperador na
Lombardia e na Siclia provocaram a renovao da excomunho em 1239; e
em 1241 Gregrio tentou convocar um conclio geral em Roma a fim de
submeter o imperador a julgamento. Gregrio promulgou o Liber Extra, uma
importante coletnea de legislao papal, em 1234. Foi um ardoroso defensor
dos frades franciscanos e dominicanos.
 Rgistres de Grgoire IX, org. por L. Auvray (1896-1910)

Gregrio de Tours, So (c. 540-94) De uma famlia senatorial galo-romana,
sucedeu a seu primo como bispo metropolita de Tours em 573. Durante seu
episcopado, tratou com trs governantes merovngios: Sigiberto, que foi
assassinado em 575; o desptico Chilperico, a quem Gregrio se ops
vigorosamente durante 10 anos; e o jovem Childeberto II, em cujo nome
Guntram atuou como regente. Os escritos de Gregrio so de carter
predominantemente hagiogrfico, mas sua principal obra  a Historia
Francorum, uma crnica que vai desde a Criao at 591 porm se ocupa
principalmente dos assuntos do sculo VI.
 The History of the Franks, org. por L. Thorpe (1974) [Histoire des francs,
org. por R. Latouche, 2 vols., Paris, Belles Lettres, 1975-1979]

Groenlndia Ilha colonizada no final do sculo X por escandinavos, em sua
maioria islandeses, sob a liderana de rico, o Vermelho. Fundaram duas
colnias: a oriental (onde se edificou a catedral, em Gardar, um mosteiro
agostiniano, um convento de monjas beneditinas e 12 igrejas paroquiais) e a
ocidental (em torno da moderna God-thaab). O Cristianismo foi aceito desde
muito cedo e os groenlandeses prosperaram, ampliando os conhecimentos de
navegao mais para oeste at Vinland e mantendo um contato firme e
permanente com a Islndia e a Noruega. Em 1261 aceitaram a soberania
norueguesa.
     A deteriorao das condies climticas atraiu os esquims para o sul e
tornou a existncia dos escandinavos cada vez mais precria. Em meados do
sculo XIV, a colnia ocidental tinha entrado em colapso e as comunicaes
com a Noruega tornaram-se espordicas. Parece provvel que alguns
sobreviventes tenham logrado manter-se at fins do sculo XV e
possivelmente at a primeira dcada do sculo XVI; mas a Groenlndia pedia
recolonizao no comeo do perodo moderno. Uma combinao de frio
crescente, ataques esquims e indiferena norueguesa ps fim a um dos mais
denodados e impressionantes esforos de colonizao da Idade Mdia.
 G. Jones, The Norse Atlantic Saga (1964)

Groote, Gerhard (1340-84) Fundador da Irmandade da Vida Comum. De
uma abastada famlia holandesa, renunciou a uma vitoriosa carreira
acadmica para ingressar no mosteiro cartuxo de Munnikhausen, por volta de
1375. Deixando o mosteiro trs anos depois, procurou a ordenao e
entregou-se  pregao missionria na diocese de Utrecht. Deu uma
contribuio fundamental para a espiritualidade do renascimento religioso de
seu tempo conhecido como devotio moderna, mas as crticas que fez contra a
corrupo na Igreja resultaram no cancelamento em 1383 de sua autorizao
para pregar.
    A comunidade que ele fundou na sua Deventer natal constituiu o ncleo
do grupo religioso denominado Irmandade da Vida Comum; seus ideais
tambm tiveram uma influncia formativa sobre a congregao cannica
regular de Windesheim.

Grosseteste, Roberto (n. c. 1173) Bispo de Lincoln em 1235-53 e poltico de
grande energia e duradoura influncia, dedicou-se vigorosamente  reforma
da Igreja. Em seus Statutes (1240-43), estabeleceu as diretrizes para a
administrao de uma diocese e para a imposio de uma ordem moral ao
clero, diretrizes essas que iriam ser extensamente copiadas e usadas como
modelo ao longo de toda a Idade Mdia na Inglaterra. Tambm foi o
instigador da crescente prosperidade e dos elevados padres da Universidade
de Oxford, e esteve na vanguarda dos estudos lingsticos -- era um
competente hebrasta e helenista -- assim como do pensamento cientfico e
teolgico. Seus comentrios  obra de Aristteles sobre a fsica e seu
compndio dos conhecimentos cientficos foram rapidamente reconhecidos
como autoridades nessas matrias em sua gerao, prenunciando Roger
Bacon em sua nfase sobre o experimento e um mtodo cientfico rudimentar.
 J. McEvoy, The Philosophy of Robert Grosseteste (1982); R.W. Southern,
Robert Grosseteste (1986)

Guelfo (em alemo, Welf) Famlia descendente do conde bvaro Welf I, do
incio do sculo IX, que manteve uma implacvel rivalidade com os
Hohenstaufen pela hegemonia na Alemanha entre comeos do sculo XII e do
XIII. Em 1070, Welf IV tornara-se duque da Baviera, a que seu filho Henrique,
o Negro (m. 1126), acrescentara substanciais territrios e seu neto, Henrique,
o Soberbo (m. 1139), as terras e domnios do imperador Lotrio II, em ambos
os casos por casamento. Henrique, o Soberbo, parecia ser um destacado
candidato  Coroa imperial mas um de seus rivais, Lotrio III, um
Hohenstaufen, saiu vitorioso da disputa e, no contente com isso, tratou de
despojar o herdeiro de Henrique, Henrique, o Leo, de algumas de suas
terras. O irmo de Henrique, o Soberbo, Welf VI (m. 1191), herdeiro do trono
da Baviera, realizou uma aliana de casamento com os Hohenstaufen e
recebeu em dote a Toscana, Spoleto e outras terras italianas, doadas por seu
sobrinho Hohenstaufen, o imperador Frederico I Barba-Ruiva. Em 1156, a
Baviera era concedida a Henrique, o Leo, que j era duque da Saxnia e
tornava-se ento o virtual governante de toda a Alemanha setentrional. Em
1176, porm, Henrique recusou ajuda ao imperador da Itlia. Em 1180 foi
formalmente despojado de seus feudos e deles expulso pela fora, deixando-o
apenas com os bens alodiais da famlia na regio de Brunswick. A famlia de
Welf voltou ao primeiro plano poltico em 1201, quando o segundo filho de
Henrique, Oto de Brunswick, pretendente s terras italianas de Welf VI, foi
eleito imperador Oto IV com o apoio do papa Inocncio III. Em 1209, ele
consolidara seu poder na Alemanha e entrou na Itlia a fim de reclamar suas
terras e conquistar as dos Hohenstaufen. Alarmado, o papa acudiu agora a
Frederico II da Siclia, que gradualmente tomou de volta a Alemanha a Oto,
cujo aliado, Filipe II de Frana, derrotou de forma decisiva Oto e seus aliados
ingleses em 1214.
      Os Welf viam-se de novo confinados s suas propriedades alodiais de
Brunswick mas sua estrela voltou a brilhar quando, em 1235, Oto, o Menino,
rendeu preito de vassalagem a Frederico II que, em retribuio, lhe concedeu
Lneburgo e, alm disso, converteu essas terras num principado imperial. Na
Itlia, entretanto, o conflito prosseguiu entre os dois partidos, denominados
desde cerca de 1240 guelfos (de Welf) e gibelinos (de Waiblingen, o castelo e
grito de guerra dos Hohenstaufen). No comeo, os guelfos apoiavam a Igreja,
adversria dos imperadores, mas as origens das disputas no tardaram em
perder-se de vista, e os nomes de guelfos e gibelinos passaram a estar
simplesmente ligados a faces rivais nas comunas italianas.
 K. Hampe, Germany under the Salian and Hohenstaufen Emperors (1973)

guerra Um fator dinmico crucial nos desenvolvimentos econmicos, sociais e
polticos na Idade Mdia. Um certo nmero de batalhas decisivas, travadas
com extrema intensidade, como na derrota dos muulmanos em Poitiers
(732), ou as campanhas dos cruzados na Terra Santa, destacam-se como
eventos com imediatas e ntidas conseqncias. Menos imediatamente bvios,
mas de anloga importncia, foram os efeitos das guerras localizadas
deflagradas pelos castelos do Poitou nos sculos X e XI, ou do conflito
anglo-francs de 1294-1303, o qual gerou crises na administrao financeira
de ambos os reinos e concomitantes problemas polticos.  verdade que os
exrcitos medievais eram pequenos e que as campanhas eram limitadas em
seu mbito e no produziam invariavelmente devastaes no campo.
Entretanto, o resto da sociedade tinha que sustentar esses combatentes, quer
atravs da concesso de ttulos de posse, freqentemente descritos como
feudais, quer, mais tarde, atravs de tributao, o que permitia pagar os
exrcitos diretamente. Durante toda a Idade Mdia, a sociedade secular
estava organizada para as necessidades da guerra.
       A Igreja medieval procurou constantemente limitar e controlar os
conflitos. Os governantes leigos cristos eram tradicionalmente os protetores
e avalistas da iseno eclesistica dos efeitos da guerra, mas no comeo da
Idade Mdia, a Igreja sofreu em conseqncia de invases e do colapso da
autoridade poltica em muitas regies. Alguns eclesisticos enfrentaram a
fora com a fora, sendo um exemplo as comunidades monsticas clticas na
Irlanda. Em outros lugares, a Igreja atuou como uma influncia apaziguadora.
As conturbadas condies da Borgonha e da Aquitnia no final do sculo X
deram origem  Paz e Trgua de Deus, pela qual os sacerdotes e os pobres
recebiam proteo e os atos de violncia eram legalmente proscritos em
muitos dias do ano. O movimento propagou-se consideravelmente e teve uma
profunda influncia na sociedade leiga. As Ordens Religiosas Militares foram o
resultado de um enfoque diferente: a santificao da agresso e sua
organizao contra o infiel.
      O culto da cavalaria, o qual se desenvolveu a partir da tradio do amor
corteso, reforou a idia de um cdigo cristo de conduta para o cavaleiro, e
o combate no final da Idade Mdia era geralmente precedido de missa e
confisso. A teoria da "guerra justa" desenvolvida pelos canonistas,
estabeleceu que a guerra deveria ser sustentada por leigos em prol de uma
causa justa e necessria que no pudesse ser vitoriosa por outros meios. Tais
conceitos foram ganhando gradualmente terreno, em detrimento dos primitivos
costumes feudais que permitiam a qualquer cavaleiro deflagrar a guerra a seu
bel-prazer. A autoridade pblica e sanes eclesisticas foram aplicadas
contra os combates ilcitos, quando uma complexa srie de leis e costumes
passaram a regulamentar a conduta da guerra. Entretanto, diferentes critrios
eram usados no caso de guerras contra pagos e infiis, as quais, em sua
grande maioria, eram desencadeadas com selvtica ferocidade. Carlos
Magno devastou a Saxnia a fim de for-la a adotar o Cristianismo, e muitas
campanhas nas Cruzadas foram sublinhadas por atos de indescritvel
violncia, como o massacre de muulmanos e judeus em Jerusalm em 1099.
Tambm no Ocidente os padres ideais nem sempre foram respeitados: os
mercenrios brabanes empregados pelos reis ingleses, franceses e
alemes em fins do sculo XII eram notoriamente brbaros, enquanto que
durante a Guerra dos Cem Anos os exrcitos ingleses infligiram graves danos
 populao francesa, muitas vezes seguindo instrues de seus
comandantes.
      Os smbolos duradouros da guerra medieval, do sculo XI em diante,
so o cavaleiro e o castelo. O proprietrio de um castelo podia dominar e
proteger uma rea, e s quando reconhecia a autoridade de um suserano
poderia ter o seu poder mantido sob controle. No final da Idade Mdia,
cidades fortificadas adquiriram tambm uma significativa importncia
estratgica. O vassalo ou servidor combatente do incio da Idade Mdia deu
lugar ao miles ou cavaleiro, sustentado por terras feudais ou por emolumentos
monetrios desde o sculo X. Ele era um guerreiro pesadamente armado e
montado num possante cavalo, o que lhe dava grande vantagem sobre tropas
mais ligeiras. Treinado nas guerras particulares e em torneios a que o clero se
opunha tanto, o nobre cavaleiro era encorajado a manter seus ideais de
coragem, virtude e dever. A infantaria no era adversrio  altura da cavalaria
pesada, como os infantes anglo-saxes, armados com machados,
descobriram em Hastings, em 1066. A partir do sculo XIII, porm, tropas
especializadas combatendo a p, muitas como mercenrias, obtiveram
algumas importantes vitrias. Os arqueiros galeses, com seus arcos de mo,
deram a Eduardo III considervel vantagem na Guerra dos Cem Anos, como
na batalha de Crcy (1346); os exrcitos comunais flamengos, com suas
pesadas armas de mo, provaram poder lutar de igual para igual contra Filipe
IV da Frana em Courtrai (1302). As embarcaes desempenharam um
importante papel no transporte de combatentes, como nas incurses vikings; e
algumas grandes batalhas foram travadas no mar, como a derrota infligida
pelos ingleses  frota francesa em Sluys, em 1340. Os navios das comunas
italianas e, em especial, os genoveses, eram foras poderosas e respeitadas.
       Muitos comandantes medievais possuam certa percepo estratgica.
Tentavam evitar batalhas regulares sempre que possvel, preferindo manobrar
e sitiar os castelos de seus adversrios, usando equipamento especializado.
O aparecimento da plvora no final da Idade Mdia prenunciou importantes
desenvolvimentos na guerra de cerco. As batalhas eram raras mas
freqentemente decisivas, como quando, em 1288, o duque de Brabante
derrotou o conde de Limburgo e o arcebispo de Colnia em Worringen.
Tticas cuidadosamente elaboradas faziam considervel diferena para o
desfecho de uma batalha, e uma fuga simulada podia, por vezes, significar a
v i t  r i a . Ver         armadura;         castelos;         cavalaria;
cavaleiros                                                EMH
 R.C. Smail, Crusading Warfare 1097-1193(1956); J.F. Verbrggen, The Art
of Warfare in Western Europe during the Middle Ages (1977) [C. Rezende
Filho, Guerra e guerreiros na Idade Mdia, S. Paulo, Contexto, 1989]

Guerra dos Cem Anos Nome dado a uma srie de guerras travadas entre a
Inglaterra e a Frana na parte final da Idade Mdia, mais especfica e
substancialmente no perodo de 1337 a 1453. Durante a maior parte desse
perodo, a iniciativa coube aos ingleses, e os principais combates e a
devastao resultante tiveram lugar exclusivamente na Frana. A guerra ativa
dividiu-se em quatro fases claramente marcadas: 1) 1337-60, um perodo de
sensacionais vitrias inglesas (Crcy, 1346; Poitiers, 1356), culminando no
Tratado de Brtigny (1360), o qual deu  Inglaterra o controle de quase toda a
faixa costeira do norte e oeste da Frana; 2) 1360-80, caracterizada pela
recuperao francesa com Carlos V e DuGuesclin, ficando a Inglaterra
reduzida, pelo Tratado de Bruges (1375),  posse de Calais e de uma zona
costeira da Gasconha; 3) 1380-1420, um perodo de cumulativos desastres
franceses, no qual se juntaram a loucura do rei Carlos VI, a ascenso do
poder borgonhs e as vitrias esmagadoras de Henrique V da Inglaterra
(Azincourt, 1415); pelo Tratado de Troyes (1420), virtualmente toda a Frana
ao norte do Loire ficou sob domnio ingls, e Henrique V foi reconhecido como
herdeiro do trono francs; 4) 1420-53, a lenta recuperao da Frana
marcada pela inspirao de Joana d'Arc (derrota das foras inglesas que
sitiavam Orlans em 1429 e coroao de Carlos VII em Reims), acordo com a
Borgonha (1435) e maior eficincia da cavalaria e artilharia francesas,
concorrendo para um moral mais elevado dos combatentes.
      As causas da guerra eram complexas, incluindo questes especficas
(como a pirataria no Canal, disputas territoriais na Gasconha, rivalidades
comerciais e reivindicaes dinsticas baseadas, em parte, nas conexes
familiares imediatas dos capetngios e dos Plantagenetas) e, tambm em
parte, na percepo histrica do poderio territorial dos antigos governantes
normandos e angevinos da Inglaterra dentro da Frana. A maioria dos
analistas modernos d grande nfase aos obsoletos arranjos constitucionais
de acordo com os quais os reis ingleses tinham direito s possesses
francesas que lhes haviam sido outorgadas pelos reis franceses sob forma
feudal. Numa poca em que as estruturas de governo estavam se
desenvolvendo rapidamente em ambas as comunidades, o rei da Inglaterra
no podia exercer em suas terras francesas a mesma autoridade que estava
apto a exercer e explorar na Inglaterra. Por outras palavras, a guerra 
interpretada como uma parte vital da crise na Europa ocidental que levou 
criao de estados nacionais relativamente eficientes na Inglaterra e na
Frana.
      Houve, por certo, uma consolidao da conscincia nacional em ambos
os lados do Canal. O francs tinha deixado de ser a lngua palaciana oficial da
Inglaterra por volta de 1380, e houve um belo florescimento da lngua inglesa
nas ltimas dcadas do sculo XIV, sobretudo nas obras de Chaucer.
Materialmente, a Inglaterra sofreu menos do que a Frana, que foi devastada
por sublevaes camponesas (a Jacqurie) e pelas Companhias Livres do
sculo XV. Importncia precoce foi atribuda aos Estados Gerais na Frana
(1356), e o Parlamento ingls aumentou sua influncia nos assuntos
financeiros; mas o resultado final em ambas as comunidades foi o
fortalecimento da monarquia.
 The Hundred Years' War, org. por K. Fowler (1971) [E. Perroy, La guerra
de los cien aos, Madri, Akal, 1982; Ph. Contamine, La guerre de cent ans,
Paris, PUF, 1972]

Guerras das Duas Rosas Nome dado s guerras civis inglesas que
ocorreram no perodo de cerca de 1455-89. Suas causas subjacentes
incluram a recesso econmica e a prosperidade decrescente das classes
latifundirias; o fim da Guerra dos Cem Anos em 1453; os problemas
decorrentes do "feudalismo bastardo"; e a escalada de conflitos particulares
entre as grandes famlias, como os Percys e os Nevilles. A razo central e
imediata para sua ecloso foi, entretanto, a ineficcia de Henrique VI e a
corrupo de seus conselheiros. As faces adversrias lutaram, em primeiro
lugar, pelo controle do rei e depois de cerca de 1460 pela prpria Coroa. Um
fator de complicao era a oportunidade de herana, que tinha feito surgir um
grande nmero de candidatos ao trono, todos descendentes de Eduardo III.
       A dcada de 1450 assistiu s tentativas de Ricardo, duque de York, com
o apoio de Warwick (o "Fazedor de Reis"), para controlar Henrique VI s
custas da rainha Margarida e seus partidrios. Em 1459, os lderes yorkistas
fugiram para o estrangeiro, s regressando no ano seguinte para capturar o
rei em Northampton. Foi ento que o duque Ricardo reclamou o trono; mas
seus prprios seguidores no lhe deram o apoio esperado e ele teve que se
contentar com a promessa de sucesso. A rainha reagrupou entretanto as
foras lancastrenses, e obteve duas importantes vitrias, em Sandal (1460),
onde York perdeu a vida, e em St. Albans (1461). Ela no conseguiu, porm,
o apoio de Londres e foi forada a retirar-se para o norte, permitindo que
Eduardo, filho de Ricardo de York, recm-chegado aps derrotar em
Mortimer's Cross um outro exrcito lancastrense, se proclamasse e coroasse
rei com o apoio de Warwick. Em Towton, as foras de Eduardo IV obtiveram
uma grande vitria no que foi a mais renhida batalha da guerra. Eduardo
consolidou sua posio mas, na dcada de 1460, ele e Warwick passaram
pouco a pouco a se desentender. Warwick foi malsucedido numa tentativa de
golpe de Estado, juntou-se aos lancastrenses e, com apoio francs, reps
Henrique VI no trono (1470). Com ajuda dos borgonheses e do Parlamento,
Eduardo IV invadiu a Inglaterra em 1471 e derrotou os lancastrenses nas
batalhas de Barnet e Tewkesbury. Warwick foi morto, Henrique VI morreu na
Torre de Londres em circunstncias misteriosas, e a rainha Margarida foi
presa e depois exilada. Terminou a a luta dinstica direta, mas em 1485,
Henrique Tudor, um distante parente da casa de Lancaster, iria aproveitar-se
das dissenses do reinado de Ricardo III. Invadiu a Inglaterra, derrotou
Ricardo e tomou o trono para si.
     Estudos recentes das Guerras das Duas Rosas sugerem que elas foram
tanto sintoma quanto causa da violncia e anarquia da sociedade inglesa. A
pilhagem e a devastao envolvidas tm sido muito exageradas; somente em
1459-61 e 1469-71 a lei e a ordem, segundo parece, teriam soobrado por
completo. Embora sete famlias da alta nobreza tenham desaparecido por
completo, houve menos extines das linhas varonis de casas nobres por
causa das guerras do que por falta de herdeiros masculinos. Os perigos de
permitir  aristocracia local um poder irrestrito foi, contudo, uma lio que
Henrique                               VII                                no
desprezaria.                                                        EMH
 J.R. Lander, Conflict and Stability in Fifteenth-Century England (1974); C.
Ross, The Wars of the Roses: A Concise History (1977); A. Goodman, The
Wars of the Roses, Military Activity and English Society 1452-97(1981)

guildas Uma guilda  uma associao de carter solene, um grupo de
pessoas que se renem para algum fim comum, estabelecem confrarias
ligadas por alguma modalidade de juramento e expressam a vinculao entre
elas por meio de formas rituais de comer e beber. Instituies desse tipo
aparecem em numerosas culturas. A palavra  cognata no ingls arcaico de
geld, pagamento; e, embora o pagamento de jias e taxas de filiao seja
uma caracterstica constante das guildas, h na base uma ligao mais antiga
entre pagamento e sacrifcio. As mais antigas guildas eram, provavelmente,
festins sacrificiais pagos, e a substituio da carne e do sangue de uma
vtima pela cerveja, a bebida sagrada dos germanos, pouco fez para tornar
esses festins mais agradveis  Igreja crist. As mais antigas referncias
conhecidas no Ocidente so como rituais pagos que tinham de ser
suprimidos com firmeza pelo clero.
      A guilda era, contudo, uma instituio com profundas razes, mais fcil
de assimilar do que de abolir; e durante toda a Idade Mdia suas nicas rivais
como forma de organizao social eram a famlia, com todos os seus
dependentes e servidores domsticos, e a corte. As guildas clericais surgiram
cedo e no sculo X Londres tinha uma guilda para a manuteno da paz, a
qual contava com o bispo entre seus membros. O mais importante papel da
guilda na Igreja era, provavelmente, a edificao de igrejas e, de certa
maneira, a definio da parquia como uma comunidade de fiis. A
manuteno de uma igreja paroquial, excetuando-se o altar-mor e o coro, era
responsabilidade dos paroquianos, e o empreendimento de construir o edifcio
e conservar a estrutura em boas condies exigia um esforo cooperativo que
a guilda estava perfeitamente apta a promover. As guildas paroquiais e as
guildas sociais que se encarregaram do acrscimo e manuteno de capelas
e altares em igrejas paroquiais fixaram honorrios para os sacerdotes e
financiaram a aquisio de luminrias e servios particulares, mantendo a
estreita associao entre guilda e vida paroquial at o fim da Idade Mdia.
      Duas manifestaes da guilda serviram para distorcer sua histria. Uma
foi a guilda mercantil, que nos aparece quando a documentao da vida
urbana se intensifica do sculo XI em diante, e que manteve um papel central
nos negcios de algumas cidades durante sculos. Sua natureza e funo
foram largamente incompreendidas, porque os historiadores tentaram
classificar as guildas como entidades e no como meios adaptveis a uma
variedade de fins. Quando os cidados procuravam obter privilgios do rei ou
de algum outro senhor, era natural que usassem a guilda como smbolo e
como reforo de seu objetivo comum; tambm era natural que os mercadores
protegessem seus interesses no pas e no estrangeiro do mesmo modo. A
partir do sculo XII, os boroughs ingleses, com freqncia mas no
invariavelmente, procuraram assegurar-se do direito de estabelecer uma
guilda mercantil entre os privilgios da cidade e, em alguns lugares, como
Ipswich em 1200, a filiao  guilda era equiparada  liberdade do borough.
      H muitas cidades, contudo, onde no existe o menor vestgio de uma
guilda mercantil; aquelas na Inglaterra nas quais a guilda desempenhou um
destacado e duradouro papel nos assuntos cvicos ou apenas uma funo
secundria, como Calne, no Wiltshire, ou ento, como Leicester, tinham
senhores que no estavam dispostos a permitir o controle burgus de seus
prprios tribunais. O funcionrio que presidia uma guilda chamava-se
alderman [intendente], e os intendentes municipais podem ter tido sua origem
nas guildas. O principal magistrado de Grantham foi conhecido por esse ttulo
at o sculo XIX. Na maioria dos boroughs, entretanto, a guilda mercantil logo
perdeu o significado dominante que pudesse ter tido para o tribunal do
borough, que se converteu num rgo tanto administrativo quanto judicial.
Mesmo assim, o edifcio no qual o tribunal se reunia era freqentemente
conhecido como Guildhall, como aconteceu em Londres, onde nunca houve
qualquer guilda mercantil.
      O outro uso urbano da guilda foi como um meio de organizar e controlar
as artes e ofcios.  quase certo que as guildas foram usadas em algumas
incipientes tentativas de artesos afirmarem uma independncia corporativa
em relao aos patres comerciantes, mas na poca de documentao mais
completa, final da Idade Mdia, as guildas ou corporaes de ofcios
regulamentavam a qualidade, a produo e o recrutamento para os diversos
ofcios visando os interesses do empregador e do arteso qualificado e
estabelecido. Uma vez mais, era a finalidade da organizao, no a sua
forma, que a distinguia das outras guildas, e era o contexto social do
momento, no alguma ideologia peculiar da guilda, o que determinava seu
objetivo. Entretanto, nos sculos XIV e XV, numa sociedade profundamente
impregnada de formas religiosas, todas as guildas tinham fins religiosos e
sociais que eram to proeminentes quanto quaisquer outros fins. A
manuteno de capeles, de oraes pelos mortos, de providncias para
assistir aos irmos e enfermos e indigentes e a seus dependentes, eram
caractersticas regulares das guildas ou corporaes de ofcios, assim como
eram os nicos objetivos confessados de muitas outras irmandades.
      Tambm era usual, nessa poca, as guildas professarem o culto de
determinado santo ou santos padroeiros, uma conveno que refletia e
promovia a associao de santos com certos ofcios e profisses. A Virgem
era objeto generalizado de devoo, mas de todos os cultos, o de Corpus
Christi foi, provavelmente, o mais influente. Desde comeos do sculo XIV,
representaes rituais da Paixo de Cristo na Pscoa evoluram para
elaborados espetculos teatrais em igrejas e procisses alegricas nas ruas;
foi nesses eventos que os autos e outras formas de dramaturgia laica
encontraram suas origens. No sculo XVI, a Reforma varreu as guildas e
muitas de suas obras, mas as formas sociais da nova era ficaram devendo
suas origens ao mundo medieval, em que a solene irmandade da guilda tinha
sido no s uma fora estabilizadora mas tambm um potente motor de
mudanas. Ver cidades
 C. Gross, The gild merchant (1890); G. Unwin, The gilds and companies of
London (1908); S. Reynolds, Kingdoms and communities in Western Europe
(1984)

Guilherme I, o Conquistador duque da Normandia e rei da Inglaterra 1066-
87 (n. c. 1028) Homem de extraordinria capacidade, cujos dotes polticos e
militares lhe granjearam um lugar dominante na Europa ocidental. O cronista
anglo-saxo retratou-o como sbio, poderoso e "gentil para com os bons
homens tementes a Deus" mas "implacvel com quem resistisse  sua
vontade". Filho ilegtimo de Roberto I da Normandia e de Herlve,
supostamente a filha de um curtidor de Falaise, tornou-se duque em 1035,
quando era ainda criana. Dependeu, para a sobrevivncia poltica, de uma
faco da nobreza, da Igreja e do rei Henrique I da Frana, que o ajudou a
esmagar seus inimigos em 1047. No incio da dcada de 1050 obteve um
valioso aliado em conseqncia de seu casamento com Matilde de Flandres,
mas seu crescente poder levou-o a conflitar com seu suserano capetngio.
       Na dcada de 1060, Guilherme empreendeu espetacular expanso
territorial, que iria enriquecer muito a ele e aos seus seguidores. Maine foi
capturada, campanhas foram organizadas na fronteira bret e em 1066
ocorreu o clmax, com a batalha de Hastings, a derrota e morte do rei Haroldo
I e a conquista da Inglaterra. Com sua riqueza e coroa, a Inglaterra constitua
uma presa muito prestigiosa e cobiada, e o Conquistador e seus homens s
consolidaram sua vitria com dificuldades considerveis. Quando uma
importante rebelio eclodiu no norte em 1069, foi sufocada com violncia. A
maioria dos grandes proprietrios de terras ingleses foi substituda por
homens de Guilherme, todos eles devendo estrita obedincia feudal ao rei; e,
como os cargos mais elevados na hierarquia da Igreja ficassem vagos,
tambm eles foram entregues a franceses. A posse de terras foi organizada
para sustentar os cavaleiros, e grande nmero de slidos castelos, smbolos
da nova ordem, foram construdos. A maquinaria administrativa e judicial da
Inglaterra anglo-saxnica foi desenvolvida para adequar-se s necessidades
normandas. O Domesday de 1086  uma ilustrao notvel da capacidade
administrativa do regime de Guilherme.
     Guilherme, o Conquistador, morreu quando estava em campanha para
manter sua posse do Maine. Foi sepultado em sua prpria fundao
monstica de Saint-Etienne em Caen.
 D.C. Douglas, William the Conqueror (1964)

Guilherme I, o Leo rei da Esccia 1165-1214 (n. 1143) Consolidou o poder
real em suas terras ao ampliar os domnios feudais at o extremo norte e ao
estruturar a administrao real. Bateu-se com denodo contra as ambies
territoriais dos reis ingleses, mas foi derrotado e forado a render vassalagem
a Henrique II e, depois, a Joo Sem Terra. Mesmo assim, reivindicou com
algum xito que os vnculos de vassalagem s se aplicassem s suas terras
inglesas, nada tendo a ver com a sua posio como rei da Esccia.
 G.W.S. Barrow, The Kingdom of the Scots (1973)

Guilherme IX (1071-1127) Duque da Aquitnia desde 1086, foi um influente
mecenas de trovadores e ele prprio um dos primeiros poetas-trovadores.
Sob o seu patrocnio, a corte de Poitiers tornou-se um notvel centro cultural.
Interrompeu sua rivalidade crnica com o conde de Toulouse a fim de partir
em Cruzada em 1101, mas suas foras sofreram pesada derrota em
Heraclia.
 H. Davenson, Les Troubadours (1964)

Guilherme de Champeaux (c. 1070-1121) Telogo que lecionou nas escolas
da catedral de Paris mas foi levado a retirar-se em 1108 pela zombaria de
Abelardo a respeito de suas opinies sobre universais. Tornou-se mais tarde o
principal mestre na Escola de Saint-Victor em Paris. No plano poltico,
notabilizou-se por suas tentativas, como emissrio junto ao imperador
Henrique V (1106-25), para pr fim  Questo das Investiduras. Tambm deu
significativa contribuio para a filosofia medieval com o tratado De Origine
Animae, no qual enfatizou o ato criativo de Deus na feitura de cada alma
humana.
 R.W. Southern, Medieval Humanism and other Studies (1970)

Guilherme de Malmesbury (c. 1095-c. 1143) Adotando a obra de Beda para
modelo da sua e pretendendo preencher a lacuna historiogrfica entre os dias
de Beda e os seus, Guilherme passou sua vida ativa como monge e
bibliotecrio no mosteiro beneditino de Malmesbury e deixou duas obras
histricas de notvel mrito: a Gesta Regum, ou "Feitos dos reis de
Inglaterra", narrativa que cobriu o perodo de 449 at 1120, e a Gesta
Pontificum, a qual, embora concentrando-se no perodo anglo-saxnico,
tambm registrou muita informao vital a respeito da histria mais recente
das ss eclesisticas inglesas at a dcada de 1120. Sua Historia Novella
forneceu uma descrio valiosa e estritamente contempornea de partes do
reinado de Henrique I e dos primeiros anos de Estvo. Tambm escreveu
uma Vida de So Dunstan, traduziu a Vida de Santo Wulfstan de Worcester,
de Coleman, e produziu uma obra influente sobre a histria de Glastonbury.
Seu bom estilo latino, seu desejo de revelar a verdade histrica (embora fosse
capaz de aceitar provas duvidosas em abono da antigidade de Glastonbury
ou Malmesbury, por exemplo), e sua intuio para uma boa histria
asseguraram a permanente popularidade de sua obra; ele situa-se entre os
principais historiadores do sculo XII.
 H. Farmer, "William of Malmesbury's life and works", Journal of
Ecclesiastical History, 13 (1962); R.M. Thomson, William of Malmesbury
(1987)

Guilherme de Ockham (c. 1285-1349) Telogo franciscano ingls que
estudou em Oxford. Suas principais obras, as Sentenas e Quodlibeta, foram
provavelmente concludas em 1324, quando respondeu a acusaes de
heresia no tribunal pontificai de Avignon. Condenado em 1326, tomou o partido
dos franciscanos espirituais em suas disputas com o papa Joo XXII, e teve
que fugir, buscando a proteo do imperador Lus da Baviera. Ficou residindo
em Munique, onde publicou poderosos tratados denunciando a autoridade
temporal do Papado. Pensador vigoroso e influente, sua nfase sobre a vasta
distino entre o homem e o onipotente e incognoscvel Deus separou a f da
razo e apontou o caminho do progresso nas cincias naturais.
 G. Leff, William of Ockham (1975) [Guilherme de Ockham, Brevilquio
sobre o principado tirnico, trad. L.A. De Boni, Petrpolis, Vozes, 1988]

Guilherme de Rubruquis (Roebruck) (n. c. 1215) Frade franciscano enviado
em 1253 por Lus IX de Frana em misso diplomtica aos mongis. Seu
relato da viagem e descrio da corte do gro-c em Karakorum deixou bem
claro que a esperana de uma converso em grande escala dos mongis ao
Cristianismo era ilusria.
 I. de Rachewiltz, Papal Envoys to the Great Khan (1971) [Guillaume de
Rubrouck, Voyage dans l'Empire Mongol, trad. C. e R. Kappler, Paris, Payot,
1985]

Guilherme de Volpiano (Guilherme de Dijon) (964-1031) Monge italiano de
Cluny que foi abade de Saint-Bnigne em Dijon desde 990. Sob os auspcios
de Cluny, proporcionou a inspirao e organizao para um importante
ressurgimento da decadente vida monstica na Normandia, na regio de Paris
e outras partes da Frana setentrional.

Guilherme de Wykeham (1324-1404) Ascendeu a elevadas funes na
Inglaterra: foi bispo de Winchester desde 1366 e chanceler da Inglaterra em
1367-71 e 1389-91.  lembrado principalmente por suas importantes
fundaes educacionais: o New College, Oxford (edificado em 1380-86) e o
Winchester College (1382-94). [283]

Guilherme Marshal (1146-1219) Conde de Pembroke. Filho mais novo e sem
terras, freqentador assduo de torneios, Guilherme foi nomeado instrutor do
primognito de Henrique II na arte de cavalgar. Em 1189, Guilherme casou
com Isabel, filha e herdeira de Richard de Clare, conde de Pembroke e lorde
de Striguil, e por isso herdou as enormes propriedades da famlia Clare e o
senhorio de Leinster na Irlanda, alm de comprar metade das terras dos
condes de Giffard. Um dos mais poderosos bares ingleses, Guilherme ajudou
Joo Sem Terra a subir ao trono, mas em 1205, segundo parece, jurou
vassalagem a Filipe II de Frana no tocante s suas propriedades normandas.
Para escapar  perseguio do rei Joo, Guilherme foi para a Irlanda (1207-
13) onde, como uma de suas figuras mais destacadas, proporcionou um
notvel grau de paz e prosperidade. Realista leal at o fim do reinado de Joo
Sem Terra, ajudou a governar a Inglaterra na ausncia do rei (1214), foi
proeminente nas negociaes que levaram  promulgao da Magna Carta
(junho de 1215) e apoiou Joo na guerra civil. Com a morte do monarca
(outubro de 1216), Guilherme tornou-se regente em nome do jovem Henrique
III e sua interveno foi decisiva para estabelecer a paz na Inglaterra no
decorrer do ano seguinte.
 L'histoire de Guillaume le Marchal, org. por P. Meyer(1891); S. Painter,
William Marshall (1933) [G. Duby, Guilherme Marechal, ou o melhor
cavaleiro do mundo, Rio, Graal, 1988]

Guilherme Tell O personagem da lenda detalhadamente elaborada no
Chronicon Helveticum do sculo XVI, era um campons de Brglen, no canto
de Uri, Sua, que no final do sculo XIII ou incio do sculo XIV desafiou a
autoridade do governador austraco de Altdorf, Gessler. Como pena, ele foi
obrigado a alvejar com seu arco e flecha uma ma colocada sobre a cabea
de seu filho pequeno. Ele foi bem-sucedido mas suas ameaas ao governador
culminaram em sua deteno. No caminho para a priso, ele conseguiu fugir e
pouco depois matava Gessler numa emboscada perto de Kssnacht. Os
suos sublevaram-se ento contra seus senhores austracos. A base histrica
desse episdio  matria de debate, pois no existem referncias a Tell em
fontes escritas antes da dcada de 1470; mas h conexes claras entre a
histria de Guilherme Tell e outras narrativas mticas e hericas medievais.
 [J-F. Bergier, Guillaume Tell, Paris, Fayard, 1988]

Gulden (Goldgulen ou florim alemo) Moeda de ouro. Nome dado nos
sculos XIV e XV a derivados alemes do florim, especialmente os cunhados
pelos eleitores da Rennia e por cidades imperiais como Frankfurt-sobre-o-
Meno, Lneburgo e Basilia, em nome dos imperadores, de Sigismundo (m.
1437) em diante. As moedas tinham aproximadamente o mesmo peso que o
florim (3,5g) mas eram inferiores em pureza, usualmente por volta de 19
quilates.

Gutenberg, Joo (c. 1396-1468) Experiente ourives, Gutenberg trocou sua
Mainz natal por Estrasburgo por volta de 1430. No intervalo at seu regresso
(c. 1449), parece ter aperfeioado a tcnica de impresso com tipos mveis,
inventando e desenvolvendo uma mquina de fundio de tipos e os tipos
vazados em caracteres individuais de cobre. Financiado por Joo Fust, um
banqueiro, ele imprimiu parcialmente as Cartas de Indulgncia e totalmente a
Bblia de 42 linhas (1453-55). Aps a dissoluo da sociedade, Gutenberg
prosseguiu sozinho, imprimindo a Bblia de 36 linhas, por exemplo. O
arcebispo de Mainz concedeu-lhe uma penso em 1465. Ver imprensa
 V. Scholderer, Johann Gutenberg: the inventor of printing (1970)

Guy de Lusignan (1129-94) Aventureiro do Poitou casado com Sibila (1179),
irm do rei Balduno IV de Jerusalm. Aps a morte precoce de Balduno V
em 1186, ele prprio foi eleito rei. Derrotado e aprisionado na batalha de
Hattin por Saladino, em 1187, Lusignan tentou, aps ser solto, manter seu
ttulo real at que Ricardo I da Inglaterra o forou a renunciar a ele. Em
compensao, tornou-se governador de Chipre (1192) e fundador da dinastia
Lusignan, que teve o domnio da ilha at o sculo XV.

Gwynedd O reino de Gwynedd situa-se no ngulo noroeste de Gales e inclua
a ilha de Anglesey, as terras baixas em contraste com as montanhosas de
Snowdonia. H evidncias da existncia de reis desde o comeo do sculo VI
e mesmo nessa data eles j so mencionados em termos que sugerem uma
preeminncia entre os reis galeses. Os reis de Gwynedd, ao contrrio de
outros monarcas de Gales, tiveram ampla projeo em toda a Gr-Bretanha
inglesa do sculo VII e a pedra tumular de Llangadwaladr, em Anglesey, em
memria do rei Cadfan, meados do sculo VII, chama-lhe "o mais sbio e o
mais renomado de todos os reis". Mais tarde, especialmente com Rhodri
Mawr, no sculo IX, foram absorvidos, apesar de permanecerem separados,
os reinos galeses de Powys e Ceredigion, no sudoeste.
      Gwynedd passou por um perodo de dominao meridional mas
sobreviveu para tornar-se o foco de resistncia galesa contra ingleses e
normandos. A conquista normanda da Inglaterra teve repercusses imediatas
para o Pas de Gales. Inicialmente, os normandos foram muito bem-sucedidos
em Gwynedd, mas depois da morte do conde Hugo de Shrewsbury em
Anglesey, em 1098, o domnio deles afrouxou. Da em diante, a regio
fronteiria e grande parte do sul foram governados por senhores da marca
(fronteira), mas os prncipes de Gwynedd, especialmente Owain Gwynedd
(1137-70), preservaram clara independncia.
      No incio do sculo XIII, Llywelyn ab Iorwerth -- Llywelyn, o Grande
(1200-40) -- consolidou sua autoridade como prncipe da Gales do Norte (e,
na verdade, mais extensamente de toda a Gales), sujeito  vassalagem que
prestou ao monarca ingls. Aps sua morte, novos progressos foram
realizados por seu neto Llywelyn ap Gruffydd (1255-82), cuja posio como
prncipe de Gales com controle feudal sobre "todos os bares galeses de
Gales" foi aceita pelos ingleses no Tratado de Montgomery (1267).
      A sucesso de Eduardo I no trono da Inglaterra trouxe, porm, a derrota
e Llywelyn ap Gruffydd foi morto (dezembro de 1282) na segunda fase das
guerras galesas de independncia, sendo toda a resistncia finalmente
abandonada em junho de 1283. A obra que tinha sido realizada na formao e
consolidao de um principado territorial foi vantajosamente aproveitada por
Eduardo I e seus sucessores.
     Embora nunca mais voltassem a estar to prximos da independncia,
os prncipes galeses, como Owain Glyndwr (c. 1365-c. 1417), continuaram
rebelando-se contra o domnio ingls at a subida ao trono da Inglaterra de
Henrique VII Tudor, de estirpe Anglesey, aps a batalha de Bosworth em
1485.
 J.E. Lloyd, History of Wales from the Earliest Times to the Edwardian
Conquest (1911); A.D. Carr, Medieval Anglesey (1982); D. Stephenson, The
Government of Gwynedd (1984)
                                      H
Habsburgo, dinastia Famlia subia, originria do norte da moderna Sua.
Os Habsburgo fizeram parte da pequena nobreza da Alemanha at que, por
servios prestados aos Hohenstaufen, tornaram-se poderosos e detentores
de grande fortuna na Alscia, Zurique e, finalmente, no comeo do sculo XIII,
em grande parte do sudoeste alemo. Durante o grande Interregno (1254-73),
muitos dos adeptos dos Hohenstaufen voltaram suas atenes para Rodolfo,
conde de Habsburgo, e em 1273 ele foi eleito imperador, forando o seu
derrotado rival, o rei da Bomia, a ceder os ducados de ustria e Estria
(1278). A partir desse ponto, o interesse dos Habsburgo passou a estar
identificado com o Mdio Danbio, e seu centro transferiu-se para Viena.
Apesar da perda de suas terras natais na Sua e do malogro em manter o
ttulo imperial, os Habsburgo ampliaram sua influncia territorial no sculo XIV,
adquirindo a Carntia e a Carniola (1335), o Tirol (1363) e finalmente Trieste,
com acesso ao Adritico (1382). A diviso da herana enfraqueceu essa
coleo de principados, mas aps a morte do imperador Sigismundo em
dezembro de 1437, os prncipes alemes elegeram seu sucessor e genro
Alberto, duque da Austria, como representante principal da casa de
Habsburgo. Da em diante, os Heibsburgo foram a escolha natural para o
ttulo imperial. Ver Alberto I; Maximiliano I
 R.A. Kann, The Habsburg Empire (1957); A. Wandruszka, The House of
Habsburg (1964)

Hakim califa 996-1021 (n. 985) Sexto califa fatmida, famoso por sua
perseguio a cristos e judeus, embora tivesse nascido de me crist. Seu
reinado coincidiu com as ofensivas bizantinas na Sria e na Palestina (974-75;
995). Em 1001 foi pactuado um armistcio de 10 anos com os bizantinos mas
a paz foi perturbada pela destruio, por ordem de Hakim, da igreja do Santo
Sepulcro em Jerusalm (1009), o que redundou no rompimento de relaes.
      Suas crueldades eram mltiplas e inmeras, e sua presuno de
divindade, somada  sua instabilidade geral, tem sido interpretada como sinal
de loucura. Ele desapareceu sbita e misteriosamente em 1021, muito
provavelmente vtima de assassinato.
 S. de Sacy, Expos de la religion des Druzes (1838)

Hansetica, Liga Federao de cidades do norte da Alemanha, formada para
proteger interesses comerciais mtuos. A expanso costeira alem na direo
leste, nos sculos XII e XIII, habilitou os comerciantes alemes a
estabelecerem o monoplio do comrcio no Bltico, tendo por centro a ilha de
Gotland, que negociava com peles, cera e artigos de luxo vindos do Oriente.
Isso ajudou a estimular elos comerciais mais antigos, com a Inglaterra e a
Flandres. Colnia tambm se tornou importante centro comercial. As cidades
negociaram acordos em pequena escala, como a aliana de 1241 entre
Hamburgo e Lbeck ou a Liga Vneda de 1264, as quais se amalgamaram
numa unio mais poderosa em 1356, quando as cidades da Hansa se
reuniram a fim de resolver dificuldades comerciais comuns na Flandres. A
Hansa atingiu o auge no final do sculo XIV, com 70-80 membros e uma
lucrativa rede de rotas comerciais dependentes dos Kontors (escritrios
comerciais) instalados em Londres, Novgorod, Bergen e Bruges. Consolidou
sua posio dominante no Bltico ao sair vitoriosa de um conflito de nove anos
com Valdemar IV da Dinamarca, em 1370. Lbeck assumiu a liderana dos
negcios hanseticos, cabendo-lhe geralmente convocar a Hansetag ou Dieta,
e usando seu selo em nome da Hansa. A Liga Hansetica comeou a declinar
durante o sculo XV, desafiada no Bltico pela atividade crescente de
mercadores no-hanseticos e ameaada pelo cada vez maior poder de
governantes territoriais. [100]
 [P. Dollinger, La Hanse, Paris, Aubier, 1964]

Haraldo I, o Louro rei da Noruega c. 870-945 (n. c. 860) Figura to grande
na lenda quanto na histria, Haraldo  corretamente considerado o verdadeiro
fundador da dinastia Yngling. Submeteu a maior parte da Noruega ao seu
domnio e toda ela  sua influncia. A batalha decisiva travada no fiorde de
Hafrs ocorreu entre 885 e 900. Foi uma batalha naval, e a autoridade de
Haraldo em sua plenitude era essencialmente a de um rei do mar, impondo
disciplina s tripulaes vikings e s rotas martimas. Tambm esteve ativo
nas rcadas e em Shetland, e mais tarde a opinio escandinava atribuiu boa
parte da turbulncia viking do final do sculo IX  insatisfao de uma jovem
aristocracia de capites do mar, contra o poder centralizador e autoritrio do
rei Haraldo.
      Ele teve uma vida longa e muitos filhos, entre os quais Haakon, o Bom,
filho adotivo do rei Athelstan, e Eric "Machado Sangrento" (m. 954), que
tiveram papis de destaque nos assuntos ingleses.

Haraldo III Hardrada rei da Noruega 1047-66 (n. 1015) Uma das mais
fascinantes figuras do sculo XI, considerado por muitos como o ltimo dos
verdadeiros chefes vikings. Haraldo foi ferido na batalha de Stiklestad (1030),
na qual seu meio-irmo Santo Olavo foi morto. Escapou para territrio russo,
serviu na guarda varega em Constantinopla, e regressou para disputar com
xito o trono noruegus, onde seu governo de pulso forte lhe granjeou o
epteto de Hardrada, ou "conselheiro duro". Foi pretendente ao trono da
Inglaterra em 1066, obteve vitrias iniciais contra os condes ingleses e
conquistou York; mas foi apanhado de surpresa, derrotado e morto por
Haroldo II Godwinson na batalha de Stamford Bridge, no longe de York, em
25 de setembro de 1066.
Harding, Santo Estvo (m. 1134) Abade de Cister. Estudante e talvez
monge em Sherborne, deixou a abadia a fim de viajar para a Frana e Itlia,
at ingressar finalmente no mosteiro beneditino de Molesme. Em 1098 apoiou
So Roberto de Molesme na fundao de uma comunidade asctica em
Cteaux, bero da Ordem Cisterciense, da qual foi o terceiro abade em 1109.
Harding exerceu uma importante influncia no desenvolvimento dos ideais e
organizao cistercienses; com efeito,  provvel que tenha sido ele quem
escreveu o primeiro texto da Regra de Cister, a Carta Caritatis, a qual
procurou salvaguardar padres ascticos pela criao de uma moldura
jurdica.

Haroldo II Godwinson ("Filho de Godwin") rei da Inglaterra 1066 (n. c.
1022) Conde de Wessex (1053-66) no reinado de Eduardo, o Confessor, e o
mais poderoso homem da corte. Haroldo foi aclamado rei na primeira semana
de janeiro de 1066, com a morte de Eduardo. Era um homem de considervel
talento e refinamento, e as poucas provas existentes sugerem que ele
granjeou a aceitao geral e tinha os predicados de um bom governante.
Haroldo obteve uma grande vitria sobre o rei noruegus, Haraldo Hardrada,
em Stamford Bridge, a 25 de setembro de 1066, mas foi derrotado e morto
por Guilherme, duque da Normandia, na batalha de Hastings, em 14 de
outubro de 1066. As lendas a respeito de sua sobrevivncia so testemunhas
de sua grande popularidade.
 H.R. Loyn, Harold Godwinson (1966)

Harun al-Rachid califa em 786-809 (n. 766) Quinto califa abssida. Seu
reinado marcou o ponto de mutao do percurso histrico dos abssidas,
quando teve incio seu declnio e desintegrao poltica. Harun organizou mas
no comandou pessoalmente duas expedies contra os bizantinos em 779-80
e 781-82; a segunda delas levou o exrcito abssida pela primeira e ltima
vez at as margens do Bsforo, o que proporcionou a Harun a nomeao para
um alto cargo e sua indicao como sucessor ao trono. Embora as Mil e Uma
Noites retratem seu reinado como uma "idade de ouro", Harun teve que
enfrentar uma longa srie de transtornos polticos a leste e a oeste. Seu
patrocnio da Jihad (guerra santa contra o infiel), somado  destruio de
igrejas ao longo da fronteira muulmano-bizantina e ao severo status dado aos
povos submetidos, refletem provavelmente sua necessidade de agradar 
opinio pblica. Entretanto, apesar das constantes campanhas e da
construo de uma frota no Mediterrneo que atacou Chipre em 805 e Rodes
em 807, as fronteiras estavam praticamente inalteradas no final do reinado de
Harun. Segundo parece, houve uma troca de embaixadas entre Harun al-
Rachid e Carlos Magno, concedendo-se a este os direitos de proteo sobre
Jerusalm, mas nenhuma meno de tal acordo foi at agora encontrada em
fontes rabes. Com sua morte, Harun gerou uma srie de relatos histricos
conflitantes sobre seu reinado e carter.

Hassan ibn Sabbah (m. 1124) Lder dos Nizaris, seita islmica heterodoxa,
Hassan era um puritano asctico: seus dois filhos foram mortos pela mo
dele, um por ter supostamente cometido um homicdio, o outro por seu
comportamento dissoluto. Credita-se-lhe a organizao e o treinamento dos
assassinos, a seita xiita fundada por volta de 1090. Nesse ano, atacou e
tomou a fortaleza de Alamut, auxiliado por proslitos no interior dela. Isso foi o
comeo de uma insurreio geral contra o poder seljcida, marcada pelo
assassinato dos principais adversrios e a conquista da fortaleza. O ltimo
ataque seljcida de envergadura contra Alamut ocorreu em 1118. Os anos
restantes de vida de Hassan transcorreram em relativa paz, consolidando os
ganhos nizaris.
 M.G.S. Hodgson, The Order of Assassins (1955)

Hastings, batalha de (14 de outubro de 1066) Batalha decisiva que resultou
na conquista da Inglaterra pelo duque Guilherme de Normandia que se
declarara, por direito de designao, legtimo sucessor de Eduardo, o
Confessor (1042-66). O encontro dos exrcitos inimigos ocorreu num local que
ficou conhecido, da em diante, como Battle, a uns llkm de Hastings, no
Sussex, e ficou bem registrado visualmente na tapearia de Bayeux. Haroldo II
da Inglaterra, recm-sado de sua vitria em Stamford Bridge, lutou
valentemente, apoiado por tropas aguerridas, equipadas para as familiares
tticas de infantaria do norte, armadas de espadas e machados de guerra, e
protegidas por impressionante muralha de escudos. As foras com que
Guilherme o enfrentou eram substancialmente formadas por cavalaria,
auxiliada pelos arqueiros, que davam mobilidade e flexibilidade extras aos
normandos, do ponto de vista ttico, fazendo a vitria pender decisivamente
para o lado deles. Foi calculado que de cada lado 6.000 a 7.000 homens
participaram na batalha.
 R.A. Brown, "The Battle of Hastings", Proceedings of the Battle Conference
1980 (1981)

Hawkwood, Sir John (c. 1320-94) Um dos maiores condottieri estrangeiros
que desempenharam um importante papel na vida militar da pennsula italiana
no final da Idade Mdia. Filho de um curtidor do Essex, Hawkwood iniciou sua
carreira militar na Frana como capito de um grupo de mercenrios
denominado Companhia Branca (1359); esse irrequieto e ambicioso grupo de
soldados avanou gradualmente para o sul, em direo ao Piemonte e depois
 Itlia. Em 1364, Pisa escolheu-o para comandante-chefe na guerra contra
Florena. Entrou a servio do Papado e, mais tarde, da famlia Visconti at
1377, quando concordou em combater pelos florentinos, que lhe concederam
cidadania e iseno vitalcia de impostos. Com sua morte, teve um funeral de
Estado de grande pompa, com luxuosas exquias na catedral de Florena.
 G. Tease, The Condottieri: Soldiers of Fortune (1970)

Henrique III rei da Alemanha e imperador do Sacro Imprio Romano
Germnico 1039-56 (n. 1017) Um dos mais poderosos governantes alemes
da Idade Mdia, Henrique imps a paz interna e fortaleceu sua posio na
fronteira oriental ao derrotar os hngaros e subordinar o ducado da Bomia
nos primeiros anos de seu reinado. Era um zeloso adepto da reforma da
Igreja e usou Ordens clericais, de maneira intensiva, sobretudo cluniacenses,
no governo e na administrao. Em 1046, interveio nos negcios de Roma
para resolver a situao escandalosa que fora criada quando trs homens
sustentavam ser o papa. No Snodo de Sutri, realizado com seu patrocnio,
seguido de um novo Snodo em Roma, os trs prelados reclamantes foram
declarados depostos e um bispo alemo eleito como Clemente II, que coroou
ento Henrique imperador no dia de Natal de 1046. Clemente foi sucedido por
uma srie de papas alemes, culminando com a eleio do prprio primo de
Henrique como o vigoroso reformador Leo IX (1049-54).  luz da Questo
das Investiduras, que viria a seguir,  freqentemente considerado um
paradoxo o fato de que a iniciativa alem e imperial tivesse sido to
preponderante na criao do Papado reformado para, na gerao seguinte,
ser comprovadamente a sua mais acrrima inimiga. A morte prematura de
Henrique aos 39 anos e a sucesso de seu jovem filho Henrique (de apenas
seis ou sete anos) deixaram a monarquia alem enfraquecida num momento
crtico. Ver Ins, imperatriz

Henrique II Plantageneta rei da Inglaterra 1154-89 (n. 1133) Criador do
Imprio Angevino, filho de Godofredo Plantageneta, conde de Anjou, e de
Matilde, filha de Henrique I e neta de Guilherme, o Conquistador. Henrique II
teve igual importncia na histria da Frana e na histria da Inglaterra.
Reconhecido como duque da Normandia em 1150 (aos 17 anos de idade) e
conde de Anjou pela morte de seu pai no ano seguinte, Henrique casou com
Leonor da Aquitnia em 1152, adquirindo assim o controle de extensos
territrios no sudoeste da Frana. O rei Estvo da Inglaterra foi forado a
aceit-lo como herdeiro e Henrique sucedeu-lhe no trono ingls em 1154.
       Nos 35 anos seguintes, esse irascvel, arguto e enrgico angevino
desempenhou um papel destacado e, por vezes, dominante na poltica
europia. A habilidade dos monarcas franceses, em especial de Filipe II
Augusto depois de 1180, e a deslealdade e turbulncia dos filhos de Henrique
("Do demnio vieram, para o demnio iro"), fizeram fracassar o mais
ambicioso de seus planos continentais; mas, assim mesmo, deixou uma
formidvel herana para Ricardo Corao de Leo e, em ltima instncia,
para seu filho mais jovem e favorito, Joo. Na Inglaterra, ele realizou grandes
e permanentes avanos nas reas das finanas, justia e administrao. O
pas precisava de um perodo de paz e reconstruo aps a desordem
reinante nos tempos do rei Estvo, e Henrique era o homem para
proporcionar tal perodo.
       Sua obra mais duradoura foi realizada na esfera legal: os tribunais rgios
tornaram-se mais eficientes, novos editos tratando dos direitos de posse
ajudaram a estabilizar a posio fundiria, e as audincias regulares de juizes
itinerantes nos tribunais dos condados deram real poder ao direito
consuetudinrio na Inglaterra. Na rea financeira, os registros contnuos do
Tesouro a partir de 1155 so testemunho da natureza refinada das tcnicas
financeiras inglesas. Henrique conheceu xitos e fracassos em seu
relacionamento com a Igreja. A transferncia de seu hbil chanceler Toms
Becket para o arcebispado de Canterbury provou ser um desastre pessoal.
Becket resistiu s reformas de Henrique, foi forado a exilar-se e, no seu
regresso, aps uma reconciliao parcial em fins de 1170, foi martirizado em
sua catedral de Canterbury.
      Henrique tambm provou ser imensamente importante em uma
perspectiva britnica mais ampla. Gales manteve-se relativamente calma e os
lordes fronteiros, sobretudo Richard Strongbow em Pembroke, estiveram
ocupados e leais. A captura do rei da Esccia durante a fracassada rebelio
dos filhos de Henrique habilitaram-no a afirmar a suserania da Coroa inglesa
no reino setentrional. Mais significativo ainda, aproveitando-se dos xitos
militares de Strongbow na Irlanda, Henrique interveio pessoalmente e instalou
seu filho Joo como senhor da Irlanda. Na gama de atividades e no grau de
sucesso duradouro, Henrique Plantageneta situa-se entre os maiores
governantes europeus medievais. [235]                                  HRL

 W.L. Warren, Henry II (1973)

Henrique V rei da Inglaterra 1413-22 (n. 1387) Considerado pelas geraes
seguintes o arquetpico heri-rei medieval, Henrique V  maior na lenda do que
na histria, embora suas realizaes tenham sido considerveis. Sucedendo a
seu pai, Henrique IV (1400-13), revelou uma combinao de tolerncia e
crueldade que mostra bem sua capacidade inata como governante medieval.
Foi brutal na supresso do lolardismo e da rebelio liderada por Sir John
Oldcastle, mas esforou-se muito por reconciliar as faces que se tinham
formado aps a deposio de Ricardo II e a rebelio da famlia Percy, com
ajuda galesa, no reinado de seu pai.  principalmente lembrado, entretanto,
por seu extraordinrio xito em inaugurar o que foi virtualmente uma nova fase
na Guerra dos Cem Anos. Sua espetacular vitria em Azincourt (1415) quase
provocou o total colapso da resistncia francesa. Combinando genuna
devoo e viso de estadista, Henrique fez um acordo com o imperador
Sigismundo (1416), pelo qual anulou o apoio genovs aos franceses e ajudou
a pr fim ao cisma papal, atravs da eleio de Martinho V em 1417. Atravs
de uma guerra de cerco, Henrique realizou a conquista virtualmente completa
da Normandia em 1419, e uma aliana com Borgonha forou a concordncia
francesa com o tratado de Troyes (1420), pelo qual Henrique era reconhecido
como herdeiro do trono francs e casava com Catarina, filha de Carlos VI, o
monarca francs. Henrique morreu em campanha na Frana em agosto de
1422, menos de dois meses antes da morte do rei francs. Sua morte
prematura, por volta dos 35 anos, condenou a Inglaterra a uma longa e difcil
menoridade.
 E.F. Jacob, Henry V and the Invasion of France (1947)

Henrique, o Leo (1129-95) Duque da Saxnia desde 1142 e da Baviera
(1156-80), foi o mais notvel representante da grande dinastia Guelfo.
Henrique apoiou seu primo Frederico Barba-Ruiva em suas campanhas na
Itlia e contra os poloneses, mas sua omisso do envio de reforos em 1176
resultou na derrota imperial em Legnano, infligida pela Liga Lombarda. O
confisco de terras da Igreja por parte de Henrique deu ao imperador Frederico
a oportunidade de desforra, o que ele fez privando Henrique de seus dois
ducados por meios judiciais em 1180. Tendo passado seu exlio na Inglaterra,
na corte de seu sogro Henrique II, ele efetuou um turbulento regresso 
Alemanha depois de 1190, mas no conseguiu recuperar sua boa estrela.
       Sua principal contribuio consistiu em ter dado incio a um firme
processo de colonizao a leste, a partir de sua base Saxnica, e tambm na
manuteno da paz interna na Alemanha quando Barba-Ruiva estava ocupado
em seus empreendimentos imperiais e italianos. A derrota judicial de Henrique
em 1180 indica a importncia do vnculo de dependncia feudal do rei, e a
diviso de seu vasto conjunto de terras prenuncia o surgimento de uma nova
classe de prncipes imperiais que seriam os beneficirios finais do fracasso de
reis e imperadores em impor um controle soberano unitrio na Alemanha do
final da Idade Mdia.
 K. Jordan, Henry the Lion (1986)

Henrique, o Navegador, Infante Dom (1394-1460) Terceiro filho de Dom
Joo I de Portugal e de Filipa de Lencastre, filha de Joo de Gaunt. Henrique
acompanhou seu pai na conquista da cidade de Ceuta, no norte da frica, em
1415. Essa operao tinha sido organizada como parte da Reconquista da
Pennsula Ibrica. Henrique deu continuidade a esse programa patrocinando
uma srie de viagens martimas ao longo da costa africana para flanquear os
domnios mouros e neutralizar ou apoderar-se do trfego rabe de ouro. O
avano foi lento at ter sido dobrado em 1434 o cabo Bojador. As ilhas da
Madeira, Aores e Cabo Verde foram colonizadas e o acar foi introduzido
na Europa em quantidades substanciais, assim como a pimenta-da-costa, com
suas funes preservativas. De suma importncia foi a instalao por parte de
Henrique de uma escola nutica em Sagres [um promontrio na costa algarvia
de Portugal e o ponto mais ocidental da Europa NT] para a qual atraiu
matemticos, gegrafos, cartgrafos, construtores navais e tradutores. Essa
escola utilizou conhecimentos clssicos e rabes e sintetizou-os com a
experincia prtica a fim de produzir um tipo de barco, a caravela,
especialmente adequado para viagens de longo curso, assim como
instrumentos de astronomia e navegao que foram usados com o primeiro
conjunto de tbuas de latitude. O esprito de realizao e de competncia do
Infante promoveu a autoconfiana que forneceria o trampolim para a
subseqente expanso portuguesa e europia.
 CR. Boxer, The Portuguese Seaborne Empire (1969); J. Ure, Prince Henry
the Navigator (1977)

Henrique de Langenstein (m. 1397) Telogo. Importante apologista do
movimento conciliar, cujo livro Concilium Pacis (1381) provou ser influente
num momento crtico. Essa influncia deveu-se em parte,  relativa
simplicidade de seu argumento, segundo o qual um conclio ecumnico era
superior ao papa, era infalvel e podia ser convocado por um governante
secular.

Henrique de Susa (m. 1271) Cardeal de stia e mestre de direito Cannico.
Estudou em Bolonha direito romano e Cannico, tendo depois lecionado nessa
universidade e em Paris. Inocncio IV nomeou-o para a s de Sisteron (1244),
para a arquidiocese de Embrun (1250) e, no mesmo ano, f-lo cardeal de
stia e Velletri. Seu prestgio como canonista ficou bem estabelecido mesmo
durante sua vida. Sua obra Summa Aurea, uma coletnea de glosas e
exposies sobre direito composta em 1250-61, granjeou-lhe o ttulo de
"Senhor do direito e luminoso intrprete das Decretais".
 C. Lefebvre, "Hostiensis", Dictionnaire du droit canonique, V (1953)

Herclio I imperador bizantino 610-41 (n. c. 575) Filho de Herclio, exarca da
frica, zarpou em 610 para Constantinopla, capturou e executou o impopular
imperador Focas e foi ele prprio proclamado imperador. Seu reinado foi
dominado por conflitos militares. Numa srie de quatro campanhas (622-28)
quebrou o poderio persa na Anatlia e na Armnia, e precipitou o colapso do
Imprio Persa. Sustou o avano eslavo nos Balcs mas foi impotente para
deter os rabes em sua impetuosa investida atravs da Sria, Palestina e
Egito. Herclio tentou resolver as disputas teolgicas no interior de seu
Imprio mediante uma srie de concesses mtuas, mas a condenao
aberta de sua poltica pelo Papado resultou em fracasso.

herldica Na acepo de uma cincia dos brases de armas, a herldica
originou-se na Europa no sculo XII e desenvolveu-se nos dois sculos
seguintes at se converter numa requintada disciplina intelectual e artstica. A
colocao de figuras e peas distintivas no escudo ou no elmo de um cavaleiro
era um costume que vinha de tempos imemoriais, mas o desenvolvimento de
um mtodo sistemtico de identificao de nobres de aspecto semelhante, na
guerra e na paz, foi uma caracterstica da sociedade feudal no Ocidente, com
sua nfase sobre o direito hereditrio e a sucesso hereditria das terras e da
autoridade. A natureza cosmopolita da aristocracia militar era enfatizada pela
mobilidade geral caracterstica da Europa do sculo XII, sobretudo em
conseqncia do movimento das Cruzadas. A concesso de brases de
armas, inicialmente uma incumbncia do senhor feudal, logo se tornou uma
prerrogativa rgia, e exibir ou usar o braso de outrem equivalia a uma
falsificao, a uma fraude. A herldica abrangia tanto a Igreja quanto a
nobreza laica, e figuras e motes herldicos passaram a ser tambm usados
por guildas e corporaes nas cidades.
      A variedade era admissvel nos primeiros tempos, mas no sculo XIV
normas rigorosas a respeito do uso de brases passaram a vigorar em todo o
mundo ocidental, sendo a obedincia s mesmas imposta atravs de tribunais
reais, como o Herald's College de Londres, criado em 1483 pelo rei Ricardo
III, e que era um rgo com o objetivo especfico de zelar pela estrita
observncia dos preceitos contidos no Armorial. A linguagem da herldica era
e ainda  basicamente francesa -- uma indicao da posio central ocupada
pela Frana e o Imprio Angevino na sociedade feudal. O vocabulrio mais
elaborado dizia respeito  forma como se procede  composio de um
braso de armas, seus formatos e propores, as parties e subparties
do campo (os diferentes fundos do escudo, que podem ser partidos, talhados,
esquartelados, franchados, em pala ou em mantel), sobre os quais se
colocam as chamadas peas honrosas do braso (por exemplo, faixa, banda,
aspa, bordadura etc), as cores e matizes (que em herldica tm o nome de
metais -- ouro e prata -- e esmaltes -- azul, verde, preto ou prpura) e, por
fim, as peas mveis, que podem ser figuras e divisas de toda a espcie
(animais reais ou fabulosos -- como grifos, unicrnios, drages -- plantas,
rvores, castelos, utenslios variados, muitas vezes com uma aluso ao nome
de famlia em forma de trocadilho, como "guia" por Aguiar). Os ornatos
exteriores obedecem tambm a regras complicadas para a insero de elmos
fechados ou abertos, coroas, coronetes e chapus eclesisticos, de acordo
com a classe, a dignidade e a funo hierrquica do indivduo (desde rei,
prncipe, duque, conde etc. at abade, cardeal, bispo ou arcebispo) e o
aditamento de suportes, tenentes, ornatos, pavilhes ou tarjas aos brases
de famlia, ou seja, smbolos usados em caso de grande honraria, como
esteios para o escudo. Os filhos mais novos e os ramos colaterais tambm
tm seus brases "diferenciados".
     A herldica e o papel do arauto (herald) estavam intimamente
associados com os conceitos de nobreza, fidalguia e cavalaria, que alcanou
sua mais ntida expresso na Europa dos sculos XIII e XIV com a criao de
instituies como a Ordem da Jarreteira por Eduardo III da Inglaterra em
1348.                                              HRL
 A.R. Wagner, Heralds and Heraldry in the Middle Ages (1956); Boutell's
Manual of Heraldry, org. por J.P. Brooke-Little (1973); A.R. Wagner, Heralds
and Ancestors (1978) [Verbete ligeiramente modificado e ampliado para
tornar mais explcita a produo de um braso de armas. NT]

heresia As atitudes em relao  heresia, assim como, na verdade, 
rigorosa interpretao da ortodoxia, variaram de poca para poca no seio da
Igreja crist. Nos primeiros sculos da atual era, as controvrsias teolgicas,
revelando profundas diferenas raciais e sociais, gravitaram sobretudo em
torno da natureza da Trindade e, mais especificamente, em torno da natureza
da segunda pessoa da Trindade. Essas discusses continuaram perturbando
a Igreja Ortodoxa Oriental, mas a Igreja ocidental aceitou, de um modo geral,
o ortodoxo Credo de Nicia e esteve largamente imune a cises de maior
monta acerca de heresias desde o Conclio de Calcednia (451) at o sculo
XII.
      Os primeiros hereges condenados  fogueira no Ocidente medieval
foram 15 clrigos e monjas surpreendidos numa intriga palaciana em Orlans
em 1022 e os membros de uma comunidade religiosa descoberta perto de
Turim em 1028, cuja devoo ao Esprito Santo os levara a manter uma
cadeia constante de orao e a no comer carne nem dormir com as
esposas. A rpida propagao da pregao anticlerical durante o sculo XII
foi acompanhada de um refinamento da definio de crena ortodoxa e de um
endurecimento de atitudes para com os no-ortodoxos. Em 1184, a bula Ab
Abolendum foi publicada numa tentativa de impor uniformidade e ortodoxia;
ordenava aos bispos que procedessem a uma investigao anual (inquisitio)
em suas dioceses e excomungassem no s os herticos mas tambm as
autoridades que no agissem contra eles. Aps o Quarto Conclio de Latro,
tais medidas foram incorporadas  legislao secular, incluindo a do Imprio
(1220), de Arago (1223) e da Frana (1226). A partir de 1231, inquisidores
subordinados diretamente  autoridade papal estiveram em atividade no
Languedoc e em cidades italianas; em 1252 foram autorizados a recorrer 
tortura para obter confisses, e sua ao estendeu-se  maior parte da
Europa continental nos sculos seguintes. Advertidos por So Paulo de que
"nos ltimos tempos alguns se afastaro da f... proibindo o matrimnio e o
comer carne", os bispos apressaram-se a interpretar as manifestaes de
entusiasmo espiritual leigo como um ressurgimento das antigas heresias de
Mani e Ario, e a associ-las, com ou sem provas,  negao dos sacramentos
e ao comportamento orgaco que regularmente se atribua aos hereges
(desde os clrigos de Orlans at a preponderantemente mtica Irmandade do
Livre Esprito do sculo XIV). Isso ajudou a criar um esteretipo do herege
para a posterior caa s feiticeiras. Em 1143 foram descobertas em Colnia
duas seitas em controvrsia pblica. Ambas concordavam na espiritualidade
asctica e na hostilidade  hierarquia eclesistica, mas os membros de uma
delas reivindicavam autoridade apostlica para a sua prpria hierarquia. Eles
se tornaram seguidores dos bogomilos blgaros, cuja influncia se estendeu
nas quatro dcadas seguintes aos Pases Baixos e do Languedoc 
Lombardia, criando as Igrejas ctaras, cuja caracterstica teolgica dualista
(isto , alicerada na convico da maldade essencial de todas as coisas
criadas) foi reforada pelo contato direto com as Igrejas bogomilas no mundo
bizantino.
      Os ensinamentos, organizao e rituais refinados dos ctaros, e a
influncia exercida pela humildade e a austeridade pessoal de seus
missionrios de ambos os sexos, fizeram deles o alvo principal da Cruzada
Albigense e da subseqente perseguio. Mas a tradio nativa era mais
antiga e mais persistente. O apelo para a prtica da pobreza apostlica e
para a simplicidade da Igreja primitiva no foi menos poderoso na boca de
pregadores herticos como Tanchelmo na Flandres ou Pedro de Bruys na
Provena (comeo do sculo XII) do que tinha sido na dos profetas da
reforma monstica e papal do sculo XI. Henrique de Lausanne (c. 1116-45)
pde organizar a resistncia contra a expanso do papel do clero,
especialmente no batismo, matrimnio, confisso e morte, dotando-a de um
credo cuja coerncia inspirou vasto e, por algum tempo, tenaz apoio no
Languedoc. Se o ardor menos fundamentalmente anti-sacerdotal levava ou
no  heresia, era em grande parte uma questo de oportunidade e de
sensibilidade por parte da autoridade. Os valdenses, seita fundada por volta
de 1176 por um comerciante de Lyon para resistir  disseminao do
catarismo, foram empurrados para a heresia pela insistncia episcopal em
exercer o controle sobre a pregao deles e, sob a perseguio que lhes foi
movida, tornaram-se cada vez mais radicais e implacavelmente antipapais em
sua doutrina; os Humiliati lombardos, muito semelhantes aos valdenses em
suas crenas e comportamento, foram anatematizados em conjunto com eles
e outros em 1184, mas reintegrados como ordem religiosa por Inocncio III,
conquistando muitos proslitos nas prprias cidades onde os ctaros estavam
mais ativos.
     A heresia popular no devia sua expanso  contaminao da
Antigidade ou do Oriente, nem a seus atrativos para os interesses desta ou
daquela classe social. Doutrinariamente, sua tendncia mais slida e mais
sistemtica, expressa de forma completssima por John Wycliffe, consistia em
resistir  elaborao do ensino e do ritual,  elevao do clero acima do
laicado, e ao poder secular da Igreja. Socialmente, heresia e ortodoxia
tambm eram inseparveis; cada uma definia a outra. Conforme sugere uma
forte tendncia para insistir na irmandade espiritual e econmica, a heresia
era freqentemente adotada por aqueles que sofreram em conseqncia de
mudanas sociais. Tanto os operrios txteis de Arras, no sculo XI, quanto
os nobres da Florena do sculo XIII podiam ver a corrupo mundana
manifestar-se no crescente poder dos mercadores, que eram certamente
mais propensos a apregoar seu status cada vez mais alto pela devoo do
que a p-lo em risco manchando-o de heresia. Inversamente, as acusaes
de heresia tinham menos probabilidades de ser eficazes para sustar o avano
de tais grupos -- embora isso fosse tentado, notoriamente contra a famlia
Maurand de Toulouse -- do que para evitar o ressentimento de seus rivais e
vtimas.
      As heresias mais obstinadas defenderam freqentemente a tradio
contra a sacralizao do casamento no sculo XII ou a institucionalizao do
esprito de So Francisco no sculo XIII. No entanto, por mais conservadora
que fosse a inspirao dos pregadores herticos, o prprio fato de a
expressarem era uma solicitao de endosso popular contra a ordem
estabelecida. A austeridade de suas vidas, assim como a eloqncia de suas
palavras, ofereciam a seus seguidores uma lealdade e solidariedade
alternativas. Ningum desafiou mais radicalmente essa ordem do que Amoldo
de Brscia, cujos adeptos arrebataram o controle de Roma ao papa na
dcada de 1140, ou Joo Huss, que deu seu nome s mais sangrentas
guerras do final da Idade Mdia. Tanto um quanto outro no foram culpados
de                              erro                             doutrinrio.
[354]
RIM
 G. Leff, Heresy in the Later Middle Ages (1967); M.D. Lambert, Medieval
Heresy (1977); R.I. Moore, The Origins of European Dissent (1977); E.
Peters, Heresy and Authority in Medieval Europe (1980)

heresia adocionista Crena que sustentou no ter o Cristo, como homem, a
menor possibilidade de ser filho de Deus por nascimento mas somente por
adoo, atravs do seu batismo. Predominante na Espanha no final do sculo
VIII, foi principalmente exposta por Elipandio, arcebispo de Toledo, atacada
por Alcuno em seus escritos e condenada nos snodos de Frankfurt (792-94),
Friuli (796), Roma (799) e Aix-la-Chapelle (800). Apesar disso, os bispos
espanhis nunca romperam formalmente com a Igreja. A controvrsia
ressurgiu durante os debates escolsticos do sculo XII, ensinando Abelardo
e Gilberto de la Pore, que, como a natureza de Deus era imutvel, sua
humanidade s poderia ser externa e acidental e no substancial em sua
prpria natureza. Essa crena foi condenada pelo papa Alexandre III em 18
de fevereiro de 1177 mas o adocionismo continuou sendo uma questo
fundamental para o debate teolgico durante toda a Idade Mdia.
 [R. de Abadai, La batalla del adopcionismo en la desintegracin de Ia
Iglesia visigoda, Barcelona, CSIC, 1949]

Herman Billung (m. 973) Ativo comandante militar dos saxes em suas
campanhas contra os eslavos, Billung demonstrou ser um leal servidor de Oto
I quando o rei estava ocupado em amplos projetos alemes e italianos
(imperiais, em ltima anlise). Dentro da Saxnia, ele tinha exercido muitas
das funes ducais desde o incio do reinado, e o gradual reconhecimento de
sua posio como duque assinala uma importante fase na atitude real a
respeito da subordinao do cargo ducal. O domnio por Billung da situao
militar na fronteira oriental e o papel que desempenhou na estabilizao das
disposies contra os eslavos nas terras limtrofes, asseguraram a
perpetuao de sua linhagem como defensores da fronteira alem.
 K. Leyser, Rule and Conflict in an Early Medieval Society (1979)

Herman de Salza (m. 1239) Virtual criador da eficiente e formidvel ordem de
cavaleiros alemes, a Ordem Teutnica, Herman esteve ativo em duas
esferas principais. Como cruzado tradicional com o imperador Frederico II,
participou na recuperao negociada de Jerusalm em 1228, e iniciou a
construo do grande castelo de Monfort. Tambm foi responsvel, a partir
de 1211, pela poltica de converso forada ao Cristianismo na fronteira
oriental da Alemanha, canalizando essencialmente seus esforos, em
colaborao com os poloneses, contra os prussianos ainda pagos. A intensa
colonizao alem que acompanhou as conquistas resultou na fundao do
histrico principado prussiano, dominado pelos alemes.
 E. Christiansen, The Northern Crusades (1980)

Hincmar (c. 805-82) De uma nobre famlia franca, Hincmar foi como criana-
oblata para Saint-Denis. Bem educada sob a orientao do abade Hilduno,
Hincmar incorporou-se ao clero do palcio de Lus, o Piedoso. Aps a morte
desse monarca (840), ingressou no servio de Carlos, o Calvo, e em 845 era
nomeado arcebispo de Reims, a mais importante s metropolitana no reino
franco ocidental. Sua prioridade foi a recuperao das terras de Reims
perdidas durante a precedente vacncia de 10 anos, e a afirmao da
autoridade metropolitana. Seu objetivo mais amplo era a manuteno da
ordem social atravs das funes pastorais da Igreja e a pregao da
responsabilidade moral individual contra os defensores da predestinao. A
ajuda de uma realeza forte era necessria  realizao dos objetivos de
Hincmar; ele apoiou sistematicamente Carlos atravs do servio militar dos
vassalos de sua Igreja e do dinheiro levantado nas terras da Igreja. Na
primeira metade do reinado de Carlos, foi com freqncia um acatado
conselheiro, dirigindo as assemblias e lavrando as atas. Apresentou
argumentos cannicos apropriados quando Carlos desejou bloquear o divrcio
de seu sobrinho Lotrio II.
      Depois, contudo, Carlos deu cada vez maior preferncia aos
conselheiros mais jovens. Com os sucessores de Carlos, depois de 877,
Hincmar recuperou parcialmente sua influncia, mas sua debilidade fsica
abalou sua energia poltica. Tambm na poltica eclesistica, Hincmar
necessitou de ajuda real para obter xito. Um bispo sufragneo deposto por
Hincmar foi reintegrado pelo papa Nicolau I com a conivncia de Carlos; um
outro apelou para Roma em vo porque Carlos tambm desejava sua queda.
Hincmar escreveu em muitos gneros: um polptico, uma Vida de So Remgio
e estatutos episcopais, refletindo seu zelo com as propriedades de Reims e a
conduta de seu clero; numerosas obras teolgicas e contribuies para a
teoria do matrimnio cristo; numerosos tratados sobre a realeza e os ritos de
consagrao real. Suas muitas cartas, e sua continuao dos Anais de So
Bertino (cobrindo o perodo de 861-82), so documentos histricos de
inestimvel valor. Morreu quando fugia de um ataque viking a Reims.
 J. Devisse, Hincmar, Archevque de Reims 845-882 (1975-76); Charles the
Bald: Court and Kingdom, org. por M. Gibson e J. Nelson (1981)

Hildebrando Ver Gregrio VII

Hildegarda de Bingen, Santa (1098-1179) Abadessa da casa beneditina de
Rupertsberg, perto de Bingen, desde 1136, Hildegarda provou exercer grande
influncia, a nvel pessoal, sobre algumas das principais figuras de seu tempo,
como So Bernardo de Clairvaux e Frederico Barba-Ruiva. Ela era versada
nas artes mdicas e tambm uma poderosa visionria (sofrendo, ao que tudo
indica, de alguma forma de epilepsia), e seu folheto, Scivias, escrito na
dcada de 1140, tem muito de apocalptico em suas denncias do vcio. A
obra de sua velhice, o Liber de Operatione Dei, tenta uma sutil e engenhosa
aproximao do espiritual e do fisiolgico, a fim de explicar as motivaes
ntimas dos homens, o impulso para o sexual e o sensual, e os
arrependimentos ligados a isso.
 B. Newman, Sister of Wisdom (1987)

Hohenstaufen, dinastia A maior das famlias reinantes alems da Idade
Mdia, os Hohenstaufen tiveram sua origem na Subia onde, numa
determinada poca, ostentaram o ttulo de condes de Waiblingen (forma
italiana, "gibelino"). Alcanaram um plano de destaque no final do sculo XI
como os principais esteios de Henrique IV, e o chefe da famlia, Frederico I,
casou com a filha do rei, Ins (1079), sucedendo-o por fim no ducado da
Subia. Em 1138, Conrado de Hohenstaufen era eleito como imperador
Conrado III (1138-52). De 1138 a 1254, os Hohenstaufen desempenharam um
papel importante e freqentemente dominante na poltica europia. O ttulo
imperial passou sucesivamente para o sobrinho de Conrado, Frederico Barba-
Ruiva (1152-89) e, depois, para os descendentes de Frederico por linha
varonil, seu filho Henrique IV, o Severo (1190-97), seu neto Frederico II (1212-
50) e seu bisneto Conrado IV (1250-54). As grandes obras poticas
elaboradas por alemes no comeo do sculo XIII na corte de Filipe da
Subia (irmo mais moo de Henrique VI), ajudaram a manter vivas as lendas
em torno dos Hohenstaufen. A morte de Manfredo, filho ilegtimo de Frederico
II, em 1266, e o assassinato trgico de Conradino, filho de Conrado e o ltimo
da linhagem, por Carlos de Anjou em 1268, perpetuaram essas lendas.
      Cruzados e poderosos governantes, eles no conseguiram, por uma
complexidade de fatores, construir instituies permanentes de governo na
Alemanha e na Itlia, e deixaram um sabor de fracasso que iria obcecar a
historiografia alem por muitas geraes.
 K. Hampe, Germany under the Salian and Hohenstaufen Emperors (1973)

Hohenzollern, dinastia Embora conhecidos como famlia nobre desde o
sculo X e proeminentes de tempos em tempos nos assuntos de sua Subia
natal, da Francnia e (desde o final do sculo XII) de Nuremberg, os
Hohenzollern s se elevaram  mais alta categoria das famlias principescas
alems j no final da Idade Mdia. Em 1415, Frederico, burgrave de
Nuremberg, tornou-se margrave de Brandenburgo e eleitor do Imprio. Da em
diante seus movimentos estiveram estreitamente ligados aos assuntos
prussianos e  manuteno da posio alem no nordeste da Alemanha e nas
terras blticas.
 R. Schneider, Die Hohenzollern (1953)

Homens Pobres de Lyon er valdenses

Horda de Ouro Nome dado ao Canato do Kipchak ocidental. Provm do
nome russo para a tenda dourada (Zolotaya Orda) que o seu primeiro
governante, Batu Khan (m. 1256), ergueu em Saray, s margens do Volga, e
que passou a ser sua capital e centro de poder a partir de 1243. Batu era o
neto de Gngis Khan; as terras que ele herdou consistiam na metade
ocidental dos domnios de seu av, o que inclua a maior parte da Rssia
europia. Batu ampliou e consolidou a rea sob seu controle (1236-41),
acabando por subjugar a maioria dos territrios situados entre os Urais e os
Crpatos. O irmo e sucessor de Batu, Berke (1257-67) converteu-se ao
Islamismo e, nos 50 anos seguintes, o Isl passou a ser a fora dominante na
Horda de Ouro, encorajando a independncia em relao  suserania do gro-
c do imprio mongol.  morte de Berdibeg (1359) seguiu-se uma srie de
destrutivas disputas dinsticas.
     Houve um perodo de ressurgimento sob a liderana de Tokhtamiche
(1381-95), que uniu a Horda de Ouro e a Horda Branca do Kipchak oriental,
mas isso terminou com sua derrota decisiva s mos de Tamerlo em 1395.
Aps o reinado de Edig (1399-1419), a Horda de Ouro foi consideravelmente
enfraquecida com o surgimento, dentro de suas fronteiras, dos Canatos
independentes de Astrac, Kazan e Crimia.
 G. Vernadsky, The Mongols and Russia (1953)

Hugo de Saint-Victor (c. 1096-1141) Humanista e telogo mstico francs.
Com Ricardo de Saint-Victor (m. 1173), foi o mais proeminente dos vitorinos.
Sob a direo do cnego Hugo, a abadia de Saint-Victor, em Paris, fundada
em 1108, ganhou proeminncia, tornando-se um dos mais importantes centros
intelectuais da Frana. Durante o sculo XII, a Escola de Saint-Victor e as
abadias cistercienses converteram-se nos principais centros de misticismo,
em resposta ao desenvolvimento da razo e da dialtica, o que no impediu o
exerccio racional mas tentou coloc-lo a servio da f, incorporando a razo
a um processo que a transcendia.
      Hugo elaborou uma explicao lgica para o misticismo em que a
experincia pessoal era considerada a mais alta forma de conhecimento, e
tudo o que estava ao alcance da experincia era pertinente para o
conhecimento de Deus atravs da contemplao. Suas obras incluem o
Didascalium (um guia do conhecimento que fornece o essencial para uma
educao liberal, as sete artes liberais e a teologia), a Summa Sententiarum
e o tratado De Sacramentis (que impulsionou a sistematizao, estruturada no
sculo XIII).
 G. Leff, Medieval Thought (1958); F. Copleston, A History of Philosophy
(1963)

Hugo Capeto rei da Frana 987-96 (n. 941) Seu cognome (latim capa, uma
capa curta ou pelerina) deu o ttulo  dinastia por ele fundada. Filho de Hugo,
o Grande, sucedeu a seu pai como duque dos francos em 956. Inicialmente
leal ao rei carolngio Lotrio (m. 986) contra Oto II (978-80), ele distanciou-se
do monarca sob a influncia do arcebispo Adalberon de Reims. Com a morte
do sucessor de Lotrio, Lus V, em 987, Hugo reivindicou o trono mediante
eleio com o apoio do arcebispo, enquanto que as pretenses do herdeiro
hereditrio, Carlos da Baixa Lorena, foram ignoradas. Ao coroar seu filho
durante sua prpria vida, Hugo facilitou sua futura subida ao trono. Ver
Capetngia, dinastia

Hugo de Orlans (Hugo Primas) (1093-1160) Poeta satrico que criticou a
Igreja e as instituies vigentes em versos latinos de alta qualidade. Hugo
tambm mostrou um lado mais positivo de sua natureza potica em suas
criaes sobre o amor, o vinho e os prazeres da carne. Estava impregnado de
saber clssico e, no entanto, tinha uma originalidade que lhe granjeou o ttulo
de primas ("o primeiro") entre seus contemporneos. Seu principal campo de
operaes era o norte da Frana: Paris, onde estudou, Orlans, onde viveu
durante longos perodos, e tambm Amiens e Reims. Teve grande impacto
sobre as geraes seguintes, especialmente sobre os poetas goliardos.
 F.J.E. Raby, A History of Secular Latin Poetry in the Middle Ages (1967)

Hugo, o Grande, Santo (1023-1109) Abade de Cluny desde 1049. De uma
famlia nobre de Semur-en-Brionnais, ficou famoso por sua vida exemplar.
Poltico talentoso, ntimo do rei da Frana, do imperador e do papa, Hugo
contribuiu muito para desenvolver e enriquecer a Ordem de Cluny, elevando a
posio do seu abade e estendendo seu poder sobre casas satlites. Com
Hugo surgiu um novo princpio de monasticismo -- uma Ordem independente
sob um chefe monrquico. Alm de abranger toda a Frana, Hugo ampliou a
Ordem estendendo-a  Inglaterra, Itlia e Espanha. Foi um mecenas das
artes e um grande construtor (Vzelay, Moissac e a notvel baslica da
prpria Cluny, iniciada em 1088). Participando dos ideais da Reforma
Gregoriana, Cluny cresceu e tornou-se um valioso instrumento do Papado; em
1088 a abadia foi colocada sob exclusiva jurisdio papal por Urbano II,
aumentando a autonomia abacial. A Cluny de Hugo era, em muitos aspectos,
o centro espiritual da Europa, mas seu prolongado domnio pessoal acarretou
problemas.  vasta e indcil Ordem faltava uma estrutura constitucional,
dependendo inteiramente do abade. Com a morte de Hugo, os perigos de tal
situao ficaram evidentes e comearam afligindo os abades menos
competentes que lhe sucederam.
 N. Hunt, Cluny under St. Hugh (1967); H.E.J. Cowdrey, The Cluniacs and
the Gregorian Reform (1970)

Humberto de Silva Candida (c. 1000-61) Natural da Lorena, exerceu grande
influncia como secretrio papal e foi nomeado cardeal de Silva Candida pelo
papa Leo IX. Amigo e conselheiro de Leo IX, Estvo IX e Hildebrando (o
futuro Gregrio VII), Humberto foi o maior expoente da reforma papal e da
supremacia de Roma. Carter abrasivo, incentivou o tom exprobatrio dos
ataques papais contra os desmandos (visando o Imprio do Ocidente e a
Igreja oriental). Condenou em especial a sintonia (a compra e venda de
cargos eclesisticos e de benefcios espirituais), considerando-a uma heresia
em seu Adversus Simoniacos. Como legado papal enviado a Constantinopla
(1054) para sustentar a supremacia de Roma e corrigir os usos do grego,
conduziu de maneira desastrosa as negociaes, acabando por excomungar o
patriarca Cerulrio e sendo anatematizado em resposta. O ano de 1054 
freqentemente considerado a ruptura final entre Roma e o Oriente, mas o
incidente no teria comprometido o Papado se Humberto no tivesse
conservado sua influncia e atribudo  questo um valor muito acima de seus
limites razoveis. Gradualmente, cresceu o reconhecimento de um estado de
cisma e, no sculo XIV, os gregos j viam a data de 1054 como o ano
decisivo da origem do rompimento.
 J.B. Russel, Dissent and Reform in the Early Middle Ages (1965); J.C.S.
Runciman, The Eastern Schism (1971)

Humiliati Produto da vigorosa fermentao religiosa do sculo XII, os Humiliati
surgiram na Lombardia, atraindo um considervel contingente de proslitos
nobres e patrcios. Eles viviam como leigos devotos de ambos os sexos, ou
em conventos duplos, e distinguiam-se por sua austeridade penitencial,
pobreza comunitria e trabalho entre os enfermos, os leprosos e os
indigentes. Embora ortodoxos nas intenes, foi-lhes proibido pregar pelo
Terceiro Conclio de Latro (1170) e chegaram mesmo a ser excomungados
pelo confuso decreto Ad Abolendam de Lcio III (1184). As semelhanas
apontadas entre os Humiliati e os herticos patarinos e ctaros foram
superadas pela esclarecida poltica de Inocncio III de distinguir entre
movimentos dissidentes e seitas herticas. O pontfice reorganizou os Humiliati
num instituto de trs ordens, com cnegos e irms em mosteiros duplos,
laicado celibatrio e, finalmente, laicado casado como tercirios seculares.
(Esta ordem terceira afastou-se em 1272.) A ordem de seculares recebeu o
extraordinrio privilgio de lhe ser permitido pregar, sob condio de que
restringissem seus sermes a exortaes em prol de uma vida crist,
abstendo-se de quaisquer consideraes de natureza teolgica. Um prelado
dessa poca, o bispo Jacques de Vitry, era grande admirador dos Humiliati,
declarando que eles, sem ajuda de ningum, estavam mantendo em xeque a
heresia em Milo. No sculo XV, o seu nmero declinou e em 1571 o papa Pio
V suprimiu o ramo masculino.
 [B. Bolton, A Reforma na Idade Mdia, Lisboa, Edies 70, 1986]

Humphrey, duque de Gloucester (1390-1447) O mais jovem dos tios
sobreviventes do menor Henrique VI, Humphrey atuou como defensor e
protetor de seu sobrinho na Inglaterra durante a ausncia no continente de seu
tio mais velho, Joo, duque de Bedford. As relaes com o conselho real
foram freqentemente difceis e sua prpria posio foi contestada, sobretudo
aps a coroao de Henrique (ento com apenas oito anos incompletos) em
1429. As ambies de Gloucester nos Pases Baixos geraram tenses com a
Borgonha, e muitos contemporneos o responsabilizaram pelo declnio da
Inglaterra nas dcadas de 1430 e 1440. Terminou seus dias em desgraa
poltica, morrendo imediatamente aps sua priso em Bury St. Edmunds, em
1447. Foi um grande mecenas das artes e do saber, especialmente
relacionado com a abadia de St. Albans e com Oxford, a cuja universidade
doou uma excelente coleo de livros que vieram finalmente a fazer parte da
Biblioteca Bodleiana.
 R. Griffiths, Henry VI (1981)

Hundred Rolls Designao dada ao produto de um extenso levantamento
ordenado por Eduardo I (1272-1307) em 1274. O objetivo primordial era
investigar violaes ou usurpaes dos direitos reais, mas tambm se ampliou
a fim de abranger as atividades de funcionrios locais, desde xerifes a
condestveis de castelos. As informaes eram coletadas interrogando os
juris locais, cujos depoimentos eram tomados sob juramentos; suas respostas
constituem os Cem Listas (Hundred Rolls). O levantamento descobriu
desgoverno administrativo e corrupo generalizados e, em resposta, Eduardo
introduziu o primeiro Estatuto de Westminster em 1275 para remediar os
abusos. Foi a primeira de uma srie de reformas legais que ele levou a efeito.
 H.M. Cam, The Hundred and the Hundred Rolls (1930)

Hungria O territrio no Danbio Mdio estava sujeito a um constante e
turbulento movimento de povos no comeo da Idade Mdia. Os hunos, que
deram seu nome  moderna Hungria, eram o povo nmade asitico de
lendria ferocidade cujos movimentos iniciais no sculo IV serviram para
deflagrar os deslocamentos migratrios de diversos povos germnicos. Aps
a derrota de tila, seu maior lder, em Chlons (451), sua confederao
desfez-se e as terras hngaras ficaram sujeitas a numerosas invases at que
os varos estabilizaram temporariamente as condies no sculo VIII. Eles
foram, por sua vez, derrotados por Carlos Magno em 791 e a ocupao
permanente da regio s veio a ocorrer quando, no final do sculo IX, outro
povo asitico, o magiar, avanou para oeste cruzando os Crpatos e fez da
Hungria sua base permanente.
     Durante duas geraes, eles aterrorizaram grande parte do Ocidente
mas, aps sua derrota decisiva, infligida por Oto I na batalha de Lech (955),
os magiares foram se sedentarizando lentamente e se dedicando 
agricultura; no final do sculo aceitaram o Cristianismo, no reinado de Santo
Estvo (997-1038), fundador da dinastia Arpd. Incertezas em torno da
sucesso contriburam para o relativamente lento desenvolvimento
institucional, e a Bula de Ouro (1222), concedida aos magnatas pelo rei Andr
II, sugere certa fraqueza bsica da monarquia. A Igreja, por outro lado, estava
fortalecida, em parte como marca de identidade nacional, opondo a f romana
 ortodoxa grega de Bizncio e dos eslavos meridionais.
       A Hungria foi completamente conquistada pelos mongis em 1241-43,
mas recuperou-se e passou a ser um centro significativo de cultura europia
com uma dinastia Angevina vinculada a Npoles (1308-82). Durante o resto da
Idade Mdia, a Hungria desempenhou um papel especial na resistncia s
presses turcas, mesmo depois que o Imprio Bizantino foi subjugado. Com
Jnos Hunyadi e, sobretudo, com seu filho Matias Corvino (1458-90), os
turcos foram repelidos e o avano muulmano-turco na Europa foi
temporariamente sustado. Ver Matias I Hunyadi
 C.A. Macartney, Hungary, a short history (1962); A History of Hungary, org.
por E. Pamlnyi (1975)

Hunyadi, Jnos (c. 1387-1456) Heri-soldado hngaro ao tempo do
imperador Sigismundo, que expulsou os turcos de Semendria e foi
recompensado com um lugar no conselho real. Em 1443 conquistou Nish e
Sfia, quebrando o poder do sulto nos Balcs. Novos avanos cristos foram
sustados pela vitria turca em Varna (1444). Em 1446, Hunyadi foi eleito
governador da Hungria em nome de Ladislau V. Dois anos mais tarde,
comandou a contra-ofensiva hngara que foi detida em Kosovo. A presso
turca aumentou e, em 1456, Hunyadi, apoiado pelo frade franciscano So
Joo Capistrano, levantou numeroso exrcito campons que destruiu a
armada turca e, uma semana depois, desbaratou as foras de Maom II
diante de Belgrado. A independncia da Hungria ficou assim assegurada por
mais 70 anos. Hunyadi morreu de peste em seu acampamento no final de
1456.
 P. Engel, "Janos Hunyadi: the Decisive Years", em From Hunyadi to
Rakoczi, org. por J.M. Back e B.K. Kivaly (1981)

Huss, Joo (c. 1369-1415) Reformador religioso tcheco, natural de Husinec,
na Bomia, e educado na Universidade de Praga. Ordenado em 1400 e
nomeado reitor da universidade em 1409, Huss foi um telogo acadmico que
pregou em tcheco e promoveu o sentimento antialemo na Universidade de
Praga. Essa poltica nacionalista era politicamente vantajosa para a monarquia
bomia e culminou no xodo alemo da universidade (1409). Huss viu-se alvo
da suspeita de heresia e foi excomungado (1410), em conseqncia do seu
protesto contra a queima dos livros do reformador ingls Wycliffe pelo
arcebispo de Praga. Huss continuou sendo muito popular e pregando (o que
levou Praga a ser colocada sob interdio em 1411). Em 1412, foi compelido
a abandonar Praga e comps sua maior obra, De Ecclesia; suas obras
abrangem o dogmtico, o polmico, o homiltico, o exegtico e o epistolar.
Huss recorreu  obra de outros reformadores, sobretudo Wycliffe, mas no
adotou os sistemas deles. Estava preocupado com a reforma moral da Igreja
e com o retorno  pureza, mas no considerou a hiptese de rompimento com
Roma. Atacou a venda de indulgncias papais e desafiou as pretenses
papais de chefia suprema da Igreja (1412). Em 1414 foi intimado a
comparecer ao Conclio de Constana a fim de defender suas convices,
onde, apesar de ser portador de um salvo-conduto fornecido pelo rei
Sigismundo, foi detido, condenado por heresia e queimado em auto-de-f (6
de julho de 1415). Huss tinha atrado numerosos seguidores, os hussitas
(calistinos ou utraquistas, que insistiram, diferentemente de Huss, em
restabelecer a comunho com po e vinho), e sua morte provocou
subseqentemente as guerras hussitas.
 M. Spinka John Huss: a Biography (1968); EM. Bartos, The Hussite
Revolution 1424-1437 (1986)
                                      I
Iconoclasta, Controvrsia (726-843) Controvrsia resultante da profunda
discordncia acerca da venerao de cones na Igreja bizantina. Em 726, o
imperador Leo III, o Isauro, com forte apoio militar, ordenou a destruio de
todas as imagens usadas como dolos e comeou a perseguir os defensores
dos cones, sobretudo os monges. Com o papa Gregrio III veio a reprovao
do Papado, condenando os iconoclastas em dois snodos celebrados em
Roma (731). O filho de Leo, Constantino V Coprnimo, continuou a poltica
paterna, convocando o Snodo Iconoclasta de Heiria (753). Somente com a
regncia da imperatriz Irene (780-90) essa tendncia foi revertida; ela
convocou o II Conclio de Nicia (787), que defendeu os cones e decretou
seu restabelecimento. Entretanto, a controvrsia reacendeu-se uma vez mais
em 814, por instigao de Leo V, o Armnio, um general eleito imperador
pelo exrcito. S terminou, finalmente, em 843, quando Teodora, viva do
imperador Tefilo, convocou um snodo para confirmar o pronunciamento feito
em Nicia; uma procisso no primeiro domingo da Quaresma assinalou o
retorno da ortodoxia. Ver Igreja Ortodoxa Oriental
 E.J. Martin, A History of the Iconoclastic Controversy (1930) [S. Runciman,
A teocracia bizantina, Rio, Zahar, 1978]

Idrisi, Abu Abdullah ibn-Mohammed al- (c. 1100-65) Gegrafo muulmano,
autor do Livro de Rogrio, produzido por ordem do rei da Siclia, Rogrio II, o
Grande. O livro foi concludo em 1154, a nica data certa para a biografia de
Idrisi. Pouco se sabe sobre ele, uma vez que os bigrafos muulmanos o
consideraram um renegado por residir numa corte crist e elogiar Rogrio II
em suas obras. Fontes ocidentais afirmam ter ele nascido em Ceuta e
estudado em Crdova. O prprio Idrisi declara ter viajado muito pela Espanha
e norte da frica, mas no explica porque se instalou na corte normanda de
Rogrio II.
 M. Amari, Storia del Musulmani di Siclia, vol. 3 (1854-72)

Igreja Catlica Igreja crist que aceita a doutrina estabelecida nos Credos
Niceno e Atanasiano, em oposio a congregaes herticas como os
nestorianos ou os arianos. Era a Igreja Ortodoxa indivisa antes do cisma de
1054, e a Igreja Ortodoxa da Cristandade ocidental durante toda a Idade
Mdia. Os catlicos aceitavam o papa, bispo de Roma e legtimo sucessor de
So Pedro, como Vigrio de Cristo e ordinante universal (bispo cuja
autoridade se estendia a toda a Igreja). Essa doutrina da supremacia papal
cresceu gradualmente em Roma durante os seis primeiros sculos da era
crist e foi propagada ao norte dos Alpes pelo fato (com exceo do territrio
que se tornou a Frana moderna) da converso ao Cristianismo ter sido
promovida por missionrios expedidos pela Igreja de Roma ou indiretamente
dependentes dela. A plenitude da autoridade papal s veio a ser final e
universalmente reivindicada ao tempo de Gregrio VII (1073-85). Da em
diante, passou a ser parte integrante do direito Cannico, desenvolvida e
elaborada numa srie de conclios ecumnicos, desde o primeiro Conclio de
Latro (1123) at o de Basilia (1431). Decretais e cartas emitidas
solenemente pelo papa em conclave eram obrigatrias para toda a Igreja, e
sua Cria era a corte final de apelao em todos os casos envolvendo o
direito Cannico. Qualquer desvio das doutrinas bsicas da Igreja era heresia
e como tal passvel de punio mediante penitncia, priso ou, em casos
extremos, morte, embora esta ltima pena tivesse que ser aplicada pela
autoridade secular. O poder papal era exercido atravs de legados,
diretamente enviados da Cria ou residindo permanentemente em cada pas
(legati nati), nncios (geralmente ligados s questes financeiras) e juizes
delegados, estes nomeados para tratar de determinados casos em tribunais
eclesisticos.
      A Igreja estava organizada em provncias (cada uma governada por um
arcebispo) e dioceses (cada uma governada por um bispo). No sculo XII, as
dioceses estavam subdivididas, para fins administrativos, em arcediagados e
em decanados rurais, embora o bispo retivesse sempre a autoridade suprema
e s ele pudesse administrar os sacramentos de confirmao e ordenao. A
disciplina da Igreja estava organizada atravs de uma srie de tribunais
eclesisticos, que iam desde o tribunal do arcediago at o do decano dos
arcebispos de um pas. A unidade mais baixa da organizao da Igreja era a
parquia; nesta, a responsabilidade pela cura das almas cabe ao proco ou,
em outros casos, ao vigrio, por vezes auxiliado por um capelo estipendirio.
Priores e vigrios eram institudos pelo bispo da diocese, aps apresentao
pelo patrono do benefcio eclesistico, e o cargo era vitalcio, s voltando a
ser preenchido em caso de morte ou renncia. Eles podiam ser retirados de
uma parquia por m conduta, mas isso raramente ocorria.
       O clero "regular", em contraste com o "secular", inclua monges, freiras,
cnegos regulares, frades e membros de Ordens Militares como os
Templrios. Viviam de acordo com as Regras impostas pelos chefes de suas
prprias Ordens, sob a autoridade final do papa. Muitos, embora no todos,
estavam isentos da jurisdio diocesana. Podiam conservar (ou, no caso dos
franciscanos, ter o uso de) bens coletivos, embora os membros tivessem
feito, individualmente, voto de pobreza. Os membros dessas Ordens podiam
vir a ser bispos, mas no arcediagos ou padres paroquiais. Existiam eremitas
e anacoretas, e alguns ficaram famosos, mas sua influncia era, de um modo
geral, muito menor do que na Igreja oriental. Todos os membros de ordens
religiosas e todo o clero secular, acima do estado de subdicono, inclusive,
estavam obrigados ao celibato, se bem que antes do sculo XI essa regra
nem sempre fosse imposta. Todo o clero estava sob a proteo do direito
Cannico. Ver Grande Cisma; heresia; Investiduras, Questo das; Nicia,
Conclio de; Papado                               RH
 R.H. Bainton, The Medieval Church (1962); J. Gaudemet, La socit
ecclsiastique dans l'Occident medival (1980) [R.W. Southern, A Igreja
medieval, Lisboa, Ulissia, s/d; K. Bihlmeyer e H. Tuechle, Histria da Igreja.
Idade Mdia, S.Paulo, Paulinas, 1964; D. Knowles e D. Obolensky, Nova
Histria da Igreja. A Idade Mdia, Petrpolis, Vozes, 1974]
igrejas de aduelas (Stavkirken) Tipo de igreja caracterstica da Noruega na
Idade Mdia. Eram edifcios totalmente construdos em madeira, usando com
freqncia a populao rural como mo-de-obra, e em seus melhores
exemplares combinaram de forma brilhante as artes do arquiteto e do
carpinteiro. As igrejas mais elaboradas eram sustentadas por uma srie de
macias colunas de madeira, com portais profusamente ornamentados e
capitis esculpidos. O aspecto exterior, com sua sucesso de telhados
escalonados, oferecia um vivo contraste com as simples igrejas de pedra e as
rebuscadas catedrais "europias" de Trondheim e Bergen. Elementos pagos
e ecos de lendas hericas eram incorporados  obra de talha em madeira no
interior e no exterior das igrejas de aduelas.
 R. Hauglid, Norwegian Slave Churches (1970)

Igreja irlandesa Embora a tradio atribua a converso dos irlandeses a So
Patrcio, ficou claramente provado que alguns missionrios estavam
trabalhando antes dele e que ele limitou sua atividade evangelizadora ao norte
e centro da Irlanda. Entretanto, a importncia de So Patrcio  indiscutvel e
sobrevivem dois de seus escritos do sculo V. As igrejas e os sacerdotes que
ele instalou estavam sob a jurisdio de alguns bispos, sem os centros
urbanos que caracterizaram a Igreja continental.
      No decorrer do sculo VI, a Igreja irlandesa comeou mudando com a
fundao de numerosos mosteiros, freqentemente com patrocnio real. As
comunidades de Bangor, Clonfert, Derry e Durrow, Iniscealtra e Terryglass,
Lismore, Moville e Killeedy j existiam no final do sculo VI ou comeos do
sculo VII. Muitas delas retiveram fortes ligaes com as famlias de seus
fundadores, que exerceram influncia na nomeao de abades e, assim, na
administrao de seus bens. No decorrer desse movimento, alguns monges
viajaram para terras estranhas, estabelecendo outras comunidades
monsticas e entregando-se ao trabalho missionrio. No sculo VIII, muitos
mosteiros na prpria Irlanda tinham se tornado excepcionalmente ricos,
patrocinando a produo de obras de arte -- missais e vasos de culto de
grande esmero e requintado acabamento -- e participando tambm na
poltica. No final desse sculo, os abades dos principais mosteiros
controlavam mosteiros menores e dependentes, por vezes muito dispersos, e
se tornavam aos poucos mais poderosos do que os bispos a cuja jurisdio
tinham estado originalmente sujeitos.
      No final do sculo VIII e durante o sculo IX, seu envolvimento na poltica
era tal que abades entraram em guerra, enquanto suas ligaes com famlias
aristocrticas eram to estreitas que reis, por vezes, exerciam funes tanto
clericais quanto seculares. Isso ocorreu de forma sumamente notria no caso
dos reis de Munster, como, por exemplo, Olchobar, que foi abade de Emly e
rei de Cashel em 848. Em contrapartida, alguns bispos esforavam-se por
afirmar sua superioridade sobre outros e a igreja de Armagh notabilizou-se
pelas tentativas de estabelecer a hegemonia ( maneira de um suserano)
sobre toda a Igreja irlandesa. Contentou-se inicialmente em dividir essa
hegemonia com a igreja de Kildare mas, no sculo VIII, Armagh estava
reivindicando para si jurisdio apelatria em toda a Irlanda e uma posio
comparvel  dos bispos de Roma na Itlia. Essas pretenses no foram
mantidas a longo prazo, embora Armagh continuasse sendo uma igreja
poderosa.
      Nesse meio tempo, alguns clrigos e monges tinham-se desiludido com a
mundanalidade da Igreja e deflagraram uma campanha em prol de uma
prtica mais asctica. Esse movimento Culdee, como  conhecido, estava em
franco progresso por volta de 800, especialmente associado a Tallaght; levou
 fundao de casas mais ascticas, por vezes em lugares muito isolados, 
reforma da prtica em algumas casas existentes e  produo de obras
eremticas de devoo. Tanto a linha poderosa quanto a asctica continuaram
marcando a Igreja irlandesa at o sculo XI. Alguns dos mais elaborados
cruzeiros esculpidos foram fruto do patrocnio e da habilidade do sculo X.
     No final do sculo XI, o movimento de reforma continental comeou a
tocar a Irlanda; mas o grande avano ocorreu em meados do sculo XII com
a obra de So Malaquias (m. 1148); seus propsitos para a Igreja irlandesa
frutificaram aps sua morte quando, no Snodo de Kells (1152), a Irlanda foi
dividida em 4 arcebispados e 36 bispados. O novo movimento monstico
passou a exercer influncia e a conquista anglo-normanda (1169-72), liderada
pelo conde Strongbow e Henrique II, colocou grande parte da Irlanda de um
modo ainda mais direto na corrente principal da Cristandade ocidental.
Catedrais foram construdas em tpico estilo normando e fundaram-se novas e
poderosas casas monsticas, sobretudo por parte dos cistercienses. No
sculo XIII, foi especialmente encorajada a presena de frades mendicantes;
e eles (sobretudo seus elementos mais pobres e mais ascticos) conservaram
boa reputao at o final do perodo medieval.
      Nos ltimos anos da Idade Mdia, a Igreja irlandesa continuou refletindo
as divises sociais da ilha, principalmente em decorrncia das fronteiras
lingsticas entre a fala inglesa e a gulica; porm, de um modo geral,
harmonizou-se ento com os usos da Igreja ocidental, mais do que ocorrera
no comeo da Idade Mdia. Ver Cashel, Snodo de WD
 J.F Kenney, Sources for the Early History of Ireland: Ecclesiastical (1929);
K. Hughes, The Church in Early Irish Society (1966)

Igreja Ortodoxa Oriental O termo "ortodoxa" deveria ser corretamente
aplicado  Igreja Catlica em contraposio s seitas herticas, mas  usado
em geral para descrever a Igreja oriental, a qual consiste, aps as invases
islmicas, no patriarcado de Constantinopla, somado quelas igrejas em
terras de lngua eslava que lhe ficaram devendo sua converso. Essa Igreja
aceitou a autoridade das Escrituras e dos sete conclios ecumnicos: Nicia I
(325), Constantinopla I (381), feso (431), Calcednia (451), Constantinopla II
(553), o qual condenou os Trs Captulos Nestorianos, Constantinopla III
(680), que condenou os monotelistas, e Nicia II (787), que condenou os
iconoclastas. Repudiou o primado do papa e considerou o imperador seu
chefe divinamente autorizado, embora (uma vez que seu cargo era, em teoria,
eletivo) governasse como representante de toda a comunidade de fiis. Era o
imperador quem nomeava o patriarca de Constantinopla e quem, aps a
conquista muulmana dos patriarcados de Jerusalm, Antioquia e Alexandria,
era aceito como a principal autoridade espiritual no leste. A Igreja de
Constantinopla foi um fator decisivo na converso de srvios, blgaros,
romenos, morvios e russos.
     Em 867 e em 1054, eclodiram disputas entre o clero ortodoxo e o
catlico, redundando em quebras de unidade. A causa dessas disputas era
basicamente poltica (a pretenso de Roma de representar So Pedro e a
autoridade suprema do Cristo), embora tivesse tambm algo de doutrinria (a
natureza da procisso do Esprito Santo), pelo que  duvidoso se a descrio
geralmente usada de cismas (definidos como uma "separao formal e
deliberada da unidade da Igreja") no ser, na verdade, demasiado forte para
podermos consider-la correta. A comunho entre as duas Igrejas foi
restabelecida depois de 867, mas nunca mais depois de 1054; uma tentativa
de reunio foi realizada no Conclio de Ferrara (1438) mas a Igreja Ortodoxa
nunca a aceitou. Isso no chegava a ser surpreendente, porquanto as
relaes entre Oriente e Ocidente pioraram cada vez mais, e de forma
constante, a partir do sculo X; e em 1204 a cidade de Constantinopla e a
igreja metropolitana de Santa Sfia tinham sido brutalmente saqueadas pelos
francos catlicos.
      Na Igreja Ortodoxa, os bispos e toda a hierarquia superior do clero eram
celibatrios e tradicionalmente recrutados nos mosteiros. Os procos eram
escolhidos localmente por suas congregaes e apresentados ao bispo para
ordenao; era exigido que se casassem. A autoridade sacerdotal era um
pouco menor do que no Ocidente; por outro lado, a influncia de telogos
leigos que eram monges ou eremitas era muito maior. A Regra bsica do
monasticismo oriental era a de So Baslio. No plano doutrinrio, a Igreja era
marcada por uma liturgia imutvel e uma devoo especialmente profunda 
Ressurreio. A Virgem Bendita, a "Santa das Santas", foi aclamada como
padroeira da Igreja e da cidade de Constantinopla.
      No sculo VIII, a Igreja Ortodoxa esteve envolvida numa sria
controvrsia sobre a venerao de imagens. Uma dinastia de imperadores
"iconoclastas" oriundos das provncias asiticas (possivelmente influenciados
pela estrita proibio de imagens do Isl) tentou abolir o uso de imagens e
cones, com o argumento de que induziam  idolatria. A doutrina foi impopular
e acabou sendo formalmente condenada em 787; desde ento, os cones tm
desempenhado um importante papel no culto ortodoxo. No sculo XIV, surgiu
uma disputa em torno do ensino Hesychasm [do grego hesychia, "quietude
divina" NT], um sistema de contemplao mstica que leva  iluminao pela
divina luz de Deus, praticada entre os monges do Monte Athos. Como os
adversrios do Hesychasm eram geralmente identificados com a influncia
ocidental, ela passou a ser, depois de 1351, um ensinamento aceito da Igreja,
embora sua influncia declinasse a partir do sculo XVI. Ver Iconoclasta,
Controvrsia; Nestoriana, Controvrsia
 H.W. Haussig, A History of Byzantine Civilization (1971) [S. Runciman, A
teocracia bizantina. Rio, Zahar, 1978; B. Sartorius, Igreja Ortodoxa, Lisboa,
Verbo, 1982] J.M. Hussey The Orthodox Church in the Byzantine Empire
(1986)

imprensa Embora a imprensa surgisse em fins do perodo medieval, o sculo
XV testemunhou fases vitais em sua histria: a inveno do processo no
Ocidente, sua difuso, e o aperfeioamento dos caracteres tipogrficos. A
crescente demanda de livros, refletida na produo de manuscritos, foi um
importante estmulo para o desenvolvimento.
     A imprensa j era conhecida na China, mas o mais provvel  que se
desenvolvesse independentemente do Ocidente. Os problemas mecnicos de
produo de escrita cursiva "artificial" foram resolvidos por um mtodo vivel,
que se tornou standard durante 150 anos, inventado pelo ourives de Mainz,
Joo Gutenberg. E em 1455-56, ele concluiu o primeiro livro impresso, a Bblia
de Gutenberg, numa tiragem de 200 exemplares em papel e velino. Ele
imprimira antes indulgncias da Igreja, e existia a impresso xilogrfica para
cartas de jogar, mas esse era o primeiro livro. A matriz de tipos de chumbo
era recortada manualmente no cursivo gtico alemo dos manuscritos da
poca, o que persistiu na Alemanha at o sculo XX.
    A tcnica propagou-se rapidamente, com a inveno sendo reivindicada
por outros (como Laurens Coster na Holanda). O trabalho em Mainz teve
continuidade com Johann Fust (c. 1400-66) e Peter Schoeffer (c. 1425-1502),
que produziu um saltrio (1457) contendo as primeiras iniciais elaboradas e
impressas a duas cores, data da impresso, nome do impressor e sua divisa,
e colofo. Em cinco anos, os centros alemes incluam Bamberg (Adolf
Pfister) e Estrasburgo (Johann Mentelin); em 1500, totalizavam cerca de 60.
No ltimo quartel do sculo XV, a principal contribuio da Alemanha foi o livro
ilustrado, sobretudo atravs de Augsburgo e Colnia, onde xilogravadores e
impressores se uniram para desenvolver ilustraes de alta qualidade (como
as de Albrecht Drer).
       Fora da Alemanha, o tipo gtico persistiu durante um sculo para livros
religiosos e jurdicos, mas foi substitudo por um tipo romano desenvolvido a
partir do cursivo humanista italiano do sculo XV (derivado da minscula
Carolngia), o qual inspirou o desenvolvimento de toda uma srie de desenhos
de tipos em Veneza, a partir de 1469. As obras impressas eram
extremamente diversas; a imprensa foi decisiva na difuso do humanismo e
tambm desempenhou um papel na Reforma.
       A primeira tipografia inglesa foi instalada em 1476 por William Caxton, e
o primeiro livro impresso em ingls e datado (1477) foi The Dictes or
Sayengis of the Philosophers. De um modo geral, porm, os impressores
ingleses estavam na dependncia do continente. A primeira tipografia de
Basilia (1467) tornou-se o principal centro para a imprensa humanista crist,
tendo o impressor Johann Froben (1460-1527) trabalhado com Erasmo e
Holbein. Na Itlia, a primeira tipografia estabeleceu-se (1465) no mosteiro de
Subiaco por iniciativa de Conrad Sweynheym de Mainz (m. 1477) e Arnold
Pannartz de Colnia (m. 1476), que desenvolveram um tipo hbrido
romano/gtico.
      Os primeiros impressores eram artistas-artesos, editores e livreiros;
portanto, favoreciam os centros comerciais, especialmente porque os grandes
mecenas (como os Medici) abstiveram-se no incio de oferecer qualquer
apoio. Assim, Veneza atraiu muitos, fundando o moderno livro impresso. O
alemo Johannes de Spira (m. 1470) desenvolveu o primeiro tipo diretamente
inspirado por mos humanistas italianas, e De Evangelica Prae-paratione
(1470) estabeleceu o moderno tipo romano. Foi adaptado por Aldus Manutius
(1450-1515) e Francesco Griffo (c. 1450-1518), que tambm imprimiram as
primeiras obras gregas e desenvolveram o itlico (equivalente do cursivo) para
obras menores e mais baratas.
      Durante a primeira metade do sculo XVI, o impulso transferiu-se para a
Frana. A imprensa foi introduzida da Alemanha para a Sorbonne (1470), com
a universidade reconhecendo as vantagens da acessibilidade, do baixo custo e
da uniformidade. Os manuscritos medievais continuaram sendo o modelo,
apesar da introduo por Ulrich Gering do tipo romano (c. 1478),
desenvolvendo os impressores franceses um tipo (lettre-btarde) derivado do
cursivo legal francs. A influncia do manuscrito levou tambm s edies de
luxo, com Jean Dupr (fl. 1481-1504) e Philippe Pigouchet (fl. 1485-1515)
produzindo Livros de Horas decorados com extrema beleza. Foi na Frana
que o impressor e o gravador mais rivalizaram com as realizaes do copista
e do iluminador, dando continuidade ao legado medieval. [85, 183] MB
 S.H. Steinberg, Five Hundred Years of Printing (1966) [U.E. Katzenstein, A
origem do livro, S. Paulo, Hucitec-INL, 1986]

indulgncias Em termos teolgicos, uma indulgncia era tecnicamente a
remisso do castigo temporal devido ao cometimento de um pecado, cuja
culpa j tinha sido perdoada, pela aplicao dos mritos de Cristo.
Originando-se na comutao das punies penitenciais, as indulgncias
ganharam importncia atravs do conceito cristo, profundamente enraizado,
da solidariedade da comunidade de santos.
      A partir do sculo XI, foram usadas a fim de canalizar atividades
penitenciais para fins particulares, sendo um notvel exemplo a indulgncia
plena de Urbano II para quem apoiasse a Primeira Cruzada (1095). As
Cruzadas posteriores foram igualmente amparadas por indulgncias, mas o
crescimento da prtica de comutao do voto solene do cruzado por um
pagamento monetrio aviltou a fora espiritual da indulgncia. Mais comum
era o uso de indulgncias a fim de angariar os fundos necessrios para obras
pblicas, incluindo a construo de igrejas, a assistncia aos enfermos e
pobres, a conservao de estradas, a construo de pontes e a educao.
Guilherme de Auvergne, bispo de Paris (1228-49) e eminente telogo,
justificou essas diversas penitncias como manifestaes do amor cristo pelo
prximo.
       A extenso dos abusos era cada vez mais gritante, e reformadores
desde Joo de Salisbury em diante advertiram sobre os perigos dessa
prtica. Sob crescente presso financeira, vrias autoridades eclesisticas,
incluindo Papado, recorreram a prticas duvidosas, sobretudo no emprego de
monges vendedores de indulgncias, assim se concretizando os piores
temores dos partidrios da Reforma.
 P. Paulus, Indulgences as a social factor in the Middle Ages (1922)

Ins, imperatriz (1024-77) Esposa de Henrique III. Descendente dos reis da
Borgonha e filha de Guilherme, o Piedoso, duque da Aquitnia, Ins casou
com Henrique III a 1 de novembro de 1043, cimentando assim as relaes
entre a Alemanha e seus vizinhos ocidentais. Aps a morte do marido em
1055, atuou como regente durante a menoridade de seu filho, Henrique IV. Em
1062, entretanto, foi destituda pelo arcebispo Anno de Colnia e passou o
restante de sua vida num convento. Faleceu em Roma em 1077.

Inglaterra Povos germnicos pagos, comumente conhecidos como saxes, e
que por um largo perodo tinham assolado o litoral da Gr-Bretanha romana
com repetidas incurses, foram autorizados pela primeira vez a instalar-se na
parte oriental da ilha no sculo IV, em retribuio a seus servios como
combatentes. Em meados do sculo seguinte, porm, entraram em conflito
com os chefes britnicos que tinham assumido o controle aps o colapso do
domnio romano, e ajudados por nova afluncia de colonizadores, iniciaram a
conquista de toda a Gr-Bretanha oriental. Embora o avano saxnico tivesse
sido sustado por breve perodo por volta de 500, a subjugao da rea que
passou a ser conhecida como England (Inglaterra) estava praticamente
concluda em fins do sculo VII.
     Nessa poca, os bandos de guerra originais j haviam se agrupado em
numerosos pequenos reinos, cada um deles dominado por uma aristocracia
guerreira liderada por um rei, que governava em virtude de seu poder militar.
Os nativos britnicos foram reduzidos a um status servil e adotaram
gradualmente a lngua e os costumes de seus conquistadores saxes. Assim
fazendo, a maioria afastou-se do Cristianismo, embora este continuasse
florescendo nos reinos britnicos restantes, situados nas regies norte e
oeste da ilha.
      A converso dos anglo-saxes foi iniciada pela Igreja romana em fins do
sculo VI. Transcorreu quase um sculo antes que todos os reis e seus
seguidores imediatos estivessem convertidos, e s muitssimo tempo depois o
Cristianismo seria aceito no interior do pas. Contudo, em virtude de sua
organizao diocesana, calcada em um sistema paroquial ainda longe de ser
perfeito quando da conquista normanda, a Igreja tornou-se a nica autoridade
que se sobrepunha s fronteiras dos vrios reinos.
      As relaes entre os reinos anglo-saxes eram de guerra incessante, no
decorrer das quais os reis de Nortmbria (no sculo VII), Mrcia (no sculo
VIII) e Wessex (no incio do sculo IX) se asseguraram sucessivamente da
bretwalda ou suserania sobre os outros. O governo de Offa de Mrcia, que
mandou construir a grande vala para definir a fronteira entre seus sditos e os
galeses, no sculo VIII, foi de especial importncia. Seu uso de ttulos tais
como rex Anglorum assinala a crena em que os ingleses eram um s povo
que podia ser submetido a um s senhor. No obstante, o momento
culminante no surgimento de uma monarquia inglesa unida ocorreu no sculo
IX com as invases vikings, pondo fim a dois sculos em que a Inglaterra
estivera livre de ataques externos. Ao destrurem todos os outros reinos
anglo-saxes, eles deixaram Wessex, no sudoeste, na liderana incontestvel
da comunidade inglesa.
     Com Alfredo e       seus   sucessores,   o   territrio   povoado   pelos
dinamarqueses foi sistematicamente reconquistado e finalmente dividido em
condados, segundo o modelo de Wessex. No terceiro quartel do sculo X, j
tinham conseguido criar um reino ingls razoavelmente unido e duradouro, com
um sistema tributrio e um sistema monetrio unificados. Apesar de um
perodo de domnio dinamarqus (1016-42), a administrao real
desenvolveu-se firmemente e, no final do perodo anglo-saxo, o secretariado
era relativamente avanado, emitindo editos em ingls, com a chancela real,
para os funcionrios rgios e os bares dos condados.
      A Conquista Normanda, a ltima ocasio em que a Inglaterra foi invadida
com xito e colonizada por um povo do continente, encaminhou o seu
desenvolvimento em novas direes: a classe superior anglo-saxnica foi
substituda por uma sociedade feudal cuidadosamente estruturada, com
costumes e disposies sociais bem diferentes; os fortes laos entre a Igreja
inglesa e o Papado foram reforados, os bispados e abadias convertidos em
baronias feudais. Mas embora os normandos de fala francesa abandonassem
o uso do ingls a favor do latim como lngua da administrao, eles adotaram
e desenvolveram o sistema administrativo anglo-saxnico. Isso tornou possvel
a compilao do Domesday Book, o mais impressionante registro de uma
administrao real de seu tempo. A Conquista integrou tambm a Inglaterra
nas questes europias, unindo ainda mais a Frana e a Inglaterra em seus
destinos. Durante um sculo e meio, os reis ingleses tambm foram senhores
de vastos domnios na Frana e, com os angevinos, no final do sculo XII,
seus interesses centraram-se em suas possesses francesas. Esse perodo
s terminou com a perda de todos esses territrios,  exceo da Gasconha,
no incio do sculo XIII.
      A casa real normando-angevina deu origem aos principais rgos de
uma administrao central elaboradamente organizada, que se sustentou
tributando a riqueza dos latifundirios e o comrcio dos mercadores. Recursos
financeiros mais vultosos tornaram possvel a conquista do Pas de Gales no
final do sculo XIII, e as prolongadas guerras com a Esccia, cuja fronteira
com a Inglaterra foi fixada em 1237. Tambm permitiram que reis da
Inglaterra reivindicassem o trono francs e, durante dois perodos -- as
dcadas de 1350 e de 1410 --, conquistassem a maior parte da Frana.
      Apesar de seu crescente poder, os reis ingleses no podiam governar
de maneira efetiva sem a cooperao dos grandes proprietrios de terras. No
incio, as concesses rgias adotaram a forma de edio e reedio da
Magna Carta. Mais tarde, a cooperao foi assegurada por "parlamentaes"
entre o rei, os lordes e, finalmente, representantes tambm dos comuns.
Mesmo assim, no final da Idade Mdia, os monarcas ingleses estavam livres
da necessidade de consultar sistematicamente seus sditos.
     Nesse meio tempo, profundas mudanas tinham ocorrido na estrutura e
carter da sociedade inglesa. A Peste Negra (1349) e epidemias posteriores
causaram um declnio catastrfico na populao, o que ajudou a mudar as
relaes entre senhores e camponeses. Apesar da derrota da Revolta dos
Camponeses em 1381, os lordes abandonaram o regime de cultivo direto de
suas propriedades e o servo da gleba desapareceu gradualmente. Finalmente,
foi demonstrado que a identidade do ingls como povo sobrevivera 
Conquista. A lngua inglesa continuava a ser usada na fala, e algumas vezes
na escrita, e do sculo XIV em diante, ao tornar-se socialmente aceitvel, seu
uso crescente em obras literrias refletiu um grau cada vez maior de
autoconscincia nacional. Ver danegeld; Errio Pblico; frankpledge; Hundred
Rolls; Parlamento; Plantageneta; testamento; editos; ver tambm os reis
individualmente registrados                          CHK
 Oxford History of England, especialmente F.M. Stenton, Anglo-Saxon
England (1970) e M. McKisack, The Fourteenth Century (1959); Pelican
History of England: D. Whitelock, The Beginnings of English Society (1952),
D.M. Stenton, English Society in the Early Middle Ages (1952) e A.R. Myers,
England in the Late Middle Ages (1956); B. Lyon, A Constitutional and Legal
History of Medieval England (1960)
Inocncio III papa 1198-1216 (n. 1161) Um dos mais fortes e mais eficientes
de todos os papas medievais, Inocncio III esteve ativo em duas principais
esferas interligadas. Durante seu pontificado, os princpios de monarquia
papal estavam no auge. Ele foi um zeloso reformador da Igreja na acepo
tradicional, ansioso para que a Igreja crist, em toda a Cristandade, pusesse
em ordem a sua prpria casa moral. Como monarca papal, ele 
principalmente lembrado por suas aes em relao ao Imprio e  monarquia
alem, e era habitual entre os historiadores nacionalistas alemes atribuir
grande parte da culpa pelo fracasso da Alemanha em sair unida da Idade
Mdia  malevolncia do relativamente jovem e muito hbil papa.
      Eleito para a Santa S aos 37 anos de idade, Inocncio III fixou como
um dos principais objetivos diplomticos de sua carreira, separar a Alemanha
da Itlia, manter dividida a Itlia setentrional da meridional (incluindo a Siclia),
e salvaguardar a integridade poltica de Roma e dos Estados pontifcios. Para
conseguir tudo isso, mostrou-se disposto a transferir seu apoio para o
candidato guelfo ao trono imperial, Oto IV de Brunswick, para a casa
Hohenstaufen e, em ltima instncia, para o seu tutelado, o jovem Frederico,
rei da Siclia desde a infncia e imperador em 1212(20)-50. Por uma daquelas
profundas ironias da histria, Frederico tornou-se um arquiinimigo do Papado;
mas havia uma lgica fria por trs da poltica de Inocncio, em sua tentativa
de obter compromissos de que Roma deveria estar livre.
      Por toda Europa, suas intervenes foram coerentes, conjugando
questes morais com asseres de superioridade papal. O seu xito mais
espetacular aconteceu na Inglaterra, quando aps uma luta acrrima em torno
da nomeao para a s de Canterbury, colocou o reino de Joo Sem Terra
sob um interdito que s foi levantado depois que o monarca capitulou e
declarou seu reino vassalo do Papado, em termos feudais. Na Frana, aps
uma luta prolongada, logrou a reconciliao do rei francs Filipe Augusto com
sua esposa dinamarquesa Ingeborg, mas progrediu pouco na questo
fundamental dos direitos eclesisticos em cortes feudais. Nas comunidades
mais perifricas, Espanha, Hungria e Polnia, ele e seus legados obtiveram
maior sucesso na imposio de idias papais; o mesmo ocorreu na
Escandinvia, com exceo da Noruega, onde o rei Sverre resistiu s
solicitaes papais.
       A atitude de Inocncio em relao s Cruzadas tambm estava muito
ligada s suas idias de monarquia papal, se bem que, nesse captulo,
algumas ironias se apresentam. Apoiou a Quarta Cruzada, apesar de suas
apreenses quanto ao desvio contra Estados cristos, e tentou impor
autoridade romana nos Balcs, na esteira da tomada de Constantinopla pelos
cruzados em 1204. Uma profunda preocupao com a heresia no sul da
Frana levou-o a pregar a Cruzada Albigense, para vantagem poltica, em
ltima anlise, do rei francs e da nobreza da Frana setentrional.
      Instrudo em teologia e direito, conservou uma inabalvel preocupao
com a sade moral e institucional da Igreja e, em dois aspectos, suas
realizaes provaram ser permanentes. Apesar das semelhanas superficiais
entre os ensinamentos de So Francisco e alguns movimentos herticos,
Inocncio III reconheceu o valor dos frades e seu apoio aos franciscanos e
dominicanos (extensamente usados como pregadores e inquisidores)
acrescentou uma nova e intensa dimenso  vida espiritual do Ocidente. A
crescente nfase sobre definio e legalidade atingiu seu clmax perto do final
de seu pontificado, no IV Conclio de Latro, realizado em Roma em 1215.
Seus decretos, descritos como "um projeto bsico de reforma", renem todos
os ingredientes para uma Igreja reformada com a iniciativa moral promanando
do centro. A falta de material administrativo e de apoio local fez com que boa
parte do efeito fosse mais forte na teoria do que na prtica, mas o Conclio
assinalou um ponto alto no prestgio papal durante a Idade
Mdia.                                                HRL

 A. Luchaire, Innocent III (1904-08); L. Elliot-Binns, Innocent III (1931); H.
Tillmann, Pope Innocent III (1980)

Inquisio A fundao da Inquisio papal pode ser diretamente atribuda ao
papa Gregrio IX que, em sua bula Excommunicamus, estipulou
procedimentos pelos quais inquisidores profissionais seriam enviados para
localizar hereges e persuadi-los a se retratarem. A bula foi publicada em 1231
e nos anos seguintes a tarefa de interrogar aqueles acusados de heresia foi
confiada s Ordens Mendicantes, sobretudo aos dominicanos.
      As aes de Gregrio IX ocorreram ao final de um longo perodo de
lutas contra a heresia por parte da Igreja institucionalizada. Vrios decretos
papais e conciliares (1139, 1179, 1184 e 1199) tentaram regulamentar a
deteco de heresia e impedir seu crescimento atravs da instituio de
inquisies episcopais. O papa Lcio III, em 1184, obteve a ajuda do
imperador Frederico Barba-Ruiva para instalar inquisies episcopais
regulares, e convm lembrar que a alternativa era, com freqncia, a gritante
selvageria da violncia popular e do linchamento. A situao na Europa
ocidental era ainda mais complicada pela popularidade dos valdenses e
ctaros no sul da Frana e a resultante Cruzada contra os albigenses. O papa
Inocncio III esteve especialmente empenhado em combater a heresia pela
persuaso e a pregao, e  um dos paradoxos de seu excepcionalmente rico
e complexo pontificado que algumas das piores atrocidades do movimento
contra os albigenses tenham ocorrido em seu tempo.
      Gregrio IX tentou introduzir um certo grau de racionalidade legal nos
procedimentos inquisitoriais: seriam instalados tribunais presididos por dois
juizes locais nomeados pelo papa; os processos exigiam o depoimento de
duas testemunhas que permaneciam no anonimato e no podiam ser
diretamente impugnadas; o suspeito fazia seu depoimento sob juramento. Em
1252, Inocncio IV permitiu o uso de tortura para obter uma confisso. Se a
confisso era feita, o indivduo podia ab-jurar e recebia uma penitncia
cannica; se ele se mantivesse relapso, era entregue ao poder secular que
habitualmente executava os hereges na fogueira.
      Era por demais evidente a possibilidade de abusos. Com o declnio dos
ctaros, sua influncia diminuiu, mas seu poder arbitrrio e flexibilidade judicial
encorajaram o uso da Inquisio contra todo e qualquer grupo hostil aos
interesses do Papado, e sua reputao sofreu em conseqncia, por exemplo,
das srdidas aes empreendidas contra os Cavaleiros Templrios na Frana,
no incio do sculo XIV, e contra os franciscanos espirituais. Mostrou-se
impotente contra os posteriores movimentos reformistas dos sculos XIV e
XV, mas foi reativada na Espanha por Fernando e Isabel, os Reis Catlicos,
que usaram a Inquisio mais ou menos como um brao centralizado do
Estado. [Em Portugal, o Tribunal da Inquisio s comearia a funcionar em
1540, no reinado de Joo III, o Piedoso, visando principalmente a comunidade
de cristos-novos. NT] Ver Bernardo Gui; Cisneros, Francisco Ximenes de;
Conrado de Marburgo; Robert le Bougre
 H.C. Lea, History of the Inquisition in the Middle Ages (1888); B. Hamilton,
The Medieval Inquisition (1981)

Investiduras, Questo das Designao adotada para a grande crise que
assolou as relaes entre o Imprio e o Papado, e, na verdade, entre a Igreja
e o Estado de um modo geral, no perodo que vai de 1075 a 1122 na Europa
ocidental. Assinalou o fim do perodo do chamado "compromisso carolngio",
quando a Igreja estava subordinada aos reis e quando estes, sobretudo os
imperadores, reivindicavam poderes teocrticos. Marcou tambm o incio do
perodo em que o poder potencial do Papado medieval se concretizou no s
no campo espiritual mas tambm no secular e poltico; um perodo de
"monarquia papal", como por vezes  chamado.
      A investidura -- o ato fsico de investir um clrigo com as insgnias de
seu cargo -- era apenas mais um dos smbolos exteriores da luta. Questes
mais profundas diziam respeito  natureza da Igreja: a posio especial do
papa como sucessor de So Pedro; receios em torno da crescente
secularizao da Igreja e matrias especficas no tocante  liberdade de
eleio para bispados e abadias; a rejeio da simonia; a defesa do celibato
do clero; e a liberdade da Igreja para insistir em seu prprio modelo de
reforma moral. Entretanto, foi a questo de um decreto papal (1075) proibindo
a investidura laica que ajudou a deflagrar a luta e -- aps os dramticos
traumas de humilhao imperial em Canossa, recuperao imperial e a morte
de Gregrio VII no exlio (1085), e a assero de liderana de Urbano II na
Cristandade ao pregar a I Cruzada (1095) -- foi precisamente a Questo das
Investiduras que provou ser capaz de uma soluo de compromisso.
     A luta no estava limitada ao Imprio, e em 1106 e 1107 foram
conseguidos acordos, por concesses mtuas, na Frana e na Inglaterra,
pelos quais a hierarquia eclesistica ficava no controle dos processos de
investidura, ao mesmo tempo que se salvaguardava o interesse real na
nomeao de bispos, que eram tambm grandes senhores feudais,
administradores e servidores reais. A posio alem e imperial mostrou-se
mais problemtica. Num dado momento, em 1111, o papa Pascoal II
ofereceu-se para renunciar  posse de grandes feudos em troca da liberdade
de eleger e investir, uma soluo to profundamente perturbadora e
inaceitvel para os bispos quanto para os poderes seculares. Chegou-se
finalmente a um ajuste na Alemanha e no Sacro Imprio pela Concordata de
Worms, em 1122. O imperador renunciou ao uso do bculo e do anel ao
proceder  investidura de um eclesistico, mas recebeu preito de vassalagem,
na Alemanha, dos bispos eleitos por suas temporalidades, antes de serem
sagrados. A hierarquia eclesistica tinha afirmado seu direito de manter o
controle simblico e espiritual, mas os governantes seculares ainda exerciam
um extenso poder prtico sobre as nomeaes e controle das temporalidades.
Ver Dictatus Papae; Matilde; Tribur, Dieta de       HRL

 Z.N. Brooke, "Lay investiture and its relation to the Conflict of empire and
papacy", Proceedings of the British Academy, 25 (1939); G. Tellenbach,
Church, State and Christian Society at the time of the Investiture Contest
(1940); C.N.L. Brooke, The Investiture Disputes (1969); The Investiture
Controversy, org. por K.F. Morrison (1971); LS. Robinson, Authority and
Resistance in the Investiture Contest (1978)

Iolanda de Brienne (c. 1212-28) Batizada como Isabella mas conhecida mais
usualmente como Iolanda, ela foi herdeira do reino de Jerusalm atravs de
sua me, Maria (m. 1212). Seu pai, Joo de Brienne, governou como regente
durante a menoridade dela. Em agosto de 1225, casou-se por procurao
com o imperador Frederico II, unio promovida pelo papa Honrio III, que
assim esperava incentivar o imperador a promover rapidamente uma Cruzada
 Terra Santa. Depois de ter sido coroada rainha de Jerusalm, Iolanda viajou
para Brindisi. A foram celebrados solenemente os esponsais, uma cerimnia
que foi interpretada como a ratificao do compromisso de Frederico com a
Cruzada. Ele imediatamente exonerou Joo de Brienne e assumiu os direitos e
o ttulo de rei-consorte. Em abril de 1228, Iolanda deu  luz um filho, Conrado.
Ela morreu alguns dias depois, deixando seu beb como rei de Jerusalm.
Nem ele nem seu filho Conradino jamais visitaram a Terra Santa para serem
coroados; e com a morte de Conradino em 1268 a linha de Iolanda extinguiu-
se.
 [S. Runciman, Historia de las Cruzadas, Madri, Alianza, 1973, vol. 3]

Iona A ilha do arquiplago das Hbridas que se tornou o ponto focal do
Cristianismo celta e um importante centro de estudos depois que So
Columba a fundou um mosteiro em 563. Muitas misses foram enviadas de
Iona  Gr-Bretanha, sendo as mais famosas a misso de Columba ao rei
picto Brude em 574 e a misso de Aidan ao rei Osvaldo da Nortmbria em
635. Apesar das freqentes incurses vikings contra Iona, as relquias de
Columba atraram muitos peregrinos  ilha, at que foram levadas para
Dunkeld no sculo IX e muitos reis escoceses a foram sepultados. O bispado
das Hbridas ocidentais, instalado em Iona em 838, foi unido ao de Sodor em
1098. O mosteiro tornou-se uma casa beneditina por volta de 1203.
 D.A. Bullough, "Columba, Adomnan and the Achievement of Iona", Scottish
Historical Review, 43-44 (1964-65)

Irene imperatriz e governante bizantina 797-802 (n. c. 752) Irene foi a primeira
mulher a exercer o poder imperial por suas prprias prerrogativas, aps a
destituio de seu filho Constantino VI. Mulher poderosa e resoluta, ela atuou
como regente e co-imperador para seu filho desde a morte do marido, Leo
IV (775-80), e at muito depois de Constantino VI ter atingido a maioridade.
Descontente com a recusa de Irene em renunciar ao poder, Constantino aliou-
se  posio iconoclasta, a qual combatia a poltica imperial de venerao de
cones. Em 790, quando Constantino VI completava 20 anos, Irene foi forada
a deixar o trono mas o governo fraco e ineficiente do filho levou-a de novo a
compartilhar do poder com ele em 792. Cada vez mais irritada com a
incompetncia do filho, Irene resolveu em 797 tomar o problema em suas
mos, quando mandou cegar Constantino a fim de torn-lo incapaz de
governar. A posio de Irene era novidade na organizao poltica bizantina, o
que se refletiu no fato dela ter se atribudo o ttulo de basileus (imperador),
em vez de basilissa (imperatriz). Seu reinado manteve-se at que uma
revoluo palaciana a deps e exilou.
 S. Runciaman, `The Empress Irene the Athemian", Studies in Church
History, Subsidia I (1978)

Irlanda A histria da Irlanda nos primrdios da Idade Mdia constitui um caso
nico, no s porque havia um grande nmero de reis (talvez uma centena
deles) exercendo seu senhorio sobre pequenas unidades populacionais e seus
territrios (chamados tuaths), mas tambm porque havia muitos graus de
realeza, com regras e costumes elaborados a respeito da sucesso.
       No sculo VIII, quatro provncias tinham surgido, definidas efetivamente
pelas tentativas das principais famlias em exercer uma suserania consistente
e dominante sobre as demais. Eram elas: os U Cheinnselaig no sudeste
(Leinster), at serem substitudos pelos U Dnlainge a partir de cerca de 738;
os Egannachta no sudoeste (Munster), especialmente o ramo Cashel da
famlia; os U Briin no noroeste (Connaught) desde meados do sculo VIII; e
os U Nill (O'Neill) no nordeste (Ulster) desde o comeo do sculo VII. Os
O'Neill desenvolveram um padro de realeza alternante entre os ramos
setentrional e meridional da famlia, associada  realeza de Tara, um foco
simblico similar ao da Rock of Cashel dos Egannachta no sul. O conflito
entre os super-reis tornou-se comum, se bem que, nessa altura, a
subestrutura de reis secundrios e tuath permanecesse substancialmente
intata.
      A partir de 795, um novo elemento foi introduzido na poltica irlandesa
pelos vikings, que assolaram e devastaram (s vezes gravemente) e depois
acabaram instalando bases permanentes, a primeira delas em Dublin, em 841.
A chegada dos vikings no significou uma total mudana na poltica irlandesa,
uma vez que sua tendncia era se ajustarem aos padres existentes, aliando-
se aos principais reis e sendo por estes usados como mercenrios. A
competio pelo status de suserano continuou, sendo os U Nill os mais bem-
sucedidos em suas tentativas de ampliao de seu poder alm de suas
prprias fronteiras; a partir de meados do sculo X, eles assumiram ttulos
que sugerem o predomnio sobre a totalidade da ilha. Entretanto, suas
pretenses foram abaladas pela penetrao na direo leste dos U Briin,
embora estes fossem, por sua vez, ultrapassados por uma nova famlia, os
Dl Cais de Munster, que tomaram Cashel em 964. A partir de 976, o mais
famoso membro da famlia, Brian Borumha, desenvolveu uma srie de
operaes militares at conseguir a submisso do sul e da regio central em
1002 e do resto do norte em 1005-11. O xito de Brian foi efmero; uma
revolta em Leinster, em 1012, culminou com sua morte em Clontarf, dois anos
depois. Contudo, o fato de que todos os principais reis se lhe submeteram,
assinala uma importante mudana na poltica irlandesa, a qual da em diante
passou a estar cada vez mais intimamente vinculada  prspera cidade de
Dublin.
      A mudana tambm se evidenciou quando o poder foi territorializado: os
reis secundrios perderam sua independncia e as dimenses das unidades
fundamentais da realeza aumentaram substancialmente. Nos sculos XI e XII,
uma srie de reis no aparentados, de diferentes famlias, estabeleceram
uma vasta hegemonia. Assim como os reis anteriores tinham usado a
capacidade militar viking para seus prprios fins, tambm os super-reis rivais
buscaram ajuda no exterior e, num lance decisivo em 1167, um governante
Leinster recorreu a Henrique II da Inglaterra. Henrique talvez j tivesse
recebido o reconhecimento de sua suserania sobre a Irlanda pelo papa ingls
Adriano IV em 1156, e sua resposta foi rpida e devastadora. Com a intruso
no quadro poltico de uma aristocracia anglo-normanda, o fim da velha ordem
estava selado. Richard de Clare (Strongbow), conde de Pembroke, comandou
uma fora armada que desembarcou na Irlanda. Dublin caiu em 1170 e, em
1171, o prprio Henrique II realizou a travessia para Weterford e efetuou o
que se pode chamar um triunfal avano de uma ponta a outra da ilha.
     A conquista normanda da Irlanda foi muito diferente da conquista da
Inglaterra. Nunca foi completa e, embora em 1300 a maior parte da ilha
estivesse nominalmente sob o controle do monarca ingls ou de seus
representantes em Dublin, na realidade a situao era extremamente
complexa, um emaranhado de senhorios com a sobrevivncia de chefes tribais
gulicos governando suas comunidades de acordo com as antigas leis e
costumes do mundo cltico. Alguns beneficiaram-se consideravelmente com a
nova ordem feudal e foram criados grandes feudos, com destaque para os
Fttz-Gerald, os Lacy e os Butler. Floresceram cidades; alguns dos anglo-
normandos recm-chegados foram assimilados pela cultura gulica, tornando-
se mais irlandeses que os prprios irlandeses.
      O interesse da monarquia inglesa era constante, mas seu envolvimento
foi espordico. Ricardo II, no final do sculo XIV, e os yorkistas no sculo XV,
tentaram impor a paz e a unidade mas seus xitos foram efmeros. Os
esforos no sentido da proscrio do uso da lngua, leis e costumes
irlandeses, como os consubstanciados nos Estatutos de Kilkenny, em 1366,
fracassaram. No final da Idade Mdia registrou-se um ressurgimento gulico
fora das regies diretamente controladas por Dublin e outras
cidades.                                  WD  J.C. Becket, A Short History of
Ireland (1966); The Course of Irish History, org. por T.W. Moody e F.X.
Martin (1967); D.O. Corrin, Ireland before the Normans (1972); K. Hughes,
Early Christian Ireland: an Introduction to the Sources (1972)

Irmandade da Vida Comum Sociedade religiosa fundada por Gerhard Groote
(1340-84) e que se estabeleceu inicialmente em Deventer, na Holanda.
Embora os irmos vivessem uma vida comum dedicada a Deus, no tinham
Regra nem faziam votos. Como tal liberdade religiosa era vista com
desconfiana e hostilidade pelo clero, os seguidores de Groote tambm
fundaram mais tarde casas de cnegos agostinianos, comeando com o
priorado de Windesheim em 1387, onde os irmos viviam de acordo com uma
Regra de pregao e pobreza. Embora fundassem ocasionalmente escolas,
como em Utrecht e Lige, a Irmandade estava sobretudo empenhada no
trabalho pastoral e na cpia de manuscritos para venda. A Ordem no era
particularmente popular, entretanto, e nunca se expandiu fora da Holanda e da
rea setentrional da Alemanha em torno de Colnia. O forte elemento mstico
atraiu alguns dos melhores espritos da poca, como Toms de Kempis e
Nicolau de Cusa, que sustentaram com xito a ortodoxia da posio por eles
assumida no Conclio de Constana, apesar de forte oposio. Por vezes
conhecida como a Irmandade da Devoo Moderna, eles sobreviveram como
limitado mas efetivo grupo at o sculo XVI.
 A. Hyma, The Christian Renaissance: A History of the Devotio Moderna
(1965)

Irmandade do Livre Esprito Seita de pensadores msticos que surgiu na
Subia, Rennia e Holanda no sculo XIII. Suas crenas eram, pelo menos em
parte, o resultado de uma tentativa de conciliao das obras de Aristteles
com a teologia crist, o que os levou a sublinhar a superioridade da vontade
humana sobre tudo o mais e a viver de acordo com o que designavam por
"livre esprito" de devoo. Seus membros foram continuamente perseguidos
pela Inquisio mas a Irmandade continuou existindo at o sculo XVI.
 R.E. Lerner, The Heresy of the Free Spirit (1972)

Irnerius (m. c. 1130) Possivelmente alemo de nascimento (Guarnerius), foi
um dos fundadores e um dos maiores professores da poderosa escola de
direito de Bolonha no final do sculo XI, Irnerius deu contribuies
permanentes para o mtodo pelo qual o recm-introduzido direito romano de
Justiniano foi ensinado no Ocidente. Sua obra ainda existente consiste
essencialmente em glosas de textos escritos como base para a exposio
oral nas aulas. O pouco que se sabe de sua carreira indica ter sido Irnerius
um servidor de Matilde da Toscana, a grande defensora do Papado, e depois
de Henrique V e Lotrio, mas sua enorme reputao, que persistiu durante
todo o sculo XII, foi como o virtual pai do renascimento do direito e da
Universidade de Bolonha.
 H. Kantorowicz, Studies in the Glossators of the Roman Law (1969)

Isaac I Comneno imperador bizantino 1057-59 (n. c. 1005-m. 1061)
Representante da aristocracia militar da sia Menor, Isaac, tio de Aleixo I
Comneno, usurpou o trono aps a abdicao forada do velho Miguel VI,
chefe do partido civil de Constantinopla. Isaac foi ajudado pela Igreja
Constantinopolitana e, em particular, pelo patriarca Miguel Cerulrio, que era
quem mantinha o equilbrio de poderes entre as faces civil e militar na
capital. Mas Isaac no tardou em indispor-se com Cerulrio ao confiscar
propriedades da Igreja, medida tomada com o objetivo de financiar o
fortalecimento das defesas do Imprio, negligenciadas pelos imperadores
anteriores, que tinham representado os interesses da aristocracia civil. Depois
de exilar o patriarca como perigoso adversrio poltico, Isaac deu-se conta de
que crescia a onda de sentimentos populares contra ele. Isso, conjugado com
a inimizade de uma poderosa aristocracia civil, precipitou sua abdicao em
1059. A presso dos eventos externos ainda no impunha a escolha de um
imperador militar.
 M. Angold, The Byzantine Empire (1984)

Isabel de Frana (m. 1357) Esposa de Eduardo II da Inglaterra e filha de
Filipe IV da Frana. Em conluio com seu amante Roger, conde de March,
Isabel organizou a revolta que destronou seu marido em 1327. Em 1330, o
novo rei, seu filho Eduardo III, estava suficientemente forte para tomar o
poder em suas mos. Roger foi executado e Isabel confinada s terras de seu
dote. A ferocidade dela tornou-se lendria, como  indicado por seu apelido,
"a loba da Frana".
Isuria, dinastia Aguerrida dinastia que governou o Imprio Bizantino em 717-
802 e cuja fora se baseava na capacidade militar do planalto anatlio. O
fundador da dinastia em sua dimenso imperial foi o imperador Leo III,
responsvel pela eficaz defesa de Constantinopla contra os muulmanos. Os
isurios estavam geralmente associados ao movimento puritano iconoclasta
do sculo VIII.

Isidoro, Santo (c. 560-636) Bispo de Sevilha. Pertencia a uma devota famlia
catlica de origem bizantina ou hispano-romana, a qual, ao que se supe, ter-
se-ia mudado de Cartagena, no sudeste da Espanha, para Sevilha em
meados do sculo VI. Como bispo de Sevilha, o irmo de Isidoro, Leandro, foi
o instrumento decisivo para conseguir a renncia oficial ao Arianismo dentro
do reino visigodo, proclamada no Terceiro Conclio de Toledo (580). Isidoro
sucedeu a Leandro como bispo por volta de 600 e, durante o seu bispado,
Sevilha desfrutou de preeminncia como centro intelectual, tendo o mais
destacado erudito espanhol da poca como bispo.
      Durante todo o seu reinado, o rei visigodo Sisebuto (612-21) foi
assessorado por Isidoro em assuntos eclesisticos e intelectuais, e de modo
pouco comum, revelou propenso pela aquisio de saber. Isidoro dedicou ao
rei um tratado sobre os fenmenos naturais, Da Natureza das Coisas, e foi
por ele encarregado de compor as Etimologias, completadas no incio da
dcada de 630. Nesse compndio, englobando assuntos como artes liberais,
medicina, direito e a Bblia, Isidoro utilizou, com engenho e perspiccia, um
sistema de conhecimento no qual o significado essencial de um objeto ou
fenmeno  revelado pela suposta origem da palavra usada em relao ao
mesmo. A obra foi extremamente influente durante toda a Idade Mdia.
     Isidoro tambm contribuiu para a vitalidade da Igreja espanhola no
sculo VII. Enfatizou a necessidade de um clero educado e criticou o recurso
 brutalidade para se obter a converso da populao judaica da Espanha.
Presidiu ao Segundo Conclio de Sevilha (619), no qual muitas questes
teolgicas foram examinadas, e ao Quarto Conclio de Toledo (633), o qual
insistiu sobre a uniformidade na liturgia e promulgou a excomunho por
rebelio contra o rei.
     Os escritos de Isidoro revelam o seu desejo de ver a Espanha prosperar
sob o domnio visigtico e sua hostilidade em relao aos francos. Suas obras
foram renomadas entre os homens de saber irlandeses desde meados do
sculo VII e influentes durante o renascimento intelectual da Igreja franca no
sculo IX. Isidoro escreveu uma Crnica (c. 615) e uma Histria dos Godos,
Vndalos e Suevos (c. 625), o nico registro existente da histria visigtica no
perodo de 589-625/6. Suas outras obras incluem: Das Diferenas e do
Significado de Palavras; Lamentaes de uma Alma Pecadora; Dos Homens
Famosos e Da F Crist, conta os Judeus. Tambm sobrevivem algumas
cartas autnticas, ao lado de muitas falsas.
JF
 J. Fontaine, Isidore de Sville et la Culture classique dans l'Espagne
wisigothique (1959); [R. Collins, Esparta en la Alta Edad Media, Barcelona,
Critica, 1986; San Isidoro de Sevilha, Etimologias, org. por Oroz Reta, 2 vols.,
Madri, BAC, 1982-1983]

Isidorus Mercator Letrado franco de meados do sculo IX, responsvel por
uma coleo de decretais papais (os Decretais Forjados ou Pseudo-Isidoro)
que atribuam grande nfase  supremacia absoluta da sede papal. A coleo
consistia num misto de decretais autnticas e forjadas, engenhosamente
combinadas e atribudas aos enunciados isidorianos sobre direito Cannico
que se originaram na Espanha.
 E. Davenport, The False Decretais (1916)

Isl A mais nova das grandes religies mundiais, dependente dos
ensinamentos de Maom, tal como foram formulados no Alcoro. O
significado da palavra  "rendio", e um muulmano  aquele que se rendeu 
vontade de Deus, conforme foi revelada por seu verdadeiro profeta.
       Em essncia, os ensinamentos islmicos so o produto da experincia
religiosa do Oriente Prximo e os historiadores da religio tendem a tratar o
Judasmo, o Cristianismo e o Islamismo no como fs separadas, mas como
trs ramos da mesma f. O Isl estava por certo to profundamente
enraizado quanto o Judasmo ou o Cristianismo em seu senso de histria e
preocupao com a cronologia -- a concretizao dos desgnios de Deus no
tempo. O Isl  rigidamente monotesta, reconhecendo a validade do Antigo
Testamento, dos profetas e de Jesus Cristo; o prprio Abrao  considerado
no Alcoro como o fundador do santurio de Meca, com sua sagrada Pedra
Negra (a Kaaba), e  respeitado como o destruidor de dolos.
      O principal ponto de divergncia reside em que o Isl cr ser Maom o
mais recente e mais perfeito dos profetas, a quem Deus ordenou que
revelasse a Sua verdade e Seus desgnios para o mundo nos escritos do
Alcoro.  medida que a f amadureceu, os mestres islmicos estavam
preparados para reconhecer a fora do ministrio de Cristo (e para aceitar
at o nascimento pela Virgem), mas no a noo do Cristo como Deus
encarnado. Rejeitaram o conceito da Trindade como uma aberrao que
desviava os homens de um estrito caminho monotesta.
      A nova f propagou-se com extraordinria rapidez. Maom pregou seu
credo monotesta em Meca, na dcada de 610, com um xito apenas
moderado. Em 622 -- data a partir da qual os muulmanos calculam sua nova
era -- d-se a sua fuga (a hijra ou hgira) com seus seguidores para Medina,
um povoado com substancial presena judia. Foi a que o movimento adquiriu
impulso. O estreito envolvimento do prprio Maom na poltica, organizao
social e guerra assegurou um forte elemento scio-poltico na nova f, desde
os seus primeiros dias. Uma forte tendncia militar impregnou o Isl, orientada
contra as tribos politestas e adoradoras de dolos; e o conceito de jihad, na
acepo de uma guerra tanto legal quanto santa, pode ter tido sua origem na
dcada de 620.
     Embora os seguidores de Maom no fossem uniformemente bem-
sucedidos nessas atividades militares, um momento culminante e decisivo
ocorreu com o seu triunfal regresso a Meca (629-30). No ano de sua morte
(632), toda a pennsula arbica se encontrava num estado indito de unidade
poltica. Mortferas guerras tribais tinham sido a maldio da pennsula mas,
ao unir os novos crentes numa f universal, Maom transcendeu os vnculos
tribais locais; o uso do rabe como a lngua sagrada dominante ajudou ainda
mais a manter os muulmanos unidos, apesar de suas tradies imensamente
dspares.
      Atravs dessa unidade recm-forjada, uma imensa reserva de energia
militar latente foi liberada. Os sucessores de Maom, os califas,
aproveitaram-se disso ao mximo, soltando a nova fora contra os imprios
decadentes de Bizncio e da Prsia. Numa curta gerao (632-56), os
muulmanos obtiveram o controle do Oriente Prximo, Jerusalm, Damasco e
Sria, Mesopotmia e o Imprio Persa, Alexandria e o Egito. Ampliaram sua
autoridade ainda mais com o califado omada baseado em Damasco (660-
750). Em 720, o muezzin estava convocando os fiis para a orao desde os
contrafortes das montanhas do norte da Espanha at o vale do Indo. Toda a
metade meridional do "Crescente frtil" estava em mos muulmanas. Com os
abssidas (750-1258), o centro do poder deslocou-se de Damasco para
Bagd, mais a leste, e a universalidade do Isl foi confirmada por uma
preponderncia extra-rabe.
      As atitudes muulmanas em relao aos no-crentes variaram, mas a
tendncia mais freqente era para a tolerncia, desde que os impostos
fossem pagos e as escrituras respeitadas. Podiam ser ferozes, contudo,
contra o culto de dolos e a rejeio da unidade da Divindade. A unidade
poltica era freqentemente ilusria; uma dinastia Omada persistiu na
Espanha at o sculo XI, enquanto que outras dinastias brotavam por todo o
disperso complexo muulmano: fatmidas no Egito (909-1171); turcos
seljcidas na Sria e Anatlia (1077-1307); almorvidas (1036-1147) e
almadas (1130-1269) no Magrebe e na Espanha. A intruso dos mongis no
sculo XIII levou  queda do califado abssida, quando o Ir, o Iraque e a
Sria ficaram em poder dos invasores. A perturbao poltica provocada pela
criao do reino cruzado (1100-1292) foi ainda agravada por poderosos
movimentos turcos; o perodo final da Idade Mdia viu o surgimento dos
turcos otomanos como potncia muulmana dominante. Entretanto, durante
todo esse perodo, o Isl desenvolveu-se e floresceu em considervel
integridade.
      Para o mundo europeu ocidental, o Isl era, de tempos em tempos, a
"grande ameaa", "a religio vinda de fora" -- claramente no-pag e mais do
que uma simples heresia. Conflitos na Espanha, Siclia e nas Cruzadas
avivaram essa percepo e, com freqncia, os temores. Mas tambm houve
tempos de contato mais pacfico, sobretudo no sculo XII e entre os letrados
judeus na Espanha. A Europa ocidental deve muito em conhecimentos
matemticos, mdicos e filosficos s fontes rabes, onde a herana da
cultura grega tinha sido muito melhor preservada por humanistas muulmanos.
       O Isl foi adotado por povos de diversas tradies: latinos, gregos,
persas e, em sua mais vasta extenso, asiticos centrais, indianos e chineses.
Portanto, surgiram naturalmente variaes nas formas de culto, embora o
ncleo central se mantivesse firme e inabalvel: monotesmo, dependncia do
Alcoro e obedincia aos ensinamentos legados por Maom (hadith). Espera-
se que todos os muulmanos orem cinco vezes por dia na direo de Meca
(inicialmente Jerusalm); jejuem durante o sagrado ms lunar de Ramad;
dem esmolas; observem o dia de culto e de repouso nas sextas-feiras; e
realizem pelo menos uma vez na vida uma peregrinao a Meca (a hajj) e
outros lugares santos associados  vida do profeta.
    A principal diviso no Isl, entre os sunitas e os xiitas, ainda hoje  causa
de perturbao no mundo muulmano. Os sunitas so os que respeitam a
tradio (suna) transmitida atravs dos califas ortodoxos, enquanto que os
xiitas se reportam  figura de Ali, genro do profeta (600-61). Os xiitas
(homens do Partido) opunham-se  tendncia dos telogos e legisladores
oficiais para se apoiarem exclusivamente numa interpretao do Alcoro.
Alguns voltaram-se para um novo ou oculto lder, um Mahdi, e forneceram a
base para movimentos revolucionrios ao longo de toda a histria islmica. De
modo geral, favoreceram a liderana carismtica transmitida atravs dos
ims, descendentes de Ali e Ftima. Os ismaelitas e os fatmidas tornaram-se
as mais importantes seitas xiitas, e os assassinos (sculo XII) a mais notria.
Uma forte corrente mstica expressou-se atravs do sufismo, influente nas
cidades muulmanas dos sculos VIII e IX.
HRL
 The Cambridge History of Islam, org. por P.M. Holt, A.K.S. Lambton e B.
Lewis (1970); The World of Islam, org. por B. Lewis (1976); B. Lewis, The
Muslim Discovery of Europe (1982); D. Sourdel, Medieval Islam (1983); O.
Leaman, An Introduction to Medieval Islamic Philosophy (1985) [A. Miquel, O
Islame e a sua civilizao, Lisboa, Cosmos, 1971; E. Dermenghem, Maom e
a tradio islamtica, Rio, Agir, 1973; A. Mazahri, A vida quotidiana dos
muulmanos na Idade Mdia, Lisboa, Livros do Brasil, s/d; R. Mantran,
Expanso muulmana (sculos VII-XI), S. Paulo, Pioneira, 1977]

Islndia Embora conhecida de eremitas e monges celtas, a Islndia s foi
permanentemente povoada no perodo de 860-930 quando, como parte da
expanso viking, escandinavos, em sua maioria noruegueses, instalaram
granjas naquelas reas da Islndia capazes de atividades agrcola e pastoril.
Foram convertidos ao Cristianismo por volta de 1000, embora persistissem
algumas prticas pags. O saber e a literatura floresceram nos sculos XII e
XIII, e uma das mais admirveis prosas em vernculo da Idade Mdia foi
produzida na Islndia pelos autores de sagas, como Snorri Sturluson (m.
1241), escrevendo em noruegus arcaico. Institucionalmente, a evoluo de
uma assemblia deliberativa formal, a Althing, nos sculos X e XI, fornece um
exemplo precoce de um desenvolvimento relativamente requintado, com traos
de liberdade e independncia. A partir do sculo XIII, entretanto, a Islndia
passou a estar cada vez mais na dependncia dos noruegueses e, depois, da
monarquia dano-norueguesa.
 F.G. Foote e D.M. Wilson, The Viking Achievement (1970)

Itlia Em meados do sculo IV, Roma tinha sido suplantada como capital
poltica do Imprio por Milo no Ocidente e Constantinopla no Oriente. Em
402, a capital ocidental tinha sido transferida de novo, em face da ofensiva
brbara, para uma posio mais defensvel em Ravena. Roma foi invadida
pelos visigodos (410) e os vndalos (455), e o norte da Itlia pelos hunos
(452), mas nenhum desses povos a se fixou. A deposio do ltimo
imperador latino no Ocidente, Rmulo Augstulo, em 476, por Odoacro, no
marcou qualquer mutao dramtica, porquanto o Imprio Ocidental, agora
constitudo apenas pela Itlia, tinha sido governado desde a dcada de 380,
intermitentemente, por chefes militares brbaros.
      A primeira invaso brbara importante e duradoura da pennsula foi a
dos ostrogodos (490-93), cujo rei Teodorico, o Grande, deps Odoacro e
instalou-se em Ravena. O reino ostrogodo foi finalmente eclipsado pela
reconquista bizantina da Itlia pelos generais Belisrio e Narss, a mando do
imperador Justiniano, aps prolongada guerra (535-55). Em 568, a Itlia foi
invadida pelos lombardos, que estabeleceram um reino no norte e ducados em
Spoleto e Benevento, mergulhando a maior parte da pennsula em nova srie
de guerras. Roma, ainda o centro espiritual da Cristandade, resistiu e estava
efetivamente sob domnio papal em fins do sculo VI. O exarcado bizantino de
Ravena caiu em 751.
      Atendendo a uma solicitao papal, Carlos Magno conquistou o reino
lombardo e o ducado de Spoleto (773-74), que por isso foram absorvidos pelo
reino franco. Em 800, sua coroao como imperador foi realizada pelo papa
em Roma. A Itlia setentrional e central foi efetivamente governada pelos
carolngios at a morte de Lus II (875) e, da em diante, por quase 90 anos,
por uma sucesso de governantes menos competentes, de origem franca.
Durante esse perodo, o continente foi assolado, a intervalos, por incurses
dos magiares (899-950) e sarracenos, instalados na Siclia desde 825. No
reinado de Baslio I, Bizncio expulsou os sarracenos da regio meridional da
pennsula, ficando o poder nessa regio dividido, em 900, entre bizantinos e
lombardos. Tendo anexado a Itlia ao reino germnico em ascenso, Oto I
garantiu sua coroao como imperador pelo papa (962); e o ttulo imperial foi
ostentado da em diante por sucessivos reis alemes, at meados do sculo
XIII. As relaes com o Papado, quase invariavelmente ms, foram
especialmente acrimoniosas durante a Questo das Investiduras (1076-1122).
     O sculo XI presenciou importantes desenvolvimentos polticos e
econmicos na pennsula. Quando a integridade do Estado se fragmentou
durante o sculo X, a autoridade passou a estar cada vez mais localizada, o
que se refletiu na disseminao de cidades fortificadas (castelli). Em fins do
sculo XI tinha incio a formao de comunas, com Pisa e Gnova entre as
primeiras. No sul, as conquistas normandas da dcada de 1070, desalojando
lombardos e bizantinos, puseram fim ao monoplio comercial de Bizncio no
Mediterrneo oriental, em proveito de Veneza. Com o incio das Cruzadas,
tambm floresceu o comrcio nas cidades martimas de Pisa e Gnova. O
crescimento da riqueza e da independncia citadinas foi rpido; em meados
do sculo XII, comunas tinham sido estabelecidas em todas as principais
cidades do norte e centro da Itlia. A tentativa de Frederico Barba-Ruiva de
recuperar a autoridade imperial nas cidades do norte provocou a
confederao retaliatria da Liga Lombarda (1167), mas a rivalidade
intercidades era a norma. Nas dcadas seguintes  morte de Frederico II
(1250), o poder nas comunas passou a estar cada vez mais concentrado nas
mos de autocratas urbanos (signori) num perodo de contnua prosperidade
econmica.
      A morte de Frederico, que cortou a conexo direta com a Alemanha,
marcou tambm o comeo do gradual declnio do efetivo controle imperial no
interior da pennsula, embora no o das intervenes externas; em 1266-68,
os angevinos suplantaram os Hohenstaufen como a principal dinastia
estrangeira na Itlia continental, competindo com os aragoneses, depois de
1282, pelo controle duradouro da Siclia e do reino de Npoles. O Papado,
cuja autoridade temporal na Itlia central tinha sido consideravelmente
ampliada com Inocncio III (1198-1216), tornou-se cada vez mais politizado, e
o final do sculo XIII assistiu  ascenso de poderosas famlias papais, como
os Colonna e os Gaetani, cujas maquinaes redundaram na transferncia da
residncia papal para Avignon (1309-77).
      Desde os comeos do sculo XIV, a arena poltica na Itlia foi dominada
por questes internas, especialmente nos Estados pontifcios, na Toscana e
no norte. A adeso aos partidos guelfo e gibelino, inicialmente de apoio ao
Papado e ao Imprio, respectivamente, passara a significar alinhamento
poltico dentro de cidades e entre cidades. A guerra entre estas tornou-se
particularmente intensa e de efeitos econmicos devastadores no comeo do
sculo XIV. A falncia das casas bancrias internacionais dos Peruzzi e dos
Bardi em Florena (na dcada de 1340) foi seguida pelas devastaes da
Peste Negra (1348), a qual eliminou em algumas reas talvez metade de uma
populao j debilitada pela crise econmica. Foi esse, porm, o perodo
germinal da Renascena. Durante os 150 anos seguintes, as cidades-Estados
conheceram fortunas vrias, usualmente sob governos oligrquicos ou
despticos. As guerras prosseguiram entre os estados mais poderosos,
sobretudo Veneza, Milo e Florena, at a Paz de Lodi (1454), e da em
diante com menos frequncia, at terem inicio as Guerras da Itlia em 1494.
Durante esse perodo, a pennsula testemunhou a interveno estrangeira
numa escala sem precedentes, instigada por Carlos VIII da
Frana.                                                               JF
 J.K. Hyde, Society and Politics in Medieval Italy 1000-1350 (1973); D.
Herlihy, The Social History of Italy and Western Europe 700-1500 (1978); L.
Martines, Power and Imagination; City-states in Renaissance Italy (1980) [D.
Waley, Las ciudades-repblica italianas, Madri, Guadarrama, 1969; P. Brezzi,
I comuni medioevali nella Storia d'Italia, Turim, ERI, 1970]

Iv III, o Grande (Vasilievich) (1440-1505) Sucedeu a seu pai Vasili II em
1462 como gro-prncipe de Moscou, e inaugurou um programa de expanso;
Yaroslav (1463) e Rostov (1474) foram anexados. Numa srie de campanhas
(1471, 1477, 1478), Novgorod foi subjugada e suas colnias absorvidas,
seguindo-se-lhes Tver em 1485. Mediante uma hbil diplomacia, utilizando as
divises internas da Horda de Kazan, Iv pde anular sua vassalagem nominal
ao c. Seus territrios foram moldados num bloco unificado ao reduzir a
autoridade e simultaneamente seqestrar as terras dos prncipes de
apangio; e, a partir dessa base mais forte, Iv iniciou uma guerra contra a
Polnia-Litunia, conseguindo vastos ganhos antes de se negociar em 1500
uma trgua temporria. Quando esta foi violada, mais territrios foram
capturados antes do estabelecimento final da paz em 1503. A nfase sobre
sua posio especial como defensor do Cristianismo ortodoxo grego habilitou-
o a consolidar sua autoridade, apesar de disputas dinsticas internas. Com
Constantinopla em mos muulmanas desde 1453, Moscou estava agora em
condies de se proclamar, justificadamente, a "terceira Roma".
 J.L. Fennell, Ivan the Great of Moscow (1961)

Ivo de Chartres, Santo (1040-1115) Bispo de Chartres desde 1090 e o mais
importante especialista em direito Cannico de seu tempo, Ivo fez sua
educao jurdica em Bec e Paris, e exerceu o cargo de prior em Beauvais.
Foi muito influenciado pela nova disposio sistemtica do direito de acordo
com temas e assuntos, caracterstica do mais avanado pensamento legal do
final do sculo XI. Sua coleo de decretais em 17 volumes converteu-se
numa obra clssica de referncia e no foi sequer completamente suplantada
pela competente obra de Graciano, que viria  luz em meados desse sculo.
Seu resumo do direito Cannico, Panormia, continuou sendo largamente
usado nos tribunais eclesisticos. No campo poltico, Ivo foi imensamente
influente, adotando uma postura gregoriana moderada e ajudando a encontrar
solues de compromisso para a Questo das Investiduras surgida na Frana
e na Inglaterra em 1106-07.
 R. Sprandel, Ivo von Chartres und seine Stellung in der Kirchengeschichte
(1962)

iugoslavos Sua ptria original situava-se alm das montanhas dos Crpatos.
Durante o perodo da migrao em massa, esses eslavos do sul (iugo
significa sul) deslocaram-se para uma regio em torno do Danbio Inferior.
Comearam incursionando na pennsula balcnica no reinado do imperador
Justiniano I (527-65), cujas tentativas para recuperar o territrio imperial
perdido enfraqueceram suas fronteiras nessa rea. No incio do sculo VII
iniciou-se o povoamento. As divises tribais foram exacerbadas pela
converso ao Cristianismo, pois os srvios e os macednios aceitaram a
ortodoxia bizantina, ao passo que os croatas e eslovenos receberam a f de
Roma. E muitos bosnianos acabaram adotando crenas herticas dos
bogomilos.
    Durante toda a Idade Mdia, os eslavos do sul enfrentaram a presso
de potncias estrangeiras. Por vezes, uma independncia efetiva foi
estabelecida por um ou outro Estado que desfrutou de um perodo de
sucesso, mas a unidade jamais foi realizada. A Crocia foi o primeiro Estado a
surgir, sendo Tomislav o primeiro governante balcnico a assumir o ttulo de
rei (925). Mais tarde, porm, os croatas aceitaram a unio com a Hungria
(1102). A Eslovnia sucumbiu ao controle germnico, exercido em ltima
instncia pelos Habsburgos. A Srvia e a Bsnia tiveram tambm seu perodo
de hegemonia, uma aps a outra, mas ambas acabaram caindo diante de uma
nova ameaa externa: os turcos otomanos. Embora partes da Dalmcia
sobrevivessem sob proteo veneziana, o comeo do sculo XVI encontrou a
maioria dos iugoslavos vivendo sob o jugo muulmano.
 V. Dedijer, History of Yugoslavia (1974)
                                      J
Jacopone da Todi (c. 1230-1306) Poeta franciscano. Com a morte de sua
esposa em 1268, Jacopone da Todi passou por uma converso religiosa. Dez
anos depois, tornou-se irmo franciscano leigo e, em 1294, ele e alguns
irmos receberam permisso do papa Celestino V para viver numa
comunidade separada de estrita observncia. Escreveu muitos poemas
populares (laudes) em latim e no dialeto mbrio, entre eles, provavelmente, o
Stabat Matei.
 L. Olschi, The Genius of Italy (1949); G.T. Peck, The Fool of God:
Jacopone da Todi (1980)

Jacqurie Nome dado s violentas exploses de revolta camponesa na
dcada de 1350 na Frana, resultantes das desarticulaes causadas pela
peste e pelos desastres militares e polticos na guerra com a Inglaterra. Os
motins atingiram um ponto de intensidade mxima nos anos que se seguiram 
derrota francesa em Poitiers (1356) e s devastaes que se seguiram,
causadas pelas Companhias Livres. Foram cometidas atrocidades nas fases
iniciais do levantamento, que resultaram, depois do fracasso em coordenar a
agitao camponesa com o movimento urbano em Paris, liderado por Etienne
Marcel, em atrocidades ainda piores quando a nobreza e a alta burguesia
recuperaram o controle da situao e esmagaram a rebelio com grande
ferocidade. A lembrana da selvageria manteve-se viva, e o temor de uma
repetio persistiu na histria agrria do final da Idade Mdia e primrdios da
era moderna na Frana.
 M. Mollat e P. Wolff, The Popular Revolutions of the Late Middle Ages
(1973) [G. Fourquin, Les soulvements populaires au Moyen Age, Paris,
PUF, 1972]

Jacques de Molai (m. 1314) Gro-Mestre da Ordem dos Templrios,
Jacques de Molai enfrentou a fria desenfreada do rei francs Filipe IV e de
seus conselheiros, que denunciaram a Ordem em 1307, imputando-lhe a
prtica de heresia, homossexualidade e uma multiplicidade de pecados,
incluindo bruxaria e culto ao demnio. Sob a ameaa de tortura, Molai
inicialmente confessou, mas depois, sob temporria proteo papal, retratou-
se. Aps uma longa, virulenta e particularmente ignbil luta diplomtica, a
Ordem foi abolida em 1312 mais por uma questo de convenincia do que de
convico. Molai permaneceu na priso mas, finalmente, numa dramtica
afirmao de sua inocncia, exps-se a que o acusassem de ser um herege
relapso e foi queimado vivo. Ver Cavaleiros do Templo

Jaime I, o Conquistador rei de Arago 1213-76 (n. 1208) Figura proeminente
na reconquista da Espanha aos muulmanos, Jaime ampliou a autoridade de
Arago em trs direes. Aproveitando-se da fraqueza da organizao
poltica moura aps a grande derrota de 1212 [a batalha de Navas de Tolosa
NT], e usando a habilidade naval e comercial dos catales, ele conquistou
Majorca e as ilhas Baleares (1229-35). Para o sul, tomou Valncia em 1238.
Pelo tratado com Lus IX de Frana, libertou a Catalunha da suserania
francesa (1258), renunciando, em troca, s suas pretenses de suserania no
Languedoc. Sob sua orientao, o poderoso reino aragons ganhou contornos
mais firmes, com seus vastos interesses polticos e comerciais em todo o
Mediterrneo. [105]
 F. Soldevilla, Life of James I the Conqueror (1968)

Jean (Quidort) de Paris (1225-1306) Talvez o mais poderoso e influente dos
discpulos imediatos de Toms de Aquino, Jean Quidort, professor na
Universidade de Paris, escreveu seu opsculo De Potestate Regia et Papali
nos primeiros anos do sculo XIV e no auge do conflito entre o papa Bonifcio
VIII e o rei francs. Seus argumentos, de orientao tomista, reconheceram
os direitos papais para tratar de questes morais, mas indicavam que um
conclio era superior a um papa. No campo secular, mostrou-se favorvel 
realeza eletiva, pelo que um monarca podia ser deposto pelo povo. Sua
separao dos poderes entre Igreja e Estado foi vista com suspeita em seu
tempo, mas viria a ter grande influncia nos sculos seguintes.
 J. Leclercq, Jean de Paris et 1'ecclsiologie du XIIe sicle (1942); On Royal
and Papal Power, trad. A.P. Moynahan (1974)

Jernimo de Praga (c. 1370-1416) Influenciado por Joo Huss, chegou a
Oxford em 1398 e estudou as obras teolgicas de Wycliffe. Depois de visitar
muitas outras universidades europias regressou a Praga em 1407 e
participou ativamente das controvrsias religiosas da poca. Quando Huss foi
declarado hertico pelo Conclio de Constana (1416) e condenado ao
martrio da fogueira, a recusa de Jernimo em repudi-lo e em renunciar aos
ensinamentos de Wycliffe fizeram-no ter o mesmo destino.
 J.M. Klassen, The Nobility and the Making of the Hussite Revolution (1978)

Jernimo, So (c. 341-420) Converteu-se ao Cristianismo em Roma, onde
tinha ido para estudar, um pouco antes de 366. Viajou pela Glia e depois
regressou  sua Dalmcia natal por volta de 370 para tornar-se um monge em
Aquilia. Novas viagens levaram-no  Palestina e depois  Sria, onde passou
cinco anos tomo eremita em Khalkis aprendendo hebraico, a lngua original da
Bblia. Visitou Constantinopla antes de regressar a Roma por trs anos,
perodo durante o qual se tornou conselheiro espiritual do grupo de mulheres
devotas de Santa Paula. Finalmente, em 386, optou por uma vida de estudo
monstico em Belm. Intelectual prolfico, Jernimo participou de numerosas
controvrsias teolgicas e foi uma figura destacada e pioneira nos estudos
bblicos de seu tempo; suas obras mais importantes so suas Cartas, seus
comentrios bblicos e sua verso latina da Bblia, conhecida como Vulgata.
[363]
 J. Steinmann, Saint Jerome and his Times (1959); J.N.D. Kelly, Jerome
(1975)

Jess, rvore de Um dos temas favoritos e mais impressionantes da
iconografia medieval, a rvore de Jess (pai do rei Davi) ilustrou a
descendncia de Jesus da linhagem real de Israel. Aparece em iluminuras e,
sobretudo, em vitrais na Europa ocidental desde meados do sculo XII em
diante. A soberba janela de Jess em Chartres  a mais famosa e provou ser
a mais influente de todo o grupo, sendo muito copiada no norte da Frana.
 G. Schiller, Iconography of Christian Art, vol. I (1971)

Joana d'Arc, Santa (1412-31) Uma jovem de famlia camponesa de
Domremy, na fronteira da Lorena, que desempenhou um grande papel como
instigadora do sentimento patritico francs contra ingleses e borgonheses,
assegurando assim o xito da Frana na Guerra dos Cem Anos. Mesmo
quando a lenda  separada dos fatos, a carreira de Joana conta uma histria
de obstinada bravura e devoo, combinada, por parte de muitos dos seus
amigos, assim como de seus inimigos, com uma triste histria de indolncia,
traio, crueldade e pura iniqidade. Na adolescncia, Joana afirmou receber
exortaes do Arcanjo Miguel, de Santa Margarida e Santa Catarina,
ordenando-lhe que reunisse os exrcitos franceses para salvar Orlans
sitiada. As histrias de suas dificuldades para persuadir primeiro os chefes
militares locais e depois os soldados e os telogos na corte real sobre sua
misso possuem traos de veracidade.
        Vestida como um cavaleiro, ela iniciou seus xitos militares com o
socorro a Orlans em 1429, e depois enfrentou com sucesso a tarefa mais
difcil, de levar o delfim a perceber a importncia de assegurar sua coroao.
Finalmente, Joana escoltou-o a Reims e permaneceu a seu lado durante sua
coroao como Carlos VII. No ano seguinte (1430), foi capturada pelos
borgonheses perto de Compigne e vendida aos ingleses, que a conduziram a
Rouen para ser julgada pelos crimes de heresia e feitiaria perante o tribunal
de Pierre Cauchon, bispo de Beauvais. As atas do julgamento sobrevivem na
ntegra e revelam a simplicidade e a nobreza de Joana, bem como a
determinao dos ingleses e seus cmplices franceses em consider-la
culpada a todo o custo. Ela foi condenada  fogueira em Rouen, a 30 de maio
de 1431, sob uma acusao tecnicamente perfeita, a de herege relapsa. Para
eterna vergonha de Carlos VII, ele nada fez de efetivo para salv-la. Em 1456,
uma comisso papal inverteu o veredito de seu julgamento e Joana foi
canonizada.
 M. Warner, Joan of Arc: the Image of Female Heroism (1981) [F. Gies,
Joana D'Arc. A lenda e a realidade, Rio, Zahar, 1982; J. Batista Neto e J.A.
Batista, Joana D'Arc, S. Paulo, Moderna, 1985]

Joo XXII papa 1316-34 (n. Jacques d'Euze em Cahors, 1249) De criao
francesa, foi eleito para o Papado como um candidato de compromisso, em
parte por causa de sua avanada idade, mas acabou reinando em Avignon por
18 anos. Provou ser um talentoso administrador, introduzindo um novo sistema
de finanas papais, reorganizando a cria, centralizando o patrocnio
eclesistico e criando muitas ss novas. Na disputa em torno da natureza da
pobreza, que dividiu a Ordem Franciscana nas faces espiritual e conventual,
Joo XXII condenou a extrema postura espiritual e aconselhou alguns de seus
adeptos a aliarem-se ao seu inimigo, o imperador Lus IV da Baviera. Joo
XXII excomungou Lus por heresia em 1324 e, quatro anos depois, tendo sido
coroado em Roma, Lus providenciou a eleio de um franciscano espiritual
como antipapa, Nicolau V. Joo, entretanto, prevaleceu sobre essas
adversidades e passou os ltimos anos de seu pontificado mergulhado numa
controvrsia teolgica sobre a natureza da Viso Beatfica.
 G. Mollat, The Popes at Avignon 1305-78 (1963)

Joo de Gaunt (1340-99) Terceiro filho de Eduardo III da Inglaterra, Joo de
Gaunt tornou-se duque de Lancaster em 1362 e foi o homem mais rico e
poderoso de todo o reino por longos perodos durante o reinado de seu
sobrinho Ricardo II (1377-99). Responsvel, em grande parte, pela supresso
da Revolta dos Camponeses de 1381, Joo de Gaunt tornou-se
profundamente impopular em certos setores, mas atuou de forma importante
como elemento estabilizador nas lutas institucionais que envolveram o rei, os
bares e o Parlamento. Tambm tinha interesses pessoais e dinsticos no
trono de Castela, o que absorveu muito de seu tempo e no que obteve
sucesso apenas limitado. As atitudes irrefletidas do rei Ricardo contra o
herdeiro de Joo, Henrique Bolingbroke (mais tarde Henrique IV), ajudaram a
precipitar a deposio de Ricardo e a sucesso lancastriana ao trono da
Inglaterra. [Em 1387, Joo de Gaunt deu sua filha Filipa de Lancaster em
casamento ao rei de Portugal, D. Joo I, fundador da dinastia de Avis. Esse
casamento, que selou a aliana formal "para sempre" entre Portugal e
Inglaterra, frutificou na "nclita Gerao", da qual fizeram parte, alm do
Infante D. Henrique, o Navegador, o prncipe D. Duarte, herdeiro do trono,
autor de algumas das mais importantes obras da literatura medieval
portuguesa, como O Leal Conselheiro, D. Fernando, o "Infante Santo", e D.
Pedro. NT]
 S. Armitage-Smith, John of Gaunt (1904); R. Somerville, History of the
Duchy of Lancaster, I (1953)

Joo de Jandun (1286-1328) Um dos principais filsofos da Universidade de
Paris,  lembrado como um professor do pensamento aristotlico, tanto no
campo da histria natural (para a qual deu algumas contribuies originais)
quanto no das idias polticas. Foi amigo e partidrio de Marslio de Pdua, e
defendeu a posio imperial na luta entre o Papado de Avignon e Lus da
Baviera.
 G. Leff, Paris and Oxford Universities in the Thirteenth and Fourteenth
Centuries (1968)

Joo de Parma (1204-84) Geral da Ordem Franciscana, nomeado em 1247
para o exerccio desse ministrio. Instituiu um enrgico programa de
renovao espiritual entre os franciscanos e viajou assiduamente a fim de
supervisar sua implementao. Tambm se interessou de maneira profunda
pelas tentativas de reunificao das Igrejas oriental e ocidental. Entretanto,
suas simpatias pela doutrina de Joaquim de Fiore tornaram-no vulnervel a
acusaes de heresia e viu-se forado a renunciar a seu cargo em 1251. Foi
absolvido das acusaes levantadas contra ele e autorizado a retirar-se para
o eremitrio de Greccio. Aps 32 anos de recolhimento, faleceu no caminho
para Camerino, quando se empenhava numa misso em prol da unidade da
Igreja.
 R. Brooke, Early Franciscan Government (1959)

Joo de Salisbury (c. 1115-80) Bispo de Chartres. Estudou em Paris e
Chartres durante 12 anos, depois passou breves perodos em servio clerical
em Celle, no Baixo Saxe, e na cria papal, antes de ingressar na comitiva de
Teobaldo, arcebispo de Canterbury, por volta de 1148, onde se especializou
em assuntos papais. Apoiou o sucessor de Teobaldo, Toms Becket, em sua
disputa com Henrique II, e por isso passou os anos 1163-1170 exilado em
Reims. Embora no fosse testemunha ocular do evento, Joo estava nas
dependncias da catedral de Canterbury quando Becket foi assassinado
(1170). Seis anos depois, era eleito bispo de Chartres com o patrocnio do
protetor de Becket, Lus VII, o Jovem, rei da Frana.
      Joo de Salisbury escreveu a Historia Pontificalis (c. 1163), uma realista
e viva descrio de seus anos em Roma, e divulgou uma coleo de
correspondncia de Becket aps a morte do santo. Deu uma notvel
contribuio, no campo filosfico, para o Renascimento do sculo XII, sendo a
primeira figura de destaque a escrever  luz da obra aristotlica sobre lgica.
Os mais famosos exemplos de sua erudio, ambos escritos em 1159, foram
Policraticus, uma anlise do Estado, e Metalogicon, uma defesa do estudo da
lgica e da metafsica. Suas cartas, por exemplo sua correspondncia com
Pedro de Celle, revelam-no um eminente defensor do humanismo do sculo
XII e um dos mais elegantes latinistas de seu tempo.
 H. Liebeschtz, Medieval Humanism in the Life and Writings of John of
Salisbury (1950); R. e M. Rouse, "John of Salisbury and the Doctrine of
Tyrannicide", Speculum, 42 (1967); The World of John Salisbury, org. por M.
Wilks (1984)

Joo Escoto Ergena (c. 810-77) O mais original dos pensadores que
viveram na corte de Carlos, o Calvo, na Francnia. Escoto Ergena inseriu em
sua filosofia um raro conhecimento do pensamento grego e neoplatnico. Sua
influente obra De Divisione Naturae tentou estabelecer uma sistemtica
diviso qudrupla de todas as coisas naturais, pela qual Deus aparecia em
todas as suas criaturas e, no entanto, a todas transcendia. Devia algo  obra
de So Dioniso, o Areopagita, embora muitos dos elementos msticos sejam
sua contribuio pessoal. Irlands de nascimento, parece ter regressado 
Gr-Bretanha no final da vida e algumas tradies associam-no ao
ressurgimento intelectual na corte do rei Alfredo.
 E.K. Rand, John the Scot (1906); The Mind of Eriugena, org. por J.J.
O'Meara e L. Bieler (1973)

Joo Nepomuceno, So (c. 1340-93) Natural de Nepomuk, na Bomia,
estudou em Pdua e Praga, e em 1390 tinha ascendido ao cargo de vigrio-
geral da diocese de Praga. Em 1393, Joo de Jensteyn, arcebispo de Praga,
ops-se s tentativas de Venceslau IV da Bomia de interferir em suas
prerrogativas. O envolvimento de Joo Nepomuceno na resistncia do
arcebispo levou  sua priso e tortura, aps o que foi afogado no rio Moldau.
A tradio segundo a qual Joo morreu em conseqncia de sua recusa em
revelar declaraes feitas por Joana, esposa de Vencesleau, em segredo de
confessionrio, pode ser atribuda ao cronista do sculo XV, Toms de
Ebendorffer, que pode ter confundido Joo com uma outra das vtimas do rei.

Joo Sem Terra rei da Inglaterra 1199-1216 (n. 1167) Sucedeu ao trono
ingls e  posse dos vastos domnios angevinos da Frana com a morte de
seu irmo, Ricardo I Corao de Leo. A herana no foi das mais fceis; o
malogro em cumprir obrigaes feudais para com seu suserano nominal, Filipe
II da Frana, o assassinato de seu sobrinho Artur da Bretanha, o que o
indisps com grande parte do norte da Frana, e dificuldades financeiras num
perodo de severa inflao, culminaram na perda da Normandia e do Anjou
para a Coroa francesa em 1204.
      Na prpria Inglaterra, conflitos com a Igreja em torno da nomeao do
arcebispo de Canterbury levaram  imposio de um interdito e capitulao
final ao papa Inocncio III, que Joo reconheceu como seu suserano feudal.
Discrdias com os bares redundaram na prolongada crise de 1213-15 e na
promulgao da Magna Carta. Inocncio III, temendo que a Magna Carta
representasse uma renncia anrquica  realeza e  ordem, apoiou Joo
nessa fase, mas o rei faleceu em 1216, s voltas com a invaso francesa e
um reino desintegrado.
     Os cronistas apressaram-se em descrever Joo Sem Terra como o
tirano arquetpico, mas historiadores modernos sublinham que grandes
avanos foram realizados durante seu reinado na administrao rgia e na
organizao e preservao da documentao escrita sobre o governo real.
 S. Painter, The Reign of King John (1949); F.M. Powicke, The Loss of
Normandy 1189-1204 (1961); J. Holt, King John (1961)

Joaquim de Fiore (c. 1132-1202) Abade, mstico e profeta, provou ser mais
influente em sua lendria vida depois de morto e nas interpretaes dadas a
seus escritos do que em sua carreira e feitos neste mundo. Tornou-se em
1177 abade da casa Cisterciense de Corazzo, mas renunciou para viver uma
vida de eremita em Fiore, na Calbria, atraindo discpulos e tendo vises
apocalpticas. Dividiu a histria humana em trs perodos: a era do Antigo
Testamento (o Pai), a do Novo Testamento (o Filho) e a do mundo vindouro
(dominado por uma nova ordem espiritual), a qual, em sua anteviso, teria
incio na dcada de 1260. Os aspectos milenaristas de sua obra, conjugados
com a esperana de realizao dentro de um tempo finito, empolgaram a
imaginao das geraes seguintes. O joaquinismo teve profundos efeitos em
muitos grupos sociais no sculo XIII e comeos do sculo XIV, sobretudo
entre os franciscanos espirituais, precursor que foi de alguns elementos de
resistncia e de protesto contra a ordem eclesistica estabelecida. [172]
 M. Reeves, The Influence of Prophecy in the Later Middle Ages: A study in
Joachinism (1969)

John Balliol rei da Esccia 1292-96 (m. 1315) Do emaranhado de possveis
pretendentes ao trono escocs no comeo da dcada de 1290, trs principais
candidatos se destacaram: John Balliol, Roberto Bruce e John Hastings.
Pensando na sua prpria pretenso a suserano, o poderoso Eduardo I da
Inglaterra nomeou uma comisso que decidiu a favor de Balliol, um
descendente do rei David I pela linha materna. Eduardo reconheceu-o como
rei e recebeu dele preito de vassalagem pelo feudo da Esccia. Balliol,
entretanto, aproveitou-se de outras preocupaes do monarca ingls para
reafirmar a independncia da Esccia, contudo foi derrotado pelas foras de
Eduardo em 1296. A luta pela independncia da Esccia passou para as
mos de William Wallace e depois para as dos descendentes de Roberto
Bruce.
 G.W.S. Barrow, Roberto Bruce (1965)

jograis Nome dado aos artistas populares nas comunidades de fala romnica
da Europa ocidental, e que depois se ampliou para abranger tambm homens
com um repertrio de canes e poemas que andavam de corte em corte ou
de cidade em cidade no perodo central da Idade Mdia. Estavam
especialmente associados  propagao do entretenimento palaciano e ao
esprito de cavalaria. Ver trovadores

Joinville, Jean de (c. 1224-1319) Nobre originrio da Champagne que
participou da Cruzada com Lus IX em 1248. Regressando  Frana em 1254,
assumiu funes hereditrias como senescal da Champagne e dedicou-se 
administrao de suas propriedades, quando se recusou a acompanhar o rei
numa outra Cruzada em 1270. Deps como testemunha no processo de
canonizao de Lus IX em 1282 e presenciou a exumao de seu corpo em
1297. Por ordem de Joana de Navarra, esposa de Filipe IV, escreveu a
Histoire de Saint Louis,  qual incorporou reminiscncias autobiogrficas de
suas experincias no estrangeiro. Terminou sua tarefa em 1309.
 H.F. Delaborde, Jean de Joinville et les seigneurs de Joinville (1894); The
Life of St. Louis, trad. R. Hugue (1955)

judeus A Idade Mdia devia ser corretamente interpretada como um episdio
vital na Dispora, ou disperso, dos judeus, no decorrer da qual eles
passaram a ser um povo predominantemente europeu e urbano. A histria
comea com a destruio do Templo em Jerusalm por Vespasiano no ano de
70 e com os subseqentes atos de selvageria da Roma imperial contra os
judeus e Jerusalm no sculo II. A perda de um reino judeu significou que a
responsabilidade pela sobrevivncia do Judasmo e da conscincia de uma
herana judaica ficou com os grupos dispersos que se mantiveram leais ao
sentimento de histria judaica consubstanciado no Antigo Testamento e na
lngua hebraica, e ao ritual judeu, especialmente a circunciso masculina e a
guarda do sbado (sabbath).
       A sabedoria judaica manteve os grupos coesos, florescendo nos
primeiros sculos entre aqueles que tinham emigrado do leste para a
Mesopotmia, onde estabeleceram grandes escolas em Sura (incio do sculo
III), Nehardea e Pumbeditha. A o Talmude (ou "estudo", "ensino") foi
lentamente reunido e refinado para constituir um corpo de lei, costume e
comentrio sobre a histria, o qual serviu como fora espiritual e intelectual
coesiva durante todos os longos anos da Dispora. Os professores passaram
a ser conhecidos como rabinos e os lderes espirituais como os geonim.
       As conquistas muulmanas do sculo VII ajudaram muito mais do que
prejudicaram o desenvolvimento judeu na Mesopotmia, onde seus lderes
polticos, os exilarcas, proclamando-se descendentes do rei Davi, juntamente
com os geonim, foram universalmente reconhecidos como os principais
repositrios das tradies judaicas at, pelo menos, a primeira metade do
sculo XI.
      Dentro do mundo mediterrneo do Imprio Romano, as comunidades
judaicas sobreviveram mas com grande dificuldade. A aceitao do
Cristianismo no sculo IV e seu desenvolvimento at se tornar a religio
ortodoxa dominante acarretaram grandes complicaes. Os judeus tinham
status como representantes da antiga lei, a do Antigo Testamento, mas
tambm estavam condenados pelo maior crime na histria: a crucificao de
Cristo. No Imprio do Oriente, a perodos de aceitao seguiam-se pocas de
ativa perseguio. O imperador Herclito (610-41) tentou at proibir o
exerccio do Judasmo em pblico. Alguns grupos instalaram-se fora das
fronteiras do Imprio na Crimia; no incio do sculo VIII, os khazares, um
povo asitico com forte participao mongol, adotaram o Judasmo como sua
religio oficial (c. 740) e, durante dois sculos, forneceram um importante
centro de judiaria para o norte e leste de Bizncio. No Ocidente, o papa
Gregrio, o Grande (590-604), deu o exemplo, encorajando a converso mas
opondo-se  perseguio e ao batismo forado. Com os carolngios, houve
um perodo de comparativa tolerncia, o que permitiu que comunidades
judaicas prosperassem e exercessem seus talentos como comerciantes at
na regio setentrional da Francnia.
      Os desenvolvimentos mais significativos, entretanto, ocorreram,
indubitavelmente, dentro do mundo muulmano, sobretudo na Espanha. Depois
de 750, com a queda do califado omada de Damasco, o principal foco do
poder poltico muulmano descolou-se para leste, com os abssidas em
Bagd, deixando a Espanha algo isolada como o ltimo bastio da influncia
omada. A virtual autonomia poltica foi acompanhada por um perodo de
considervel prosperidade at o sculo XI, e as comunidades judaicas
desempenharam um papel de destaque na vida comercial da Espanha
muulmana, especialmente nas grandes cidades da Crdova e Sevilha.
      A Reconquista crist na Alta Idade Mdia acarretou perseguies
espordicas, se bem que at o final do sculo XIII a judiaria espanhola
produziu alguns dos mais poderosos intelectos da poca. Moiss Maimnides
(1135-1204), por exemplo, nascido em Crdova, embora ativo como erudito,
na maior parte de sua vida, no Egito, desempenhou um importante papel na
devoluo da herana greco-romana ao Ocidente, demonstrando uma slida
compreenso de grande parte do pensamento aristotlico, assim como o
domnio do rabe e do hebraico. Os judeus da Espanha e do norte da frica
passaram a ser conhecidos (em conseqncia do nome sepharadim dado em
hebraico  Espanha) como judeus sefarditas, e seus sbios caracterizaram-se
pelo domnio do hebraico e do que para muitos deles pareceu ser o vernculo
do latim, rabe e castelhano. Sob a perseguio deflagrada na Espanha no
ltimo quartel da Idade Mdia, uma forte corrente mstica surgiu, baseada na
Cabala, sabedoria tradicional reforada pela descoberta na Espanha, no
sculo XIII, do Zohar ou "Livro de Esplendor", um comentrio mstico em
aramaico sobre o Pentateuco. A presso dos reis cristos levou muitos judeus
espanhis a aceitarem a converso com freqncia meramente nominal (os
marranos); e em 1492 os judeus foram expulsos, indo alguns para a Turquia,
onde foram bem recebidos, e outros para a Frana, Itlia e Holanda.
      Nesse meio tempo, comunidades judaicas continuaram existindo em
outras regies da Europa, nas cidades espalhadas ao longo das grandes
rotas de comrcio. A partir de meados do sculo XI, quando a Europa
ocidental ingressou numa fase dinmica em seu desenvolvimento econmico,
essas comunidades cresceram de forma notria. Em 1100, seu nmero era
considervel na Frana e na Alemanha e outras se estabeleceram na
Inglaterra aps a Conquista Normanda. Uma das primeiras e mais hediondas
manifestaes da Primeira Cruzada foi uma srie de pogroms, especialmente
violentos na Rennia no comeo do vero de 1096, em Worms, Mainz, Colnia
e Trier. Da em diante, ocorreram surtos espordicos de violncia contra as
comunidades judaicas, alimentados pelo esprito das Cruzadas. Histrias
relacionadas com supostos infanticdios rituais (como as lendas em torno da
morte de William de Norwich em 1244) ou com a alegada profanao do po
e vinho sacramentais ajudaram a excitar a paixo da populaa crist.
      Privados de uma base especfica de poder prprio, os judeus
procuraram apoio nas autoridades existentes a quem pudessem prestar
servio, aos grandes proprietrios, condes, prncipes da Igreja, reis ou ao
prprio imperador. Na Alemanha, foram feitas algumas tentativas um tanto
bisonhas para equiparar o status do judeu ao de um servo real, um servus
camere, e noes semelhantes eram comuns em outros pases. Na Espanha,
por exemplo, os judeus eram descritos como servi regis, e na Inglaterra, no
sculo XIII, estavam sujeitos a pesados tributos, uma marca de status servil.
Eram bodes expiatrios naturais em tempos adversos, decorrendo parte de
sua impopularidade de seu isolacionismo, de sua bvia diferenciao das
comunidades nativas e de seu envolvimento em atividades financeiras e
manipulao de dvidas. De um modo geral, estavam excludos da posse de
terras e dos artesanatos. Aos cristos era proibido praticar a usura, e os
judeus, ajudados pela natureza cosmopolita de sua religio, assumiram cada
vez mais a funo de prestamistas e fornecedores de crdito, adquirindo ao
mesmo tempo a reputao de agiotas e extorsionrios.
      A legislao papal fornece um til indicador do pensamento europeu
ocidental da poca (embora seja profundamente falso considerar que os
decretos eram obedecidos de modo universal). No III Conclio de Latro, em
1179, onde foram promulgados rigorosos decretos contra a participao crist
na usura, os judeus foram proibidos de ter cristos como seus criados, e os
cristos foram proibidos de compartilhar alojamentos com infiis, assim
preparando o terreno, em partes da Europa, para o estabelecimento de
guetos especiais destinados aos judeus. O papa Inocncio III, no Conclio de
Latro de 1215, foi mais alm, isentando os devedores cristos, em especial
os cruzados, da obrigao de pagar juros sobre seus dbitos com judeus,
excluindo rigidamente os judeus de posies de autoridade e iniciando o uso
compulsrio de meios de identificao: uma pea de vesturio amarela ou
carmesim, uma braadeira ou um emblema, ou at um chapu de cor distinta.
      Perseguio macia acompanhou esse perodo de intensa legislao,
estimulada pela perda de Jerusalm para os muulmanos (1187-1227), por
apreenses a respeito das heresias no Languedoc e da Cruzada Albigense, e
pela confuso catica das terceira e quarta Cruzadas. Em York, em 1190,
num incidente que comoveu at os mais calejados cronistas cristos, a
comunidade judaica, tendo  frente o seu rabino, recorreu  auto-imolao no
castelo: os chefes de famlia mataram suas esposas e filhos, suicidando-se
em seguida, para no terem que se submeter ao massacre planejado para
eles pelo inimigo que os cercara. Os sitiantes, diga-se de passagem, eram
liderados por representantes da pequena nobreza substancialmente
endividada com os judeus. Entretanto, a perseguio ajudou, de um modo
curioso, a consolidar a judiaria ocidental. Sua fora interior reside em sua
herana intelectual. A sabedoria talmdica e rabnica tradicional do Oriente foi
transmitida atravs da obra de eruditos como Gershom de Mainz (c. 960-
1028), a "Luz do Exlio" e uma grande autoridade sobre o Talmude, a cuja
pena foram atribudos muitos comentrios posteriores acerca da lei.
     No sculo XIII, os judeus foram protegidos, usados e abusados, por
governantes ocidentais. Estavam sujeitos a impostos especiais na Inglaterra,
registrados nos livros do Tesouro relativos aos judeus, e a partir da dcada de
1240 essas tributaes ficaram to pesadas que acabaram sendo
contraproducentes. Eduardo I tentou regularizar a matria mas, em 1290,
recorreu  sua prpria verso de uma soluo final e expulsou os judeus. Um
ritmo semelhante de proteo e explorao teve lugar na Frana. Em 1306,
Filipe IV ordenou a expulso deles e, embora alguns fossem autorizados a
regressar em condies excessivamente duras, a medida significou o final de
uma duradoura e expressiva presena da judiaria francesa. O termo
askhenazi passou a ser de uso comum para descrever os judeus europeus
fora da Espanha e da Itlia (onde eles desfrutavam esporadicamente de
proteo papal). Askhenazi era o termo hebraico para "alemo", e os
Askhenazi falavam um dialeto alemo ocidental que passou a ser conhecido
como idiche.
      Em fins da Idade Mdia, novas perseguies, selvagens e cruis mas
localizadas sobretudo na Alemanha, por causa da fragmentao do poder
poltico, resultaram em emigrao no rumo leste, para a Hungria e
especialmente a Polnia, onde desfrutaram de um certo grau de liberdade
religiosa e privilgios intermitentes sob a proteo real. A Polnia estava
ligada numa espordica e incerta unio  Litunia no sculo XV e exercia
controle sobre boa parte do sul da Rssia, incluindo Kiev, onde fortes
elementos judaicos foram reintroduzidos.
       No final da Idade Mdia, o padro demogrfico da judiaria europia
adquiriu um formato que determinou o futuro, por vezes trgico, do povo judeu.
Mais fortes na Polnia e territrios circunvizinhos, os judeus askhenazi, dando
grande valor  sua antiga herana religiosa e social, e  sua lngua idiche de
base germnica, constituam o elemento mais numeroso. Os judeus espanhis
ou sefarditas, como eram conhecidos, estavam dispersos, alguns deles de
volta aos Pases Baixos mas tambm espalhados por todo o mundo
mediterrneo, norte da frica, Itlia e Imprio Otomano. Preservaram sua
tradio de respeito pela lngua e pela sabedoria, onde quer que lhes fosse
dada a oportunidade de estabelecer comunidades relativamente estveis.
HRL
 C. Roth A Short History of the Jewish People (1936); The Standard Jewish
Encyclopaedia, org. por C. Roth (1966); J. Parkes, The Jew in the Medieval
Community (1975); B.S. Bachrach, Early Medieval Jewish Policy in Western
Europe (1977); Aspects of Jewish Culture in the Middle Ages, org. por P.
Szarmach (1978-81); The Cambridge History of Judaism, vol. I, org. por W.
Davies e L. Finkelstein (1984)

Justiniano I imperador 527-65 (n. c. 482) Freqentemente chamado "o ltimo
imperador romano e o primeiro bizantino", Justiniano adquiriu experincia
governamental com o poder no reinado de seu tio Justino I (518-27).
Justiniano foi inigualvel em seu obstinado propsito de restabelecer o Imprio
Romano indiviso, cujas provncias ocidentais tinham sido h muito
conquistadas por reinos germnicos. Subordinou a esse fim toda a sua poltica
imperial, administrativa, fiscal, econmica e religiosa, enquanto que a grande
codificao do direito romano, o Corpus Juris Civilis, forneceu a estrutura
legal unitria para todo o espectro de poderes e prerrogativas imperiais
exercidos por Justiniano. Foi feliz na qualidade de seus funcionrios e
generais, mas seu esprito impulsor, alimentado por sua crena em um
Estado, uma Lei e uma Igreja, foi nico.
      Os principais esforos militares de Justiniano concentraram-se na
reconquista das provncias ocidentais, e a investiu, em potencial humano e
dinheiro, parte considervel da riqueza do Imprio. Isso, por sua vez, privou as
fronteiras setentrionais e orientais de recursos adequados para sua defesa. A
resposta de Justiniano foi a diplomacia -- um padro flexvel de alianas
variveis, com vistas  manuteno de um equilbrio de foras entre as vrias
tribos brbaras que rondavam as fronteiras do Imprio -- uma poltica que,
associada ao tributo, era mais barata do que a guerra, mas atraiu crticas dos
seus contemporneos.
     O custo da ambio de Justiniano foi gigantesco e, uma dcada aps
sua morte, grande parte de sua obra desmoronou. Em 568, os lombardos
entraram na Itlia, a provncia pela qual Justiniano tinha realizado uma srie de
campanhas militares ao longo de 20 anos, e em 572 os visigodos
recapturaram Crdova. A impraticabilidade do "grandioso desgnio" de
Justiniano foi um importante fator no desenvolvimento da fase bizantina inicial
do Imprio. Depois de 565, o conceito de universalidade era pouco mais do
que retrica. Justiniano, o herdeiro de Augusto, fizera dessa universalidade
seu             objetivo           supremo. Ver                Teodora [203,
263]                                        SW
 P.N. Ure, Justinian and his Age (1951); J.W. Barker, Justinian and the
Later Roman Empire (1966); R. Browning, Justinian and Theodora (1987)
                                     K
Kenneth MacAlpin rei dos escoceses c. 840-58 Em 843, Kenneth pde, por
conquista, subjugar os governantes pictos e produzir uma unio que provaria
ser permanente. Parece provvel que os efeitos debilitantes dos ataques
vikings tenham contribudo para a derrota dos pictos. O albanach, variedade
escocesa da lngua goidlica (ou galica), do territrio lingstico cltico,
passou rapidamente a dominar no novo e unido reino de Alba (Albany) ou
Esccia.
 A.A.M. Duncan, Scotland: The Making of the Kingdom (1978)

Kiev Sua posio no rio Dnieper fez de Kiev um importante centro comercial
desde a Antigidade. Dominada primeiro pelos godos e depois pelos
khazares, o interesse eslavo pela cidade tornou-se grande a partir do sculo
IX. A penetrao viking atravs dos grandes cursos fluviais russos tornou
ainda maior a importncia de Kiev como um elo vital na rota entre a
Escandinvia e Constantinopla. A configurao poltica da Rssia histrica
comeou a despontar na segunda metade do sculo IX com o
estabelecimento do principado de Novgorod por Rurik em 862 e a conquista
de Kiev e outras cidades por Oleg em 882. Com Oleg e seu sucessor, Kiev
tornou-se o centro da nova comunidade poltica, e seus governantes adotaram
o ttulo de "gro-prncipe".
       Elementos eslavos, resultando numa virtual assimilao dos
escandinavos, atingiram o auge em fins do sculo X, quando o gro-prncipe
Vladimir se converteu ao Cristianismo ortodoxo oriental (988). Vladimir reuniu
a fraca organizao poltica das cidades russas e colocou-as firmemente na
rbita do mundo imperial oriental. Perodos de prosperidade e de sucesso
poltico nos governos de Yaroslav, o Sbio (1019-54) e de Vladimir II
Monmaco (1113-25) no puderam disfarar os defeitos bsicos no disperso
gr-principado e em 1240 a cidade era conquistada pelos mongis liderados
por Batu, deixando algumas igrejas e a grande catedral de Santa Sofia
(fundada em 1037) como smbolos do prestigioso passado Kiev.
 G. Vernadsky, The Origins of Russia (1959); R.A. Rybakov, Early
Centuries of Russian History (1965)

Kosovo, batalhas de (1389, 1448) Kosovo polje, o "Campo dos Melros", na
Srvia, foi a cena de dois importantes embates entre foras otomanas e
crists. Em 1389, o sulto Murad I derrotou o prncipe Lazar da Srvia numa
ao que acarretou a morte de ambos os lderes e esmagou o ltimo centro
de resistncia efetiva  expanso otomana nos Balcs. Em 1448, o sulto
Murad II liquidou as tentativas de Jnos Hunyadi, governante da Hungria, de
recuperar as foras crists aps a Cruzada de Varna em 1444.
 H. Inalcik, The Ottoman Empire: the Classical Age 1300-1500 (1973)

Kublai Khan (1215-94) Neto de Gngis Khan, completou a conquista mongol
da China e instalou sua capital em Pequim, onde recebeu a visita de Marco
Polo. Sua lenda teve grande impacto na imaginao ocidental.
 R. Sawma, The Monks of Kublai Khan, Emperor of China (1928)
                                     L
l, comrcio de Desde os tempos romanos existia um florescente comrcio
de l e de tecidos de l na Europa ocidental. Como ocorre em todo o
comrcio a grande distncia, houve mudanas nas principais reas da
produo de l e nos centros da indstria de lanifcios no decorrer de toda a
Idade Mdia. Com os romanos, o know-how para a fabricao de vesturio
em grande escala foi levado do Oriente Mdio e progrediu na Itlia. A l era
importada da Espanha e do sul da Glia, regies que produziam pouco tecido,
ao passo que na Glia setentrional se desenvolveu uma vigorosa indstria de
lanifcio; no sculo IV, a regio estava exportando pano e vesturio de alta
qualidade para a Itlia.
       A derrocada do Imprio desintegrou claramente esse comrcio a longa
distncia, mas existem algumas provas de que continuou numa escala
reduzida e comeou a reviver no sculo VII. A preferncia de Carlos Magno
por roupas de l nativa, em vez das sedas exticas, deve ter ajudado os
fabricantes. As capas frsias que ele usava podiam perfeitamente ser
produtos da j crescente indstria flamenga de tecidos, a qual surge em
fontes dos sculos XI e XII como estando j bem estabelecida e bem
organizada, e como um mercado para o excesso de mo-de-obra da regio;
seus produtos alcanaram mercados to longnquos quanto Novgorod.
      No sculo IX, tambm a Inglaterra estava exportando tecido de l,
mercadoria muito apreciada e freqentemente saqueada pelos vikings. A
expanso de colnias vikings e o estabelecimento de ligaes comerciais
entre elas contriburam muito para estimular o comrcio da l na Inglaterra e
em toda a rea do Mar do Norte. O censo do Domesday Book revela a
existncia de considerveis rebanhos de ovinos na Inglaterra do final do sculo
XI, e o confisco de safras de l por uma Coroa predatria era um expediente
comum no sculo XIII.
      Quando a indstria de lanifcios do norte se tornou cada vez mais
organizada, suas tcnicas progrediram e aperfeioaram-se; e, em lugar do
anil e da garancina usados em sculos anteriores, comeou a exigir corantes
exticos importados do Oriente. Em contrapartida, o pano era exportado para
o sul da Europa e da para o Oriente; os mercadores italianos, que efetuavam
o transporte, visitaram regularmente as feiras de tecidos da Champagne
desde meados do sculo XII.
       No sculo XIII, a indstria flamenga de lanifcios atingiu seu apogeu, e as
reas adjacentes do norte da Frana, assim como setores da Inglaterra
central e oriental, produziram tambm pano de alta qualidade. Entre os
produtos ingleses especialmente apreciados estava o pano vermelho de
Lincoln, muito solicitado pelo guarda-roupa real e para presentear dignitrios
estrangeiros. O comrcio era controlado por grandes empresrios comerciais,
como Jean Boine Broke de Douai, no final do sculo XIII. Ele usava a l de
suas propriedades, suplementada pela adquirida em abadias inglesas, como a
de Holmcultran (Cmbria); armazenava-a em suas prprias instalaes,
mandava-a para suas prprias oficinas ou para as casas de artesos
independentes a fim de transform-la em pano, e comerciava os produtos
acabados atravs de seus prprios agentes. Tais homens formaram
corporaes, as quais exerceram poderoso e freqentemente minucioso
controle sobre a indstria de lanifcios. Formularam regulamentos detalhados
e nomearam inspetores para manter o padro de qualidade e participar nas
negociaes salariais com os empregados. Essas corporaes eram
formadas por comerciantes ingleses e estrangeiros; na Inglaterra, as
corporaes estrangeiras eram conhecidas como Hansae, as quais eram
regulamentadas pela Coroa, que lhes concedia importantes privilgios.
       A Flandres produzia parte de sua prpria l em bruto, mas o principal
fornecedor no final da Idade Mdia era a Inglaterra. A maior parte da
produo inglesa era da mais alta qualidade, proveniente de grandes
latifndios e vendida, com freqncia, diretamente aos comerciantes
estrangeiros. Os grandes negociantes tambm podiam operar como
intermedirios dos produtores menores. Durante o sculo XIV, a Coroa imps
uma taxa cada vez mais pesada sobre as exportaes de l e permitiu que
uma companhia mercantil conhecida como The Staple [o emprio] detivesse o
monoplio do comrcio, de forma que os lucros pudessem ser mais facilmente
fiscalizados e os impostos arrecadados; um resultado disso foi o crescente
custo da l em bruto. A Inglaterra no era o nico fornecedor: a partir de
meados do sculos XIII, a Espanha surgiu como produtora de l e passou a
exportar para a Inglaterra e a Flandres, onde uma regulamentao rigorosa foi
estabelecida para impedir sua mistura com o produto local. Uma outra rea
exportadora de l, ainda que em pequena escala, era a Alemanha. A
hegemonia da Flandres e da Inglaterra foi desafiada a partir do sculo XII
pelas cidades italianas, cujos mercadores manipulavam grande parte do
comrcio de lanifcios com o Oriente. Comunidades como Gnova e Florena
especializaram-se em tingir e dar acabamento aos tecidos de l produzidos no
norte da Europa. Em Florena, a corporao Calimala controlava a compra de
l nrdica nas feiras da Champagne, providenciava o seu transporte para a
Itlia, negociava uma reduo dos direitos de entrada e regulamentava
rigorosamente a tintura e o acabamento do tecido. A manufatura de tecido de
l em escala comercial tambm se tornou cada vez mais generalizada e, em
meados do sculo XIV, era a principal indstria de muitas reas da Lombardia
e de Veneza. A l bruta de alta qualidade era importada especialmente da
Inglaterra e sua compra ajudada pelo status especial de que gozavam os
mercadores italianos, muitos dos quais eram cobradores de impostos papais.
Na Florena do sculo XIV, a Arte delia Lana, a corporao dos lanifcios,
deslocou a Arte di Calimala em importncia e influncia.
     Com o crescimento da indstria italiana, as manufaturas de l flamengas
viram-se acossadas por muitos problemas: disputas comerciais que
culminaram na agitao popular em Bruges e outras cidades em 1280;
escassez de l em bruto da Inglaterra e seu elevado preo; e a perturbao
das rotas comerciais em conseqncia das hostilidades franco-flamengas. O
ducado de Brabante, onde as condies eram mais estveis, logrou manter
seu comrcio mediante o recurso a expedientes tais como o estabelecimento
de ligaes diretas com Gnova. Na Inglaterra, a indstria de lanifcios foi
dificultada por algum tempo pelos regulamentos restritivos das corporaes
nos centros urbanos, mas a introduo da roda de fiar e do piso, exigindo um
suprimento constante de gua corrente, revolucionou a indstria, que
gradualmente se transferiu para as reas rurais. A oferta abundante de l, a
ausncia do Staple para restringir e controlar a exportao de pano, os leves
impostos de exportao criados pela Coroa no incio do sculo XIV, tudo isso
ajudou a promover uma espetacular expanso da indstria de lanifcios. Seus
centros estavam na regio oeste da Inglaterra, East Anglia e o distrito
ocidental do condado de York, de onde o pano era transportado para os
portos de Bristol e Hull.
Assim, no sculo XV, a Inglaterra era o principal produtor de tecidos de l da
Europa ocidental, seus fabricantes relativamente livres dos regulamentos
rigorosos que estorvavam seus concorrentes estrangeiros. As grandes igrejas
de Costwolds e East Anglia fornecem uma impressionante ilustrao do poder
e da riqueza desses bares da l. EMH
 E. Power, The Wool Trade in English Medieval History (1941); The
Cambridge Economy History of Europe, vol. 2, org. por M.M. Postan e E.E.
Rich (1952); T.H. Lloyd, The English Wool Trade in the Middle Ages (1977)

Ladislau II Jagiello rei da Polnia 1386-1434 (n. c. 1351) Rei com
envergadura de estadista, conseguiu manter unido durante sua vida um
gigantesco principado que, em seu ponto culminante, se estendia do Bltico 
Crimia. O apoio de seu sobrinho Vitoldo, que exerceu virtualmente o controle
autnomo da Litunia, foi essencial para o xito de seus planos polticos.
Enfrentando grandes problemas no leste (trtaros e turcos) e no oeste (a
hostilidade e desconfiana de seu cunhado, o imperador Sigismundo,
preocupado com sua prpria posio na Hungria e na Bomia), Ladislau
tambm teve que adotar uma orientao muito cautelosa em face das
complicaes exacerbadas pela reforma hussita.
       Dentro da Polnia, apoiou-se maciamente nos grandes magnatas, mas
os poderes do rei eram grandes e o domnio da dinastia Jagiello foi fortalecido
(apesar da monarquia ser eletiva). Tradies de tolerncia e liberdade foram
bem estabelecidas na Polnia durante o longo reinado desse notvel monarca,
embora as questes sociais desintegradoras do reino sempre estivessem
presentes.

Lando, Miguel de (1343-1401) Lder dos Ciompi nas revoltas de 1378.
Lando, cardador de l por profisso, estabeleceu uma nova constituio para
Florena, a qual concedeu direitos s novas corporaes de empregados e
trabalhadores no-qualificados. Resoluto nas medidas contra a populaa
arruaceira e os extremistas, participou numa coalizo de carter democrtico,
a qual governou a cidade durante mais de trs anos. O malogro em restaurar
a prosperidade florentina levou  sua queda e ao exlio em 1382.
 G.O. Corazzini, I Ciompi... con notizie intorno alla vita de Michele de Lando
(1887)

Lanfranc de Bec (c. 1010-89) Arcebispo de Canterbury em 1070-89. Natural
de Pavia, Lanfranc foi uma figura dominante na vida intelectual, monstica e
poltica da Europa ocidental no sculo XI. Sua educao parece ter tido forte
contedo jurdico e teolgico. Deixou a Itlia por volta de 1030, adquiriu boa
reputao como estudante e como professor na Frana, e instalou-se em
1042 como monge no novo mosteiro normando reformado de Bec, construdo
pelos beneditinos em 1034.
       Durante quase 20 anos (c. 1045-63), foi prior de Bec, onde se
notabilizou como professor, aplicando seus grandes recursos didticos e seu
enorme talento em gramtica, retrica e dialtica ao estudo das Escrituras e
tambm como telogo, estabelecendo uma posio conservadora ortodoxa a
respeito da Eucaristia, em oposio s idias avanadas e fundamentalmente
inaceitveis de Berengrio de Tours. Embora o seu relacionamento com o
duque Guilherme da Normandia fosse um tanto tempestuoso, seu prestgio
era tal que Lanfranc foi escolhido para ser o abade do novo e grande mosteiro
de Santo Estvo em Caen (1063-70) e depois, apesar de protestos que
pareciam ser mais do que humildade convencional, arcebispo de Canterbury.
     Provou ser um dos maiores arcebispos, afirmando o primado de
Canterbury contra as pretenses de York, e realizando uma srie de conclios
reformistas que deram  Inglaterra uma reforma moral atualizada. Trabalhou
em estreita ligao com Guilherme, o Conquistador, dando por vezes um
aspecto curiosamente antiquado aos assuntos eclesisticos ingleses, com o
rei e o arcebispo colaborando plenamente nos interesses do estado moral da
Igreja. Assim, a Inglaterra pde evitar os rigores da Questo das Investiduras
por mais uma gerao. Na ausncia do rei, Lanfranc atuou ocasionalmente
como regente e, na morte de Guilherme I, sua interveno foi decisiva para
assegurar a sucesso de Guilherme II, o Ruivo, ao trono ingls.
      Seu trabalho em prol dos monges estava naturalmente subordinado aos
seus mais vastos interesses polticos na Inglaterra mas, no entanto, redigiu as
novas constituies para a sua catedral de Canterbury, estimulou a
propagao de captulos monsticos e permaneceu leal, como sua volumosa
correspondncia mostra, aos princpios do monasticismo beneditino reformado
que ele tanto fizera por promover em Bec. Manifestou respeito pelo Papado,
mas apoiou o rei quando este rejeitou a pretenso de Hildebrando de lhe
impor vassalagem feudal, embora concordando com a coleta ativa de tributos
papais na forma de "Vintns de Pedro".                                HRL
 M. Gibson, Lanfranc of Bec (1978)

Langland, William (c. 1330-1400) Oriundo dos Midlands ocidentais, passou a
maior parte de sua vida em Londres. Tomou ordens menores mas nunca
ingressou no sacerdcio e foi um adepto de John Wycliffe.  conhecido por
seu poema aliterativo The Vision of Piers Plowman, o qual se ocupa do tema
da salvao e pertence ao popular gnero medieval de literatura onrica
alegrica. Escreveu trs verses distintas da obra, datadas de 1362, 1377 e
1393-98.
 Piers the Ploughman, trad. J.F. Goodridge (1959)

Langton, Stephen (c. 1150-1288) Arcebispo de Canterbury. Tornou-se um
notvel telogo depois de ter estudado em Paris. Em 1206, Inocncio III
nomeou Langton cardeal-presbtero de So Crisgono e, no ano seguinte,
resolveu a disputa entre os monges de Canterbury e o rei Joo Sem Terra em
torno da eleio para a primazia da Inglaterra, assegurando sua nomeao
para o cargo. Entretanto, a oposio do monarca  eleio causou uma
ruptura com o Papado e condenou o novo arcebispo ao exlio em Pontigny,
at ser efetuado um rapprochement em 1213. Langton desempenhou um
papel destacado na oposio baronial a Joo Sem Terra e foi por sugesto
dele que as exigncias includas na Magna Carta tiveram por modelo a carta
de Henrique I.
      A recusa de Langton em impor a excomunho papal aos bares levaram
 sua suspenso das funes episcopais em 1215, mas foi absolvido no ano
seguinte e reintegrado em 1218. Da em diante, deu total apoio ao partido
realista. Trabalhou em estreita cooperao com o justiciar [o principal
magistrado poltico e judicirio do reino], Hubert de Burgh, e foi o responsvel
pela reedio definitiva da Magna Carta em 1225. Tambm esteve ativo em
assuntos de natureza eclesistica. Em 1221, patrocinou a reivindicao do
arcebispo de Canterbury de ser um legatus natus, obtendo o retorno a Roma
do legado papal Pandulfo e a promessa de Honrio III de que nenhum outro
legado seria enviado para a Inglaterra durante sua vida. Alm disso, Langton
formulou um importante conjunto de constituies para a Igreja inglesa, as
quais foram promulgadas, com os decretos do Quarto Conclio de Latro, num
conclio provincial em Oxford (1222).
 EM. Powicke, Stephen Langton (1928)

Latro, Conclios de Desde os primeiros dias do Imprio Cristo at o incio
do sculo XIV, Latro foi a principal residncia do papa, com sua igreja no
local da atual So Joo de Latro. Conclios religiosos eram a realizados
regularmente e, durante o perodo de forte monarquia papal nos sculos XII e
XIII, a tiveram tambm lugar assemblias gerais ou conclios ecumnicos.
Seu objetivo principal era efetuar uma reforma unificadora da Igreja em todo o
Ocidente. O Primeiro Conclio celebrou-se aps a resoluo de alguns dos
problemas envolvidos na Questo das Investiduras (1123); o Segundo, para
resolver um cisma e condenar a heresia de Arnoldo de Brscia (1139); e o
Terceiro, convocado por Alexandre III, para ratificar o acordo com Frederico
Barba-Ruiva e iniciar uma ampla reforma (1179). O maior e mais importante,
porm, foi o Quarto Conclio de Latro, convocado por Inocncio III em 1216
como o clmax de seu enrgico pontificado; ocupou-se no s da reforma
moral mas tambm de decretos que esclareceram a doutrina e abordaram a
supresso da heresia.
 C.J. von Hefele e H. Leclercq, Histoire des conciles (1907-52); M. Gibbs e
J. Lang, Bishops and Reform, 1215-72(1934); P. Hughes, The Church in
Crisis (1964)

Layamon (fl. c. 1200) Brut, de Layamon, poema pico baseado na descrio
de Wace do estabelecimento da dinastia troiana por Brutus de Tria,  de
grande interesse tanto para os estudiosos da lngua quanto para os
interessados nas lendas arturianas. Layamon era um proco em Worcester,
escrevia no dialeto dos Midlands ocidentais e suas tentativas de padronizao
ortogrfica de acordo com princpios fonticos fazem de sua obra uma fonte
primordial para o estudo da pronncia e do desenvolvimento do ingls mdio.
      Os elos entre o mito troiano e as lendas arturianas foram fortalecidos
por seu poema, o qual formou a base para boa parte da literatura arturiana do
sculo XIII. Com efeito, a transmisso do "tema britnico" e do papel
desempenhado pelo rei Artur, de Godofredo de Monmouth em latim, atravs
de Wace em francs normando, at Layamon em ingls, fornece matria de
suma importncia para o historiador social e o literrio.
 Layamon's Brut, 2 vols., org. por G.L. Brook e R.F. Leslie (1963-78)

Leo I, o Grande, So papa 440-61 (n. c. 400) Esforou-se por destruir a
heresia e unir a Igreja ocidental sob supremacia papal. Em 449, refutou a
heresia monofista de Eutquio com o Tomo, uma descrio geral da
Cristologia catlica, a qual foi aceita como pronunciamento da ortodoxia pelo
Conclio de Calcednia (451). Reivindicou jurisdio na frica, Espanha e
Glia, e obteve um edito de Valentiniano III aceitando a autoridade papal no
Ocidente. Suas epstolas e sermes forneceram justificao terica para tais
reivindicaes, desenvolvendo em particular a doutrina da autoridade petrina.
A forma hbil como se conduziu no trato com tila, o Huno (452), e Genserico,
o Vndalo (455), evitando a total destruio de Roma, aumentou o prestgio
temporal do Papado.
 T.C. Jalland, The Life and Times of St. Leo the Great (1941)

Leo III, o Isurio imperador oriental 717-40 (n. c. 680) Natural de
Germanicia, na Sria setentrional, no rigorosamente em Isuria. Uma
carreira militar bem-sucedida no reinado de Anastcio II justificou sua
nomeao como strategos do thema anatlio; em 717 rebelou-se contra o
fraco Teodsio III e tomou para si mesmo a dignidade imperial. Rechaou
imediatamente um ataque sarraceno contra Constantinopla, assim
prenunciando seus futuros embates com o Isl na sia Menor. Leo
implementou extensas reformas administrativas: subdividiu os vastos territrios
da sia Menor e, em 726, introduziu um novo cdigo legal, a cloga. Nesse
mesmo ano, sua poltica religiosa precipitou a longa controvrsia iconoclasta.
Sua reputao histrica depende, porm, em ultima anlise, de sua vitoriosa
defesa de Constantinopla (717), um evento que marcou o fim do primeiro e
implacvel avano do poder militar muulmano.
 S. Gero, Byzantine Iconoclasm during the reign of Leo III (1973);
Constantinople in the Early Eighth Century org. por A. Cameron e J. Herrin
(1984)

Leo III, So papa 795-816 (n. 750) Enfrentou considervel oposio dos
adeptos de seu predecessor, Adriano I. Coroou Carlos Magno como o
primeiro imperador da Cristandade ocidental no dia de Natal de 800, assim
formalizando a secesso poltica entre Ocidente e Imprio Bizantino.
Entretanto, defendeu a unidade eclesistica entre o Oriente e o Ocidente. Em
809 recusou a solicitao de Carlos Magno para que a clusula Filioque fosse
includa no Credo, temendo que isso pudesse afastar os gregos. Seus outros
interesses incluram a Igreja inglesa: a pedido do rei Offa, promoveu a s de
Lichfield ao status metropolitano, embora temporariamente, e interveio em
numerosas disputas entre arcebispos de Canterbury e reis ingleses.
 H.K. Mann, The Lives of the Popes in the Early Middle Ages II (1925)

Leo IX, So papa 1049-54 (n. 1002) Foi cnego de Toul em 1017 e
nomeado bispo dessa mesma cidade lorena em 1026. Apoiou a obra dos
centros de reforma monstica de Gorze e Cluny, assegurando-se de que os
mosteiros existentes em sua diocese, como Moyenmoutier e Remiremont,
seguiriam o exemplo daqueles. Henrique III nomeou-o papa em Worms em
1048, mas Leo insistiu na eleio pelo povo e o clero de Roma antes de ser
entronizado em So Pedro em 1049. O mpeto observado nessa poca a
favor da reforma eclesistica foi submetido ao controle papal durante seu
pontificado, e reuniu em Roma homens capazes e zelosos, como Hildebrando
e Humberto de Silva Candida, para atuarem como seus conselheiros.
      Leo IX viajou extensivamente, realizando 12 snodos em lugares como
Roma, Mogncia, Pavia e Reims, os quais impuseram o celibato clerical e
censuraram a simonia. Em 1050, condenou por duas vezes os ensinamentos
eucarsticos de Berengrio de Tours. Planejou com Henrique III uma
campanha militar para enfrentar a ameaa normanda no sul da Itlia (1053),
mas viu-se sozinho diante do inimigo com um exrcito inadequado em Civitate.
Aps uma devastadora derrota, Leo foi capturado e mantido preso perto de
Bari por nove meses. Suas atividades no sul da Itlia, onde a Igreja oriental
exercia tradicionalmente vasta jurisdio, combinadas com sua afirmao de
primazia papal, levaram-no a conflitar com Miguel I Cerulrio, patriarca de
Constantinopla. Humberto de Silva Candida foi enviado a Bizncio em 1054
numa misso de reconciliao, mas as negociaes exacerbaram ainda mais
a situao, e a Igreja caminhou para o cisma declarado, logo aps a morte de
Leo nesse mesmo ano.
 A. Garreau, Saint Leon IX, pape alsacien (1965)
Lech, batalha de (955) Travada perto de Augsburgo, foi uma vitria
retumbante de Oto I, o Grande, rei da Alemanha, sobre os magiares que
vinham ameaando as fronteiras de seu reino desde meados do sculo IX. Ao
pr fim s incurses magiares em seu territrio, Oto contribuiu para o
estabelecimento de um reino hngaro estvel, alm de garantir que seu
prestgio pessoal se igualasse  tarefa de assegurar a posse da Coroa
imperial. Depois da batalha, seus soldados vitoriosos t-lo-iam aclamado
como imperator.
 K.J. Leyser, Rule and Conflict in an Early Medieval Society (1979)

Leonor de Aquitnia (c. 1122-1204) Filha do duque Guilherme X (m. 1137),
sucedeu-lhe  frente do ducado e casou com o delfim Lus (mais tarde, Lus
VII), com quem teve duas filhas. Acompanhou o esposo numa Cruzada em
1147-49, quando se desentenderam e Lus fez com que o matrimnio fosse
anulado.
       Dois meses depois, Leonor casou com Henrique, duque da Normandia,
mais tarde Henrique II da Inglaterra. Ela lhe deu oito filhos, mas o flagrante
adultrio do rei indisps Leonor a ponto de apoiar a rebelio de seus filhos
contra Henrique, em 1173-74. Foi encarcerada por Henrique em 1174-83, mas
depois, em liberdade, compartilhou do governo da Aquitnia com seu filho
Ricardo Corao de Leo. A influncia poltica de Leonor continuou sendo
grande mesmo depois da morte de Henrique em 1189. Seu apoio a Ricardo
foi vital, sobretudo aps ter sido capturado pelo imperador; e em 1202 ela
ainda estava ativa no apoio militar e poltico ao rei Joo Sem Terra, seu filho
caula.
       Como mecenas de trovadores e da literatura cortes, grandes lendas
surgiram em torno de Leonor, incluindo acusaes de bruxaria. Por seu
casamento com Henrique II, colocou resolutamente a Aquitnia na rbita
Plantageneta, e foram suas terras ancestrais que permaneceram leais 
Coroa inglesa depois da perda da Normandia (1204), o que forneceu assim ao
rei ingls um ponto de apoio em solo francs nos dois sculos seguintes.
 A. Kelly, Eleanor of Aquitaine and the Four Kings (1950); Eleanor of
Aquitaine; Patron and Politician, org. por W.W. Kibler (1976); J. Markale,
Alienor d'Aquitaine (1979)

Liber Augustalis Cdigo de leis publicado em setembro de 1231 pelo
imperador Frederico II para vigorar em seu reino da Itlia meridional, il Regno.
Seu ntimo conselheiro jurdico, Piero della Vigna, foi o principal responsvel
pela compilao, imitao deliberada do Cdigo Justiniano e representando
um ponto alto nas pretenses tericas do imperador de possuir autoridade
associada ao direito romano. O cdigo foi publicado em latim e grego, e,
tambm em imitao do Justiniano, foi suplementado por uma srie de novas
leis, ou Novellae.

Libri Carolini Telogos da corte de Carlos Magno escreveram os "Livros
Carolngios" em resposta  situao em Constantinopla, onde a Igreja sob a
dinastia Isuria parecia aos olhos ocidentais estar derivando para a heresia.
Como declarao da defesa da ortodoxia por Carlos Magno, os livros
constituem um indicador de seus pontos de vista tericos e uma importante
fase no curso dos eventos que levaram  sua coroao como imperador em
800. Ver Teodulfo
 W. Ullmann, The Carolingian Renaissance and the Idea of Kingship (1969)

lngua e dialeto Os problemas lingsticos na Idade Mdia so complexos,
colocando o historiador diante de dificuldades metodolgicas de primeira
ordem se ele tenta aduzir concluses raciais e institucionais de provas obtidas
atravs do estudo da linguagem. Na Europa ocidental, o latim era a lngua
universal da Igreja e, de um modo substancial, da administrao permanente e
do governo em suas instrues escritas; ser letrado significava ser letrado em
latim. A latinidade da Idade Mdia foi modificada e tornou-se mais flexvel no
decorrer dos sculos, graas sobretudo aos gramticos do perodo carolngio,
embora as estruturas clssicas essenciais fossem preservadas. A pena dos
melhores estilistas, como Joo de Salisbury no sculo XII, suporta
comparao com tudo o que tenha sido escrito pelos melhores prosadores do
mundo antigo. O grego, reconhecido desde o final do sculo VI como a lngua
oficial do Imprio, desempenhou uma funo semelhante em Bizncio.
      Os vernculos continuaram florescendo, sobretudo nos dinmicos
sculos XII e XIII, quando trovadores, poetas, pregadores e professores se
dedicaram cada vez mais no s  composio mas tambm ao registro
escrito de suas obras. "O que  o francs, seno um latim mal falado?",
perguntou um escritor anglo-saxo no comeo do sculo XI; mas, por volta de
1200, a partir do tronco latino bsico, j estavam completas as formas
padronizadas dos ancestrais das modernas lnguas romnicas ou neolatinas: o
francs, o provenal, o catalo, o galaico-portugus, o castelhano, os dialetos
hispnicos, os dialetos italianos, sobretudo o toscano, e uma srie de outros.
      Desenvolvimentos anlogos ocorreram no mundo de fala germnica. A
Inglaterra foi um caso nico em seu elaborado uso do vernculo escrito nos
ltimos tempos anglo-saxnicos, mas, nas terras continentais, o pleno
florescimento da literatura deu-se na virada do sculo XIII, especialmente no
alto-alemo da Alemanha meridional. A Escandinvia conheceu seu momento
de apogeu literrio com as sagas islandesas do sculo XIII. Elas teriam
grande efeito na padronizao dos vernculos. O mundo de fala cltica
passou por fenmenos semelhantes, e os poetas lricos galeses produziram
uma obra de prestgio europeu. Entre os povos de fala eslava, houve uma
concentrao macia da liturgia eclesistica no eslavnio, mas as prprias
lnguas passaram por uma diferenciao profunda que resultou na criao do
russo moderno, tcheco, polons e as lnguas eslavas meridionais. O mapa
lingstico da Europa moderna adquiriu lentamente forma na segunda metade
da Idade Mdia, com algumas das fronteiras lingsticas mostrando ser de
uma surpreendente flexibilidade e mais ou menos permanentes depois do
sculo XII. O tronco lingstico predominante era indo-europeu, mas houve
algumas sobrevivncias de uma poca muito remota, como no caso dos
bascos e dos albaneses, e algumas intruses, como no grupo fino-grico que,
de longnquas origens asiticas, veio a produzir com o tempo na Europa as
lnguas distantemente aparentadas do finlands e do hngaro. Na Romnia, a
antiga provncia romana da Dcia, persistiu uma lngua de base latina, embora
maciamente transformada por uma mistura de elementos gregos, eslavos e
blgaros.
     Essa multiplicidade de crescimento e experincia lingsticos faz com
que o contnuo vigor do latim e do grego seja ainda mais notvel, embora
analogias possam ser rapidamente traadas com o arbico no mundo
muulmano da Idade Mdia e, mais adiante, com o ingls do sculo XX. Ver
anglo-normando, francs; Estrasburgo, Juramentos de HRL
 E. Auerbach, Literary Language and its Public in Late Latin Antiquity and in
the Middle Ages (1965); J.M. Williams, Origins of the English Language
(1975); Latin and the Vernacular Languages in Early Medieval Britain, org.
por N. Brooks (1982); B. Mitchell, Old English Syntax (1985)

literatura Predominantemente destinada  recitao pblica coletiva, muito
mais do que  leitura privada individual, a literatura medieval verncula
floresceu, graas ao mecenato aristocrtico, em cortes seculares. Dada a
natureza      aleatria  da    preservao     de    manuscritos    laicos,  
surpreedentemente elevado o volume de obras que sobreviveram, embora
isso represente, sem dvida alguma, apenas uma pequena proporo do que
foi realmente escrito e ainda menos do que foi copiado. Os vernculos, por
muito tempo considerados parentes pobres do latim (a lngua internacional
tradicional do saber e da cultura), passou a ser, no obstante, o veculo para
as maiores realizaes imaginativas da Idade Mdia. A literatura secular em
latim ficou largamente confinada a assuntos derivados, direta ou
indiretamente, de modelos clssicos. Excees notveis so os versos
irreverentes do Arquipoeta (c. 1160), a poesia amorosa dos Carmina Burana
(sculo XIII) e a altamente popular pseudo-Historia Regum Britanniae (1136),
de Godofredo de Monmouth, a qual inaugurou a voga literria do rei Artur.
      A literatura verncula apoiou-se naturalmente em fontes escritas, mas ao
mesmo tempo combinou elementos dspares da cultura popular, incluindo mito,
folclore e outras tradies orais. Sua livre mistura de tons  caracterstica: a
combinao do popular e do erudito, do recreativo e do didtico, do
sobrenatural e do concreto, produziu uma literatura ricamente diversa e
inovadora, dotada de amplos atrativos e permitindo diferentes nveis de
apreciao e interpretao.
     Durante toda a Idade Mdia, o veculo preferido de expresso literria
foi mais a poesia do que a prosa. Uma vasta gama de gneros est
representada, entre os quais o romance narrativo, precursor da novelstica
moderna, ocupa uma posio destacada. O anonimato era a norma -- pelo
menos no perodo inicial -- e os autores criavam variaes em cima das
convenes aceitas, mais do que buscavam a originalidade. A ateno era
freqentemente focalizada num indivduo que funcionava como a
consubstanciao de um ethos feudal ou cavaleiresco, ou como o agente de
conflito humano. A religio formou um background onipresente, com o amor --
usualmente numa forma ritualizada -- fornecendo um outro tema de destaque.
O realismo social no era uma preocupao importante numa literatura que,
acima de tudo, era celebrante e idealizante, mas interesses sociais e morais,
dentro de uma moldura altamente simblica, estavam entre os motivos mais
freqentemente repetidos. A caracterizao e a anlise psicolgica raras
vezes eram explcitas, a ambigidade e a ironia eram sistematicamente
exploradas. Os melhores dos autores citados a seguir mostram uma gama
impressionantemente vasta de erudio e considervel autoconscincia
artstica.
     A Frana  geralmente considerada a inspiradora de todas as novas
tendncias literrias da Europa medieval, mas sua preeminncia no  anterior
ao sculo XII. O mundo germnico reivindica as mais antigas sobrevivncias: o
Beowulf em ingls arcaico, que se pensa datar do sculo VIII, poderosa
evocao das lutas de um guerreiro solitrio contra os poderes do Mal, e o
fragmentrio Hildebrandslied em alto-alemo arcaico. Essa tradio pica
prossegue, no final do sculo XII, com o Nibelungenlied em alto-alemo
mdio, e com as Eddas em noruegus arcaico e as sagas em prosa da
Islndia. A pica francesa medieval faz sua apario no final do sculo XI com
sua obra-prima, a Chanson de Roland, de longe o melhor de cerca de uma
centena de poemas picos franceses ainda existentes, em termos de estilo
oral, estrutura narrativa e retrato de lealdades conflitantes numa sociedade
guerreira. Em contraste, o espanhol Cantar de Mio Cid, do incio do sculo
XIII, parece menos popular na inspirao, menos herico e inspirador no tom.
      A lenda cltica de Tristo e Isolda est representada no francs do
sculo XII somente por sobrevivncias fragmentrias, com Thomas, um anglo-
normando, fornecendo a fonte para a brilhante reelaborao de Gottfried von
Strassburg para o alemo (c. 1210). O outro mestre da narrativa alto-alem
mdia, Wolfram von Eschenbach, tambm se inspirou para o seu Parzival
(1200-16) em modelos franceses, mais especificamente no pioneiro e mais
perfeito expoente do romance medieval, Chrtien de Troyes. O corpus de
cinco romances octossilbicos de Chrtien, compostos em 1165-90 (dos quais
Yvain e o inacabado Conte du Graal so os mais conhecidos), reflete
preocupaes sociais, em sua justaposio de realismo contemporneo e
lenda arturiana, e questiona o ethos cavaleiresco predominante. Na esteira de
Chrtien, a psicologia do amor  explorada ainda mais a fundo na alegoria de
Guilherme de Lorris, Roman de Ia Rose (c. 1225-75), cuja continuao por
Jean de Meung (1269-75) alcana uma enciclopdica exuberncia. A tradio
do amor corteso prossegue no original e enigmtico Libro de Buen Amor
(1330-43), de Juan Ruiz.
     O culto do amor originou-se nas tecnicamente elaboradas e, por vezes,
hermticas canes dos trovadores provenais do final do sculo XI e sculo
XII. Foi ainda mais estimulado pelo alemo Minnesnger, sendo Walther von
der Vogelweide (c. 1170-1230) o seu mais notvel representante, enquanto
que as galaico-portuguesas cantigas de amigo refletem uma faceta mais
popular da variada produo da poesia lrica medieval.
     A literatura no mdio-ingls, retardada em seu desenvolvimento pelas
conseqncias da Conquista Normanda, floresce na segunda metade do
sculo XIV com a alegoria social erudita de Lanland, Piers Plowman, com o
poeta de Gawain e, em especial, com Chaucer, que apresenta em Canterbury
Tales (c. 1387) uma vivida galeria de tipos do seu tempo, num refinado estilo
potico. O teatro medieval estava preponderantemente limitado aos autos da
Paixo, tambm chamados autos de devoo ou mistrios, de que talvez
sejam os mais duradouros exemplos os ciclos de mistrios em ingls medievo.
     Um lugar de honra entre os autores medievais  tradicionalmente -- e
corretamente -- reservado para Dante (1265-1321), cuja Divina Comdia alia
a grandiosidade do tema  beleza potica, apresentando uma cosmoviso
crist num dolce stil nuovo que eleva a eloqncia verncula a novas alturas
de expressividade. O Decameron de Boccaccio (1348-53) marca a
maioridade da prosa como veculo literrio, enquanto que Petrarca (1304-74),
cujos sonetos de amor seriam largamente imitados, anuncia o advento do
humanismo e o comeo de uma nova era. Na dcada de 1460, na Frana,
Villon continuou usando os modos tradicionais de expresso, em que o
convincente realismo social se revela atravs do verniz autobiogrfico. Ver
Cano de Gesta; amor corteso; romances de aventura; sagas nrdicas;
trovadores            IS
 W.P. Ker, Epic and Romance (1908); F.J.E. Raby, A History of Secular
Latin Poetry in the Middle Ages (1957); M.D. Legge, Anglo-Norman Literature
and its Background (1963); Medieval Secular Literature, org. por W.
Matthews (1965); P. Dronke, The Medieval Lyric (1968); A.D. Deyermond,
History of Spanish Literature: the Middle Ages (1971); F.B. Artz, The Mind of
the Middle Ages (1980); C. Clover, The Medieval Saga (1982) [E.R. Curtius,
Literatura europia e Idade Mdia latina, S. Paulo, Hucitec, 1990; P. Dronke,
La individualidad potica em la Edad Media, Madri, Alhambra, 1981; P. Le
Gentil, La littrature franaise du Moyen Age, Paris, Armand Colin, 1968]

Litunia Atrasado povo pago no sculo XIII, falando uma lngua indo-
europia distinta do eslavo, os lituanos adquiriram unidade poltica sob
presso da Ordem Teutnica e dos poloneses; e, durante a dinastia Jagiello,
em conjunto com os poloneses, chegaram a dominar vastas reas da Europa
oriental e da Rssia. A aceitao do Catolicismo (embora elementos pagos
sobrevivessem at o sculo XV) e sua participao na grande defesa dos
cavaleiros em Tannenburgem 1410 asseguraram aos lituanos um certo grau
de solidez poltica e social, mas a aliana com os poloneses foi sempre
instvel, e a presso tanto do lado russo ortodoxo quanto do lado alemo
mostrou ser excessiva para esse periclitante imprio.
 M. Gimbutas, The Balts (1963)

Liudprando de Cremona (c. 922-72) Dicono de Pavia. Serviu como
chanceler de Berengrio da Itlia at cair em desgraa por volta de 956.
Trocou ento a Itlia pela Alemanha, ingressando na corte de Oto I. O
imperador nomeou-o para a s de Cremona em 961 e usou-o como
embaixador imperial.  uma importante autoridade para o estudo de questes
na Itlia e Alemanha de seu tempo; sua obra mais famosa  a Relatio de
Legatione Constantinopolitana, que relata sua embaixada a Constantinopla
(968-69).
 The Works of Liudprand of Cremona, trad. EA. Wright (1930); M. Litzel,
Studien ber Liutprand von Cremona (1933)

Livros de Horas Sob muitos aspectos, os mais impressionantes documentos
escritos do final da Idade Mdia. Os Livros de Horas eram, essencialmente,
livros pessoais de oraes encomendadas por aristocratas leigos e
produzidos para eles pelos melhores calgrafos e iluminadores da poca.
Eram populares e, com freqncia, muito belos, com ilustraes que fornecem
numerosas informaes sobre a vida no s religiosa mas tambm social
desses dias. Sua funo bsica era fornecer uma srie de oraes
adequadas s horas cannicas em que o dia estava dividido. Comeavam
invariavelmente com um calendrio e incluam normalmente extratos dos
ofcios divinos, oraes populares  Virgem, as Horas da Virgem, salmos de
penitncia e o ofcio para os mortos. As Cortes francesa e borgonhesa
destacaram-se particularmente por seu patrocnio de artistas dedicados a
esse tipo especial de produo de livros.
 J. Harthan, Books of Hours and their Owners (1977)

livros manuscritos Diversos aspectos dos manuscritos podem ser usados
para determinar suas datas e origens. Os mais importantes dentre eles so a
paleografia e o estudo arqueolgico dos materiais, tcnicas e pessoal
envolvidos na produo de um manuscrito, desde a formao de cadernos at
a decorao, ilustrao e encadernao (codicologia). Esses aspectos so
valiosos no tocante  datao e localizao, e tambm como fonte de
informao acerca do carter de certos manuscritos, cada um dos quais  o
produto de um conjunto de circunstncias.
      Nos sculos V e VI, a produo de livros no Ocidente notabilizou-se
pelos elevados padres e elevada produo. Por volta de 600, a percia e o
talento com que as oficinas laicas de cerca de 400 tinham copiado textos
pagos para clientes senatoriais, foram transmitidos aos escriptoria ligados a
mosteiros ou baslicas. A maioria dos livros eram em escrita formal,
usualmente maiscula, mas os estudiosos copiavam textos em cursiva para
seu prprio uso. Todos os documentos eram ainda em papiro, mas a maioria
dos livros em pergaminho. O cdice, que tinha sido a forma original de todos
os livros cristos e viera substituir o rolo por volta de 400, consistia
tipicamente em folhas de pergaminho dobradas de modo a formar cadernos
de oito folhas, nas quais as pginas opostas se combinam em sua aparncia e
as linhas so traadas com uma ponta dura. O texto era normalmente de uma
ou duas colunas, o formato era quase sempre grosseiramente quadrado, e os
cadernos eram numerados na ltima pgina. Os copistas podiam comear os
pargrafos ou as pginas com letra ampliada, escrever as linhas iniciais em
tinta vermelha e decorar os ttulos de captulos com floreados a bico de pena;
as iniciais desenhadas e pintadas tiveram origem na Itlia no sculo VI. Eram
produzidos manuscritos ilustrados gregos e latinos de autores pagos
(Homero, Virglio, Terncio) e da Bblia (Gnesis, Reis, Evangelhos).
       Nos scriptoria dos sculos VII e VIII, os padres do continente eram
com freqncia inferiores aos da Gr-Bretanha, e o velho modelo dos
cadernos no era sistematicamente obedecido. Os livros tornaram-se mais
coloridos, ainda que menos elegantes, em virtude do desenvolvimento das
iniciais e dos ttulos pintados em versais. Nos livros insulares do sculo VII, o
pergaminho caracterstico era organizado em cadernos de 10 folhas. Os
copistas irlandeses nunca abandonaram completamente as formas simples de
layout e titulao, mas suas inovadoras iniciais, decoradas com motivos de
origem cltica e seguidas por vrias letras de tamanho decrescente,
influenciaram toda a Europa at o sculo XIII. Por volta de 700, os copistas
nortumbrianos tinham desenvolvido essas iniciais e letras de fantasia para
encher pginas inteiras, adicionando ornamentos animais germnicos aos
desenhos abstratos clticos. Nos principais scriptoria anglo-saxes (por
exemplo, em Canterbury, Wearmouth-Jarrow e Lindisfarme), onde se
dispunha de modelos italianos antigos, o layout, a escrita e a titulao foram
ainda mais desenvolvidos e fizeram com sucesso cpias de ilustraes da
Antigidade Tardia.
       Durante a Renascena Carolngia (c. 775-c. 850), livros em minscula
Carolina realizaram uma impressionante sntese entre layout, titulao e
ilustrao naturalista baseada em modelos antigos tardios, e iniciais de
inspirao insular (anglo-saxnica). A magnificncia dos manuscritos litrgicos
produzidos para Carlos Magno (c. 800) e Carlos, o Calvo (m. 874), nunca foi
suplantada. Uma verso revista do caderno antigo foi introduzida em Tours por
volta de 830 e tornou-se praticamente universal at por volta de 1150, embora
as chamadas de pgina tivessem substitudo os nmeros nos cadernos (c.
1000 em diante) e os tira-linhas de ponta de chumbo substitussem os de
ponta dura (c. 1075 em diante). Livros em minscula protogtica (fins do
sculo XI a fins do sculo XII -- a derradeira florao dos scriptoria
monsticos) eram usualmente mais altos do que antes e destacavam-se por
suas excelentes iniciais policromticas e escrita de fantasia. As iniciais
historiadas substituram com freqncia as miniaturas como veculo para a
ilustrao.
       Depois de cerca de 1200 os livros eram produzidos quase inteiramente
em oficinas associadas a universidades (Paris, Bolonha, Oxford) ou a centros
de mecenato rgio ou mercantil (Paris, Londres, Bruges, Colnia, Milo). Os
materiais e os exemplares de texto e escrita eram a rea dos livreiros, a
decorao e ilustrao, dos iluminadores; o trabalho era subdividido entre os
especialistas em caligrafia, douradores, pintores e encadernadores. Como
cada fase tinha seu preo cuidadosamente calculado, a qualidade e a
elaborao variavam muito entre livros iluminados para clientes rgios, que por
vezes pagavam adiantado aos melhores artistas contratados, e compndios
para estudantes universitrios ou textos populares em vernculo, copiados
localmente por um capelo ou notrio. Depois de cerca de 1175, as folhas
eram pautadas de ambos os lados em ponta de bico e mais tarde em tinta, e
as folhas de um caderno passaram a ser numeradas por volta de 1275. O
papel, uma inveno chinesa que chegou ao conhecimento dos rabes durante
o sculo VIII, foi usado pelos gregos j a partir do sculo IX e comeou a ser
manufaturado na Itlia em torno de 1230. No Ocidente, foi originalmente
usado apenas para cartas, registros notariais e livros contbeis, porm livros
mais baratos em papel, especialmente escritos em vernculo, foram bastante
comuns durante todo o sculo XV.
      Na Itlia, a produo de livros especificamente humanistas comeou por
volta de 1350 com estudiosos como Petrarca copiando textos para seu uso
pessoal, e muitos humanistas do sculo XV seguiram o seu exemplo. Mas
depois de cerca de 1440, a escrita e iluminao dos luxuosos volumes
procurados por governantes e eclesisticos para suas bibliotecas de textos
clssicos e humansticos eram organizadas por livreiros, como Vespasiano da
Bisticci de Florena, ou por bibliotecrios, como em Roma e Npoles. Poggio
Bracciolini (c. 1400) copiou de modelos italianos do sculo XII no s a litera
antiqua mas a pautao com ponta dura e a decorao com ponta de videira
branca, propagando-se tudo isso de Florena para outros centros na Itlia. A
maior parte das iluminuras humanistas, e em especial o estilo originalmente
paduano que dominou em Roma, diferiu de maneira considervel da
decorao gtica tardia dos livros litrgicos da poca. Depois de cerca de
1480, quando o mercado clssico se viu inundado de edies impressas, os
pressas, os copistas humansticos remanescentes tiveram que contar, para
sobreviver, com raras encomendas especiais ou com o emprego de
professores de caligrafia. Ver bibliotecas; caligrafia; manuscritos, iluminao
de;                                                                manuscritos,
estudos                                                         TJB
 Codicologica, org. por A. Gruys e J.P. Gumbert (1976-80); S Hindman e
J.D. Farquhar, Pento Press (1977); B. Bischoff, Palografhie des Rmischen
Altertums und des Abendlndischen Mittelalters (1979)

Llywelyn ab Iorwerth, o Grande prncipe de Gales do Norte c. 1190-1240 (n.
1173) Talvez o mais capaz de todos os prncipes galeses da Idade Mdia.
Aproveitando-se da fraqueza e instabilidade da vida poltica na Inglaterra,
Llywelyn consolidou seu domnio em seu principado ptrio de Gwynedd em
princpios do sculo XIII e, tanto por meio de hbil diplomacia como pela
guerra, estendeu sua autoridade sobre outros prncipes galeses. Quando
rendeu preito de vassalagem formal ao jovem rei Henrique III em 1218,
Llywelyn estava numa posio dominante na maior parte de Gales. O restante
de seu longo reinado foi bem-sucedido e,  data de sua morte, Llywelyn,
prncipe de Aberffraw e lorde de Snowdon, estava prestes a estabelecer um
poderoso principado em que floresciam a lei, a poesia e a cultura galesas, e
em que progressos positivos estavam sendo feitos no campo da
administrao e na cooperao entre o prncipe e a Igreja.
 R.R. Davies, Conquest, Coexistence and change: Wales 1063-1415 (1987)

Llywelyn ap Gruffydd, o ltimo prncipe de Gales c. 1246-82 A fortuna do
ltimo dos virtualmente independentes prncipes da Gales medieval flutuou de
acordo com o poderio da Coroa inglesa. Pelo tratado de Montgomery (1267),
na esteira da Guerra dos Bares, Llywelyn obteve o direito de usar o ttulo de
prncipe de Gales, confirmado para ele e seus herdeiros, e de exercer
suserania feudal direta sobre a maior parte das terras galesas. Seus ganhos
territoriais tambm foram grandes e, nesse ponto, parecia que ele tinha
consolidado e ampliado a posio conseguida por seu av, Llywelyn, o
Grande. Quando a realeza inglesa ficou mais forte com Eduardo I, e em face
de rivalidades galesas, a posio de Llywelyn desmoronou, e pelo tratado de
Conway (1277), ele foi confinado s suas terras ptrias em Gwynedd, com
apenas alguns vestgios de sua antiga autoridade. Uma revolta contra os
ingleses em 1282 terminou em tragdia quando Llywelyn foi morto numa
escaramua perto de Builth. Seus esforos para instituir uma administrao
eficaz beneficiaram, de modo curioso, o vencedor, Eduardo I, que pelo
Estatuto de Rhuddlan (1284) e por uma vigorosa poltica de construo de
castelos, garantiu a destruio das esperanas galesas de um principado
independente.

lolardos Derivado de um termo baixo alemo que significa "murmurador" ou
"resmungo", lolardo foi o nome aplicado aos adversrios da ordem
estabelecida no seio da Igreja inglesa em fins do sculo XIV e que se
confessavam proslitos de Wycliffe. Nos anos iniciais do reinado de Henrique
IV, o governo desencadeou uma ao violenta contra eles, apoiado nos
termos do estatuto De Heretico Comburendo (1400). Uma rebelio liderada
por Sir John Oldcastle, aps a subida de Henrique V ao trono em 1413, foi
cruelmente suprimida, mas a lolardia subsistiu, fornecendo elementos de
experincia religiosa independente com nfase no estudo das Escrituras em
vernculo e na rejeio da autoridade sacerdotal.
 K.B. MacFarlane, John Wycliffe and the Lollards (1950); A. Hudson,
Lollards and their Books (1985)

lombardos O movimento dos lombardos (longobardos), um pequeno mas
muito bem organizado povo germnico, penetrando na Itlia em 568,  o
ltimo ato poltico significativo no prolongado processo de colonizao
germnica dentro das fronteiras do Imprio Romano. Eram governados por
um rei e por duques, e no rescaldo das tentativas de Justiniano de reconquista
da Itlia, os lombardos estabeleceram um reino no norte, o qual ainda hoje d
seu nome  regio, e diversos principados, dois dos quais, os ducados de
Spoleto e Benevento, no sul, provaram ser duradouros. Os lombardos eram
predominantemente seguidores do Arianismo, mas quando se instalaram na
pennsula as influncias romanas no direito e na religio tornaram-se fortes.
Em meados do sculo VIII, a Lombardia era universalmente reconhecida como
reino catlico, e como tal constitua uma sria ameaa poltica ao Papado,
sobretudo quando tomou temporariamente o exarcado, com base em Ravena,
em 751. A interveno franca salvou o Papado de se tornar um mero bispado
lombardo e, em 774, no incio de sua vitoriosa carreira, Carlos Magno
derrotou o rei lombardo e assumiu o trono lombardo. Ver Astolfo; Albono
 T. Hodgkin, Italy and her Invaders, vols. 5 e 6 (1895); W. Goffart,
Barbarians and Romans (1980) [L. Musset, Las invasiones. Las oleadas
germnicas, Barcelona, Labor, 1967]

Londres Devendo sua posio ao fato de ser o primeiro ponto onde o Tmisa
podia ser transposto por meio de pontes, e descrita por Beda como um
emprio ao qual acudiam pessoas de muitas naes, Londres manteve-se
durante toda a Idade Mdia como importante centro de comrcio e de
comunicaes. O desenvolvimento ocorreu mais na direo oeste, ao longo do
rio, em tempos saxes; e, no reinado de Eduardo, o Confessor, a construo
da nova abadia de Westminster estabeleceu um dos principais lugares reais e
eclesisticos do pas; mas o corao de Londres continuou sendo a velha
Londinium romana e a ponte.
      Os normandos consolidaram a atividade citadina com a edificao da
Torre e outras fortificaes. A descrio feita por Fitzstephen na dcada de
1170 fala de uma cidade "abenoada por um clima sadio, na religio de
Cristo, na solidez de suas fortificaes, pela natureza de sua localizao, pela
reputao de seus cidados, pela honra de suas matronas: feliz tambm nos
esportes, prolfica em nobres vares". Seus cidados desempenharam um
papel de destaque na poltica e na escolha de reis, desde os tempos do rei
Etelred at a Revolta dos Caponeses de 1381, e suas liberdades foram
salvaguardadas pela Magna Carta.
     A complexidade de sua organizao, suas residncias reais e suas
cortes de justia, a riqueza de seus cidados e de suas igrejas, desde a de
So Paulo at as muitas pequenas igrejas intra e imediatamente extra-muros,
so testemunho do prestgio de que Londres j ento desfrutava e da posio
de que gozava no concerto europeu e britnico. Em sua busca de status
comunitrio e na instituio do cargo de prefeito (mayor), Londres mostrou
sua eminncia no conjunto da comunidade europia. A partir de meados da
Idade Mdia, tornou-se cada vez mais importante como o centro financeiro do
reino. Em 1300, e em muitos aspectos bem antes disso, Londres possua
todos os atributos essenciais de uma capital.
 C.N.L. Brooke, London 800-1216: the Shaping of a City (1975); G. Williams,
Medieval London, from Commune to Capital (1970)

Lucas de Penna (c. 1320-90) Um dos mais importantes comentadores de
direito romano no incio do sculo XIV, Lucas, um napolitano calejado nas
artimanhas e maquinaes forenses da Itlia meridional, e conhecedor dos
ensinamentos legais do Imprio oriental, provou ser uma inspirao e uma
fonte para muitos juristas medievais posteriores. Atravs de sua obra e de
suas copiosas citaes de Joo de Salisbury, idias respeitantes ao poder
soberano do Estado e ao seu direito de confisco de bens e propriedades
foram transmitidas a um pblico predisposto, sobretudo na corte dos reis
franceses.
 W. Ullmann, Medieval idea of law as represented by Lucas de Penna
(1946)

Ludwigslied Poema do final do sculo IX que celebra a vitria de Lus III, rei
dos francos ocidentais, 879-92, contra as hostes vikings no Somme em 881.
Escrito num dialeto franco-renano do alto-alemo arcaico, celebra a vitria do
jovem rei "francs" Lus, em um texto fundamental para a histria dos
primrdios da lngua alem.
 R. Harvey, "The Provenance of the Old High German Ludwigslied", Medium
Aevum, 14 (1945)
Lus I, o Piedoso imperador do Ocidente 814-40 (n. 778) Filho de Carlos
Magno, assumiu o pleno poder em 814, tendo sido rei da Aquitnia desde 781
e co-imperador desde 813. Designou seu filho primognito Lotrio como seu
sucessor em 817, reservando reinos subordinados para os irmos de Lotrio,
Pepino e Lus. Tendo voltado a casar em 818, tentou alterar essas
disposies no intuito de favorecer Carlos, o filho dessa segunda unio, o que
causou a rebelio de seus outros filhos, decididos a no abdicar de suas
respectivas heranas. Foi deposto em 833 mas reintegrado em 835 e
manteve um controle precrio do trono da em diante. Apoiou a reorganizao
eclesistica na Alemanha, em especial as reformas monsticas de So Bento
de Aniana, e foi um notvel patrono do saber.
 R. McKitterick, The Frankish Kingdoms under the Carolingians (1983)

Lus IX (So Lus) rei de Frana 1226-70 (n. 1214) Casou com Margarida de
Provena em 1234. Sua me, Branca de Castela, atuou como regente durante
a menoridade do filho e parece ter conservado um certo controle sobre o
governo at 1242, pelo menos. Lus adquiriu de Constantinopla a Coroa de
Espinhos em 1239 e mandou construir a Sainte-Chapelle em Paris como
repositrio para a relquia (1245-48). Com o objetivo de libertar a Palestina,
comandou em 1249 uma Cruzada ao Egito e tomou Damieta no ano seguinte;
mas em 1250 foi derrotado e feito prisioneiro em Mansurah. A recuperao da
liberdade custou-lhe, a ttulo de resgate, a capitulao de Damieta.
Permaneceu ento quatro anos fortificando baluartes cristos na Sria, antes
de regressar  Frana, onde se dedicou ao aperfeioamento da administrao
governamental, promulgando, por exemplo, decretos que tratavam das
obrigaes dos funcionrios provinciais (1254 e 1256) e da circulao
monetria (1263 e 1265). Sua obra encorajou avanos no sentido de uma
diferenciao das funes judiciais e financeiras da curia regis, e isso levou ao
comeo da especializao do pessoal da administrao pblica.
      O desejo de Lus de unidade pacfica entre prncipes cristos em face
da ameaa islmica  Terra Santa levou-o a solucionar litgios em torno de
questes de suserania com Arago e com a Inglaterra pelos termos dos
tratados de Corbeil (1258) e Paris (1259), respectivamente. Foi tambm
reconhecido como rbitro internacional de elevado prestgio; entre seus mais
notveis trabalhos nesse campo mencione-se sua mediao entre Henrique III
e seus bares, o que levou  assinatura da Ata de Amiens (1264). Lus voltou
a partir na Oitava Cruzada em 1270 rumo a Tnis, mas faleceu vtima de
disenteria ao desembarcar em Cartago. Ver Joinville, Jean de; Paris, Paz de
 W.C. Jordan, Louis IX and the Challenge of the Crusade (1979); J. Richard,
Saint Louis (1983); M. Slattery, Myth, Man and Sovereign Saint (1985)

Lus XI rei de Frana 1461-83 (n. 1423) Cognominado o "rei-aranha", Lus
granjeou na diplomacia fama de ardiloso, inescrupuloso e traioeiro. As
crnicas muito pouca coisa boa dizem dele e, no entanto, sua habilidade e
inteligncia fortaleceram claramente as instituies reais e diminuram o risco
de desordem feudal; soube se aproveitar ao mximo das dificuldades de seus
principais rivais, os reis da Inglaterra e os duques de Borgonha, com destaque
para Carlos, o Temerrio, cuja derrota e morte planejou. No final de seu
reinado, a Frana estava sujeita a pesados tributos e cada vez mais sob o
controle de burocratas reais, porm ao mesmo tempo era evidente que se
encontrava no caminho da recuperao das devastaes da Guerra dos Cem
Anos. Entre 1480 e 1482, os condados de Anjou e da Provena e o ducado de
Borgonha foram incorporados ao reino e, de fato, com seu exrcito
permanente e seu dispendioso governo, a Frana caminhava a passos firmes
para o absolutismo real do incio do perodo moderno.
 P.S Lewis, Later Medieval France: the Polity (1968); P.M. Kendall, Louis XI
(1971)

Llio, Raimundo (em catalo, Ramon Llull; c. 1235-1315) Voltou-se ainda
jovem para a vida religiosa (c.1263), e influenciado pela presena moura em
sua Maiorca natal, dedicou-se  converso de muulmanos. Durante sua longa
vida, repetidos esforos para obter apoio europeu para sua obra resultaram
apenas na fundao (1276) por Jaime II de Maiorca de um colgio em
Miramar, de efmera existncia, onde os missionrios podiam estudar o
rabe. Isso levou-o a efetuar misses, sem a menor ajuda de quem quer que
fosse,  sia e  frica; acabou sendo apedrejado at a morte por
muulmanos em Bougie, no norte da frica. Quase 300 das obras escritas por
Llio sobreviveram para revelar seus dotes como poeta e mstico, alm de
suas realizaes como filsofo e telogo; a mais famosa de todas  a Ars
Generalis sive Magnis, onde se descreve um mtodo para o estabelecimento
da verdade essencial. Boi pioneiro no uso do vernculo romnico para escritos
filosficos e teolgicos, inaugurando assim o catalo literrio.
 Life of Ramon Lull, org. por E. Allison Peers (1927)

Lupus Servatus (c. 805-62) Abade de Ferrires por volta de 840, Lupus foi
uma figura notvel da Renascena Carolngia, ativo mas sem xito no campo
poltico em suas tentativas para preservar a unidade do imprio; bem-
sucedido, porm, em seus esforos literrios e acadmicos para fazer de seu
mosteiro em Ferrires um centro reconhecido de cultura clssica. Ele
representa um dos fortes elementos intelectuais romanizantes que imprimiram
um grau de unidade s iniciativas carolngias.
 C.H. Beeson, Lupus of Ferrires (1930)

Lyon, Conclio de (1274) Conclio geral convocado pelo papa Gregrio X
com o objetivo de pr fim ao Interregno Imperial, reunir as Igrejas latina e
grega, e dissuadir Carlos de Anjou de seus ambiciosos planos a respeito do
Imprio Bizantino. Embora fosse temporariamente bem-sucedido no
estabelecimento de uma ordem poltica e eclesistica compatvel com a cria
papal, seus propsitos mais profundos no puderam ser concretizados, e o
Conclio  recordado como uma brilhante mas algo aparatosa e efmera
demonstrao de liderana poltica papal.
 S. Kuttner, "Conciliar Law in the Making: the Lyonese Constitutions of
Gregory X", Miscellanea Pio Paschini, 2 (1949); J.M. Powell, "Frederick II
and the Church: a Revisionist View", Catholic Historical Review, 48 (1962-63)
                                     M
Magna Carta Carta rgia, selada e publicada pelo rei Joo Sem Terra em
Runnymede-sobre-o-Tmisa, perto de Windsor, em junho de 1215. A Magna
Carta foi o produto de mais de dois anos de negociaes entre o rei e seus
bares, com destaque, entre eles, para Estvo Langton, arcebispo de
Canterbury, e Guilherme Marshal, conde de Pembroke. Em sua forma inicial
consistia em 63 clusulas, mas as reedies (1217, 1225 e outras) omitiram
certas clusulas, especialmente a chamada "clusula de sano" (61), que
tentou colocar restries institucionais a um rei obstinado que agisse  revelia
da lei (um conselho de 25 bares, quatro dos quais funcionariam como uma
comisso executiva).
       A Carta  uma rica fonte para o historiador jurdico e social dessa
poca, mas tambm tem um legado de grande importncia simblica. Durante
todo o sculo XIII, tanto a Magna Carta quanto os Estatutos Florestais a ela
anexados (em estreita associao com revises da Carta) foram invocados
pelos bares quando se opuseram ao governo arbitrrio. A Carta foi
reconhecida como o primeiro entre todos os estatutos do reino, e como a
abertura de muitos parlamentos medievais. No sculo XVII, foi enfatizada sua
significao como um bastio da liberdade inglesa, especialmente pelos
juristas na luta contra Carlos I e a guerra civil resultante. Essa tradio foi
transmitida a todo o mundo de lngua inglesa;  Magna Carta foi conferido um
lugar especial de honra, por exemplo, nas celebraes do bicentenrio da
independncia dos Estados Unidos da Amrica.
       Num certo sentido,  um documento feudal, preocupado com o que os
bares consideravam uma violao da lei feudal por parte de Joo Sem Terra,
em matrias de sucesso foreira, direitos sobre casamento e tutelas, e
cobrana de assistncia e amparo a necessitados. Na verdade,  uma
espcie de miscelnea, incluindo disposies para a paz com a Esccia e o
Pas de Gales, uma afirmao da liberdade da Igreja, uma defesa das
liberdades de Londres e outros burgos, regras para solicitar conselho jurdico
de acordo com frmulas apropriadas, detalhes sobre pesos e medidas,
legislao florestal e at direitos de pesca. A nfase sobre os direitos dos
bares levou muitos autores a interpretarem a Carta como um documento
egosta, embora todos reconheam a tentativa de levar seus preceitos  plena
vigncia em todas as camadas da sociedade, a valer para toda a communitas
regni. Como estatuto rgio, podia ser (e foi) revogado to legalmente quanto
foi outorgado. O papa Inocncio III ops-se implacavelmente ao que
considerava seus princpios antimonrquicos em excesso, embora recebesse
depois a anuncia papal em forma revista, durante a menoridade de Henrique
III, com as passagens mais ofensivas devidamente removidas.
       Apesar de todas as suas inadequaes e inpcias no detalhe, forneceu
uma poderosa declarao do imprio da lei, o que justificou o posterior apoio
instintivo a ela. O melhor das reformas legais de Henrique II estava ratificado
e garantido, mormente aquelas referentes a peties comuns em locais fixos e
 garantia da posse da terra por meio de sentenas possessrias. Clusulas
gerais (19 e 40) estabeleceram que aes contra homens livres somente
devem ser instauradas pelo julgamento de pares e/ou da lei da terra, e que a
justia no ser negada, vendida ou protelada. A Magna Carta mereceu sua
fama como medida prtica contra a tirania e como um avano em direo a
um governo racional em conformidade com a lei. HRL
 W.S. McKecknie, Magna Carta (1905); J.C. Holt, Magna Carta and
Medieval Government (1985)

Maimnides, Moiss (1135-1204) Um dos maiores filsofos judeus,
Maimnides foi um contemporneo prximo de Averris. Natural de Crdova,
Espanha, ele e sua famlia foram forados a partir em conseqncia da
perseguio aos judeus, instalando-se finalmente em Fustat, um subrbio do
Cairo. Gozava de boa reputao como mdico e tornou-se tambm o lder
oficial (nagid) da judiaria egpcia. De seus volumosos escritos, sua maior obra
rabnica, Mishnah Torah, de 1180,  um enunciado sistemtico da lei e das
crenas judaicas. Seu clebre Guia para os Perplexos, de 1190, tentou
racionalizar a teologia judaica adequando-a ao aristotelismo neoplatnico, e a
obra desempenhou um valioso papel ao transmitir mais completamente a
filosofia de Aristteles  Europa.
 A. Heschel, Maimonides (1982); N. Roth, Maimonides (1985)

mamelucos Termo (que significa escravo) usado a partir do sculo IX para
designar soldados de origem servil recrutados para a guarda pessoal de
governantes muulmanos. No Egito, em meados do sculo XIII, passou a
descrever os mercenrios, predominantemente de origem turca, reunidos pelo
sulto do Egito para resistir  Cruzada empreendida por So Lus. Em 1254,
eles estabeleceram sua prpria dinastia no Egito, expandindo-se para leste a
fim de derrotar os mongis em Ayn Jalud (1261), assumir o controle da Sria e
ocupar grande parte do reino cruzado. Em 1291, o ltimo dos principados
cruzados em Acre foi capturado e as dinastias dos mamelucos, famosos pela
coragem e arte de cavalgar, continuaram exercendo autoridade no Oriente
Prximo pelo resto da Idade Mdia.
 W. Popper, Egypt and Syria under the Circassian Sultans (1955-60); E. Atil,
The Renaissance of Islam (1981); R. Irwin, The Middle East in the Middle
Ages (1986)

Mandeville, Sir John (m. c. 1370) Natural de St. Albans, no Herfordshire,
Mandeville viajou extensamente pela Europa e Oriente Mdio, e pretendeu ter
penetrado profundamente na sia, servindo ao sulto da Babilnia e ao gro-
c na China. Algumas de suas histrias baseiam-se em obras da autoria de
outros escritores e outras so puro "ouvi dizer", mas sua habilidade narrativa e
domnio lingstico (em ingls e francs) garantiram que seu Traveis se
tornasse um dos livros mais populares do final da Idade Mdia.
 M. Letts, Sir John Mandeville: the Man and his Book (1949); C.K. Zacker,
Curiosity and Pilgrimage (1976) [J. Mandeville, Libro de las maravillas del
mundo, org. por G. Santonja, Madri, Visor, 1984]
Manfredo rei da Siclia 1258-66 (n. 1232) Filho ilegtimo de Frederico II,
Manfredo, prncipe de Taranto, reclamou o trono siciliano com a morte de
Conrado IV. Ao derrotar os exrcitos do papa Inocncio IV e de seu sucessor
Alexandre IV na Aplia, Manfredo foi coroado rei da Siclia em Palermo, em
1258. Gibelino, ele fez valer sua autoridade na Lombardia e na Toscana,
obtendo uma grande vitria contra Florena em Montaperti (1260). Tal
domnio persuadiu Urbano IV, o sucessor de Alexandre, a oferecer a Siclia a
Carlos de Anjou. Numa batalha perto de Benevento (fevereiro de 1266),
Manfredo foi derrotado e morto por Carlos, que tomou ento posse do reino
siciliano.

maniquesmo Fundador de uma nova religio, Mani (n. c. 216) pregou com
xito no Imprio Persa mas foi morto por sacerdotes zoroastrianos por volta
de 276. O maniquesmo era uma religio dualista baseada em dois princpios
conflitantes: a salvao reside na libertao do Bem, ou Luz, que est
encarcerado na matria, ou trevas. Em parte monstico, o maniquesmo foi
sobretudo uma f missionria, propagando-se  China, ndia, norte da frica
e, no sculo V,  Espanha e sul da Glia. Embora suprimido como heresia,
influenciou seitas subseqentes (bogomilos, ctaros, por exemplo). Em sua
mais extrema forma, levou  excessiva austeridade na alimentao,
abstinncia do sexo e da ingesto de coisas sexualmente criadas; por outras
palavras, rejeio do que os telogos cristos passaram a denominar a
"criaturidade" do homem.
 S. Runciman, The Medieval Manichee (1947)

manuscritos, estudos Um livro manuscrito era redigido para ser lido, e podia
ser ilustrado para reforar a mensagem do texto e torn-lo mais atraente aos
olhos. Para a crtica textual e, na verdade, para toda a histria da cultura
literria na Antigidade e na Idade Mdia, os manuscritos so a nossa fonte
fundamental de conhecimentos e graas  sua quantidade e excelente estado
de conservao, tambm so de importncia comparvel para a histria da
arte medieval. Disciplinas especializadas, a paleografia e a codicologia,
tambm esto interessadas em certos aspectos dos manuscritos; a primeira
ocupa-se da leitura, datao e localizao da caligrafia, tanto em documentos
quanto em livros; a segunda, dos materiais, tcnicas e pessoal envolvidos na
produo de cdices, que constituem a forma caracterstica dos manuscritos
em pergaminho, anloga ao formato dos livros impressos que lhes sucederam.
Estreitamente associados  paleografia esto o estudo de inscries
(epigrafia), e o estudo da forma, contedo e produo de documentos e
diplomas antigos (diplomtica). No que concerne  decorao e ilustrao, a
codicologia pode, na prtica, ser indistinguvel da histria da arte; com efeito,
a paleografia, a codicologia, a filologia e a histria da arte encontram-se em
um relacionamento simbitico.
       A nomenclatura do final da Antigidade para letra manuscrita inclua as
literae virgilianae, sem dvida para as capitais rsticas, e as literae africanae,
talvez para as semi-unciais. Do comeo da Idade Mdia, poderamos citar
como escritas pouco comuns: libri scotice scripti para livros em escrita
irlandesa em Saint Gall; literae saxonicae para a escrita anglo-saxnica na
Inglaterra ps-conquista; in Romana scriptura para um manuscrito em uncial
em Canterbury (sculo XII). Os copistas medievais que substituram
documentos perdidos, por vezes com verses melhoradas, geralmente
imitaram uma escrita mais antiga no sem algum anacronismo. De cerca de
1350 em diante, melhores descries de livros em catlogos de bibliotecas e
algumas folhas com matrizes de letras testemunham a existncia de uma
elaborada coleo de nomes para a escrita literria e para a documental, a
qual, porm,  demasiado inconsistente para que possa ser de alguma
utilidade para os palegrafos modernos. Os humanistas italianos
reconheceram livros da Antigidade tardia como codices vetustissimi e a
minscula beneventana como literae langobardicae; o nome por eles dado 
nova letra para livros humansticos, litera antiqua, significou que era de
inspirao Carolngia do sculo XII, no apenas uma outra variedade da
escrita gtica da poca.
       Alguns manuais de escrita do sculo XVI incluem exemplos de escritas
anteriores que caram em desuso, mas o estudo histrico sistemtico
comeou com De Re Diplomatica Libri Sex (1681), a obra na qual o
historiador beneditino francs Jean Mabillon defendeu com xito, contra o
ceticismo jesuta, a autenticidade dos documentos oficiais por meio dos quais
monarcas merovngios tinham transferido propriedades para a sua Ordem nos
sculos VII e VIII. Como parte de seu estudo sistemtico de todos os
aspectos de documentos medievais, Mabillon dedicou o seu quinto livro a uma
histria afim das escritas de livros e documentos latinos. Em Palaeographia
Graeca (1708), Bernard de Montfaucon fez para a caligrafia grega o que
Mabillon tinha feito para o latim. O equvoco fundamental de Mabillon sobre a
relao entre escritas romanas formais e a minscula pr-carolina foi corrigido
por Scipione Maffei, aps sua redescoberta da antiga biblioteca da catedral
de Verona em 1713; e o monumental Nouveau Trait de Diplomatique (1750-
65) por mais dois beneditinos franceses, Tassin e Toustain, continuaria sendo
por quase um sculo a autoridade sobre paleografia latina. Thomas Astle
publicou o primeiro manual ingls (1784), notvel por sua ateno  escrita
insular; e a obra pioneira de Charles O'Conor sobre escrita primitiva irlandesa
apareceu em 1814. Esses primeiros tratados eram todos ilustrados por fac-
smiles de respeitvel qualidade feitos  mo.
      No continente europeu (c. 1775-c. 1825), a supresso generalizada de
casas religiosas decadentes e as conseqncias polticas e militares da
Revoluo Francesa resultaram na transferncia macia de livros e
documentos medievais, diretamente ou atravs de colees privadas, para
bibliotecas e arquivos pblicos, onde eram de fcil acesso a fillogos e
historiadores cujas pesquisas inaugurariam, no sculo XIX, o florescimento de
estudos clssicos e medievais. Um conhecimento mais completo e mais
detalhado da paleografia latina e grega comeou a ficar acessvel depois de
cerca de 1870, graas  fotografia, com fac-smiles de manuscritos completos
e colees de reprodues de pgina inteira de manuscritos e documentos
datados ou localizados; uma nova onda de manuais bem ilustrados baseou-se
nesses, na gerao anterior a 1914. L. Traube (1861-1907), professor de
filologia latina medieval em Munique, inaugurou uma nova era por sua
insistncia no valor de manuscritos cabalmente datados e localizados como
prova evidente de movimentos na histria do pensamento. Suas listas
exaustivas de livros latinos foram o fundamento indispensvel de trabalhos
muito posteriores, incluindo os Codices Latini Antiquiores (1934-71), de E.A.
Lowe, sobre manuscritos latinos at cerca de 800, e o catlogo de B. Bischoff
de manuscritos continentais do sculo IX.
      A partir de cerca de 1890, descobertas de papiros no Egito fizeram
retroceder a paleografia grega at o sculo IV a.C, e a paleografia latina
recuaria do seu ponto de partida inicial no sculo IV de nossa era para cerca
de 31 a.C. A pesquisa sobre manuscritos iluminados, a qual tambm comeou
por volta de 1890, converteu-se a partir de 1930 num ramo indispensvel da
arqueologia e da histria da arte antiga tardia e medieval. Depois de 1945,
contribuies particularmente notveis para o conhecimento do perodo
romano inicial foram feitas por J. Mallon e E.G. Turner; o estudo sistemtico
da escrita humanista foi iniciado por B.L. Ullmann e J. Wardrop. O catlogo
internacional de manuscritos datveis, inaugurado em 1953 pelo Institut de
Recherche et d'Histoire des Textes, de Paris, j abrange 24 volumes de oito
pases; e ensaios na Nomenclature des critures livresques (1954)
favoreceram muito a compreenso das escritas medievais tardias. O interesse
por outros aspectos dos antigos manuscritos alm do texto, escrita e
ilustrao, e em especial pela formao do caderno em diferentes perodos e
reas, comeou se manifestando na dcada de 1920, atravs das pesquisas
de Lowe e E.K. Rand; e a partir de 1945, essa abordagem codicolgica da
"arqueologia do livro manuscrito", graas, inicialmente,  defesa de F. Masai e
L.M.J. Delaiss, tem tido uma profunda influncia sobre a paleografia grega e
latina em geral. O estudo de manuscritos iluminados medievais tardios, em
especial, foi inspirado pelo uso da codicologia por Delaiss como prova para a
atribuio dos livros iluminados flamengos do sculo XV a oficinas de escrita
dirigidas por eruditos copistas-editores, e por pintores. Trabalho recente
sobre livros do perodo medieval final inclui estudos quantitativos de produo
e                       formato. Ver            livros           manuscritos;
caligrafia                                        TJB
 L. Traube, "Geschichte der Palographie", em Vorlesungen und
Abhandlungen I (1909); T.J. Brown, "Latin Paleography since Traube", em
Codicologica I, org. por A. Gruys e J.P. Gumbert (1976)

manuscritos, iluminao de O pergaminho ou velino (material preparado
com pele de vitela, carneiro e outros animais domsticos) era o principal
material de escrita usado em toda a Europa na Idade Mdia. A fabricao de
papel era conhecida na Espanha e na Itlia no sculo XIII, mas no competiu
seriamente com o pergaminho at fins do sculo XIV; de fato, o total e
definitivo triunfo do papel como base normal para a produo de livros
coincidiu, em certa medida, com o desenvolvimento da imprensa.
       O pergaminho presta-se tanto  ornamentao quanto  escrita e, desde
o comeo da Idade Mdia at os soberbos Livros de Horas do sculo XV,
alguns dos mais belos e requintados trabalhos artsticos do perodo medieval
encontram-se nos manuscritos iluminados, na forma de ilustraes para textos
devocionais ou em simples elaborao e colorido de frontispcios ou letras
individuais.
       A arte bizantina, com seu uso florido de ouro e vermelho vivo, forneceu
desde cedo uma inspirao contnua para os artistas da Europa medieval.
Condies especiais na Irlanda e Nortmbria produziram escolas que s muito
raramente tero sido superadas, se  que alguma vez o foram, demonstrando
assim uma extraordinria habilidade na arte de entrelaar e contrastar
padres geomtricos e animais, com sutis variaes de delicada cor; os
Evangelhos de Lindisfarne e o Livro de Kells permanecem como exemplos
notveis. O mundo carolngio, beneficiando-se das tradies bizantinas e
clticas, produziu obras de primeira classe, no incio com nfase sobre
motivos puramente ornamentais, sobretudo em ouro. Cada uma das
comunidades ocidentais deu sua prpria contribuio nos sculos
subseqentes (a Inglaterra do perodo anglo-saxnico final, com a Escola de
Winchester e o tenso vigor dos desenhos lineares, por exemplo), atingindo um
apogeu criativo no estilo romnico do sculo XII.
      Desde aproximadamente 1200 at o fim da Idade Mdia, a arte do
miniaturista foi refinada e ampliada, sobretudo nas grandes Bblias. (A palavra
miniatura no deriva de um vocbulo que signifique pequeno mas do verbo
minire, desenhar com mnio, o xido vermelho de chumbo usado como
pigmento.) No perodo final da Idade Mdia, aumentou muito o uso de letras
iniciais ampliadas como um meio de inserir ilustraes de eventos, folhagens,
seres humanos e cenas inspiradas na realidade. Os calendrios propiciaram
uma oportunidade para a descrio pictrica de gente comum e do ritmo do
ano agrcola ou da vida rural, e as convenes fixaram-se rapidamente nos
tipos de cenas e histrias bblicas que se devia esperar encontrar em saltrios
e missais. Uma crescente conscincia e prazerosa contemplao do mundo
natural  caracterstica das iluminuras dos ltimos tempos da Idade Mdia.
Ver Winchester, Bblia de
 F. Henry, The Book of Kells (1974); C. Nordenfalk, Celtic and Anglo-Saxon
Paintings (1977); J.J. Alexander, Insular Manuscripts from the 6th to the 9th
Century (1978); R.G. Calkins, Illuminated Books of the Middle Ages (1983);
G. Henderson, From Durrow to Kells (1987)

Manzikert, batalha de Em agosto de 1071, o exrcito seljcida de Alp Arslam
aniquilou as foras numericamente superiores comandadas por Romano IV
Digenes em Manzikert, perto do lago Van na Armnia. O exrcito bizantino
tinha sido formado por uma heterognea e indisciplinada coleo de
mercenrios estrangeiros: normandos, armnios, patzinaques e uzes. No era
preo para os altamente manobrveis e ligeiramente armados turcos e, pela
primeira vez, um imperador romano era aprisionado em combate. Alp Arslan,
satisfeito com o tributo e com uma aliana com o Imprio, logo soltou
Romano, mas sua ausncia deu ao Partido Civil em Constantinopla a
oportunidade para organizar um golpe de Estado sem derramamento de
sangue, voltando a dinastia Ducas ao poder. A queda de Romano IV levou Alp
Arslan a repudiar os tratados celebrados com ele, assim franqueando a sia
Menor ao ataque turco. A fraqueza poltica e a falta de unidade de Bizncio,
mais do que a derrota em Manzikert, iria custar a sia Menor ao Imprio.
 M. Angold, The Byzantine Empire (1984)

Maom (c. 570-632) Fundador do Isl, termo que significa "submisso a
Deus". Nasceu em Meca, tendo ficado rfo muito cedo. Trabalhou em sua
juventude como mercador ambulante nas caravanas que cruzavam o deserto.
Em 595, seu casamento com uma abastada viva, Khadija, e a expanso de
suas atividades comerciais proporcionaram-lhe uma renda confortvel. Em
610, quando realizava uma jornada de meditao pelos campos vizinhos, teve
uma irresistvel experincia espiritual. No monte Hira, recebeu a revelao do
Arcanjo Gabriel, que registrou depois no Alcoro. Maom sublinhou que sua
mensagem era parte da unidade da mensagem de Deus que fora expressa
atravs de todos os seus profetas em vrias pocas ao longo da histria
(Ado, No, Abrao, Moiss, Jesus); a diferena essencial era que ele tinha
recebido a mensagem em sua forma compreensiva e final. Sua qualidade
proftica era, por conseguinte, a culminao de todas as revelaes prvias,
e seus ensinamentos eram a palavra final.
      Inicialmente, Maom limitou sua pregao a um crculo de ntimos e
quando a tornou pblica, teve que enfrentar o ridculo, polmicas hostis e
perseguio. Meca era importante centro comercial e sua pregao atacava a
influente oligarquia mercantil. Viu-se finalmente forado a fugir para o povoado
cosmopolita de Medina em 622; esperava ele que suas doutrinas monotestas
fossem a melhor acolhidas, por causa do numeroso elemento judeu residente
em Medina. A presso econmica da classe dominante de Meca sobre os
medinenses para que expulsassem Maom resultou em uma demorada
guerra. Finalmente, num acordo negociado, Maom obteve permisso para
liderar uma peregrinao a Meca em 629. Sua prudncia e austeridade
impressionaram a populao de Meca mas, no ano seguinte, a oligarquia
quebrou sua neutralidade e os maometanos marcharam contra a cidade, que
capitulou, aceitando o Islamismo. A autoridade de Maom na Pennsula
Arbica foi ento ampliada, organizada e consolidada; o paganismo foi posto
fora de lei e novas leis refletiram o ethos islmico. A nfase dada por Maom
 humanidade como uma s famlia sob a proteo de Deus forneceu um
poderoso freio s guerras tribais. Ver Ali
 W. Montgomery Watt, Muhammad at Mecca (1953) [E. Dermenghem,
Maom e a tradio islamtica, Rio, Agir, 1973]

marco Antiga unidade germnica de peso mencionada pela primeira vez no
tratado de 886-90 entre Guthrum e o rei Alfredo. Suas origens e peso original
so desconhecidos, mas o peso era provavelmente em torno de 230 gramas,
visto que os principais marcos europeus gravitam em redor desse nmero:
marco de Colnia, 229,46 gramas; marco de Paris, 227,54 gramas; marco de
Montpellier, 235,19 gramas. Sua vasta adoo como um peso de 8 onas
(226,80 gramas) no sculo XI foi conseqncia da ambigidade da libra
(pound), que podia representar tanto um peso quanto uma moeda de conta de
240 pennies. Com o passar do tempo, "marco" tambm se tornou uma moeda
de conta (por exemplo, na Inglaterra, como 13 xelins e 4 pence, ou dois
teros de uma libra, visto ser essa a sua relao com a libra de 12 onas).

Marco Polo (c. 1254-c. 1324) Veneziano de nascimento, Marco Polo viajou
por terra at a China com seu pai e seu tio, e em 1271 entrou a servio de
Kublai Khan. Depois de quase 20 anos, tendo sido empregado em numerosas
misses oficiais, Marco deixou a China e regressou  Veneza. Em 1298 foi
capturado pelos genoveses e, enquanto esteve na priso, ditou sua famosa
Descrio do Mundo a um escritor de Pisa chamado Rusticiano. Esse relato
de suas viagens foi uma das primeiras e detalhadas descries do Extremo
Oriente e das rotas at l, tendo sido traduzido para muitas lnguas.
 H. Yule, The Book of St Marco Polo (1903) [O livro das maravilhas, trad. E.
Braga Jr., Porto Alegre, LPM, 1985; Viajes, trad. J. Barja de Quiroga, Madri,
Akal, 1983; Le livre de Marco Polo, trad. A. Servstevens, Paris, Albin Michel,
1955; 11 milione, org. por R. Allulli, Milo, Mondadori, 3 ed., 1964]
Margarida rainha da Noruega, Dinamarca e Sucia, c. 1388-1412 (n. 1353)
Filha de Valdemar IV da Dinamarca (m. 1375), por volta de 1388 Margarida
foi rainha da Dinamarca e Noruega aps a morte de seu marido, Haakon VI da
Noruega (1380), e do filho do casal, Olavo (1387). Na batalha de Aasle em
1389, ela derrotou e aprisionou seu rival de longa data, Alberto de
Mecklenburgo, rei da Sucia. Em 1397, Margarida uniu os trs reinos pela
Unio de Calmar, ratificada pela coroao de seu sobrinho-neto, Erik de
Pomernia, como rei da Noruega, Dinamarca e Sucia. Margarida continuou
sendo a governante efetiva e recuperou muitas propriedades alienadas para a
Coroa, alm de adquirir Gotland e grande parte do Schleswig.

Margarida, Donzela da Noruega (1283-90) Filha nica de Eric II da Noruega
e Margarida (m. 1283), filha de Alexandre III da Esccia. Com a morte sbita
de Alexandre em maro de 1286, a infanta Margarida foi proclamada rainha
aos 3 anos de idade e seu casamento foi combinado com Eduardo, filho de
Eduardo I da Inglaterra (julho de 1290). ltima da linhagem de Canmore, ela
zarpou da Noruega mas faleceu nas rcades (setembro de 1290). Os dois
principais pretendentes ao disputado trono escocs eram Roberto Bruce e
John Balliol; em novembro de 1292, Eduardo I nomeou John rei da Esccia.
 A.A.M. Duncan, Scotland, the Making of the Kingdom (1975)

Margarida, Santa (c. 1045-93) Esposa de Malcolm III da Esccia e neta de
Edmundo Ironside, rei da Inglaterra em 1016-17. Margarida nasceu na
Hungria, filha do exilado Eduardo Atheling. A partir de 1057, viveu na corte
inglesa mas, depois de 1066, fugiu com seu irmo Edgar Atheling para a
Esccia, onde casou com Malcolm Canmore (c. 1070). Credita-se a
Margarida ter anglicizado e refinado a corte escocesa. Era virtuosa e devota,
de acordo com seu bigrafo Turgot; suas reformas da Igreja limitaram-se,
principalmente, a pontos de observncia. Seus trs filhos, governando
sucessivamente, colocaram a Igreja escocesa mais em conformidade com a
Cristandade ocidental. Margarida foi canonizada em 1249.
 G.W.S. Barrow, The Kingdom of the Scots (1973)
Maria de Borgonha 1477-82 (n. 1456) Herdeira de Carlos, o Temerrio (m.
1477). Seu casamento com Maximiliano I da casa de Habsburgo, em agosto
de 1477, ajudou a salvaguardar parte do Estado borgonhs, vinculando-o
firmemente aos interesses austracos e preparando o realinhamento da
poltica de poder europia, a qual iria culminar no imprio de seu neto, Carlos
V.
 R. Vaughan, Valois Burgundy (1975)

Maria, Santa O culto de Maria, me de Cristo, foi reconhecido na Igreja
primitiva e formalmente aprovado no Conclio de feso em 431. Durante toda
a Idade Mdia, Maria foi venerada como a primeira entre todos os santos,
com uma posio especial -- expressa artisticamente e por escrito -- como
intercessora pelos pecadores no dia do Juzo Final. Suas festas eram
especialmente reverenciadas e desempenhavam um importante papel no
calendrio medieval: a festa da Assuno em 15 de agosto, a Anunciao ou
dia de Nossa Senhora a 25 de maro, a Natividade em 8 de setembro, a
Visitao em 2 de julho e a Purificao aps o nascimento do Cristo a 2 de
fevereiro (Candelria). A dedicao de igrejas a Maria proliferou. Seu papel
tornou-se poderoso, como era de se esperar, na devoo popular; oraes
privadas a Maria passaram a ser uma caracterstica da maioria das literaturas
crists em vernculo, enquanto que a Ave-Maria e os hinos  Virgem
tornaram-se elementos destacados na liturgia e no culto institucional das
Igrejas ocidental e oriental. A nfase crescente sobre a humanidade do Cristo,
que  uma caracterstica marcante da Cristandade ocidental desde fins do
sculo XI, coincide com a crescente glorificao da Virgem.
      O culto de Santa Maria transcendeu todas as fronteiras de classes,
atraindo tanto os elementos cavaleirescos da sociedade quanto os
camponeses. A representao artstica de Santa Maria em Bizncio e no
Ocidente reduziu os elementos formais e estilizados, preferindo concentrar-se
na suavidade, humanidade e feminilidade da me de Cristo.
 M. Warner, Alone of all her sex: the myth and cult of the Virgin Mary (1976)
Marslio de Pdua (c. 1280-c. 1343) Marslio Mainardini principiou
provavelmente sua educao universitria em Pdua e continuou-a em Paris,
onde sua presena est documentada como reitor da Universidade em 1313,
e onde teria estudado filosofia, medicina e, mais tarde, teologia. Aps um
perodo a servio de senhores gibelinos lombardos, regressou a Paris, onde
completou sua principal obra, Defensor Pacis [Defensor da Paz] em 1324.
Quando em 1326 se tornou conhecida sua autoria dessa obra, Marslio fugiu
na companhia do averrosta de Paris, Joo de Jandun, buscando a proteo
do rei dos romanos, Lus, o Bvaro, que tinha sido excomungado pelo papa
Joo XXII; em 1327, seus escritos foram condenados como herticos. Em
1328, acompanhou Lus a Roma e pode ter ajudado a redigir o decreto de
deposio de Joo XXII. Aps seu regresso  Alemanha, parece ter passado
a maior parte de seu tempo na corte de Lus, at sua morte antes de abril de
1343.
       Em Defensor Pacis, Marslio prope-se descobrir a causa principal da
luta que estava destruindo a Itlia e encontrou-a na usurpao da autoridade
secular pelo Papado e a conseqente perturbao da ordem correta de Igreja
e Estado. A primeira das duas partes, ou Discursos, da obra examina essa
ordem no Estado; a segunda, na Igreja; sua finalidade  demolir a doutrina
hierocrtica do Papado. A teoria poltica de Marslio, tal como se expe no
Discurso I, baseia-se em Aristteles mas difere do aristotelismo de seu tempo
em sua concepo radicalmente naturalista do Estado como tendo por funo
exclusiva servir ao homem em sociedade. A lei, como o prprio Estado, 
independente de uma lei superior; sua essncia  a observncia compulsria
do que ela decreta, e sua fonte o povo -- o "legislador humano", ou sua "parte
mais pondervel" -- o qual tambm elege o governo. Por conseguinte, o
governante deriva sua autoridade do povo soberano, que pode corrigi-lo ou
mesmo dep-lo. A teoria do Estado de Marslio aplica-se tanto a monarquias
quanto a repblicas; seus aspectos republicanos relacionam-se com as
instituies e os problemas das cidades-repblica, no perodo inicial de
despotismo. O clero forma parte do Estado e est, como o governante,
sujeito  vontade do povo e, por conseguinte,  do governante que foi por este
eleito. No seio da Igreja, que consiste em clero e laicado, a fonte primordial de
autoridade , por sua vez, o corpo de fiis como um todo, representado pelo
conclio geral, ao qual o papa est sujeito e pelo qual poder ser deposto.
Marslio no s rejeita a doutrina da plenitude papal de poder; ao negar o
primado do Papado, subverte toda a estrutura hierocrtica da Igreja e reverte
o relacionamento estabelecido entre papa e conclio.
      No Discurso II, o "legislador humano" torna-se praticamente sinnimo de
governante e, por conseguinte, dotado de autoridade absoluta. Argumentou-se
que o objetivo bsico da obra foi, desde o comeo, justificar o poder supremo
do imperador. Mais tarde, em Defensor Minor, Marslio certamente usou
concluses obtidas em sua obra principal a fim de garantir os alicerces
tericos para o absolutismo imperial; mas a estrutura Republicana do Estado,
tal como foi exposta no Discurso I,  por demais evidente para que esse
argumento seja plausvel, e  prefervel explicar essa aparente incoerncia
como uma transio do Republicanismo para o Absolutismo. Essa mudana foi
concluda no Defensor Minor, onde Marslio explicitamente afirma que o povo
romano, pela lex regia, conferiu seus poderes ao imperador.
      Depois de juntar-se a Lus, a atividade literria de Marslio foi dominada
pela defesa do Imprio. O De translatione Imperii, embora reproduzindo
praticamente o texto de um tratado papista de Landolfo Colonna, refuta seu
argumento de que o imperador devia sua autoridade ao Papado como
resultado dos papas terem transferido o imprio dos gregos para os francos e
dos francos para os alemes; pois como Marslio j tinha argumentado no
Defensor Pacis, tais transferncias s podiam ser legitimamente decretadas
pelo `legislador humano".
      N o Defensor Minor, composto provavelmente em 1340, Marslio
submete uma vez mais a doutrina papista a uma crtica que, embora
resumindo argumentos expostos em Defensor Pacis (Discurso II), d-lhes
uma tendncia definitivamente absolutista. A segunda parte do tratado refere-
se ao caso matrimonial da condessa de Tirol. Marslio defendeu num trabalho
escrito para esse fim [o Tractatus de jurisdictione imperatoris in causis
matrimonialibus] o direito do imperador de dissolver o casamento anterior da
condessa para que ela pudesse casar com o filho dele; no Defensor Minor,
argumenta ele que o Papado tinha usurpado no s a autoridade temporal
mas             tambm             a             espiritual          do
imperador.                                          NR
 The Defender of Peace, org. por A. Gewirth (1951); Oeuvres Mineures,
org. por C. Jeudy e J. Quillet (1979) [El defensor de la paz, trad. L. Martinez
Gmez, Madri, Tecnos, 1989]

Martinho V papa 1417-31 (n. 1368) Em novembro de 1417, no Conclio de
Constana, o cardeal Odonne Colonna foi eleito papa como Martinho V. Sua
eleio marcou o final do Grande Cisma e o comeo do "Papado da
Renascena". A autoridade de Roma tinha sido seriamente abalada pelo
Cisma e a maior realizao de Martinho foi restabelecer o controle sobre o
Estado pontifcio por meio de habilidosa diplomacia, guerra e nepotismo.
Ops-se fortemente ao movimento conciliar, o qual pretendia submeter o
Papado ao controle dos conclios. Pela prescrio do Conclio de Constana,
o pontfice convocou o Conclio de Pavia-Siena (1423-24), o qual, de maneira
notria, no conseguiu favorecer a causa do conciliarismo. Martinho V esteve
tambm envolvido nas Cruzadas contra os hussitas. Em 1431, aps o
fracasso das foras imperiais na Bomia, Martinho foi forado a convocar um
conclio para Basilia, mas faleceu antes de sua inaugurao.
 P. Partner, The Papal State under Martin V (1958)

Martinho, So (c. 316-97) Bispo de Tours. Pai do monasticismo na Glia,
Martinho era filho de pais pagos, tendo nascido na Pannia e servido no
exrcito romano at sua converso ao Cristianismo. Depois de viver como um
recluso, fundou uma comunidade de eremitas em Ligug, perto de Poitiers,
que se tornou o primeiro mosteiro de toda a Glia. Depois fundou Marmoutier,
nos arredores de Tours, antes de aceitar com relutncia o bispado de Tours,
por volta de 372. Seu discpulo, Sulpcio Severo, descreveu a obra missionria
e os milagres de Martinho em De Vita Beati Martini (c. 410). Martinho morreu
em novembro de 397 em Caudes e foi sepultado em Tours, onde sua igreja se
tornou um centro de peregrinao.
 A. Rgnier, Saint Martin (1925); C. Donaldson, Martin of Tours (1980)

Martini, Simone (c. 1284-1344) Um dos mais influentes pintores de Siena,
Martini foi provavelmente um aluno de Duccio, a quem suplantou em suas
harmonias de luz e cor e em seu desenvolvimento do estilo gtico. Entre suas
obras-primas esto o afresco Maest (1315) em Siena, o polptico de Santa
Catarina (1319), os afrescos da capela de So Martinho na igreja de So
Francisco em Assis, e o famoso trptico da Anunciao (1333). Martini morreu
em Avignon, onde passara a residir desde 1339 sob patrocnio papal.
 M.C. Gozzoli, L'Opera Completa di Simone Martini (1970)

Masaccio (1401-c. 1428) Artista florentino que alterou o rumo da pintura
italiana, afastando-a do estilo decorativo, linear, de seus contemporneos
(Ghiberti, Gentile da Fabriano) -- derivado essencialmente da arte gtica -- e
imprimindo-lhe uma nova concepo de realismo herico. Suas figuras
monumentais, redondas, agrupadas em cenas dramticas, prefiguram as
teorias artsticas de Alberti e refletem o esprito humanista da poca,
resumido pela obra de amigos de Masaccio, Brunelleschi e Donatello.
       Sua maior realizao  o ciclo de afrescos da Capela Brancacci em
Santa Maria del Carmine, Florena (1425-28). A obra no estava concluda
quando Masaccio foi chamado a Roma, onde faleceu com apenas 27 anos de
idade.

Matias I Hunyadi rei da Hungria e da Bomia 1458-90 (n. 1440) Conhecido
por seu nome humanstico, Corvinus, era filho de Jnos Hunyadi, poderoso
comandante-chefe e tesoureiro de Ladislau V, rei da Hungria. A pretenso de
Hunyadi ao trono levou Ladislau a manter Matias como refm (1457); mas,
com a morte de Ladislau V, Matias foi aclamado rei da Hungria e da Bomia
(1458), sendo sua primeira esposa Catarina Podiebrad, filha do regente da
Bomia. Com a assistncia de seu conselheiro, Jnos Vitz, o novo monarca
desenvolveu uma poltica de centralizao, apoiado num quadro de
funcionrios profissionais da corte e num exrcito de mercenrios.
Contornando astuciosamente os poderes da Dieta, procurou introduzir um
regime absolutista mas foi forado a aceitar uma soluo de compromisso
com uma nobreza desconfiada e cautelosa. Estabeleceu uma brilhante corte
humanista internacional em Buda, fundou uma universidade (Academia
Istropolitana) em Pozsony e iniciou um vasto programa de edificaes,
incluindo sua biblioteca (Corvina) e o palcio de vero de Visegrd. Trabalhou
no sentido de construir um imprio centro-europeu, desencadeando as
campanhas tcheca e austraca (1468-85) com esse propsito, e escolheu
Viena (tomada em 1485) para ser a capital. Entretanto, no conseguiu fazer-
se imperador romano do Ocidente, e seu edifcio poltico no sobreviveria 
sua morte.

Matilde (c. 1046-1115) Condessa da Toscana. Matilde foi uma dedicada
defensora do papa Gregrio VII durante toda a Questo das Investiduras, e
continuou apoiando o Papado aps a morte desse pontfice. Em 1077, o seu
castelo em Canossa foi o cenrio da absolvio de Henrique IV por Gregrio
VII. Casada com o filho de Welf da Baviera, Matilde era aliada da famlia Welf
(Guelfo) na rebelio de Conrado contra seu pai Henrique IV (1093). Em 1110,
ela submeteu-se a Henrique V e f-lo seu herdeiro das terras que
anteriormente prometera doar  Santa S; mas, ao morrer, deixou tudo para o
Papado. Essas terras "matildinas" converteram-se em mais outra causa de
arrastada controvrsia entre o Imprio e o Papado.
 H.E.J. Cowdrey, The Age of Abbot Desiderius (1983)

Maximiliano I de Habsburgo imperador romano do Ocidente 1493-1519 (n.
1459) Sua carreira situa-se, efetivamente, no perodo moderno, mas ele deve
ser mencionado em qualquer obra de carter geral sobre a Idade Mdia por
trs razes principais: a unio da herana Habsburgo e de terras
borgonhesas, as tentativas de estabilizao da fronteira do Danbio contra o
Imprio Otomano, e o lento e somente parcial sucesso na construo de
instituies imperiais como a Reichskammergericht (suprema corte de justia)
em 1495. Filho do imperador Frederico III, casou com Maria de Borgonha em
1477 e, pela morte desta (1482), tornou-se regente dos ricos Pases Baixos.
Em 1486 foi eleito rei dos romanos e tornou-se imperador sete anos depois.
 G. Benecke, Maximilian I (1982)

Medici, famlia Famlia de banqueiros florentinos que durante o sculo XV,
embora declarando-se meros cidados particulares, tornaram-se os virtuais
governantes de Florena e prncipes da Renascena. De 1296 a 1314, a
famlia esteve presente no governo, declinando aps o apoio de Salvestro de
Medici  malograda rebelio Ciompi (1370), quando se iniciou a associao
dos Medici com o partido do Povo, o que os tornou suspeitos para as outras
famlias dominantes. Para aliviar a suspeio, Giovanni di Bicci de Medici
(1360-1429) manteve-se fora das vistas do pblico e expandiu seu negcio
bancrio, estabelecendo os Medici como banqueiros papais e construindo o
mais lucrativo negcio de famlia na Europa. O filho de Giovanni, Cosimo de
Medici (1389-1464), ampliou ainda mais o negcio e manteve o envolvimento
no governo; deu continuidade ao mecenato artstico de Giovanni (Ghiberti,
Brunelleschi, Michelozzo, Donatello, Lippi e Fra Angelico) e tornou-se um
humanista, fundando a Academia Platnica e estabelecendo uma biblioteca
magnfica. Em 1439, entrou em entendimentos para que Florena fosse a
anfitri do conclio ecumnico das Igrejas grega e romana. A inveja culminou
na conspirao dos Albizzi, a qual resultou na priso de Cosimo por traio
em 1433. Foi exilado mas chamado de volta em 1434, com a queda dos
Albizzi. Os Medici tornaram-se o discreto poder governante de Florena,
ganhando Cosimo o ttulo de pater patriae.
       Sucedeu-lhe seu filho Piero (1416-69), um bom diplomata que continuou
a poltica de Cosimo de aliana com a Frana. Em 1466, frustrou um golpe
projetado pelo republicano "Partido da Colina", aumentando seu poder.
Tambm patrocinou as artes (della Robbia, Uccello, Pollaiuolo, Botticelli,
Gozzoli, Verrocchio e Poliziano, o poeta).
    Seu filho, Lorenzo, o Magnfico (1449-92), foi talvez o mais famoso dos
Medici. Entretanto, negligenciou seus negcios e, embora sua esplndida
corte inclusse Giovanni Pico, Gentile Becchi, Antonio Squarcialup, Lippi,
Ghirlandaio, Botticelli, Pollaiuolo, Michelangelo e Leonardo da Vinci, o
prspero ramo mais jovem dos Medici, sobretudo Lorenzo di Pierfrancesco de
Medici, investiu mais do que ele. Ressuscitou as Universidades de Pisa e
Florena, e era um provecto humanista e poeta vernculo. Embora menos
aparatoso do que muitos governantes italianos, Lorenzo tinha inimigos: em
1478, uma tentativa de assassinato liderada pelos banqueiros rivais, os Pazzi,
conseguiu matar seu irmo Giuliano; Lorenzo escapou, seguindo-se um
sangrento revide que redundou numa bula de excomunho e num ataque por
foras papais e napolitanas. O desastre s foi evitado pela arriscada visita de
Lorenzo ao rei Ferrante de Npoles para negociar; a paz foi restaurada em
1480. Em 1484, Inocncio VIII, amigo de Lorenzo, foi eleito papa. Lorenzo
no tardou em comear a ditar a poltica da cria e em liderar a maior parte
da Itlia em suas tentativas de unidade. No era um poltico experimentado
mas logrou manter um perodo de paz durante o qual as artes floresceram.
     Sucedeu-lhe em 1492 seu filho Piero di Lorenzo de Medici (1471-1503).
Em 1494, Carlos VIII da Frana atacou a Toscana em seu avano para
reclamar o trono de Npoles. Piero respondeu vigorosamente, mas a populaa
estava paralisada pelas premonies de Savonarola. Piero negociou com
Carlos VIII mas a Signoria de Florena repudiou esse gesto e os Medici
fugiram para Veneza. At 1498, Florena viveu sob o governo teocrtico de
Savonarola. Os Medici vagaram pela Europa, apesar das tentativas de
reintegrao, e Piero morreu a servio da Frana. Seu irmo, o cardeal
Giovanni de Medici, depois papa Leo X (1475-1521), substituiu-o como
paterfamilias. Em 1512, com apoio papal e espanhol, ele expulsou o governo
de Soderini e Maquiavel, recuperando Florena para os Medici. Na poca do
falecimento do ltimo Medici -- Ana Maria, eleitora palatina (1743) -- a
famlia passara a ser a dos gro-duques da Toscana, tendo produzido mais
um papa, Clemente VII, e uma rainha de Frana, Catarina de Medici.
MB
 N. Rubinstein, The Government of Florence under the Medici (1966); C.
Hibbert, The Rise and Fall of the House of Medici (1974); J.R. Hale, Florence
and the Medici (1977) [J. Lucas-Dubreton, A vida quotidiana em Florena no
tempo dos Mdicis, Lisboa, Livros do Brasil, s/d]

medicina Alexandria era a grande escola mdica do mundo clssico, apoiada
nas descobertas egpcias, gregas e do Oriente Mdio. A obra de eruditos
alexandrinos foi compilada, consolidada e ampliada por Galeno (130-201), um
excelente mdico, anatomista e fisiologista, para quem todas as funes
corporais tinham um propsito divino, o que se ajustava ao ethos teleolgico
grego.
      Depois de Galeno, o estudo da medicina declinou, mais lentamente no
Oriente do que no Ocidente. Um exemplo da resistente tradio oriental foi a
enciclopdia de Oribasius (325-403). O conhecimento mdico ocidental estava
confinado ao mundo monstico, o qual considerava a doena um castigo pelo
cometimento de pecados e exigia, portanto, oraes e arrependimento, a par
de cuidados mdicos. Fora dos mosteiros, as comunidades judaicas
prosseguiam com uma vigorosa prtica mdica.
      Muitas das obras clssicas do Mediterrneo tinham sido salvas pela
traduo para o rabe, o que produziu um considervel nmero de figuras
destacadas. Rhazes (c. 860-932), um persa, foi um excelente mdico que
tentou curas para a varola e o sarampo com limitado sucesso; Avicena (c.
908-1037), outro persa, que exerceu grande influncia por causa de sua
posio como mdico da corte, produziu o grande Cnone de Medicina, o
qual impregnou profundamente todas as obras medievais sobre farmacopia e
qumica; finalmente, Averris (1126-98), que era principalmente um filsofo
aristotlico, produziu seu influente Colliget. Essas obras chegaram  Europa
crist atravs de mdicos e tradutores judeus, sobretudo por intermdio da
escola mdica de Crdova graas a seus contatos no Cairo e em Bagd.
Dentre eles, foram de grande importncia os comentrios de Moiss
Maimnides sobre Galeno.
      Foi em Salerno, herdeira de numerosas tradies, que a escola mdica
leiga se desenvolveu no sculo X. Ela tentou colocar a prtica mdica numa
base slida e iria fornecer o exemplo para futuros centros. Por toda a parte os
avanos em medicina e direito estavam interligados, registrando notvel
expanso em Montpellier, Bolonha, Pdua e Paris.
      Embora o Segundo Conclio de Latro (1139) tivesse proibido a prtica
de medicina para ganho material, os conhecimentos e os nmeros de
praticantes aumentaram. Novos mtodos e observaes foram feitos por
homens como Roger Bacon (c. 1214-92) e Alberto Magno (c. 1190-1280). O
professor bolonhs Mondino de Luzzi escreveu sua Anothania (1316), a
primeira obra inteiramente dedicada  anatomia e fortemente influenciada por
Galeno e Avicena. A reintroduo da dissecao humana no campo mdico,
um processo proibido desde o tempo de Erasstrato (c. 300) em Alexandria,
acelerou o ritmo do progresso e preparou o caminho para futuras
descobertas. Os artistas da Renascena, com suas tentativas de desenhar
corpos realistas, refletiram os aperfeioamentos em anatomia e estimularam
novos trabalhos. Paracelso, um insacivel reformador, prescreveu substncias
qumicas para diversos males. Fracastoro (1478-1553) escreveu descries
da sfilis e da contaminao pela peste. Em 1543, Veslio (1514-64) refletiu
esses avanos em seu De Humani Corporis Fabrica Libri Septem, com
observaes anatmicas superiores s de Galeno, se bem que conservando
seus pontos de vista fisiolgicos. CP
 V.L. Bullough, The Development of Medicine as a Profession (1966); C.H.
Talbot, Medicine in Medieval England (1967); P.M. Jones, Medieval Medical
Miniatures (1984)

Melfi, Conclio de Em agosto de 1059, o papa Nicolau II convocou o Conclio
de Melfi como parte de uma tentativa para reduzir a dependncia papal ao
imperador e tambm para responder  ameaa normanda a Estados vassalos
do Papado. No Conclio, Nicolau recebeu preito de obedincia e promessa de
ajuda militar de Roberto Guiscard e Ricardo de Cpua, que ele usou para
entrar em Roma e desalojar o antipapa Bento X. Em retribuio, Nicolau
reconheceu Roberto como duque de Aplia, Calbria e, no futuro, da Siclia, e
Ricardo como prncipe de Cpua. Com esse reconhecimento e encorajamento
papais, os normandos continuaram suas conquistas no sul da Itlia, de modo
que, por volta de 1060, os bizantinos detinham apenas sua capital, Bari. O
imperador germnico reivindicava toda a Itlia como seu domnio, porm o
papa reconhecera a posio dos normandos na pennsula. Assim, o Conclio
foi um ato de deliberado desafio ao Imprio por parte do Papado.
 J.J. Norwich, The Normans in the South (1967)

Melisanda (c. 1102-61) Rainha de Jerusalm. Filha do rei Balduno II (1118-
31), Melisanda casou com Foulques V, conde de Anjou, em 1129 e, pela
morte de seu pai, ela e o marido foram coroados rainha e rei de Jerusalm.
Aps a turbulncia causada pela revolta e subseqente assassinato de seu
amante, Hugo de Puiset, em 1132, ela deu provas de ser uma governante
capaz e continuou exercendo autoridade direta, mesmo depois da morte de
Foulques (1143), como regente em nome de seu filho Balduno III (1144-64).
Balduno afirmou sua independncia num perodo de desordem civil (1150-52)
e Melisanda foi mandada para o exlio em Nablus, onde se manteve como um
ponto focal de influncia na vida social e poltica de Ultramar at sua morte.
 [S. Runciman, Historia de las Cruzadas, 3 vols., Madri, Alianza, 1973]

Merlee, William {fl. c. 1340) Meteorologista e professor em Oxford, Merlee
manteve registros mensais, que foram preservados, do clima na regio de
Oxford de 1337 a 1344. Seu trabalho  uma mistura do crdulo e do cientfico,
mas revela uma percepo consciente dos padres de variabilidade climtica
e tenta, inclusive, fazer algumas previses.

Merovngia, dinastia Afirmando-se descendente de um deus marinho, a
dinastia dos francos slicos conhecida como Merovngia estabeleceu sua
autoridade sobre a maior parte da Glia durante o reinado de Clvis (480-
511). As guerras civis entre seus descendentes eram selvticas e mais ou
menos endmicas, se bem que, de tempos em tempos, o reino fosse
reunificado. No sculo VII e, em especial, depois da batalha de Tertry (687), a
verdadeira autoridade passou para as mos dos prefeitos do palcio,
ancestrais dos carolngios. Mas ficou com os merovngios prestgio mstico e
pessoal suficiente para assegurar-lhes a sobrevivncia como reis simblicos
(rois fainants), e s em 751  que o ltimo deles, Childerico III, foi deposto e
exilado para um mosteiro.
 J.M. Wallace-Hadrill, The Long-haired Kings (1962)

Miguel de Cesena Geral da Ordem Franciscana. Revoltou-se contra o
Papado de Avignon e, em 1328, juntamente com seu proslito, Guilherme de
Ockham, foi buscar a proteo do imperador Lus IV. Apoiou Lus em suas
iniciativas italianas e papais, ao ponto de reconhecer a tentativa frustrada de
entronizar um antipapa.
 L.K. Little, Religious Poverty and the Profit Economy in Medieval Europe
(1979)

Milo Capital da Glia Cisalpina. Foi um importante centro romano
(Mediolanum) at que Honrio transferiu sua capital para Ravena (401).
Tambm possua uma grande herana religiosa -- a promulgou Constantino
seu Edito de Tolerncia (313) -- mas sua identidade religiosa provm do
sculo IV e de Santo Ambrsio, que deu a Milo seu prprio rito, chamado
ambrosiano, e independncia eclesistica.
       A posio geogrfica de Milo, numa frtil plancie atravessada pelas
principais estradas que penetravam na Itlia, tornou a cidade comercialmente
importante, porm vulnervel a invases. Ofuscada por Pavia, Milo foi
sucessivamente governada por duques lombardos e condes carolngios. Seu
significado religioso foi reafirmado por Carlos Magno, e a cidade,
subseqentemente, ficou submetida cada vez mais ao poder de seu
arcebispo, que se tornou o principal latifundirio e suserano. Seus vassalos, a
nobreza (capitanei) e a pequena nobreza (valvassores) ganharam identidade
poltica, ao passo que a Credenza de Santo Ambrsio representava as
classes inferiores.
     Um considervel surto de atividade comercial no sculo X atraiu gente
para a cidade e restaurou sua primazia. Em 1035, os cidados de Milo
revoltaram-se contra o crescente poder do arcebispo Ariberto (1018-45), que
mantinha o apoio dos capitanei. Entretanto, a interveno imperial pr-
revolucionria encorajou a unidade poltica e o resultante conflito de Milo com
Conrado II tornou-se uma luta pela liberdade urbana em que Milo triunfou
(1039). A posterior promoo dos valvassores (atravs da constituio de
feudis) deixou Milo sem uma classe mdia efetiva.
      As reformas religiosas causaram de novo lutas internas em 1045-87,
com as classes baixas milanesas gerando os patarinos, partidrios acrrimos
da Reforma. O resultante enfraquecimento do arcebispado, a crescente
conscincia cvica e um outro boom econmico permitiram a Milo destacar-
se como uma das primeiras comunas, desenvolvendo um consulado por volta
de 1097. A ausncia imperial permitiu o expansionismo econmico at a
interveno de Frederico Barba-Ruiva. Em 1158, ele desencadeou uma
campanha contra Milo, que aderira  Liga Lombarda antiimperial (1167),
acabando por forar Barba-Ruiva a um acordo (Paz de Constana, 1183).
      Durante a dcada de 1180, o consulado foi substitudo por um rbitro
estrangeiro (podest), que se tornou cada vez mais o instrumento das famlias
dominantes. O declnio da Comuna foi acelerado a partir da dcada de 1230
por 20 anos de conflito como lder de uma nova Liga Lombarda contra
Frederico IL De 1253 a 1256, Manfredo Lancia formou a primeira tirania
milanesa e logo a famlia della Torre estabelecia um governo senhorial. Os
della Torre foram substitudos pelos Visconti (c. 1277). Em 1294, Matteo
Visconti foi nomeado vigrio imperial em Milo. De Magnalibus Urbis
Mediolani (c. 1288), de Bonvesino da Riva, descreve Milo como uma urbe
florescente, mas lamenta sua falta de um porto e de concrdia civil. O conflito
economicamente desastroso della Torre/Visconti (guelfo/gibelino) prosseguiu
no sculo XIV, resultando no triunfo dos Visconti. Giangaleazzo Visconti (1385-
1402, duque em 1395) fez de Milo o Estado mais poderoso da Itlia,
estendendo o seu territrio desde o Piemonte at Pdua e as terras da
fronteira de Treviso. Entretanto, o casamento de sua filha Valentina com Lus
de Orlans (1387) instigou as pretenses francesas sobre Milo.
     O governo senhorial parece ter sido benfico. Apesar de elevados
impostos, a economia e a indstria (txteis, armas e armaduras) floresceram,
regulamentos sanitrios combateram a peste e canais (Naviglio Grande)
melhoraram as comunicaes. Giangaleazzo tambm patrocinou as artes: ele
iniciou a catedral de Milo em 1386. Filippo Maria, o ltimo Visconti varo,
faleceu em 1447 e foi proclamada a Repblica Ambrosiana (1447-50).
Francesco Sforza, marido da filha ilegtima de Filippo, deu um golpe (1450) e,
com apoio Medici, estabeleceu a dinastia Sforza. Francesco formou uma
brilhante corte e melhorou Milo  maneira florentina. O desenvolvimento
cultural prosseguiu com seu filho, Ludovico, o Mouro, cuja corte magnfica se
vangloriava de contar com Bramante e Leonardo. Entretanto, os Sforza
sofreram um severo revs com Ludovico e Milo passou no sculo XVI para
mos francesas.
 C.M. Ady, Milan under the Sforza (1907); D. Muir, Milan under the Visconti
(1924) [C. Violante, La societ milanese nell'et precomunale, Bari, Laterza,
1974]

Milo, Edito de Ato de tolerncia promulgado em 313 pelos coimperadores
Constantino e Licnio, ambos de tendncias monotestas. Resultou claramente
de discusses que acompanharam o casamento de Licnio com a meia-irm
de Constantino, Constncia, em Milo.
      No foi essa a primeira tentativa para sustar a perseguio; um anterior
Edito de Galrio (311), baseado no princpio pago de que todo deus tinha
direito a culto, suspendeu temporariamente a perseguio, embora os co-
imperadores Maximino Daia e Maxncio permanecessem hostis. Constantino
tolerou o Cristianismo por razes polticas e pelo papel que, acreditava ele,
tinha desempenhado em sua vitria sobre Maxncio (312).
      O Edito, preservado na Historia Ecclesiastica de Eusbio, estabeleceu o
princpio de tolerncia universal, embora enunciado em termos que tornavam o
Cristianismo a fora positiva, sendo as outras religies permitidas para
compartilhar de sua liberdade. Nenhum dos imperadores honrou isso, tendo
Constantino atacado os arianos e donatistas, e tendo Licnio voltado-se contra
o Cristianismo. Mas a noo de uma religio do Estado foi abolida at o
Cristianismo assumir esse papel, e a tolerncia foi a lei geral do Imprio at
Teodsio I (379-95). A Igreja receberia total compensao pelos confiscos
realizados, e o Cristianismo foi legalmente reconhecido como detentor de
propriedades coletivas. A reao pag foi rpida: Maximino Daia, que deveria
pagar pesadas indenizaes, entrou na Europa mas foi forado a conceder a
mesma liberdade em suas provncias orientais.
 R.A. Markus, Christianity in the Roman World (1974); G. Barraclough, The
Christian World(1981)

milenarismo Crenas milenaristas ou quilisticas (termos derivados das
palavras latina e grega para um milhar) existiram na Igreja primitiva e
receberam renovado impulso quando se avizinhou o ano 1000. As principais
idias envolvidas estavam relacionadas com "a segunda vinda do Cristo", a
noo de um perodo apocalptico de luta entre o Cristo e o Anticristo, entre o
Messias e Sat, e o estabelecimento de uma nova Jerusalm na Terra.
Elementos do pensamento milenarista subsistiram ao longo de toda a Idade
Mdia, na maioria dos movimentos reformistas religiosos, e estavam
normalmente associados a uma excessiva austeridade, a uma expectativa de
um final catastrfico para a sociedade existente, e coincidindo, com
freqncia, com perodos de intensa convulso econmica e social.
 [N. Cohn, Na senda do Milnio, Lisboa, Presena, 1981; H. Franco Junior,
As utopias medievais, S. Paulo, Brasiliense, 1990]

Mirandola, Pico della (1463-94) Filho do prncipe de Mirandola, perto de
Ferrara, este filsofo italiano distinguiu-se de outros platnicos florentinos por
seu interesse na sntese da teologia crist e diversas filosofias, especialmente
o cabalismo judaico e as doutrinas rabes de Averris. Em 1486, Mirandola
defendeu 900 condusiones de vrios filsofos, mas algumas delas foram
condenadas pelo Papado e ele fugiu para a Frana. Por interveno de
Lorenzo de Medici, foi-lhe permitido regressar e permaneceu em Florena at
sua morte prematura aos 31 anos de idade. Sua famosa Oratio de Dignitate
Hominis exaltou a dignidade do homem e sua liberdade para influenciar seu
prprio desenvolvimento espiritual.
 E. Garin, Giovanni Pico della Mirandola (1937)

missi dominici Termo usado para designar os funcionrios oficiais
empregados por reis e imperadores francos para fiscalizar a administrao
provincial. Inicialmente, eram nomeados para comisses ad hoc mas
tornaram-se uma caracterstica regular e integral da mquina administrativa.
Investidos de plena autoridade para corrigir injustias e receber preitos de
vassalagem, eles propiciaram um considervel grau de controle centralizado e
flexibilidade ao sistema de administrao; o Imprio foi dividido em missatica
ou inspetorias itinerantes, tendo cada regio dois funcionrios, usualmente de
categoria episcopal e judicial, para investigar queixas. Essa inovao estava
em declnio no final do sculo IX, refletindo o declnio do poder centralizado no
Imprio.
 EL. Ganshof, Frankish Institutions under Charlemagne (1968)

mistrios A prpria liturgia crist contm elementos teatrais de primeira
ordem, e a partir do sculo XI existem provas evidentes de elaborao da
histria crist, interpretada na forma de mistrios ou autos de milagres nos
adros das igrejas. Nos sculos seguintes, essas pequenas encenaes
receberam uma forma mais sistemtica, tanto na dimenso religiosa quanto na
corporativa urbana. As convenes variavam de rea para rea, mas entre os
temas de maior popularidade estavam as representaes inspiradas no Antigo
e no Novo Testamento: a histria da Criao e o Jardim do den, o Dilvio e a
Arca de No, o nascimento de Cristo, a histria da Pscoa e da Paixo, os
tormentos do Inferno. Com o desenvolvimento das cidades e a maior influncia
exercida pelas guildas, a representao de ciclos de mistrios passou a estar
associada ao ano litrgico e urbano. Na Inglaterra de fins da Idade Mdia, a
criao de autos como os de York, Beverley, Towneley ou Coventry oferece
eloqente testemunho da importncia de representaes teatrais regulares,
freqentemente incorporando elementos de natureza terrena, imoral e satrica,
da vida social da poca.
 R. Woolf, The English Mystery Plays (1972); R.P. Axton, European Drama
of the Early Middle Ages (1974); W. Tydeman, The Theatre in the Middle
Ages (1978)

misticismo Filosofia espiritual que defende a f como sua prpria justificao
e afirma a validade suprema da experincia ntima, tentando apreender a
essncia divina ou realidade ltima das coisas e, por conseguinte, consumar a
comunho com o Altssimo.
      O misticismo no estava limitado ao Catolicismo, ingressando na
tradio muulmana atravs de Algazel (c. 1058-1111) e contribuindo para o
Quietismo, mas seu desenvolvimento medieval estava predominantemente
associado  doutrina crist. Embora elementos msticos ocorram nas
primeiras obras (Pseudo-Dionsio, Santo Agostinho), So Bernardo de
Claraval (1091-1153)  considerado o fundador do misticismo medieval. O
crescimento do misticismo a partir do sculo XII foi, em grande parte, uma
resposta ao crescimento da razo (racionalizao da f por meios objetivos,
como a dialtica). O misticismo tentou cada vez mais utilizar a razo para os
fins especficos da f, e no evit-la. No sculo XII, o misticismo tinha dois
centros: as abadias cistercienses e a abadia escolstica de Saint-Victor, em
Paris. Os principais msticos foram So Bernardo de Claraval, Guilherme de
Saint-Thierry (m. 1148) e Isaac de Stella (1147-69). A filosofia de So
Bernardo era "conhecer Jesus e Jesus crucificado". Pela graa, uma pessoa
ia da humildade ao xtase (contato imediato com Deus), passando pela
compaixo (caridade), abominao dos prprios pecados e contemplao. A
teologia mstica de So Bernardo (a prtica e teoria da vida mstica) era
intensamente pessoal; expoentes subseqentes ocuparam-se mais do
misticismo especulativo (reflexes sobre a vida mstica e suas implicaes
filosficas).
      Os vitorinos, especialmente Hugo de Saint-Victor (1096-1141) e Ricardo
de Saint-Victor (m. 1173), tentaram incorporar a razo num processo que a
transcende. Hugo elaborou uma exposio lgica do misticismo na qual tudo o
que est acessvel  experincia  pertinente para o conhecimento de Deus
atravs da contemplao. So Boaventura e Santa Gertrudes deram
continuidade a essa tradio durante o sculo XIII.
      O florescimento da literatura mstica (sculos XIV-XV) foi, por sua vez,
uma resposta parcial ao nominalismo. Embora ela fosse geralmente
especulativa, tratava da intensificao prtica da vida religiosa, refletida no
uso do vernculo. Os principais msticos desse perodo foram Eckhart, Tauler,
Suso, Ruysbroeck, Santa Catarina de Siena, Ricardo Rolle, Gerson, Dinis, o
Cartuxo (1402-71), e Santa Catarina de Bolonha (1413-63). As contribuies
deles consistiram na racionalizao especulativa da experincia religiosa e
numa concepo da relao da alma e da Criao com Deus. Ver Groote,
Gerhard; Joo Escoto Ergena           MB
 G. Leff, Medieval Thought (1958); D. Knowles, The English Mystical
Tradition (1961); F. Copleston, A History of Philosophy (1963)

morabes Aps o triunfo muulmano na Pennsula Ibrica em meados do
sculo VIII, esse termo foi aplicado queles cristos e judeus que continuaram
vivendo sob o domnio muulmano sem se converterem ao Isl. Gradualmente,
a descrio foi ficando limitada aos cristos, porquanto os morabes foram
cada vez mais identificados como guardies da herana do Catolicismo
visigtico. De 850 em diante enfrentaram perseguies espordicas, s quais
resistiram bravamente. Estavam concentrados em grande nmero nos centros
urbanos, com destaque para Toledo, Crdova e Sevilha.
 [RS. Simonet, Historia de los mozrabes de Esparta, Madri, Viuda de M.
Tello, 1897]

moinhos A moagem do trigo em moinhos manuais era um trabalho lento e
laborioso que foi gradualmente substitudo no comeo da Idade Mdia por
azenhas, moinhos movidos por queda-d'gua, ou, em alguns lugares, por
atafonas, moinhos acionados por fora animal. A moagem podia ser uma
operao tcnica complexa e os moinhos mais elaborados estavam
normalmente associados ao desenvolvimento de uma economia senhorial, na
qual os direitos do senhor sobre a moagem tornaram-se uma condio prvia
sumamente valiosa. Nos pases mais secos do mundo muulmano, onde a
energia hidrulica no era acessvel, um importante avano tcnico foi obtido a
partir do sculo X com a evoluo do moinho de vento. As primeiras
referncias ao uso de moinhos de vento na Cristandade ocidental so do
terceiro quartel do sculo XII, e em fins do sculo XIII tinham-se tornado
familiares nas terras arveis melhor desenvolvidas da Europa. Ver agricultura
 E.J. Kealey, Harvesting the Air (1987) [J. Gimpel, A revoluo industrial na
Idade Mdia, Rio, Zahar, 1977]

monasticismo A palavra "monge" deriva do grego monos, que significa
"solitrio"; o monasticismo cristo, em sua mais antiga forma, era um modo de
vida adotado por ascetas solitrios ou anacoretas. Na Europa ocidental e no
Oriente bizantino, o monasticismo medieval teve sua origem em duas formas
distintas de vida asctica que se manifestaram no Egito no comeo do sculo
IV. Uma delas era a vida eremtica (do grego eremos, "deserto") dos
anacoretas do deserto, cujo pioneiro e lder foi Santo Anto (c. 251-356). A
outra foi a vida cenobtica (do grego koinon, "comum") de monges que
seguem um regime comum em comunidades organizadas, que se diz ter sido
iniciada por So Pacmio (c. 292-346), ao estabelecer comunidades de
homens e mulheres na regio da Tebas egpcia por volta de 320. A vida
cenobtica obteve a aprovao de So Baslio de Cesaria, que promoveu o
ideal das Igrejas orientais, onde suas Regras para monges o levaram a ser
considerado o pai do monasticismo ortodoxo. A tradio monstica do Egito
foi transmitida ao Ocidente no final do sculo IV, atravs da disseminao da
literatura acerca dos padres do deserto e da migrao de ascetas como Joo
Cassiano, que se instalou na Glia meridional. Os escritos de Cassiano
contriburam muito para formar uma tradio monstica ocidental.
      Durante os sculos V e VI, os mosteiros multiplicaram-se na Itlia, Glia,
Espanha e Irlanda. Na Glia e na Inglaterra anglo-saxnica, as fundaes
monsticas vieram na esteira das misses crists aos povos germnicos. O
monasticismo celta da Irlanda foi importado na Europa pela misso de So
Columbano, que fundou os famosos centros de Luxeuil e Bobbio. Uma das
instituies da Glia do sculo VII, reproduzida na Inglaterra, foi o mosteiro
duplo -- um estabelecimento para monges e monjas, vivendo em aposentos
separados, sob a direo de uma abadessa, usualmente uma pessoa de
sangue real. Nesse perodo inicial, a observncia variava. As Regras para
monges foram compostas por Columbano, Cesrio de Aries e outros, mas
nenhuma Regra obteve aceitao geral com excluso das demais. A Regra
composta pelo abade italiano So Bento de Nrsia (c. 480-c. 550) s
gradualmente se tornou conhecida no norte da Europa.
       So Bento, que adquiriu experincia como guia de sua prpria instituio,
fundada em Monte Cassino, considerou um mosteiro uma comunidade isolada
e auto-suficiente, dirigida por um paterfamilias eleito -- o abade -- e unida
pelas virtudes monsticas de obedincia, pobreza pessoal e humildade. O dia
do monge seria preenchido com uma srie equilibrada de preces vocais (o
ofcio divino), trabalho manual e leitura espiritual. Sua combinao de
conselhos espirituais judiciosos e de ateno a detalhes prticos recomendou
a adoo da Regra de So Bento por muitos fundadores monsticos dos
sculos VII e VIII na Glia e na Inglaterra; mas foi no sculo IX que passou a
ser considerada o modelo para a observncia monstica no Ocidente, em
grande parte atravs da promoo ativa de Carlos Magno e Lus, o Piedoso,
que impuseram a Regra Beneditina s abadias existentes em seus domnios.
     Beneficiadas por generosas doaes dos governantes seculares, as
abadias beneditinas da era Carolngia converteram-se em centros de erudio
clssica e patrstica, e abades sbios como Rbano Mauro de Fulda e
Walafrid Strabo de Reichenau contriburam de forma significativa para a
Renascena Carolngia. Mas a guerra civil no Imprio e os crescentes ataques
dos vikings tornaram os ltimos anos do sculo IX pouco propcios para
monges. Muitas abadias foram destrudas, comunidades foram dispersas e a
observncia regular declinou. O ressurgimento da vida beneditina regular no
sculo X promanou principalmente de dois centros: Cluny, fundado pelo duque
Guilherme de Aquitnia em 909, e a abadia lotarngia de Gorze, restaurada
em 933. Graas a um raro grau de autonomia, ao legado de seu fundador e a
uma sucesso de notveis abades, a observncia de Cluny expandiu-se
rapidamente; pela poca do abade Hugo de Semur (1049-1109), a Ordem j
adquirira um imprio de vrias centenas de abadias e priorados subordinados
em muitas partes da Europa. Os costumes de Gorze foram adotados por
numerosas abadias alems. Cluny e Gorze herdaram a tradio Carolngia de
observncia, com seus grandemente ampliados ofcios corais, devoo ao
ritual litrgico e erudio. Embora o ressurgimento monstico ingls do sculo
X no fosse diretamente patrocinado por Cluny, a regulamentao comum dos
monges ingleses, compilada em 970 (Regularis Concordia), apoiou-se
substancialmente nos costumes de Cluny e Gorze.
       Os dois sculos seguintes  fundao de Cluny foram o apogeu do
monasticismo beneditino. As abadias tinham um claro papel social como
corporaes fundirias, como centros de cultura e de estudo, de produo de
livros, de mecenato das artes e da arquitetura, e como guardies de famosos
relicrios e tmulos de santos, focos de peregrinao e de religio popular. A
propriedade de latifndios envolvia muitos monges em tarefas gerenciais.
Tambm envolvia as abadias em obrigaes pblicas associadas ao senhorio
de terras numa sociedade feudal -- jurisdio senhorial sobre os locatrios ou
rendeiros, comparecimento aos conselhos reais e o1 requisito de fornecimento
de um determinado contingente de cavaleiros para os exrcitos reais.
      No sculo XI, o descontentamento com a riqueza e o envolvimento
secular das abadias mais antigas e de sua elaborada observncia litrgica
comeou se expressando numa busca de formas novas e mais simples de
vida asctica. Alimentada por um crescente sentimento histrico, a busca foi
procurar sua inspirao nos modelos oferecidos pela Antigidade crist: as
Vidas dos padres do deserto; a Vida da Irmandade Apostlica (vita
apostolica) descrita em Atos dos Apstolos, V:42-44; e a prpria Regra
Beneditina. Dessa crise resultaram diversas novas Ordens. Um movimento
eremtico na Itlia central cristalizou-se na Ordem de Camaldoli, fundada por
So Romualdo (c. 1020). Um movimento semelhante na Bretanha e no Maine,
liderado pelo pregador itinerante Roberto de Arbrissel, deu origem  Ordem
de Fontevrault (c. 1100), que combinou monjas e cnegos em. mosteiros
duplos; isso, por sua vez, forneceu um modelo para os mosteiros duplos da
puramente inglesa Ordem de Sempringham. O mais duradouro plano para
institucionalizar a vida anacortica foi o elaborado pela Ordem Cartuxa, que
nasceu do eremitrio misto de solido e vida em grupo nos Alpes, fundado por
volta de 1082 por Bruno de Colnia, e depois transferido para o local da
Grande Cartuxa.
       Uma antiqussima crena segundo a qual os apstolos eram monges e o
monasticismo era a expresso autntica da vita apostolica, inspirou os
argumentos dos reformadores eclesisticos de que o clero secular devia
renunciar ao casamento e  propriedade, e viver em comunidade como
monges. Em resposta a essa propaganda, comearam a surgir em meados
do sculo XI casas de cnegos regulares, monges clericais. Mais adiante,
ainda nesse sculo, eles adotaram geralmente a Regra de Santo Agostinho
mas, no mbito dessa constituio muito genrica, suas observncias
variaram consideravelmente. Algumas Ordens adotaram uma vida austera de
estrita clausura, tomando por modelo os cistercienses (por exemplo, os
cnegos de Arrouaise e os premonstratenses); outros optaram por um regime
mais moderado e viveram numa variedade de instituies: priorados grandes e
pequenos, captulos de algumas catedrais, hospitais, capelas de castelos, e
lado a lado com comunidades de monjas.
      Das muitas Ordens que procuraram restaurar a primitiva observncia da
Regra Beneditina, a maior e mais dinmica foi a Ordem de Cister -- os
cistercienses. Originria de uma secesso da abadia de Molesme liderada
pelo abade Roberto em 1098, ela expandiu-se com extraordinria rapidez
aps a chegada de So Bernardo em 1112. A essncia da reforma
Cisterciense era a estrita observncia da Regra, o restabelecimento do
trabalho manual, voltando a dar-lhe o lugar que ocupava na vida do monge, e,
primeiro que tudo, a rejeio de fontes habituais de renda como servos,
arrendamentos e igrejas. Para cultivar suas terras, os cistercienses usavam
conversi ou irmos leigos iletrados, recrutados no campesinato numa escala
sem precedentes. A mais distinta caracterstica da Ordem era sua forte
organizao federal, baseada num sistema de filiao e superviso por um
Captulo Geral, ao qual compareciam anualmente todos os abades em Cister
(Cteaux). Essas disposies estavam exaradas na Carta Caritatis cuja
primeira verso, composta por Estvo Harding antes de 1118, foi
posteriormente ampliada  luz da experincia.
     A proliferao de Ordens nos cem anos anteriores levaram o Quarto
Conclio de Latro a proibir mais inovaes (1215): no futuro, os candidatos a
fundadores deveriam escolher uma Regra existente. Por essa altura, a grande
poca da vocao monstica chegara ao fim. O nmero de monges em muitos
mosteiros beneditinos declinou, devido em parte ao fato de ter cado em
desuso a prtica (autorizada por So Bento) de doar crianas para serem
educadas como monges e, em parte,  proliferao de formas alternativas de
vida religiosa, especialmente a de frades. A recusa de algumas abadias
alems, como Reichenau, em aceitar postulantes que no fossem de estirpe
nobre deixou-as, em fins da Idade Mdia, com poucos monges. Apesar do
surgimento de algumas congregaes de estrita observncia, como os
olivetanos na Itlia e a congregao de Melk na ustria, de um modo geral
preponderou uma forma de vida beneditina mais branda no ltimo quartel da
Idade Mdia, a qual recebeu o reconhecimento formal nas Constituies do
papa Bento XII em 1336. Monges passaram a freqentar universidades e o
estilo de vida de muitas abadias pouco se distinguia do de um colgio do clero
secular. Ver agostinianos, cnegos; Beguinas; carmelitas; Cartuxa, Ordem;
Domingos, So; Francisco de Assis, So; Norberto de Xanten, So; Regularis
Concrdia                    CHL
 Western Asceticism, org. por O. Chadwick (1958); C.N.L. Brooke, The
Monastic World 1000-1300(1974); L.K. Little, Voluntary Poverty and the Profit
Motive in Medieval Europe (1978); C.H. Lawrence, Medieval Monasticism
(1984) [D. Knowles, El monacato Cristiano, Madri, Guadarrama, 1969, B.
Bolton, A reforma na Idade Mdia, Lisboa, Edies 70, 1986]

mongis Povo nmade da sia Central cuja ascenso ao poder deve ser
atribuda a Gngis Khan (n. c. 1154), que uniu as tribos turcas e monglicas e
foi eleito seu chefe supremo em 1206.  data de sua morte (1227), a
influncia dos mongis estendia-se do Adritico ao Pacfico. Expandiram-se
numa larga faixa que atravessou a China setentrional (1211-15), tomando
Pequim e todas as terras ao norte do Huang-Ho (rio Amarelo). Voltaram-se
depois na direo oeste (1220-21), atravessaram a Prsia numa investida
irresistvel e derrotaram em 1223 os prncipes russos que tentavam det-los
no rio Kalka. Esses avanos foram depois consolidados: em 1237-38, os
principados russos foram devastados e em 1240 Kiev era saqueada. Os
mongis marcharam para oeste, rumo  Polnia e  Hungria, destruindo
Cracvia e um numeroso exrcito germano-polons em Legnica (1241).
Ocuparam Bagd em 1258 mas essa expanso desenfreada foi finalmente
sustada pela vitria mameluca de Ayn Jalud.
       Com a morte de Mongke (1258), a frgil unidade dos mongis foi
dividida em quatro principais Canatos: o Gr-canato, o canato de Changatai, a
Horda de Ouro e o Il-khanato.
       Sua organizao social, baseada no pastoreio e numa estrutura tribal
descentralizada, facilitara a expanso mongol; novos territrios tinham sido
assimilados na estrutura preexistente. Dependiam essencialmente do poder
militar, de seu talento para impor o terror e de sua habilidade para extorquir
tributos das populaes subjugadas. Entretanto, o costume de dividir heranas
criou excessiva fragmentao e conseqentes conflitos internos. Os efeitos
mais completos disso ocorreram simultaneamente  ascenso de novos e
poderosos rivais. O canato de Changatai caiu em poder de Tamerlo (1379).
A Horda de Ouro, desmantelada por Timur, foi derrotada e contida pelos
ressurgentes prncipes russos.
    Dentro da Cristandade, foram esboadas tentativas de coalizo com os
mongis contra os turcos. Vrios emissrios foram enviados para tratar com
os cs, mormente o franciscano Guilherme de Rubrouck, mas sem xito.
Entretanto, o comrcio funcionava e artigos de luxo orientais foram um
importante estmulo para viagens, comrcio e trocas europeus. Ver Kublai
Khan
 M. Prawdin, The Mongol Empire (1940); G. Vernadsky, The Mongols and
Russia (1933); C.J. Halperin, Russia and the Golden Horde (1985)

monofisismo Movimento cismtico e, em ltima instncia, hertico, que se
propagou do Egito ao Oriente, tendo por origem a exagerada insistncia em
uma s natureza do Cristo. Essa abordagem levou Diodoro de Tarso a referir-
se a Maria como Christokos ("portadora do Cristo"), um ponto de vista
esposado por Nestrio. Para defender a ortodoxia, So Cirilo tinha
empregado uma frmula apolinarista, a de uma natureza do Deus encarnado.
Seu uso da frase era rigorosamente no-hertico, mas havia um problema no
uso da palavra "natureza" (physis). Quando os telogos do Conclio de
Calcednia (451) e, antes deles, Nestrio, falaram de duas naturezas,
empregaram uma interpretao tradicional da palavra physis em que ela 
inteiramente distinta da hipostasis (substncia), tal como  usada na teologia
da Trindade para as pessoas. Os monofisistas rejeitaram a doutrina de
Calcednia e o argumento de Cirilo por razes mais semnticas do que
doutrinrias. Telogos como Severo de Antioquia apresentaram uma slida
base teolgica para o movimento. Eles no eram herticos formais porquanto
mantiveram totalmente a integridade das duas naturezas, sem se confundirem,
no Cristo depois da Encarnao. Apenas alguns grupos dispersos
sustentaram a posio hertica de que a divindade do Cristo absorvia a
humanidade, ou vice-versa. Tentativas imperiais foram feitas para acomodar
os dissidentes, com pouco xito. Finalmente, o Conclio de Constantinopla
(553) restringiu severamente a posio teolgica do monofisismo; isso foi
parcialmente bem-sucedido, mas deu oportunidade para o surgimento de
novas heresias.
 W.H.C. Frend, The Rise of the Monophysite Movement (1972)

monotelismo Heresia cristolgica do sculo VII que se originou nas tentativas
dos ortodoxos, muitas vezes por motivos polticos, de fazer os monofisistas
regressarem  ortodoxia. Usaram frmulas que expressaram existir em Cristo
somente uma operao (energeia) proveniente de uma nica vontade (mono
thelema). Embora o mono-energismo pudesse denotar uma nica operao
coordenando as vontades divina e humana em Cristo, isso foi popularmente
entendido como uma nica fonte que destrua o livre-arbtrio do Cristo. Essa
tendncia para uma acomodao com os monofisistas refletiu-se no Ato de
Unio (633) do imperador Herclio, um documento fortemente influenciado
pelas idias de Srgio I, patriarca de Constantinopla. O monge Sofrnio de
Jerusalm deixou isso bem claro a Srgio e, ao ser elevado ao Patriarcado de
Jerusalm em 634, remeteu a Roma sua Epstola Synodica, expondo os
perigos.
     Seus temores concretizaram-se na imperial Ecthesis de Herclio (638),
que Joo IV (640-42) condenou num snodo romano. Em 647, o papa Teodora
I excomungou Paulo, patriarca de Constantinopla, por no ter condenado o
monotelismo, e quando o imperador Constante II promulgou um typos (regra
para a f), o novo papa Martinho I viu-se forado a condenar formalmente o
monotelismo no snodo. O imperador reagiu capturando o papa, levando-o
para Constantinopla, torturando-o e finalmente exilando-o. Em 680-81, o
sucessor de Constante II, Constantino IV, autorizou o Conclio de
Constantinopla, convocado pelo papa Agato. Isso eliminou os mal-entendidos
afirmando que as duas atividades naturais e as duas vontades naturais
existiam, embora mantendo o livre-arbtrio do Cristo. Sublinhava a
inseparabilidade, distino e harmonia dessas duas vontades em Cristo,
desse modo refutando claramente os princpios bsicos do monotelismo.
 J. Meyendorff, Christ in Eastern Christian Thought (1975)

Montpellier Uma das principais escolas de medicina da Europa, Montpellier
foi reconhecida como universidade em 1220. A prpria sociedade, no
Languedoc, tinha florescido no sculo XII e desempenhado um papel
importante no ressurgimento comercial que acompanhou o movimento das
Cruzadas e a vitalidade geral do comrcio mediterrneo. Mantinha estreitos
vnculos com o reino de Arago e contava tambm com uma influente
populao judia que se mostrou ativa no estudo de medicina e na fundao da
universidade.
 A.R. Lewis, "The Development of Town Government in Twelfth-Century
Montpellier", Speculum, 22 (1947)

mosaico A Idade Mdia foi a grande poca da produo de mosaico.
Embora os mosaicos tivessem sido largamente usados no mundo antigo, seria
no perodo cristo primitivo que os mosaicistas comeariam a cobrir vastas
superfcies murais e abbodas com "pinturas" em pequenos cubos de
mrmore e vidro. No sculo XIV, os mosaicos foram gradualmente
suplantados por afrescos, que ofereciam uma alternativa mais rpida e menos
dispendiosa aos clientes e artistas da poca. Tal como no buon ou verdadeiro
afresco, a parede ou abboda era primeiro coberta com uma camada mdia
ou fina de gesso, a qual servia de base para as camadas finais de gesso
fresco. Os mosaicistas ocidentais e bizantinos, segundo parece, delineavam
ento a composio na camada seguinte de gesso. Em Bizncio, os
mosaicistas pintavam, por vezes, uma verso completa da cena em afresco,
para guiar o artista na seleo e distribuio de cor, fase usualmente
dispensada no Ocidente. Finalmente, os cubos de vidro e mrmore eram
inseridos numa fina camada de gesso, e o mosaicista trabalhava em pequenas
sees conhecidas como giornate, ou a quantidade de parede que pode ser
coberta num dia de trabalho. Numerosos ciclos completos de mosaico existem
ainda hoje, como na catedral de Monreale, Siclia, ou no batistrio de
Florena. [343]
 O. Demus, Byzantine Mosaic Decoration (1947); H.P. L'Orange e P.J.
Nordhagen, Mosaics from Antiquity to the Early Middle Ages (1966)

Moscou Localizada junto s vias navegveis que ligavam Vladimir a Riazan e
aos caminhos terrestres que evitavam as florestas impenetrveis, Moscou
surgiu no sculo XII como uma comunidade comercial. Em 1156, Yuri
Dolgoruki, prncipe de Suzdal, edificou uma cidadela de madeira -- o Kremlin
-- para ajudar a proteger os mercadores. A atitude dos trtaros em relao a
Moscou ajudou a cidade a adquirir posio de destaque entre os povos
eslavos orientais. A tolerncia trtara para com a Igreja e sua disposio de
manter abertas as rotas comerciais do Ocidente foi correspondida pelos
prncipes moscovitas que atuaram como cobradores de impostos para os
mongis. Embora devastada pela Horda Mongol em 1238 e 1293, Moscou
emergiu nesse clima rude como foco de um novo movimento centralizado para
substituir Kiev. O declnio simultneo de Vladimir, saqueada e arrasada pelos
trtaros, e a mudana do metropolita russo (1341) da para Moscou,
estimularam ainda mais a evoluo desta ltima.
       A progressiva desintegrao da Horda e a adoo pela Litunia do
Catolicismo romano (1386-87), propiciaram a Moscou a oportunidade de
estabelecer-se como lder dos eslavos ortodoxos. Em 1380, Dimitri Donskoi
derrotou fragorosamente os trtaros em Kulikova-sobre-o-Don mas, dois anos
depois, a Horda revidou, ocupando e arrasando Moscou. Uma nova cidade de
pedra foi construda, a qual repeliu os trtaros em 1408. Os governantes
moscovitas prosseguiram em sua poltica de ataque quando os trtaros
sucumbiram diante da irresistvel ofensiva de Tamerlo, embora a expanso
territorial fosse lenta at Iv III conquistar Novgorod em 1478.
       A riqueza de Moscou dependia do comrcio, especialmente em peles e
indstrias manufatureiras de artesos especializados, cuja produo revelava
uma profunda influncia bizantina. Quando o governo do czar, sua corte,
conselho e assemblia a se instalaram, Moscou tornou-se a protocapital de
um Estado em expanso. a J. Fennell, The Crisis of Medieval Russia (1983);
H. Paskiewicz, The Rise of Moscow's Power (1984)

Murad II (1404-51) Sucedeu a seu pai, Maom I, como sulto dos turcos
otomanos em 1421 e em 1425 forou Constantinopla a pagar um tributo anual.
Em 1430 tomou Tessalnica, que um filho do imperador bizantino vendera aos
venezianos em 1423. Trs anos aps sua vitria, Murad casou com a princesa
srvia Mara para consolidar seus avanos europeus. Sua constante
progresso nos Balcs foi sustada em 1443 por uma contra-ofensiva hngara
comandada por Jnos Hunyadi, que retomou Sfia e Filipolis (Plovdiv). Murad
deteve os cristos com sua esmagadora vitria em Varna, em 1444. Afastou-
se dos assuntos polticos, deixando-os sob a responsabilidade de seu filho,
Maom II, cujo sultanato terminou em caos (1444-46). Murad retomou ento o
controle e quando os hngaros, sob o comando de Hunyadi, desencadearam
uma nova ofensiva, ele infligiu-lhes um golpe arrasador na segunda batalha de
Kosovo (1448). Antes que Murad pudesse tirar todo o proveito dessa vitria,
ele faleceu em Adrianopla, mas seus avanos forneceram a base para futuras
vitrias.
 H.J. Magoulias, Decline and Fall of Byzantium to the Ottoman Turks (1975)

mulheres Elas emergem das fontes medievais com mltiplas aparncias. Uma
imagem duradoura  a grande dame adorada  distncia por seu cavaleiro,
conforme descrita do sculo XII em diante nas novelas de cavalaria. Sua
anttese  a imagem das mulheres em pactos matrimoniais, como
mercadorias a serem avaliadas de acordo com a herana ou o dote que
traziam com elas. O culto da Virgem Maria, popular em toda a sociedade
desde o sculo XI, era um equivalente eclesistico do amor corteso, o qual
destacava a me do Cristo como figura simultaneamente divina e maternal.
Seu oposto era a forte tradio misgina herdada de So Paulo e dos escritos
patrsticos, que retratavam a mulher como Eva, a suprema tentadora e
obstculo para a salvao; era melhor casar do que se consumir -- mas no
muito melhor -- e um homem decidido a levar uma vida santa deveria
ingressar numa ordem religiosa. Essas idias variveis e freqentemente
contraditrias sobre as mulheres so sintomticas da natureza complexa e
multiforme de seu status e funes na sociedade medieval.
     A grande maioria das mulheres vivia e morria totalmente sem histria,
quando trabalhava no campo, na lavoura e no lar. E provvel que, no incio da
Idade Mdia, em grande parte da Europa ocidental, a expectativa de vida
para mulheres fosse muito inferior  dos homens, e as mulheres como
trabalhadoras e geradoras de filhos podiam ser, portanto, uma valiosa
mercadoria. No sculo XI, entretanto, o desequilbrio inverteu-se. Movimentos
religiosos populares foram uma sada para os excedentes femininos, mas a
maioria das mulheres trabalhava para sustentar-se. Muitas delas na Idade
Mdia eram trabalhadoras agrcolas e a rudeza de suas vidas  captada no
Piers Plowman, de Langland. O trabalho domstico podia ser um fardo
igualmente opressivo para as mulheres pobres, no entanto para a poetisa
francesa do sculo XV, Cristina de Pisa, a vida de camponesas prostradas de
cansao podia dar-lhes "maior suficincia do que algumas que so de elevado
status". Outras mulheres trabalhavam em comrcios como a venda de vveres
e bebidas, confeco de roupas ou em artesanatos. As esposas de
mercadores e comerciantes estavam freqentemente envolvidas nos negcios
dos maridos, e podiam optar por prosseguir neles quando vivas. As mulheres
de burgueses ricos, de cavaleiros e da nobreza eram responsveis pela
organizao no s do funcionamento de suas casas mas tambm da
economia domstica, o que podia ser uma pesada responsabilidade.
     Na nobreza, o casamento era um fator crtico na transmisso de terra e
de feudos, e era combinado pelas famlias com grande cuidado, quase
sempre com escassa considerao pelas preferncias das duas pessoas
mais diretamente envolvidas, uma das quais poderia ser ainda criana, quando
no ambas. Somente em perodos e lugares onde mulheres tinham direitos
pessoais sobre terras, elas tinham independncia. O direito romano mais
recente tinha colocado a mulher no-casada em regime de tutela, mas as
represses caram gradualmente e, no sculo X, na Espanha e no sul da
Frana, as mulheres herdavam terras em igualdade de condies com os
homens. Em contraste, na Alemanha do sculo XIII, a herana feminina de
terras, embora comum, ainda era vista mais como um privilgio do que um
direito. Os costumes feudais eram propensos a rejeitar as mulheres como
demasiado fracas para executar servios militares, e normalmente tutores
executavam-nos em seu lugar; poderiam ser maridos ou suseranos, e estes
ltimos tinham controle sobre os casamentos de suas tuteladas. Nas
sociedades onde a primogenitura masculina era um padro comumente aceito
de herana, as mulheres eram indesejveis como herdeiras, noo levada ao
extremo na Frana do sculo XIV, onde, pela elaborao da chamada lei
slica, elas foram excludas da sucesso ao trono.
      No topo da sociedade, porm, algumas mulheres lograram exercer
enorme poder e umas poucas tornaram-se imperatrizes ou rainhas por suas
prerrogativas legtimas. Como foi descoberto por Urraca, que se tornou rainha
de Castela em 1109, e pela imperatriz Matilde, herdeira de Henrique I (1100-
35) da Inglaterra e Normandia, o governo de uma mulher gerava
freqentemente oposio e rebelio. Melisanda, rainha de Jerusalm por
direito prprio, foi bem-sucedida, no entanto, em defender sua coroa e seu
reino, e atuou como co-governante com seu filho, Balduno III, na dcada de
1140. Deve-se tambm levar em conta as rainhas-regentes. Duas rainhas
merovngias do final do sculo VI e do sculo VII, Brunilde e Batilde, atuaram
efetivamente nessa condio em nome de seus filhos e asseguraram a
sucesso de suas dinastias sem quebra de continuidade. No sculo XIII,
Branca de Castela foi regente em nome de seu jovem filho Lus IX da Frana,
e reteve o controle do reino diante de uma oposio obstinada. Um sculo
antes disso, Leonor, duquesa da Aquitnia, levou suas terras a dois
sucessivos maridos, os reis francs e ingls, desse modo alterando
dramaticamente o equilbrio de poder entre eles. Muitas rainhas consortes
exerceram considervel autoridade; algumas, como Isabel da Frana, esposa
de Eduardo II da Inglaterra, contriburam de forma decisiva para a deposio
de seus maridos. Ocasionalmente, mulheres comandaram exrcitos ou, como
Joana d'Arc, forneceram inspirao e direo. O resultado foi terem sido
descritas por autores contemporneos em termos nada lisongeiros, como
"mulheres-machos" e "Jezebel"; e Joana d'Arc foi condenada  morte na
fogueira por heresia e bruxaria.
     A vida religiosa propiciava uma vocao ou um respeitvel refgio do
mundo tanto para homens quanto para mulheres, porm muito mais
oportunidades eram oferecidas aos homens. Antes do sculo XII, o
monasticismo feminino estava circunscrito a meia dzia de ricos e
aristocrticos conventos para freiras, como Whitby na Nortmbria ou
Quedlimburg na Saxnia. A, as abadessas gozavam de muita independncia
e autoridade mas suas comunidades eram uma minoria; na Inglaterra pr-
conquista, por exemplo, havia apenas um convento de freiras para cada
quatro mosteiros de monges. Os movimentos de reforma monstica dos
sculos XI e XII pouco resultado trouxeram para as mulheres religiosas: as
freiras cistercienses eram mantidas  distncia, e firmemente confinadas por
seus irmos. No sculo XIII, os franciscanos tambm imporiam a suas monjas
uma rigorosa clausura. A tradio de ricas fundaes reais e aristocrticas,
das quais a Ordem de Fontevrault  um destacado exemplo, manteve-se
durante toda a Idade Mdia; mas havia crescente presso por parte de
mulheres em todas as camadas da sociedade para serem aceitas na vida
religiosa. O resultado foi a fundao de muitos conventos pequenos no final do
sculo XII e durante o sculo XIII, o crescimento do movimento das Beguinas
e a criao de outras ordens femininas, como as brigidinas. As heresias que
permitiram s mulheres desempenhar um papel significativo (com o
valdensismo e, mais tarde, o lolardismo) tambm foram comprovadamente
populares. Mulheres msticas e eremitas, como Cristina de Markyate, no
sculo XV, retornaram, em sua existncia solitria, s mais antigas razes da
vida monstica no deserto. Seu rigor e ascetismo contrasta com o modo de
vida bastante confortvel em muitos conventos do final da Idade Mdia,
simbolizado pela prioresa de Chaucer, mas ambas as formas de vida religiosa
ofereceram s mulheres um refgio igualmente respeitvel do
mundo.             EMH
 Medieval Women... Dedicated to Professor Rosalind M.T. Hill, org. por D.
Baker (1978); P. Stafford, Queens, Dowagers and Concubines (1983); M.W.
Labarge, Women in Medieval Life (1986); S.M. Stuard, Women in medieval
history and historiography (1987) [E. Power, Les femmes au Moyen Age,
Paris, Aubier, 1979; J.R. Macedo, A mulher na Idade Mdia, S. Paulo,
Contexto, 1990]

msica O quadro de atividade musical na Idade Mdia depende
substancialmente da natureza e extenso das provas que existem para
document-lo. Os sistemas de notao, fornecendo indicao de altura de
som e ritmo, s entraram em uso geral no sculo XI e, mesmo ento,
careciam da preciso posteriormente alcanada. Alm disso, provm
basicamente dos crculos letrados da Igreja, e a maior parte da atividade
musical fora desses crculos -- e, na verdade, muito da que decorria no
interior dos mesmos -- no deixou qualquer prova direta. A msica era
essencialmente criada e transmitida no mbito de uma cultura oral, mesmo
quando essa cultura era refinada e, sob outros aspectos, culta. Na falta de
sistemas generalizados e inequvocos de notao, devem ser usadas outras
provas para avaliar esse rico e variado perodo da histria musical. A
informao pode ser coligida com base em fontes literrias e pictricas, e as
descobertas arqueolgicas revestem-se de especial valor na indicao do uso
de instrumentos musicais, o que est quase inteiramente ausente da msica
anotada at os sculos finais desse perodo. Tambm  possvel que, nas
msicas "populares" ou "primitivas" existentes, nas quais as mudanas so
comparativamente lentas, estejam preservados elementos de prtica
medieval.
       A liturgia da Igreja crist, com seu ncleo relativamente estvel, fornece
a maior parte das nossas fontes. A msica era usada na Igreja apostlica; nos
primeiros trs sculos, o repertrio estava razoavelmente unificado, derivando
da msica de sinagoga. A forma sob a qual se apresenta na Europa na mais
antiga notao existente, dos sculos VIII a X,  a de um repertrio
desenvolvido que varia no estilo entre a "fala impostada" da recitao de
salmos e os cnticos antifnicos e responsoriais extensa e melodicamente
elaborados da missa e do ofcio. A diversidade , em parte, um reflexo das
influncias que devem ter sido exercidas sobre a msica litrgica nos
primrdios da Idade Mdia, destacando-se entre elas as prticas extra-
eclesisticas e os desenvolvimentos locais. Muitas caractersticas do
cantocho possuem amplos paralelos em formas primitivas que teriam sido
comuns na prtica secular ao longo do perodo. A seqncia altamente
desenvolvida, por exemplo, gnero requintado no texto e na msica de
meados do sculo IX, pode muito bem ter tido sua origem na prtica secular
dos msicos cantarem diferentes canes alternadamente. As prticas locais
resultaram em diversidade nos repertrios e nos mtodos de execuo e
desempenho. Tudo isso foi motivo de glosas e comentrios, e foram
realizadas tentativas no sentido de remediar a situao, sendo um importante
exemplo o trabalho da Ordem Cisterciense.
      A introduo por Carlos Magno da observncia litrgica romana no norte
da Europa  uma das primeiras tentativas documentadas para impor uma
prtica unificada, emanando de uma autoridade competente, na msica
litrgica. A autoridade central procurou continuamente influenciar o ritual
cristo e sua msica, muitas vezes para fins polticos mais amplos, mas
provavelmente nunca chegou a conhecer mais do que um limitado xito. O
emprego de notao pode ser visto como o exerccio de uma espcie de
autoridade, dando  msica uma existncia objetiva e uma forma verificvel.
Algumas tendncias que se depararam inicialmente com resistncia por parte
do clero conservador acabaram se tornando prtica aceita; estas incluem o
uso da polifonia (msica para vrias vozes simultneas) e o emprego de um
mtodo afetado e expressivo de interpretao. Este ltimo estava associado
aos trovadores e intrpretes de poemas e canes chamados jograis, cujas
atividades e estilo de vida eram vigorosamente criticados pelo clero; o modo
sumamente atraente de performance jogralesca foi explorado, entretanto,
pelas novas Ordens predicantes do comeo do sculo XIII (franciscanos e
dominicanos). Do mesmo modo, o uso de instrumentos musicais pelos jograis
fez com que fossem considerados inaceitveis nas igrejas, com exceo do
rgo, aureolado por uma longa associao com o cerimonial real, imperial e
litrgico. Aos mais antigos exemplos de polifonia era dado, por vezes, o nome
de organum, o que pode indicar como o instrumento era principalmente usado.
Por volta do ano 1000, a polifonia vocal era empregada liturgicamente na
catedral de Winchester, e nos 250 anos seguintes registrou-se um nmero
crescente de fontes notadas oriundas de outros centros, incluindo um vasto
repertrio associado  Notre-Dame de Paris. A funo da polifonia era
adicionar particular importncia cerimonial a momentos especficos na liturgia;
nisso,  uma descendente direta da prtica, muito comum nos sculos X-XII,
do tropo, que consiste na ampliao do canto litrgico mediante acrscimos ou
substituies de palavras e/ou msica. Foi essa prtica do tropo, aplicada 
liturgia da manh de Pscoa, que deu origem ao fenmeno do teatro litrgico.
Nos ltimos dois sculos desse perodo h extensas fontes para a polifonia
litrgica, que, depois de meados do sculo XIII, apresenta regularmente uma
clara comunho de tcnicas e estilos com a "arte" musical secular do tempo.
       O nosso conhecimento de composio musical extra-eclesistica 
seriamente afetado pela pequena quantidade e parcialidade das fontes. As
notaes anteriores a cerca de 1200 provm primordialmente de meios
letrados, quase sempre ligados  Igreja. Se o testemunho dos textos literrios
sobreviventes aponta para um gigantesco acervo de poesia secular cantada,
misturando elementos eruditos, clssicos e bblicos com os dos gneros
vernculo e popular (a balada medieval seria um exemplo), ento o
testemunho estritamente musical desse tesouro desapareceu. Recordemos de
novo a natureza oral da tradio musical medieval. As canes dos
trovadores, que nada tinham de rudimentares ou "populares", parecem ter
existido em forma oral at dois sculos antes do surgimento da forma escrita,
no sculo XIII. As coletneas de msica "artstica" so, entretanto, cada vez
mais freqentes a partir desse perodo e refletem o estabelecimento do papel
do poeta-compositor corteso, bem como de um ambiente secular que
favoreceu a perpetuao de sua obra no que eram, por vezes, manuscritos
suntuosamente produzidos. A dependncia de tais provas do seu contexto
cultural pode ser apreciada comparando-as com as fornecidas pela Inglaterra.
A, o estabelecimento de msicos seculares "domsticos" funcionou
predominantemente no mbito de um sistema fechado de corporao ou
guilda, a qual no fez uso de notao e cuja obra, por conseguinte, se perdeu.
       Alm da prtica cotidiana de composio musical, seus aspectos
tericos e especulativos eram parte importante do Quadrivium dos estatutos
universitrios, e foram desenvolvidos ao longo do perodo de acordo com as
diretrizes estabelecidas por Bocio.                    DC
 J. Chailley, Histoire Musicale du Moyen Age (1950); Pelican History of
Music, vol. I, org. por A. Robertson e D. Stevens (1960); A. Harman, Man and
his Music (1962); R.H. Hoppin, Medieval Music (1978)
                                      N
Npoles, reino de Freqentemente englobando tambm a Siclia, dominou a
Itlia meridional desde a Idade Mdia at 1860. Do ponto de vista geogrfico,
formou uma ponte estratgica entre o Oriente e o Ocidente, com o
cruzamento de culturas produzindo muitos desenvolvimentos interessantes (a
arquitetura italiana meridional do sculo XII; o humanismo da corte de
Frederico II; a poesia italiana, sobretudo a obra de Boccaccio na corte de
Roberto, o Sbio, 1309-43).
      Sua sorte esteve intimamente ligada  da Siclia, tendo sido a regio
unificada por Rogrio II da grande famlia Hauteville, proclamado rei da Siclia
e Aplia (1130) e de Npoles (1139). Os normandos herdaram provncias
bizantinas, emirados rabes, principados lombardos e cidades-Estado livres,
com o que erigiram um novo reino com base feudal. Evoluiu a a concepo de
uma elaborada monarquia secular e esclarecida, com o rei como chefe da
Igreja (da um influente elemento de tolerncia religiosa e freqente oposio
papal).
      Finalmente, os Hohenstaufen sucederam aos Hautevilles, e Frederico II
(rei da Siclia, 1198-1250) assumiu a autoridade em Npoles em 1220. Em
1224, fundou a Universidade de Npoles, primordialmente como instituio
estatal para fornecer administradores treinados. Em 1231, ele promulgou o
Liber Augustalis, uma constituio e um cdigo de leis para o pas, baseado
nos cdigos romanos imperiais. O Estado persistiu sob o domnio angevino
(1268-1442) no estilo francs. Em 1282, as Vsperas Sicilianas resultaram na
perda da Siclia para Arago, ficando o reino de Npoles propriamente dito
com as terras entre Bari, Gaeta e Catona. Durante quase um sculo ele
tentou sem xito recuperar a Siclia, situao contrastante com sua anterior
vitalidade e expanso.
       O reino ressurgiu com os aragoneses (1442-1504) e, no reinado de
Afonso V, o Magnnimo (1442-58), Npoles e Siclia foram temporariamente
reunidas. No sculo XV, o reino de Npoles era a nica monarquia na Itlia.
Sua preservao foi devida, em grande parte, a uma srie de hbeis
monarcas e conselheiros que reconheceram e contriburam para a sua forma
mpar de governo, freqentemente colocada  testa do progresso
governamental europeu. O reino manteve uma forte poltica externa, e sua
reputao de riqueza e poderio granjeou para Ferrante I (1458-94) o ttulo de
"rbitro da Itlia". No final do sculo XV, a Academia Napolitana tornou-se um
florescente centro de humanismo. Em 1495, Carlos VIII da Frana invadiu o
reino e em 1500 ele foi dividido entre a Frana e a Espanha. Um conflito no
tardou em destruir esse arranjo e resultou numa vitria espanhola, tornando o
reino de Npoles um vice-reino espanhol (1504-1713). Ver Pontanus,
Jovianus                                                    MB
 B. Croce, History of the Kingdom of Naples (1970); A. Ryder, The Kingdom
of Naples Under Alfonso the Magnanimous (1976)

navios e navegao Grandes progressos foram realizados nas artes
nuticas durante a Idade Mdia, quando o transporte por gua, atravs dos
mares ou ao longo dos rios, constitua geralmente o meio de comunicao
mais simples, mais eficiente e, com freqncia, mais seguro. A herana
clssica manteve-se virtualmente ininterrupta em Bizncio, e as tradies
navais de construo de embarcaes e armamentos contriburam para a
sobrevivncia de Constantinopla. Os rabes levaram suas prprias tradies
para guas mediterrneas, mas tambm adotaram os estaleiros de
construo naval e a experincia martima de Alexandria e Cartago.
      Na experincia europia especfica, as mais notveis realizaes do
comeo da Idade Mdia ocorreram em guas nrdicas. Os arquelogos
traam uma seqncia de crescente competncia tcnica desde o barco de
Nydam do perodo de migrao at os soberbos barcos de Gokstad e
Oseberg do sculo IX, a qual levou  criao de barcos capazes de navegar
at nas mais tempestuosas condies ocenicas com um nvel aceitvel de
risco. Gokstad representa o aspecto sensacional das tcnicas de construo
naval, a evoluo de uma formidvel e quase irresistvel arma de guerra; mas
de igual ou ainda maior importncia foi a evoluo de todo um complexo de
embarcaes comerciais com excelentes condies de navegabilidade em
alto-mar, desde as pequenas e robustas naus frsias at as substanciais
galeras comerciais descobertas em Skuldelev. As realizaes tcnicas do
perodo de cerca de 600-900 possibilitaram a expanso viking que culminou no
estabelecimento de centros comerciais fortificados na Europa setentrional
desde a Groenlndia e a Islndia at as vias navegveis russas, Novgorod,
Smolensk e Kiev.
     Novos progressos em relao aos modelos clssicos ocorreram na
Idade Mdia Central no Mediterrneo, estimulados pela experincia rabe e
pelas necessidades dos cruzados. Abundantes conhecimentos de navegao
eram acumulados e transmitidos oralmente. Parece que os vikings usavam
uma pedra-im como guia, mas a primeira referncia clara a uma bssola de
marinheiro ocorre na obra de Alexandre de Neckam, no sculo XII, e a
compreenso de suas qualidades magnticas ampliou-se ainda mais no
perodo final da Idade Mdia. O uso da bssola coincidiu com o
desenvolvimento de embarcaes maiores e resultou em maior confiana para
enfrentar a navegao em alto-mar. No sculo XV, construtores navais,
gemetras, cartgrafos e navegadores, especialmente os reunidos na Escola
de Sagres, em Portugal, no litoral do sudoeste europeu, estavam preparados
para iniciar as grandes viagens de explorao em busca de novas rotas para
as riquezas da frica e do Oriente.                               HRL
 R.J. Lefebvre, De la marine antique  la marine moderne (1935); A.W.
Brgger e H. Shetelig, The Viking ships (1951); B. Greenhill, Archaeology of
the Boat (1975); R.W. Unger, The Ship in the Medieval Economy 600-1600
(1980); A.R. Lewis e T.J.
Runyan, European Naval and Maritime History 300-1500 (1985)

neoplatonismo Filosofia que surgiu no sculo III, principalmente entre os
gregos de Alexandria (Plotino, Amlio, Porfrio). Do sculo V at 529, o seu
desenvolvimento prosseguiu em Atenas (Proclo). Embora pag, considerava o
conhecimento e o materialismo insuficientes e introduziu a metafsica,
colocando assim o platonismo mais prximo do Cristianismo. O neoplatonismo
desenvolveu a hierarquia de formas de Plato, traduzindo o seu "Bem" por
"Uno", do qual emanou a primeira inteligncia {Logos, verbo, palavra), a qual
contm as idias imateriais (as formas platnicas) de todos os seres. O
Logos iniciou uma segunda inteligncia (Alma do Mundo), da qual derivou a
inteligncia individual, descendo numa escala hierrquica de seres espirituais,
com a alma humana por ltimo.
       Quatro conceitos neoplatnicos influenciaram o pensamento cristo
desde o comeo: a hierarquia de seres espirituais; a natureza espiritual da
realidade; o retorno da alma ao Uno atravs da contemplao; a bondade e a
plenitude do ser. Entretanto, as semelhanas superficiais ocultaram
dicotomias essenciais: o neoplatonismo percebeu uma involuntria e eterna
procisso da inteligncia do Uno para o mundo material, negando a Criao
voluntria de Deus; a trade neoplatnica (o Uno, o Esprito, a Alma do
Mundo) no era uma Trindade e a onipresena do mundo permitiu que o
pantesmo florescesse. O neoplatonismo baseava-se essencialmente na
investigao filosfica, ao passo que o Cristianismo tinha que reconciliar a
natureza com Deus. Santo Agostinho (354-430) foi o primeiro a fundir
conceitos neoplatnicos e cristos; e Bocio (c. 480-524) tambm se inclinou
para o neoplatonismo, traduzindo algumas obras. Enquanto que Santo
Agostinho deu ao neoplatonismo um fundamento cristo, Joo Ergena (c.
810-77) tentou discutivelmente colocar o Cristianismo numa base
neoplatnica.
      Apesar dessas tentativas, a diviso do Imprio tinha distanciado o
Ocidente das filosofias gregas. O conhecimento direto do neoplatonismo s foi
obtido aps sua reintroduo via filosofia rabe (Al-farabi, Avicena) e filosofia
judaica (Avicebrol), as quais chegaram ao Ocidente a partir do final do sculo
XII, combinando os sistemas fsico (aristotlico) e espiritual (neoplatnico)
para explicar o universo. As tradues de Guilherme de Moerbeke (1215-86)
destrinaram o neoplatonismo e o aristotelismo, dando um novo impulso ao
neoplatonismo. Durante o sculo XIII, influenciou o pensamento agostiniano, o
tomismo (Santo Toms de Aquino, Egdio Romano) e os dominicanos de
Colnia (Alberto Magno, Hugo de Estrasburgo, Dietrich de Freiburg),
encorajou o misticismo (Eckhart) e ajudou a cincia atravs de sua metafsica
leve   (Witelo).
MB
 G. Leff, Medieval Thought (1958); F. Copleston, A History of Philosophy
(1963) [P. Boehner e E. Gilson, Histria da filosofia crist, Petrpolis, Vozes,
1970]

Nestoriana, Controvrsia Cisma cristolgico provocado pela culminao da
escola antioquiana de teologia nas obras de Nestor (c. 381-451), patriarca de
Constantinopla em 428-31. Considerou ele que Cristo tinha duas naturezas
(duo physeis) mas isso no fazia dele dois Filhos, porquanto as naturezas
distintas estavam unidas numa conjuno voluntria. Essa concepo forou
Nestor a argir contra a atribuio a Maria do ttulo de "Me de Deus"
(Theotokos, portadora de Deus); o termo era imprprio porque ela tinha
gerado apenas um homem a quem o verbo de Deus estava unido.
       Eusbio de Doryleum, um leigo, liderou inicialmente o ataque contra
Nestor, que teve continuidade com So Cirilo de Alexandria, que em 430
persuadiu um snodo romano a denunciar as idias de Nestor, o que obrigou o
imperador Teodsio II a convocar um snodo para resolver a questo. Esse
conclio reuniu-se em feso em 431, mas Nestor recusou-se a comparecer
quando So Cirilo assumiu a presidncia como legado do papa Clemente I. O
conclio estabeleceu que o ser (physis) do Verbo no tinha sofrido qualquer
mudana ao fazer-se carne; as duas naturezas estavam juntas numa
verdadeira unio; suas diferenas no foram suprimidas mas o encontro de
divindade e humanidade produziu um nico Cristo; o Verbo no estava unido 
pessoa de um homem, mas convertera-se em carne. O conclio declarou
Nestor hertico e ele foi demitido de seu cargo por Teodsio, que decretou
ainda a queima de todas as obras nestorianas.
     Enquanto esteve banido, Nestor escreveu sua apologia, o Bazar de
Herclides, esclarecendo sua posio e retrocedendo na direo da
ortodoxia. Outros desenvolveram e ampliaram seus pontos de vista, ajudando
a produzir o cisma da Igreja nestoriana. Sua base popular nas estratgicas
Sria e Prsia, que obtiveram um xito apenas marginal, garantiram
numerosas tentativas para acomodar a posio de seus adeptos. Os
nestorianos floresceram e expandiram-se, e resistiram mais tarde a muitas e
implacveis perseguies dos mongis e dos turcos. Algumas Igrejas
nestorianas retornaram  comunho romana no sculo XV, enquanto outras
persistem at hoje.
 A.R. Vine, The Nestorian Churches (1937)

Nibelungenlied Uma das maiores obras da literatura medieval alem, o
Nibelungenlied (ou Cano dos Nibelungos) exerceu poderosa influncia
sobre a subseqente vida cultural alem em poesia, prosa e tambm na
msica. Em sua verso literria sobrevivente, narra no refinado alto-alemo do
comeo do sculo XIII, lendas populares da poca das migraes
germnicas, muito difundidas e comuns a grande parte daquele mundo e
especialmente conhecidas no norte com a poesia norueguesa arcaica. Conta a
histria do heri Siegfried, seu matador Hagen, sua mulher Kriemhild (irm de
Gunther, rei dos borguinhes), da rainha Brunhilda e do tesouro dos
Nibelungos. A pica baseia-se profundamente em tradies preservadas que
se associam  histria dos borguinhes e sua derrota para tila, no segundo
quartel do sculo V.
 N. Thorp, The Study of the Nibelungen (1940) [Cantar de los Nibelungos, E.
Lorenzo, Madri, Swan, 1980]

Nicia, Conclio de (325) Aps sua vitria sobre Licnio em 323, Constantino
encontrou a provncia oriental dividida pelos ensinamentos de Ario, um
sacerdote de Alexandria que argumentava no ser o Verbo co-eterno com o
Pai, e ser o Cristo, na melhor das hipteses, um filho adotivo de Deus. Em
concordncia com seu mestre Luciano de Antioquia, postulou que o Verbo
encarnado no tinha uma alma humana. As tentativas locais para sufocar o
Arianismo fracassaram, assim como as intervenes pessoais de Constantino.
      Finalmente, de acordo com a tradio romana, o imperador convocou um
snodo geral, um Conclio, inaugurado em Nicia em 325. Foi presidido
diretamente pelo legado do papa Silvestre, Hsio de Crdova, e assistido por
quase 300 bispos. Os debates foram acrimoniosos e demorados. Uma
frmula ariana de f foi proposta e rejeitada; mas o credo opcional de Eusbio
de Cesaria foi apresentado e recebeu aprovao geral. Com aditamentos
posteriores, feitos especificamente para excluir e denunciar interpretaes
arianas, esse passou a ser o Credo Niceno. O Arianismo continuou dividindo a
Igreja oriental mas sua influncia foi cerceada.
      O Conclio tambm decidiu a muito debatida questo da data da
celebrao da Pscoa, a qual devia ser sempre num domingo e (de acordo
com a tradio ocidental) no primeiro domingo depois da primeira lua cheia a
seguir ao equincio da primavera. Ver Atansio, Santo
 V.C. de Clerq, Ossius of Cordova (1954); N.D. Kelly, Early Christian
Creeds (1960)

Nicia, Imprio de Aps a captura de Constantinopla (1204), o poder grego
repartiu-se por trs novos estados bizantinos centrados em Trebizonda, Epiro
e Nicia. Em Nicia, o genro do imperador Aleixo III, Teodoro I Lscaris
(1204-22), subiu ao trono e foi coroado imperador em 1206 pelo recm-eleito
patriarca. Teodoro chegou a um acordo com os governantes latinos de
Constantinopla, os estados francos, restringiu os czares blgaros e
estabeleceu relaes comerciais com os venezianos. Sucedeu-lhe seu genro
Joo III Doukas Vatatzes (1222-54), que expulsou os latinos da sia Menor e
conquistou os reinos de Tessalnica e Epiro. Sua expanso foi restringida
depois de 1242 pela presso dos mongis. A acerba oposio teolgica de
Gregrio IX bloqueou qualquer tentativa de reaproximao e, finalmente, o
patriarca excomungou o papa. O filho de Joo III, Teodoro II Lscaris (1254-
58), foi o seu sucessor mas faltava-lhe a envergadura de estadista do pai.
Com a morte de Teodoro, Miguel Palelogo obteve as rdeas do poder como
regente em nome de Joo IV (1258-61). Em 1261, Miguel deu um golpe de
Estado que o colocou no poder e, tirando partido da poltica lascrida,
capturou Constantinopla. Foi coroado imperador Miguel VIII, criando assim a
dinastia que sobreviveu at 1433. Ver Palelogo
 D.M.Nicol, The End of the Byzantine Empire (1979)

Niccoli, Niccol (1364-1437) Influente humanista florentino, que escreveu
pouco mas foi um colecionador apaixonado de manuscritos clssicos,
antigidades, obras de arte e moedas, assim como um esmerado copista.
Sua extensa coleo de livros formou a base da biblioteca pblica de So
Marcos, em Florena, e a sensvel elegncia de suas transcries ajudou a
assegurar que sua refinada verso da minscula Carolina se convertesse na
caligrafia humanista corrente.
 G. Zippel, Niccol Niccoli (1890)

Nicolau II papa 1059-61 (n. c. 980) Seu breve pontificado produziu numerosas
medidas altamente significativas, prenunciando o movimento reformista
gregoriano. Aps a morte do papa Estvo IX, houve um cisma, com o partido
romano nomeando Bento X, ao passo que os reformistas elegeram Nicolau II,
um borgonhs e ex-bispo de Florena. Para impedir tais divises no futuro,
Nicolau promulgou em abril de 1059 um decreto papal pelo qual os pontfices
seriam eleitos por um colgio de cardeais e por iniciativa dos cardeais-bispos,
reduzindo assim a influncia da aristocracia romana e a interferncia imperial
em eleies papais. Nicolau hostilizou ainda mais o imperador ao estabelecer
relaes amistosas com a Frana e com os patarinos em Milo. No Conclio
de Melfi (agosto de 1059), Nicolau formou uma aliana com os normandos da
Itlia meridional, e seu reconhecimento da posio normanda foi uma clara
rejeio das pretenses imperiais na Itlia. Em resposta, um snodo na
Alemanha condenou Nicolau e declarou nulos seus atos. Assim, o seu
pontificado prenunciou o acerbo conflito entre o Imprio e o Papado. Com sua
morte, novo cisma ocorreu, com a eleio de dois papas, Alexandre II e
Honrio II.

Nicolas Breakspear Ver Adriano IV

Nicolau de Cusa (m. 1464) Um dos mais eminentes sbios do sculo XV, o
cardeal Nicolau  principalmente lembrado por seu pensamento metafsico e
seu excelente critrio como colecionador de manuscritos em grego e latim.
Nascido na diocese de Trier, de famlia alem, ele foi educado em Pdua e
destacou-se como defensor do papa no Conclio de Basilia (1440). Elevado
ao cardinalato em 1448, serviu depois como legado papal na Alemanha. Foi
um matemtico de certa autoridade e sustentou sobre a reforma do calendrio
opinies muito adiantadas para o seu tempo. Tambm acreditou na revoluo
da Terra em torno do Sol.
 H. Bett, Nicholas of Cusa (1932); K. Jaspers, Anselm and Nicholas of Cusa
(1966)

Nilo da Calbria (c. 910-1005) Nascido na Calbria de famlia grega, foi
inspirado pela Vida de Santo Antnio e dedicou-se a uma vida de devoo,
penitncia e auto-sacrifcio. Uma srie de vises granjeou-lhe adeptos, mas
suas tentativas para reconciliar mosteiros beneditinos e bizantinos
fracassaram. Perto do fim da vida, impressionou o jovem imperador Oto III, e
a influncia de sua severa vida asctica em Grotaferrata contribuiu muito para
fortalecer o monasticismo ocidental.
 J. Dcarreaux, Normands, Papes et Moines en Italie Mridionale (1974)

Nithard (m. 844) Filho de Bertha, filha de Carlos Magno, e de Angilberto,
chefe da chancelaria do imperador. Em 841, Carlos, o Calvo, pediu a Nithard
que escrevesse um relato dos acontecimentos de seu tempo, e a resultante
Histria das Querelas entre os Filhos de Lus, o Piedoso,  de um valor
inestimvel como praticamente a nica fonte para as guerras do perodo,
embora especialmente tendenciosa contra Lotrio I. Em 843, Nithard foi feito
abade laico de Saint-Riquier por Carlos mas apenas alguns meses depois era
morto durante uma batalha.
 O. Lauer, Nithard. Histoire des fils de Louis le Pieux (1926)

noble Moeda de ouro inglesa introduzida por Eduardo III em 1344 com um
valor inicial de seis xelins e oito pence (isto , metade de um marco). De 1351
a 1412, pesou 120 gros (7,78 gramas). Em 1412, o peso foi reduzido para
108 gros (7,60 gramas). Em 1465 foi restabelecido o antigo peso de 120
gros para o noble rosa ou ryal (royal), com um valor de 10 xelins, enquanto
que uma nova moeda, o angel, de 80 gros (5,18 gramas), adquiriu o valor de
6 xelins e 8 pence.

Nogaret, Guilherme de (c. 1265-1313) Professor de direito em Montpellier,
Nogaret era de origem plebia e um vigoroso defensor do poder real. Em
1303, Filipe IV da Frana enviou Nogaret, membro de seu conselho privado, a
fim de prender o papa Bonifcio VIII. Ajudado pela famlia Colonna e outros
inimigos de Bonifcio, Nogaret entrou em Agnani; a residncia papal foi
atacada e o papa capturado. Revoltado com a violncia dos Colonna, o povo
de Agnani libertou Bonifcio e Nogaret teve que fugir de volta  Frana. Em
1307, ele foi nomeado chanceler e esteve seriamente envolvido no julgamento
dos Templrios. Excomungado em 1304 por Bento XI, Nogaret foi absolvido
por Clemente V.  lembrado por sua crueldade, desumanidade e obstinada
devoo  monarquia francesa.
 T.S.R. Boase, Boniface VIII (1933); C.T. Wood, Philip the Fair and
Boniface VIII (1967)

Norberto de Xanten, So (c. 1080-1134) Fundador da ordem
Premonstratense, Norberto era um cnego de Xanten, na Rennia. Foi
ordenado sacerdote em 1115, mas no tendo conseguido reformar os
cnegos seus colegas, tornou-se um pregador errante. Condenou a frouxido
de costumes de clrigos e leigos, e dedicou-se  vida apostlica com adeptos
de ambos os sexos. Em 1120, entretanto, solicitou a seu patrono, o bispo de
Laon, que lhe permitisse fundar uma comunidade religiosa em Prmontr,
perto de Laon, para o que obteve apoio papal. Amigo de So Bernardo de
Claraval, Norberto adotou muitas das constituies cistercienses em
Prmontr, mas seus cnegos premonstratenses diferiam dos monges
comuns na medida em que eram encorajados a exercer um papel ativo na
sociedade, no campo missionrio e tambm na vida paroquial. Em 1126
tornou-se arcebispo de Magdeburgo e organizou trabalho missionrio na
Alemanha oriental. Foi canonizado em 1582.
 E. Maire, St. Norbert (1932); P. Lefebvre, La Liturgie de Prmontr (1957)

normandos O grande povo conquistador do sculo XI que, no transcurso de
50 anos (1050-1100), submeteu ao seu domnio a Inglaterra, a parte
meridional da pennsula itlica e a Siclia. Onde quer que estivesse ocorrendo
uma guerra de agresso, os normandos pareciam estar presentes: nas
fronteiras galesas e escocesas, na Reconquista hispnica e na Primeira
Cruzada, nas lutas em torno da Questo das Investiduras. A maioria dos
estudiosos, entretanto, concorda em que essas atividades no tiveram a
coerncia de um empreendimento singular e unificado. A Inglaterra foi a vtima
de uma conquista poltica controlada pelo duque reinante da Normandia,
Guilherme, o Conquistador. A Itlia meridional, que era frouxamente
controlada pelo Imprio Bizantino, e a Siclia islmica, foram lentamente
infiltradas por bandos de guerreiros do final do sculo X em diante; a
participao mercenria inicial nas guerras da regio, nas quais os normandos
lutaram freqentemente em lados opostos, uns contra outros, foi transformada
a partir da dcada de 1040 numa guerra de conquista dominada por homens
do quilate de Roberto Guiscard e de seu irmo Rogrio I, "o Grande Conde".
A Itlia meridional s foi subjugada na dcada de 1070 e a Siclia no antes
de 1091; a unificao das duas regies no reino da Siclia s ocorreria na
dcada de 1130.
        As origens dessas realizaes devem ser localizadas na histria do
ducado da Normandia, que se organizara a partir de um territrio em torno de
Rouen, concedido ao chefe viking Rollon em 911. Apesar de suas origens e da
considervel imigrao escandinava at cerca de 950, o ducado da Normandia
revelado por documentos do sculo XI possui preponderantemente o carter
de um principado territorial francs dessa poca. A sobrevivncia de
instituies governamentais carolngias e a continuidade de fronteiras
territoriais durante todo o perodo de colonizao escandinava so causas
daquela situao segundo os historiadores; est claro que os primeiros
governantes da provncia adotaram resolutamente instituies existentes. O
renascimento da Igreja normanda demonstra a aceitao do Cristianismo. O
importante reinado do duque Ricardo II (996-1026) foi geralmente reconhecido
como um perodo de paz na provncia e o prprio duque celebrizou-se por seu
patrocnio da Igreja. Por essa poca, a lngua escandinava tinha virtualmente
deixado de ser falada no ducado, enquanto que a deciso de Ricardo de
conceder abrigo ao jovem Eduardo, o Confessor, alm de suas conseqncias
a longo prazo, foi um revs para as ambies de Canuto e dos exrcitos
dinamarqueses envolvidos na conquista da Inglaterra. Os casamentos entre
diferentes estirpes e povos, vrias dcadas de relativa estabilidade social e a
considervel imigrao franca na Normandia tinham contribudo muito para
assimilar os colonizadores escandinavos originais em seu novo meio.
      A expanso normanda do sculo XI no foi, portanto, uma simples
continuao das incurses vikings. At certo ponto, os normandos estavam
apenas  testa de um movimento de conquista muito mais vasto: havia
flamengos, bretes, poitevinos e outros povos francos no exrcito que venceu
em Hastings; no sul, tem sido sugerida uma imigrao no-normanda na
proporo de um para quatro, e sabe-se que os invasores recrutaram naturais
do sul para a sua causa. Maior mobilidade social era uma caracterstica da
sociedade francesa do sculo XI. A preponderncia de normandos nesse
movimento derivou, em grande parte, do fato de que, desde cerca de 1025, a
Normandia estava convulsionada por uma guerra entre suas classes
dominantes. Isso, tpico de uma espcie de "revoluo feudal", associado
como em outras regies da Frana  construo de castelos e  submisso
de arrendatrios de terras anteriormente livres, foi uma fase particularmente
perturbada que alimentou, sem dvida, o xodo para o sul. A pacificao do
ducado por Guilherme, o Conquistador, depois de 1050, parece ter-se
baseado numa poltica blica contra as potncias vizinhas; o ano de 1066
forneceu uma oportunidade que foi habilmente aproveitada. Depois, as
chances foram abundantes para engrandecimento pessoal de normandos,
atravs do servio a reis normandos ou atravs de ligaes familiares no sul.
Para os mais ousados e mais afeitos  aventura, havia agora fronteiras a
dilatar, colocando-as sob firme domnio normando.
      Para as suas novas terras, os normandos levaram mtodos militares
baseados na cavalaria e nos castelos, mtodos esses que tinham sido
aprendidos na dura escola da Frana setentrional da poca, e que eram
acentuadamente superiores aos dos povos que estavam combatendo. Por
toda parte os normandos levaram consigo as instituies vasslicas, o que
deu coeso aos grupos de guerreiros que levavam a cabo as conquistas. A
aquisio de terras por um senhor era sempre seguida pela transferncia de
boa parte dela do senhor para os seus vassalos. Assim, por exemplo, homens
da regio de Montgomery, na Normandia central, aparecem no Domesday
Book como detentores de terras, no Shropshire, de seu senhor Roger de
Montgomery. O resultado geral foi o mesmo na Itlia meridional, embora a as
relaes senhor-vassalo tenham sido freqentemente criadas no decorrer da
ocupao.
     Em suas conquistas, os normandos encontraram dois dos mais
altamente desenvolvidos sistemas administrativos da Europa ocidental. As
instituies anglo-saxnicas, como o edito (writ), o tributo dos proprietrios de
terras  Coroa (geld) e o tribunal dos cem, foram plenamente exploradas
pelos recm-chegados; o mesmo ocorreu em relao s administraes
bizantina e siciliana. Apesar do declarado respeito pela lei inglesa, a Inglaterra
normanda tornou-se, em muitos aspectos, uma sociedade colonial, com as
novas catedrais e os novos e macios castelos como smbolos do poderio dos
intrusos, e o Domesday Book como smbolo de seu carter implacvel. No
governo, precisamente porque chegaram como conquistadores e porque
ocuparam todas as posies administrativas importantes, os normandos
acrescentaram um elemento de explorao e de centralizao que estimulou
de forma notvel os desenvolvimentos registrados no sculo XII, como o
Errio Pblico (Exchequer) e as reformas legais de Henrique II.
    Tambm no sculo XII, os objetivos polticos dos governantes
normandos e de seus sucessores angevinos tornaram-se cada vez mais
defensivos; o fluxo de emigrantes declinou depois de cerca de 1120. No sul,
onde a entrada de normandos na Igreja e no governo tinha sido menos brutal,
desenvolveu-se uma mistura variada de formas culturais e polticas francas,
bizantinas, islmicas e italianas,  medida que se dissipava a ligao com a
Normandia. A existncia independente do ducado da Normandia chegou ao fim
quando foi conquistado pelo rei francs em 1204. Os monarcas ingleses
continuaram reivindicando a posse do ducado normando, sobretudo no
decorrer da Guerra dos Cem Anos, e governadores e guarnies ingleses
exerceram autoridade no ducado com maior ou menor xito desde 1415 at o
final da guerra na dcada de 1450. Ver Rogrio II; Guilherme de
Volpiano                DB
 CG. Haskins, The Normans in European History (1915); J.J. Norwich, The
Normans in the South (1967); J. le Patourel, The Norman Empire (1976); D.
Bates, Normandy before 1066 (1982)

Noruega A histria poltica da Noruega na Idade Mdia  sumamente
complicada, porquanto est intimamente ligada aos seus empreendimentos
colonizadores e comerciais e  afetada, de maneira profunda, por suas
relaes com as outras comunidades escandinavas: a Dinamarca e a Sucia.
Durante a Idade Viking (c. 800-1100), os marinheiros, mercadores, piratas e
povoadores noruegueses estabeleceram colnias permanentes nas ilhas em
torno da Bretanha (especialmente, e desde muito cedo, nas Shetland e nas
rcades); desempenharam um papel destacado no estabelecimento de
centros urbanos na Irlanda e formaram uma extensa cadeia de povoadores
predominantemente noruegueses atravs do Atlntico, nas ilhas Faroe,
Islndia (c. 860-930) e Groenlndia. Tocaram at no litoral americano,
certamente a Terra-Nova (Newfoundland) e, possivelmente, a costa oeste do
continente em fins do sculo X.
      Foi no contexto dessa era de mobilidade e fermentao que ganhou
forma um reino unido da Noruega. At esse ponto, a tendncia parece ter sido
o poder poltico assentar em famlias agrupadas em torno das trs regies
distintas mais tarde associadas a Trondheim, no norte, os fiordes ocidentais e
Bergen, e o fiorde Vik ou de Oslo no sul. Foi Haraldo I, o Louro, quem, aps a
batalha decisiva de Hafrsfjord (c. 890), unificou pela primeira vez a maior parte
da Noruega; da em diante, a idia de um Estado noruegus nunca
desapareceu completamente, muito embora a Noruega, de tempos em
tempos, fosse virtualmente governada como provncia dependente por um ou
outro dos seus vizinhos.
       No final do sculo X e comeos do seguinte, a adoo do Cristianismo
fortaleceu o sentimento de unidade e tambm o poder potencial da realeza
com Olavo Tryggvason (995-1000) e Olavo Haraldsson (1016-30). Olavo
Haraldsson foi derrotado por Canuto, o Grande, e morto na batalha de
Stiklestad quando tentava recuperar sua posio. Lendas propagaram-se
rapidamente a respeito de sua morte e ele foi reconhecido como um santo,
perpetuus rex Norvegiae. Canuto (m. 1035) tentou incorporar a Noruega
firmemente ao seu imprio mas uma srie de hbeis governantes, Magnus, o
filho de Olavo (m. 1047), Haraldo Hardrada (1047-66), que morreu em
Stamford Bridge, e o filho de Haraldo, Olavo, o Pacfico (1066-93),
restabeleceram a tradio monrquica nacional.
     No sculo XII, o estabelecimento de um arcebispado em Trondheim
marca um importante estgio na plena aceitao do reino setentrional no seio
da comunidade crist ocidental. Manter a autoridade real numa rea to
extensa quanto a Noruega exigia um esforo constante e um estreito acordo
com as comunidades locais regidas por suas prprias leis; e a violncia nunca
andou muito longe da cena poltica norueguesa. No reinado de Sverre (1184-
1202), eclodiu um acerbo conflito entre a Igreja e o Estado, com o rei
sustentando vigorosamente suas pretenses a controlar a nomeao para os
bispados como forma de garantir um certo grau de disciplina real na
sociedade norueguesa. Com Haakon IV (1217-63), a consolidao da
autoridade poltica real atingiu um elevado ponto quando a Islndia e a
Groenlndia se submeteram ao monarca noruegus, embora o domnio sobre
as ilhas escocesas diminusse, passando o grupo meridional  autoridade do
rei escocs.
      O final da Idade Mdia provou ser um perodo de declnio, em parte por
causa de uma deteriorao do clima e em parte por causa das severas
devastaes da Peste Negra. A unio com a Sucia, no reinado de Magnus
VII (1319-43), foi um fracasso, mas a Noruega, governada pela temvel
Margarida, esposa e depois viva de Haakon VI (1343-80), foi a instigadora
da criao da Unio de Calmar (1397), pela qual os pases escandinavos
estariam "eternamente" unidos sob o mando de seu sobrinho-neto e seus
sucessores. A preocupao com a riqueza e a influncia de mercadores
alemes (Bergen entre um dos quatro principais "entrepostos" -- com
Londres, Bruges e Novgorod -- da Liga Hansetica) continuou sendo um forte
elemento na poltica norueguesa do perodo. A Sucia no tardou em mostrar
descontentamento com os acordos de Calmar, embora s se retirasse
formalmente da Unio em 1523. A Noruega manteve-se estreitamente
vinculada e subordinada aos seus mais ricos vizinhos do sul, e foi um rei
dinamarqus quem negociou a transmisso das rcades e das Shetland para
a Coroa escocesa no final da dcada de 1460.
 T.K. Derry, A Short History of Norway (1957)

Notker (Balbulus), o Gago (c. 840-912) Bibliotecrio e depois mestre na
escola do mosteiro beneditino de St. Gallen, na Sua. Sua fama repousa, em
parte, em sua elegante e agradvel composio de hinos e seqncias, e
tambm em sua Vida de Carlos Magno, escrita em 883 ou 884, a qual contm
muito material biogrfico pouco conhecido, assim como slido material
histrico acerca do grande imperador.
 Two Lives of Charlemagne, org. por L. Thorpe (1969)

Novgorod Fundada por mercadores escandinavos no incio do sculo IX perto
das nascentes dos rios que ligam o Bltico ao Mar Negro, Novgorod tornou-se
o centro do novo reino da Rssia, sob a liderana do rei Rurik (862). Seu
sucessor, Oleg, capturou a poderosa cidade de Kiev em 882, e o centro do
poder entre os principados escandinavos-eslavos deslocou-se para ao sul.
Novgorod, embora ainda fosse poderosa, aceitou a suserania dos prncipes
de Kiev e tornou-se cada vez mais eslava em populao, lngua e vida
institucional. Em 1019, o prncipe Yaroslav concedeu  cidade um estatuto que
lhe permitia um considervel grau de autonomia. Quando o poder de Kiev
declinou, os prncipes de Novgorod ampliaram sua autoridade e influncia
comercial. Com Alexandre Nevsky, a cidade derrotou os suecos no Neva
(1240) e, dois anos depois, venceu a grande batalha sobre o gelo no Lago
Paipus contra os cavaleiros teutnicos. A cidade pagou tributo aos trtaros
mas, de um modo geral, sofreu menos do que outros Estados russos com os
ataques mongis e trtaros.
       A riqueza da cidade tinha slidas razes no comrcio. O fcil acesso ao
eixo Bltico-Bizncio atravs dos rios Volkhov, Lovat e Dnieper, e ao Mar
Cspio via Volga, testemunhou a ascenso da cidade que se tornou uma das
principais pontes no comrcio Oriente-Ocidente. Os mais importantes artigos
de exportao eram peles, mbar, mel e cera, assim como escravos, em
troca de ouro, prata e sedas. A cidade tinha estreitos vnculos com o lucrativo
comrcio de especiarias e com a progressiva Liga Hansetica, que
estabeleceu um dos seus principais entrepostos em Novgorod.
       Durante o sculo XIV, guerras dinsticas locais envolveram a cidade,
perturbando suas rotas comerciais. O progresso de Moscou como rival
comercial favoreceu ainda mais o declnio da cidade como importante
entreposto. A supremacia comercial de Moscou foi enfaticamente afirmada
com a ajuda de duas esmagadoras derrotas militares em 1456 e 1471, e a
superioridade moscovita completou-se com a anexao de Novgorod em
1478.
 M.W. Thompson, Novgorod the Great (1967)

Nur ad-Din (1118-74) Lder muulmano da Sria, cujo nome significa "Luz da
F". Sucedeu a seu pai Zengi como senhor de Alepo em 1146. Recapturou
rapidamente Edessa e, aproveitando-se das oportunidades polticas
oferecidas pela Segunda Cruzada, ampliou cautelosamente sua autoridade.
Em 1154 anexou Damasco, que passou a ser o centro do seu reino.
Conquistou Trpoli (1167) e em 1168 colocou o Egito sob o seu controle. A
desunio que tinha permitido aos cristos avanar, estava agora ento
terminando, graas  criao por Nur ad-Din de um Estado muulmano unido,
embora s custas dos xiitas. Seu xito popularizou a Guerra Santa contra os
cruzados e seu uso de alianas temporrias e sistemtica explorao das
deficincias crists e suas discrdias internas geraram contnuo sucesso.  V.
Eliseff, Nur ad-Din (1966)
                                     O
Odilon, Santo (962-1048) Nomeado quinto abade de Cluny em 994 por seu
predecessor, Mayeul, Odilon fez parte de uma srie de abades que primaram
pela longevidade. Foi uma figura europia eminente, que se relacionou
amistosamente com o imperador, o rei da Frana e o Papado. Envolveu Cluny
mais intimamente nos problemas do mundo feudal ao atuar como rbitro em
litgios seculares e ao apoiar as tentativas para limitar as guerras atravs da
Paz e Trgua de Deus. Foi no abaciado de Odilon que Cluny recebeu a
confirmao papal de seus extraordinrios privilgios e ingressou em seu
perodo de maior expanso, completando-se a formao da Ordem
Cluniacense. Aludindo ao seu programa de edificao do prprio mosteiro,
Odilon disse que o tinha encontrado de madeira e o deixava de mrmore. Seu
sucessor foi Hugo, escolhido no s por Odilon mas tambm pela irmandade.
 L. Cot, St. Odilon, un Moine de l'An Mille (1969)

Odo (c. 1030-97) Bispo de Bayeux. Meio-irmo de Guilherme, o
Conquistador, de quem recebeu o bispado de Bayeux em 1049, ele foi um
patrono das artes e provavelmente quem encomendou as tapearias de
Bayeux para a consagrao de sua catedral em 1077. Desempenhou um
papel ativo na batalha de Hastings e foi-lhe concedido o condado de Kent e
vastas propriedades na Inglaterra, cujos lucros fizeram dele um dos homens
mais ricos da Europa. Durante a ausncia do rei na Normandia em 1067, Odo
governou a Inglaterra junto com William FitzOsbern. Continuou sendo
personalidade de destaque no conselho real e na administrao pblica at o
momento em que caiu em desgraa e foi encarcerado (segundo parece, por
conduta inepta em relao  poltica papal) em 1082. Aps a morte de
Guilherme (1087), foi solto mas banido da Inglaterra no ano seguinte pelo
papel que desempenhou na fracassada revolta contra Guilherme II. Instalou-
se na Normandia mas faleceu em Palermo, a caminho da Primeira Cruzada.
 D.R. Bates, `The character and career of Odo, Bishop of Bayeux",
Speculum, I (1975)

Odo, Santo (879-942) Abade de Cluny. Aps ter recebido formao militar,
Odo converteu-se  vida religiosa, mas sua popularidade como eremita
obrigou-o a ir a Paris, onde estudou as artes liberais e a dialtica. Atrado
pela fama de So Berno, Odo juntou-se-lhe e foi nomeado diretor da escola
de Baume. Em 927, foi nomeado por So Berno o segundo abade de Cluny.
Desfrutava de uma considervel reputao de santidade pessoal e foi o
responsvel, em grande parte, pelo estabelecimento de Cluny como o centro
da reforma beneditina e pelo aliceramento de sua futura grandesa. Mas, no
se limitou a Cluny: com o respaldo do Papado, tambm esteve ativo na
reforma de numerosos mosteiros, incluindo Fleury e Monte Cassino.
 E. Amman, Odon de Cluny (1931)

Offa, dique de Formando a fronteira tradicional entre a Inglaterra e o Pas de
Gales, esse impressionante aterro corre, embora no continuamente, do
esturio do Dec no norte at o rio Wye no sul. Construdo pelo rei Offa de
Mrcia (757-96),  um tributo  autoridade que ele exercia desde o Humber
at o Canal da Mancha. A antiga opinio de que se tratava de uma fronteira
negociada  insustentvel; o dique constitui claramente uma formidvel
barreira e proteo contra o roubo de gado.
 C. Fox, Offa's Dyke (1955); D. Hill, An Atlas of Anglo-Saxon England (1981)

Olavo II Haraldsson, Santo rei da Noruega 1016-30 (n. c. 995) Descendente
de Haraldo, o Louro, Olavo viveu como um viking at seu batismo em Rouen
(c. 1013). Em 1015, reivindicou seu direito ao trono noruegus e no ano
seguinte era proclamado rei da Noruega. Consolidou e ampliou a obra de seu
predecessor, Olavo I Tryggvason (c. 995-1000), a fim de promover o
Cristianismo por todo o pas, mas sua severidade e zelo geraram grande
hostilidade. Em 1028, Canuto encontrou escassa oposio quando chegou a
Trondheim, onde foi proclamado rei. Olavo fugiu para a Rssia mas voltou
para tentar recuperar seu reino com um exrcito pago e predominantemente
estrangeiro; foi morto na batalha de Stiklestad. Apesar de sua impopularidade,
um importante culto cresceu rapidamente depois que comearam a circular
notcias de milagres aps a sua morte; e em 1164 Olavo foi declarado o santo
padroeiro da Noruega. Em 1035, seu filho Magnus foi universalmente aceito
como rei da Noruega.
 G. Jones, The Vikings (1968)

Omar Khayyam (c. 1050-1123) Natural de Nishapur, na Prsia, Ornar
Khayyam foi astrnomo, matemtico e poeta. Em conseqncia de sua obra e
reputao em lgebra, foi convidado pelo sulto seljcida Malik Shah para
realizar as observaes astronmicas que resultaram numa reforma do
calendrio. Ficou mais conhecido, porm, como o poeta de Rubaiyat, uma
coletnea de quadras ou rubais.
   The Rubaiyat of Ornar Khayyam, trad. E. FitzGerald(1859) [Ornar
Khayyam, Rubaiyat, trad. O. Tarqunio de Sousa, Rio, Jos Olympio, 14 ed.,
1969]

Omada, dinastia Baseados em Damasco, os omadas tornaram-se a famlia
governante que dominou o mundo muulmano de 660 a 750, quando
importantes revoltas culminaram em sua queda e no surgimento dos
abssidas. Um sobrevivente , Abd el-Rahman, fugiu para a Espanha e a
estabeleceu uma dinastia muulmana com seu centro em Crdova, a qual
floresceu nos sculos IX e X. Ver Abd el-Malik
 [B. Lewis, Os rabes na Histria, Lisboa, Estampa, 1982]

Ordem Terceira de So Francisco Fundada originalmente pelo santo como a
Ordem da Penitncia, com o objetivo de habilitar leigos devotos de ambos os
sexos a participarem na vida religiosa dos franciscanos, embora
permanecendo em seus prprios lares e famlias, e ganhando seu prprio
sustento. Organizados de acordo com sua prpria Regra, a qual lhes foi
inicialmente dada por Ugolino (c. 1221) e depois ampliada e autorizada pelo
papa Nicolau IV, os Tercirios realizaram captulos, compartilharam devoes
e praticaram obras de caridade. No sculo XIV, a Ordem dividiu-se em dois
grupos: os `Tercirios seculares" e uma nova Ordem Terceira Regular com
clausura. Muito ativos na Itlia, os Tercirios atraram principalmente os
membros da classe artesanal. Entre os Tercirios notveis figuram Santa
Isabel da Hungria, Raimundo Llio e (possivelmente) Cristvo Colombo.
 J.R.H. Moorman, A History of the Franciscan Order (1968)

Ordericus Vitalis (c 1075-1143) Nasceu perto de Shrewsbury de pais anglo-
normandos e foi educado em Saint-Evroul, na Normandia, onde passou grande
parte da vida ocupado em escrever sua Histria Eclesistica desde 1109 at
a data de sua morte. A maior parte dessa obra trata de eventos seus
contemporneos ou quase contemporneos, e fornece uma soberba viso da
histria geral do mundo anglo-normando, a par da histria local da abadia de
Saint-Evroul.
 M. Chibnall, The World of Ordericus Vitalis (1982) [Historiae Ecclesiasticae,
org. por Le Prevost, 5 vols, Paris, Renouard, 1838-1855]

Oresme, Nicolau de (c. 1320-82) Bispo de Lisieux. Enquanto mestre na
Universidade de Paris, Oresme associou-se a Jean Buridan, reitor da
Universidade, numa sria tentativa de exame e modificao da cincia
aristotlica. Concentrando-se na mecnica dos corpos em movimento, a obra
de ambos assinalou um importante passo em direo aos futuros progressos
de Da Vinci, Coprnico e Galileu. Oresme tambm escreveu um tratado sobre
moeda, que teve grande influncia sobre a teoria econmica do final da Idade
Mdia. Exonerou-se da Universidade para tornar-se cnego e depois deo de
Rouen, antes de ser nomeado capelo de Carlos V. Em 1377 foi nomeado
bispo de Lisieux.
 Nicholas d'Oresme, De Moneta, org. por C. Johnson (1956)

Orgenes (c. 185-c. 254) Um dos maiores telogos e exegetas orientais da
Igreja crist, Orgenes lecionou em Alexandria at ser banido em 232. Fundou
uma outra escola em Cesaria mas, em 250, durante as perseguies do
imperador Dcio, foi detido e torturado, indo morrer em Tiro. Suas numerosas
obras teolgicas incluem a Hexapla, uma sinopse crtica do Antigo
Testamento, e Contra Celso (c. 248), uma apologia do Cristianismo em
resposta  Verdadeira Doutrina (c. 168), do pago Celso. Rigoroso asceta de
raiz ortodoxa, Orgenes foi acusado de heresia devido ao seu enfoque
filosfico da doutrina crist em De Principiis (Sobre os Primeiros Princpios).
Sua influncia como telogo persistiu muito alm de sua denncia por
Justiniano I em 543.
 G.W. Butterworth, Origen on first principies, org. por H. de Lubac (1966);
H. Chadwick, Early Christian Thought and the Classical Tradition (1966)

Orlans, Conclio de (10 de julho de 511) Assemblia de 32 bispos gauleses
(representando predominantemente o recm-conquistado sul), convocada pelo
rei merovngio Clvis. Ratificou a sua nova criao da Francnia, elaborando
uma declarao das relaes do rei com a Igreja. Os primeiros 10 cnones
tratavam de assuntos pertinentes  autoridade real: o direito de asilo; a
permisso rgia para ordenaes; usos aceitveis de magnanimidade real
para com as igrejas; freqncia de clrigos na corte real em busca de
favores; ordenao de escravos; apropriao de Igrejas arianas tomadas aos
godos e emprego de seus ministros. Ali foi delineado o mbito da interveno
real, no excessiva, e tacitamente aceito o direito romano da Igreja (apoiando-
se no Cdigo Teodosiano). Os cnones tambm promoveram o envolvimento
do rei no patrocnio da Igreja.
 J.M. Wallace-Hadrill, The Long-haired Kings (1962)

Orsio Sacerdote espanhol que fugiu para Hipona em 414 a fim de escapar
s invases brbaras. Sob a orientao de seu mentor, Santo Agostinho,
produziu numerosas obras em defesa da ortodoxia. A primeira, sobre a
origem da alma humana, fez sua reputao. Foi enviado em 415 para debater
com Pelgio perante o bispo Joo de Jerusalm, mas o resultado foi
inconclusivo. O relatrio episcopal enviado a Roma ps em dvida a ortodoxia
de Orsio e provocou a sua famosa refutao das acusaes, bem como dos
argumentos pelagianos, no Liber Apologeticus Arbitrii Libertate. Finalmente,
Agostinho pediu-lhe que produzisse um suplemento histrico da sua prpria
Cidade de Deus.
     Essa obra, concluda em 418, props-se combater o argumento muito
popular na poca segundo o qual a queda de Roma foi diretamente causada
por sua converso ao Cristianismo. Conforme o ttulo indica, a Historiarum
adversus Paganos Libri Septem foi dividida em sete livros, uma estrutura que
sugeriu paralelos bblicos. O tema do Cristianismo perseguido e triunfante que
domina a obra explica a sua popularidade. [Paulo Orsio nasceu em 390 na
antiga provncia romana de Portus Cale, muito provavelmente em Braga, de
cuja s primaz foi presbtero, e faleceu em 431. No  lcito consider-lo
espanhol mas hispnico, uma vez que ao conceito de territorialidade estava
ainda longe de corresponder um de nacionalidade. NT]
 Seven Books of History against the Pagans, org. por I.W. Raymond (1936);
B. Lacroix, Orose et ses ides (1965)

Orsini, famlia Importante famlia nobre de Roma. O lendrio fundador dos
Orsini, chamado Orso ("urso"), teria sido criado por um urso domstico e
chegado a Roma por volta de 425. Aquela famlia tambm reivindica como
seus ancestrais dois papas, Estvo II e Paulo I, e vrios outros santos e
bem-aventurados, como So Bento e sua irm, Santa Escolstica. A famlia
adquiriu proeminncia no sculo XII, simultaneamente com seus inimigos, os
Colonna, outra importante famlia em Roma. Grandes latifundirios ao norte
de Roma, os mais famosos membros da famlia foram os papas Celestino III
(1191-98) e Nicolau III (1277-80).
 G.B Colonna, Gli Orsini (1955); J.A.F. Thompson, Popes and Princes 1417-
1517 (1980)

Oseberg, barco de Barco viking encontrado em 1903 em Oseberg, a oeste
do fiorde de Oslo. Tem 21,5 metros de comprimento, com 15 pares de remos,
e est construdo em madeira de carvalho (c. 800), mas no foi projetado
para viagens de alto-mar. Sobrevivem muitos artigos tumulares, incluindo
martelos e uma carroa, com belas obras de talha representando animais,
como na cabea de serpente da proa. Os restos de duas mulheres foram
encontrados no barco, sustentando-se geralmente que se tratava da rainha
Asa, av de Haraldo, o Louro, e de uma serva. A provvel data do
sepultamento  o final do sculo IX. Ver Gokstad, barco de
 A.W. Brgger e H. Shetelig, The Viking Ships (1951)

ostrogodos (godos do Leste) Um dos dois principais ramos dos godos que
foram forados a deslocar-se para oeste sob a presso dos hunos. Seu
imprio estendia-se do Don ao Dniester, confinando com o litoral do Mar
Negro. Subjugados pelos hunos por volta de 370, reapareceram em 487
marchando sobre Constantinopla. O imperador Zeno, para afastar o perigo,
encarregou Teodorico, o chefe ostrogodo, de invadir a Itlia e subjugar
Odoacro, lder dos confederados germnicos que estavam governando a
Itlia, em nome do imperador.
       Em 493, Teodorico j tinha obtido o completo controle da Itlia,
governando com competncia a pennsula desde Ravena e ampliando sua
influncia a oeste, na Provena e na Espanha visigtica. A administrao
imperial sobreviveu sob o seu governo, e o Senado romano reconheceu
Teodorico como representante imperial. Os ostrogodos eram cristos arianos,
mas tolerantes, e conseguiram, de um modo geral, dar  Itlia uma gerao
de paz, graas  sua prtica de governar os ostrogodos e os romanos
separadamente, tendo feito muito poucos esforos no sentido da fuso ou da
assimilao. No final do reinado de Teodorico, a chamada "conciliao
ostrogoda" estava diluindo-se e houve uma srie de perseguies, no decorrer
das quais foi morto o grande filsofo Bocio.
       Em 553, os ostrogodos estavam divididos, em virtude da poltica
desastrosa dos sucessores de Teodorico, e Justiniano, o imperador do
Oriente, aproveitou a oportunidade para restabelecer a autoridade imperial.
Em 533, aps uma luta implacvel e prolongada, o reino ostrogodo
desmoronou. No deixou marcas permanentes nas instituies ou na cultura
peninsulares, mas desempenhou um papel crucial na transmisso das
estruturas anteriores. Ver Totila [168]
 W. Goffart, Barbarians and Romans 418-584: The Techniques of
Accomodation (1980); T.S. Burns, A History of the Ostrogoths (1984)

Osvaldo, Santo rei da Nortmbria c. 633-41 (n. c. 605) Enquanto Eduno foi
rei da Nortmbria (616-32), Osvaldo, filho de Etelfrith, predecessor de Eduno,
viveu exilado em Iona, onde se converteu ao Cristianismo. Em 632, Eduno foi
morto por Cadvalon, que por sua vez foi assassinado por Osvaldo no ano
seguinte. Osvaldo foi aceito como rei por Deira e Berncia, as duas antigas
divises da Nortmbria, e durante a maior parte do seu reinado foi suserano
da Inglaterra ao sul do Humber. Um dos grandes reis cristos, Osvaldo
promoveu a expanso do Cristianismo ao introduzir no reino missionrios
celtas vindos de Iona, dirigidos por Santo Aidan. Em 641, foi morto em
combate pelo rei pago Penda de Mrcia, e seu culto como santo e mrtir
propagou-se rapidamente.
 EM. Stenton, Anglo-Saxon England (1971)

Oto I, o Grande rei da Alemanha 936-73 (n. 912) Coroado imperador do
Sacro Imprio Romano em 2 de fevereiro de 962 em Roma, Oto  lembrado
como o fundador do primeiro Reich, que uniu a Alemanha e a maior parte da
Itlia num s Imprio, e tambm como virtual fundador do reino da Alemanha.
Seu pai, Henrique I (919-36), tinha preparado o caminho com o
desenvolvimento de um forte e slido ducado na Saxnia, salvaguardando a
fronteira setentrional contra os dinamarqueses; assumira a liderana na
resistncia militar contra os eslavos no leste e, sobretudo, contra os magiares,
que estavam no auge de seus ataques devastadores na Europa ocidental. Em
926, a Lorena tinha entrado decisivamente na rbita alem, com o duque
prestando vassalagem ao monarca alemo; e Oto I subiu ao trono de um reino
que cobria nominalmente os cincos grandes ducados dos primrdios da
Alemanha medieval: a sua saxnia natal, a Francnia, a Lorena e os ducados
meridionais da Subia e da Baviera. Em sua coroao, Oto enfatizou a
posio subordinada dos duques, que receberam funes de dignitrios reais
durante a cerimnia.
     Suas tentativas iniciais para controlar os ducados nomeando parentes
seus para o exerccio da funo ducal s obtiveram um xito parcial. A
primeira tentativa de Oto de interveno nos assuntos italianos (950-51) foi
provocada, em parte, pela necessidade de impedir que seu irmo Henrique,
duque da Baviera, e seu filho Lindolfo, duque da Subia, exercessem uma
poltica independente em relao  Borgonha e ao norte da Itlia. A
interveno provou ser um xito sob vrios aspectos: fortaleceu a autoridade
real alem no antigo Reino Central (Lorena, Borgonha e Lombardia), atraiu o
apoio papal e, no campo pessoal, permitiu que Oto (um vivo) esposasse
Adelaide, uma descendente da casa Carolngia, ligando assim seus destinos 
tradio de Carlos Magno. Nova reorganizao dos cargos ducais teve lugar
aps a rebelio de Lindolfo em 953, e o prestgio de Oto atingiu seu ponto
culminante em 955 com a devastadora derrota que inflingiu aos magiares na
batalha do rio Lech, perto de Augsburgo. O talento militar, associado a uma
forte poltica de fronteiras, garantiu a Oto firmar-se claramente como lder de
todo o povo alemo; os soldados aclamaram-no como imperator aps a
vitria do Lech.
       No tocante  administrao, ele confiou cada vez mais em clrigos que
lhe eram leais e cujas terras no estavam sujeitas  posse hereditria. A
criao de uma forte igreja alem (a Igreja Otoniana) foi ditada pela
necessidade. Campanhas vitoriosas contra os eslavos (nas quais teve papel
destacado Herman Billung, nomeado para o ducado saxnico) foram
acompanhadas de intensos esforos missionrios. As inquietaes em torno
da criao de um novo arcebispado em Magdeburgo contriburam para a
segunda e decisiva interveno de Oto na Itlia (961-62). Um apelo papal de
ajuda contra inimigos particulares foi atendido e Oto marchou sobre Roma,
onde foi coroado imperador. A um breve perodo de harmonia papal-imperial
seguiu-se drstica ao por parte do novo imperador: a deposio do papa
Joo XII e a eleio de papas favorveis  causa imperial. Oto consumiu
muito tempo e energia estabilizando a sua posio na Itlia, no decorrer do
que ajustou um casamento entre seu filho Oto II, o Vermelho, e uma princesa
bizantina, Tefane.
      O mbito e a natureza de suas atividades colocaram a Alemanha e a
Itlia em duradoura associao, e tambm cimentaram as estreitas relaes
entre a nova realeza alem e a Igreja. Um renascimento cultural, de inspirao
primordialmente latina e Carolngia, algumas vezes chamada de Renascena
Otoniana, gerou uma nova manifestao de vida cultural ocidental, sobretudo
nos       domnios       da      arquitetura,    escultura     e      artes
pictricas.                                       HRL
 K. Leyser, Rule and Conflict in a Early Medieval Society: Ottonian
Saxony(1979), Medieval Germany and its neighbours, 900-1250 (1982)

Oto III imperador do Sacro Imprio Romano 983-1002 (n. 980) Neto de Oto, o
Grande, e filho de Oto II (973-83), o terceiro rei-imperador desse nome
sucedeu no trono quando era ainda criana. Duas regncias competentes, a
primeira sob o controle de sua me Tefane (983-89) e depois de sua av
Adelaide (990-94), testemunharam a fora intrnseca do sistema otoniano. O
jovem prncipe foi criado sob forte influncia imperial e, em sua curta vida,
mostrou ser um dos mais romanos dos governantes germnicos. Seus
candidatos ao Papado, Gregrio VI (996-99) e o muito hbil e erudito
Gerberto d'AuriIlac, Silvestre II, encorajaram suas idias imperiais, mas a
intransigncia romana e o ressurgimento da poltica eslava, sobretudo na
Polnia, impediram a realizao de seus mais ambiciosos planos. Seu ativo
encorajamento de intelectuais e artistas levou o renascimento cultural do
perodo otoniano a novas conquistas.
 [R. Folz, L'ide d'Empire en Occident du V au XV sicle, Paris, Aubier,
1953]

otomanos, turcos A palavra "Otomano" deriva do nome do fundador da
dinastia, Otman I (m. 1326), que concentrou o poder do Estado turco em suas
prprias mos e utilizou os ghzis (guerreiros muulmanos fanticos que
realizavam incurses predatrias, razzia, para cumprir a jihd ou guerra santa
contra os cristos) com a finalidade de empreender uma coerente poltica de
expanso. Inicialmente o sucesso foi lento, mas com o sucessor de Otman,
Orkhan (1326-62), essa poltica prosseguiu: Nicia caiu em 1331, Nicomdia
em 1337 e Gallipoli em 1354, assim dotando os otomanos de uma base
permanente na Europa. Divises crists internas facilitaram a tarefa dos
otomanos e, sob o comando de Murad I (1362-80), o avano foi acelerado:
Adrianpoles caiu em 1363 e em 1371, na batalha de Cirnomen, os Estados
srvios meridionais foram desbaratados. Nis e Sfia foram capturadas em
1386, e a oposio dos Estados srvios setentrionais foi vencida em Kosovo,
em 1389. No reinado de Bajazet I (1389-1403), Constantinopla foi colocada
sob bloqueio perptuo e a ofensiva crist para defend-la foi destruda em
Nicpoles (1396).
       A administrao muulmana estava sobrecarregada pela rapidez e
escala dos ganhos obtidos e, numa tentativa de manuteno de sua identidade
cultural nas novas terras, os muulmanos iniciaram uma srie de guerras
locais na Turquia contra outros Estados muulmanos. Entretanto, em 1402,
Bajazet foi capturado e suas foras sofreram pesada derrota em Ankara,
infligida por Tamerlo. O Estado Otomano foi temporariamente fragmentado
por herana at voltar a ser reunificado por Maom I (1413-21) que, com o
seu sucessor Murad II, restabeleceu o ideal da ghzi e da jihd. Em Varna
(1444) e Kosovo (1448), contra-ofensivas hngaras foram desbaratadas e
Constantinopla em 1453 caiu em poder das foras de Maom II. Este (1451-
81) continuou avanando na Europa: Belgrado foi sitiada em vo em 1456,
mas Atenas seria capturada em 1458. Vastas reas da sia Menor e da
costa do Mar Negro caram em poder dos otomanos, assim como a Srvia
(1459) e a Bsnia (1463-64). As dimenses das conquistas restringiram novos
avanos e o fervor por vitrias abrandou de forma considervel. Ver Bajazet
I                                         HRL
 P. Sugar, South-Eastem Europe under Ottoman Rule 1354-1804 (1977)
Ottobono Fieschi Papa em 1276. Natural de Gnova, era sobrinho do papa
Inocncio IV (1243-54), que o elevou ao cardinalato. No pontificado de
demente IV (1265-68), Ottobono foi enviado  Inglaterra para atuar como
mediador entre o rei Henrique III e seus bares rebeldes. A pacincia,
perseverana e talento poltico de Ottobono ajudaram na elaborao do
Acordo de Kenilworth (1266), que levou os rebeldes baroniais  obedincia e
os conselheiros reais  razo, pondo fim  guerra civil. O novo acordo foi
reforado pelo Estatuto de Marlborough. Ottobono tambm pregou uma
Cruzada numa campanha bem planejada que usou a energia, o zelo e a
habilidade dos frades mendicantes. Seu programa de reforma eclesistica
culminou em suas Constituies, promulgadas no Conclio de Londres em
1268. Em 1276, Ottobono foi eleito papa como Adriano V mas faleceu cinco
semanas depois.
 F.M. Powicke, The Thirteenth Century 1216-1307(1953)

Owain Gwynedd prncipe de Gwynedd 1137-70 (n. c. 1109) Em 1137,
sucedeu a seu pai Gruffydd ap Cynan (1081-1137) no trono de Gwynedd, cujo
territrio abrangia a maior parte da Gales do Norte. Enquanto a Inglaterra
estava envolvida em guerra civil, Owain usou sua habilidade como poltico e
militar para ampliar as fronteiras do reino. Em 1157, Henrique II comandou a
sua primeira campanha contra Owain, que terminou numa trgua. Seis anos
depois, o Conselho de Woodstock tentou reduzir os prncipes galeses do
status de clientes ao de vassalos, e a sublevao resultante foi liderada por
Owain Gwynedd e Rhys ap Gruffydd da Gales do Sul. A segunda tentativa de
Henrique de subjugar o Pas de Gales fracassou de maneira ignominiosa e
deixou Owain livre para conquistar os castelos de Basingweirk e Rhunddlan
(1166-67). Tendo desafiado abertamente Henrique em 1168, ao oferecer
ajuda a Lus VII de Frana, Owain manteve sua posio independente at a
morte. Deixou uma reputao de magnanimidade e sabedoria.
 R.R. Davies, Conquest, Coexistence and change: Wales 1063-1415 (1987)

Oxford Cidade situada na bacia do Tmisa Superior, na confluncia do
Tmisa com o Cherwell, local de passagem para ambos os rios, de boas
comunicaes e defesa. Era uma povoao Saxnica, mencionada pela
primeira vez em 912 (Crnica Anglo-Saxnica) quando Eduardo, o Velho,
tomou posse dela e provavelmente a fortificou. Aparece no Domesday Book
como uma cidade de mercado que ficou sob a jurisdio da famlia d'Oilli, a
qual construiu seu castelo, trs pontes e o priorado de Oseney (1129). Seu
desenvolvimento como um prspero burgo foi complicado no final de sculo
XII pelo surgimento da Universidade, mencionada pela primeira vez em 1184,
embora Oxford j fosse provavelmente um centro acadmico. A fundao da
Universidade pode ter sido parcialmente devida  dificuldade de acesso 
Universidade de Paris durante o conflito de Henrique II com Becket (1164-69).
Foi ampliada pelos frades e estudantes parisienses na dcada de 1220 e os
primeiros colgios (Balliol, Merton e Universidade) foram fundados na segunda
metade do sculo. A cidade no acolheu com bons olhos essa nova e
turbulenta comunidade. A Idade Mdia testemunhou a luta da Universidade em
prol de autonomia, maior autoridade e resistncia cvica, ocasionando muitos
encontros sangrentos (sobretudo em 1209, 1248, 1263, 1298, e o massacre
de Santa Escolstica em 1355). O apoio real e papal asseguraram o triunfo
da Universidade em meados do sculo XV.
      Em contraste com Paris, Oxford favoreceu o Quadrivium, tornando-se
um centro de estudos cientficos e matemticos. Mas tambm mostrou
conservadorismo, ao promover o platonismo e o agostinianismo. Dentre os
notveis intelectuais e humanistas de Oxford estavam Edmund Risch, Roberto
Grosseteste, Roger Bacon, Duns Scotus, Ockham e Wycliffe.
 CE. Mallet, A History of the University of Oxford, vol. I (1968)

Oxford, Provises de (1258) Documento constitucional que os bares
foraram Henrique III a aceitar aps uma turbulenta reunio em Oxford. Os
bares estavam alarmados e eram hostis aos privilgios concedidos a
favoritos estrangeiros, aos pedidos de pesados tributos e  evidente
degradao dos grandes cargos pblicos do Estado, em favor de
administradores da casa real. Nos dois anos subseqentes, a Inglaterra foi
governada pelo que era virtualmente um conselho oligrquico de bares,
destacando-se entre eles Simo de Monfort, cunhado do rei, e Richard de
Clare, conde de Gloucester. As detalhadas Provises, corretamente descritas
como uma tentativa de dirigir uma monarquia sem um rei, provaram ser, em
ltima instncia, inviveis; mas, em sua invocao do esprito da Magna Carta
e em sua obteno geral de moderado apoio, ajudaram a afirmar o princpio
de constitucionalismo na monarquia inglesa que sobreviveu  subseqente
guerra civil e  ascenso ao poder supremo, seguida pela derrota, de
Monfort.
 R.F. Treharne, The Baronial Plan of Reform (1932); Documents of the
Baronial Movement of Reform and Rebellion 1258-67, org. por I.J. Sanders
(1973)
                                    P/Q
paganismo (do latim paganus, aldeo, homem do campo) Termo geralmente
aplicado s religies politestas, se bem que, durante a Idade Mdia, referia-
se tambm, com freqncia, a religies monotestas no-crists (Islamismo e
Judasmo).
     O paganismo clssico persistiu at o sculo VI e outros importantes
cultos pagos incluram os deuses teutnicos dos povos germnicos e o Aesir
dos vikings. O avano do Cristianismo flutuou em toda a Europa, com
ocasionais recadas e incurses pags; a Litunia foi o ltimo baluarte pago,
convertido em 1386. A magia e o ocultismo, freqentemente associados a
religies pr-crists, persistiram, porm, durante toda a Idade Mdia, mesmo
num contexto cristo, e o Cristianismo absorveu e adaptou freqentemente
locais, festividades e prticas pagos para facilitar a converso; a fuso inicial
produziu amide interessantes culturas hbridas.
       A introduo humanista medieval das obras de autores pagos clssicos
(Plato e Aristteles) e de escritos judaicos e islmicos provocou muita
polmica, sobretudo durante o sculo XIII, e contribuiu de forma significativa
para o pensamento medieval.
 The Conflict between Paganism and Christianity in the Fourth Century, org.
por A.D. Momigliano (1963); P. Brown, the World of Late Antiquity (1971)

Pases Baixos Estritamente falando, os "Pases Baixos" compreendem as
reas ao redor dos esturios do Reno, Mosa e Escalda, terras hoje divididas
politicamente entre a Holanda, a Blgica, o Luxemburgo e pequenas sees
da Frana e da Alemanha. Durante a maior parte da Idade Mdia, os Pases
Baixos estiveram divididos em numerosos condados, ducados e principados,
cuja caracterstica principal, depois do sculo XI, foi uma prspera vida
urbana. As persistentes divises lingsticas entre populaes de fala
romnica (vales) e de fala germnica (holandeses, frises e flamengos)
refletiram e exageraram a complexidade das estruturas polticas.
       Nos comeos da Idade Mdia, os frises forneceram um importante
elemento comercial, conservando sua religio pag at fins do sculo VIII,
quando foram absorvidos no Imprio Franco de Carlos Magno. Aps a partilha
do Imprio Carolngio em 843, os Pases Baixos foram incorporados ao Reino
Central da Baixa Lorena de Lotrio; mas, nesse perodo, havia muita
devastao causada pelas incurses vikings. Em 926, o gro-ducado da
Lorena tornou-se parte do reino da Alemanha, embora a fronteira entre a
Alemanha e a Frana dos Capeto permanecesse tensa e incerta. Com o
tempo, os condados da Flandres e do Artois passaram para a Frana,
enquanto que a Alemanha e o Imprio revivido (depois de 962) receberam a
vassalagem dos trs prncipes-bispos de Utrecht, Lige e Cambrai, dos
condados de Frislndia, Holanda/Zelndia (e os territrios que constituem
agora a moderna Holanda), Luxemburgo, o condado de Namur e os ducados
de Brabante e Limburgo.
     No sculo XII, a vida comercial e industrial da rea era prspera,
desenvolvendo-se ao longo de uma das principais artrias de comunicao da
Europa ocidental, ligando o sul  Inglaterra e ao Bltico atravs da bacia
hidrogrfica, com destaque para o Reno. Bruges tornou-se uma das feitorias
para a Liga Hansetica. O comrcio de panos era especialmente poderoso na
Flandres e no Brabante, ao passo que Lige era universalmente reconhecida
como um importante centro metalrgico. O crescimento urbano em Bruges,
Ypres, Gand, Lige e Dinant precipitou a turbulncia social e lutas violentas
entre senhores feudais e cidades, e entre guildas organizadas dentro das
cidades, situao anloga  das grandes cidades italianas. A falta de unidade
poltica foi em certa medida contornada, aps um perodo de grande
desordem social, pela casa borgonhesa no final do sculo XIV. Em 1384,
Filipe II, o Temerrio, duque de Borgonha, tornou-se o governante da
Flandres, Artois, Nevers, Franco-Condado, Anturpia e Malines. Seus
sucessores ampliaram a herana, que em 1433 inclua a Holanda e a
Zelndia. O crescimento urbano intensificou-se tambm em Dordrecht,
Middelburg, Kampen, Zwolle e Deventer.
    No sculo XV, surgiu uma indstria de construo naval e centros
comerciais floresceram em Amsterd, Haarlem, Haia, Delft e Roterd.
Desenvolveu-se uma vida cultural e religiosa sumamente rica, buscando
inspirao em fontes francesas e alems. A fundao da Universidade de
Louvain em 1423, a obra da Irmandade da Vida Comum e a tradio mstica
(Jan van Ruysbroeck), e sobretudo o surgimento da importante escola de arte
flamenga do sculo XV forneceram notveis exemplos da vitalidade da
sociedade dos Pases Baixos no final da Idade Mdia. Ver Flandres;
Artevelde, Jacques van HRL
 The Netherlands, org. por B. Landheer (1943); F.E. Huggett, The Modern
Netherlands (1971)

Palelogo Famlia bizantina latifundiria, proeminente na poca dos Comneno.
Em 1258, Miguel VIII Palelogo (1258-82) fez-se co-imperador do Imprio de
Nicia na menoridade de Joo IV. Em 1259, derrotou uma coalizo latina em
Pelagnia e em 1261 ocupou Constantinopla, instalando seu filho Andrnico II
como co-imperador. O Imprio Bizantino era restaurado aps 57 anos de
domnio latino.
      Miguel VIII enfrentou trs problemas principais: os planos ocidentais de
Reconquista, o desafio dos governantes gregos do Epiro e as incurses
turcas em Nicia. A diplomacia, incluindo o acordo para a reconciliao das
Igrejas (o que acabou por tornar a dinastia imensamente impopular) e a
conivncia nas Vsperas Sicilianas (1282), superou amplamente as primeiras
duas ameaas, mas o problema turco era mais difcil. Andrnico II teve um
longo e desastroso reinado, exceto por sua Renascena cultural. A unio da
Igreja foi dissolvida, as finanas atolaram-se, as incurses turcas aumentaram
e os mercenrios catales contratados entregavam-se  pilhagem
desenfreada. Seu neto Andrnico III (1328-41) instigou a guerra civil,
forando-o a abdicar. A sia Menor foi perdida para os turcos na dcada de
1330 e optou-se por uma nova poltica de consolidao europia.
     A guerra civil seguiu-se  morte de Andrnico III e arrastou-se at 1347,
quando seu filho Joo V (1354-91) e Joo Cantacuzeno se tornaram co-
imperadores. Eclodiu a peste, a ameaa otomana avolumou-se e Joo V foi
forado a reconhecer-se vassalo do sulto. Seu filho Manuel II (1391-1425)
procurou ajuda ocidental contra os turcos, mas essa Cruzada foi derrotada
(1396) e foi o chefe mongol Tamerlo quem os deteve em 1402. Essa pausa
foi seguida de um tratado entre bizantinos, turcos, Gnova e Veneza. Manuel
II interferiu na poltica otomana mas no pde proporcionar uma segurana
concreta ao Imprio, que com sua morte voltou a estar submetido aos turcos.
Seu sucessor, Joo VIII (1425-48), procurou auxlio ocidental e, portanto,
soluo para o cisma (1439). Em 1443 comeou uma Cruzada abortada, que
logo terminou numa trgua. O irmo de Joo VIII, Constantino XI (1448-53),
morreu combatendo quando Constantinopla caiu em poder dos turcos, em
1453. Em 1454, Escolrios foi ordenado patriarca sob o domnio turco: no
havia mais imperadores. MB
 D.J. Geanakoplos, Emperor Michael Paleologus and the West (1959); D.M.
Nicol, The Last Centuries of Byzantium (1972); R. Browning, The Byzantine
Empire (1980)

Papado As pretenses do Papado, o bispado de Roma,  chefia suprema da
Igreja Catlica esto profundamente enraizadas na crena em que o bispo de
Roma  o sucessor de So Pedro, o principal dos Apstolos, a quem o Cristo
teria confiado o governo de Sua Igreja na terra. O trocadilho implcito no texto
super hanc petram (sobre esta pedra fundei a minha igreja) teria muita fora
na Idade Mdia, quando a configurao poltica do mundo mediterrneo serviu
para incrementar a autoridade papal. Havia cinco patriarcados na Igreja
primitiva, e quatro deles (Constantinopla, Antioquia, Jerusalm e Alexandria)
permaneceram na rbita dos mundos bizantino e muulmano. Somente Roma
sobreviveu no Ocidente, e o prestgio da antiga capital foi transmitido 
sociedade medieval pelo bispo de Roma, herdeiro das tradies imperiais e
crists. O papel desempenhado pelo papa Leo I ao persuadir tila a deixar a
Itlia no comeo da dcada de 450 passou para o domnio da lenda.
       Foi So Gregrio Magno quem estabeleceu firmemente a primazia do
Papado, sobretudo em questes legais. Sua proteo do povo romano, seu
constante encorajamento e exortao a outros bispos e arcebispos no
Ocidente, e o incio da converso dos ingleses, aliceraram a esfera efetiva
de autoridade do Papado medieval. Os perigos de que o Papado
degenerasse em mero episcopado lombardo foram superados no sculo VIII
pela interveno dos francos; e a coroao de Carlos Magno como imperador
pelo papa Leo III, em Roma, no dia de Natal de 800, simbolizou o novo
quadro poltico do mundo ocidental. Reivindicaes tericas de primazia
continuaram sendo comuns nos sculos seguintes, especialmente no
pontificado de Nicolau I (858-67), embora na maioria dos casos os
imperadores teocrticos das dinastias Carolngia e Otoniana tendessem a ser
dominantes.
      A grande crise do sculo XI, conhecida como Questo das Investiduras,
provocou dramtica mudana. Sob a direo do imperador Henrique III, o
Papado pde libertar-se do controle exercido sobre ele pelas faces
aristocrticas de Roma. Durante a menoridade de seu filho Henrique IV (1056-
1106), o Papado encontrou um aliado nos normandos do sul da Itlia para
contrabalanar o poderio militar alemo. A afirmao dos princpios de eleio
cardinalcia deu equilbrio  sua prpria posio constitucional interna. O papa
Gregrio VII (Hildebrando), no decorrer de seu turbulento pontificado, colocou
o Papado reformado em novo e dinmico rumo. Humilhou Henrique IV,
forando-o  submisso em Canossa. Por sua intensa atividade no seio da
Igreja e em relao aos governantes seculares da Europa, ele colocou o
Papado na posio centralizada e centralizadora de fora que iria conservar
ao longo dos dois sculos seguintes. O papa Urbano II pregou a Primeira
Cruzada em 1095, e o sculo XII viu a influncia e o poder papais
aproximarem-se de seu auge. Um sculo depois de Canossa, o imperador
Frederico Barba-Ruiva submeteu-se ao papa Alexandre III em Veneza (1177),
e o papa Inocncio III levou o Papado ao apogeu, influenciando eleies
imperiais, atuando como rbitro universal no Ocidente, encorajando as
Cruzadas e a ao contra os hereges, e colocando-se na vanguarda do
movimento em prol da reforma moral no grande Quarto Conclio de Latro,
realizado em 1215.
      O prprio xito do Papado acarretou srias complicaes; o
envolvimento excessivo na poltica e nas finanas gerou ressentimento. O
papa Bonifcio VIII formulou pretenses extremas de supremacia na bula
Unam Sanctam durante as celebraes do jubileu de 1300, mas sua
humilhao por agentes do monarca francs em Agnani, em 1303, mostrou
onde estava, de fato, o verdadeiro poder. O exlio em Avignon (1309-78) e o
Grande Cisma entre Roma e Avignon (1378-1417) dominaram a poltica papal
no final da Idade Mdia. O conflito foi resolvido com a eleio de Martinho V
no Conclio de Constana em 1417, mas a reforma foi deixada (com apenas
moderado xito) nas mos dos novos papas e, em fins do sculo XV, os
papas ostentavam muitos dos atributos de autnticos prncipes da
Renascena. Ver conciliar, movimento; Decretais Forjadas; Doao de
Constantino; Gelasiana, doutrina; indulgncias; Inquisio; Investiduras,
Questo das; ver tambm conclios e papas individualmente registrados
 W. Ullmann, The Growth of Papal Government in the Middle Ages (1962);
B. Tierney, The Crisis of Church and State 1030-1300 (1966); B. Tierney, The
Origins of Papal Infallibility (1972); W. Ullmann, A Short History of the Papacy
(1972); J. Richards, The Popes and the Papacy in the Early Middle Ages
(1979) [G. Barraclough, Os papas na Idade Mdia, Lisboa, Verbo, 1972; M.
Pacaut, Histoire de Ia Papaut, Paris, Fayard, 1976]

Paris Cidade que ocupa uma importante posio geogrfica numa frtil
plancie vizinha da confluncia dos rios Oise, Marne e Yonne com o Sena, e
na juno de estradas provenientes do Mediterrneo, da Aquitnia e da
Espanha. Seu ncleo, a Ile de la Cit, foi estabelecido pela tribo cltica dos
Parisii e recebeu o nome de Lutetia quando caiu sob domnio romano em 52
a.C. O Cristianismo foi introduzido por St. Dinis no final do sculo III e
propagado por So Martinho no sculo IV. A ameaa de ataque por tila
(451) foi evitada pelas oraes de Santa Genoveva e as aes do general
romano Acio.
    Paris foi capturada pelo rei merovngio Clvis, tornando-se sua capital
em 508; mas depois da transferncia da capital ordenada por Chilperico
(567), Paris caiu na obscuridade. Em 845 foi saqueada pelos vikings e em
885, sob a liderana do bispo Gozlin e do conde Eudes, sustentou
galhardamente prolongado cerco viking. Em 987, Hugo Capeto, duque de
Paris, tornou-se rei e, com ele e seus sucessores, Paris passou a ser a
capital permanente da Frana.
      Os sculos XI e XII presenciaram um comrcio florescente, o
desenvolvimento de negcios em artigos de luxo e muita atividade de
construo, sobretudo nos reinados de Lus VI (1108-37), Filipe Augusto e
So Lus IX.
      Um importante fator no desenvolvimento da Paris medieval foi a
Universidade, originada das escolas da catedral e que veio a ser reconhecida
em 1200 por Filipe Augusto. Tornou-se o grande centro transalpino do ensino
teolgico ortodoxo e do tomismo. A partir da dcada de 1220, as Ordens
Mendicantes ampliaram seu ensino e, durante os sculos XIII e XIV, a
Universidade de Paris foi o mais famoso centro de saber da Cristandade,
tendo entre seus professores Alexandre de Hales, So Boaventura, Alberto
Magno e Toms de Aquino. A Paris medieval foi importante pela combinao
das funes de capital poltica, de centro mercantil e de maior centro
intelectual e artstico da Europa setentrional.
      A segunda metade do sculo XIV e a primeira metade do sculo XV
testemunharam uma radical mudana na sorte de Paris. A partir de 1346
esteve sujeita s invases inglesas e, apesar da recuperao parcial com
Carlos V, foi abalada pela disputa borgonheses/armagnacs, que se arrastou
de 1410 at cerca de 1429. Foi finalmente reconquistada aos ingleses (1436-
41) e desfrutou de um perodo de calma, seguido de sua restaurao como
centro das artes e letras no reinado de Francisco I (1515-
47).                                   MB
 M. Druon, The History of Paris (1969); M. Mollat, Histoire de I'lle de France
et de Paris (1971)

Paris, Matthew (c. 1200-59) Monge beneditino que ingressou no mosteiro de
St. Albans por volta de 1217, onde o grande Scriptorium forneceu o
necessrio para satisfazer seus interesses literrios. Suas primeiras obras
foram hagiogrficas, mas seu profundo interesse pela histria contempornea
refletiu-se na ajuda que prestou ao primeiro grande cronista da abadia, Roger
de Wendover, a quem substituiu por volta de 1236. Em 1248, foi  Noruega
para reformar a casa beneditina da ilha de Nidarholm, regressando em 1249
ou 1250. O resto de sua vida foi dedicado s suas composies histricas.
       Personalidades de seu tempo, como Henrique III ou Haakon IV da
Noruega, buscaram sua companhia na esperana de que a posteridade
recebesse descries favorveis a seu respeito. Como historiador crtico,
Paris carecia da percepo aguda de Beda, da anlise judiciosa de Guilherme
de Newburgh ou do poder de sntese de Guilherme de Malmesbury.
Entretanto, essas deficincias ajudam a explicar, em parte, sua popularidade.
Sua compilao indiscriminada de informao apresentada em estilo fluente 
de uma riqueza a ser explorada pelos historiadores. Seus preconceitos, franca
e veementemente expressos, incutem colorido  sua escrita, quer esteja
contra a autoridade tirnica, contra os frades (a quem detestava) ou contra os
tributos papais. Era um artista de mrito que se deleitava iluminando seus
manuscritos, histrias e itinerrios, com desenhos e esboos brilhantes,
especialmente valiosos por seus detalhes arquiteturais e topogrficos, e pela
informao dada sobre herldica e vesturio. Ele aparece como um indivduo
egosta cujos julgamentos nem sempre so confiveis. O seu melhor bigrafo
moderno fala dele como um "tagarela impertinente". Seu acesso a lugares
importantes, sua curiosidade e, sobretudo, sua diligncia e habilidade como
comunicador asseguram-lhe um lugar entre os mais notveis historiadores da
Idade Mdia. [233, 319 ]
 R. Vaughan, Matthew Paris (1958)

Paris, Paz de (4 de dezembro de 1259) Acordada entre Henrique III da
Inglaterra (1216-72) e Lus IX da Frana (1226-70). Embora ambos os
monarcas estivessem comprometidos pela trgua de Chinon (1214), o conflito
a respeito das possesses inglesas na Frana no tinha sido solucionado e
surtos blicos espordicos prosseguiram at a abertura de negociaes em
1257, por insistncia do papa Alexandre IV. Henrique III foi seduzido pela
oferta papal da Coroa da Siclia para seu filho Edmundo, e da Coroa imperial
para seu irmo Ricardo da Cornualha. As negociaes tambm foram
estimuladas por presso dos bares de Henrique e sua necessidade de
resolver o problema do dote de Eleanor, esposa de Simon de Montfort.
      Pelo tratado, Henrique renunciava s suas pretenses sobre a
Normandia, Maine, Anjou e Poitou, e sobre as dioceses de Limoges,
Prigueux e Cahors; Lus reconheceu sua suserania na Gasconha, desde que
Henrique se tornasse seu vassalo e par de Frana. As outras contra-
concesses de Lus eram, em sua maioria, promessas (entrega do Agenais e
de Quercy a Henrique, aps a morte de Afonso), e quase tudo era impreciso e
passvel de obstruo jurdica. Lus tambm se comprometeu a pagar o custo
de 500 cavaleiros durante dois anos, e Henrique concordou em que Lus
depositasse 15.000 marcos esterlinos, dedutveis da soma total pagvel a
Henrique pela Paz (o dote de Eleanor). A Paz foi um arranjo dinstico e um
bom exemplo da diplomacia ocidental, mas tambm um complicado
instrumento feudal que culminaria numa srie de arbitragens e, finalmente, em
guerra. No obstante, ofereceu 35 anos de paz imperturbada a Henrique III e
Eduardo I, permitindo a soluo de muitos conflitos internos.
 R.F. Treharne, The Baronial Plan of Reform 1258-63(1932); F.M. Powicke,
The Thirteenth Century (1953); J. Le Patourel, "The Origin of the War", em
The Hundred Years' War, org. por K. Fowler (1971)

Parlamento A partir da dcada de 1230, tornou-se comum na Inglaterra
descrever certas importantes assemblias como parlamentos. A palavra
significava simplesmente "entrar em negociaes, conferenciar": era uma
reunio entre o rei, seus ministros, os magnatas e os prelados para discutir
importantes questes de Estado -- judiciais, polticas e financeiras -- e para
receber e responder a peties. O Parlamento era o instrumento de governo
do rei; ele o convocava e dissolvia, e determinava sua agenda. Salvo em
circunstncias extraordinrias, o rei assim continuou procedendo at finais da
Idade Mdia. Entretanto, as repetidas disputas entre a Coroa e os magnatas,
e os efeitos da guerra intermitente com a Frana e a Esccia, para no
mencionar vastas mudanas sociais, influenciaram profundamente o modo
como o Parlamento se desenvolveu.
      Sua composio passou por algumas mudanas significativas. Embora o
nmero de magnatas leigos variasse muito no comeo, um grupo fixo ou
pariato parlamentar foi criado no sculo XV. Representantes do clero inferior
foram convocados no final do sculo XIII e no sculo XIV, mas sua
importncia declinou aps a separao de convocao por iniciativa do
Parlamento, depois de 1340. Alm disso, a prtica de convocao de
representantes dos condados e burgos para o Parlamento, especialmente
quando estava sendo estudada e discutida a tributao, tornou-se mais
freqente em fins do sculo XIII e habitual a partir de meados do sculo XIV.
Simultaneamente, o Parlamento foi transformado de uma reunio ocasional na
qual eram feitos negcios, numa instituio com sua prpria organizao e
procedimentos distintos, e um lugar reconhecido na maquinaria governamental.
A partir da dcada de 1330, dividiu-se gradualmente em duas casas, com os
nobres e os prelados (a cmara alta) deliberando separadamente dos
representantes dos condados e burgos (a cmara baixa ou Comuns) que,
depois de 1376, passaram a ter seu prprio porta-voz ou lder. No sculo XV,
o Parlamento converteu-se numa grande assemblia nacional cujos estatutos
eram superiores ao direito consuetudinrio e sem cujo acordo nenhum imposto
vlido podia ser criado.         CHK
 Historical Studies of the English Parliament, org. por E.B. Fryde e E. Miller
(1970); G.O. Sayles, The King's Parliament of England (1975); The English
Parliament in the Middle Ages, org. por R.G. Davies e J.H. Denton (1981)

Pscoa, data da O Conclio de Nicia (325) fixou a Pscoa no domingo
seguinte  primeira lua cheia depois do equincio da primavera, e aprovou o
mtodo alexandrino de clculo, para essa ocorrncia. Os alexandrinos
adotaram 21 de maro como o dia do equincio vernal, e usaram um "ciclo
pascal" de 19 anos para lidar com o fato conhecido de que o ano solar
consistia em 365 dias e uma frao indeterminada. Do sculo V em diante,
esse sistema foi cada vez mais adotado no Ocidente, substituindo os que
eram favorecidos pelas Igrejas romana, franca e cltica.
 M. O'Connell e A. Adam, The Liturgical Year (1981)

Patrcio, So (c. 390461) O Patrcio histrico est escondido em lendas
hagiogrficas, muitas vezes inventadas para consolidar as pretenses do
primaz de Armagh. Alguma informao idnea pode ser obtida em sua prpria
obra: Confessio  uma descrio autobiogrfica de seu desenvolvimento
espiritual e de sua misso; a Epstola a Coroticus atacou o trfico de escravos
britnico e aqueles clrigos que o toleravam, enquanto que Lorica (loriga ou
cota de malha)  um tratado devocional. Patrcio era filho de um decurio
(chefe de pessoal do palcio) britnico e, na juventude, foi capturado por
traficantes de escravos e vendido na Irlanda. Foi usado como pastor e, em
seu isolamento, passou por uma profunda converso espiritual.
      Escapou para o continente com a inteno de voltar como missionrio, e
recebeu algum treinamento para o sacerdcio antes de ser enviado de volta 
Irlanda para suceder ao bispo Paldio por volta de 434. Sua atividade
missionria limitou-se ao norte e oeste da Irlanda; estabeleceu sua s em
Armagh, perto da residncia do rei mais poderoso da poca, alm de outras
ss. Seus escritos so deselegantes mas impregnados de profunda
sinceridade. Usou a escrita de um modo pessoal para atacar o paganismo e o
culto do sol de seu tempo. Estudos recentes diminuram os elementos mais
fabulosos que passaram a estar associados a Patrcio, revelando um
missionrio devoto e humilde que provavelmente desempenhou um papel
decisivo, ainda que limitado, na introduo do Cristianismo na Irlanda. Ver
Igreja irlandesa [201]
 K. Hughes, Church in Early Irish Society (1966); R.P.C. Hanson, St. Patrick:
His Origins and Career (1968)

Paulo, o Dicono (730-99) Educado na corte lombarda do rei Rachis de
Pavia, produziu uma clebre cronologia potica da histria mundial e uma
importante edio do Breviarum ab Urbe Condita, a histria romana de
Eutrpio. Quando os reinos lombardos caram em poder de Carlos Magno,
Paulo foi para Monte Cassino mas acabou sendo atrado para Aix-la-Chapelle,
onde permaneceu em 782-86.
      Seu conhecimento de Virglio, Ovdio e Lucano asseguraram o alto
apreo em que era tido, confirmado por sua edio de De Verborum
Signifcatione, importante fonte de latim arcaico e direito. Sua fama repousa
na incompleta Historia Langobardorum, uma vivida histria dos lombardos no
perodo 688-744. Seu principal objetivo era enfatizar o triunfo do Cristianismo
sobre o paganismo. O uso magistral de antigos esboos histricos,
documentos eclesisticos e de sua prpria memria, fizeram dessa obra uma
fonte essencial de informao sobre a cultura lombarda.
 C. Wickham, Early Medieval Italy 400-1000 [1981)

Pedro III, o Grande rei de Arago 1276-85 (n. 1239) Filho de Jaime I (1213-
76), auxiliou seu pai na Reconquista, mas seu casamento com Constana, filha
de Manfredo Hohenstaufen, em 1262, desviou gradualmente suas atenes
para o Mediterrneo oriental. Manfredo tinha sido substitudo como rei da
Siclia pelo aliado papal Carlos de Anjou, mas o brutal governo deste ltimo
assegurou a formao de bolses de descontentamento que procuravam
obter apoio em alguma parte. A pretenso de Pedro, atravs da esposa,
assegurou seu interesse e ele passou a apoiar os rebeldes em sua luta, a qual
culminou com as Vsperas Sicilianas (1282), quando os angevinos foram
expulsos. Pedro viajou para a Siclia, sendo proclamado rei ao desembarcar,
ignorando a vigorosa oposio papal. O papa Martinho IV (1281-85)
respondeu excomungando Pedro e entregando o trono da Siclia ao filho do rei
francs. Martinho encorajou uma Cruzada contra os aragoneses, comandada
por Filipe III, mas o seu avano foi sustado por uma epidemia e ainda mais
debilitado pelas mortes, na mesma poca, de Filipe III e de Carlos de Anjou.
Quando Pedro faleceu em fins de 1285, seu reino estava assegurado e a
separao da Siclia em relao  Itlia meridional tornara-se uma
caracterstica da cena poltica europia.
 J.N. Hillgarth, The Spanish Kingdoms, vol. I (1976-78) [S. Runciman,
Vsperas Sicilianas, Madri, Alianza, 1979]

Pedro Damio, So (c. 1007-72) Estudante em Parma, Modena e Faenza,
ensinou por breve perodo antes de ingressar na vida religiosa em Fonte
Avellana, em 1035. Oito anos depois era eleito prior de uma congregao de
eremitas e a elaborou, para seu uso, uma Regra eremtico-cenobtica. Com o
ativo encorajamento do papa Leo IX e da Cria, escreveu duas obras de
grande influncia: o Liber Gratissimus, que defende a validade das ordens
conferidas gratuitamente por simonacos, e o Liber Gonorrhianus, que atacou
a decadncia moral do clero no sculo XI.
       Estvo IX f-lo cardeal em 1057 mas, ao invs de Humberto da Silva
Candida e de Gregrio VII, Pedro Damio acreditava que o movimento de
Reforma devia envolver tambm o imperador. No obstante, provou ser um
vigoroso papista no apoio a Alexandre II contra o antipapa, e foi largamente
usado como embaixador romano em casos delicados. Em 1059, solucionou o
conflito entre o arcebispo de Milo e os patarinos. Em 1063 defendeu a
iseno de Cluny em sua disputa com o bispo Hugo de Mcon, enquanto que
em 1069 estava em Mogncia tentando resolver as dificuldades conjugais de
Henrique IV e sua esposa Bertha. Morreu tentando reconciliar Ravena com o
papa.
       Foi um escritor prolfico; sua obra sobrevivente consiste em mais de 170
cartas, 53 sermes e 7 biografias. Seus escritos teolgicos enfatizam a
prtica, mais do que a teoria, preferindo ensinar mais pelo anedtico do que
pela apresentao metdica.
 A. Fliche, La Rforme Grgorenne, vol I (1924); J.P. Whitney, "Peter
Damian", Cambridge Historical Journal, I (1925); B. Tierney, The Crisis of
Church and State 1050-1300 (1964)

Pedro de Castelnau (m. 1208) Nomeado pelo papa Inocncio III em 1199
como legado papal no Languedoc para ocupar-se da heresia albigense, Pedro
obteve a retratao do conde Raimundo VI de Toulouse e ingressou depois na
Ordem Cisterciense em Fontfroide, por volta de 1202. Novas tentativas para
combater a heresia inicialmente fracassaram; e alguns xitos posteriores
tambm foram limitados, mesmo quando tiveram o apoio de Domingos
(fundador da Ordem Dominicana) e uma forte presena Cisterciense, em
grande parte por causa da no-cooperao do conde Raimundo. Em 1207,
Pedro excomungou o conde e decretou a interdio de suas terras. Um
partidrio fantico de Raimundo assassinou Pedro, aparentemente sem a
cumplicidade do conde; a reao papal, instigada pelo assassinato, levou 
deflagrao da Cruzada Albigense.
 B. Hamilton, The Albigensian Crusade (1974)

Pedro Lombardo (m. 1160) Treinado nas escolas de direito do norte da
Itlia, Pedro foi por volta de 1140 para Paris estudar teologia, orientado por
So Bernardo. Durante quase 20 anos a ensinou teologia, tornando-se bispo
de Paris em 1159. O seu Liber Sententiarum (quatro livros de Sentenas, por
volta de 1150) foi durante sculos o compndio clssico de teologia.
Apresenta uma engenhosa exposio da organizao eclesistica e uma
sntese dos argumentos teolgicos conflitantes, mas seu plano  claramente
influenciado por Sic et Non de Abelardo. Suas Sentenas eram para a
teologia o que o Decretum de Graciano era para o direito Cannico. Ambas
as obras, ou Summae, desempenharam um papel decisivo na preocupao do
sculo XII em consolidar o saber passado na base de novos debates. Ver
Renascena do sculo XII
 Renaissance and Renewal in the Twelfth Century, org. por R.L. Benson e
G. Constable (1982)

Pedro, o Eremita (c. 1050-1115) Granjeou fama como pregador carismtico
da Primeira Cruzada no norte da Frana. Em 1096, sua eloqncia ajudou a
reunir uma numerosa, mal treinada e inadequadamente equipada fora que foi
aniquilada pelos turcos a caminho da Terra Santa; os sobreviventes
escaparam para Constantinopla.
      Pedro juntou-se aos principais exrcitos cruzados no ano seguinte mas
desempenhou um papel vergonhoso na batalha de Antioquia (1098). Aps a
captura de Jerusalm pelos cruzados em 1099, ele regressou  Europa e
tornou-se prior dos cnegos regulares de Santo Agostinho em Neufmontier
(Blgica).
 [S. Runciman, Historia de las Cruzadas, 3 vols., Madri, Alianza, 1973, vol. 3]

Pedro, o Venervel (c. 1092-1156) Abade de Cluny e figura influente na
Renascena monstica e literria do sculo XII, Pedro sucedeu a Pons como
chefe espiritual da Ordem em 1122, resistindo a poderosas tentativas para
declarar invlida a sua sucesso. A turbulncia de seus primeiros anos
provocou vigorosos ataques contra a Ordem, levando Pedro a defender o
ethos cluniacense e a iniciar uma srie de reformas. Em 1132, os dirigentes
dos estabelecimentos filiados foram convocados  casa-me para ouvir um
programa de austeras regulamentaes. Em 1147, seus estatutos, rivalizando
com os cistercienses, reduziram ainda mais o fausto em alimentao,
vesturio e ostentao.
      Fora do mosteiro, o tom da maior parte do trabalho de Pedro foi a paz e
a cordura. Em 1140, obteve a reconciliao para Abelardo, aps sua
condenao em Sens. Pedro almejava desviar as energias ortodoxas de seu
tempo, canalizada contra os sarracenos, para o dilogo fecundo e a
converso -- encomendou a primeira traduo latina do Alcoro -- em vez da
guerra e da conquista. Entretanto, ele prprio esperou promover uma aliana
contra o Imprio Bizantino. Embora eclipsado nas esferas monstica e
eclesistica por Bernardo de Claraval, Pedro foi um conselheiro muito
apreciado e correspondeu-se com as mais destacadas figuras da
Cristandade. Foi chamado "Venervel" por So Bernardo e por Frederico
Barba-Ruiva.
 J. Kritzeck, Peter the Venerable and Islam (1964); G. Constable, The
Letters of Peter the Venerable (1967)

Pedro, Vintns de Nome dado a uma taxa paga ao Papado por muitas
comunidades europias. Parece ter tido origem na Inglaterra, onde era
conhecida pelo nome de Peter's Bence e onde sua imposio (inicialmente
associada  criao de uma Escola Inglesa em Roma por Ine de Wessex e
reforada por Offa de Mrcia) teria sido regularizada por Alfredo e seus
sucessores. Calculou-se mais tarde que consistia na coleta de um denrio de
cada lar "donde se evolasse fumaa". Em Roma, o pagamento passou a estar
associado a idias de tributo e submisso  suserania papal, mas Guilherme,
o Conquistador, embora sancionasse a taxao dos Peter's Pence, negou
expressamente o pagamento de vassalagem a Roma em 1080. Apesar das
dificuldades na avaliao e coleta, os Vintns de Pedro continuaram sendo
pagos na Inglaterra durante toda a Idade Mdia e at a poca da Reforma.
 W.E. Lunt, Papal Revenues in the Middle Ages (1934)

Pelgio Provavelmente de origem britnica, chegou por volta de 380 a Roma,
onde comeou lecionando. Em 410 tinha-se mudado para a frica, onde suas
idias tiveram a oposio de Aurlio, bispo de Cartago (411). Segundo
Pelgio, a vontade humana  completamente livre, capaz do bem e do mal. A
graa divina  extremamente concedida de acordo com os mritos de cada
um, sendo seu propsito facilitar meramente aquilo que o livre-arbtrio pode
fazer por si mesmo; assim, o pecado de Ado foi puramente pessoal e no
teve qualquer efeito sobre o resto da humanidade. Para Pelgio, a morte no
 uma punio por pecados mas uma necessidade da natureza humana. Suas
idias levaram-no a atacar certas prticas: como nascemos todos sem
pecado, no h necessidade de batismo de crianas pequenas; alm disso, a
orao pela converso de outros  intil, visto que no pode ajud-los; a
redeno do Cristo s tem efeito como exemplo.
     A argumentao de Pelgio suscitou uma torrente de oposio ortodoxa.
O bispo de Cartago (411), Santo Agostinho (412), Orsio (415) e So
Jernimo (415) produziram obras de refutao. Em 417, uma conferncia de
bispos africanos persuadiu o papa Inocncio I a excomungar Pelgio e a
denunciar suas idias como herticas, embora mais tarde, nesse mesmo ano,
o papa Zzimo I o aceitasse de volta ao seio da Igreja. Entretanto, o
imperador Honrio, com apoio papal, exilou Pelgio de Roma em 418 por
causa de sua insistncia em ensinamentos herticos; e no XVI Conclio de
Cartago, 214 bispos africanos condenaram sua doutrina. Um Conclio de
Antioquia expulsou-o da Palestina no ano seguinte, e um vigoroso ataque
desencadeado pela grande figura de Santo Agostinho de Hipona reduziu ainda
mais a influncia das idias de Pelgio.
 J. Ferguson, Pelagius: A historical and theological study (1956); J.N.L.
Myres, "Pelagius and the end of Roman rule in Britain", Journal of Roman
Studies, 50 (1960)

Pelavicini, Oberto (1197-1269) Poderoso latifundirio da fronteira Parma-
Piacenza e, desde a dcada de 1230, partidrio imperial que exerceu
importante influncia no desenvolvimento da Signoria italiana. Foi nomeado
vigrio imperial de Versilia, Lunigiana e Garfagna (1243) e, com a morte de
Frederico II, tornou-se lder dos partidos locais que buscavam proteo contra
as vitrias eclesisticas. Em 1251, o rei Conrado nomeou-o capito-geral e
vigrio do Imprio na Lombardia, "abaixo do Lambro". O centro de seu poder
era Cremona, onde foi nomeado podest em 1249 e "senhor perptuo e
podest" em 1254. Sua influncia ampliou-se durante a dcada de 1250,
quando se tornou podest vitalcio de Piacenza, Pavia e Vercelli (1254). Seu
poder declinou em 1257-58 diante da ameaa da Cruzada no norte da Itlia.
Foi expulso de Pavia e Piacenza mas logrou manipular a Cruzada para
construir um domnio mais forte (fins da dcada de 1250). Tomou posse de
Brscia (1259-64), esteve associado ao governo da famlia Della Torre em
Milo (1259-64) e regressou a Piacenza em 1261. Gozou de breve
supremacia no Piemonte (1260-62). Entretanto, apesar do apoio do popolo, o
seu poder assentou em alianas pr-imperiais e dissipou-se com o declnio
dos Hohenstaufen. Oberto perdeu Milo e Brscia (1264), Cremona (1266) e
Piacenza (1267). Seu poder foi esporadicamente muito forte mas instvel,
porquanto no tinha uma estrutura unificadora, exceto o prprio Pelavicini.
Deixou as instituies inalteradas mas exerceu influncia decisiva ao decidir
que o governo devia assentar no em ditaduras temporrias mas num
governante vitalcio, rompendo decisivamente com o conceito de comunas e
estabelecendo o da futura Signoria.
 J. Larner, Italy in the Age of Dante and Petrarch (1980)

pensamento poltico A Idade Mdia s produziu livros sobre o pensamento
poltico a partir do sculo XIV, embora as idias polticas fossem discutidas
em escritos sobre grande nmero de outros assuntos. Isso resultou, em parte,
da estrutura do syllabus nas escolas, e nas universidades, que comearam a
se desenvolver a partir das escolas em fins do sculo XII. As sete artes
liberais do Trivium e, em menor grau, do Quadrivium, eram ensinadas como
base para estudos mais avanados em direito, medicina ou teologia. Mas,
embora fossem elaboradas tabelas das "divises da filosofia" e a poltica a
tivesse lugar como ramo da tica, no existia um compndio conveniente a
partir do qual a poltica pudesse ser ensinada; e assim, a par de um certo
nmero de outras matrias em idntica desvantagem, a poltica no se tornou
uma disciplina escolar ou universitria.
       Quando a Poltica de Aristteles chegou ao Ocidente numa traduo
latina no sculo XIII, essa situao comeou a mudar. O assunto tornou-se
interessante como nova disciplina, e desde logo apresentou uma dificuldade:
deveria ser classificada como terica e, por conseguinte, uma das cincias
superiores, ou como uma cincia prtica, inferior? A tentativa de caracterizar a
poltica para fins de ensino est clara em dois dos primeiros empreendimentos
em que se procurou escrever sobre pensamento poltico: a Monarquia de
Dante e Defensor Pacis de Marslio de Pdua. Dante tentou imitar Euclides e
derivou seus argumentos inteiramente de trs princpios primeiros, bvios.
Marslio dividiu seu livro em Discursos; no primeiro, baseou seus argumentos
na razo, ao passo que no segundo assentou seus pontos de vista na
autoridade da Bblia, pois acreditava que os aspectos seculares da poltica
eram melhor analisados racionalmente; o lugar da Igreja no Estado s podia
ser entendido a partir do que Deus tinha revelado sobre suas intenes em
relao ao Estado.
      Esses primeiros exemplos de escrita sobre pensamento poltico
preocupavam-se, em parte, com as questes fundamentais acerca da
natureza da sociedade a que Aristteles tentara responder na Poltica. O
homem  um animal social? Qual  a unidade natural da sociedade? Como
comeou a sociedade? Eles tambm se sentiram estimulados por uma
preocupao com as questes de seu tempo e, em especial, o problema do
relacionamento entre a Igreja e o Estado, com o que Marslio se ocupa no seu
segundo Discurso. So Bernardo tinha sintetizado a questo no comeo da
dcada de 1150 em sua extensa carta (formando um total de cinco livros) ao
papa Eugnio III sobre os deveres de um pontfice, a De Consideratione libri
quinque. Ele adaptou uma imagem usada em tempos patrsticos e baseada
no texto de Lucas XXII, v. 38: "Senhor, eis aqui duas espadas." As duas
espadas eram oferecidas a Jesus pelos discpulos que queriam salv-lo da
priso. Sua resposta foi: "Basta" (Satis est). Considerou-se que essas "duas
espadas" representam os poderes secular e espiritual, respectivamente.
Permaneceu em aberto a discusso sobre se Deus tinha dado ambas as
espadas ao papa, que ento emprestou uma ao imperador, ou se o poder
temporal pertencia legitimamente ao imperador. A opinio de Bernardo era
que o imperador estava subordinado ao papa.
     Havia tambm a discusso de problemas e questes polticas ligadas ao
estudo do direito. Os estudos jurdicos tinham florescido durante o sculo XII
com glosas sobre os cdigos de direito romano que tinham sobrevivido, e
novas codificaes do direito Cannico. A maior parte dessa atividade estava
dirigida para detalhes das prprias leis, mas algumas questes gerais foram
suscitadas, e a natureza da prpria lei foi definida. Santo Toms de Aquino, no
sculo XIII, discutiu extensamente a lei em seu compndio de toda a teologia,
a Summa Theologica. Seu principal interesse era demonstrar o
relacionamento entre o direito e a graa de Deus que transcende e completa a
lei; mas, ao considerar a prpria lei, Aquino postula uma diviso entre lei
natural e lei divina, e ainda uma outra diviso entre lei natural e lei humana. A
lei divina  imutvel e eterna; as leis naturais duraro enquanto o mundo
natural perdurar, mas as leis humanas devem mudar com as vicissitudes das
necessidades humanas, e sero diferentes de sociedade para sociedade.
      Sobretudo, as discusses de tericos polticos do final da Idade Mdia,
e de seus predecessores (que tinham escrito sobre uma variedade de
assuntos envolvendo algumas reflexes acerca de tais matrias), assentavam
em determinados pressupostos. Estes so claramente vistos na Cidade de
Deus, de Santo Agostinho, escrito nas dcadas seguintes  queda de Roma
(410). Numerosos refugiados de Roma chegaram ao norte da frica, onde
Agostinho era bispo, e disseram ser impossvel acreditar num Deus que
deixava perecer um Imprio Cristo. Agostinho respondeu com uma srie de
livros sobre o funcionamento da divina providncia e uma mirade de outros
temas, nos quais distinguiu entre a cidade terrena e a cidade celestial. A
cidade terrena pertence queles, vivos ou mortos, que no so bons cristos.
A cidade celestial  composta de todos os bons cristos, neste mundo e no
prximo, e de todos os anjos bons -- de fato, todos os cidados do Cu.
Essa dimenso extraterrena, transcendente e sobrenatural, est presente em
todo o pensamento poltico do milnio seguinte. Quando um autor medieval
considera o propsito do Estado, ele pode responder como Marslio, falando
em termos de paz, ou descrevendo a felicidade a usufruir numa comunidade
que fornece uma "vida suficiente". Mas tais noes nunca so meramente
aristotlicas, nunca esto limitadas  paz ou  felicidade s nesta vida. H
sempre algo mais; o Estado contempla um futuro para os seus cidados em
que o bem-estar de suas almas ser mais importante do que o seu atual
conforto material.
     O mundo da poltica real intrometeu-se relativamente pouco nos escritos
dos primeiros sculos medievais nessa rea. Joo de Salisbury escreveu
Policraticus na dcada de 1160, no qual ele no faz quase nenhuma
referncia ao Estado feudal onde viveu e trabalhou, e prefere falar de uma res
publica imaginria, de tirania e de uma forma de cidadania que ele nunca
conheceu mas a cujo respeito leu em Ccero e em outros autores romanos.
Somente com a ascenso das cidades-Estado a um novo nvel de refinamento
e com o crescimento das cidades em toda a Europa,  que a idia de
cidadania tornou-se uma realidade para grande nmero de pessoas. Dante e
Marslio escreveram dentro de um mundo urbano. Desse mundo surgiram
pensamentos sobre os direitos dos cidados e seu poder para escolher e
demitir seus lderes, o que iria dar ao pensamento poltico um timbre mais
moderno aps o final da Idade Mdia. Ver Guilherme de Ockham; Jean
(Quidort)       de       Paris;      Lucas        de       Penna;        Petit,
Jean                                    GE
 A.P. d'Entrves, The Medieval Contribution to Political Thought (1939);
Trends in Medieval Political Thought, org. por B. Smalley (1965); W. Ullmann,
A History of Political Thought: The Middle Ages (1965); Q. Skinner, The
Foundations of Modern Political Thought, vol. I (1978) [W. Ullmann, Princpios
de gobierno y poltica en la Edad Media, Madri, Revista de Occidente, 1971]

Pepino III, o Breve rei dos francos 751-68 (n. 714 ou 715) Filho de Carlos
Martel, ele e seu irmo Carlomano colocaram o merovngio Childerico III no
trono dos francos ocidentais, embora continuando a exercer o poder efetivo
como prefeitos do palcio. Em 747, Carlomano renunciou, retirando-se para o
mosteiro de Monte Cassino. Pepino, influenciado pelo duplo ataque de So
Bonifcio s discrdias internas e  ameaa brbara, procurou e recebeu a
ajuda do papa Zacarias (741-52) na remoo de Childerico, que foi forado a
abdicar. Pepino foi ungido como rei, possivelmente por Bonifcio, desse modo
introduzindo na Glia ecos das tradies bblicas e das unes da Espanha
visigtica. Em 754, o papa Estvo II (752-57), sob presso dos avanos
militares das foras do rei Astolfo, fugiu para a corte de Pepino, onde realizou
um memorvel acordo. O papa Estvo concedeu a Pepino o ttulo imperial de
patricius romanorum, ungiu-o de novo e a seus dois filhos, Carlos e
Carlomano, e obrigou os francos a escolherem seus futuros reis somente
entre os descendentes de Pepino. Este, em troca, prometeu ajudar a
restaurar, para o papa, as terras imperiais ligadas ao exarcado de Ravena e
ao ducado de Roma. Duas campanhas (754 e 756) cumpriram essas
obrigaes e forneceram a base dos Estados pontifcios. Nesse meio tempo,
Pepino desempenhou vrios papis imperiais: expulsou os muulmanos de
Septimnia e repeliu as ameaas dos frsios e saxes na Rennia. Estavam
criadas as bases para a expanso de Carlos Magno e para a idia de um
reino explicitamente cristo estabelecido com firmeza no reino franco.
 J.M. Wallace-Hadrill, The Long-Haired Kings 1962; E. James, The Origins
of France: from Clovis to the Capetians 500-1000 (1982)

Prsia Os acontecimentos na Prsia (o moderno Ir) tinham repercusses na
histria da Europa medieval, sobretudo de uma forma indireta. A dinastia
nativa Sassnida, esgotada por sua longa luta com Bizncio, desmoronou em
641 sob o impacto da primeira grande ofensiva muulmana, e a Prsia s veio
a recuperar uma identidade poltica prpria com a ascenso da dinastia
Safvida ao poder, no incio do sculo XVI. Os persas eram adeptos de uma
forma xiita militante da religio muulmana, diferenciando sua comunidade da
massa de observncia muulmana sunita. Reduzida ao status de provncia, a
Prsia aceitou o domnio muulmano e a converso ao Isl. Sua histria
poltica foi infeliz e, por vezes, desastrosa sob os domnios de Damasco,
Bagd ou dos mongis, mas substancial contribuio foi oferecida  civilizao
mundial por intelectuais, filsofos e cientistas como Avicena e Albiruni que, na
lngua rabe, transmitiram alguns dos produtos da herana persa e do mundo
helnico.
 Cambridge History of Islam, org. por P.M. Holt, A.K.S. Lambton e B. Lewis
(1970); The World of Islam, org. por B. Lewis (1976)

Peruzzi, famlia Uma das mais antigas famlias florentinas, os Peruzzi
desempenharam um papel decisivo na vida poltica e econmica da cidade de
Florena de meados do sculo XIII at meados do sculo XIV. Na segunda
metade do sculo XIII, uma companhia mercantil dedicada a uma extensa
variedade de empreendimentos comerciais foi formada por Filippo di Amideo
Peruzzi. A influncia da companhia, sobretudo nos negcios bancrios, no
tardou em ser sentida em toda a Itlia e logo em outras partes da Europa,
como a Frana e a Inglaterra (por exemplo, forneceram os recursos
financeiros para muitas das iniciativas de Eduardo III). A ascenso da
poderosa famlia Medici em Florena e a falncia da companhia Peruzzi na
dcada de 1340 foram as principais responsveis pela sua perda de prestgio
em anos subseqentes.
 A. Sapori, The Italian Merchant in the Middle Ages (1970)

pesos e medidas At a criao e adoo geral do sistema mtrico, os pesos
e medidas variaram muito, uma vez que foram padronizados de modo
diferente em cada pas ou regio, e alguns quase em cada aldeia. Tm, no
obstante, uma forte semelhana de famlia, uma vez que em sua grande
maioria se baseavam em unidades naturais (polegada, isto , medida do dedo
polegar; p) ou em unidades romanas e germnicas (ona, libra, gro,
marco); essas categorias,  claro, no se excluam mutuamente, visto que
unidades "naturais" esto subentendidas, com freqncia, nas unidades
romanas e germnicas. Havia, inclusive, algumas sobrevivncias pr-romanas,
como a lgua e a arpent francesas.
      As unidades oriundas dessas vrias fontes no tinham inicialmente
qualquer relao natural recproca, e as modificaes ocorreram quando
alguma autoridade pblica adotou uma delas como padro e definiu outras
como mltiplos ou fraes desse padro, fazendo, por exemplo, o p ter
precisamente 12 polegadas, embora o p humano mdio fique aqum disso.
Mesmo as que,  primeira vista, parecem ser unidades excntricas e muito
arbitrrias, como a vara de 16,5 ps e a stone de 7 libras, tm usualmente
alguma explicao racional. Muita confuso foi causada pela aplicao de
termos latinos a medidas que podiam ser da mesma natureza e ordem de
grandeza de suas congneres romanas, mas no derivavam delas nem lhes
eram, de fato, idnticas.
     Os padres foram inicialmente obtidos por avaliao da mdia -- era
esse o princpio subjacente nas vrias espcies de "gro" e foi usado, com
freqncia, para estabelecer um "p" local -- ou atravs da preferncia
arbitrria de alguma autoridade pblica. Os prprios padres (ou estales), de
pedra ou metal, eram usualmente guardados a sete chaves em alguma
repartio do governo, enquanto que cpias certificadas eram postas 
disposio do pblico nos mercados ou afixados nas paredes de igrejas ou
municipalidades. As medidas de agrimensor nas cartas salernitanas do sculo
IX so expressas, por vezes, em termos de um padro metlico fixado na
parede da catedral de Npoles, e a medida conhecida como "p de So
Paulo", largamente usada na Inglaterra em fins da Idade Mdia, estava
gravada num pilar da catedral de So Paulo.
      A primeira distribuio documentada de padres metlicos na Inglaterra
data de 1196-97, mas os mais antigos que sobreviveram (em Winchester)
datam de uma distribuio executada em 1357; somente a partir do sculo
XVI esto disponveis conjuntos completos das unidades de comprimento,
volume e peso. O mesmo ocorreu, de um modo geral, em toda a Europa.
Mesmo quando existia um padro, havia uma tendncia constante para
desconsider-lo em favor de alguma medida local tradicional, ou para
modific-lo no uso atravs da operao do que pode ser chamado o princpio
da "dzia do padeiro". O pano seria vendido com pollicibus, sendo colocado
um polegar na extremidade da jarda metlica, e recomeando a medio pelo
outro lado; consentia-se, por tradio, que o prato da balana contendo
artigos vendidos a peso descesse um pouco mais, em vez dos dois pratos
ficarem exatamente equilibrados. Tais descontos assim introduzidos viriam
finalmente a ser incorporados aos prprios padres, resultando na jarda
escocesa de 37 polegadas e no quintal de 112 libras.
     Os equivalentes mtricos dados em obras modernas de referncia para
unidades medievais no se baseiam usualmente em padres medievais
sobreviventes mas nos usados em cada localidade no incio do sculo XIX. As
dimenses desses foram apuradas com grande preciso quando diferentes
partes da Europa passaram a adotar o sistema mtrico e os metrologistas
supuseram, um tanto confiantes, que os padres no tinham mudado, pelo
menos de forma aprecivel, desde a Idade Mdia. Existe somente um
conjunto extenso de nmeros antigos, os estabelecidos na dcada de 1760
por Mathieu Tillet por solicitao da Academia de Cincias francesa, embora
muita informao possa ser obtida atravs dos manuais de comerciantes do
sculo XVIII. Os muitos nmeros apresentados nos equivalentes medievais
desses manuais, sobretudo em La Pratica della Mercatura (c. 1340), de
Pegolotti, tm que ser tratados com cautela, pois tais nmeros nem sempre
so coerentes e a possibilidade de erros dos copistas deve ser levada em
conta.
     A lista seguinte inclui as unidades mais comuns, com explicaes sobre
como se chegou a elas, quando isso  conhecido ou pode ser plausivelmente
conjeturado. Onde so dados equivalentes mtricos, so mencionadas
unidades inglesas, exceto quando houver indicao em contrrio.
Comprimento. Inch (polegada -- 2,54cm): uncia, de unguis, a medida da
unha do dedo polegar; da o seu nome de tom me (thumb) etc, na Esccia,
Holanda e Escandinvia. Foot (p = 12 polegadas, 30,48cm): pes romano
(29,45cm), pied francs (32,48cm). Ell (vara), francs aune, ambos de ulna,
medida de dimenses inteiramente imprevisveis, por vezes igualada a 2 ps
(c. 60cm) mas, com freqncia, muito maior, eqivalendo a vara inglesa do
sculo XV para pano a 45 polegadas (114cm). Yard (jarda = 3 ps, 91,44cm):
do ingls arcaico gerd, cognata com verga, "vara", introduzida por Henrique I
como medida de pano; segundo Guilherme de Malmesbury, era a distncia
desde o nariz at a extremidade do brao estendido -- o modo tradicional de
medir pano. Fathom (braa - 6 ps, l,82m): o comprimento do brao esticado,
como o francs toise, do latim tensa, "estendido". Perch: do latim pertica,
tambm "vara" (rod ou pole), a medida usada na prtica; padronizada para
terras arveis em 16,50 ps, provavelmente 20 ps "naturais" de 10
polegadas, mas tambm 25 ps para matas e com muitas variantes locais.
Furlong (furrow lertgth, o comprimento de uma leira), equivalente a 40
perches ou 220 jardas, 201,6m. Mile (milha, padronizada como 1.760 jardas
ou 8 furlongs, l,61km); originalmente imprecisa e chegando at cerca de
2.200 jardas na Idade Mdia; o termo deriva de mille pasuum, embora a
milha romana de 1.000 passos ou 5.000 ps tivesse apenas l,47km. League
(lgua), do gauls leuga; tal como o germnico rasta,  basicamente
imprecisa, sendo a distncia que uma pessoa pode percorrer caminhando at
sentir a necessidade de parar e repousar; padronizada pelos romanos como
1,5 milha mas muito mais longa na Idade Mdia (2 ou 3 milhas inglesas; na
Frana, a lieue tem um valor de 4km; na Pennsula Ibrica, a lgua varia entre
6.000 e 6.600 metros). rea. Importante principalmente para a agrimensura;
uma vez que os campos e bosques so usualmente de formatos irregulares,
as unidades tendem a ser formadas a partir de outras unidades. O acre
ingls, do latim ager, "campo" no era uma unidade precisa (4.840 jardas
quadradas ou 40,46 ares) e definia-se em termos de um furlong mas originou-
se provavelmente da quantidade de terra que podia ser arada numa manh,
como a alem Morgen (30-40 ares). Outras unidades para a terra cultivvel
derivavam da quantidade de semente requerida para a semeadura, por
exemplo, o francs setier (cerca de 34 ares), derivado do latim sextarius, em
torno de 30 litros. A mais comumente usada, arpent (de arepenna), era uma
sobrevivente gaulesa, equivalente ao acre, porm mais extensa quando usada
para matas (cerca de 50 ares).
      Volume. Tal como a rea, o volume  difcil de medir diretamente, e as
unidades so usualmente formadas a partir de pesos, mais facilmente
apurveis. A unidade bsica na Inglaterra era o pint (0,57 litro), tendo como
seus mltiplos o quart (quartilho, padronizado como 2 pints), gallon (galo ou
8 pints), peck (celamim ou 2 gales) e bushel (alqueire ou 8 gales ou 36,35
litros; maior do que o antigo bushel de Winchester de 35,24 litros). As
unidades menores eram principalmente medidas para lquidos e as maiores
para secos, se bem que acima do bushel (alqueire) havia medidas ainda
maiores para lquidos (por exemplo, para vinho, o tun [tonei ingls] = 2 pipes
[pipas] = 4 hogs-heads [barris] = 252 gales). O pund anglo-saxnico era um
pound e um pint de gua, como  sabido graas ao manual mdico conhecido
como o Leechdoms. O posterior e muito menor pint, que passou a ser o
padro, derivou evidentemente do peso de uma libra de gro (trigo ou
ervilhas). No que se refere ao gro, havia problemas constantes pelo fato de
que a medida "empilhada", distinta da medida "estendida", variava de acordo
com o formato do receptculo que fosse empregado como padro.
      Pesos. Os pesos so fceis de comparar entre si, dado que o equilbrio
simplifica as operaes de duplicar e reduzir  metade, mas as grandes
unidades esto obviamente ausentes. A maior parte da terminologia medieval
foi adotada de Roma. Os gros (grains) usados originalmente para pesar
ouro valem em toda a Europa por volta de 0,05g (usualmente 0,048g mas o
gro parisiense  de 0,052g) ou 0,065g (a ona "troy" inglesa para metais
preciosos), isto , um gro de trigo e um gro de cevada padronizados,
respectivamente, os quais, com exceo de alguns lugares (como Veneza)
substituram o quilate (carat) clssico de 0,189g. Essas unidades, como os
textos     metrolgicos   medievais     regularmente  assinalam,    estavam
convenientemente relacionados entre si, pois 1 carat (quilate) = 3 barleycorns
(gros de cevada) = 4 wheatgrains (gros de trigo). A ona remontava 
uncia romana de 27,29g e valia em toda a parte entre cerca de 28g e 32g,
estando relacionada de vrios modos com o gro. A ona "troy" inglesa (Troy
ounce), no valor de 31,10g, equivalia a 20 pennyweights de 24 gros cada. O
marco, uma antiga unidade germnica, foi desde muito cedo igualada a 8
onas (oz), e a libra-peso equivalia por vezes a 12 onas, como no sistema
romano, que foi mantido para a pesagem de ouro e prata na libra "troy". A
libra-peso da vida cotidiana equivalia a 15 ou (mais usualmente) 16 onas
(libra "avoir-dupois" ou duplo marco), mas ocorriam outros nmeros, variando
os mltiplos de acordo com a prtica local e a mercadoria que estivesse
sendo pesada.
     Pesos superiores, requeridos para a produo agrcola, metais etc, ou
eram peculiares para o material (fothers de chumbo, chaldrons de carvo) ou
eram    fraes    ou    mltiplos     do hundredweight (quintal ingls),
originalmente100lbs ou, para alguns artigos, 1201bs (long hundred). As
unidades inglesas de 104Ibs (para especiarias) e 1121bs (l e a maioria das
outras mercadorias) foram fixadas aps uma disputa violenta entre Eduardo I
e a Companhia dos Merceeiros sobre os procedimentos de pesagem, a fim de
permitir a incluso na medida, da tolerncia tradicionalmente feita ao
comprador, com base no princpio da "dzia do padeiro". O quintal (cwt) de
1121bs possibilitou a substituio dos inconvenientes 16 avos de 6 1/4-lb,
chamados um nail (prego) ou clove (cravo), pela unidade mais conveniente de
7-lb que permaneceu em uso no comrcio de l at o final do sculo XVIII.
Ver marco; pound; quilate PG
 H. Duursther, Dictionnaire universel des poids et mesures anciens et
modernes (1840); P. Grierson, English linear measures: a study in Origins
(1972); R.D. Connor, The weights and measures of England (1987)

Peste Negra Epidmica nos sculos VI e XIV, a Peste Negra divide
demograficamente a Idade Mdia em trs partes. O perodo de 450-540 tinha
estado singularmente livre de graves pestilncias, e a peste bubnica
desapareceria de novo do Ocidente em 750. Retornou um pouco antes de
1350 e permaneceu endmica at depois de 1650.
      A primeira pandemia propagou-se a partir da Etipia e atingiu as Ilhas
Britnicas em 541-46. As ondas do sculo VI datam de cerca de 542, 558,
572, 581, 590 e 600. No sculo VII, os centros urbanos, como Constantinopla
e Antioquia, tinham sido parcialmente despovoados, e os rabes consideraram
Damasco, uma cidade prxima do deserto, conveniente para a sua capital; os
califas iam para seus palcios no deserto durante a estao da peste (vero),
enquanto que seus exrcitos eram transferidos para as montanhas ou os
desertos. Assim, a elite rabe sofreu menos do que os bizantinos. A maioria
das ondas do sculo VII (cerca de 618, 628, 640, 655) afetou o Mediterrneo
oriental mas as pragas mais severas de 655-700 propagaram-se
extensamente nos pases islmicos e na Europa ocidental (a Inglaterra
setentrional foi afetada em 664, 675-76 e cerca de 687). Na Irlanda, as duas
ltimas ondas foram conhecidas como pragas das Crianas, porquanto
afetaram especialmente as nascidas desde a epidemia precedente. A onda do
final da dcada de 680 ficou conhecida como a Terceira Praga na Irlanda e
em Basra! Na primeira metade do sculo VIII, novas ondas afetaram o
sudeste europeu e o Oriente Mdio, mas o noroeste da Europa ficou livre da
peste.
      Na dcada de 1340, a peste propagou-se de novo, desta vez
proveniente da sia Central, conforme  indicado por uma taxa anormal de
mortalidade registrada com base nas datas das sepulturas nestorianas a
existentes em 1339. Em 1346, a praga surgiu em Kaffa, na Crimia, e se
espalhou por mar e por terra  maior parte da Europa. Em 1348, tinha
atingido Constantinopla, a Itlia e a Frana; a Inglaterra foi afetada no inverno
de 1348-49 e em 1350 varria toda a Alemanha, Polnia e Escandinvia. Essa
pandemia passa ento a ser conhecida como a Morte Negra. Uma vez mais,
houve sucessivas ondas de grande gravidade que se propagaram por todo o
Ocidente. Na Europa, as primeiras seis ocorreram por volta de 1348, 1362,
1374, 1383, 1389 e 1400. Repetiram-se freqentemente os surtos durante
toda a Idade Mdia, continuando na Inglaterra, por exemplo, at a Grande
Peste de 1665.
      A causa da periodicidade de cerca de 11 anos  desconhecida. Os
fatores predisponentes parecem ser de natureza meteorolgica. Os padres
climticos mundiais tinham sido profundamente perturbados pela escurido
vulcnica durante 15 meses em 536-37, de modo que, por volta de 539, a
fome afetou Constantinopla, apesar da prosperidade do Imprio greco-
romano de Justiniano at 535. As anlises dendrocronolgicas confirmam que
os veres na dcada de 540, assim como na de 1340, foram anormalmente
frios na Escandinvia. Do mesmo modo, na dcada de 1340, at a Itlia
estava sofrendo economicamente, ao passo que no noroeste europeu as
estaes midas teriam levado, em todo o caso, a uma crise demogrfica,
mesmo que a mortalidade pela peste no interviesse. No noroeste da Europa,
as pragas urbanas posteriores estavam, no obstante, associadas usualmente
a invernos rigorosos, primaveras secas e veres secos e quentes, e assim
com boas colheitas.
      O declnio populacional pode ter precedido a chegada da peste; existiu,
sem dvida, uma grave crise demogrfica no final da dcada de 1310.
Entretanto, estimativas plausveis de mudanas populacionais indicam
sistematicamente que a populao da Inglaterra em 1400 era cerca de
metade da que tinha sido em 1300.
      O bacilo da prpria peste foi descoberto em 1894: sabe-se que os
vetores do bacilo, pulgas pretas que transmitem a doena ao homem, so
transportados por ratos. Violentas flutuaes das populaes de ratos em
tempo de praga foram registradas, por exemplo, na Espanha e na China, em
600-750. A pulga preta  agora um inseto tropical e supe-se que atacou
seres humanos quando j contaminada por um rato e ficou incapaz de
encontrar ratos vivos para morder. Sem dvida, o limite setentrional da peste
retrocedeu gradualmente na direo sudeste no decorrer da pandemia;
alguma variedade extinta da pulga pode ter estado envolvida nas mais antigas
ondas. A peste tem duas formas: bubnica e pneumnica. A primeira
caracteriza-se por inchaes, ou nguas, nas axilas ou virilhas, levando
freqentemente  morte em seis dias. A forma pneumnica  mais incomum,
sendo diretamente transmitida de pessoa a pessoa; leva geralmente  morte
em trs dias e foi essa a forma que ocorreu no inverno, na dcada de 1340.
      Os judeus, que eram responsabilizados pela transmisso da doena,
foram perseguidos e massacrados -- sobretudo na Alemanha -- enquanto
que o medo da morte tambm propiciou o crescimento de grupos religiosos
fanticos, como os Flagelantes. O efeito da Peste Negra sobre a sociedade
agrria foi turbulento e complexo, levando inicialmente a tentativas para voltar
a impor direitos e servios feudais, e contribuindo para exploses de violncia,
por exemplo, os motins da Jacqurie na Frana e a Revolta dos Camponeses
na Inglaterra. Quase no existem representaes da peste na arte antes de
1400, mas as histrias do Decameron representam uma resposta literria,
Pestschriften eram publicados regularmente com conselhos sobre o
tratamento, mas cometas, auroras boreais e conjunes planetrias eram
freqentemente    responsabilizados  pela    deflagrao    de     uma
epidemia.                                                           DJS
 P. Ziegler, The Black Death (1969); J.F. Shrewsbury, The History of
Bubonic Plague in the British Isles (1970); W.H. McNeill, Plagues and
Peoples (1976); The Black Death. The Impact of the 14th-Century Plague, org
por D. Williman (1982); R.S. Gottfried, The Black Death: Nature and Disaster
in Medieval Europe (1983) [J-N. Biraben, Les hommes et la peste en France
et dans les pays europens et mditerranens, 2 vols., Paris, Mouton, 1975-
1976]

Petit, Jean (c. 1360-1411) Natural da Normandia, foi doutor de teologia na
Universidade de Paris. No comeo de sua carreira parece ter produzido
sermes e numerosos poemas. Defendeu os privilgios da Universidade e
desempenhou um papel destacado na promoo da unidade da Igreja durante
o cisma de 1393-1407, atuando como um dos emissrios de Carlos VI a
Roma (1407). Aps seu regresso, tornou-se um dependente do duque de
Borgonha e arruinou sua carreira ao defend-lo no assassinato do duque de
Orlans (1407), usando como argumento a legitimidade do tiranicdio. Em sua
Justification du Duc de Bourgogne (1408), advogou perante os conselheiros
do rei que era legtimo, e na verdade meritrio, que qualquer sdito, por sua
prpria vontade, matasse um tirano. As autoridades que ele citou -- e de que
fez mau uso -- incluram Aristteles, Ccero, Joo de Salisbury, Santo Toms
de Aquino, Boccaccio, o direito civil e as Escrituras. Fez uma defesa medocre
e a sua defeituosa aplicao de uma doutrina reconhecida causou enorme
celeuma, com Gerson denunciando seus erros em nome da Universidade.
Petit retirou-se em desgraa para Hesdin, onde morreu; mas a questo do
assassinato poltico sobreviveu-lhe. Gerson obteve a condenao de Petit
(Conselho da F, 1414; parlamento e universidade, 1416), ao passo que os
borgonheses continuaram defendendo sua posio e impediram uma outra
condenao de Petit no Conclio de Constana.
 A. Coville, Jean Petit (1932); O. Jszi e J.D. Lewis, Against the Tyrant
(1957)

Petrarca (1304-74) A fama de Petrarca repousa em sua reintroduo de
textos perdidos ou negligenciados da Antigidade na cultura europia, e em
sua sntese de temas vernculos existentes. Natural de Arezzo, filho de um
notrio que tinha sido banido de Florena, Petrarca foi para Montpellier em
1316 estudar direito; a produziu suas Epistolae Metricae (1318), uma coleo
de 66 epstolas em hexmetros. Em 1320 mudou-se para Bolonha a fim de
continuar seus estudos de direito, mas em 1326 abandonou as leis e
ingressou no ambiente humanista da Avignon papal. No ano seguinte teve seu
dramtico encontro com Laura, uma mulher que personificou seus conceitos
de beleza e de verdade, e cuja inspirao impregnou grande parte de sua
obra. Em 1330, tomou ordens menores.
       Foi protegido pelos Colonna em 1330-47, e atuou como diplomata,
visitando a Frana, a Flandres, o Brabante e a Rennia. Usou essas
oportunidades para colecionar velhos manuscritos, rever obras anteriores e
iniciar novos empreendimentos literrios. Em 1338-39, produziu um poema
pico, frica, baseado na Segunda Guerra Pnica e inspirado por uma visita a
Roma em 1337. Em 1341 tornou-se poeta laureado e continuou suas viagens;
descobriu as cartas perdidas de Ccero (Ad Aticum, Ad Quintum e Ad
Brutum) em 1345, e no ano seguinte reviu o seu De Vita Solitaria, um tratado
sobre as vantagens da vida solitria.
       Em 1347 desfez sua ligao com os Colonna mas terminou De Otio
Religiosa, onde enfatiza os benefcios da vida monstica. A peste de 1348
(em conseqncia da qual Laura morreu) forou Petrarca a trocar Roma por
Florena, onde conheceu Boccaccio. Embora estivesse presente em Roma
para o jubileu de 1350, surgiram agudas divergncias com a Cria e Petrarca
fugiu para a Milo dos Visconti, depois para Pdua e Veneza.
      Em 1366, Boccaccio enviou-lhe uma muito desejada traduo latina de
poemas homricos, a qual o ajudou na produo de duas importantes obras: a
primeira, Familiarum Rerum Libri XXIV,  uma meditao sobre o mundo da
Antigidade; a segunda, Rerum Vulgarium Fragmenta,  uma obra definitiva
em vernculo, composta de 366 peas em forma lrica inspirada em modelos
clssicos e no ethos dos trovadores. Em 1370, Urbano V chamou Petrarca a
Roma, onde reviu muitos dos seus escritos desses anos. Ao morrer, deixou
obras de profunda meditao espiritual como testemunho de seu humanismo.
 G.H. Wilkins, The Life of Petrarch (1961)

Piacenza, Snodo de Em maro de 1095, teve lugar em Piacenza um conclio
convocado pelo papa Urbano II como parte da consolidao de sua posio
contra o imperador e o antipapa. Aprovou decretos que deram continuidade
ao programa gregoriano de reformas, condenaram os "cismticos" e
discutiram os problemas conjugais dos reis Filipe da Frana e Henrique IV da
Inglaterra, atuando como suprema corte da Cristandade ocidental. De acordo
com as relaes cordiais recm-estabelecidas com Bizncio, estavam
presentes embaixadores do imperador Aleixo Comneno. Este desejava obter
reforos mercenrios para a sua campanha contra os turcos. Como Urbano se
mostrasse favorvel, os embaixadores reiteraram os pedidos anteriores de
Aleixo, porm levando mais longe o apelo, enfatizando a ameaa que o
avano pago representava para toda a Cristandade. Eles convenceram a tal
ponto Urbano e a assemblia, que embora o pontfice reagisse de imediato
exortando apenas a que se prestasse a ajuda requerida, ficou semeado o
conceito de uma Guerra Santa (a qual poderia, a propsito, concretizar o seu
objetivo de unir as Igrejas oriental e ocidental) e, alguns meses depois, em
Clermont, Urbano II j estava pregando a Primeira Cruzada.
 A History of the Crusades, org. por K.M. Setton, vol. I (1969); C. Erdmann,
The Origin of the Idea of Crusade (1977)

pictos Povo que apareceu pela primeira vez nas obras de escritores romanos
do sculo III, onde o termo  usado de forma genrica, para descrever os
povos da Esccia. Os pictos meridionais falavam uma lngua britnica,
relacionada com o gals, mas a dos setentrionais no est esclarecida. At a
instalao dos escandinavos no extremo norte e nas ilhas, durante os sculos
IX e X, os pictos controlavam, segundo parece, toda a Esccia ao norte do
Forth e do Clyde, com exceo da costa oeste; o foco de seu poder estava
nas ricas terras agrcolas de Fife. Pode ter havido um nico reino pctico, por
vezes contestado, durante os sculos VI e VII, ou um super-reino com
poderes de suserania sobre vrios reinos vassalos. Entretanto, um nico reino
pctico consolidado parece ter emergido em fins do sculo VIII, o qual
desenvolveu logo instituies governamentais e exerceu considervel poder
em toda a Esccia. Nesse perodo, a famlia real pctica iniciou uma poltica
de alianas matrimoniais com a dinastia irlandesa da costa oeste, resultando
numa srie de reis com pretenses sobre ambos os reinos e, finalmente, na
unio dos dois. A historiografia escocesa apresenta isso como o eclipse dos
pictos, mas h boas razes para pensar que ambos os povos contriburam
para o recm-formado reino da Esccia e no que um deles teria sido
obliterado.
       Embora se saiba pouco sobre suas sociedades, existem dois atributos
distintos dos pictos. A famlia real reconheceu um princpio de sucesso
matrilinear (os reis eram selecionados entre os filhos de mulheres da realeza,
no dos homens); um sobrinho ou irmo do rei suceder-lhe-ia, portanto, em
vez de seu prprio filho. Em segundo lugar, as terras pcticas distinguem-se
pela presena de muitas pedras simblicas, monumentos curiosa e
intricadamente esculpidos cujos desenhos fornecem pouqussimas pistas para
o seu significado. Tais pedras concentram-se sobretudo no leste mas podem
ser encontradas at em Caithness, j bem ao norte; pertencem claramente a
uma cultura crist e aos sculos VI a IX.
 The Problem of Picts, org. por RT. Wainwright (1955); I. Henderson, The
Picts (1967); A.A.M. Duncan, Scotland, the Making of a Kingdom (1975)

Piero della Vigna (c. 1200-49) Um dos mais competentes servidores do
imperador Frederico II, della Vigna, de nascimento humilde, assumiu boa parte
da responsabilidade pela reforma da administrao imperial na Siclia e no sul
da Itlia. Proeminente tambm nos assuntos da Universidade de Npoles, foi
reconhecido como um dos maiores estilistas literrios da poca, sendo suas
cartas e manifestos usados como modelos por vrias geraes vindouras. Era
tambm poeta de certo mrito, um verdadeiro precursor dos humanistas da
Renascena. Seu poder era imenso na dcada de 1240, mas quando foi
considerado culpado de corrupo, foi tratado selvaticamente, cegaram-no e,
enquanto aguardava sua execuo, cometeu suicdio em So Miniato,
Florena. Ver Liber Augustalis
 [E. Kantarowicz, Frdric II, Paris, Gallimard, 1988]

pintura e artes menores Para o analfabeto, que durante a Idade Mdia
constitua a grande maioria da populao, as imagens pintadas nas paredes
das igrejas eram to importantes quanto o sermo proferido do plpito, pois a
estavam claramente representados o Cu e o Inferno, Cristo e os Apstolos,
a Virgem Maria e os Santos. As vastas paredes das igrejas medievais
forneciam ampla oportunidade para grandes ciclos de murais ou de mosaicos,
e somente no perodo gtico  que as grandes janelas com vitrais reduziram
ao mnimo a superfcie da parede.
       Desde os mais recuados tempos, a abside de uma igreja era reservada
para as mais importantes figuras, Cristo em Majestade ou a Virgem Maria,
por vezes ladeados por Apstolos ou Santos. Cenas bblicas do Antigo e do
Novo Testamento encontravam-se usualmente nas paredes da nave.
Desenvolveu-se em Bizncio um sistema iconogrfico muito completo, quase
rgido, no qual a decorao das cpulas simbolizava o Cu, as abbadas e
paredes superiores eram dedicadas  vida de Cristo, enquanto que a zona
inferior era reservada para Santos.
      No Ocidente, onde as igrejas eram   predominantemente do tipo baslica,
os arranjos no eram to complexos.       Entretanto, a influncia da pintura
bizantina revestiu-se de considervel     importncia na Europa ocidental,
sobretudo durante o perodo romnico.     Por exemplo, considera-se que os
afrescos de Santo Angelo in Formis, perto de Cpua, concludos por volta de
1085, refletem o estilo dos hoje destrudos mosaicos do vizinho mosteiro de
Monte Cassino, decorado na dcada de 1060 por artistas provenientes de
Constantinopla. Uma espcie muito diferente de influncia bizantina 
encontrada nos afrescos de uma capela cluniacense em Berz-la-Ville, na
Borgonha, na qual figuras angulosas e gesticulantes expressam violentas
emoes; seus corpos so modelados por meio de dobras da roupagem
lembrando veias ou nervuras, reforando assim o sentimento de agitao e
tenso. Esse mtodo de modelagem , em ltima instncia, de origem
bizantina, mas foi transmitido a Berz atravs da Itlia.  encontrado em
muitas regies e muitas formas de arte, pois os artistas medievais eram, com
freqncia, mestres em vrias tcnicas. Um certo Hugo  um caso tpico: ele
pintou a Bblia para Bury St. Edmunds e, para a mesma abadia, fundiu as
portas de bronze com cenas bblicas e esculpiu esttuas de madeira. Em sua
Bblia, que ainda existe e  uma das obras-primas da arte romnica, Hugo
tambm usa um mtodo, derivado do bizantino, de modelagem da figura
humana por meio das chamadas pregas midas.
      A pintura mural era uma espcie de bblia pauperum, assim como o livro
para o clero, os humanistas e uma pequena minoria letrada em geral. No livro,
as ilustraes eram freqentemente feitas a elevado custo, com o emprego de
ouro e do precioso lpis-lazli, simplesmente para tornar a obra mais bela. Os
primeiros livros cristos ainda existentes so do comeo do sculo V. Por
essa poca, a iconografia bblica bsica j tinha sido estabelecida, ao passo
que o estilo empregado baseava-se na arte antiga tardia. Muitos desses
primeiros livros cristos foram levados para a Inglaterra e a Irlanda por Santo
Agostinho e seus sucessores. Eram freqentemente copiados e, nesse
processo, suas pinturas eram modificadas pela incluso de ornamentos anglo-
saxnicos e clticos. O naturalismo do estilo de figura dos originais enviados
da Itlia foi gradualmente transformado, de modo que o corpo humano perdeu
todo o volume e as roupagens tornaram-se um padro ornamental (por
exemplo, os Lindisfarne Gospels, do final do sculo VII).
     A Renascena Carolngia estimulou a produo de livros da mais alta
qualidade. Os textos eram atentamente examinados por eruditos como
Alcuno, e a decorao executada em numerosos centros, como na Escola do
Palcio da corte de Carlos Magno em Aix-la-Chapelle, com a ajuda de artistas
gregos. Nesses centros carolngios foram tambm produzidos numerosos
objetos em marfim e em metais preciosos. A maioria dos livros eram Bblias, e
deve-se aos artistas otonianos dos sculos X e XI que grandes ciclos da vida
de Cristo tivessem sido pintados. Uma vez mais, pintores gregos foram
empregados na Alemanha, e no causa surpresa que a pintura Otoniana tenha
uma dvida para com o naturalismo da arte antiga, transmitida atravs de
intermedirios bizantinos. Tambm na Inglaterra houve uma grande renovao
na exuberante decorao de livros durante os sculos X e XI, tendo como
principais centros os mosteiros beneditinos reformados de Winchester,
Canterbury, Glastonbury e alguns outros, enquanto que, ao mesmo tempo, no
norte da Espanha, iluminuras de aspecto algo extico do Apocalipse e da
Bblia eram produzidas por artistas morabes.
      Durante o perodo romnico, houve uma vasta produo de livros
iluminados, sagrados e seculares, por toda a Europa e at mesmo nos reinos
cruzados; combinada com ela estava a produo de capas para livros e
outros objetos esculpidos em marfim e metais preciosos. O trabalho antes
executado em mosteiros passou gradualmente para oficinas leigas e at para
artistas itinerantes. A Inglaterra foi excelente na pintura de manuscritos, e
pinturas murais feitas por artistas ingleses encontram-se na Normandia e at
na distante Espanha. Os ingleses tambm eram famosos por seus bordados,
sendo a tapearia de Bayeux um bom testemunho de sua habilidade e talento
artstico nesse campo. Os artistas alemes eram clebres pelo trabalho em
metal de todas as espcies; o ourives Roger de Helmarshausen, de quem
sobrevivem dois espcimes de altar porttil, empregou um estilo semelhante
ao das pinturas murais de Berz. Na regio que bordeja o rio Mosa, um estilo
muito diferente de pintura, escultura em marfim e trabalho em metal foi
empregado por sucessivas geraes de artistas excepcionalmente talentosos;
era um estilo mais naturalista e em dbito com a arte clssica. Teve uma
profunda influncia na escultura monumental da Ile-de-France, dando assim
incio ao chamado estilo de transio. O maior artista na regio do Mosa foi
Nicolau de Verdun, ourives e trabalhador de esmalte cujo estilo classicizante
influenciou muito as artes na virada do sculo XII na Frana, Alemanha e
Inglaterra.
      A pintura, o trabalho em metal e a escultura em marfim foram dominados
pela arte palaciana de Paris. Por essa altura, o artista leigo profissional
estava bem estabelecido e alguns obtiveram grande reputao, como, por
exemplo, Matre Honor, mencionado pela primeira vez em 1288, e Jean
Pucelle, ativo na primeira metade do sculo XIV. Foram os primeiros pintores
gticos franceses a ser influenciados por concepes italianas de espao e
perspectiva pictricos. A arte inglesa do perodo gtico ficou devendo muito
s modas de Paris. Na pintura de manuscritos, os ingleses distinguiram-se em
drleries, as quais emolduravam freqentemente as pginas de livros. No
segundo quartel do sculo XIV, os elementos italianos tornaram-se muito
pronunciados na pintura inglesa como, por exemplo, no Saltrio de Gorleston,
no qual a cena da crucificao revela algum conhecimento da arte de Duccio.
Na corte bomia do imperador Carlos IV, todas as formas de pintura
floresceram, especialmente murais e retbulos, com alguma participao de
artistas italianos.
      O desenvolvimento artstico na Itlia, sobretudo a partir da poca de
Giotto, forma um captulo separado, que leva diretamente ao surgimento da
Renascena. O palaciano estilo gtico internacional de cerca de 1400 afetou
somente a Itlia setentrional, tendo Milo por seu principal centro e, da em
diante, os desenvolvimentos artsticos na Itlia e ao norte dos Alpes seguiram
caminhos separados pelo resto da Idade Mdia. Ver afresco; manuscritos,
iluminao de; mosaico; vitral GZ
 C.R. Dodwell, Painting in Europe 800-1200 (1971); M.M. Gautier, Emaux
du Moyen-Age (1972); P. Lasko, Ars Sacra 800-1200(1972); G. Zarnecki, Art
of the Medieval World (1975); D. Gaborit-Chopin, Ivoires du Moyen-Age
(1978); D.M. Wilson, Anglo-Saxon Art (1984); J. Beckwith, Early Medieval Art
(1985) [E. Gunther Grimme, Pintura medieval, Lisboa, Verbo, 1968]

Pio II papa 1458-64 (n. Eneias Slvio Piccolomini em 1405, em Corsignano,
atual Pienza) Graduado pela Universidade de Siena e notvel humanista,
compareceu ao Conclio de Basilia (1431) como secretrio de Amadeu VIII
de Sabia (depois antipapa Flix V). Numerosas obras poticas e dois
tratados favorveis ao conciliarismo aumentaram sua reputao literria e foi
recompensado com a posio de poeta laureado por Frederico III em 1442.
Ingressou no servio imperial e produziu sua frvola Historia de Eurialo et
Lucretia. Em 1445 reconciliou-se com Eugnio IV e no ano seguinte recebeu
ordens sacras. Em 1447, com Nicolau de Cusa, negociou a reconciliao do
papa e do imperador e mais tarde, nesse mesmo ano, foi elevado ao bispado
de Trieste. Produziu mais duas obras humanistas, De Viris Claris e De Rebus
Basileae Gestis, antes de ser transferido para Siena em 1450. Calixto III f-lo
cardeal em 1456 e dois anos depois era eleito pontfice.
      Como papa, no esqueceu o seu passado: em 1462 foi proibida a
destruio de monumentos antigos. Seu Papado teve a sombre-lo, porm, a
queda de Constantinopla (1453). Pio II convocou um conclio em 1460, mas foi
um fiasco, e ele escreveu ento ao sulto sua famosa Epstola ad
Mahumetan, que visava converter os muulmanos pela argumentao. Numa
tentativa de unir a Europa, promulgou a bula Exearabilis, que reafirmou
prerrogativas papais ao condenar os recursos a futuros conclios. A resposta
europia foi de indiferena e, finalmente, em 1464, Pio II apanhou o crucifixo e
partiu para o Oriente, mas faleceu em Ancona. Durante seu perodo como
papa, tambm escreveu os Comentrios -- um ato do seu prprio pontificado.
[287]
 Memoirs of a Renaissance Pope: the Commentaries of Pius II, org. por
F.A. Gragg (1959); RJ. Mitchell, The Laurels and the Tiara (1962)

pipe rolls Nome dado aos grandes registros financeiros do Tesouro ingls e 
maior srie de documentos pblicos existente na Inglaterra. Existe um roll
isolado para 1129-30 e os demais estendem-se quase continuamente de 1156
a 1832. Registram as contas reais por condado e so, pois, em grande parte,
as contas prestadas pelos respectivos xerifes, embora tambm contenham
vrias receitas ocasionais, como as oriundas de terras episcopais que
pudessem cair em mos rgias sede vacante. No registram todas as fontes
de rendimentos reais, porquanto nem todos eles passavam pelo Tesouro. A
natureza e a forma dos pipe rolls forneceram um modelo para os novos ramos
da administrao, quando se tornou necessria a organizao de arquivos
pblicos.

Pisa, Conclio de (maro-agosto de 1409) Conclio geral da Igreja convocado
pelos cardeais com o objetivo de pr fim ao Grande Cisma que prevalecia
desde a morte de Gregrio XI (1378), quando se apresentaram dois papas
rivais. Compareceram representantes da maior parte da Cristandade ocidental
(incluindo embaixadores rgios e representantes das universidades, assim
como a hierarquia da Igreja). O Conclio deps ambos os papas existentes
(Gregrio XII, 1406-15, e Bento XIII, 1394-1423) e elegeu Alexandre V (1409-
10), uma soluo que fracassou, porque nem um nem outro de seus
predecessores aceitou essa deciso. Somente no Conclio de Constana
(1414-18) foram dados os primeiros passos no sentido de uma soluo efetiva
do Cisma. A autoridade do Conclio de Pisa foi posta em dvida, uma vez que
no era representativo de toda a Igreja (muitos partidrios dos dois papas
preexistentes recusaram-se a participar) nem tinha sido convocado por um
papa. Preparou o caminho, entretanto, para reunies regulares, ao ser
estipulado que um outro conclio seria convocado a fim de discutir a reforma
da Igreja (1412). [216]
 Courtois and Assemblies, org. por G.J. Cumming e D. Baker (1971)
Pisanello (c. 1395-c. 1455) Medalhista e pintor, Antonio Pisano nasceu em
Pisa, da seu nome. Inventou virtualmente a medalha renascentista, da qual
ele foi o maior expoente em meados do sculo XV. Suas obras-primas incluem
medalhas de Giovanni Gonzaga, Francesco Sforza, Joo VIII Palelogo e o
rei Afonso de Arago. Foi tambm um destacado pintor, do estilo gtico
internacional, enquanto que seus desenhos sensveis refletem o naturalismo
do incio da Renascena.
 G. Paccagnini, Pisanello (1973)

Pisano, Nicola (c. 1220-c. 1278) Escultor e arquiteto italiano. Pisano 
considerado o fundador da escultura moderna. Suas obras incluem os plpitos
no batistrio de Pisa (1259) e na catedral de Siena (1268), os quais revelam
uma combinao de influncia gtica e modelos clssicos para temas cristos.
Na fonte de Perugia colaborou com seu filho Giovanni (c. 1250-1314), cuja
obra deu continuidade a esse renascimento da escultura.
 J. Pope-Hennessy, Italian Gothic Sculpture (1970)

Plantageneta A casa real da Inglaterra em 1154-1485  comumente
mencionada pelo nome da famlia, Plantageneta. Este nome teve sua origem
no apelido posto ao conde Godofredo de Anjou, pai de Henrique II, pelo fato
dele usar um raminho de giesta (planta genista) em seu chapu ou, outra
hiptese, por plantar giesta como cobertura para a caa. O nome s viria a
ser usado pelos descendentes de Godofredo depois de cerca de 1448,
quando Ricardo, duque de York, o reviveu a fim de enfatizar a superioridade
de suas pretenses ao trono contra as da casa de Lancaster.

Plotino (c. 204-70) Fundador do sistema neoplatnico, Plotino nasceu no
Egito mas residiu em Roma a partir de 244. Seu bigrafo, Porfrio, publicou
suas lies e, nas seis Eneadas. Plotino sintetizou a filosofia de Plato com
outras filosofias. Sua principal preocupao era o progresso espiritual do
homem para o "Uno", o "Bem". Plotino era conhecido indiretamente na Idade
Mdia atravs daqueles a quem tinha influenciado, incluindo Santo Agostinho,
So Baslio e o Pseudo-Dioniso. Em 1492, Marslio Ficino traduziu as
Eneadas do original grego para o latim, e da em diante a obra de Plotino deu
importante contribuio para o neoplatonismo renascentista.
 A.H. Armstrong, Plotinus (1953)

Polnia Ingressou tarde na era histrica, em grande parte por causa de
fatores geogrficos: as florestas isolavam-na at dos seus parentes eslavos,
que formaram tampes contra a expanso germnica e asitica. A partir de
cerca de 800, sujeies internas levaram  hegemonia dos poloneses (polanii)
e seus prncipes, os Piast. Seu territrio em torno de Gniezno, a primeira
capital, e de Poznan, o primeiro bispado, formou o ncleo do Estado polons,
a Grande Polnia. A regio do Alto Vstula e Cracvia foi anexada, formando
a Pequena Polnia. A influncia crist apareceu, provavelmente, no final do
sculo IX mas o contato poltico foi protelado at o sculo X.
       A Polnia medieval produziu duas grandes dinastias, a Piast e a Jagiello.
Seu primeiro representante destacado, Mieszko I (c. 960-92), reconheceu a
suserania do imperador Oto I (963) e acelerou a converso da Polnia ao
casar com uma princesa bomia crist (965). Seu filho, Boleslau I, o Valente
(992-1025), promoveu a poltica de Mieszko, favorecendo a Polnia como
centro missionrio para os eslavos e assumindo o ttulo de rei j no ltimo ano
de seu reinado.
       A ausncia de um princpio sucessrio regulador entre os Piast gerou
conflitos durante o sculo XI, o que deu oportunidade  interveno imperial e
 ascenso do poder aristocrtico. Assim, os territrios poloneses foram
divididos em quatro ducados hereditrios: Silsia, Masvia, Grande Polnia e
a regio de Sandomierz; o trono de Cracvia, a nova capital, passou para o
Piast mais velho. As permanentes disputas permitiram uma crescente
colonizao alem, especialmente depois da introduo da Ordem Teutnica
(1230). O promissor reinado de Henrique n, o Piedoso (1238-41), terminou
com sua morte em Lignica, quando tentava sustar uma investida mongol.
Apesar das dificuldades desse perodo, a integridade polonesa foi
preservada. A Polnia continuou sendo uma s provncia eclesistica,
desenvolvendo uma forte conscincia nacional intensificada pelo sentimento
antialemo.
      O sculo XIV assistiu s invases alems, mormente em 1331 e 1332,
as quais foram rechaadas por Casimiro III, o Grande, que isolou os
Cavaleiros Teutnicos e, embora incapaz de recuperar todo o territrio
polons ocidental, ampliou consideravelmente as fronteiras orientais da
Polnia, tornando importante para a Cristandade a influncia polonesa na
Europa oriental. Casimiro era um grande e tolerante legislador, que fundou a
Universidade de Cracvia (1364) e desfrutou de considervel prestgio entre
os monarcas seus contemporneos.
      Casimiro foi o ltimo Piast. A Coroa passou, atravs de seu sobrinho
Lus da Hungria (em cujo reinado as cartas de privilgios concedidas 
nobreza tornaram a monarquia eletiva), para Edwiges de Anjou (1384-99).
Edwiges casou com Ladislau II Jagiello (ou Jagelo) da Litunia (1386) e, com
Vitoldo da Litunia, primo de Ladislau, estabeleceram a dinastia Jagiello e
consumaram uma unio polacolituana (formalizada em 1413 pela Unio de
Haroldo). As hostilidades teutnicas prosseguiram, apesar da vitria de
Jagiello na batalha de Grnwald (Tannunburgo) em 1410.
      A guerra civil foi desencadeada aps as mortes de Vitoldo (1430) e
Ladislau II (1434). Coube ao cardeal-regente Olesnicki sufoc-la; colocou
Ladislau, filho de Jagiello, no trono da Hungria, com a inteno de iniciar uma
Cruzada contra os turcos. Tudo correu bem at a morte de Ladislau durante a
derrota de Varna (1444). Casimiro III Jagiello (1147-92) saiu vitorioso da
Guerra dos Treze Anos contra a Ordem Teutnica (1454-66); esse fato e
suas pretenses na Bomia e Hungria permitiram a formao de uma imensa
federao jagelona que se estendia de Moscou ao Adritico. Ameaas
negligenciadas de Moscou e dos turcos couberam em herana aos filhos de
Casimiro, Ladislau (Hungria), Joo Alberto (Polnia) e Alexandre (Litunia), e
 Dieta polonesa, uma entidade constitucional composta pela pequena
nobreza rural (criada por volta de 1493). Agresses de leste e de oeste
causaram a contrao da fronteira mas isso no era irreparvel, e um outro
filho, Sigismundo I (1506-48), conduziu a Polnia para o seu "sculo dourado".
       O papel do Cristianismo na histria da Polnia deve ser assinalado. A
poltica polonesa de aliana com o Papado, a fim de excluir a influncia
imperial e bizantina, ajudou a preservar a independncia do pas. Uma forte
identidade religiosa unia a Polnia, e sua posio geogrfica tornava-a guardi
de uma parte estratgica da fronteira da Europa crist, no s avanada,
atravs da converso de territrios fronteirios como a Pomernia e a
Litunia, mas tambm defensiva. MB
 The Cambridge History of Poland (1950); O. Halwecki, A History of Poland
(1978); P. Jasienica, Jagiellordan Poland (1978); N. Davies, God's
Playground: a History of Poland, vol. I (1982)

Pontanus, Jovianus (c. 1422-1503) Giovanni Pontano era um humanista e
lder poltico italiano do reino de Npoles. Nasceu em Cereto, no Spoletano,
ingressou no servio de Afonso I de Npoles e tornou-se secretrio rgio
(1447). At 1495 serviu os reis aragoneses de Npoles, exercendo funes de
secretrio, preceptor, embaixador e conselheiro. Sua aceitao da vitria
francesa, aps a invaso pelas tropas de Carlos VIII (1495), acarretou sua
queda com a chegada de Fernando II. Foi escritor prolfico de prosa e verso
em latim, ilustrando a diversidade da cena renascentista com a diversidade de
suas prprias obras. Estas incluram ensaios filosficos, histria humanista
(De Bello Napoletano), dilogos e histrias (Asinus) e poesia sobre a
natureza do amor e sobre astrologia (Urania). Grande parte de sua obra
apoiou-se em experincia pessoal e ele foi proeminente no estabelecimento
da poesia latina renascentista como gnero de rico potencial. Adotou o nome
latinizado, Jovianus Pontanus, e reviveu e formalizou a Academia Napolitana
(Academia Pontaniana).
 J.A. Symonds, The Renaissance in Italy (1909)

Portugal Teve sua origem na parte meridional da Galcia, uma regio
dependente do reino das Astrias. No incio do sculo X, tinha o status de
condado e em 1096-97 foi outorgado a Henrique de Borgonha, quando casou
com Teresa, filha ilegtima de Afonso VI de Leo e Castela. Nessa poca, a
fronteira entre territrio cristo e muulmano passava logo ao sul de Coimbra
-- ou seja, a meio caminho entre os rios Douro e Tejo. Quase
simultaneamente, Braga, restabelecida como diocese em 1070, teve seu
status metropolitano reconhecido pelo papa; continuaria sendo a capital
eclesistica de Portugal medieval.
      Afonso Henrique (Afonso I), filho de Henrique e Teresa, tinha apenas
cinco anos em 1112 quando seu pai faleceu; em 1127 estava governando por
seu legtimo direito de herdeiro do trono, com a capital em Coimbra. Em 1139,
tendo derrotado os desafios de sua me (que governara como regente), dos
galegos e dos almorvidas, passou a usar o ttulo de rei, embora ainda
submetido em alguns aspectos a Afonso VII, imperador de Leo. No
conseguiu incorporar a Galcia a Portugal mas rechaou a invaso de Afonso
VII e, num tratado de paz de 1143 [tratado de Zamora], seu reino foi
finalmente reconhecido. Afonso Henriques concentrou ento seus esforos na
Reconquista e em 1147, com a ajuda de cruzados ingleses e alemes,
conquistou Lisboa. Os portugueses comearam ento povoando as terras ao
sul do Tejo, com os Templrios defendendo pontos estratgicos; a regio ao
norte do rio foi confiada aos cistercienses, cujo centro era a grande abadia de
Alcobaa. Explorando as guerras entre almorvidas e almadas, Afonso
Henriques avanou para o sul e tentou expandir-se a leste na direo de
Badajoz (1170); mas foi longe demais, e uma coalizo almadaleonesa
repeliu-o para a linha do Tejo. Essa linha agentou firme; Lisboa foi defendida
contra o exrcito e a esquadra almada, e quando o longo reinado de Afonso
terminou em 1185, seu reino abrangia dois teros do Portugal moderno.
      A Reconquista recomeou na dcada de 1220 e em 1249 estava
completa, quando a ltima parte do Algarve se rendeu a Afonso III. O sculo
XIII foi um perodo de conflito entre a autoridade real e a papal, resolvido a
favor da Coroa por uma concordata em 1289. Isso, tal como a fundao da
primeira Universidade de Portugal (Lisboa, 1288), foi obra de Dinis (1279-
1325), que tambm desenvolveu o comrcio externo. Poeta e patrono de
poetas, Dinis presidiu ao ltimo grande florescimento da lrica palaciana
galaico-portuguesa, que tinha sido dominante por cerca de um sculo tanto em
Castela quanto em Portugal. A ltima tentativa sria de invadir a pennsula a
partir do Marrocos foi desbaratada s margens do rio Salado, na Andaluzia,
por exrcitos portugueses e castelhanos combinados (1340); mas esse foi um
xito no bojo de uma crise em formao. A Peste Negra, que atingiu Lisboa
em 1348 e se propagou rapidamente, causou um colapso demogrfico: a
populao de Portugal, que tinha alcanado um milho, s voltou a atingir esse
nvel por volta de 1450. Os ltimos anos de Afonso IV (1325-57), o vencedor
de Salado, foram conturbados pelas lutas com seu filho, mais tarde Pedro I
(1357-67); Afonso tinha providenciado para que a amante de Pedro, Ins de
Castro, fosse assassinada em 1355, e o novo rei, ao subir ao trono, vingou-se
nos ministros de seu pai. Em 1383, Fernando I morreu sem herdeiro varo;
sua filha Beatriz casara recentemente com Joo I de Castela e a rainha-me,
Leonor, como regente, favorecia a causa castelhana. Em dezembro de 1383,
uma revoluo burguesa e popular eclodiu em Lisboa, e o filho bastardo de
Pedro I, Joo, Mestre da Ordem de Aviz, assumiu a liderana, sendo
proclamado rei em 1385 como Joo I. A antiga nobreza tomou em sua grande
maioria o partido dos castelhanos invasores, e foi varrida com estes. Com
ajuda inglesa (Joo I casou com Filipa de Lancaster, filha de Joo de Gaunt),
o novo regime assegurou sua posio aps a decisiva batalha de Aljubarrota
(14 de agosto de 1385), ganha pelo condestvel Nuno lvares Pereira,
embora a guerra ainda se arrastasse at 1403, causando privaes 
populao e desvalorizao da moeda. O longo reinado de Joo I (at 1433)
recuperou a estabilidade poltica, que seria mais tarde abalada s
temporariamente pela batalha de Alfarrobeira (1449), na qual a linha ilegtima
dos duques de Bragana estabeleceu sua predominante influncia.
     A histria de Portugal no sculo XV , preponderantemente, uma saga
de descoberta e conquista na frica e no Atlntico. O porto marroquino de
Ceuta foi tomado em 1415 e quatro anos mais tarde eram empreendidas as
primeiras viagens de explorao para as ilhas atlnticas (Madeira, por volta de
1419, Aores descobertos em torno de 1439) e descendo a costa noroeste
africana (o Cabo Bojador, por largo tempo considerado uma barreira
aparentemente inultrapassvel, foi dobrado em 1434). O fracasso na primeira
tentativa de conquista de Tanger em 1437, onde o infante Fernando, irmo do
rei Duarte (1391-1438), foi capturado pelos mouros, desencorajou por algum
tempo novas expedies militares e fortaleceu a poltica de explorao
martima. O infante Henrique, o Navegador (1394-1460), que tinha instado
com o rei para atacar Tanger, concentrava agora suas energias na promoo
das viagens  frica ocidental. Seus verdadeiros motivos so muito debatidos:
era Henrique instigado principalmente pelo dever de propagar a f crist ou
pelo desejo de se apoderar do ouro da Guin?
       O comrcio de escravos tambm era, desde cerca de 1440, uma
atrao econmica para os exploradores. A primeira feitoria (um entreposto
fortificado) foi estabelecida em Arguim, por volta de 1445. s descobertas
prosseguiram aps a morte de Henrique, o Navegador, e receberam novo
impulso graas ao entusiasmo de Joo II, o Prncipe Perfeito (1481-95), cujo
desejo de estabelecer contato com o lendrio Prestes Joo (desse modo
atacando os muulmanos pela retaguarda) e de assegurar o comrcio das
especiarias asiticas levou  explorao da frica oriental, depois que
Bartolomeu Dias dobrou o Cabo da Boa Esperana em 1487. O Tratado de
Tordesilhas (1494) dividiu o mundo no-europeu em esferas de influncia
espanhola e portuguesa, com o territrio que viria a ser o Brasil ficando do
lado portugus da linha. De momento, porm, as viagens asiticas
prevaleciam; Vasco da Gama zarpou em 1497 e regressou em triunfo dois
anos depois. O imprio mundial de Portugal j estava adquirindo
forma.                    ADD
 CR. Boxar The Portuguese Seaborne Empire (1969); H.V. Livermore, The
Origins of Spain and Portugal (1971); [A.H. de Oliveira Marques, History of
Portugal (1976); Histria de Portugal, Lisboa, Palas, 1972; J. Mattoso,
Identificao de um pas. Ensaio sobre as origens de Portugal, 1096-1325, 2
vols., Lisboa, Estampa, 1985]

pound (do latim pondus; tambm livre, lira etc, do latim libra, donde a
abreviatura lb) Era inicialmente uma unidade de peso -- o peso romano de 12
onas (327,45 gramas) -- mas aplicou-se posteriormente a muitas unidades
locais contendo um nmero varivel de onas e pesando usualmente entre 300
e 450 onas. Como unidade monetria,  uma moeda de conta
correspondente a 240 pennies (20 xelins de 12 pennies cada). Foi cunhada
inicialmente como moeda na forma do florim de ouro em 1252.

Praga, Universidade de A Universidade de Praga foi importante na histria
tchecoslovaca, tanto nos domnios polticos e religiosos quanto nos culturais.
Foi fundada pelo imperador Carlos IV como a primeira universidade centro-
europia. Carlos IV publicou seu Edito de Ouro da fundao duas vezes, como
rei da Bomia (1348) e como imperador (1349), constituindo-a como
instituio nacional e imperial. Tomou por modelo suas principais precursoras,
Paris, Bolonha e Oxford, adotando a constituio parisiense, o que implicava a
diviso em quatro "naes", com o que passou a ter uma controvertida maioria
alem. O cisma interno (1372) resultou no desligamento da faculdade de
direito, que at 1419 se manteve como entidade separada.
       O gradual desvio alemo para universidades rivais (Viena, Heidelberg,
Colnia, Erfurt) tornou sua maioria ainda mais anacrnica, e o conflito
resultante foi intensificado pelo Grande Cisma. Finalmente, em 1409 (Decreto
de Kutn Hora), o rei Venceslau da Bomia transferiu trs dos votos
"nacionais" para os tchecos, causando uma importante secesso alem e a
nacionalizao da Universidade. A afirmao tcheca provocou uma mudana
do questionamento filosfico e teolgico para o moral e eclesistico, sendo os
tchecos favorveis ao realismo de Wycliffe contra o nominalismo alemo. Em
1409, Joo Huss  nomeado reitor da Universidade e, at a sua queda (1620),
a Bomia tornou-se o centro militante do hussitismo, dedicando-se a
Universidade a servir a nao tcheca em sua luta para reformar a Igreja. No
conflito que se seguiu em torno dos universais e da reforma, Huss liderou os
realistas e reformadores, com o apoio de "wicliffistas" como Jernimo de
Praga, ao passo que o arcebispo Zbynek liderou a oposio conservadora
tcheca. Quando Praga ficou sem rei (1419-52), a Universidade governou
virtualmente a nao atravs do consistrio utraquista.
 Prague Essays, org. por R.W. Seton-Watson (1949)

predestinao Lato sensu, predestinao refere-se  ordenao de todos os
acontecimentos por Deus, desde a eternidade. Teologicamente, com alguma
autoridade bblica, engloba o decreto divino de felicidade para os eleitos e a
divina reprovao para os destinados ao Inferno. No mbito do dogma
catlico, a graa  um requisito prvio da salvao, mas no  arbitrariamente
concedida e tem que ser merecida. A predestinao para o Inferno deve-se a
que Deus prev o pecado, no o predetermina. A natureza exata da
predestinao foi discutida por muitos autores medievais. A heresia do
predestinarianismo surgiu no Ocidente, atribuindo a salvao e a reprovao
somente  vontade de Deus, o que exclua a cooperao e o livre-arbtrio
humanos. Assim, os rprobos so impelidos para o pecado e os eleitos para a
retido atravs do suprimento de graas eficazes que destroem seu livre-
arbtrio. Os herticos citaram Santo Agostinho, interpretando erroneamente
suas idias expressas no De Dono perseverantiae (possivelmente como
refutao ao pelagianismo e ao semipelagianismo, que considerou as obras
naturalmente boas do homem como a nica determinante da predestinao).
O annimo Praedestinatus do sculo V foi provavelmente da autoria de um
pelagiano, combatendo Agostinho ao atribuir-lhe falsamente parte da obra.
      Em meados do sculo V surgiu um rgido predestinarianismo, defendido
pelo sacerdote gauls Lucidus, que se submeteu a Fausto de Riez e ao
Conclio de Aries (c. 473). O conflito foi reatado no sculo IX, quando o
predestinatrio Gottschalk de Orbais foi refutado por Rbano Mauro (c. 840);
Gottschalk foi forado a retratar-se e aprisionado por ordem de Hincmar,
arcebispo de Reims, no Snodo de Quierzy (849). Uma nova refutao por
Joo Escoto Ergena serviu meramente para intensificar a controvrsia; no
reinado de Carlos, o Calvo, o Imprio Franco do Ocidente viu-se envolvido na
disputa, at que a paz foi restabelecida pelo Snodo de Toussy (860). Da em
diante, o ensino medieval concentrou-se no repdio da reprovao para o
Inferno e na afirmao da predestinao divina dos eleitos para o Cu e da
cooperao do livre-arbtrio. Esse ensino foi temporariamente desafiado por
Thomas Bradwardine (c. 1290-1349) e pelos precursores da Reforma
(Wycliffe, Huss, Jernimo de Praga e Johann Wessel). O predestinarianismo
recebeu um vigoroso impulso na Reforma; a intransigente negao por Lutero
do livre-arbtrio nos rprobos e do mrito, foi sistematizada por Calvino e
modificada de vrias maneiras. MB
 J. Farrelly, Predestination, Grace and Free-will (1964)

prefeitos do palcio O cargo de major palatii foi o sucessor, com os
monarcas merovngios, do major domus como governante efetivo do reino
franco, por trs dos chamados rois fainants, ou "reis preguiosos". O conflito
entre Pepino II, prefeito de Austrsia, e Ebroin, prefeito de Nustria e
Borgonha, terminou com o assassinato de Ebroin (680) e a vitria de Pepino
sobre os neustrianos em 687. Da em diante, Pepino foi o governante de facto
dos trs reinos e foi sucedido por seu filho, Carlos Martel. Aps a deposio
do rei Childerico III em 751, o prefeito do palcio, Pepino III, foi eleito rei dos
francos.
 J.M. Wallace-Hadrill, The Long-haired Kings (1962); A.R. Lewis, "The
`Dukes' in the Regnum Francorum, AD 550-751", Speculum, 51 (1976)

Premonstratense, Ordem Em 1120, Norberto de Xanten fundou uma
comunidade religiosa em Prmontr, perto de Laon, que foi aprovada como
Ordem em 1126. Os premonstratenses, ou cnegos brancos, eram
agostinianos reformados, mas sua organizao geral foi consideravelmente
influenciada pelos cistercienses. Originalmente, a Ordem caracterizou-se por
seu forte elemento de pregao e trabalho pastoral, e por suas prescries
para mulheres em mosteiros duplos. Entretanto, a Ordem acabou por suprimir
seus mosteiros duplos, em resposta  opinio pblica religiosa, e surgiram
conflitos internos a respeito da interpretao da Regra de Santo Agostinho.
Gradualmente, um modo mais contemplativo e monstico de vida ganhou
precedncia sobre as funes apostlicas, que iriam ser desempenhadas
pelos frades do sculo seguinte; as constituies dominicanas apoiaram-se
substancialmente nas de Prmontr.

Procpio de Cesaria (m. 562) O mais ilustre dos historiadores bizantinos do
sculo VI, que escreveu histria contempornea na tradio de Tucdides. Era
secretrio de Belisrio, general de Justiniano, a quem acompanhou em
numerosas campanhas, e suas Histrias da Guerra fornecem uma inestimvel
descrio das guerras prsicas, vndalas e gticas. Em Construes,
Procpio descreve as principais obras pblicas executadas no governo de
Justiniano, enquanto que sua Histria Secreta  um famoso relato crtico do
reinado de Justiniano.
 The Secret History, trad. G.A. Williamson (1966)

Prssia A Prssia que alcanou a fama com Frederico, o Grande, e Bismarck
tem uma relao muito limitada com a Prssia medieval. O Estado prussiano
nasceu da fuso, no incio do sculo XVII, das terras fronteirias de
Brandenburgo, da dinastia Hohenzollern (burgraves de Nuremberg e eleitores
de Brandenburgo) e dos Estados blticos fundados pela Ordem Teutnica,
dos quais derivou o nome "Prssia".
      "Prssia" referia-se originalmente a um pequeno povo bltico pago que
vivia em torno do esturio do Vstula. A Polnia tentara sem xito sua
converso, mas esta veio a ser conseguida pelos Cavaleiros da Ordem
Teutnica (fundada na Palestina em 1198), que desviaram seu esprito
cruzado para essa regio em 1226 quando o Edito de Ouro de Rimini,
concedido por Frederico II, deu ao gro-mestre Herman de Salza poderes
para govern-la como parte integrante do Imprio. De 1226 a 1236, a Ordem
empenhou-se numa brutal conquista e converso. A regio foi subjugada at
eclodir a grande rebelio prussiana (1260), da qual resultaram 15 anos de
guerra, durante os quais grande parte da populao original foi exterminada.
Os remanescentes foram totalmente absorvidos pelos povoadores germnicos
e eslavos a quem a Ordem transplantou, designados como prussianos
orientais ou ocidentais segundo a margem do Vstula onde se instalaram.
      Durante o sculo XIV, a Prssia floresceu como uma repblica monstica
administrada pela Ordem (seu celibato e proibio de bens pessoais
impediam o governo feudal),  sombra da qual viviam uma aristocracia
econmica e um campesinato prspero. Com a prosperidade dos Estados, a
Ordem passou a ser vista cada vez mais como uma entidade estrangeira,
sobretudo pelo fato de ser reabastecida pelo Imprio. Em seu apogeu, no
sculo XIV, o territrio da Ordem estendia-se desde a fronteira da Polnia at
a Estnia. Cidades como Danzig (residncia do gro-mestre) e Knigsberg
cresceram e tornaram-se importantes potncias mercantis blticas.
      Durante o sculo XV, a Ordem envolveu-se em guerras com a Polnia e
a Litunia, aliando-se os Estados prussianos ao inimigo. Em 1466 (a Segunda
Paz de Thorn), a Prssia ocidental tornou-se totalmente polonesa, e a Ordem
manteve a Prssia oriental como um feudo vassalo da Polnia. A Prssia
deixava de ser parte do Imprio.
      Em 1525, o ltimo gro-mestre, Albrecht von Brandenburg-Ansbach,
usou a Reforma para dissolver o Estado da Ordem, tornando-se duque
temporal da Prssia sob a suserania da Polnia. Ele pertencia  famlia
Hohenzollern e atravs dele a Prssia tornou-se finalmente aliada de
Brandenburgo.                                             MB
 F.L. Carsten, The Origins of Prussia (1954); S. Haffner, The Rise and Fall
of Prussia (1980)

Psellus, Miguel Natural de Constantinopla, Psellus  mais conhecido por sua
realista, ainda que exagerada, histria dos imperadores bizantinos e da
decadncia poltica do perodo de 1025-71. Era clebre por sua vaidade,
embora isso fosse convencional, segundo parece, entre os escritores
bizantinos. Foi um favorito do imperador Constantino IX (1042-55), a quem
ensinou retrica, e que estava sinceramente interessado na literatura e
filosofia clssicas, em especial a obra de Plato. Influente e inescrupuloso
poltico palaciano, esteve estreitamente envolvido na trama que resultou na
deteno e priso do imperador Romanus, aps sua derrota em Manzikert
(1072)

Ptolomeu de Lucca (c. 1236-1326) Bartolommeo Fiadoni era membro da
proeminente famlia Fiadoni de Lucca e um importante historiador civil e
eclesistico. Era colaborador dominicano de Toms de Aquino, tendo entrado
em contato pela primeira vez com o grande filsofo na dcada de 1270;
assim, pde continuar o livro de Aquino, Do Governo dos Prncipes (c. 1302).
Talvez tenha ficado mais conhecido por sua defesa da teoria hierocrtica do
poder papal, mas sua obra tambm  notvel por sua ponderada e
compreensiva anlise dos tipos de estrutura de poder existentes na Itlia no
comeo do sculo XIV. Antes do advento de Marslio de Pdua, a teoria
comunal italiana recebeu considervel apoio de Ptolomeu de Lucca.
 B. Schmeidler, Studien zu Tholomeus von Lucca (1908)

Quadrivium As sete artes liberais que constituam a base para a educao
na Idade Mdia estavam divididas em dois elementos: o Trivium e os estudos
mais avanados do Quadrivium (aritmtica, geometria, astronomia e msica).
Nas mos de hbeis professores com acesso  obra de Bocio e seus
sucessores, uma significativa herana de cultura clssica foi transmitida ao
mundo medieval do Ocidente. Para Bocio, todos os quatro ramos do
Quadrivium representavam diferentes aspectos da matemtica, mas
ocorreram desenvolvimentos significativos, sobretudo no sculo XII, quando
distines mais ntidas foram feitas entre a prtica e a teoria das cincias. A
estrutura do Quadrivium sobreviveu -- se bem que precariamente -- quando
novos conhecimentos foram se acumulando. Ver educao
 [A.C. Crombie, Historia de la ciencia: de San Agustn a Galileo, 2 vols.,
Madri, Alianza, 1974; R.A. Costa Nunes, Histria da Educao na Idade
Mdia, S. Paulo, EPU-EDUSP, 1979]
quilate (tambm, como peso, siliqua) Inicialmente, um peso (0,189/g)
derivado da vagem da alfarrobeira (Ceratonia siliqua), mas usado geralmente
na Idade Mdia como termo para expressar a pureza do ouro (1/24 parte),
uma vez que o solidus constantiniano, de ouro puro, pesava 24 quilates. [A
palavra "quilate", derivada do rabe quirat, tem sua origem no grego kertion,
que significa "pequeno chifre", lembrando o formato da vagem ou casca
(siliqua) de vrias leguminosas, NT]
                                    R
Rbano Mauro (c. 780-856) Preceptor Germaniae, foi educado em Fulda e
estudou mais tarde com Alcuno em Tours. Regressou a Fulda e tornou-se
diretor da escola a existente, convertendo-a num dos mais influentes centros
de cultura e erudio da Europa. Serviu como abade de Fulda durante 20
anos, exonerando-se em 842 para se tornar arcebispo de Mainz em 847.
Suas obras escolsticas, como De Clericorum Institutione, no revelam
originalidade filosfica ou teolgica, mas a profundidade de sua erudio
granjeou o respeito geral para o autor.
 E.F. Duckett, Carolingian Portraits (1964)

Ragnar Lothbrok (Ragnar "Cales de Couro") Heri viking que aparece
freqentemente como figura genealgica nas sagas. A evidncia histrica 
escassa, mas parece ter sido um importante chefe dos vikings em meados do
sculo IX e pai de Ivar, o Desossado, e de Hubba, irmos escandinavos que
desfecharam uma srie de penetrantes incurses na Inglaterra contra o reino
de Alfredo. Tambm foi identificado com o viking que subiu o Sena e saqueou
Paris em 845. Acreditava-se que ele teria morrido ao ser lanado num ninho
de serpentes em Nortmbria, pressagiando nas suas ltimas palavras a
vingana filial: "Como grunhiro os porquinhos quando souberem da morte do
velho javali!"
 A.P. Smyth, Scandinavian Kings in the British Isles 850-880 (1977)

Raimundo IV (c. 1041-1105) Conde de Toulouse. Segundo filho de Pons e
Almodis, com a morte de seu irmo mais velho, Guilherme (1093), sucedeu-
lhe na posse de todo o condado de Toulouse. Dois anos depois, foi o primeiro
prncipe a responder  convocao de Urbano II para uma Cruzada  Terra
Santa. Deixou a Frana em 1096 e, quando chegou a Constantinopla, recusou-
se a render preito de vassalagem ao imperador Aleixo. Chegou-se a uma
soluo de compromisso pela qual Raimundo concordava em respeitar os
direitos territoriais do imperador, e gradualmente Raimundo acabou
favorecendo e advogando uma aliana greco-latina para fortalecer os
objetivos da Cruzada. Estava presente no cerco e tomada de Antioquia e
argumentou que a cidade deveria ser entregue ao imperador. Entretanto,
Boemundo I reclamou-a para si e expulsou a guarnio de Raimundo. Apesar
disso, Raimundo aparece como o verdadeiro lder da Cruzada, organizando a
marcha sobre Jerusalm e desempenhando um papel decisivo no assalto 
cidade em 1099. Raimundo no aceitou a dignidade real (Godofredo de
Bulho tornou-se o Defensor do Santo Sepulcro) e em 1101 fundou o condado
de Trpoli, embora se mantivesse em campanha at o dia de sua morte.
 J.H. Hill e L.L. Hill, Raymond IV of St. Gilles (1959)

Ranulfo de Glanvill (m. 1190) Natural de Stratford, Suffolk, era membro das
categorias inferiores das classes fundirias da Inglaterra. Ingressou na
administrao real, ascendendo  posio de xerife. Sua lealdade a Henrique
II foi provada por sua enrgica defesa do norte durante a rebelio de 1173-
74, na qual Ranulfo capturou o rei Guilherme da Esccia em Alnwick. Sucedeu
a Ricardo de Lucy como magistrado judicial em 1180, um cargo que exerceu
at 1189, quando Ricardo I o exonerou e mandou prender. Foi solto contra o
pagamento de um resgate de  .15.000 e acompanhou Ricardo na Terceira
Cruzada, morrendo em Acre em 1190.
       Sua fama repousa na obra que lhe  comumente atribuda, o Tractatus
de Legibus et Consuetudinibus Regni Angliae (c. 1188), mas possivelmente
escrita por seu sobrinho e secretrio, Hubert Walter. Tal obra  uma lcida
descrio comentada da prtica, procedimentos e princpios dos tribunais
rgios. O livro est estruturado em torno das formas de mandados reais e
seus procedimentos, especialmente os inquritos possessrios recentemente
introduzidos para servir de base a aes ajuizadas nos tribunais condais de
apelao. O objetivo era fazer respeitar com eficcia as ordens reais
especficas, com a autoridade rgia usada para superar jurisdies
conflitantes e assegurar a eficiente manuteno da paz do reino. A
popularidade do Tratado nos crculos judiciais ajudou a consolidar a posio
do direito consuetudinrio contra os sistemas jurdicos feudal, Cannico e
romano que vinham se desenvolvendo rapidamente.
 G.D.G. Hall, Glanvill (1965)

Ranulfo Flambard (m. 1128) Bispo de Durham e um dos principais ministros
de Guilherme II, o Ruivo (1087-1100). Ordericus Vitalis descreve-o como
indivduo de origem humilde, oriundo da regio normanda de Bessin. Entre
1083 e 1085, ingressou na Chancelaria como escriturrio e guardio do selo
real, ascendendo a uma posio de destaque com Guilherme, o Conquistador,
por volta de 1087. Continuou servindo a Guilherme II, o Ruivo, tornando-se
seu capelo, magistrado judicial e um dos chefes da administrao. Era
extremamente impopular entre os cronistas e ganhou a reputao de
"advogado do feudalismo". Pouco se sabe do seu verdadeiro papel, mas foi
geralmente descrito como agente fiscal, e certas provas evidenciam sua
ligao com o aspecto judicial das finanas. Parece ter tido uma interveno
decisiva na expanso da autoridade real a toda a Inglaterra, ao ampliar as
relaes rgias para alm da mera suserania, convertendo-se em senhorio
efetivo, aumentando a interferncia em questes locais, tornando mais
complexos os cargos administrativos e ajudando a criar o Tesouro. Ampliou as
possesses do rei, muitas vezes  custa da Igreja.
      Em 1099, tornou-se bispo de Durnham, embora continuasse no exerccio
de suas funes administrativas e por isso causasse protestos gerais. Quando
Henrique I subiu ao trono (1100), Ranulfo foi preso mas fugiu para a
Normandia, onde encorajou a invaso da Inglaterra por Roberto. Reconciliou-
se com Henrique por volta de 1101 mas no teve qualquer papel em sua
administrao, concentrando-se em Durham, onde quase completou a
catedral, fortificou a cidade e edificou o castelo de Norham.
 R.W. Southern, "Ranulf Flambard and early Anglo-Norman Administration",
Transactions of the Royal Historical Society, 16 (1933)
Ravena Em 402-03, o imperador Honrio e sua corte deixaram Milo para ir
estabelecer residncia permanente em Ravena, uma cidade que
proporcionava melhor proteo contra as tribos brbaras invasoras, vindas do
norte. A cidade desempenhou um papel decisivo na histria da Europa
medieval durante cerca de 350 anos, primeiro como capital do Imprio
Romano do Ocidente e, depois, da Itlia ostrogoda e bizantina. O chefe
brbaro Odoacro a residiu depois de 476, entregando-a ao ostrogodo
Teodorico em 493. A cidade desempenhou ento um importante papel nas
campanhas de Justiniano para reconquistar a Itlia aos godos; o general
bizantino Belisrio conquistou Ravena em 540, e a cidade tornou-se a capital
da Itlia. Foi posteriormente transformada num exarcado imperial (c. 584-c.
751), convertendo-se assim no centro de toda a atividade administrativa na
Itlia, alm de ser o principal porto de entrada para os bizantinos. A cidade foi
tomada pelos lombardos em meados do sculo VIII, mas em 757 estava sob
o controle do papa, depois que o rei franco Pepino expulsou os lombardos.
       No final da Idade Mdia, Veneza suplantou Ravena como o principal
porto do Adritico. Os numerosos e belos edifcios e obras de arte
executados em Ravena entre os sculos V e VIII resumem as fortes ligaes
artsticas entre os imprios romanos do Ocidente e do Oriente nos primrdios
da Idade Mdia.
 E. Hutton, Ravenna: A Study (1913); A. Torre, Ravenna: Storia di 3000
Anni (1967)

realeza Forma de monarquia muito comum no Ocidente latino medieval e
reproduzida na Palestina aps a Primeira Cruzada. Ao invs do imperialismo
romano, no comportava qualquer implicao de universalidade, e as realezas
eram muitas e variadas. Conceitos de funo rgia e de governo real (regale
ministerium, regimen) eram familiares entre as pessoas de educao latina
do perodo. A realeza era uma combinao de autoridade militar, civil e
religiosa, variando em proporo e poderio de acordo com as qualidades e a
sorte de cada rei. Usualmente qualificado como membro de uma estirpe real
(stirps regia), um rei governava sobre o povo ou povos concebidos como um
grupo em grande escala de pessoas ligadas por um parentesco ou
antepassado comum (gens); essas conotaes so claras na palavra
germnica arcaica para "rei", kuning, associada com freqncia a thiudans
(povo). Embora o domnio sobre o territrio fosse cada vez mais acentuado a
partir do sculo X, o poder do rei era exercido -- no modelo bsico de todas
as relaes polticas medievais -- como uma suserania sobre vares a ele
vinculados por lealdade pessoal. Os poderes potencialmente arbitrrios da
realeza eram restringidos, na prtica, pelo subdesenvolvimento econmico, o
qual dificultava a institucionalizao e obrigava  diviso de poder com a
aristocracia e, em teoria, pelas ideologias aristocrtica e eclesistica que
submetiam a responsabilidade real a elas.
       A realeza formou-se nos Estados sucessores do Imprio Romano no
Ocidente durante os sculos V e VI, em parte em resposta  necessidade de
imigrantes brbaros para os comandos militares e  alocao de recursos
escassos, mas, sobretudo, em conseqncia dos interesses prprios das
elites provinciais romanas, que se asseguraram do poder dotando generais
brbaros como Clvis e Teodorico de autoridade territorial, posse de terras e
rendas tributrias. Denominando-os "reis" {rex, reges), Sidnio, Cassiodoro,
Gregrio Magno e Isidoro investiram os novos governantes de uma
legitimidade baseada em idias polticas romanas e crists. Embora Deus
pudesse permitir que maus governantes punissem homens pecaminosos, a
prpria realeza e, sobretudo, a realeza crist, tinha por modelo supremo a
realeza csmica de Deus e, por conseguinte, era boa. As Escrituras ofereciam
exemplos como Davi e Salomo, e indicavam a preferncia divina pela
sucesso hereditria. A imagem do imperador romano cristo como
representante de Deus na manuteno da ordem social atravs da paz, da lei
e da justia foi transferida para o rei. Beda e os intelectuais carolngios
transmitiram essa ideologia no perodo final da Idade Mdia; ela foi
compartilhada por Hincmar de Reims, Joo de Salisbury e Toms de Aquino.
A Igreja intermediou-a, atravs da liturgia, para um pblico mais vasto; rituais
de sagrao real foram elaborados do sculo VIII em diante e, ao ungir os
reis, a Igreja promoveu a autoridade sacra da realeza e a identidade sacra do
povo cristo.
     A realeza tambm era vista como um cargo condicional, j que, embora
fosse usualmente hereditria, os reis tinham que ser escolhidos pelos vares
mais importantes do reino. Um rei tinha que subordinar suas decises de
mando  lei ou afundava na tirania; tinha que escutar o parecer daqueles
homens que eram seus leais conselheiros, insistiu Hincmar; tinha que lhes
respeitar os sentimentos de equanimidade e que legislar para o bem comum,
caso contrrio a fidelidade poderia ser-lhe retirada. O juramento de coroao
destacava os deveres do rei; em Arago de fins da Idade Mdia, a nobreza
s se propunha ser obediente ao rei se este lhe respeitasse as leis e
privilgios: "e se no, no."
       A prtica da realeza mostra igualmente continuidade durante todo o
perodo medieval. O palcio era o corao poltico do reino; era da que o rei
distribua o tesouro; que distraa seus nobres companheiros e saa com eles
em caadas que poltica e economicamente sustentavam o regime; para a
convocava as assemblias aristocrticas onde o rei ouvia opinies e obtinha
colaborao. Em tais ocasies, o papel central do rei nos rituais, fossem
torneios, adubamentos de cavaleiros ou procisses litrgicas, aumentava o
prestgio da realeza e punha em foco o grupo aristocrtico participante. Boas
comunicaes e um mecenato sagaz eram indispensveis para uma realeza
bem-sucedida. Como juiz, o rei demonstrava e reforava o seu poder: os
perdedores podiam aceitar a deciso rgia sem vergonha por causa do
prestgio mpar da realeza, ao passo que os ganhadores estavam dispostos a
pagar por decises competentes. O controle sobre as herdeiras aristocrticas
fornecia receitas, ao mesmo tempo que reforava o papel do rei como
protetor dos fracos.
      As viagens reais difundiam o poder e a aura da realeza, Iter, "percurso"
ou "viagem", tambm significava campanha militar, e a "mquina de guerra"
era o motor poltico da realeza nos primrdios da Idade Mdia; os reis
vitoriosos reabasteciam os tesouros atravs de saques e tributos, e adquiriam
territrios a fim de recompensar seguidores fiis. A realeza expansiva,
entretanto, era divisvel, dado que a partilha entre herdeiros gerava reinos
separados (como em 843, quando o imprio de Carlos Magno foi dividido
entre seus trs netos). A partir do sculo XI, com a crescente prtica da
progenitura e a cristalizao dos reinos como unidades territoriais, as partilhas
deixaram de causar a proliferao de reinos.
       Com a crescente monetarizao da sociedade e dos custos da guerra,
os reis recorreram  tributao, promovendo instituies representativas no
perodo final da Idade Mdia, como instrumentos de taxao e coleta de
impostos, e empregando tcnicas conhecidas de administrao, inclusive
ritualsticas, a fim de manter essas assemblias centradas na Coroa. O
arrendamento de impostos possibilitou novos ganhos, e a corte aumentou
suas vantagens tanto para os nobres quanto para os burgueses ambiciosos. A
realeza medieval nunca foi verdadeiramente burocratizada, embora reis
medievais viessem mais adiante a recrutar em nmero cada vez maior
letrados e servidores sados de universidades patrocinadas por eles.
       O mais constante e duradouro apoio da realeza era a Igreja. Em cada
reino, o clero era sempre proeminente no pessoal do governo e da
administrao. Contingentes recrutados entre os habitantes de terras da
Igreja eram essenciais  formao dos exrcitos reais no comeo da Idade
Mdia e, mais tarde, a Igreja contribuiu com impostos, enquanto que, em
retribuio, a realeza protegia as riquezas acumuladas pela Igreja. Poucos
eclesisticos criticavam esse relacionamento mutuamente benfico, e os reis
continuaram nomeando bispos depois da Questo das Investiduras, tal como
faziam antes. A Igreja tambm sustentava a realeza pela formao da opinio
leiga atravs de sermes e rituais.
      A realeza sobreviveu a reinados fracos. Prncipes, no ungidos,
reivindicavam origem divina de seu poder atravs do rei; a comunidade
aristocrtica do reino mantinha-se em torno da Coroa; rebeldes camponeses
atacavam conselheiros perversos em nome da realeza; o "toque real",
inventado por funcionrios palacianos (o qual se supunha curar enfermidades),
era buscado pelos humildes. No final da Idade Mdia, os Estados nascentes
da Frana, Inglaterra e Espanha extraam sua fora da preponderante
ideologia da realeza.                  JLN  F. Kern, Kingship and Law
(1939); M.L. Wilks, The Problem of Sovereignty in the Later Middle Ages
(1963); W. Ullmann, A History of Political Thought: the Middle Ages (1965); S.
Reynolds, Kingdoms and Communities in Western Europe 900-1300 (1984);
J.L. Nelson, Politics and Ritual in Early Medieval Europe (1987) [M. Bloch,
Les rois thaumaturges, Paris, Armand Colin, 1961; E. Kantorowicz, Los dos
cuerpos del rey. Un estudio de teologia poltica medieval, Madri, Alianza,
1985; W. Ullmann, Princpios de gobierno y poltica en la Edad Media, Madri,
Revista de Occidente, 1971]

Realismo Ver escolstica

Recaredo I rei dos visigodos 586-601 (c. 560-602) Principal responsvel pela
converso da dinastia visigoda do Arianismo ao Cristianismo, Recaredo
fortaleceu deliberadamente os vnculos religiosos entre rei e Igreja, ao aceitar
o costume do Antigo Testamento de ser ungido pelos bispos quando de sua
entronizao, ao cooperar com os bispos nos grandes conclios e ao trabalhar
estreitamente com o papa Gregrio I. No conseguiu obter completo xito em
face da diversidade de populaes e interesses na Pennsula Ibrica,
separatismo basco, independncia sueva, diferena hebraica e persistncia
ariana, mas fez muito para estabilizar e fortalecer o que viria a ser uma
monarquia crist ortodoxa.
 [E.A. Thompson, Los godos en Espan Madri, Alianza, 1985; P.D. King,
Derecho y sociedad en el reino visigodo, Madri, Alianza, 1981]

Reconquista Nome       dado ao processo pelo qual, a partir do sculo XI, as
comunidades crists    da Espanha reconquistaram os territrios perdidos para
os muulmanos nas      dcadas imediatamente seguintes a 711. As principais
datas decisivas so:   a recuperao de Toledo em 1085; a formao do reino
de Portugal e a conquista de Lisboa (1148); a batalha de Navas de Tolosa
(1212) e a subseqente extenso da autoridade crist a Sevilha e Crdova.
No final do sculo XIII, somente o reino de Granada ainda estava em mos
muulmanas, assim permanecendo at 1492. As fontes literrias tendem a
romancear e simplificar excessivamente a Reconquista em sua interpretao
da histria hispnica, vendo-a como uma longa Cruzada desde o reinado de
Carlos Magno at o final da Idade Mdia. A realidade, porm, era muito
diferente, e a Reconquista deve ser interpretada no contexto de uma interao
complexa de povos -- cristos, muulmanos e judeus -- que fez da Espanha
uma das mais importantes fontes de vida intelectual e cultural na Idade Mdia
central. [139 ]
 [A. MacKay, La Espaa de la Edad Media. Desde la frontera hasta el
imperio (1000-1350), Madri, Catedra, 1980; D.W. Lomax, La Reconquista,
Barcelona, Critica, 1984]

Regino (m. 915) Cronista franco de descendncia nobre, foi sucessivamente
monge e abade (eleito em 892) de Prm, Alemanha ocidental. Sua Crnica,
que vai at 906, foi escrita por volta de 908 e torna-o o historiador e moralista
das lutas internas que ocorreram no Imprio Franco aps a morte de Carlos
III (888). Sua preocupao  com o apogeu alcanado pelo Imprio
Carolngio, sua queda e decadncia. A Crnica teve continuidade (Continuatio
Reginonsis) com Adalberto, arcebispo de Magdeburgo, depois de meados do
sculo X, e descreve a recuperao do Imprio com os otonianos. Regino
faleceu em St. Maximin, perto de Trier.
 J. Fleckenstein, Early Medieval Germany (1978)

Regularis Concordia Tratado sobre costumes monsticos, possivelmente
escrito por Santo Etelvold por volta de 970, o qual pretendia estabelecer uma
forma comum de observncia para os monges ingleses. A obra est dividida
num prlogo e 12 captulos abrangendo a vida religiosa ao longo do ano. No
prlogo, o autor informa-nos que o rei Edgar convocou um Conselho em
Winchester e convidou monges dos estabelecimentos reformistas de Fleury
(cluniacenses) e Gand (lotarngios) para sugerir as Regras nas quais a obra
se basearia. Fornece detalhes ntimos da vida monstica; por exemplo,  o
nico documento do perodo que menciona a comunho diria. A importncia
do tratado  o lugar que ocupa nas reformas eclesisticas do sculo X,
realando aspectos catlicos e locais. Ao estabelecerem uma estreita aliana
com o poder real, os reformadores tentaram enfraquecer o domnio dos
interesses seculares e locais. Alm disso, fortaleceram a posio do monarca,
permitindo-lhe cumprir o papel que lhe era atribudo de vigrio de Cristo na
Terra. A adoo geral dessa Regra levou  melhoria da vida monstica na
Inglaterra.
 Regularis Concordia, org. por D.T. Symons (1958)

Reims, Conclio de (outubro de 1049) Convocado pelo papa Leo IX. Esse
pontfice recorria a numerosos conclios provinciais para assegurar o controle
e aumentar substancialmente o poder e o prestgio papais, sendo ele o
iniciador do movimento de Reforma do Papado. O Conclio de Reims (seguido
pelo de Mainz) delineou a sua Reforma do clero secular e pode ser
considerado o ponto de partida da Reforma papal. Os abusos eram coisa
comum na Frana, de modo que Leo IX utilizou a consagrao da nova igreja
abacial de Saint-Rmy para a sua visita.
      O Conclio condenou a simonia, o casamento clerical e a venda de
ordens, salvaguardou as taxas por servios prestados pelos clrigos mas
proibiu a cobrana de emolumentos para funerais, Eucaristia e servios a
doentes; e declarou que bispos e abades s seriam nomeados aps sua
eleio pelo clero e pelo povo. Era uma expresso da vida corporativa da
Igreja e enfatizava a responsabilidade individual. Henrique I da Frana,
receoso devido  origem alem de Leo IX e temeroso da autoridade papal,
procurou criar obstculos ao Conclio ao exigir de seus bispos a prestao de
servio feudal. Aqueles que obedeceram ao monarca foram excomungados
(foi o caso do arcebispo de Sens e dos bispos de Beauvais e de Amiens),
enquanto que o arcebispo de Reims e outros foram julgados por simonia; um
bispo foi deposto e o bispo de Langres fugiu.

Reinaldo de Dassel (c. 1118-67) Chanceler imperial de Frederico I Barba-
Ruiva e eminncia parda de sua poltica de supremacia imperial. Era um
competente administrador, diplomata e general, e um apaixonado defensor do
Imprio.
     Reinaldo estudou em Paris na dcada de 1140 e tornou-se preboste das
catedrais de Hildesheim (1147) e Mnster. Suas ambies polticas levaram-
no a freqentar o crculo imperial e em 1156 era nomeado chanceler. Reinaldo
foi decisivo na concepo da campanha de Frederico para reivindicar
soberania sobre toda a Cristandade e sobre Roma, em particular, provocando
um cisma papal. Reinaldo dirigiu uma vigorosa campanha de propaganda
contra o papa Adriano IV e em 1158-64 comandou tropas que invadiram a
Itlia por diversas vezes. Em 1159 foi eleito arcebispo de Colnia e, aps a
morte de Adriano IV nesse mesmo ano, patrocinou a eleio do antipapa Vitor
IV contra Alexandre III. O cisma poderia ter terminado com a morte de Vitor
IV em 1164, se Reinaldo no tivesse garantido seu prosseguimento mediante
a instalao de um novo antipapa, Pascoal III. Reinaldo negociou
cuidadosamente alianas durante o cisma, uma delas com Henrique II da
Inglaterra (desde 1165), que foi inicialmente induzido a apoiar Pascoal.
Reinaldo tambm obteve de Pascoal a canonizao de Carlos Magno como
propaganda imperial.
       Em 1167, durante uma campanha italiana de grande envergadura, uma
vitria decisiva sobre os romanos converteu-se em desastre quando o exrcito
de Frederico foi dizimado pela malria; Reinaldo foi um dos muitos que
morreram.
 P. Mnz, Frederick Barbarossa (1969)

relgios No incio da Idade Mdia, o tempo e seus intervalos eram medidos
por meio de relgios de sol, clepsidras, ampulhetas e relgios de vela, todos
j existentes no mundo antigo. Os primeiros relgios mecnicos acionados por
pesos datam do sculo XIV; alguns, como os de Milo (1335), Salisbury
(1386) e Rouen (1389), tinham uma engrenagem de carrilho, mas outros
simplesmente ativavam um sistema de despertador que alertava um zelador
que fazia ento soar um sino. Esses primeiros relgios eram muito grandes e
no tinham ponteiros nem mostradores, embora uma verso domstica menor
no tardasse em ser inventada. Os primeiros relgios portteis foram
inventados em torno de 1500 por Peter Henlein de Nuremberg, e eram
acionados por mola. Tinham um ponteiro para as horas mas nenhum para os
minutos, surgindo este ltimo pela primeira vez em 1672.
 D.S. Landes, Revolution in Time: Clocks and the Making of the Modern
World (1984)

Renart, a Raposa Figura popular numa srie de fbulas moralistas que teve
grande voga na Europa ocidental dos sculos XIII e XIV; o heri era
representado por uma astuciosa raposa, Renart ou Reinhart. Os compositores
do que  por vezes chamado o ciclo Renart inspiraram-se essencialmente em
Esopo, considerando o artifcio antropomrfico um meio muito eficiente de
comentrios satricos sobre a vida social.
 J. Flinn, Le Roman de Renart (1964) [R. Bossuat, Le roman de Renard,
Paris, Hatier, 1967]

Renascena Ver Carolngia, Renascena; Renascena italiana, nortumbriana,
do sculo XII

Renascena do sculo XII Em sabedoria e criatividade artstica, assim como
na ordem poltica e nos confortos da vida, os sculos entre a queda do
Imprio Romano do Ocidente (sculo V) e o incio da recuperao econmica
e cultural nos sculos X e XI tm sido freqentemente considerados a Idade
das `Trevas". Seja o rtulo apropriado ou no, o fato  que no se pode
duvidar do poder de renovao que se lhe seguiu: entre os sculos XI e XIII
transformou a face da Europa ocidental e, em saber e cultura, constituiu um
decisivo avano entre as pequenas revivescncias dos sculos VIII a X e a
Renascena italiana do sculo XV. A essa renovao cultural passou a estar
associada a frase "Renascena do sculo XII". Embora R.W. Southern tenha
aclamado sua "sublime futilidade", ele e muitos outros tentaram, no obstante,
definir seu contedo: ela abrangeu as artes, a arquitetura e a literatura
verncula, mas seu carter especial foi dado pela inspirao eclesistica, nas
escolas, onde eram ensinados gramtica e lgica, teologia e direito Cannico,
e em organizaes religiosas. Tais movimentos no podem ser estreitamente
confinados em limites de tempo, mas a Renascena do sculo XII deve, em
qualquer avaliao que se faa, incluir no mnimo o perodo de c. 1050-c.
1250.
       A palavra "renascena"  comumente entendida na acepo de um
renascimento deliberado da cultura antiga. Os humanistas do sculo XII
estavam, de fato, com os olhos voltados para o passado: reverenciavam
autoridades antigas; na clebre frase atribuda por Joo de Salisbury a
Bernardo de Chartres, consideravam-se anes empoleirados nos ombros de
gigantes. Ressurgiu o saber clssico e, com ele, o "humanismo" em, pelo
menos, dois sentidos do termo: devoo  literatura latina e interesse pela
individualidade e emoo humanas. Mas as atitudes para com a Roma antiga
eram ambivalentes e muitos pensadores achavam que todo o saber devia
subordinar-se ao estudo da Bblia e da teologia. Isso ajuda a explicar o ritmo
da "renascena" no norte da Europa, onde o acentuado ressurgimento do
estudo do latim e da retrica, e da criativa literatura latina em prosa e verso,
desmoronou no sculo XIII para dar lugar a um dessecado mas finamente
harmnico latim escolstico que forneceu o veculo para as impressionantes e
altamente especializadas estruturas teolgicas dos pensadores escolsticos.
     Essa especializao foi tambm um produto do crescimento das
escolas. Uma caracterstica acentuada dos sculos XI e XII era o gosto pelas
viagens, resultando em peregrinaes e Cruzadas, e o vaivm de estudantes
e estudiosos em busca de mestres distantes. Foi isso, em parte, o que
possibilitou o succs fou de um punhado de grandes mestres e centros de
saber -- e o que, por sua vez, habilitou esses centros a desenvolverem suas
proezas e reputao acadmicas, at se converterem em universidades. No
norte da Europa, Paris era o centro indiscutvel, e sua maior atrao no
comeo do sculo XII era o brilhante professor, filsofo, telogo e amante
Pedro Abelardo. O estmulo intelectual de seu ensino e o brilhantismo de sua
tcnica na aplicao da lgica (dialtica no uso medieval)  teologia,
constituram uma poderosa fora no pensamento do sculo XII. Mas Abelardo
era apenas um dos muitos professores em Paris; seu discpulo, Joo de
Salisbury, enumera mais de uma dzia de importantes mestres com quem
estudou gramtica, retrica, dialtica, outras formas de filosofia e, sobretudo,
teologia.
      Dessa poca em diante, Paris foi o mais destacado centro de estudo
teolgico na Europa e o principal centro intelectual do norte da Europa; no
decorrer do sculo XII, adquiriu uma estrutura de instituies que a
converteram numa "universidade" formal, e por volta de 1250 havia
universidades em Oxford, Cambridge e Montpellier, e vrias na Itlia. As duas
universidades inglesas eram, porm, modestas competidoras de Paris como
centros de estudo teolgico.
      Como disciplina intelectual importante, a principal alternativa para a
teologia era o direito, romano e Cannico. O sculo XII testemunhou uma
radical transformao no estudo e prtica do direito Cannico, cujo foco
central foi a produo da Concordantia Discordantium Canonum
(Concordncia de Cnones Discordantes) ou Decretum de Graciano, em
Bolonha (c. 1140). No foi por mero acaso que a obra foi escrita em Bolonha,
a cidade que por duas geraes tinha sido o centro do ressurgimento do
direito romano e o lugar onde seu estudo e sua prtica floresceram. O prprio
Graciano no foi, comprovadamente, professor nem advogado praticante e
tinha escassa simpatia pessoal pelo direito romano. Mas seu livro foi um
catalizador e, quando ele e seus discpulos o terminaram, era
simultaneamente um corpus de autoridade no tocante  lei da Igreja (Corpus
juris Canonici) e um estimulante compndio, que se tornaria o vade-mcum
dos estudos de direito Cannico dos sculos XII a XX. A tentativa de
reconciliar autoridades discordantes est na base de muito do ensino e do
saber do sculo XII, desde o bispo Ivo de Chartres, o canonista (m. 1115),
passando por Abelardo, o telogo, at Graciano, o jurista, e Pedro Lombardo,
o telogo que se tornou professor e bispo em Paris e forneceu, em suas
Sentenas (c. 1150), um compndio de autoridades teolgicas to
fundamental quanto o de Graciano para o direito. Foi sobre tais alicerces que
se construram as faculdades de estudos superiores mais caractersticas das
universidades medievais: teologia e direito. Uma destacada faceta do sculo
XII foi o ressurgimento do interesse pela cincia, muito influenciado pelos
conhecimentos islmicos e hebraicos, e disso os principais centros na Europa
crist estavam em Montpellier e Salerno.
       Nos sculos X e XI, os mosteiros estiveram no centro do saber e das
atividades artsticas na Europa ocidental.  primeira vista  um paradoxo
verificar que, no sculo XII, quando as ordens religiosas cresceram em
tamanho e variedade, esse predomnio cessou, mas em essncia  uma
ilustrao da crescente riqueza e variedade da cultura do sculo XII. Os
centros do saber passaram a situar-se em escolas no-mnsticas, como as
de Paris e Bolonha; as artes passaram cada vez mais a ser obra de
profissionais leigos -- nunca de um modo exclusivo mas certamente
predominante. Contudo, os mosteiros continuaram sendo, a par das catedrais
e de outras igrejas importantes, os principais canais do mecenato artstico.
Foi uma grande idade de construo, a qual presenciou o apogeu da
arquitetura romnica e o nascimento da arquitetura gtica. O gtico propagou-
se desde Saint-Denis (Paris), atravs do norte da Frana at a Inglaterra e a
maior parte da Europa ocidental; o sculo XII viu florescerem escolas de
escultura, sobretudo na Frana e no norte da Itlia, e escolas locais de
iluminao de livros; e as artes menores disseminaram-se por toda a
Cristandade.
      As ordens religiosas e a arte e o saber cristos impuseram seu cunho e
seu carter  "renascena" do sculo XII; entretanto, sua qualidade s pode
ser saboreada atravs da apreciao da rica literatura verncula,
especialmente francesa e alem, to caracterstica dos sculos XI a XIII. Na
origem uma literatura oral, as picas das Cruzadas dos sculos XI-XII, a
Cano de Rolando e as outras chansons de geste, fizeram do
derramamento de sangue e da guerra o tema tpico da literatura francesa e
alem at cerca de 1150; da em diante, o romance arturiano, a proeza
cavaleiresca e o amor corteso subiram ao primeiro plano, culminando no rico
e sofisticado Parzival de Wolfram von Eschenbach, pouco depois de 1200. O
Parzival  a verso de um leigo devoto da histria do Santo Graal; uma
ramificao de uma variada e extremamente frtil cultura verncula, na qual
homens de saber como Chrtien de Troyes e Gottfried von Strassburg (autor
da mais conhecida verso da lenda de Tristo) se misturam com poetas,
menestris e trovadores de um esprito menos refinado. A literatura verncula
mostra como a cultura desse perodo se propagou amplamente tanto entre as
populaes incultas quanto nas escolas, e desenvolveu temas tanto seculares
quanto espirituais. Ver Adelardo de Bath; Alain de Lille; Thierry de Chartres;
vitorinos                   CB
 C.H. Haskings, The Renaissance of the Twelfth Century (1927); R.W.
Southern, Medieval Humanism and other Studies (1970); CR. Dodwell,
Painting in Europe 800-1200(1971); C. Morris, The Discovery of the
Individual (1972); The Flowering of the Middle Ages, org. por J. Evans (1966)
[C. Brooke, O Renascimento do Sculo XII, Lisboa, Verbo, 1972]

Renascena italiana O termo "Renascena", usado para descrever o perodo
de cerca de 1330-1530, foi empregado primeiramente por escritores italianos
dos sculos XIV e XV que se aperceberam da ocorrncia de uma mudana
fundamental nesse perodo. Os humanistas, a elite intelectual do perodo,
acreditavam que os estudos clssicos, perdidos numa era de trevas aps a
queda do Imprio Romano, aguardavam ento um renascimento atravs
deles. Esses homens fomentaram uma preocupao crescente com a vida
cvica, em parte como resultado de uma nova viso do homem como um ser
compreensvel colocado a meio caminho entre Deus e as ordens inferiores da
natureza. Na opinio deles, os estudos clssicos forneceram inmeros
exemplos e mtodos que podiam ser de comprovada utilidade para as
necessidades da sociedade em que viviam; todas as reas da vida, sem
exceo, da arte  poltica, acabaram sentindo o impacto desses estudos.
 P. Burke, Tradition and Innovation in Renaissance Italy (1972) [Dicionrio
do Renascimento Italiano, org. por J.R. Hale, Rio, Jorge Zahar, 1988; J.
Delumeau, A civilizao do Renascimento, 2 vols., Lisboa, Estampa, 1984]

Renascena nortumbriana Durante a segunda metade do sculo VII e a
primeira metade do sculo VIII, a Nortmbria anglo-saxnica (a rea ao norte
do Humber) produziu uma cultura extraordinariamente rica, denominada
Renascena nortumbriana. Foi uma renascena no sentido amplo de um
renascer da erudio e da arte, com especial referncia ao passado clssico,
mas foi muito alm disso, fundindo elementos recm-descobertos da
Antigidade tardia, da cultura crist/bizantina e continental primitiva, com as
mais familiares tradies clticas e germnicas, para fundar uma cultura
britnica que ganhou o ttulo de "insular", como um dos poucos movimentos
dessa natureza a ter evoludo totalmente no interior das Ilhas Britnicas.
      Esse vigoroso e estimulante ambiente literrio, artstico e religioso foi um
produto da posio geogrfica e do desenvolvimento poltico da Nortmbria.
No sculo VII, a Nortmbria pag estava entre dois poderosos centros do
Cristianismo. A noroeste situava-se a Dalriada irlandesa e o mosteiro de Iona,
fundado por Columba por volta de 563. (A Irlanda tinha desenvolvido sua
prpria cultura crist em comparativo isolamento do resto da Europa.) Ao sul
estava o campo de converso da misso romana, chefiada por Agostinho em
Canterbury e instigada pelo papa Gregrio Magno (597). A converso inicial
da Nortmbria  atribuda ao romano Paulinus, que em 625 acompanhou a
princesa crist Etelberga de Kent  Nortmbria, onde casou com o rei pago
Eduno (616-32). Este foi batizado (627), mas aps sua morte no campo de
batalha, seus sucessores Osvaldo (633-41) e Osvy (632-71), que tinham
estado exilados em Iona durante o reinado de Eduno, introduziram monges
celtas liderados pelo abade Aidan de Iona (634), que instalaram um mosteiro
em Lindisfarne.
     O monasticismo e a pregao ascticos irlandeses eram ideais nessa
fase, mas a unidade eclesistica e uma estrutura diocesana formal eram
necessrias para assegurar solidez e eficcia, de modo que em 664, no
Snodo de Whitby, Osvy decidiu em favor da observncia romana em seu
reino. Aqueles que no aquiesceram deixaram a Nortmbria, mas foram
muitos os que permaneceram; e desses partiu a tentativa de fundir as duas
tradies e que seria predominantemente responsvel pela Renascena
nortumbriana.
       Houve muitas figuras eminentes nesse movimento. Hilda (614-80),
abadessa de Whitby, a quem se atribui a descoberta do poeta nortumbriano
Caedmon, aderiu depois de 664 e teve como suas sucessoras a esposa e a
filha de Osvy, Eanfled e Elfled. Cuteberto (434-87), de quem sobrevivem trs
Vidas Nortumbrianas, foi o bispo de Lindisfarne que, embora de formao
cltica, ajudou a reconciliar com Roma os irmos renitentes. Wilfrid (634-709),
celebrado por Eddius Stephanus numa Life of Wilfrid (c. 709), era um
romanfilo de formao cltica que em 653 acompanhou Biscop a Roma.
Wilfrid era abade de Rippom, bispo de York, fundador de Hexham e o
principal clrigo nrdico (669-78), embora deposto pior duas vezes em
conseqncia de divergncias com Osvy e seu sucessor Egfrith (671-85). Foi
responsvel por grande parte da atividade de construo e da atividade
artstica associadas s suas igrejas e pela introduo de novos estilos e
tcnicas. Teve como seu aliado nessa tarefa Benedito Biscop (c. 627-89), um
nobre nortumbriano educado em Lrins e abade de So Pedro, em
Canterbury, que realizou cinco viagens a Roma, trazendo na volta numerosos
manuscritos, pinturas e outros objetos para as suas fundaes nortumbrianas
gmeas de Wearmouth (673-74) e Jarrow (c. 681). Biscop gozou do
patrocnio do sbio rei nortumbriano Aldfrith (685-705). Ceolfrith (c. 642-716)
juntou-se a Biscop na administrao de Jarrow e acompanhou-o a Roma.
Aps a morte de Biscop, coube-lhe governar Wearmouth e Jarrow.
      O esplndido Scriptorium produziu, entre outras coisas, trs Bblias para
Ceolfrith (c. 700), uma das quais ele ofertou a So Pedro em sua viagem a
Roma, onde pretendia morrer (716). Esse manuscrito, o Codex Amiatinus,
representa o mais completamente classicizante dos manuscritos nortum-
brianos, com sua escrita uncial e pintura impressionstica. Ao tempo de
Ceolfrith, o monge Beda (c. 672-735) foi o mais notvel dos eruditos nortum-
brianos. Suas obras, produzidas durante sua estada em Jarrow, incluem mais
de 40 comentrios bblicos, duas Vidas de So Cuteberto, uma histria dos
abades de Wearmouth e Jarrow, obras cientficas sobre o tempo, The Nature
of Things, Six Ages of the World, tratados gramaticais e a magistral
Ecclesiastical History of:England (concluda c. 731), que representa a primeira
tentativa medieval bem-sucedida de narrativa histrica contnua e de
correlao entre os vrios acontecimentos.
      Talvez o mais impressionante exemplo visual da cultura nortumbriana
sejam os Lindisfarne Gospels, provavelmente produzidos em Lindisfarne (c.
698) para o traslado das relquias de So Cuteberto. Essa notvel obra
incorpora espirais clticas, entrelaamentos germnicos e decorao
zoomrfica, e elementos de provvel derivao crist primitiva, como retratos
dos evangelistas, os quais, entretanto, so submetidos a um tratamento linear,
caligrfico, que difere da tcnica pictrica clssica do Codex Amiatinus.
      Monumentos de outros tipos incluem as cruzes esculpidas humansticas
em Hexham, Bewcastle e Ruthwell, o esquife em madeira talhada e a cruz
peitoral com jias de So Cuteberto, a taa de Ormside com suas formas
clssicas de plantas, e o escrnio franco em barba de baleia com cenas
inspiradas      pelas    tradies     populares    crists,   romanas    e
germnicas.                                                        MB
 P. Hunter Blair, The World of Bede (1970); H. Mayr-Harting, The Corning of
Christianity to England (1972); D. Wilson, Anglo-Saxon Art (1984)

renovatio monetae (mutatio monetae) Costume de mudar o tipo de penny
em circulao e de o substituir por um outro, freqentemente em intervalos de
trs anos. Essa renovao da moeda era largamente praticada na Alemanha
setentrional, onde era explorada para fins de tributao, e na Inglaterra entre
o final do sculo X e meados do sculo XII.

Ricardo Corao de Leo rei da Inglaterra 1189-99 (n. 1157) Terceiro filho
de Henrique II, recebeu o ducado da Aquitnia aos 11 anos de idade. Tal
como seus irmos, no tinha a menor lealdade filial e aliou-se ao rei francs
contra seu pai em 1173-74 e 1188-89. Numa srie de acirradas campanhas,
estabeleceu sua autoridade sobre os refratados bares do Poitou.
       Com a morte de seu pai (1189), herdou todas as terras de Henrique e
comeou a se preparar para uma Cruzada. Partiu em 1190, capturando
Messina e Chipre, antes de juntar-se aos demais cruzados em Acre (1191). A
cidade caiu em menos de um ms, e mais tarde, ainda nesse ano, a brilhante
vitria de Ricardo em Arsuf resultou na conquista crist de Joppa. Os cristos
estavam divididos e negociaram uma trgua honrosa com Saladino (1192), a
qual permitiu aos cristos terem acesso aos lugares santos e continuarem na
posse de Acre.
       Em sua viagem de regresso, Ricardo foi capturado por seguidores do
imperador Henrique VI e s seria libertado aps o pagamento de um resgate
de 100.000 marcos. A Inglaterra foi surpreendentemente bem governada
durante a ausncia do monarca na Cruzada e no cativeiro. A reputao de
Ricardo como rei foi elevada entre seus contemporneos, e est hoje sendo
de novo favoravelmente julgada aps um perodo em que foi moda critic-lo
como negligente. Passou a maior parte de seus ltimos anos em suas
possesses francesas, construindo a grande fortaleza de Chteau-Gaillard, s
margens do Sena, e foi morto no cerco de Chaluz, em 1199.
 J. Gillingham, The Life and Times of Richard I (1978)

Richard de Clare (m. 1176) Conhecido como "Strongbow" [arco ou arqueiro
poderoso NT], Richard FitzGilbert de Clare foi uma destacada figura na
invaso anglo-normanda da Irlanda. Era um baro da fronteira galesa, conde
de Striguil e conde de Pembroke desde 1148 (at o ttulo ser revogado por
Henrique II como criao do seu antecessor, Estvo). Em 1167, Strongbow
concordou em reempossar Dermot MacMurrough, rei de Leinster (expulso
pelo rei supremo Rory O'Conor), em troca da mo de Eva, filha de Dermot, e
da sucesso de Leinster. Strongbow comandou uma fora macia que invadiu
a Irlanda em 1170, apesar da desaprovao de Henrique II. Tomou Waterford
e Dublin, mas Henrique ordenou-lhe que regressasse. Strongbow acalmou os
temores do monarca a respeito de sditos excessivamente poderosos,
oferecendo-se para manter suas terras irlandesas vassalas da Coroa inglesa.
Henrique recusou mas, nesse meio tempo, Dermot morreu (1171); a sucesso
de Strongbow foi repudiada em Leinster e ele organizou uma campanha para
subjugar a resistncia.
     Henrique II preparou-se para visitar a Irlanda. Strongbow procurou-o e
garantiu-lhe a vassalagem de Dublin e seu hinterland, Waterford, Wexford e
os Wicklows. Henrique desembarcou [1171) e sua suserania foi efetivamente
reconhecida. A Strongbow e Hugh de Lacy foram concedidos poderes de
feudo em Meath e Leinster e, embora temporariamente suspenso por causa
de sua conduta ilegal, Strongbow no demorou em voltar como vice-rei (1173-
76). Um acordo anglo-normando foi realizado e ratificado pelo Tratado de
Windsor (1175), por cujos termos Rory O'Conor tornou-se vassalo de
Henrique II, permanecendo irlandeses trs quintos de suas terras, com
Leinster e Meath tornando-se anglo-normandas. Com a morte de Strdngbow,
seus filhos Gilbert e Isabella (que casou com Guilherme Marshal) eram
menores, e o condado,de Leinster passou temporariamente para a Coroa.
 R.H.M. Dolley, Anglo-Normand Ireland (1972)

Rienzo, Cola di (c. 1313-54) Notrio romano de origem humilde, Rienzo
liderou em 1347 o Partido Popular contra a aristocracia romana e o Papado
ausente, ento sediado em Avignon. Foi coroado como tribuno e, sonhando
restaurar a antiga repblica romana, declarou que todo o cidado italiano teria
cidadania romana. Planejou unir a Itlia numa federao sob a obedincia a
um imperador eleito em Roma. Em dezembro de 1347, Rienzo foi derrubado e
fugiu de Roma. Foi excomungado e passou vrios anos preso antes de ser
absolvido em 1352. Foi morto pela populaa em outubro de 1354, apenas
alguns meses depois de ter readquirido o controle de Roma.
 I. Origo, Tribune of Rome (1938); Life of Cola di Rienzo, trad. J. Wright
(1975)

Robert le Bougre (m. antes de 1263) Robert le Petit adquiriu o nome de "le
Bougre" (o blgaro), por ter sido um ctaro. Converteu-se em 1232, tornando-
se dominicano. Matthew Paris (Chronica Majora) descreve-o como pregador
bem educado e eloqente. Seu ntimo conhecimento do catarismo tornou-o
valioso em sua averiguao, motivo pelo qual foi recrutado pelo fundador da
Inquisio medieval, o papa Gregrio IX, passando a ser seu principal
representante na Frana setentrional (onde a heresia era persistente, embora
no to generalizada quanto no sul).
      Em 1233, Gregrio IX deu poderes aos dominicanos de Besanon,
liderados por Robert, para procederem a uma investigao em Charit-sur-
Loire. O descomedido zelo do ex-ctaro provocou indignao geral e sua
licena foi cancelada em 1234. No obstante, em 1235, Robert le Bougre 
nomeado inquisidor-geral da Frana. Esteve particularmente ativo no nordeste
e, em 1239, conseguiu a execuo em massa de 183 ctaros em Mont-Aim
(Champagne). Finalmente, seu fanatismo e falsas convices levaram  sua
queda (c. 1245) e priso perptua. Parece ter comprado uma dispensa papal,
deixando os dominicanos e ingressando em vrias outras Ordens antes de
morrer. a C.H. Haskins, Studies in Medieval Culture (1929); B. Hamilton, The
Medieval Inquisition (1981)

Roberto I Bruce rei da Esccia 1303-29 (n. 1274) Membro da famlia anglo-
normanda Bruce, que estava entre os pretendentes ao trono escocs aps a
morte de Alexandre III (1286). Eduardo I interveio, anexando a Esccia (12%)
e iniciando as guerras anglo-escocesas de independncia. Em 1304, Roberto
Bruce tornou-se o sexto lorde de Annandale e o cabea da famlia. Apoiou
inicialmente Eduardo I em vez de seus prprios pretendentes rivais (Balliol e
os Comyns) mas, esporadicamente, apoiou os escoceses rebeldes liderados
por Wallace. Em 1306, matou John Comyn e deflagrou decisivamente a
revolta, sendo coroado rei em Scone. Foi mobilizada uma fora inglesa/Comyn
macia. Roberto foi derrotado em Mathven e Dalry (1306) e retirou-se para os
Highlands ocidentais, reaparecendo em 1307 para desencadear uma
campanha de guerrilhas, quando derrotou os ingleses em Glen Trool e Loudon
Hill. A morte de Eduardo (1307) melhorou a posio de Roberto Bruce e, a
partir de 1309, governou efetivamente a maior parte da Esccia. As vitrias
obtidas em Bannockburn (1314) e Berwick (1318) estenderam finalmente seu
domnio a toda a Esccia.
       As hostilidades, incluindo incurses escocesas na Inglaterra,
presseguiram at o Tratado de Northampton (ou Edimburgo) em 1328, o qual
ratificou a liberdade da Esccia e a sucesso de Bruce, selada pelo
casamento de Joan, irm de Eduardo III, com David, filho e sucessor de
Roberto Bruce. Ver John Balliol
 G.W.S. Barrow, Robert Bruce (1965)

Roberto de Arbrissel, So (m. 1117) Fundador da Ordem de Fontevrault,
uma ordem dupla para monges e freiras, Roberto tinha deixado a casa do
bispo Marbod de Rennes para tornar-se um pregador itinerante. Em 1096, foi
licenciado pelo papa Urbano II para pregar a Primeira Cruzada no vale do
Loire. Tambm procurou levar uma vida de pobreza, imitando Cristo, e atraiu
numerosos seguidores, sobretudo mulheres. No final de 1100, Roberto foi
convocado para comparecer ao Snodo de Poitiers, no qual concordou
provavelmente em dividir seus adeptos em conventos separados, assim
fundando Fontevrault, que rapidamente se tornou um dos mais clebres e
aristocrticos mosteiros do norte da Frana.

Roberto da Sorbon (1201-74) Fundador de Sorbonne. De origem humilde,
nasceu em Sorbon (Ardenas) e estudou na Universidade de Paris, nas
faculdades de artes e teologia, onde veio a ser professor. Escreveu
numerosos sermes e por volta de 1250 tornou-se cnego em Cambrai.
Escreveu subseqentemente os tratados De Conscientia e De Confessione, e
em 1256 tornara-se o Confessor de Lus IX. A preocupao com as
condies estudantis incentivou-o a fundar o mais famoso colgio parisiense, a
Sorbonne (sua fundao oficial data provavelmente de 1257), para estudantes
de teologia. O papel do colgio no ataque da universidade s Ordens
Mendicantes e na defesa do galicanismo teve muito pouco a ver com Roberto.
Este assegurou para Sorbonne numerosos benfeitores, incluindo o rei e
Grard d'Abeville (que doou sua biblioteca em 1272), e continuou como
professor, mecenas, sacerdote, pregador e homem da Corte at sua morte.
 P. Glorieux, Aux Origines de la Sorbonne, vol. I (1966); R.H. Rouse, `The
Early Library of the Sorbonne", Scriptorium, 21 (1967)

Roberto Guiscard (m. 1085) Famoso por sua argcia, tanto quanto por sua
bravura (seu apelido  cognato do ingls "wizard" = mago), no decorrer de
uma longa e movimentada carreira, Roberto estabeleceu a famlia normanda
de Hauteville como uma dinastia de importncia europia. Juntou-se a seus
irmos e outros aventureiros normandos no sul da Itlia na dcada de 1140,
desbaratou o exrcito papal de Leo IX na pica batalha de Civitate (1153),
mas surgiu no final da dcada como defensor dos interesses papais no sul e
como uma barreira aos objetivos alemes. Pelo Tratado de Melfi (1059), o
papa reconheceu-o como duque feudal da Aplia e senhor potencial da Siclia,
ainda nessa altura em mos muulmanas. Seu igualmente fascinante irmo
caula, Rogrio I, assumiu a liderana, com o apoio de Roberto, na conquista
da Siclia, que s se completaria em 1092. Roberto concentrou-se
pessoalmente na poltica do continente.
      Suas relaes com o Papado foram freqentemente tempestuosas, mas
quando ocorreu a crise poltica final do pontificado de Hildebrando, Roberto
interveio a favor dele contra o imperador Henrique IV, uma interveno que
resultou num selvtico ataque a Roma por tropas normandas em 1084, e na
retirada forada do papa para Salerno (onde faleceu em 1085) sob proteo
normanda. Roberto tambm esteve ativo na poltica do Mediterrneo oriental,
derrotando planos imperiais tanto orientais como ocidentais. Ele definiu a
situao no sul da Itlia, removendo os ltimos baluartes bizantinos em Bari
(1071) e lanando as bases para o forte principado feudal da Aplia e Siclia,
que iria florescer como reino em 1130.
 J.J. Norwich, The Normans in the South (1967)

Roberto, So (1027-1111) Abade de Molesme. Durante os 20 anos em que
Roberto foi abade de Molesme, na Borgonha, o mosteiro granjeou uma
elevada reputao por sua santidade, e atraiu considerveis doaes. Esse
xito acarretou o descontentamento de uma parcela da comunidade que
desejava o retorno a uma vida mais simples, mais de acordo com a Regra
beneditina. Em 1098, Roberto deixou Molesme para instalar esses monges,
em circunstncias de extremas privaes, num novo mosteiro. Primeiro abade
do novum monasterium, que mais tarde se tornou Cteaux (Cister), Roberto
foi obrigado a regressar a Molesme, deixando sua nova casa lutando pela
sobrevivncia. No obstante, ele  corretamente considerado o fundador do
movimento Cisterciense.
 D. Knowles, Cistercians and Cluniacs (1955); G. Constable, Religious Life
and Thought (1979)

Robin Hood Embora tivesse provavelmente alguma base histrica, no foi o
personagem da imaginao popular; quer dizer, algum que roubava os ricos
para dar aos pobres. A primeira referncia a "rymes of Robyn Hood" aparece
e m Piers Plowman (c. 1377). As lendas medievais sobreviventes consistem
em baladas como Robin Hood and the Monk (c. 1450), o poema do final do
sculo XV, A Gest of Robyn Hode (provavelmente de uma fonte mais antiga),
e Robin Hood and the Potter (c. 1503); fragmentos de uma pea teatral
tambm sobreviveram num manuscrito de cerca de 1475. Nessas narrativas,
Robin  um pequeno proprietrio rural que leva uma existncia de fora-da-lei,
mostra grande mestria nas armas e  um talento nato para os estratagemas e
os disfarces. No  um rebelde social, reverencia o rei em todos os aspectos,
salvo na propriedade exclusiva da caa; e suas aes contra a autoridade
visam mais o castigo de abusos do que sua estrutura fundamental. Revela
escassa afinidade com os camponeses e nenhum intuito definido de
redistribuio da riqueza.  devoto da Virgem mas no confia nos clrigos.
Pode ser de uma violncia extraordinria mas sempre o  heroicamente.
     A mais provvel figura histrica seria Robert Hode, rendeiro do
arcebispo de York, que fugiu da justia em 1225. Durante o sculo XIII,
apareceu uma famlia Hood nos arredores de Wakefield; as lendas eram
freqentemente localizadas em Barnsdale, perto de Wakefield. Por volta de
1296, sobrenomes Robynhood apareceram no Sussex e em Londres,
provavelmente por causa de conexes com Barnsdale suscitadas pelo
casamento Lancaster-Lacy (c. 1294). Posteriormente muitos fora-de-lei
assumiram o nome de "Robin Hood", possivelmente justificando associaes
com florestas, como Sherwood.
     Em fins do sculo XV, Robin era conhecido na Esccia: ele e seus
homens apresentavam-se nos jogos e representaes das festividades de
maio. Uma pea francesa do sculo XIII, Robin et Marion, acerca de
personagens totalmente separadas, parece ter levado  identificao de
Robin com o rei de Maio, tendo Marion como sua rainha. Frei Tuck pode ter-
se baseado em Robert Stafford, "Frere Tuk", um clrigo fora-da-lei no Sussex,
por volta de 1417-29. A lenda parece ter sido inspirada, e mais tarde
confundida com romances da vida real (Hereward the Wake, Eustace the
Monk, Fulk Fitzwarin) e outras histrias (Adam Bell, Gamelyn). E isso
juntamente com associaes do povo de Robin com proprietrios rurais e
depois com nobres ou com camponeses, provavelmente levou aos posteriores
acrscimos  lenda, e tambm contribuiu para a sua durabilidade. Ver
floresta, lei da           MB
 J.C. Holt, Robin Hood (1982); J. Bellamy, Robin Hood: an historical enquiry
(1985)

Rodes Principal ilha do Dodecaneso, com o porto de Rodes localizado em sua
extremidade nordeste. Seus habitantes gregos possuam uma grande herana
clssica e continuavam sditos de Bizncio. No incio do sculo XIV,
desenvolveram-se planos para converter a Ordem dos Cavaleiros
Hospitalrios numa potncia martima, a fim de garantir sua independncia.
Rodes e suas dependncias tornaram-se o alvo. Em 1306, Rodes tinha um
governador bizantino mas era, de fato, um Estado pirata e vulnervel a
ataques. As foras da Ordem desembarcaram em 1307 e a posse foi
confirmada pelo papa Clemente V, mas a ilha s foi realmente dominada em
1309, diante da resistncia oposta aos ocupantes pelos rdios e seus aliados
muulmanos. A Ordem obteve diversas posies seguras nas ilhas
circundantes e no continente, e durante dois sculos permaneceu numa das
principais rotas martimas do Mediterrneo oriental. Estabeleceu uma
repblica feudal e religiosa independente, com sua prpria administrao e
legislao. Seus sditos incluam europeus laicos, alm dos rdios que,
paradoxalmente, formavam uma comunidade ortodoxa grega sob domnio
romano, embora sem cisma evidente.
      Essa potncia representava uma ameaa ao Isl e a partir de 1400 os
ataques passaram a ser dirigidos contra ela. Em 1453, Constantinopla caiu e
o sulto turco, Mehmed, o Conquistador, exigiu tributo  Ordem. Apesar de
sua recusa, nenhum ataque islmico de envergadura foi desencadeado at
1479. Ao tempo do gro-mestre Pierre d'Aubusson, Rodes sustentou um
severo cerco e obteve uma vitria (1480) que foi comemorada em toda a
Cristandade. Seguiu-se um perodo de disteno, durante o qual a Ordem
protegeu o pretendente turco, Djem. Em 1500, as incurses turcas na Itlia
provocaram uma Cruzada que coube  Ordem implementar. Seguiram-se
conflitos espordicos at que Solimo II, o Magnfico, decidiu remover esse
espinho cravado em seu flanco e enviou uma esquadra para conquistar Rodes
(1522). Apesar de sofisticadas fortificaes e da herica defesa sob o
comando do gro-mestre Philippe de Villiers de l'Isle-Adam, a cidade de
Rodes foi forada a uma rendio honrosa. Permitiu-se que a Ordem deixasse
a ilha (1523) e fosse instalar-se finalmente em Malta. Muitos sditos tambm
deixaram Rodes e providenciou-se a entrada de colonos. Os otomanos
concederam uma certa tolerncia religiosa aos sditos gregos
remanescentes.                                   MB
 E. Brockman, The Two Sieges of Rhodes 1480-1522 (1969)

Rodolfo I de Habsburgo sacro imperador romano 1273-91 (n. 1218)
Lembrado principalmente como o fundador da grandeza dos Habsburgos,
Rodolfo sucedeu a seu pai, Alberto IV, conde de Habsburgo, como
paterfamilias em 1239 e, gradualmente, adquiriu supremacia entre os
prncipes alemes, o que culminou em sua eleio como rei dos alemes. Seu
reinado ps fim ao Interregno e ajudou a restaurar a paz na Europa. Na Dieta
de Nuremberg (1274), Rodolfo iniciou uma poltica "reivindicatria", pela qual
todas as propriedades e direitos controlados pelo Imprio ao tempo de
Frederico II tinham que ser recuperados. Isso resultou em conflito com
Ottokar II da Bomia, que foi morto na batalha de Marchfeld (1278). Rodolfo I
investiu seus filhos, Alberto e Rodolfo, com os ducados da ustria e da Estria
(1282), arrebatados a Ottokar, estabelecendo assim uma herana Habsburgo
na Alemanha meridional.
       Como rei dos romanos, Rodolfo foi apoiado pelo papa Gregrio X, que
planejou uma Cruzada aproveitando o fato do Imprio ter sido restaurado.
Contudo, em virtude da instvel poltica italiana, Rodolfo no foi coroado
imperador e defrontou-se com uma crescente expanso francesa. Em 1291,
ele tinha fortalecido o Imprio o mximo possvel e, embora Adolfo de Nassau
fosse eleito seu sucessor, o filho de Rodolfo, Alberto I, recuperou o trono em
1298.
 E. Kleinschmidt, Herrscherdarstellung (1974); J. Leuschner, Germany in the
late Middle Ages (1980)

Rodolfo de Rheinfelden (m. 1080) Nomeado para o ducado da Subia
durante a menoridade de Henrique IV, Rodolfo -- inicialmente um firme
partidrio do jovem rei em suas campanhas saxnicas -- tornou-se uma das
principais figuras entre os magnatas que, em 1076, ameaaram retirar seus
preitos de vassalagem se o rei no fosse absolvido de sua excomunho pelo
papa Gregrio VII. Apesar de Henrique ter obtido a absolvio em Canossa
(janeiro de 1077), Rodolfo  que foi eleito rei em Forchheim, em maro de
1077, embora s no Snodo da Quaresma de 1080 o papa viesse finalmente a
reconhecer a eleio, profetizando em pblico que Henrique estaria morto ou
deposto em fins de junho. De fato, por uma das ironias da histria, foi Rodolfo
quem foi morto em outubro desse ano.
 G. Barraclough, Medieval Germany (1938)

Rodrigo (ou Roderico) rei dos visigodos 710-11 Figura maior na lenda do
que na histria, Rodrigo, duque da Andaluzia, foi eleito rei em 710 mas foi
esmagadoramente derrotado pelos muulmanos comandados por Tariq
(Gibraltar = Geb-el-Tariq, ou rochedo de Tarique) em 19 de julho de 711.
Esse acontecimento assinalou o comeo de uma conquista relativamente
rpida e coroada de xito, quando a Pennsula Ibrica ficou, em sua maior
parte, em poder dos muulmanos.
 [R. Collins, Espaa en la Alta Edad Media, Barcelona, Critica, 1986]

Roger de Salisbury (m. 1139) Anteriormente escriturrio em Avranches,
Roger foi o mais brilhante administrador de Henrique I. Depois de exercer o
cargo de chanceler por cerca de um ano, demitiu-se em 1102 ao ser nomeado
bispo de Salisbury. Introduziu novos refinamentos nas finanas do rei e
Credita-se-lhe a organizao do Tesouro (Exchequer). Proteo e vnculos de
famlia fortaleceram seu controle da administrao, com seu filho, Roger le
Poer, como chanceler e seu sobrinho Nigel, bispo de Eli, como tesoureiro. O
nico ttulo oficial registrado de Roger  regni Angliae procurator, visto que
governou o pas na ausncia do rei. Sua queda ocorreu em 1139, quando foi
atacado e desonrado por motivos de insdia e traio, e com sua morte nesse
mesmo ano, sua imensa fortuna foi confiscada pelo rei Estvo.
 E.J. Kealey, Roger of Salisbury (1972); ]. Green, The Government of
England under Henry I (1986)

Rogrio I (m. 1101) Gr-conde da Siclia e Calbria em 1072-1101. Filho
mais moo de Tancredo de Hauteville, Rogrio foi juntar-se a seu irmo
Roberto Guiscard no sul da Itlia em 1057. Bravo guerreiro, ajudou muito na
conquista da Calbria por Guiscard e pde capturar Reggio em 1060. Com a
conquista dessa regio virtualmente concluda, os irmos voltaram suas
atenes para a Siclia. A discrdia entre os vrios chefes muulmanos
propiciou-lhes a oportunidade perfeita para capturar a ilha, embora fossem
precisos quase 20 anos para completar a operao.
     Rogrio rebelou-se abertamente contra o irmo em muitas ocasies: em
1062, forou-o a concordar com um governo conjunto na Calbria, e em 1072
foi-lhe concedido o ttulo de conde da Siclia e Calbria, embora Guiscard
reservasse para si o controle de Palermo, metade de Messina e metade de
Val Demone. Rogrio tomou Noto, o ltimo baluarte importante dos
muulmanos, em 1091.
       Depois da morte de Roberto Guiscard em 1085, suas terras na Siclia
foram concedidas a Rogrio que, na oportunidade, adotou o ttulo de gro-
conde da Siclia e Calbria. Deu liberdade religiosa aos cristos gregos,
judeus e muulmanos; e, desejando preservar a mquina administrativa,
continuou empregando servidores pblicos e contadores muulmanos. Em
1099, o papa Urbano II concedeu-lhe o ttulo e as funes de legado
apostlico para a Siclia.  J.J. Norwich, The Normans in the South (1967);
D.M. Smith, Medieval Sicily (1968)

Rogrio II rei da Siclia 1130-54 (n. 1095) Filho do conde Rogrio I e de
Adelaide, obstinou-se durante a maior parte do seu reinado em estabelecer
um poderoso imprio mediterrneo tendo a Siclia como centro. Esteve
ocupado por alguns anos com os territrios normandos do continente. O papa
Honrio II temendo sua crescente fora, organizou uma liga de cidades e
bares em rebelio contra ele. Rogrio, entretanto, derrotou as foras do
papa e foi investido como duque de Salerno em 1128.
     A morte de Honrio II em 1130 foi seguida de um cisma no Papado:
Rogrio apoiou o antipapa Anacleto II contra Inocncio II, sendo coroado rei
da Siclia, Aplia e Calbria em Palermo, em 1130. Mas a morte de Anacleto
em 1138 deu a Inocncio II maior poder, e uma aliana foi formada entre o
papa e o imperador Lotrio II. Uma vez mais, Rogrio conseguiu esmagar a
oposio e Inocncio acabou reconhecendo-o como rei em 1139. Tratou ento
de subjugar Npoles e Cpua. No satisfeito com o domnio desses territrios,
Rogrio comeou organizando ataques e incurses contra Bizncio, e fundou
um efmero imprio na Tunsia.
     Sua contribuio para a construo do Estado siciliano foi enorme. Em
1140, introduziu um novo cdigo de lei, centralizou as finanas e instalou
agentes do governo em todos os distritos do continente. Sua corte era clebre
pela integrao racial e cultural. Governante excepcional sob muitos aspectos,
Rogrio tambm granjeou renome por seu mecenato das artes, cincia e
filosofia.
 E. Curtis, Roger of Sicily (1912); H. Wieruszowski, "Roger of Sicily, Rex
Tyrannus", Twelfth-Century Political Thought, Speculum, 38 (1963); J.J.
Norwick, The Kingdom of the Sun (1970)

Rogrio Loria (c. 1250-c 1305) Natural de Loria, sul da Itlia. Sua me criou
Constana, rainha de Arago, e isso f-lo entrar no servio aragons. Pedro
III nomeou-o almirante-mor em 1283. Sua carreira centrou-se no conflito
siciliano que se seguiu s Vsperas (1282), no qual ele veio a ser uma figura-
chave. Suas realizaes incluem a derrota infligida aos angevinos (Malta,
1283), a captura do futuro Carlos II (Npoles, 1284), o ataque a Jerba (1284)
e o aniquilamento da esquadra francesa (Las Formigas, 1285). Continuou
servindo a Jaime, filho de Pedro III, a quem acompanhou a Roma para efetuar
um acordo (1297) e recebeu nessa oportunidade o ttulo de conde de Jerba,
concedido pelo papa. Ops-se posteriormente aos rebeldes sicilianos (Cabo
Orlando, 1299; Ponza, 1300). O Tratado de Caltabellotta (1302) ps termo 
sua carreira e Loria morreu aposentado.
 [S. Runciman, Vsperas Sicilianas, Madri, Alianza, 1979]

Rolando Marqus da Bretanha. Em 778, Carlos Magno, que tinha estado em
campanha contra os sarracenos na Espanha, foi forado por persistentes
incurses saxnicas a regressar  Alemanha. Deixou uma retaguarda sob o
comando de Rolando, que foi atacado e morto por bascos, um incidente que
proporcionou o fundamento para as lendas que se desenvolveram no norte da
Espanha e no sul da Frana. Parte dessa tradio foi condensada no poema
pico Cano de Rolando (La Chanson de Roland), que reflete os valores
feudais do perodo, concentrando-se nas relaes entre o senhor e o vassalo,
em suas exigncias e recompensas.

Rolle, Richard (1295-1349) Humanista e telogo em Oxford, retirou-se como
eremita para Hampole, perto de Doncaster, onde escreveu obras msticas de
grande vigor em latim e ingls; tambm traduziu os Salmos para o vernculo.
Sua obra  considerada importante pelo contedo e pela forma: o contedo
ilustra uma forte reao no mundo intelectual contra a escolstica da poca; a
forma, prosa e verso em bom vernculo, prenuncia o triunfo do ingls e seu
uso por Wycliffe e seus seguidores no final do sculo.
 D. Knowles, The English Mystical Tradition (1961)

Rollon (m.c. 930) Duque da Normandia. De acordo com as sagas islandesas,
o viking Rof Gangr, cujo nome foi mais tarde afrancesado para Rollon, era de
nobre ancestralidade norueguesa. Aps anos de sucessivas incurses na
Frana, seu exrcito foi derrotado nos arredores de Chartres em 911. Graas
a um acordo firmado em Saint-Clair-sur-Epte, Rollon prestou vassalagem a
Carlos III, o Simples, rei dos francos ocidentais, e foi batizado em 912. Em
contrapartida, foram cedidas a Rollon terras de importncia estratgica em
ambas as margens do Sena, correspondentes  Alta Normandia e marcando o
incio da Normandia medieval.
 D. Bates, Normandy before 1066 (1982)

Roma Embora no tivesse importncia industrial ou comercial intrnseca,
Roma continuou sendo a principal cidade da Europa medieval, tanto por causa
de seu passado clssico quanto por ter-se tornado o centro do Cristianismo
no Ocidente e a sede do Papado. Desastres polticos no sculo V (o saque da
cidade por Alarico, rei dos visigodos, em 410, e pelos vndalos em 455)
levaram o poder imperial a transferir-se para Ravena, mas o Papado
manteve-se em Roma como fonte de poder e influncia, com os papas
sustentados pela tradio de serem sucessores de So Pedro. O papa Leo I
(440-61) teve um papel decisivo no afastamento dos hunos (comandados por
tila) de Roma, e as igrejas crists tornaram-se cada vez mais os centros da
vida social. O ltimo imperador do Ocidente, Rmulo Augstulo, foi deposto
em 476, mas Teodorico, o Grande, governou a Itlia com firmeza e em
relativa paz desde Ravena por mais de 30 anos (493-526), em nome do
imperador. A poltica de Justiniano de reconquista do Ocidente levou seus
generais a fazerem debilitantes cercos godos de Roma (536-52), embora a
posterior administrao militar bizantina propiciasse uma recuperao parcial.
A partir de 568, os lombardos ocuparam a Itlia setentrional e estabeleceram
poderosos ducados no sul.
       Durante todo esse conturbado perodo -- existem registros que
documentam fomes, epidemias e inundaes -- o poder temporal do Papado
persistiu e desenvolveu-se, atingindo o ponto culminante no pontificado de
Gregrio Magno (590-604). Sua afirmao da primazia de Roma sobre toda a
Cristandade teve um imenso impacto na futura histria da cidade. De
importncia mais imediata, porm, foi sua habilidade como latifundirio na
Itlia central (e na Siclia), formando suas terras a base permanente para o
chamado "patrimnio de So Pedro", os futuros Estados pontifcios. A
atividade missionria na Inglaterra no sculo VII e na Alemanha no sculo VIII
ampliou a importncia de Roma como centro de peregrinao. Havia muita
construo de igrejas e instalaes de residncias para clrigos de vrias
nacionalidades, como a "escola" Saxnica de Roma.
      Quando os vnculos com Bizncio afrouxaram, a defesa passou a
depender de milcias locais e a ameaa lombarda  independncia papal
aumentou. A fim de assegurar proteo, os papas recorreram  monarquia
franca, primeiro no reinado de Pepino, o Breve (753), e depois,
decisivamente, no de Carlos Magno (773). Em troca, os governantes francos
assumiram o ttulo de patricius Romanorum e, no dia de Natal de 800, Carlos
Magno foi coroado imperador em Roma pelo papa Leo III.
     Nos sculos seguintes, imperadores e papas tiveram interesses vitais no
governo da cidade. Entretanto, o poder real caiu freqentemente nas mos de
cls e famlias aristocrticas rivais. Alberico, "senador de Roma", imps uma
forte administrao do patrimnio em meados do sculo X, e o revigoramento
do imprio com Oto I (962) restaurou a disciplina imperial. Durante um breve
perodo, por volta do ano 1000, Oto III e seu papa, Silvestre II, pareciam
realizar o ideal de governo do Imprio do Ocidente. Contudo, aps a morte de
Oto em 1002, as faces voltaram a dominar, e o sculo seguinte foi, no
plano poltico, um dos mais turbulentos da histria de Roma, com a Reforma
imperial imposta ao Papado em 1046; as derrotas papais iniciais, infligidas
pela nova fora na poltica italiana, os normandos do sul (1053), e seguidas
pela aliana normanda de 1059; a formulao de procedimentos adequados
para a eleio papal (1059); e a traumtica violncia da Questo das
Investiduras entre o papa e o imperador (1075-1122), no decorrer da qual a
prpria Roma foi selvaticamente saqueada pelos aliados normandos do papa
(1084).
      O xito do papa Gregrio VII (1073-85) e dos seus sucessores na
afirmao da supremacia papal teve grandes conseqncias para a cidade de
Roma. Ela se tornou um importante centro financeiro; os banqueiros curiais
Pierleoni e Frangipani eram romanos e s perderam o domnio das finanas
quando foram suplantados pelas casas de Siena e Florena no sculo XIII.
Ocorreu um revivescimento artstico que ainda pode ser admirado, por
exemplo, nas igrejas de San Clemente e de Quattro Coronati. Politicamente, a
cidade continuou turbulenta, com poderosas faces papais, imperiais e
republicanas. Arnaldo de Brscia tentou restaurar a repblica em meados do
sculo XII mas fracassou em face da oposio do papa Adriano IV, apoiado
pelo governante alemo Frederico Barba-Ruiva (coroado imperador em Roma
em 1155). Conflitos virulentos no final do reinado de Frederico resultaram no
exlio do papa Alexandre III por largos perodos, se bem que, finalmente, o
imperador fosse forado a submeter-se ao papa em Veneza, em 1177. Dentro
da prpria Roma, a ausncia papal levou a uma intensificao do sentimento
comunal; uma soluo de compromissos foi encontrada em 1188, pela qual
Roma retinha o status de uma Comuna, embora com pleno reconhecimento da
suserania papal, firmemente estabelecida na chamada "urbe leonina" em torno
de So Pedro.
     O papa Inocncio III (1198-1216), com quem a monarquia papal atingiu
seu ponto culminante, consolidou essa posio. Expressando temas
adequados  sua teologia do primado papal, restaurou a abside de So Pedro
e protegeu o Confessio com uma grade de bronze dourado. Criou duas ss
papais co-iguais, em So Pedro e em Latro, onde desenvolveu um eficiente
centro administrativo. Estabeleceu Roma como verdadeira caput mundi,
adornando suas igrejas para o Quarto Conclio de Latro como um cenrio
condigno do maior conclio da Igreja desde o final da Antigidade.
      A preocupao papal com a administrao e a tributao gerou perodos
de reao no sculo XIII: Brancaleone di Andalo (1252-58) fortaleceu a
Comuna, e Carlos de Anjou exerceu uma poderosa influncia francesa sobre a
cidade e o Papado, sobretudo no perodo de 1266-77. No final do sculo,
Bonifcio VIII proclamou 1300 como Ano Santo e Roma beneficiou-se muito
com o revigoramento de suas finanas e a elevao de seu prestgio,
resultantes da massa de peregrinos que a afluram. O pontificado de
Bonifcio terminou, porm, de forma desastrosa s mos do rei francs, e em
1308 o Papado mudou-se para Avignon. Roma sofreu seriamente com a
inimizade entre as famlias aristocrticas (os Colonna e os Orsini). Cola di
Rienzo tentou restaurar a virtude republicana na cidade mas foi derrubado e
morto em 1378. A autoridade papal foi eficazmente restaurada pelo cardeal
Albornoz e Gregrio XI regressou a Roma em 1378.
      Seguiu-se um perodo de profunda diviso conhecido como o Grande
Cisma, que s terminaria em 1417, quando Martinho V, da famlia Colonna, foi
eleito papa no Conclio de Constana. Roma ficara muito atrs das outras
grandes cidades italianas, Florena, Veneza e Milo, em conseqncia de sua
conturbada histria no sculo XIV; mas o sculo XV presenciou um certo
avano, inicialmente no pontificado de Martinho e depois, de maneira mais
acentuada, com Nicolau V (1447-55). Mesmo assim, Roma, no final da Idade
Mdia, apesar de todo o seu prestgio e renome, apresentava um espetculo
nada edificante; suas instituies eram precrias em comparao com outras
cidades italianas, e estava sendo governada por um dos mais inescrupulosos
papas, um Brgia, Alexandre VI. Ver Estados pontifcios          HRL
 F. Gregorovius, History of Rome in the Middle Ages (1909); D.P. Waley,
The Ripai State in the Thirteenth Century (1961); P. Llewellyn, Rome in the
Dark Ages (1971); P. Partner, The Lands of St. Peter (1972); R. Brentano,
Rome before Avignon (1974); R. Krautheimer, Rome: Profile of a city 312-
1308 (1980) [A. Graf, Roma nella memoria e nelle immaginazioni del Medio
Evo, Turim, 1924]

Roman de la Rose (Romance da Rosa) Com mais de 23.000 versos de
extenso, esse poema  considerado o maior dos romances franceses. 
obra de dois poetas, Guilherme de Lorris (c. 1240) e, na maior parte, Jean de
Meun (c. 1275). Rico em alegoria, rene as principais caractersticas da
Renascena dos sculos XII e XIII, pelo menos em suas manifestaes
vernculas: idias de amor corteso e, no entanto, tambm de um amor que 
acessvel; reflexes sobre vcios e virtudes; sobre a ociosidade, o prazer e o
deleite; sobre o perigo, a vergonha e o cime. Tambm contm elementos de
stira social, condenando o abuso de poder e argumentando contra o celibato
clerical.
      O poema desfrutou de imensa popularidade e sobrevivem mais de 200
manuscritos. Chaucer traduziu-o para o ingls, se bem que apenas uma parte
da verso em ingls medievo ainda existente parea ser de sua autoria. A
crtica moderna tem estabelecido um contraste no tom dos dois poetas, a
delicada alegoria de Lorris e a stira de Meun, em termos que sugerem uma
analogia com poetas ingleses modernos, Spens de um lado e Pope do outro.
[21]
 CS. Lewis, The Allegory of Love (1950); Le Roman de la Rose, org. por
C.W. Dunn (1962) [org. por A. Lanly, 4 vols., Paris, Honor Champion, 1973-
1976; trad. C. Alvar e J. Muela, Madri, Siruela, 1986]

romances de aventura Os romances medievais formam um gnero solto,
capaz de sutis distines internas (como o roman courtois, romance corteso,
distinguvel por seu tom palaciano e polido), mas a grande maioria pode ser
designada como romans d'aventur (romances de aventura ou de cavalaria),
visto que seu principal componente  a ocorrncia de eventos inesperados e
perigosos.
      O romance era predominantemente um gnero francs e ingls nos
sculos XII a XV. "Romance" denotava originalmente o vernculo francs mas
seu significado logo abrangeu todas as obras em francs e, aos poucos,
aplicou-se especificamente s histrias que surgiram na Frana a respeito de
nobres cavaleiros e suas damas. Os romances eram inicialmente em verso
mas tambm surgiram verses em prosa (como o ciclo arturiano em vernculo
francs). Os romances consistiam tipicamente num enredo principal com
ampliaes episdicas, envolvendo de um modo geral as aventuras de
homens e mulheres da nobreza agindo sob o impulso do amor, da f religiosa
ou da simples sede de aventura; terminavam usualmente numa unio feliz ou
na realizao de justia (salvo quando o modelo original era famoso demais
para ser alterado, como na Morte Arthure). Os combates e o "maravilhoso"
eram comuns, e o amor desempenhava um papel maior nas obras francesas e
inglesas. So quase totalmente um produto de fico (se bem que, com
freqncia, se baseiem num ncleo histrico) mas entrelaados com uma
elevada dose de realismo local (detalhes sobre banquetes, vesturio etc. da
poca); essa combinao do familiar e do imaginativo contribuiu para a
popularidade do gnero. O material do romance podia derivar de quaisquer
fontes, mormente clssicas (The Lify of Alisaunder), orientais (Floris and
Blauncheflur) e europias (The Lay of Havelock e Morte Arthure).
     O romance teve certos precedentes na chanson pica e no lai,
compartilhando muitas vezes o assunto, mas distinguia-se deles por sua
amplitude de viso, consubstanciada na obra de Chrtien de Troyes, cujo
Erec considerado o primeiro romance propriamente dito. Chrtien
transformou a aventura de mero incidente em significao humana (como em
Yvain), o que levou a enfatizar a interdependncia de virtudes cavaleirescas
( c o mo St Gawain) e de temas morais freqentemente ocasionais. A
abordagem de Chrtien foi totalmente absorvida na Frana e na Inglaterra,
onde o maior dos primeiros romances foi King Horn. O gnero foi ainda
experimentado mas no seriamente empregado por Chaucer. Ver
literatura               MB
 D. Everett, Essays on Middle English Literature (1964); E. Vinaver, The
Rise of Romance (1971) [E. Baumgartner, Histoire de la littrature franaise.
Moyen Age 1050-1486, Paris, Bordas, 1988]

romnico Termo usado pela primeira vez no comeo do sculo XIX para
descrever um estilo derivado, segundo se acreditava, da arte romnica. As
fontes da arte romnica so, entretanto, no s romanas, mas bizantinas,
islmicas e at clticas e brbaras. Suas origens esto intimamente ligadas 
Reforma da vida religiosa nos sculos X e XI, e no surpreende, portanto, que
essa arte fosse predominantemente o resultado de patrocnios monsticos e,
em alguns casos, obra de monges. A cpia de textos litrgicos e outros para o
culto e a leitura foi certamente executada em mosteiros, embora a decorao
de livros com miniaturas passasse gradualmente para as mos de
iluminadores seculares profissionais. A arte romnica desenvolveu-se no
sculo XI e alcanou o apogeu no sculo XII. Durante esse perodo, existem
semelhanas estilsticas entre a iluminao de livros, a ourivesaria, os
trabalhos em marfim e a escultura em madeira e pedra. Isso deve-se ao fato
de que os artesos eram treinados em mltiplos veculos de expresso
artstica. O clebre manual dos artistas, De Diversis Artibus, escrito por volta
de 1100, demonstra muito claramente a proficincia dos artistas da poca em
muitos campos diferentes.
       natural que existam diferenas acentuadas entre a arte romnica, por
exemplo, na Espanha e Noruega, pois cada pas tinha uma tradio artstica
diferente; contudo, havia um elemento comum a toda arte romnica: o amor 
simplificao das formas e dos padres decorativos, o que afetava inclusive a
figura humana. A arte romnica era profundamente religiosa, mas tambm se
mostrava com freqncia imbuda de humor rude e de predileo por criaturas
fantsticas e grotescas. Foi esse aspecto, to inventivo e fulgurante, que
levou o austero So Bernardo de Claraval a exclamar, quando escreveu sobre
os capitis esculpidos em claustros romnicos: "...tantas e to maravilhosas
so as variedades de formas em cada artista, que nos sentimos mais
tentados a ler no mrmore do que em nossos livros". Ver
arquitetura                                                         GZ
 J. Beckwith, Early Medieval Art (1964); G. Zarnecki, Romanesque Art
(1971) [G. Duby, O tempo das catedrais, Lisboa, Estampa, 1978; M. Durliat,
L'art roman, Paris, Mazenod, 1982; F. Conti, Como reconocer el arte
romnico, Barcelona, Ed. Medica y Tecnica, 1980]

Rmulo Augstulo imperador romano 475-76 Conhecido como o ltimo dos
imperadores romanos do Ocidente, Rmulo foi elevado ao trono por seu pai
Orestes, depois de derrubar Jlio Nepos. Orestes governou em nome do filho,
que ainda era menor (da "Augustulus", o diminutivo de Augustus). Em agosto
de 476, Orestes foi morto por suas tropas, que proclamaram rei seu general,
Odoacro. Rmulo foi poupado e passou a viver na Campnia. O ano de 476
assinala convencionalmente o fim do Imprio Romano do Ocidente.
 C. Wickham, Early Medieval Italy 400-1000 (1981)

Rory O'Conor supremo rei de Connaught 1156-98 (n. 1116) Filho de Turlough
O'Conor, sucedeu ao pai como rei de Connaught e chefe da tribo Sil
Muireadhaigh. Em 1166 foi reconhecido em Dublin como rei de toda a Irlanda,
teve parte ativa no apoio aos esforos reformadores do arcebispo primaz de
Armagh, e convocou uma grande assemblia judicial pblica para toda a
Irlanda em Telltown (1168). A interveno poltica normanda foi desastrosa e,
embora ele obtivesse ocasionais vitrias contra os normandos e tivesse at
resistido ao prprio Henrique II, a dcada de 1180 foi um perodo de contnua
luta e declnio no prestgio, poder e sade de Rory. Em 1191 recolheu-se 
abadia de Cong, onde morreu.
 F. Byre, Irish Kings and High Kings (1973)

Roscelino (c 1050-c. 1122) Filsofo e telogo. Natural de Compigne, onde
se tomou cnego depois de estudar em Soissons e Reims, Roscelino 
considerado o criador do nominalismo, tendo participado na controvrsia
nominalista/realista em torno dos universais (a relao de gneros e espcies
com o indivduo). Suas idias sobrevivem em referncias feitas por Abelardo e
Anselmo, sendo a sua nica obra existente uma carta para Abelardo a
respeito da Trindade. Teria descrito os universais como sons ( flatus vocis),
meras palavras, e s o indivduo como real. A aplicao de suas teorias 
Trindade envolvia o tritesmo, pelo qual foi condenado no Conclio de Soissons
(1092). Retratou-se e foi para a Inglaterra, que deixou aps atacar as
doutrinas de Anselmo. Reconciliou-se com a Igreja em Roma e regressou 
Frana, lecionando em Tours e Loches, onde Abelardo foi seu aluno. Morreu
cnego em Besanon.
 F. Picavet, Roscelin, Philosophe et Thologien (1896); G. Leff, Medieval
Thought (1958)

Rupert de Wittelsbach rei da Alemanha 1400-10 (n. 1352) Sucedeu a seu
pai, Rupert II, como eleitor palatino em 1398. Em agosto de 1400, uma
assemblia de prncipes e estados disps o rei Venceslau. Rupert foi eleito
seu sucessor como rei da Alemanha e coroado em Colnia (1401). Venceslau
no reconheceu sua deposio e considerou-se at morrer (1419) rei da
Bomia e da Alemanha. Rupert foi incapaz de solucionar os problemas que
herdou. A campanha italiana, apesar da ajuda florentina, no logrou garantir a
Coroa imperial para Rupert. Ele foi derrotado nos arredores de Brscia e
retirou-se para a Alemanha (1402). Nada fez para terminar com o cisma papal
e no conseguiu consolidar o poder no norte. O restante de seu reinado foi
ocupado com a oposio interna. A Liga de Marbach (Baden, Wrttemberg e
as cidades subias sob o controle do arcebispo Johann de Mogncia) foi
formada contra ele em 1405 com o propsito de liquidar o cisma; Rupert viu-
se isolado e foi sucedido, finalmente, por Sigismundo da Hungria (1411).
      A principal realizao de Rupert foi sua contribuio para uma
administrao real, surgindo uma burocracia especializada a servio da
monarquia e no do prncipe. Notveis conselheiros (como Job Vener) e a
fidelidade da Universidade de Heidelberg contriburam para a ascenso de
uma elite profissional.
 F.R.H. du Boulay, Germany in the Later Middle Ages (1983)

Rurik Chefe dos escandinavos, sobretudo suecos, conhecidos como Rus, que
estabeleceu uma vaga suserania sobre as comunidades mercantis ao longo
das vias navegveis russas por volta de 862. Sua principal residncia era em
Novgorod, sobre o Iago Ladoga. As lendas atribuem a Rurik e a seus
companheiros a fundao da Rssia histrica.

Rssia As origens dos russos ou eslavos orientais so obscuras. Antes da
chegada dos varegos escandinavos no sculo IX, eles tinham-se espalhado
por todo o territrio da atual Unio Sovitica, com sua organizao poltica
centrando-se provavelmente em cidades comerciais fortificadas (Novgorod,
Smolensk, Kiev). Os conquistadores varegos eslavizaram-se, e a dinastia
Rurikovitch fundou o primeiro Estado russo em torno de Kiev. Durante o sculo
IX, surgiu a palavra "russo" (rus, ros) para denotar os eslavos orientais como
um todo. O Estado de Kiev expandiu-se durante o sculo X e ligaes vitais
foram estabelecidas com Bizncio atravs do comrcio. Os Cristianismos
romano e bizantino eram conhecidos em Kiev desde o sculo IX, mas a
tradio bizantina foi oficialmente adotada por Vladimir I (980-1015). A
ortodoxia persistiu em toda a Rssia, com Moscou substituindo Constantinopla
como o centro da ortodoxia depois de 1453. Kiev atingiu o apogeu em meados
do sculo XI mas, durante o sculo XII, esteve exposta s invases por
asiticos das estepes (pechenegues, polovtsianos e mongis).
     Nesse meio tempo, tinha surgido um principado nas colnias
setentrionais em redor de Suzdal, Rostov, Vladimir e Moscou. Andrei
Bogoliubsky (1157-74), prncipe de Suzdal, saqueou a enfraquecida Kiev.
Parecia que o centro comercial de Novgorod tinha fortes possibilidades de
suceder a Kiev, preservando Alexandre Nevsky (1246-63) sua independncia
contra alemes e suecos, mas a posio geogrfica superior e a fora militar
asseguraram a supremacia do principado de Vladimir-Suzdal.
      Durante o sculo XIII, o sudoeste da Rssia foi assolado pelos mongis
e os prncipes de Vladimir submetidos  Horda de Ouro; mas isso parece ter
proporcionado condies benficas ao crescimento do Estado. A Rssia
estava agora separada do Ocidente, e ficaram definidos os trs ramos
eslavos orientais: bielo-russos, sob domnio lituano; grandes russos (Novgorod
e Vladimir-Suzdal), sob a Horda de Ouro; e pequenos russos (ucranianos), no
sul, entre os lituanos e os mongis.
      Moscou, sob a dinastia Usevolod, surgiu como capital do novo Estado
Vladimir-Suzdal, onde Ivan I Kalita (m. 1341) e gro-prncipes posteriores
implementaram uma poltica de centralizao. Dmitri Donskoi (1359-89) iniciou
a resistncia contra os mongis, derrotando-os em Kulikovo (1380). Em fins
do sculo XV, estava completa a unificao da Rssia central sob a gide do
gro-prncipe de Moscou, graas em grande parte  ao de Ivan III, o
Grande (1462-1505), auxiliado por uma nova artistocracia de pequenos
proprietrios rurais ligados  autoridade central que ele imps  antiga
nobreza (boiardos). O cdigo administrativo e judicial (Sudebnik) de 1497
atesta o nvel de centralizao alcanado.
      Aps o declnio de Kiev, o foco da civilizao russa transferiu-se para as
cidades do noroeste. A influncia artstica bizantina fundiu-se com a tradio
nativa, produzindo Novgorod uma arquitetura tipicamente russa. Em fins do
sculo XIV, Moscou assistiu a um florescimento da arte e literatura, e acusou
a influncia da Renascena italiana durante o sculo XV. De particular
destaque foram os pintores de cones Tefanes, o Grego, Rublev e Denis.
Ver Cirilo, So; Yaroslav MB
 G. Vernadsky, The Origins of Russia (1959); N.V. Riasonovsky, A History
of Russia (1963); D. MacKenzie e M.W. Curran, A History of Russia and the
Soviet Union (1982); J. Fennell, The Crisis of Medieval Russia 1200-1304
(1983); R.O. Crummey, The Formation of Muscovy 1304-1613 (1987); N.S.
Kollmann, Kingship and Politics: the making of the Muscovite political System
1345-1547(1987) [R. Portal, Os eslavos, povos e naes, Lisboa, Cosmos,
1968]

Ruysbroeck, Jan van (1293-1381) Um dos maiores escritores msticos da
Idade Mdia, ele nasceu em Ruysbroeck, perto de Bruxelas, e abraou o
sacerdcio. Em 1343 fundou uma pequena comunidade agostiniana em
Groenendael. Seus escritos, inteiramente em flamengo, exerceram profunda
influncia e suas crticas aos abusos da Igreja prenunciaram a devotio
moderna. Com efeito, Gerhard Groote, fundador da Irmandade da Vida
Comum, foi um dos discpulos de Ruysbroeck.
 R. Kieckhefer, Unquiet Souls: Fourteenth-Century Souls and their Religious
Milieu (1984)
                                     S
Sacro Imprio Romano O conceito de Imprio foi transmitido, em tempos
cristos, de Roma para Constantinopla, recuperado para o Ocidente (dos
gregos de volta aos latinos) por Carlos Magno em 800, e passado desde 962
por governantes alemes, atravs de sucessivas dinastias, at os Habsburgos
dos sculos XV e XVI. Era um conceito que tinha muita fora na Idade Mdia
e, na verdade, j em tempos modernos entre os historiadores que analisam a
experincia medieval. A expresso "Sacro Imprio Romano" est mais ou
menos prxima da realidade e significou claramente diferentes coisas em
diferentes pocas para diferentes pessoas.
      Para Carlos Magno e os humanistas agrupados  sua volta em Aix-la-
Chapelle, alguma coisa na noo de imperium Christianum comportava o
direito de mandar em outros povos alm do prprio, de acordo com o modelo
romano. Oto, o Grande, reviveu o Imprio com sua coroao em Roma pelo
papa em 962, mas, para ele e seus sucessores, Imprio significou
essencialmente a dominao poltica da Alemanha e do Reino Central, em
especial a Itlia. Saxes, slios e, sobretudo, os Hohenstaufen (1138-1254)
refinaram a idia imperial: com Frederico Barba-Ruiva, o epteto sacrum
(sagrado ou sacro) passou a ser usado oficialmente, numa resposta evidente
s reivindicaes e pretenses papais resultantes dos xitos de Gregrio VII
na Questo das Investiduras. O ressurgimento do direito romano tambm
incentivou a criao de vnculos conscientes com o Imprio Romano dos
tempos clssicos.
       Aps o Grande Interregno (1254-73), havia poucas probabilidades de um
Imprio poderoso, unificado e aglutinante, capaz de governar a maior parte do
Ocidente. De fato, a esperana efetiva de controlar as antigas reas centrais,
poltica e estrategicamente cruciais, da Alemanha e da Itlia diminuram, e
ambas as dinastias dominantes no final da Idade Mdia foram buscar a maior
parte de seu poderio em fontes no-germnicas: a casa de Luxemburgo na
Bomia, e os Habsburgos em suas possesses danubianas. Foi ento, porm,
que a palavra sanctum passou a ser usada em relao ao Imprio; foram
hbeis pensadores polticos, como Dante e Marslio de Pdua, que
apresentaram as teorias mais avanadas de autoridade imperial, baseadas
nos modelos clssico e cristo. O dito espirituoso de Lorde Bryce [na verdade
da autoria de Voltaire], de que o Sacro Imprio Romano "no era Sacro, nem
Romano, nem Imprio", possui substanciais elementos de verdade e, no
obstante, no pode ser negada a importncia da teoria imperial como fora
modeladora,                especialmente            na            histria
alem.                                                 HRL
 F. Heer, The Holy Roman Empire (1968); R. Folz, The Concept of Empire
in Western Europe from the Fifth to the Fourteenth Century (1969) [G.
Barraclough, Imprio medieval: idia e realidade, em Europa, uma reviso
histrica, Rio, Zahar, 1964, p. 135/64]

sagas nrdicas Boa parte da maior literatura verncula da Idade Mdia foi
produzida na Escandinvia nos sculos XII e XIII, mormente na Islndia. O
nome dado a esses escritos, saga ("coisas ditas, histrias contadas"), revela
a base oral a partir da qual a literatura se desenvolveu. Os contadores de
histrias da Era Viking e do perodo posterior narravam em prosa ou em verso
as tradies sociais do Norte. A literatura de saga est dividida em dois
grupos principais: as sagas histricas e as sagas de famlia. O grupo histrico
trata do perodo de expanso escandinava (c. 800-1050), com a colonizao
da Islndia e as expedies  Groenlndia e  Vinlndia; ocupa-se tambm
dos sculos subseqentes na forma de relatos biogrficos dos reis e (depois
da chegada do Cristianismo atravs do norte no decorrer do sculo XI) dos
bispos. Os mais notveis autores foram Ari, o Sbio (Thorgilsson), que morreu
em 1148, e Snorri Sturluson (m. 1241), cujas Eda em Prosa e Heimskringla
representam o ponto supremo de realizao literria em noruegus antigo. As
sagas de famlia atingiram sua mais bela expresso na obra do sobrinho de
Snorri, Sturla Thordsson (m. 1284) e dos compiladores seus contemporneos.
A maioria das grandes sagas  acessvel ao leitor atual em tradues
modernas e idneas, incluindo Njlssaga, Laxdaelasaga, Egilssaga, sagas
que tratam das rcades e das Faroes, e a Saga de Eric, o Vermelho, que se
refere ao povoamento da Groenlndia e s expedies  Vinlndia, na costa
americana. Ver Edas
 C. Clover, The Medieval Saga (1982) [J. Brnsted, Os vikings, Lisboa,
Ulissia, s/d]

Saladino (Salah al-Din Yusuf Ibn-Ayub) sulto do Egito e da Sria 1175-93
(n. 1138) Participou das campanhas de seu tio Shirkuh no Egito (1164-68) e,
com a morte deste ltimo em 1169, assumiu o controle do Cairo. Consciente
da atrao dos francos pelo Egito, Saladino concentrou-se na estruturao e
desenvolvimento econmicos e militares do pas. Entre 1174 e 1186, logrou
colocar numerosas cidades srias importantes sob seu controle, o que lhe
permitiu apresentar aos francos uma frente muulmana unida. Aps uma
violao da paz pelos francos, em 1187, Saladino derrotou-lhes o exrcito em
Hattin; estimulado por essa vitria, invadiu ento a Palestina e conquistou
Jerusalm. Os prncipes da Europa sentiram-se provocados por tais perdas e
organizaram a Terceira Cruzada, dirigindo todo o seu poderio contra Acre. O
cerco de Acre durou dois anos (1189-91), com os cruzados obtendo
finalmente a vitria. Ricardo Corao de Leo derrotou as foras de Saladino
em Arsuf (1191) mas foi incapaz de recuperar Jerusalm e em 1192 negociou
a paz com Saladino. Um ano depois, o lder muulmano morria em Damasco.
 M.C. Lyons e D.E.P. Jackson, Saladin: The Politics of the Holy Wars
(1982); RH. Newby, Saladin in his time (1983)

Saladino, Dzimo de Imposto criado na Inglaterra e na Frana a fim de
angariar fundos para financiar a Terceira Cruzada. O "Dzimo de Saladino"
(1188) equivalia a 10% dos rendimentos e bens mveis de cada homem.
Apesar do entusiasmo geral com essa Cruzada, o imposto provocou forte
irritao, porquanto muitos temiam que isso constitusse precedente para uma
nova forma de tributao. A coleta na Inglaterra prosseguiu com agentes
fiscais de Henrique II, mas na Frana Filipe Augusto foi obrigado a suspender
o imposto e at a pedir desculpas por t-lo proposto.

Salerno, Universidade de O Studium ou Escola de Salerno foi uma das
primeiras universidades da Europa. Dedicada por muito tempo ao estudo
exclusivo de medicina, a Escola j era clebre no sculo X mas sua fama
cresceu, especialmente no sculo XI, quando teve o renomado fsico
Constantino Africano como professor. Alguns dos melhores textos mdicos da
Idade Mdia, derivados em grande parte de autores antigos, rabes e
hebreus, foram produzidos em Salerno.
 J. Dcarreaux, Lombards, Moines et Normands en Italie Mridionale (1974)

Samo (m. 639) Mercador franco que criou uma poderosa, ainda que
transitria unidade poltica das tribos eslavas baseadas na Morvia e que se
estendeu profundamente aos territrios das margens do Elba. Foi derrotado e
morto por um exrcito recrutado entre francos e turngios. Samo foi
importante pela tradio que estabeleceu entre os morvios, de uma
organizao poltica ainda que rudimentar e tambm de contatos comerciais
regulares, sobretudo em escravos, com o mundo ocidental.
 J.M. Wallace-Hadrill, The Barbarian West (1965)

Samuel czar dos blgaros (c. 980-1014) Depois da morte do czar Simeo em
927, o Imprio Blgaro entrou em declnio e grande parte do territrio passou
para o domnio bizantino. Samuel, filho de Chicheman, assumiu o ttulo de
"czar" e, subindo ao poder na Macednia, logo invadiu a Srvia e a Bulgria
setentrional. Grande parte do seu reinado foi consumido em conflitos com o
imperador Baslio II. No comeo, as tropas imperiais foram desbaratadas mas
em 1014 obtiveram uma vitria decisiva. Baslio infligiu ento uma terrvel
punio aos prisioneiros: cerca de 15.000 prisioneiros foram devolvidos cegos
a Samuel, guiados por um homem em cada grupo de 100 a quem deixaram
um olho para conduzir seus companheiros de volta para casa. Diz-se que
Samuel caiu morto, fulminado por um ataque apopltico, diante de tal horror.
O Estado por ele criado desmoronou em 1018, e a Bulgria permaneceu
sujeita a Bizncio at 1185.
 S. Runciman, A History of the First Bulgarian Empire (1930)

San Germano, Tratado de (1230) Este acordo assinalou uma trgua
temporria nas hostilidades entre o papa Gregrio IX e Frederico II. Pelo
tratado, Frederico concordava em respeitar os territrios pontifcios e em
conceder liberdade de eleio e outros privilgios ao clero siciliano; em troca,
era levantada a excomunho. Esse ato vital de reconciliao com o Papado
deu a Frederico liberdade de ao na organizao posterior do Imprio.

San Giorgio, Banco de O tremendo crescimento da atividade mercantil em
Gnova durante o final da Idade Mdia levou ao desenvolvimento de
complexos procedimentos comerciais e financeiros. Em 1407, a Casa di San
Giorgio, um grupo de credores do Estado, reuniu-se para formar um banco
municipal em Gnova. Certas caractersticas da moderna sociedade annima
podem ser vistas nessa organizao. Foi dissolvida em 1444 mas
restabelecida mais tarde como o Banco de San Giorgio (1586).
 [J. Heers, Gnes au XV sicle, Paris, Flammarion, 1971]

Sano Pragmtica de Bourges Em 7 de julho de 1438, foi promulgado em
Bourges um estatuto da Igreja francesa na forma de uma "pragmtica", um
termo adotado dos antigos decretos imperiais e usado agora num sentido
especializado para indicar a soluo de assuntos eclesisticos pelo governo
civil. Instigada por Carlos VII da Frana, ps fim aos acordos provisrios
franco-papais que se seguiram ao Cisma e resultaram do galicanismo
generalizado que o Cisma e os abusos fiscais do Papado tinham permitido. De
acordo com a Sano, a Igreja francesa adotou a maioria dos decretos do
Conclio de Basilia, emendando alguns deles. A maior parte das fontes de
renda papal na Frana foram abolidas e a monarquia estabeleceu, sob sua
gide, uma Igreja galicana. A Pragmtica foi a primeira afirmao dos direitos
das igrejas nacionais de organizarem a si prprias, mas representou uma
poltica separatista mais preocupada com interesses locais do que com os da
Cristandade em seu todo. Foi revogada por Lus XI (1461) e esporadicamente
revivida at ser finalmente substituda pela Concordata de Bolonha (1516).
 N. Valois, La Pragmatique Sanction de Bourges sous Caries VII (1906)

Sancho III, o Grande rei de Navarra 1000-35 (n. c. 992) Filho do rei Garca
Snchez II, sucedeu-lhe no trono quando tinha cerca de oito anos de idade.
Teve a boa sorte de iniciar seu reinado efetivo quando o califado de Crdova
estava se desintegrando, aps um longo perodo de hegemonia durante o qual
enfraquecera os Estados cristos do norte; e teve a inteligncia e a vontade
suficientes para preencher o vazio poltico. Estabelecendo suas pretenses a
Castela mediante o casamento com Mnia, filha do conde de Castela, garantiu
o territrio fronteirio de La Rioja em 1016, e nos trs anos seguintes voltou
suas atenes para leste, quando incorporou os condados de Sobrarba e
Ribagorza. Isso proporcionou uma base, e as dissenses internas a
oportunidade, para Sancho III intervir na poltica Catal; simultaneamente, no
incio da dcada de 1020, sua suserania foi reconhecida na Gasconha, e
comeou a intervir cada vez mais na poltica castelhana. Quando o jovem
conde de Castela, cunhado de Sancho, foi assassinado em 1029, Sancho
ocupou o pas em nome de sua esposa, e desencadeou uma guerra vitoriosa
contra Leo, ocupando a capital em 1034 e cunhando moeda com o ttulo de
imperador.
      A concentrao do esforo de Sancho III no estabelecimento da
hegemonia de Navarra no norte, s custas do prosseguimento da Reconquista
contra uma Crdova em rpido declnio, igualou-se s suas atitudes
ideolgicas e culturais: introduziu a reforma cluniacense em alguns dos
principais mosteiros, incentivou as peregrinaes a Santiago de Compostela e
adotou idias feudais francesas.  com boas razes que um historiador
espanhol o qualificou como o primeiro europeizador da Espanha. Entretanto,
essa base ideolgica do sucesso poltico de Sancho provou ser, em ltima
instncia, uma fraqueza fatal; considerando Navarra seu maior patrimnio
feudal, deixou-a, em franca expanso, ao seu primognito; Castela a um
outro; Sobrarba e Ribagorza a um terceiro; o condado -- que se converteria
agora em reino -- de Arago a um quarto filho, enquanto que Leo readquiria
sua independncia. A unidade da Espanha crist, uma revivescncia do velho
ideal visigodo, foi criao pessoal de Sancho e morreu com ele.
 J. Prez de Urbel , Sancho el Mayor de Navarra (1950)

Santiago de Compostela Um dos grandes centros de peregrinao da Idade
Mdia. A igreja de Santiago em Compostela, no extremo noroeste da
Espanha, era venerada desde o sculo X como suposto lugar de sepultamento
de Tiago Maior, o primo-irmo humano de Jesus Cristo. As rotas para
Santiago, ligadas nos sculos XI e XII por uma rede de hospedadas e casas
religiosas, foram decisivas na disseminao de idias culturais, religiosas e
arquiteturais por toda a Europa crist, na poca das Cruzadas e da
Reconquista da Espanha aos muulmanos. Uma Ordem Militar, a dos
Cavaleiros de Santiago, foi fundada em 1170 e desempenhou um papel
preponderante nas guerras contra o Isl a oeste da Pennsula Ibrica.
Santiago veio a ser reconhecido como o santo padroeiro da Espanha.
 G.Hamilton, The Routes to Compostela (1961); J. Sumption, Pilgrimage: an
image of medieval religion (1975) [L. Vazquez de Parga, J.M. Lacarra e J.
Uria Uriu, Las peregrinaciones a Santiago de Compostela, 3 vols., Madri,
CSIC, 1948-1949]

Santiago, Ordem dos Cavaleiros de A Ordem foi fundada em 1170, no s
para combater os invasores almadas, mas tambm para proteger e prestar
assistncia aos peregrinos que afluam a Santiago de Compostela. Suas
funes militares e hospitalares deram-lhe um carter distinto das outras
Ordens Militares da pennsula, e no seguia a Regra e os costumes de
Calatrava, cuja primazia disputava. Pouco depois de sua fundao, a Ordem
obteve uma sede permanente em Ucls e, com o passar dos anos, adquiriu
extensas terras. Seu desenvolvimento ulterior foi semelhante ao de Calatrava
e em 1493 seria finalmente anexada  Coroa. [5]
 D.W. Lomax, `The Order of Santiago and the Kings of Leon", Hispania
(Madri), 18 (1958)

Santo Graal Um dos mais poderosos smbolos da lenda medieval, o Graal
aparece pela primeira vez no Perceval (c. 1180), de Chrtien de Troyes, onde
 descrito como um prato de servir cravejado de jias. Foi ligado ao dysgyl ou
"prato de fartura" da lenda galesa. Passou rapidamente a ser identificado com
o clice da ltima Ceia que ficara em poder de Jos de Arimatia. A busca do
Santo Graal na literatura medieval converte-se em sinnimo da busca de
perfeio pelo cavaleiro, e seu desenvolvimento atravs da Estoire dou Graal
(c. 1200), de Roberto de Boron, at, finalmente, a Morte d'Arthur (1469-70),
de Malory, mostra a progressiva espiritualizao do romance secular.
Cavaleiros que se esforaram por atingir a perfeio -- Percival, Galaad,
Lancelote -- tiveram seus nomes associados  busca do Santo Graal, o qual,
nas mos dos poetas, passou a ser o smbolo de um exame profundo da
prpria alma de cada um. [33]
 La Queste del Saint Graal, org. por A. Pauphilet (1949); J. Marx, La
Lgende Arthurienne et le Graal (1952) [J.R. Resina, La bsqueda del Grial,
Barcelona, Anthropos, 1988]

sarracenos Termo criado por autores clssicos dos sculos I-III para
descrever uma tribo rabe localizada na regio do Sinai. O nome passou
gradualmente entre os cristos a designar os rabes em geral, e, aps a
ascenso do Isl, os muulmanos. Entre os sculos XI e XIII, o termo era
usado pelos cruzados latinos para descrever os povos muulmanos
mobilizados contra eles. Durante o sculo IX, os sarracenos assolaram a
Siclia e o sul da Itlia, garantindo finalmente uma base siciliana. Tambm
invadiram e colonizaram partes da Espanha, onde estabeleceram uma
brilhante civilizao.

saxes Nome dado em tempos clssicos ao povo germnico que habitava a
regio noroeste da moderna Alemanha, desde a plancie costeira do Mar do
Norte at o Weser e Holstein. Nos sculos V e VI, a migrao levou-os para a
Glia, onde as provas de colonizao persistem em topnimos dos arredores
de Boulogne e na Normandia, e tambm em grande nmero na Inglaterra.
Beda colocou os saxes entre as trs poderosas naes germnicas que se
instalaram na Inglaterra -- saxes, anglos e jutos. Os saxes que ficaram no
continente (os chamados antigos saxes, para distingui-los dos anglo-saxes)
mantiveram-se em forte independncia pag at a poca de Carlos Magno.
Entretanto, aps a conquista franca (775-803) e a converso forada ao
Cristianismo, eles passaram a formar o cerne do novo Imprio Otoniano no
sculo X, com o ducado da Saxnia estendendo-se do Ems a oeste at o Elba
a leste, e incluindo os principais componentes territoriais da Westflia,
Estflia, Engern e Holstein.
 K.J. Leyser, Rule and Conflict in an Early Medieval Society (1979) [L.
Musset, Las invasiones. Las oleadas germnicas, Barcelona, Labor, 1967]

Scone, Pedra de A Pedra de Scone, ou Pedra do Destino, foi levada para
Scone [povoao do condado de Perth, na Esccia] por Kenneth MacAlpin,
que tomou posse do trono pctico em 843. Ele colocou a pedra real de sua
raa na igreja edificada na colina de Scone; nos 500 anos seguintes, cada
novo rei da Esccia a se dirigia a fim de "ser entronizado sobre a pedra". A
Pedra de Scone foi uma parte importante dos ritos de coroao escocesa at
1296, quando foi escondida para impedir que casse em mos de Eduardo I
da Inglaterra ou, segundo a lenda, foi levada para Westminster.

Segarelli, Gerardo (m. 1300) Lder da seita hertica dos "Falsos Apstolos"
(pseudo-apostolici). Natural de Parma, Segarelli sentiu-se atrado por uma
vida de pureza exemplar. Vendeu todos os seus bens (c. 1260) e comeou
pregando a penitncia e a pobreza apostlica. No tardou em atrair uma
legio de seguidores. A seita foi condenada duas vezes pelo Papado, por
Honrio IV (1286) e por Nicolau IV (1290). Segarelli foi finalmente preso pelo
bispo de Parma, que o entregou s autoridades seculares para ser queimado
em 1300.
 G. Leff, Heresy in the Late Middle Ages (1967)

seljcidas, turcos Os seljcidas vieram com bandos de nmades turcos
desde as estepes da sia Central, abrindo caminho at a Anatlia, norte da
Sria e do Iraque e empurrando gradualmente os bizantinos para fora da sia
Menor. Ocuparam Jerusalm em 1071, esmagaram o exrcito bizantino na
batalha de Manzikert e capturaram mais tarde Antioquia (1085); isso
ocasionou a Primeira Cruzada (1096-97), com os cruzados procurando libertar
a Terra Santa dos infiis. Ver Alp Arslan; Tugril Beg
 Cambridge History of Islam, org. por P.M. Holt (1970)

Srvia No sculo VII, vrios grupos de eslavos, os ancestrais do povo srvio,
fixaram-se nos Balcs. Cada tribo tinha seu prprio lder ou zupan at fins da
dcada de 1100, quando o grande guerreiro Estvo Nemanja formou o
primeiro Estado srvio unido. Vrios sculos depois, o rei Estvo Dusan
conduziu uma srie de guerras vitoriosas contra o Imprio Bizantino;
entretanto, o Imprio Srvio comeou a declinar depois de sua morte em
1355.

Srgio I (m. 638) Patriarca de Constantinopla desde 610. Natural da Sria,
Srgio tornou-se o conselheiro de confiana do imperador Herclio. Em
resposta  ciso entre crentes ortodoxos e monofisistas, Srgio formulou a
doutrina do monotelismo, propondo que Cristo possua duas naturezas mas
uma s vontade. A nova frmula foi promulgada pelo imperador em 638, mas
lamentavelmente rejeitada pelos monofisistas e pela Igreja latina, e condenada
no Conclio de Constantinopla em 681.

Sforza, famlia Famlia nobre do norte da Itlia. Os descendentes do
condottiere Muzio Attendolo (1369-1424) adotaram seu apelido, Sforza. Entre
os mais famosos membros da famlia estavam Francesco, senhor de Milo
em 1459-66, que procurou manter a paz e a ordem em seus territrios; seu
filho Galeazzo Maria (assassinado em 1476); e Caterina (c. 1462-1509) que
ficou famosa por seu envolvimento nos assuntos polticos e militares. Um outro
Sforza, Ludovico (1451-1508), pode ter sido parcialmente responsvel pela
invaso francesa da Itlia em 1494. O governo Sforza de Milo representou
um grande crescimento econmico e um esclarecido mecenato artstico.
 CM. Ady, Milan under the Sforza (1907); J. Law, The Lords of Renaissance
Italy (1981)

Sigrio, Afrnio (464-86) General galo-romano que exerceu controle sobre
diversas cidades entre o Somme e o Loire, at ser derrotado por Clvis em
Soisson (486). Sigrio tinha herdado seu direito de proteger as cidades de
seu pai Egdio, um antigo magister militum do Imprio Romano. Com a queda
da metade ocidental do Imprio em 476, Sigrio adotou uma posio de
autoridade independente: com efeito, Gregrio de Tours descreve-o como rex
Romanorum (rei dos romanos), o que sugere ter ele governado  maneira de
um rei brbaro. Aps sua derrota no campo de batalha, foi entregue a Clvis,
que o mandou matar em segredo.
 J.M. Wallace-Hadrill, The Barbariam West 400-1000(1952); A.H.M. Jones,
The Later Roman Empire 284-602 (1964)

Siclia Durante toda a Idade Mdia a Siclia foi cobiada por potncias
estrangeiras por suas riquezas e importante posio estratgica no
Mediterrneo. Assolada por vndalos e ostrogodos no sculo V, a ilha foi
depois conquistada por Belisrio por volta de 535. O domnio do Imprio
Bizantino foi gradualmente debilitado no sculo IX com a chegada dos rabes
e, no final desse sculo, os bizantinos tinham-se retirado quase por completo.
Nesse tempo, Palermo era um dos mais destacados centros de erudio e de
artes visuais no mundo ocidental.
      Os normandos iniciaram a conquista da Siclia em 1060; por volta de
1091 Rogrio I de Hauteville tinha o controle de toda a ilha. Os normandos
deram uma nova eficincia  administrao da Siclia, e adotaram muitas
tradies rabes, hebraicas e gregas. Com o advento dos Hohenstaufen (final
do sculo XII-sculo XIII), a corte de Palermo tornou-se famosa no mundo por
sua erudio e luxo. Em 1268, comeou a dominao angevina da Siclia; eles
foram finalmente derrubados nas Vsperas Sicilianas (1282), quando a casa
de Anjou foi apenas substituda por outro ocupante estrangeiro, os
aragoneses.
     No sculo XVI, a ilha deixou de ocupar uma posio de grande
importncia, porquanto o equilbrio de poderes tinha-se transferido para o
Mediterrneo ocidental. Ver Carlos I de Anjou; Pedro III, o Grande; Roberto
Guiscard; Rogrio II; Vsperas Sicilianas
 D.M. Smith, Medieval Sicily (1969);           D.C.   Douglas, The Norman
Achievement (1969)

Siegfried Arcebispo de Mainz (Mogncia) em 1060-84. Foi nomeado para a
poderosa s de Mogncia pela imperatriz Ins. Parece ter sido um homem
fraco e de pouco carter, que envolvido na luta pela investidura laica entre
Henrique IV e Gregrio VII, sempre apoiou o lado perdedor no conflito. Foi
responsvel pela coroao de Rodolfo da Subia em 1077.
 Church and State in the Middle Ages, org. por B.D. Hill (1970)

Siger de Brabante (c. 1235-82) Filsofo averrosta. Professor de filosofia na
Universidade de Paris, Siger ensinou um aristotelismo influenciado por
Averris. Seu ensino foi condenado em 1270 pelo bispo de Paris. Seis anos
depois, foi intimado a comparecer perante o Inquisidor da Frana, Simon du
Val, para defender-se das acusaes de heresia, e em 1277 foi condenado de
novo pelo bispo parisiense. No caminho para Orvieto, a fim de solicitar a
absolvio papal, Siger foi assassinado por seu secretrio. Embora aceitando
a verdade da f catlica, ele insistiu no direito do homem de obedecer  razo
humana, mesmo que, em seu entender, ela contradissesse s vezes a
revelao divina.
 G. Leff, Medieval Thought from St. Augustine to Ockham (1958)

Sigismundo de Luxemburgo imperador do Sacro Imprio Romano
Germnico 1410-37 (n. 1368) Governante da Hungria, Alemanha e Bomia.
Filho de Carlos IV, Sigismundo recebeu a Coroa da Hungria em 1387. Obteve
depois o controle da Alemanha aps a morte de Rupert em 1430 e da
abdicao de seu incompetente meio-irmo Venceslau. Decidido a acabar
com o Grande Cisma da Igreja latina (1378-1417), forou Joo XXIII a
convocar um conclio ecumnico que teve lugar em Constana (1414-18). Uma
das questes essenciais a solucionar em Constana era a extirpao da
heresia, sobretudo a heresia hussita. Huss aceitou uma oferta de salvo-
conduto feita por Sigismundo e viajou para Constana (1415), onde foi
aprisionado, submetido a julgamento e queimado (6 de julho), inflamando
assim o nacionalismo bomio e originando as guerras hussitas. Apesar de seu
desinteresse pela Bomia e de sua incapacidade para reorganizar as relaes
polticas com a Alemanha, Sigismundo desfrutou de certa popularidade em
vida por causa de sua personalidade cavaleiresca e sua iniciativa em
promover o Conclio de Constana. [103]
 F.R.H. du Boulay, Germany in the Later Middle Ages (1983)

Silvestre II (Gerbert d'Aurillac, n. na Auvergne c. 940) papa 999-1003 De
origem humilde, foi educado no mosteiro beneditino de Aurillac. Um encontro
em Roma (970) com o imperador Oto I foi decisivo, pois Gerbert iria passar
grande parte de sua vida na rbita do Imprio Germnico. Por volta de 972 foi
estudar em Reims, onde ficaria depois lecionando por muitos anos. Em 997
trocou a Frana pela corte de Oto III.
      O imperador acolheu-o como um velho partidrio da famlia imperial, e
no tardou em conseguir sua nomeao para o arcebispado de Ravena (998).
Um ano depois, Gerbert era eleito papa. Primeiro francs a exercer o cargo,
credita-se geralmente a Gerbert (como papa Silvestre II) ter encorajado a
gloriosa viso de Oto de um Imprio Romano restaurado. Tambm se ops 
simonia e defendeu intransigentemente o celibato clerical, fazendo muito por
fortalecer a Igreja na Europa oriental. Alm de eminente estadista, Gerbert foi
um erudito completo. Os mtodos de ensino por ele criados foram
extremamente influentes na Europa setentrional. Ampliou o mbito do estudo
da lgica e levou a matemtica a uma nova posio de importncia. Foi
tambm um devotado colecionador de antigos manuscritos.
 J. Leflon, Gerbert: Humanisme et Chrtient au Xe sicle (1946) [P. Rich,
Gerbert d'Aurillac, le pape de Van mil, Paris, Fayard, 1987]

Simo de Montfort, o Moo (c. 1208-65) Chegou  Inglaterra em 1230 a fim
de insistir numa pretenso da famlia ao condado de Leicester. Garantiu sua
herana e impressionou tanto Henrique III que ganhou rapidamente o favor
real e casou em 1238 com a irm do rei, Leonor. Mais hbil e tenaz na defesa
de seus direitos do que outros favoritos reais, no tardou em indispor-se com
o monarca e, durante as duas dcadas seguintes, suas relaes foram
tempestuosas, sobretudo depois do controverso perodo de Simo corno
governador de Gasconha (1248-52). Entretanto, no foi ele o instigador do
bem estruturado movimento que forou Henrique a submeter-se ao controle
baronial nas Provises de Oxford (1258).
       Somente aps a desintegrao do governo baronial  que Simo se
tornou o ponto focal de oposio ao rei. No incio de 1264, rejeitou a Mise
d'Amiens, a arbitragem de Lus IX da Frana na disputa, e fez Henrique e seu
filho (o futuro Eduardo I) prisioneiros na batalha de Lewes em 14 de maio de
1264. Foi traado ento um novo esquema de governo, com Simo como
principal membro de um triunvirato dotado de poderes para controlar o rei.
Embora buscasse vivamente uma reconciliao com Henrique e em 1265
convocasse at um parlamento que, pela primeira vez, continha
representantes dos condados e burgos, na esperana de conseguir uma paz
duradoura, o rei recusou-se a aceitar qualquer compromisso que restringisse
a autoridade rgia. Quando Montfort brigou com o seu principal colega,
Gilberto de Clare, conde de Gloucester, e Eduardo escapou da priso, sua
posio desmoronou e Simo foi derrotado e morto em Evesham.
 M.W. Labarge, Simon de Montfort (1962); C.H. Knowles, Simon de
Montfort 1265-1965 (1965)

Simo de Montfort, o Velho (c. 1153-1218) Quarto conde de Leicester,
Simo juntou-se  Quarta Cruzada em 1199 e ops-se a que ela fosse
desviada da Palestina para Zara e Constantinopla (1204); preferiu zarpar para
a Terra Santa. Herdou o condado do seu tio materno em 1204, mas suas
terras foram confiscadas pelo rei Joo Sem Terra e s devolvidas em 1215.
Em 1207, Inocncio III tinha comeado a pregar a Cruzada Albigense,
esperando que Filipe Augusto assumisse a liderana e impedisse quaisquer
excessos de conduta. O envolvimento do monarca na guerra com a Inglaterra
impediu-o de empunhar a cruz, mas permitiu que seus bares o fizessem;
Simo de Montfort foi eleito para chefi-los.
     Soldado de grande coragem, era tambm um hbil diplomata. Derrotou
Raimundo VI, conde de Toulouse, em 1212, e o aliado de Raimundo, Pedro II
de Arago, no ano seguinte. Pareceu a muitos que Montfort e seus aliados
estavam dispostos a esbulhar a nobreza meridional, confiscando-lhes suas
propriedades. A Provena ergueu-se em revolta contra os cruzados e
Toulouse foi retomada em 1217 pelo filho de Raimundo, quando Montfort se
encontrava em Paris; este sitiou a cidade em 1217-18 mas foi morto numa
escaramua com o inimigo.
 B. Hamilton, The Albigensian Crusade (1974)

Simeo I czar da Bulgria 893-927 (n. c. 863) Filho de Bris I, foi o primeiro
governante blgaro a assumir o ttulo de "czar". Durante seu reinado o Imprio
Blgaro esteve no auge do poder. Simeo foi educado em Constantinopla
como um monge; assim, estava profundamente impregnado de civilizao
grega e fez muito por encorajar uma atmosfera de cultura e saber em sua
corte. Entretanto, estava muito preocupado com as guerras contra o Imprio
Bizantino, guerras que se originaram nos litgios a respeito de direitos de
comrcio e redundaram, por fim, numa disputa pela posse do trono imperial.
Simeo no conseguiu ocupar Constantinopla em 913 e 924; em 925,
proclamou-se imperador dos romanos e blgaros, provocando protestos do
imperador bizantino, Romanus Lecapenus, embora o ttulo fosse reconhecido
pelo papa. Aps sua morte, a dissenso interna contribuiu muito para
enfraquecer o Estado blgaro, atenuando-se desse modo o perigo com que
Constantinopla se defrontava.
 S. Runciman, A History of the First Bulgarian Empire (1930)

Simeo Estilita, So (c. 390-59) O primeiro dos ascetas da "coluna", Simeo
nasceu perto da fronteira sria da Cilcia. Aps alguns anos como monge no
mosteiro de Eusebona, perto de Antioquia, retirou-se para uma cela em
Telanissos, onde comeou a viver uma vida de extrema austeridade. Para
fugir s multides que se aglomeravam  sua volta, Simeo acabou por subir
ao topo de uma coluna, para que pudesse ter uma vida de tranqila
contemplao. Sua mais alta coluna, sobre a qual passou mais de 20 anos,
tinha cerca de 15 metros de altura, com uma balaustrada  volta do baco.
Passou a maior parte de sua vida entregue  orao, de p sobre a coluna
exposto s intempries e praticamente nada comendo. Essa nova austeridade
atraiu para ele uma corrente constante de peregrinos e teve numerosos
imitadores.

snodos Nos primrdios da histria da Igreja, as palavras "snodo" e "conclio"
foram freqentemente intercambiveis. Entretanto, no incio do sculo IV, as
grandes reunies ecumnicas como Nicia (325) passaram a ser
denominadas conclios, e uma assemblia de bispos de uma provncia ou
regio, bem como a do bispo e do clero de uma diocese, eram usualmente
referidas como snodos.

Skanderbeg (m. 1468) Lder da revolta albanesa contra os turcos, George
Castriota, que tinha estado a servio dos turcos como comandante de
Janzaros sob o nome de Skanderbeg, revoltou-se contra eles, tomou a
fortaleza de Kroja em 1443 e declarou-se cristo. Os turcos acabaram
triunfando em 1468, aps a morte de Skanderbeg, mas sua resistncia
herica, que rechaou os exrcitos de dois formidveis sultes, Murad II e o
prprio Maom II (conquistador de Constantinopla, 1451-81), ajudou a
consolidar um sentimento de unidade entre os turbulentos albaneses,
descendentes de um antigo povo ilrio.
 C. Chekrezi, Albania, Past and Present (1919); H. Inalcik, The Ottoman
Empire: the Classical Age (1973)

Snorri Sturluson (1179-1241) Geralmente considerado o maior dos autores
de sagas, Snorri Sturluson, embora nascido na Noruega, passou toda a sua
vida poltica e literria na Islndia. Suas maiores obras incluem a Edda em
Prosa, que, numa requintada forma literria, expe os elementos essenciais
da antiga mitologia nrdica, e o Heimskringla [O Crculo do Mundo], onde se
narra a histria dos reis da Noruega da dinastia Ynglinga desde os tempos
mitolgicos. Reputadamente o homem mais rico da Islndia e profundamente
envolvido na poltica da ilha, Snorri encontrou a morte no que pode ser
considerado um assassinato poltico. Ver sagas nrdicas
 The Prose Edda, org. por J. Young (1954); D.M. Wilson e P. Foote, The
Viking Achievement (1968) [Snorri Sturluson, Saga de Egil Skalla-Grimsson,
trad. E. Bernardez, Madri, Nacional, 1983]

solidus (italiano e portugus, soldo; francs, sou) Originalmente, uma moeda
romana de ouro introduzida por Constantino em 309 e pesando 4,55 gramas.
Como termo para designar a moeda-padro de ouro, o nome foi transferido
no sculo VII para o tremissis de peso reduzido que correspondia ao xelim
germnico, de modo que o soldo e termos cognatos nas lnguas romnicas
tornaram-se o equivalente de 12 pennies em moeda de conta. A primeira
moeda de prata a ser cunhada com o valor de um sou foi o gros tournois em
1266.

St. Andrews, Universidade de Fundada em 1410, foi a terceira universidade
a ser fundada na Gr-Bretanha e a primeira na Esccia. Um grupo de
professores e humanistas que tinham sido expulsos da Frana durante o
Grande Cisma chegou a St. Andrews; o mais conhecido deles era Laurence
de Lindores, cujas aulas sobre Aristteles foram influentes na Europa. Em
fevereiro de 1411 (ou, possivelmente, 1412), o bispo Wardlaw de St. Andrews
concedeu carta-patente ao grupo, enquanto que o status pleno de
universidade seria conferido em 1413 pelo papa Bento XIII.

Stilico, Flvio (c. 365-408) Meio vndalo e meio romano pelo nascimento,
foi o comandante supremo do Imprio Romano do Ocidente em 395-408.
Repeliu a invaso visigoda da Itlia (401-02) comandada por Alarico e mais
tarde destruiu um outro grande contingente de invasores, liderado por
Radagaisus, que ameaava assolar a Itlia (405). Sempre alimentara a
esperana de ampliar seu controle  prefeitura da Ilria, e em 407 preparou
sua anexao. Seus planos fracassaram e Stilico foi obrigado a pagar a
Alarico, um aliado na campanha, uma indenizao de 4.000 libras em ouro.
Sua boa estrela abandonou-o em 408: uma revoluo palaciana culminou em
sua priso e execuo.
 S. Mazzarino, Stilicone: La crisi imperiale dopo Teodosio (1942)

Subiaco Importante centro monstico no sculo VI, localizado perto de Roma,
que proporcionou educao religiosa, entre outros, ao grande papa Gregrio
I.  Gregrio quem fala do significado de Subiaco na Vida de So Bento de
Nrsia, de quem se diz ter passado muito tempo como eremita solitrio em
sua gruta nesse local, antes de criar as bases para uma ordem cenobtica.
 D.C. Butler, Benedictine Monachism (1927)

Sucia O reino sueco medieval adquiriu pela primeira vez uma forma
reconhecvel no sculo IV nas circunvizinhanas do Lago Malar, mas sua
histria poltica contnua s se tornou possvel no sculo IX, quando o seu
principal centro se fixou em Uppsala. A parte meridional da Sucia moderna, a
Scania, estava ento sob controle dinamarqus. Os ricos artigos tumulares
descobertos nos cemitrios aristocrticos de Valsgarde e Vendei do uma
certa idia da riqueza e do potencial da sociedade escandinava, mesmo antes
da dramtica ecloso da Era Viking. Os suecos desempenharam um papel
destacado nas expedies vikings, sendo dominantes na expanso para leste
mas tambm com uma presena clara no movimento ultramarino a oeste.
      No plano interno, porm, eles foram lentos na consolidao da
autoridade real e na aceitao da total converso ao Cristianismo. O resultado
foi um certo sentido de subordinao aos interesses da Dinamarca e dos
mercadores hanseticos que, a partir do sculo XIII, se instalaram firmemente
na ilha de Gotland. Houve certa colonizao sueca na Finlndia no sculo XIV,
mas em 1397, pela Unio de Calmar, a Sucia aceitou a suserania da rainha
Margarida da Dinamarca, que inaugurou um perodo de difcil domnio sobre
os reinos escandinavos unificados.
 L. Musset, Les peuples scandinaves au Moyen-Age (1951); M. Stenburger,
Sweden (1962); D.M. Wilson, The Vikings and their Origins: Scandinavia in
the First Millennium (1970)

Suger (c. 1085-1151) Abade de Saint-Denis. Importante mecenas das artes,
leal amigo e conselheiro de dois monarcas franceses, Lus VI e Lus VII. De
origem humilde, foi dado como oblato  abadia real de Saint-Denis com 10
anos de idade, e em 1094-1104 foi educado no priorado de l'Estre com o
futuro rei Lus VI. Em 1107 j estava dando provas de ser um hbil advogado
e diplomata. A pedido de Lus VI foi por duas vezes enviado a Roma (1122,
1123) em misses especiais; continuou sendo pelo resto de sua vida um
ntimo da famlia real. Em 1123 foi eleito abade de Saint-Denis, onde instituiu
mais tarde um programa de reforma, influenciado por seu amigo Bernardo de
Claraval. Suger parece ter tido duas ambies principais na vida: alm do seu
desejo de engrandecer a abadia de Saint-Denis, tambm procurou fortalecer o
poder da Coroa francesa. Quando Lus VII partiu na Segunda Cruzada (1147),
nomeou Suger regente da Frana. A excelente administrao das finanas do
pas realizada pelo abade durante esse perodo ajudou a fazer de Lus VII o
mais poderoso governante da Frana.
      Suger comeou reconstruindo Saint-Denis no final da dcada de 1130 e
o resultado  tradicionalmente considerado um dos primeiros exemplos do
estilo gtico na arte e na arquitetura. Seus numerosos escritos, como a Vida
de Lus VI, revelam seu talento como historiador. Suger morreu na abadia em
janeiro de 1151. Seu epitfio diz: "Pequeno de corpo e de famlia, cerceado
por uma dupla pequenez/Ele recusou-se, em sua pequenez, a ser um homem
pequeno."
 M. Aubert, Suger (1950); Abbot Suger: On the Abbey Church of Saint-
Denis and its Art Treasures, org. por E. Panofsky (1970); S. Crosby, The
Royal Abbey of Saint-Denis from its Beginnings to the Death of Suger (1987)

Sua As origens da Sua como unidade poltica remontam a 1291, quando
os trs cantes de lngua alem, Uri, Schwyz e Unterwalden, se uniram para
enfrentar a presso da dinastia Habsburgo. Seu xito estava associado 
lenda de Guilherme Tell de Uri, obrigado a pr em risco a vida de seu prprio
filho acertando com uma flecha uma ma colocada sobre a cabea do rapaz,
por mero capricho de um tirnico funcionrio Habsburgo. O crdito histrico
deve ser dado principalmente  tenacidade e bravura dos montanheses, s
dificuldades do terreno e aos esforos algo tbios de represso. Novos
cantes aderiram  federao no sculo XIV, Lucerna, Zurique, Berna e Zug,
e os acrscimos no final da Idade Mdia incluram Freiburg e Soleure. Basilia
s seria membro pleno nos comeos do sculo XVI e, na verdade, somente
nos tempos napolenicos  que a confederao adquiriu sua forma definitiva.
O interesse especial da Sua na Idade Mdia vem do seu xito em
estabelecer uma comunidade poltica permanente, organizada numa base no-
monrquica.
 E. Bonjour, H. Offler e G.R. Potter, Short History of Switzerland (1952); J.
Steinberg, Why Switzerland? (1976)

Suso, Henrique (c. 1296-1336) Pregador e mstico dominicano. Suso estudou
em Colnia (c. 1322 e 1325) com Mestre Eckhart, a quem admirava
profundamente. Sua principal obra, Bchlein der Ewigen Weisheit [O Pequeno
Livro da Sabedoria Eterna] (c. 1328),  um dos clssicos do misticismo
alemo. Foi muito lido nos sculos XIV e XV, e teve Toms de Kempis entre
seus admiradores. Suso tambm pregou ampla e eficientemente na Sua e
na regio do Alto Reno.
 J.M. Clark, The Great German Mystics (1949)

Sutri, Snodo de (1046) Diante de uma situao intolervel em Roma, onde
nada menos de trs homens (Bento IX, Silvestre III e o respeitvel Gregrio
VI) tinham pretenses ao Papado, o imperador Henrique III convocou um
snodo para Sutri e depois para Roma, onde os trs pretendentes foram
depostos e o ttulo papal passou para o bispo alemo de Bamberg, Clemente
II, que ento coroou Henrique como imperador romano-germnico (Natal de
1046).
 Hildebrandine Essays, org. por J.P. Whitney (1932)
                                    T
Tamerlo (1336-1403) C mongol desde 1370, tambm conhecido como
Timur-i Lang ou Timur, o Manco. De nobre origem turca, embora pretendendo
ser descendente de Gngis Khan, conseguiu com sua ambio reconstruir o
Imprio mongol do sculo XIII. Com Samarcanda como sua capital, Tamerlo
tinha em 1400 controlado todos os territrios sob domnio mongol na sia
Central, invadido a Prsia, a Mesopotmia e a Sria, e imposto sua autoridade
desde Moscou, ao norte, at  ndia setentrional, ao sul. O carter selvtico
de suas campanhas no impedia que o Ocidente e Bizncio considerassem
Tamerlo um possvel aliado contra os otomanos, e tanto cristos quanto
turcos morreram na grande batalha de Ankara (1402), na qual Tamerlo
derrotou e capturou Bajazet I, o sulto Otomano. Completando sua conquista
da Anatlia, ele cercou vitoriosamente a ltima cidade crist da sia Menor,
Esmirna, nesse mesmo ano.
      Com sua morte, ocorrida quando Tamerlo estava avanando sobre a
China, seu imprio desintegrou-se, sendo a dinastia preservada apenas pelos
grandes senhores de Delhi. O Imprio Bizantino decadente nunca foi
suficientemente forte para tirar partido da decomposio do poder Otomano
na sia, embora a interveno de Tamerlo tivesse lhe permitido mais 50
anos de vida.
 H. Hookhmam, Tamburlaine the Conqueror (1962); D.M. Nicol, The Last
Centuries of Byzantium (1972)

Tancredo de Hauteville Baronete normando das vizinhanas de Coutances,
clebre unicamente pelas carreiras de seus numerosos filhos que viajaram
para o sul da Itlia em meados do sculo XI em busca de fortuna. Dos cinco
filhos nascidos da primeira mulher de Tancredo, Muriella -- Guilherme (m.
1046), Drogo (m. 1051), Onfredo (m. 1057), Godofredo e Serlon -- os
primeiros trs foram, sucessivamente, condes da Aplia. O seu segundo
casamento com Fredesende gerou sete filhos -- Roberto Guiscard (m. 1085),
Mauger, Guilherme, Alberico, Tancredo, Humberto e Rogrio (m. 1101) -- e
tanto o mais velho quanto o mais novo desta prole tiveram carreiras
espetaculares; estiveram envolvidos na conquista da Siclia (concluda em
1091), que Rogrio governou como gr-conde. Roberto Guiscard, aps o
reconhecimento pelo papa como duque da Aplia e da Calbria (1059),
envolveu-se na poltica papal e bizantina, e foi responsvel em 1084 pelo
saque de Roma. Ver Roberto Guiscard; Rogrio I
 J.J. Norwich, The Normans in the South (1967); D.C. Douglas, The Norman
Achievement (1969)

Tannenberg, batalha de (1410) Esta batalha marcou o trmino da influncia
e do prestgio dos Cavaleiros Teutnicos, em confronto com o nacionalismo
crescente da Polnia. O conflito centrou-se na provncia de Samogcia, na
costa do Bltico, que separava as colnias teutnicas da Prssia e da Livnia,
e que a Polnia e a Litunia (unidas desde 1386) tinham cedido  Ordem em
1404 em troca da provncia de Dobrzyn. Em 1410, suspeitando de
cumplicidade lituana em revoltas que estavam ocorrendo em Samogcia, os
Cavaleiros Teutnicos invadiram Dobrzyn e foram derrotados em Tannenberg
pela nobreza polonesa. A Paz de Thorn (1411) propiciou um acordo, mas a
guerra eclodiu de novo e os Cavaleiros Teutnicos foram compelidos a
renunciar  Samogcia em 1422.

tar (pl. tars ou tareni) De uma palavra rabe que significa "novo", na acepo
de recm-cunhado. Foi o nome originalmente dado ao quarto de dinar (1,06
grama) dos rabes na Siclia e s imitaes dos mesmos cunhadas em Amalfi
e Salerno (sculos XI a XIII) e na Siclia pelos normandos e seus sucessores
at 1278. A partir de meados do sculo XII, as moedas, embora mantendo a
mesma pureza, deixaram de ser cunhadas com um peso uniforme, se bem
que o trappeso (tar-peso) continuasse sendo, como peso, equivalente a 1/30
de ona.
Tarique (Tariq ibn Ziyad) Comandante berbere do norte da frica que iniciou
a conquista muulmana da Pennsula Ibrica. Em 711 atacou a costa
hispnica com uma fora de 7.000 berberes nas proximidades de Gibraltar
(topnimo que deriva de Geb-el-Tariq, "Rochedo de Tarique") e em seguida
penetrou at um lugar vizinho de Sidnia onde, no mesmo ano, reforado com
um novo contingente de 5.000 homens enviados por seu superior, Musa,
derrotou o usurpador Rodrigo, ltimo rei da Espanha visigoda. Tarique e Musa
continuaram juntos a conquista, ocupando a maior parte da pennsula, que
permaneceu em mos muulmanas durante toda a Idade Mdia. Em 713, os
dois chefes brigaram, possivelmente a respeito da diviso dos despojos, e
foram chamados de volta a Damasco, onde Musa foi acusado de deslealdade
e a lealdade de Tarique foi posta em dvida. Ambos morreram pouco depois
na obscuridade.
 H.V. Livermore, The Origins of Spain and Portugal (1971)

Tassilo duque da Baviera 748-88 (n. c. 742) Aps uma conturbada
menoridade, foi reposto no trono ducal aos 15 anos de idade por Pepino, o
Breve, rei dos francos, a quem se submeteu como vassalo em 757. Os
Annales Regni Francorum do sculo VIII relatam a solenidade do evento, a
primeira meno conhecida do juramento de vassalagem e submisso feito
com as mos (per manus). No reinado de Carlos Magno, Tassilo por duas
vezes ab-jurou seu juramento, submetendo-se finalmente e oferecendo seu
filho Teodo como refm quando foi militarmente atacado em 787. No ano
seguinte, aps a sentena de morte pedida pela assemblia geral em
Ingelheim ter sido comutada por Carlos Magno para priso perptua, ele
ingressou num mosteiro. Em 794, por ordem de Carlos Magno, ele
reapareceu a fim de renunciar publicamente aos seus direitos de famlia, na
Baviera, e o controle da provncia passou para os francos.
 D. Bullough, The Age of Charlemagne (1965); Carolingian Chronides, org.
por B.W. Scholz e B. Rogers (1970)

Tauler, Joo (c. 1300-61) Com Eckhart e Suso, um dos trs grandes
msticos renanos do sculo XIV. Natural de Estrasburgo, onde passou a maior
parte de sua vida ativa, tornou-se frade dominicano desde muito cedo e
dedicou-se  pregao. Seu tema central era o mtodo pelo qual a alma pode
ser preparada para sua unio com Deus, e foi expresso em termos msticos e
simples, apropriados s freiras dominicanas e aos leigos devotos a quem se
dirigia. Suas obras sobreviventes consistem em sermes em vernculo e uma
carta, e foram largamente lidos durante sua vida. Lutero conhecia e admirava
as obras de Tauler, embora os telogos catlicos do sculo XVI o
suspeitassem do quietismo. O interesse por Tauler foi reavivado no sculo XIX
por telogos catlicos e protestantes.
 J.M. Clark, The Great German Mystics (1949)

Teodora (m. 548) Esposa de Justiniano I. A bela filha do guardador dos ursos
no anfiteatro de Constantinopla, Teodora, casou com Justiniano depois que
ele a elevou ao patriciado e persuadiu seu tio, Justino I, a revogar a lei que
proibia o casamento de senadores com atrizes. Ela tornou-se imperatriz com
a subida de Justiniano ao trono em 527, embora fosse desprezada por parte
da aristocracia por causa de seus antecedentes pouco decorosos.
      Ela foi atrada para a heresia monofisista, ao contrrio de seu marido
intensamente ortodoxo, e usou sua influncia para proteger os adeptos dessa
doutrina, instalando um mosteiro monofisista no palcio de Hormisdas,
protegendo bispos refugiados e tendo um papel decisivo na deposio do
papa Silvrio e em sua substituio pelo mais dcil Viglio. A influncia de
Teodora, no entanto, era limitada; ela foi incapaz de afetar a poltica religiosa
de Justiniano e, apesar de sua forte averso pessoal a Joo da Capadcia
(prefeito pretoriano de Justiniano no leste), precisou de dez anos para
maquinar a sua queda.
      Muito do que se sabe a respeito de Teodora est colorido pelos tons
escandalosos e tendenciosos da obra de Procpio, embora ele prprio
reconhea a fora de carter da imperatriz. Isso ficou demonstrado com
extrema clareza por ocasio da revolta de Nike (532), quando as faces
circenses normalmente inimigas, os Verdes e os Azuis, uniram suas foras
numa tentativa de depor Justiniano. Procpio relata as palavras de Teodora:
"Que um imperador se converta num fugitivo  algo insuportvel... O manto
prpura faz uma excelente mortalha." Essas palavras despertaram os brios do
medroso Justiniano, que estava a ponto de fugir, e estimularam-no a ficar e
esmagar a revolta.
 Procpio, The Secret History, trad. G.A. Williamson (1966); C. Diehl,
Theodora of Byzantium (1972)

Teodorico, o Grande rei dos ostrogodos 490-526 (n. c. 455) Teodorico, o
Amal, chamado Dietrich de Berna na Cano dos Nibelungos, governou sobre
a grande parte do Imprio Romano do Ocidente, incluindo a Itlia, Siclia,
Dalmcia, Nrica e Rcia; tambm era senhor, em nome de seu neto, do reino
visigodo da Espanha e Septimnia. Passou sua infncia e juventude em
Constantinopla; foi em nome do imperador Zeno que invadiu a Itlia e em 493
derrotou Odoacro (que em 476 depusera o ltimo imperador ocidental,
Rmulo Augstulo). Teodorico no fez reivindicaes imperiais e contentou-se
em governar como rei, uma posio tacitamente reconhecida pelos
imperadores orientais ao devolverem-lhe os privilgios reais que Odoacro
tinha entregue a Zeno.
      Teodorico admirava a civilizao romana e cita-se o seu comentrio: "um
godo competente quer ser como um romano; somente um romano medocre
quer ser como um godo." Na Itlia, adotou uma poltica conciliatria,
respeitando o Senado e as instituies romanas, e permitindo a seus sditos
romanos e godos que conservassem suas prprias leis e funcionrios. Em sua
corte de Ravena, empregou romanos como seus funcionrios civis, reservando
as posies militares para os godos. At mesmo a distribuio de terras feita
em benefcio de seus seguidores, depois da conquista, parece ter sido
realizada sem incidentes.
      Embora Teodorico fosse um ariano, manteve-se em bons termos com a
Igreja Catlica e atuou ocasionalmente como rbitro em assuntos
eclesisticos, como no caso do cisma laurentino de 498, quando dois papas
foram eleitos simultaneamente. Entretanto, em 523, Justiniano, o imperador
oriental, proscreveu o Arianismo em todo o Imprio, um evento que abalou a
autoridade de Teodorico na Itlia e resultou em conspiraes senatoriais
contra ele. Suas represlias foram severas, sendo o filsofo Bocio a mais
notvel vtima. Teodorico faleceu antes que suas medidas contra os catlicos
pudessem ser totalmente implementadas. A luta que se seguiu pela sucesso
acabou desencadeando a campanha de Justiniano de Reconquista da Itlia.
 W. Ensslin, Theodorich der Grosse (1947); A.H.M. Jones, The Later Roman
Empire 284-602 (1964); C. Wickham, Early Medieval Italy (1981)

Teodoro de Tarso (602-90) Arcebispo de Canterbury desde 668. Embora
com 66 anos de idade na data de sua nomeao e precisando conhecer os
procedimentos da Igreja inglesa, Teodoro provou ser um grande poltico
eclesistico, responsvel pela organizao de um episcopado diocesano
regular. Considerado por Beda "o primeiro arcebispo a quem toda a Igreja da
Inglaterra obedeceu", presidiu a dois importantes conclios (Hertford, em 672,
e Hatfield, em 679). Durante seu arcebispado, Canterbury tornou-se um centro
de erudio latina e grega. Suas Poenitentiale, compiladas aps sua morte,
tiveram grande influncia sobre a futura disciplina penitencial nas igrejas da
Inglaterra e Alemanha.
 H. Mayr-Harting, The Corning of Christianity to Anglo-Saxon England
(1972)

Teodosiano, Cdigo (438) Compilao de todas as constituies imperiais
promulgadas desde o reinado de Constantino em diante e publicadas nos
nomes de Teodsio II e Valentiniano III, imperadores do Oriente e do
Ocidente. Essa publicao oficial substituiu duas coletneas particulares
anteriores, os Cdigos Gregoriano e Hermogeniano. Os membros da
comisso de Teodsio, sob a presidncia de Antoco, o prefeito pretoriano,
consumiram oito anos na tarefa, pesquisando arquivos provinciais e colees
de direito privado a fim de produzir um registro permanente da legislao
imperial. O Cdigo  de grande valor como fonte de material para um perodo
escassamente documentado da histria romana, e com o aditamento de novos
decretos publicados aps o Cdigo (Novellae), influenciou o conjunto de
disposies legais dos visigodos e constituiu a base para o Cdigo de
Justiniano (529).
 The Theodosian Code and Novels, and the Sirmondian Constitutions, trad.
C. Pharr (1952)

Teodulfo (c. 750-821) Bispo de Orlans e abade de Fleury. Visigodo
hispnico pelo nascimento, tornou-se uma destacada figura teolgica e
literria na corte de Carlos Magno, servindo como legado real no sul da
Frana (798) e participando no julgamento do papa Leo III em Roma (800).
Suspeito de cumplicidade na revolta (817) de Bernardo da Itlia contra o
sucessor de Carlos Magno, Lus, o Piedoso, Teodulfo foi deposto em 818 e
exilado em Angers.
       Acredita-se hoje, de um modo geral, ter sido ele o autor dos Libri
Carolini, uma douta exposio da posio Carolngia oficial a respeito da
controvrsia iconoclasta que ento dividia as Igrejas oriental e ocidental. Suas
obras incluem uma verso da Vulgata, o poema Adjudices, no qual d
conselhos aos juizes baseados em sua experincia pessoal e outros poemas,
alguns satricos, que fornecem um quadro fascinante da vida na corte. Seus
estatutos episcopais, contendo conselhos para clrigos e leigos, foram
populares e influentes durante sua prpria vida.
 A. Freeman, "Theodulf of Orleans and the Libri Carolini", Speculum, 32
(1957), 40 (1965) e 46 (1971); H. Liebeschtz, "Theodulf of Orleans and the
problem of the Carolingian Renaissance", Fritz Saxl 1890-1948, org. por D.J.
Gordon (1957)

Tefane (m. 991) Esposa de Oto II. Enrgica princesa grega, parente do
imperador bizantino Joo I Tzimiskes (969-76). Seu casamento com o
imperador germnico Oto II em 972 implicou o reconhecimento da dinastia
Saxnica como imperadores do Ocidente. Com Adelaide, sua sogra, ela
tornou-se co-regente em nome de seu filho Oto III, aps a morte de Oto II em
983. Ambas as mulheres adotaram o ttulo de Augusta, mas Tefane provou
ser a parceira dominante, usando ocasionalmente o ttulo masculino de
imperator augustus. Sua presena, embora no afetasse sensivelmente as
relaes entre os dois Imprios, abriu novos caminhos para a influncia
bizantina na Alemanha. Oto III introduziu cerimoniais e cargos gregos em sua
Corte, mas faleceu antes que se concretizasse o seu planejado casamento
com uma princesa grega.
 K. Hampe, Germany under the Saxon and Salian Kings (1973)

testamento Instrumento legal mediante o qual um proprietrio toma
disposies quanto  transmisso e distribuio de suas terras e outros bens
patrimoniais aps sua morte. Tais transaes eram comuns entre as classes
mais ricas do mundo romano, mas na Europa ocidental nos primrdios da
Idade Mdia, foram geralmente impedidas pela prtica de repartir as terras e
demais bens patrimoniais entre os membros da famlia, e pelo direito feudal e
consuetudinrio. A partir do sculo XI, os testamentos comearam a aparecer
com maior freqncia quando clrigos familiarizados com o direito romano
encorajaram a livre transmisso de terras e estabeleceram controles
eclesisticos sobre os processos legais envolvidos.
 Anglo-Saxon Wills, org. por D. Whitelock (1930); S. Epstein, Wills and
Wealth in Medieval Genoa 1150-1250 (1984)

Teutnicos, Cavaleiros (Cavaleiros da Espada) Fundada em 1198 como
Ordem Religiosa e Militar  semelhana dos Hospitalrios, os Cavaleiros
Teutnicos logo adquiriram terras na Alemanha e na Sria. Apoiaram a
Cruzada de Frederico II, que em 1226 lhes concedeu a Prssia oriental.
Desse ano em diante, inicialmente como auxiliares do duque polons de
Masvia, eles comearam a submeter e converter os prussianos, e
construram seu primeiro centro fortificado em Thorn, em 1231.
Gradualmente, suas possesses blticas (as quais, no sculo XIV, chegavam
at o golfo da Finlndia) dominaram suas atividades e, aps a queda de Acre
(1291), que eles ajudaram a defender, os Cavaleiros Teutnicos deram por
terminada sua associao com as Cruzadas. Em 1283, a Prssia estava
implacavelmente subjugada; populaes locais foram exterminadas para dar
lugar aos novos povoadores alemes, revoltas foram drasticamente sufocadas
e grande parte da populao nativa foi reduzida  servido. Em 1410, a
Ordem tinha estabelecido 1.400 aldeias e 93 novas cidades em suas terras
prussianas e entrara em conflito com a Polnia, que a derrotou na batalha de
Tannenberg. A Prssia tornou-se ento um feudo da Coroa polonesa, nos
termos da Segunda Paz de Thorn (1466). Em 1525, o gro-mestre dos
Cavaleiros Teutnicos aceitou a doutrina de Lutero; a Ordem secularizou-se e
o gro-mestre tornou-se o primeiro duque da Prssia.
 G. Barraclough, The Origins of Modern Germany (1966); O. Halecki, A
History of Poland (1978) [S. Runciman, Historia de Ias Cruzadas, Madri,
Alianza, 1973, vol. 3]

Thierry de Chartres (m. 1151) Um dos mais poderosos intelectuais e
professores do sculo XII, irmo de Bernardo de Chartres, lecionou em Paris
e seus subrbios na dcada de 1130 e possivelmente mais cedo. Tornou-se
chanceler e arcediago de Chartres em 1142. Escreveu copiosamente, desde
comentrios sobre Ccero, a Gnese, a cosmologia, at, e principalmente,
sobre Bocio. Desempenhou um papel especial na transmisso do
pensamento platnico no Ocidente, e seu Heptateuchon tornou-se
reconhecidamente o compndio clssico sobre as artes liberais.
 [C.N.L. Brooke, O Renascimento do Sculo XII, Lisboa, Verbo, 1972]

Thomas, conde de Lancaster (c. 1278-1322) Senhor de cinco condados,
conselheiro real e poderoso defensor das controversas Ordenaes de 1311,
ganhou o dio de Eduardo II por seu envolvimento no assassinato de Piers
Gaveston, o favorito do rei. A derrota de Eduardo na batalha de Bannockburn
(1314) aumentou a influncia de Lancaster, que no entanto no soube
organizar um partido que se mantivesse unido  sua volta. Incapaz de entrar
em acordo com os magnatas "moderados" ou o partido da Corte, foi em
aliana com os lordes fronteirios -- irritados com o comportamento de Hugo
Despenser, o novo favorito de Eduardo II -- que Thomas foi derrotado pelas
foras reais em Boroughbridge (1322). Foi executado aps um julgamento
sumrio.
 J.R. Maddicott, Thomas of Lancaster (1970)

Tiro Florescente porto industrial e comercial na costa sria, passou para as
mos dos cruzados em 1124 aps um cerco de cinco meses. Fortemente
defendido por seu istmo amuralhado, foi um dos poucos territrios na posse
dos latinos que sobreviveu s campanhas de Saladino; a ponto de render-se
em 1188, recobrou as foras e o nimo sob o decidido comando de Conrado
de Montferrat. Conrado foi morto pela seita dos assassinos pouco depois de
ter sido escolhido para ser o prximo rei de Jerusalm, e o controle de Tiro
tornou-se um motivo de disputa entre vrios prncipes latinos at ser
abandonado sem luta ao sulto Al-Ashraf em 1291, quando o domnio latino na
Sria chegou ao fim.

Toledo, Conclios de Esses conclios gerais da Igreja Catlica espanhola dos
sculos VI e VII aumentaram de importncia quando o rei visigodo Recaredo I
se converteu do Arianismo ao Catolicismo. Ele anunciou sua converso no
Terceiro Conclio de Toledo (589) e da em diante foi realizada uma srie de
importantes conclios gerais at o final do reino visigodo da Espanha em 711.
      Alm de se ocuparem de negcios eclesisticos, os conclios envolviam
os bispos na administrao secular do reino, embora parea que o papel
deles no fosse o de legislar, mas apenas de discutir e depois confirmar
medidas que lhes eram apresentadas pelo monarca. A partir do Oitavo
Conclio (653), funcionrios reais tambm teriam participado, segundo parece.
Os cnones promulgados pelos conclios abrangiam matrias tais como a
disciplina do clero, a observncia da uniformidade da prtica religiosa, a
punio da heresia e a extirpao do paganismo. Quase todos os conclios
promulgaram severas medidas anti-semticas, proibindo regularmente o
casamento entre judeus e cristos, e a participao em ritos religiosos
judaicos, com pesadas penas nos casos de desobedincia. Os conclios s
eram convocados por ordem do rei e estavam predominantemente sob seu
controle. O 75 Cnone do Quarto Conclio (633), considerado por E.A.
Thompson "o mais famoso cnone de quantos foram acordados pela Igreja
espanhola", decreta que a sucesso real deve ser determinada pelos bares
e bispos do reino, reunidos em conselho comum; impe antema a quem quer
que viole seu juramento de vassalagem ou tente usurpar o trono, e intima o rei
a governar moderada e piedosamente.
 [R. Collins, Espaa en la Alta Edad Media, Barcelona, Critica, 1986]

Totila rei dos ostrogodos 541-52 ltimo grande rei ostrogodo, Totila reanimou
a resistncia gtica  Reconquista da Itlia por Justiniano. Recrutando
escravos e camponeses para aumentar sua fora de 5.000 godos,
reconquistou o sul da Itlia e desbaratou as limitadas e insubordinadas tropas
de Belisrio, general de Justiniano. Em 550 capturou Roma e avanou sobre a
Siclia. Finalmente, foi derrotado pelo substituto de Belisrio, Narses, que
chegou com reforos e fundos suficientes para pagar os soldos devidos s
tropas imperiais. Totila foi morto na batalha de Busta Gallorum, e poucos
meses depois seu sucessor, Teias, foi igualmente derrotado por Narses,
assim acabando o reino ostrogodo da Itlia.
 T. Hodgkin, Italy and her Invaders, vol. 5 (1916)

Trebizonda, Imprio de (1204-1461) Fundado na costa sudeste do Mar
Negro pelos irmos Aleixo e Davi, netos do imperador bizantino Andrnico I, o
Imprio sobreviveu como Estado cristo independente at sua conquista por
Maom II em 1461, sendo o ltimo dos Estados gregos a resistir-lhe. Seus
governantes, oriundos da famlia Comneno, usaram o ttulo de "Imperadores
de todo o Oriente", e o Imprio ficou famoso por suas riquezas e pela beleza
de suas princesas; seu metropolita foi alvo de grande reverncia e honrarias
no Conclio de Florena (1439).
     A posio geogrfica do Imprio nas rotas comerciais entre o Oriente e
o Ocidente atraiu mercadores genoveses e venezianos, que tinham bairros
separados na cidade; os genoveses, em especial, mostraram ser hspedes
muito turbulentos. Mas a situao isolada do Imprio -- uma estreita faixa
costeira cercada por Estados muulmanos que a separavam do Imprio
Grego -- tornou impossvel a independncia completa, e os imperadores de
Trebizonda protegiam-se submetendo-se, em vrias pocas, ao Imprio
Latino de Constantinopla (1204-61), ou aos emires muulmanos locais, ou aos
otomanos e mongis. Alianas matrimoniais com a casa imperial grega e com
os emires circundantes tambm faziam parte do esquema.
      A famlia Comneno sobreviveu s guerras dinsticas e s revolues
palacianas, sobretudo durante o sculo XIV, e o Imprio manteve seu carter
grego apesar dos casamentos mistos e de uma populao heterognea.
Muitas fundaes religiosas foram feitas por seus governantes, incluindo o
mosteiro de Dionysion no Monte Atos; a mais bem preservada, hoje em dia, 
a igreja monacal de Santa Sfia, datada do sculo XIII e rica em decorao
escultrica e pinturas murais. A queda de Constantinopla em poder dos
otomanos, em 1453, tornou inevitvel o colapso de Trebizonda. Depois que
seus aliados dos emirados circundantes caram, um por um, o Imprio rendeu-
se em 1461 e o ltimo imperador foi executado por ordem de Maom II em
1463.
 W. Miller, Trebizond, the Lest Greek Empire (1926); A.A.M. Bryer, The
Empire of Trebizond and the Pontos (1980)

Trs Captulos A controvrsia em torno dos Trs Captulos, como acabaram
sendo chamados certos escritos suspeitos de nestorianismo, estava ligada 
diviso maior entre cristos monofisistas e calcedonianos. Esperando, talvez,
conseguir reconciliar os dois grupos, o imperador Justiniano denunciou os Trs
Captulos em 544 e forou o relutante papa Viglio e o Quinto Conclio
Ecumnico a fazerem o mesmo. Nenhuma reconciliao resultou disso; pelo
contrrio, embora a Igreja oriental aceitasse a deciso, o Ocidente sentiu-se
afrontado (sobretudo na frica), houve cisma entre o sucessor de Viglio,
Pelgio I, e algumas das igrejas italianas, e considervel dano foi causado ao
prestgio papal.

Triboniano (m. 542) Nomeado questor por Justiniano em 529, Triboniano foi o
grande responsvel pelo vasto conjunto de codificao legal que ficou
associado ao reinado. Ele serviu numa comisso de oito membros que
prepararam o primeiro Codex Justinianus, uma coleo de editos imperiais
vlidos desde o tempo de Adriano; e com Doroteus, professor em Berytus, e
trs eminentes juristas, Triboniano foi responsvel pela reviso do Cdigo
publicada em 534. Esteve a seu cargo a preparao do Digesto (Pandectas)
de 533, a primeira tentativa de apresentar num sistema ordenado as decises
e os pareceres de juristas romanos, fazendo uso de excertos de 200-300
tratados por cerca de 40 autores, com predomnio de Ulpiano e Paulo.
Tambm lhe foi encomendada a produo de um manual para estudantes, o
Instituies (Institutas), publicado tambm em 533. Embora grande erudito e
administrador, Triboniano adquiriu fama de venal e foi um dos funcionrios de
Justiniano cuja demisso foi exigida pelas multides durante a rebelio de Nike
em 532. Voltou a ser nomeado questor em 535 e conservou o cargo at sua
morte.
 A.M. Honore, Tribonian (1978); C. Mango, Byzantium: The Empire of New
Rome (1981)

Tribur, Dieta de (1076) Convocada durante a Questo das Investiduras,
numa poca em que o imperador Henrique IV e o papa Gregrio VII se
excomungavam mutuamente. Henrique defrontava-se com uma oposio
alem unida que o intimava a livrar-se da excomunho no prazo de quatro
meses ou a aceitar sua deposio e viver como um cidado comum at que
fosse anunciada a deciso do papa sobre o assunto. Programou-se uma
segunda reunio a ser realizada em Augsburgo e presidida pelo papa, mas
antes disso o imperador realizou sua famosa viagem secreta a Canossa, onde
se reconciliou temporariamente com Gregrio. Isso foi considerado uma
violao do acordo de Tribur por ambas as partes, na opinio de muitos dos
prncipes alemes decididos a depor Henrique, o que os levou no ano
seguinte, em Forchheim, a eleger Rodolfo da Subia como o seu novo rei,
precipitando assim muitos anos de guerra civil.
 G. Barraclough, The Origins of Modern Germany (1966)

Tristo e Isolda Uma das grandes histrias de amor da Idade Mdia. O
romance de Tristo e Isolda, arraigado em tradies que provavelmente
remontam ao perodo de dominao viking na Irlanda, no sculo X, recebeu
forma artstica completa no mundo anglo-normando no sculo XII.
      Foi escrito em francs, traduzido para o alemo pelo grande poeta
Gottfried von Strassburg (c. 1210) e com verses tambm em ingls e
noruegus arcaico. Uma extensa verso em prosa incorpora muito material
arturiano, comparando os talentos e reputaes de Tristo e Lancelote como
cavaleiros e como amantes. A Cornualha e, em especial, Tintagel fornecem a
localizao central da histria, a qual gravita em torno do mundo celta desde
Cmbria at a Irlanda e a Bretanha. Os principais personagens so o prprio
Tristo, o rei Marcos da Cornualha (tio de Tristo), Isolda da Irlanda e Isolda
da Bretanha. Os ingredientes da histria, diversamente combinados nas
diferentes verses, constituem a quintessncia do romance medieval: um
sobrinho perdido, um esposo nobre e confiante cuja confiana  trada,
poes de amor forando um amor sem esperana em circunstncias
impossveis, taas envenenadas, armas envenenadas, remdios milagrosos,
drages e desastres, morte trgica inevitvel e tambm tramada, e a
sobrevivncia do amor aps a morte.
 R. Curtis, Tristan Studies (1969) [O romance de Tristo e Isolda, org. por J.
Bdier, S. Paulo, Martins Pontes, 1988]

Trivium As sete artes liberais formaram a base da educao na Idade Mdia
e estavam divididas, desde o perodo carolngio, aproximadamente, em
Trivium e Quadrivium. As trs artes do Trivium -- gramtica latina, retrica e
dialtica -- foram assim definidas por Hugo de Saint-Victor: "A gramtica  o
conhecimento de como falar sem cometer erro; a dialtica  a discusso
perspicaz e solidamente argumentada por meio da qual o verdadeiro se
separa do falso; e a retrica  a disciplina da persuaso para toda e qualquer
coisa apropriada e conveniente."
     No sculo XII, uma nfase maior foi atribuda  dialtica (lgica), e houve
considervel controvrsia entre os defensores da antiga lgica e os
proponentes da nova lgica, criada pela redescoberta de Aristteles. A
dialtica, com sua nfase racional e especulativa, foi considerada inicialmente
perigosa quando aplicada  teologia; mas cresceu em importncia quando o
Trivium comeou a perder algum terreno, embora a gramtica continuasse
sendo uma base necessria da educao medieval e a retrica conservasse
um lugar importante nas universidades italianas. Ver educao
 A. Piltz, The World of Medieval Learning (1981)

trovadores Comeando com as canes de Guilherme IX da Aquitnia (1071-
1127), que vo do obsceno atravs do sensual at o requintado, e terminando
com Guiraut Riquier (m. 1292), que rejeita o amor profano e canta em louvor
da Virgem Maria, os trovadores, poetas-msicos das cortes do sul da Frana,
deixaram uma rica e variada herana literria. Outros expoentes muito
conhecidos incluem Marcabru, Jaufre Rudel, Bernart de Ventadorn, Arnaut
Daniel, Bertran de Born, Peire Cardenal e Guiraut de Bornelh. Celebravam a
doutrina do fn' amors, a glorificao ritual do sexo feminino e o culto do
verdadeiro amor, terreno e celeste. Suas canes -- algumas das melodias
sobreviveram -- eram compostas numa variedade de estilos, desde o "claro"
(leu) ao "obscuro" (clus), e abrangeram uma vasta gama de formas de
varivel grau de complexidade tcnica {canso, tenso, planh, sirventes etc). Os
trovadores exerceram uma profunda influncia no s na poesia lrica da
Europa ocidental mas tambm, de um modo geral, em sua literatura e, em
ltima anlise, talvez at nas atitudes sociais. Ver amor corteso
 A. Jeanroy, Histoire Sommaire de la Posie Occitane (1945); C. Camproux,
Histoire de Ia Littrature Occitane (1953); L.T. Topsfield, Troubadours and
Love (1975)

Tugril Beg (c. 993-1063) Neto do semilendrio Seljuc, chefe da tribo Ghuzz,
nas vizinhanas do mar de Aral, Tugril Beg  considerado o fundador da
dinastia Seljcida turca. Com seu irmo, Cha-gri Beg, suas conquistas
levaram-no atravs da Prsia at Bagd, onde derrotou o general bujida
Basasiri aps prolongada luta e foi investido como sulto pelo califa abssida
em 1058. Morreu sem filhos e foi sucedido por Alp Arslan, filho de Cha-gri,
sob cujo comando os seljcidas e seus indisciplinados seguidores, os
turcomanos, continuaram avanando de forma irresistvel. Na batalha de
Manzikert (1071) infligiram uma esmagadora derrota ao Imprio Bizantino, um
evento que levou indiretamente  pregao da Primeira Cruzada.
 J.J. Saunders, A History of Medieval Islam (1965)

turcos Ver otomanos, turcos; seljcidas, turcos

tutela A tutela era exercida sobre um feudo quando o herdeiro era menor de
idade. O rei, senhor feudal ou parente, administrava as propriedades em
nome do herdeiro at que este atingisse a maioridade, cumprindo os servios
devidos e, com freqncia, auferindo considerveis lucros das terras a seu
cargo.

Tyler, Wat Um dos principais lderes da Revolta dos Camponeses de 1381.
Wat Tyler, um soldado que tinha servido na Frana, comandou a revolta dos
homens do Kent e do Essex que invadiram a cidade de Londres. Os
dramticos eventos incluram a execuo do arcebispo Sudbury em Tower Hill
e a destruio pelo fogo do grande palcio de Joo de Gaunt no Savoy. No
que mostrou ser um confronto decisivo em Smithfield, Tyler foi derrubado e
morto por William Walworth, prefeito de Londres, na presena do jovem rei
Ricardo II.
 R.H. Hilton, The English Rising of 1381 (1985)
                                     U
Uccello, Paolo (1397-1475) Em sua longa carreira, Uccello destacou-se como
um dos mestres da escola florentina de pintura. Seus afrescos e painis
sobreviventes ilustram um ntido progresso tcnico, dos atributos mais
puramente decorativos da arte gtica para uma atitude cada vez mais
cientfica em relao  perspectiva e ao naturalismo.
 J. Pope-Hennessy, Paolo Uccello (1969)

Ugolino Ver Gregrio IX

Ulfila (c. 311-c. 383) Apstolo dos godos. Missionrio cristo ariano em
atividade entre os visigodos, para quem inventou um alfabeto gtico e traduziu
a Bblia. Construiu o seu alfabeto a partir de uma mistura de letras gregas e
latinas, e sua obra mostrou-se decisiva na transmisso da herana do mundo
culto mediterrneo aos povos germnicos na poca das grandes migraes.
 G.W.S. Friedrichsen, the Gothic Version of the Gospels (1926), The Gothic
Version of the Epistles (1939); The Conflict between Paganism and
Christianity in the Fourth Century, org. por A.D. Momigliano (1963)

universidades Como instituies, as universidades so uma criao medieval.
A     palavra universitas, significando "instituio autnoma", aplicava-se
regularmente s guildas e at as Comunas, e  indicativo do carter original
das universidades que elas tenham adotado primeiro esse nome e depois
apropriado-se dele. As primeiras universidades foram, com efeito, guildas,
comunidades de mestres responsveis pela concesso de graus e admisso
de homens em profisses, ou comunidades de estudantes. Gradualmente, a
totalidade do que seria agora chamado universidade -- o studium, como era
denominado -- passou a estar sob controle externo; mas o impulso inicial foi
independente.
       Os primeiros sinais de que a educao superior estava ficando
institucionalizada aparecem no sculo XII. C.H. Haskins observou que "em
1100 a escola seguia o professor; por volta de 1200, o professor seguia a
escola". Em Paris, a fama de Abelardo, Hugo de Saint-Victor e outros tinha
atrado um crescente nmero de estudantes, e quando eram mais do que a
escola da catedral poderia comportar, escolas rivais foram criadas na Rive
Gauche. Os mestres reuniam-se numa tentativa de controle da qualidade e
tipo de ensino, e nisso se defrontaram com o primeiro adversrio, o chanceler
da catedral de Notre-Dame, tradicional concedente da licena para lecionar.
Essa luta refletiu-se nas relaes entre estudantes universitrios e culminou
nos motins do Carnaval do ano letivo de 1228-29, quando a universidade
acabou sendo fechada por dois anos.
      Os professores saram desse episdio com muito maior controle sobre a
licena; um importante passo tinha sido dado ao alijarem os bispos da noo
de que detinham o monoplio do controle sobre a educao. Mas seguiu-se
uma outra controvrsia que dominaria o sculo XIII (e impeliria a universidade
para uma base constitucional mais slida), com a chegada a Paris dos frades
mendicantes, e suas tentativas para isentar os estudantes do curso "bsico"
de artes. A razo disso era, pelo menos em parte, a desconfiana dos frades
em relao a um curso de artes de orientao aristotlica; e assim, a
controvrsia em torno da estrutura das universidades foi paralela 
controvrsia sobre a absoro de Aristteles no sistema cristo.
      A estrutura parisiense tornou-se rapidamente o modelo para outras
universidades do norte da Europa. Uma importante variante foi Oxford e,
pouco depois, Cambridge; a, a fundao de colgios residenciais onde tinha
lugar a instruo encorajou o desenvolvimento do sistema preceptorial que se
mantm at hoje (a maioria dos colgios europeus eram, basicamente,
pensionatos).
      Em Bolonha, a organizao era muito diferente. A reputao de Bolonha
como um centro de direito (Irnrio, Graciano, Acrcio etc.) cresceu ao mesmo
tempo que a de Paris em relao  teologia, e atraiu estudantes mais velhos,
leigos e, em sua maioria, mais ricos, que estavam menos inclinados a aceitar
o controle dos mestres. O clima poltico conturbado da Itlia, com seus
conflitos urbanos endmicos, colocava tambm os cidados estrangeiros em
desvantagem e, antes de 1200, a se desenvolveram associaes de
estudantes por reas de estudo e, dentro de cada uma delas, por naes,
que usaram seu poder coletivo de barganha para obter um extenso controle
sobre seus empregados, os professores. Os estatutos dessas "universidades
estudantis" indicam que os estudantes exerciam o controle do programa de
ensino, multando aqueles que no lecionassem de acordo com o desejado, ou
com um mnimo requerido de ouvintes, e exigindo um juramento de obedincia
dos doutores, assim como dos fornecedores de livros e at mesmo dos
senhorios.
     Numerosas presses levaram a que esse sistema no durasse muito.
Em seu crescimento e no estabelecimento de suas constituies e direitos,
Paris e Bolonha tinham-se beneficiado consideravelmente com o apoio papal e
imperial. O imperador, empenhado em proteger o desenvolvimento do direito
romano, concedera importantes privilgios em Authentica Habita (1155),
enquanto que o papa, que tradicionalmente se via como guardio da
educao, apoiou a autonomia de ambas universidades (e, em especial, a
regulamentao dos graus). Quando o nmero de universidades recrudesceu
e a influncia constitucional de Paris e Bolonha se espalhou, o sistema foi
gradual mas fundamentalmente transformado. Foi ento a vez das foras
locais. Na Itlia, as universidades fundadas por Comunas tinham professores
na folha de pagamentos destas; Bolonha em breve seguiu esse exemplo. O
"poder estudantil", privado de boa parte de sua raison d'tre, declinou e, em
muitos lugares, subsistiu apenas como uma formalidade. Tambm em outras
cidades e pases as universidades foram fundadas atravs da iniciativa local,
quase sempre da Coroa, e organizadas como ramos da administrao local.
De cerca de 70 Universidades existentes por volta de 1500, somente as mais
antigas e mais poderosas retinham considervel independncia. O sistema
universitrio j estava largamente "domado", 200 anos aps sua criao.
      As universidades passaram a desempenhar um papel crucial na vida
intelectual, poltica e social da Europa. Sua influncia poltica  evidente no
modo como o crescimento da Universidade de Paris e o da cidade como
capital, no sculo XIII, esto estreitamente correlacionados; no modo como as
universidades eram assiduamente consultadas sobre opinies jurdicas
durante o Grande Cisma; e no modo como a Universidade de Praga atuou
como centro do nascente movimento bomio de reforma no tempo de Huss.
Isso era natural, uma vez que as universidades dominavam muitos campos
profissionais. O treinamento administrativo era preponderantemente
vocacional: um grau em artes era preliminar para a obteno de um grau
superior em teologia, direito ou medicina, e o syllabus refletia isso. Por
exemplo, havia um predomnio de lgica em Paris, onde o curso de artes era
mais freqentemente um preliminar para a teologia, ao passo que em Bolonha,
a "filosofia" um preliminar para a medicina, consistia principalmente em textos
mdicos de Aristteles. A influncia intelectual da universidade estendia-se, 
claro, alm do ensino formal; o mito de que as universidades se colocaram em
oposio ao movimento humanista do incio da Renascena, por exemplo,
est sendo demolido na medida em que os historiadores se do conta de
quantos humanistas receberam treinamento universitrio, quantos lecionaram
nelas e como seus interesses se insinuaram e gradualmente alteraram o
mbito dos cursos oferecidos e o modo como as matrias tradicionais eram
ensinadas.
     Os maiores contrastes com o sistema moderno relacionam-se com o
carter das universidades medievais como corporaes para treinamento
profissional. Um grau era, pelo menos no incio, uma licena para ensinar, e
esse fato reflete-se na espcie de treinamento que as universidades
forneciam -- com o debate pblico e o ensino de aprendizes desempenhando
papis proeminentes -- e na extenso dos cursos de graduao (16 anos
para um doutorado em teologia, alm do grau preliminar em artes). Isso
significava que comparativamente poucos estudantes levavam seus estudos
at a fase final de graduao. Uma conseqncia era a grande flexibilidade no
tocante  freqncia e a grande mobilidade entre universidades. Quando a
importncia da graduao como qualificao profissional aumentou, essa
mobilidade foi mantida pela intensa competio entre universidades. A velha
tradio do estudante errante recebeu assim um novo estmulo. O conceito de
comunidade de saber combinou-se com as tradies locais de cerimonial e
ritual universitrios para criar um poderoso mito acerca das tradies e
liberdades acadmicas, o que forneceu uma certa compensao para o
controle e a orientao profissional cada vez mais rgidos das universidades.
Ver educao; Roberto de Sorbon              PD
 H. Rashdal, The Universities of Europe in the Middle Ages (1936); L.
Thorndike, University Records and Life in the Middle Ages (1944); G. Leff,
Paris and Oxford Universities in the 13th and 14th Centuries (1968); A.B.
Cobban, The Medieval Universities: their Development and Organization
(1975); The University in Society, vol. I, org. por L. Stone (1975) [J. Verger,
Les universits au Moyen Age, Paris, PUF, 1973; J. Le Goff, Os intelectuais
na Idade Mdia, S. Paulo, Brasiliense, 1988]

Urbano II papa 1088-99 (n. Odo de Lagery em Chtillon-sur-Marne, c. 1040)
Ex-prior cluniacense e adepto do papa Gregrio VII, Urbano deu
prosseguimento ao programa reformador de Gregrio, embora evitando
extremos de confronto com os poderes seculares. Mesmo assim, ocorreram
de tempos em tempos grandes atritos com o imperador Henrique IV a
respeito do contnuo reconhecimento por este ltimo do antipapa Clemente II,
e com o rei francs Filipe I em torno de problemas matrimoniais. O arcebispo
Anselmo, exilado em conseqncia de seu conflito com Guilherme, o Ruivo,
procurou o apoio de Urbano e esteve presente em seus conclios quando
foram reiterados os decretos pontificais contra a investidura leiga (1098).
Entretanto, o pontificado de Urbano II  principalmente lembrado por suas
medidas positivas no sentido da reforma moral e por ter pregado a Primeira
Cruzada em Clermont (1095). Francs pelo sangue e um orador por
temperamento, ele inflamou o povo da Europa ocidental, sobretudo a
comunidade de lngua francesa, para que se tentasse recuperar Jerusalm,
mas faleceu antes que esse objetivo fosse concretizado.
 H.G.J. Cowdrey, The Age of Abbot Desiderius (1983)

Urbano VI papa 1378-89 (n. Bartolomeo Prignano em Npoles, c. 1318)
Urbano foi eleito papa com a morte de Gregrio XI para satisfazer em parte a
forte corrente de opinio pblica que exigia um pontfice italiano aps o longo
exlio de Avignon. Seu temperamento autocrtico e o freqente recurso 
violncia provocaram uma reao quase imediata, em conseqncia da qual
os cardeais franceses, apoiados por alguns italianos, elegeram um antipapa
(Clemente VII), e retiraram-se de novo de Roma para Avignon. O cisma
resultante causou srios danos  Igreja, e as energias de Urbano foram quase
completamente absorvidas em lutas polticas contra Clemente.
 W. Ullmann, The Origins of the Great Schism (1948)
                                     V
Vacrio, o Glosador (c. 1120-c 1200) Versado em direito romano e ativo
nessa rea, Vacrio graduou-se em Bolonha e passou boa parte das dcadas
de 1140 e 1150 na Inglaterra. Foi a que produziu sua mais importante obra, o
Liber Pauperum, que foi descrito como um guia dos pobres para o Cdigo e o
Digesto de Justiniano. Atravs dessa obra e de escritos subseqentes,
Vacrio exerceu uma poderosa influncia sobre o ensino de direito na
Inglaterra em fins do sculo XII e durante o sculo XIII, embora a verso que
o apontava como o primeiro professor conhecido de direito em Oxford no
seja mais sustentada. Entre outras importantes obras que lhe so atribudas
contam-se um opsculo sobre o matrimnio e estudos teolgicos sustentando
o ponto de vista ortodoxo da natureza humana do Cristo.
 The Liber Pauperum of Vacarius, org. por F. de Zulueta (1927)

vagantes Os intelectuais, poetas., clrigos, estudantes e "discpulos" errantes
foram caractersticos da Idade Mdia Central e, em particular, do elemento
urbano na poca da expanso populacional (sculos XII e XIII). A maior parte
da informao desabonadora sobre eles provm do lado mais estvel do
mundo letrado. Os vagantes deixaram um considervel acervo de sua tpica
poesia, coincidente com a golirdica, tendo sua melhor representao em
Carmina Burana.
 H. Waddell, The Wandering Scholars (1961)

Valdemar I, o Grande rei da Dinamarca 1157-82 (n. 1131) Guerreiro de
renome, ps fim  guerra civil em seu pas, esmagou o poder dos vnedos e
transformou a Dinamarca na potncia dominante da Escandinvia. Seu meio-
irmo, Absalo, bispo de Roskilde, foi seu mais ntimo auxiliar e ajudou a
consolidar a sua dinastia no trono dinamarqus.

valdenses Os adeptos de Valdo, mais tarde erroneamente conhecido como
Pedro Valdes (m. c. 1216), um rico mercador de Lyon que renunciou  sua
fortuna e posio na dcada de 1170 para tornar-se pregador errante e levar
uma vida de pobreza apostlica. Ele e seus seguidores foram examinados
pelo papa Alexandre III no Terceiro Conclio de Latro (1179) e, embora o
modo de vida deles merecesse aprovao, foram proibidos de pregar sem
autorizao do episcopado local. Como no obedecessem a tal deciso,
foram excomungados em 1182 e expulsos de Lyon. Em 1184 foram
apontados como hereges na bula papal Ad Abolendam e tornaram-se vtimas
de perseguies.
      Os valdenses, ou Homens Pobres de Lyon, apresentavam muitas
semelhanas com os franciscanos, a quem o papa Inocncio III aceitaria e
usaria em prol da Igreja. Em fins do sculo XII, entretanto, o sul da Frana era
a ptria da crescente heresia dos ctaros, e a poderosa mensagem valdense,
baseada na pobreza apostlica, pregando e ensinando as Escrituras em
vernculo, alarmou as autoridades, apesar do seu xito contra os ctaros. A
conseqente proscrio e perseguio da seita no levou ao seu
desaparecimento. Os pregadores valdenses e os adeptos ou "amigos" que os
sustentavam com esmolas, espalharam-se pela Lombardia, Espanha,
Alemanha e ustria, e mais tarde chegaram  Bomia, Polnia e Hungria.
      Suas congregaes eram recrutadas principalmente entre o campesinato
e habitavam reas rurais isoladas. Dos dois grupos mais antigos, os que
viviam na Frana mantiveram-se relativamente prximos das crenas
ortodoxas, alguns voltando  Igreja Catlica, outros sobrevivendo s
perseguies que acompanharam a Cruzada Albigense e levando uma
existncia precria at a Reforma. O segundo grupo, os valdenses do norte
da Itlia, separaram-se do grupo de Lyon em 1205 e adotaram uma forma
muito mais radical e agressiva de heresia, fortemente influenciada pelas
crenas donatistas. Nos vales isolados do Piemonte, sobreviveram a
perseguies espordicas e a uma Cruzada desencadeada contra eles em
1497. Em 1532, a maioria deles reuniu-se aos seus confrades da Saxnia e
do Delfinado, que eram profundamente influenciados pelos ensinamentos de
Lutero e Zwnglio, e acabaram atrados para a corrente principal da Reforma.
 W.L. Wakefield, Heresy, Crusade and Inquisition in Southern France 1100-
1250 (1974)

Valfredo Estrabo (c. 808-49) Monge de Reichenau. Discpulo de Rbano
Mauro e reputado telogo e poeta de seu tempo, Estrabo foi preceptor do
jovem Carlos, o Calvo, em 829-38.  parte dois anos em exlio (840-42),
passou o resto de sua vida como abade de Reichenau. Seu comentrio sobre
as Escrituras, a Glossa Ordinaria, sobreviveu como texto duradouro e
influente ao longo de toda a Idade Mdia. Ele foi tambm responsvel pela
reviso da biografia de Carlos Magno por Eginhard.
 E.S. Duckett, Carolingian Portraits (1969)

Valia, Loureno (1407-57) Clebre por sua aplicao dos novos padres
humanistas de crtica a documentos usados pelo Papado em apoio de seu
poder temporal. Em 1440, publicou seu panfleto contra a Doao de
Constantino, que provou efetivamente que o famoso documento, pelo qual a
autoridade imperial teria sido transmitida ao Papado, era esprio. Valia foi
tambm um filsofo de prestgio, e preocupado, com sua mestria lingstica,
em que no se perpetuassem antigos erros decorrentes de tradues
defeituosas de Aristteles ou da Bblia.
 S.I. Camporeale, Lorenzo Valia, umanesimo e teologia (1972)

vndalos Um dos mais destacados grupos de brbaros germnicos orientais
que invadiram o Imprio Romano do Ocidente nos sculos V e VI. Notrios
por sua crueldade, eles eram, contudo, substancialmente cristos, embora
adeptos da crena ariana. Depois de 406, cruzaram a fronteira do Reno e
atravessaram como avalancha a Glia para assolar a Pennsula Ibrica onde,
em aliana com os alanos, se instalaram temporariamente na Andaluzia. Em
429, cruzaram para o norte da frica e, no decorrer dos dez anos seguintes,
subjugaram toda a prspera provncia da Numdia, capturando Hipona em 431
e Cartago em 439. O rei vndalo Genserico (428-77) foi uma das grandes
figuras da era da migrao. Um dos poucos chefes germnicos a preocupar-
se com o poderio naval, ocupou as Baleares, passando a controlar todo o
Mediterrneo ocidental, e em 455 saqueou a prpria Roma.
     Os vndalos preservaram sua integridade como grupo governante
minoritrio numa provncia romana, atravs de um rigoroso processo de
segregao religiosa. Intermitentes perseguies da populao catlica nativa
enfatizaram a dicotomia no interior do reino e, numa breve e contundente
campanha em 533, Belisrio, o principal general do imperador Justiniano,
derrotou os vndalos e liquidou literalmente com o reino de Genserico. O norte
da frica, embora assolado por mouros e berberes, retornou s mos
imperiais at a captura de Cartago pelos maometanos em 698.
     Embora relativamente efmero (pouco mais de um sculo), o reino
vndalo provou ser de grande importncia na histria do declnio do Imprio
do Ocidente, por causa da decisiva ruptura que provocou nas comunicaes
martimas entre Roma, o norte da frica e o Mediterrneo ocidental, de um
modo geral.
 J.M. Wallace-Hadrill, The Barbarian West 400-1000 (1952); [L. Musset, Las
invasiones. Las oleadas germanicas, Barcelona, Labor, 1967]

Vaticano O palcio do Vaticano em Roma foi a residncia dos papas depois
do seu regresso de Avignon em 1377. Em tempos mais antigos, tinha sido um
palcio papal edificado na colina do Vaticano, logo ao norte da baslica de
So Pedro, embora o palcio de Latro fosse a principal residncia papal.
Partes do palcio existente datam do sculo XIII, mas o imenso complexo  o
resultado das atividades de construo dos papas renascentistas. Contm os
arquivos papais, um dos maiores repositrios de documentao histrica do
mundo. Ver Estados pontifcios
 A.A. de Marco, The Tomb of St. Peter (1964); J.A.F. Thomson, Popes and
Princes 1417-1517(1980)

Venceslau, So (c. 907-29) Duque da Bomia. Contribuiu decisivamente para
a expanso do Cristianismo em suas terras. Assassinado por seu irmo
Boleslau I, no tardou em ser venerado como mrtir e tornou-se o santo
padroeiro do seu pas no comeo do sculo XI. Seu assassinato foi resultado
direto de sua poltica pr-alem, uma curiosa ironia  luz da histria tcheca
subseqente.
 F. Dvornik, Life of St. Wenceslas (1929)

Veneza Cidade criada no sculo VI como um refgio s guerras ostrogticas
nas ilhas ao norte do esturio do P, no nordeste da Itlia. No sculo X j se
tornara um importante elemento comercial no Adritico, preservando um
precioso elo entre o Imprio Oriental e o mundo Ocidental. Forte controle
estatal da construo naval e da organizao bsica do comrcio levou a uma
grande expanso da prosperidade e do poder nos sculos XI e XII. Veneza
obteve importantes vantagens comerciais em Constantinopla em 1081,
ampliou sua autoridade territorial  Istria e partes da Dalmcia, e beneficiou-
se muito com o sucesso das Cruzadas, quando adquiriu privilgios
especialmente em Tiro e Acre. Seu rompimento com o Imprio do Oriente, no
final do sculo XII, teve efeitos desastrosos sobre a poltica de todo o Oriente
Prximo. Veneza dirigiu a Quarta Cruzada para seus prprios fins, capturando
Zara na Dalmcia em 1202 e a prpria Constantinopla em 1204.
       Durante a primeira metade do sculo XIII, Veneza foi virtualmente
suprema no Mediterrneo oriental, mas a rivalidade com Gnova, sobretudo
aps a recuperao grega de Constantinopla em 1261, produziu uma situao
mais equilibrada, com o poder e a influncia de Veneza ainda imensamente
importantes em todas as ilhas gregas. Gnova entrou por fim em declnio,
aps as pesadas derrotas navais do final do sculo XIV, e a repblica
veneziana esteve da em diante envolvida principalmente na construo de um
slido principado no nordeste da Itlia e na preservao, at onde lhe fosse
possvel, de suas possesses gregas (Creta, as ilhas Jnicas e Naxos) diante
das irresistveis presses otomanas nos Balcs.
       A constituio de Veneza era muito complexa, com um duque eleito
(doge), um conselho e um esmerado sistema de tribunais e governos
provinciais interligados. O poder efetivo permanecia nas mos de um grupo de
famlias aristocrticas detentoras de grandes fortunas, as quais exerciam o
poder supremo (depois de 1310) atravs de um secreto e muito temido
Conselho dos Dez. Em parte por causa de sua riqueza e experincia nos
negcios e na administrao, Veneza evitou o destino de outras grandes
cidades italianas e no caiu nas mos de tiranos. No sculo XV, Veneza
tornou-se famosa como centro de uma nova indstria de impresso. Ver
Contarini; Foscari, Francisco
 D.S. Chambers, The Imperial Age of Venice 1380-1580(1970); F.C. Lane,
Venice, a maritime republic(1973); Studiesin Venetian social and economic
history, org. por B.G. Kohl e R.C. Mller (1987). [P. Braunstein e R. Delort,
Venise,portrait historique d'une cit, Paris, Seuil, 1971; C. Diehl, Una
repblica de patrcios; Venecia, Madri, Espasa-Calpe, 1961]

Verdun, Tratado de (843) Redigido para pr fim  guerra civil dinstica que
tinha eclodido entre os netos de Carlos Magno. De acordo com os seus
termos, o Imprio era dividido em trs reinos. A Carlos, o Calvo, era
concedido o reino dos francos ocidentais, a Nustria, a Aquitnia e as terras
em disputa na fronteira hispnica, com sua fronteira oriental correndo ao longo
do Escalda, do Sane e do Rdano; esse territrio era predominantemente de
fala romnica e tornar-se-ia o reino histrico da Frana. Lus, o Germnico,
obteve o reino dos francos orientais, o qual consistia essencialmente dos
quatro ducados da Francnia, Saxnia, Baviera e Subia, o ncleo do reino
histrico da Alemanha. Lotrio, o mais velho dos netos, reteve o ttulo imperial
e o territrio conhecido como o Reino do Meio, um longo e incoerente bloco
de terra que ia desde o Mar do Norte at o sul de Roma, contendo a Lorena
(como passou a ser conhecido), a Borgonha e a maior parte da Itlia. Apesar
da natureza artificial desses arranjos, o Tratado estabeleceu a base para o
futuro padro poltico dos territrios contidos no Imprio Carolngio.
 R. McKitterick, The Frankish Kingdoms under the Carolingians 751-
987(1983)
Vsperas Sicilianas (Segunda-Feira de Pscoa de 1282) Sublevao popular
contra o governo de Carlos I de Anjou, rei de Npoles e da Siclia. O monarca
tinha lanado sobre os sicilianos um pesado imposto que se destinaria a cobrir
os gastos com a pretendida conquista de Constantinopla, aumentando assim a
irritao contra o domnio francs. Eclodiu um motim em Palermo, em 30 de
maro de 1282,  hora das Vsperas, quando uma mulher siciliana foi
insultada por um soldado francs e vrios milhares de franceses foram mortos
em poucas horas. A luta logo se propagou ao resto da ilha.
       Embora a sublevao possa ter comeado como rebelio patritica,
converteu-se em seguida num movimento republicano em prol da autonomia
municipal. Foi convocado um parlamento em Palermo e proclamou-se uma
repblica independente. As cidades da Siclia ocidental decidiram formar uma
confederao, alimentando a esperana de que o papa aceitasse ser o seu
suserano feudal. Mas o papa Martinho IV, francs, no aceitou esses planos
e, em vez disso, excomungou os rebeldes. Os bares Hohenstaufen da Siclia
pediram a ajuda de Pedro III de Arago, que reclamava a ilha como herana
de sua esposa Constana Hohenstaufen, filha de Manfredo, o rei da Siclia
derrotado e morto por Carlos de Anjou. Em 2 de setembro, Pedro foi coroado
rei em Palermo e a guerra contra os angevinos comeou verdadeiramente; o
conflito durou duas dcadas. A dominao estrangeira da Siclia no pode ter
sido a razo primordial subjacente na revolta das Vsperas, j que os
sicilianos haviam aceitado o domnio de outra potncia estrangeira, os
aragoneses.
 H. Wieruszowski, Politics and Culture in Medieval Spain and Italy (1971) [S.
Runciman, Vsperas Sicilianas, Madri, Alianza, 1979]

Vicente de Beauvais (c. 1190-c. 1264) Notvel humanista e quase
certamente um dos mais antigos membros da casa dominicana de Paris e
Beauvais, Vicente adquiriu sua reputao em Paris no estreito contato com
membros da dinastia Capetngia durante o reinado de Lus IX. 
principalmente lembrado por sua obra enciclopdica, o Speculum Maius, na
qual tentou reunir todo o conhecimento de histria natural, doutrina (incluindo
filosofia, humanidades, direito, matemtica e medicina) e histria (sagrada e
secular), at o tempo da Primeira Cruzada de So Lus em 1250.
 A.L. Gabriel, The Educational in Ideas of Vincent of Beauvais (1962)

Vienne, Conclio de (1311-12)         Convocado pelo primeiro dos papas de
Avignon, Clemente V, esse Conclio, realizado em Vienne, no vale do Rdano,
foi fortemente influenciado pelo rei francs Filipe, o Belo. O conclio aboliu a
Ordem dos Templrios mas resistiu s tentativas de condenao pstuma de
Bonifcio VIII, o velho adversrio de Filipe, baseada em acusaes de,
blasfmia.

vikings Termo provavelmente derivado de Vik (fiorde de Oslo) e usado
indiscriminadamente para descrever os habitantes da Escandinvia. A Era
Viking (c. 800-c. 1100) representa um perodo de grande irrupo do norte
nas terras mais povoadas do sudoeste e do sudeste. Para os habitantes da
Europa, os vikings apresentaram-se como uma permanente atribulao,
mesmo quando espordica, durante quase trs sculos. De fato, houve duas
Eras Vikings separadas, com acentuadas subdivises regionais e
cronolgicas.
       Primeira Era Viking: As incurses hostis, os ataques de surpresa,
iniciaram-se seriamente no comeo do sculo IX, e povoaes foram criadas
nas ilhas setentrionais das rcades e das Shetlands, na Irlanda e ao largo da
costa da Frana. Em 851, um exrcito viking fez a primeira tentativa de
invernar na Inglaterra, em Kent. Um ponto culminante foi atingido por volta de
860, quando no espao de poucos anos ocorreram as primeiras incurses
vikings no Mediterrneo (859), os primrdios da colonizao da Islndia (860),
o estabelecimento do poderoso principado de Kiev com Rurik (862) e as
investidas macias contra a Inglaterra sob o comando dos filhos de Ragnar
Lothbrok em 865. Os 60 anos seguintes fixaram os limites  efetiva e
permanente colonizao viking -- a intensificao era uma outra questo muito
diferente -- com a instalao de povoaes fortificadas ao longo das rotas
comerciais nos rios russos, o estabelecimento na Inglaterra do territrio da
Danelaw (na dcada de 880) e a colonizao da Normandia (911). A
concluso da colonizao das ilhas atlnticas e da Islndia (930); a intruso
do elemento irlands/noruegus no noroeste da Inglaterra; a absoro dos
dinamarqueses na poltica da Saxnia ocidental e sua expulso da Bretanha,
puseram fim  primeira Era Viking.
     Segunda Era Viking: O xito viking estava limitado, em certa medida, 
pura e simples escassez de potencial humano e de recursos. Na Europa
ocidental, as comunidades nativas aprenderam a lidar com os ataques vikings,
e o crescente poderio da realeza crist e a consolidao da ordem feudal, no
sculo X, muito ficaram devendo ao xito obtido na luta contra a agresso
brbara e pag. Dentro da prpria Escandinvia, o estabelecimento de
dinastias permanentes e a lenta aceitao do Cristianismo dominavam a cena.
A Dinamarca  frtil em remanescentes arqueolgicos do perodo, e
esmeradas povoaes fortificadas, como as de Trelleborg e Fyrkat,
testemunham o poder de organizao da dinastia de Gorme, o Velho, at
Sweyn Barba Forqueada e seu filho Canuto, conquistadores da Inglaterra.
Canuto foi rei da Inglaterra (1016-35), da Dinamarca (desde 1019) e,
intermitentemente, rei da Noruega (firmemente s a partir de 1019).
      Ocorreu um certo enraizamento da ocupao e os mercadores
escandinavos continuaram afetando todo o processo de urbanizao europia.
Para oeste, houve at uma colonizao mais intensa das reas limtrofes,
quando foi atingida a Groenlndia e temporariamente (c. 1000) acosta norte-
americana, na Vinlndia, "a boa". Para leste, a Rssia tornou-se cada vez
mais solidamente eslava. Vladimir, o Grande, senhor de Kiev, adotou o
Cristianismo da Igreja Ortodoxa Grega em 988, decretando que a lngua da
nova Igreja seria o eslavnico -- nem o grego nem o escandinavo. Sua
converso coincidiu com iniciativas semelhantes em outras partes dos mundos
eslavo e hngaro, e em fins do sculo X a prpria Escandinvia comeou
sendo atrada para a rede da Cristandade. Olavo Tryggvason (998-1000) e
Olavo Haraldsson (Santo Olavo, o Forte, 1016-30), defrontando-se com
alguma hostilidade, impuseram a converso aos noruegueses, enquanto que a
Islndia aceitava o Cristianismo por volta de 1000. As caractersticas vikings
permaneceram fortes: coragem, bravura fsica, rigoroso senso comum,
laconismo. O meio-irmo de Santo Olavo, Haraldo Hardrada, teve uma
carreira viking arquetpica: serviu como capito na guarda vareque em
Constantinopla, acumulou grande fortuna, competiu com xito pelo trono da
Noruega em 1047, e morreu em Stamford Bridge, em combate contra Haroldo
II da Inglaterra em 1066. Entretanto, suas faanhas adquiriram um aspecto
noruegus, tanto quanto viking. No  inteiramente descabida a opinio de que
um escandinavo deixava de ser um viking quando se tornava cristo. Ver
Gokstad,             barco           de;            Oseberg,            barco
de                                                             HRL
 G. Jones, The Vikings (1968); D.M. Wilson, The Vikings and their Origins
(1970); P.G. Foote e D.M. Wilson, The Viking Achievement (1970); RH.
Sawyer, The Age of the Vikings (1971); H.R. Loyn, The Vikings in Britain
(1977) [J. Brondsted, Os vikings, Lisboa, Ulissia, s/d; H. Arbman, Os
vikings, Lisboa, Verbo, 1967]

Villani, Giovanni (c. 1275-1348) Lembrado principalmente por sua Histria de
Florena, Villani era tambm mercador, administrador e soldado. Aps uma
longa carreira pblica que envolveu viagens ao exterior e o cargo de
supervisor de fortificaes, sofreu um pesado prejuzo financeiro em sua
velhice em conseqncia da bancarrota das grandes casas bancrias dos
Bardi e dos Peruzzi, e faleceu vtima da peste. Sua Histria, que teve
continuidade com outros membros da famlia, tentou abranger desde os
tempos bblicos. Escrita em latim claro e direto, a obra permanece como uma
das principais fontes para a histria de Florena nos dias de Dante.
 L. Green, Chronicle into History (1972)

Villon, Franois (1431-depois de 1463) Recordado por suas ballades e
rondeaux, e sobretudo por seu Grand Testament, uma srie de irnicas e
satricas disposies testamentrias, Villon representa uma tentativa de
expresso de um novo e intensamente pessoal sentimento em poesia
verncula francesa. Aps graduar-se na Universidade de Paris, seu nome
converteu-se em sinnimo de violncia e deboche, e os fatos conhecidos de
sua vida envolvem, pelo menos, um homicdio, numerosos roubos e uma
priso. Inversamente, sua expresso de remorso, de pena por uma vida
desperdiada e oportunidades perdidas, e de espanto e terror diante da
brevidade da vida, produziram sua mais bela poesia: O sont les neiges
d'antan? (Onde esto as neves de antanho?).
 The Complete Works of Franois Villon, trad. A. Bonner (1960) [J. Favier,
Franois Villon, Verviers, Marabout, 1982]

vinho, comrcio de Os romanos levaram o cultivo da vinha com eles para o
norte da Itlia, Glia, Rennia e Inglaterra, mas o vinho nunca foi produzido
em larga escala nas margens setentrionais do Imprio, e continuou sendo uma
bebida dispendiosa e aristocrtica. Seu consumo pela aristocracia prosseguiu
na Idade Mdia, mas seu uso pela Igreja crist na Eucaristia fez dele uma
necessidade universal. Em conseqncia disso, muito vinho, freqentemente
de qualidade inferior, era produzido localmente; o Domesday Book menciona a
existncia de 38 vinhas na Inglaterra. H provas de que o comrcio vincola a
grande distncia tambm se estabeleceu desde cedo. No comeo do sculo
VII havia uma feira de vinho realizada anualmente em Saint-Denis; e no tempo
de Carlos Magno, Rouen era um movimentado centro de exportao de vinhos
da Ile de France, Borgonha e vale do Loire para a Inglaterra. O vinho alemo
do Reno e do Mosela tambm era enviado para a Inglaterra, provavelmente
pela mesma rota. A conquista normanda fortaleceu ainda mais esses elos, e o
processo era lucrativo para o rei, que cobrava prisage, uma taxa em espcie,
sobre os vinhos importados.
      Foi provavelmente a melhoria de condies climticas nos sculos XI e
XII que provocou a expanso no nmero de vinhedos no norte da Europa. O
comrcio a grande distncia, cada vez mais sujeito a regulamentao de
preos e impostos, ainda estava centrado em Rouen no sculo XII, mas
quando em 1152 o rei Henrique II esposou Leonor, duquesa da Aquitnia,
linhas diretas de comrcio foram estabelecidas com as terras dela, e navios
cargueiros de vinho comearam a efetuar viagens diretas entre Bordus, La
Rochelle e o Loire, e Londres, Bristol e Sandwich. O vinho de Bordus -- o
"Bordeaux" -- era considerado um artigo de qualidade superior, e a perda
inglesa da Normandia, Anjou e partes do Poitou para os franceses no incio do
sculo XIII acarretou uma reduo das importaes de vinho francs do e
atravs do norte da Frana, e redundou assim no crescimento do comrcio
gasco.
       A Alta Rennia e o Mosela tambm parece terem sido exportadores de
vinho no perodo final da Idade Mdia, mas esto muito menos documentados
do que a regio de Bordus, que dominou o mercado desde o sculo XIII at
meados do sculo XIV. Mais de metade da produo dos vinhos "Bordeaux" ia
para a Bretanha e os Pases Baixos, mas a Inglaterra tambm recebia um
considervel quinho e a maior parte desse comrcio estava nas mos de
mercadores ingleses. Num ano tpico do sculo XIV, a Inglaterra importou
cerca de 30.000 a 40.000 tonis da Gasconha e as importaes de outras
fontes (Grcia, Portugal, Mosela e Lorena) representavam mera frao do
total. A Guerra dos Cem Anos e a Peste Negra interromperam, porm, as
exportaes da Gasconha e a tomada de Bordus pelos franceses em 1453
infligiu novo e srio golpe  regio. A insuficincia de demanda na Europa
setentrional foi compensada por vinhos da Itlia, da Pennsula Ibrica e de
vrias regies da Frana.
       Um novo rival para os "Bordeaux" surgiu no final do sculo XIV na forma
dos mais doces, mais encorpados e mais duradouros vinhos do Levante,
como o malvasia de Creta e o "romeney" das ilhas Jnicas. Eram importados
primeiro pelos genoveses e venezianos mas, desde o incio do sculo XV, os
mercadores ingleses tambm passaram a import-los. Os espanhis e
portugueses, j produtores e exportadores tradicionais, comearam tambm a
fazer vinhos semelhantes no sculo XV. As quantidades eram, porm,
relativamente pequenas, e o grosso do comrcio nesse perodo dava
preferncia      aos      vinhos      mais      cidos      e     de       vida
curta.                                                           EMH
 A.D. Francis, The Wine Trade (1972); M.K. James, Studies in the Medieval
Wine Trade, org. por E.M. Veale (1972) [R. Dion, Histoire de la vigne et du
vin en France des origines au XIX sicle, Paris, Doullens, 1959; Y. Renouard,
O grande comrcio de vinho na Idade Mdia, Revista de Histria, 6, 1953, p.
301-14]

Vinlndia Regio situada em alguma parte na costa leste da Amrica,
possivelmente a Terra Nova ou a costa do Maine, explorada por vikings que
saam da Groenlndia em fins do sculo X e comeos do sculo XI. Tentativas
frustradas foram feitas por Leif e Thorvald, os filhos de Eric, o Vermelho, para
estabelecer uma povoao, e a tentativa ligeiramente posterior de Thorfinn
Karlsefni tambm fracassou. A hostilidade dos nativos parece ter sido a
principal causa imediata do insucesso, embora se deva reconhecer tambm
que a Groenlndia j representava uma espantosa extenso da colonizao
do que, no fim de contas, eram os limitados recursos humanos da
Escandinvia na Era Viking.
 G. Jones, The Norse Atlantic Saga (1964)

Visconti, famlia A mais proeminente famlia de Milo em 1277-1447.
Remontando seus antecedentes aos partidrios da causa imperial durante a
Questo das Investiduras, os Visconti mantiveram com xito uma postura pr-
imperial e antipapal durante todo o sculo XIV. O poderoso Giangaleazzo
comprou o ttulo de duque ao imperador Venceslau IV do Luxemburgo no final
do sculo, e no auge de seu poder estava governando a maior parte do norte
da Itlia e ameaando a prpria Florena. Divises dinsticas e virulentas
rivalidades urbanas impediram a consolidao de um permanente ducado
lombardo, e com a morte de Filippo Maria, em 1447, Milo passou para o
controle de seu genro, o grande capito mercenrio Francesco Sforza.
 D. Muir, Milan under the Visconti (1924); H. Baron, The Crisis of the Early
Italian Renaissance (1955)
visigodos (godos ocidentais) Entre os germanos orientais, os visigodos
constituam uma parte significativa e coesa dos povos gticos. Convertidos ao
Cristianismo ariano no sculo IV, desempenharam um papel preponderante no
movimento que, sob presso dos hunos, redundou na travessia da fronteira do
Danbio em 376 e na subseqente derrota imperial de Adrianpolis em agosto
de 378, no decorrer da qual o imperador Flvio Valente foi morto. Os
visigodos fixaram-se ento nos Balcs como irrequietas tropas federadas,
mas sob o comando de seu poderoso lder Alarico, voltaram suas atenes
para a Itlia. Aps uma longa srie de gestes diplomticas e de campanhas
militares, eles acabaram saqueando Roma (23-27 de agosto de 410), embora
o prprio Alarico morresse nesse mesmo ano.
      Os efeitos psicolgicos do saque de Roma foram universais, mas as
conseqncias polticas imediatas tiveram relativamente pouca importncia.
Os visigodos continuaram exercendo uma curiosa dualidade como federados
e, ocasionalmente, como saqueadores da populao romana. Penetraram na
Glia e combateram como aliados dos romanos na grande batalha de Chlons
(451) contra tila e seus hunos. No reinado de Eurico (466-84), consolidaram
seu domnio na Glia ao sul do Loire e avanaram sua esfera de influncia no
sul, penetrando firmemente na Pennsula Ibrica. O Arianismo visigtico criou
desconfiana e permanente desarmonia com a populao romana e, na
primeira dcada do sculo VI, eles perderam o controle da maior parte da
Glia, exceto das provncias ao longo da costa mediterrnea, para os francos,
catlicos recm-convertidos.
      O reino visigodo na Espanha foi mais duradouro. A disseno religiosa
assolava a vida poltica do reino, mas em 589 Recaredo I convocou um
conclio em Toledo, onde foi tomada a deciso de aceitar o Catolicismo. Uma
dissidente minoria ariana entre os visigodos e a perseguio aos judeus no
sculo VII debilitaram a estrutura da sociedade hispnica, preparando o
terreno para a conquista rabe das primeiras dcadas do sculo VIII.
Contudo, o reino visigodo durou mais do que qualquer outra estrutura poltica
germnica oriental e deixou um legado permanente para o Ocidente em sua
arte, cultura e influncia sobre as teorias de realeza e de direito eclesistico.
Ver Rodrigo; Ulfila [168]
HRL
 Visigothic Spain: New Approaches, org. por E. James (1980) [E.A.
Thompson, Los godos em Espaa, Madri, Alianza, 1985; L. Musset, Las
invasiones. Las oleadas germanicas, Barcelona, Labor, 1967; P.D. King,
Derecho y sociedad en el reino visigodo, Madri, Alianza, 1981]

Vitoldo rei da Polnia 1386-1434 Sobrinho de Jagiello, fundador da grande
dinastia polonesa, Vitoldo obteve o reconhecimento como gro-duque de uma
Litunia territorialmente mais extensa em 1401 e construiu um formidvel
principado que, em seu apogeu, ia do Bltico ao Mar Negro.  principalmente
lembrado por sua liderana na batalha decisiva de Tannenberg em 1410,
quando aliados lituanos e poloneses esmagaram os Cavaleiros Teutnicos e
puseram temporariamente fim  expanso germnica no leste. No teve o
mesmo xito contra os mongis mas conservou um principado lituano
poderoso e virtualmente independente, celebrado sobretudo por sua tolerncia
das vrias raas (principalmente eslavos mas com um elemento lituano
dominante) e religies (catlicos e ortodoxos).
 G. Vernadsky, The Mongols and Russia (1953)

vitorinos Membros de uma escola teolgica [sediada na abadia de Saint-
Victor, nos arredores de Paris NT] que representava um importante aspecto
do florescimento monstico do sculo XII. Fundada em 1106 por Guilherme de
Champeaux, eles adotaram uma modificao da Regra agostiniana, o que lhes
permitiu concentrarem-se como cnegos regulares no trabalho intelectual,
conjugado com alguma atividade pastoral. Estiveram intimamente associados
ao ensino teolgico da Notre-Dame de Paris durante um de seus mais
influentes perodos no sculo XII. Profundamente ortodoxos, os vitorinos
deram nova vida aos esforos para reconciliar o misticismo com a escolstica
racional, e sua obra exerceria grande influncia na teologia medieval
subseqente, mormente entre alguns dos franciscanos.
 G. Constable, Religious Life and Thought (1979) [B. Bolton, A Reforma na
Idade Mdia, Lisboa, Ed. 70, 1986]

vitral Durante toda a Idade Mdia, o vidro pintado foi a principal forma de
decorao de igrejas, especialmente na Europa ao norte dos Alpes, onde o
desenvolvimento de grandes janelas gticas rendilhadas deu particular
destaque ao veculo.
     Embora os romanos tivessem usado vidro para preenchimento de
janelas, este, provavelmente, no tinha qualquer decorao pintada. Na Glia,
esse uso do vidro sobreviveu no perodo ps-romano, pois em 674 foi na
Glia que o abade Benedict Biscop mandou buscar artfices para envidraar
suas igrejas em Monkwearmouth e Jarrow. Escavaes em Jarrow puseram a
descoberto fragmentos de vidro colorido no-pintado, feito com elevado
contedo sdico, tpico do vidro romano. O mais antigo vidro pintado
sobrevivente provm da Alemanha Carolngia e Otoniana -- um broquel de
Lorsch (Hessen) e uma impressionante cabea do Cristo, oriunda de
Wissemburgo. As figuras de profetas na catedral de Augsburgo, datando do
incio do sculo XII, mostram uma tal segurana tcnica que se pode admitir
ser, por essa data, a pintura de vidro uma tradio artesanal bem
estabelecida. Tefilo, escrevendo por essa mesma poca, certamente
reconheceu realizaes francesas nesse campo.
      Entretanto, foi nas grandes catedrais gticas francesas do sculo XIII
que o vitral atingiu a maioridade.  particularmente apropriado que na catedral
de Chartres, na qual a janela rendilhada  de tanta importncia arquitetural,
sobreviva uma das mais extensas sries de janelas datada do sculo XIII. Ao
contrrio do coro da catedral de Canterbury (envidraada por volta de 1180-
1220), onde as verbas provenientes do trnsito de peregrinos eram to
grandes que os monges puderam envidraar sua igreja sem recorrer a
patrocinadores externos, as janelas de Chartres refletem a participao de
uma grande variedade de mecenas seculares, incluindo comerciantes como
peleiros e aougueiros. O envolvimento da comunidade laica nas doaes e,
portanto, na composio dos vitrais, aumentou no sculo XIV. O
desenvolvimento das janelas rendilhadas e a exigncia esttica de interiores
mais leves resultaram na evoluo de um novo layout, em que figuras e cenas
eram colocadas sob dossis que imitavam os estilos arquitetnicos da poca.
Sees horizontais de cor alternavam agora com sees de grisaille, vidro
branco decorado com desenho de folhagens -- uma acentuada mudana em
relao s janelas profundamente coloridas dos sculos XII e XIII. A gama de
cores tambm mudou, afastando-se de um predomnio do vermelho e do azul
em favor de castanhos terrosos e verdes. Entretanto, o mais revolucionrio de
todos os desenvolvimentos foi a descoberta do corante amarelo, um
composto de prata que quando pintado no vidro e levado ao fogo, produzia um
colorido que variava do laranja forte ao amarelo plido. Essa simples
descoberta libertou o vitralista da necessidade de recortar e introduzir perfis
de chumbo em certos detalhes, como cabelos, barbas e itens decorativos que
podiam agora ser apresentados em amarelo numa nica pea de vidro
branco. As janelas algo acadmicas do sculo XIII perderam em popularidade
para figuras de santos, que usualmente apresentam um atributo associado ao
seu martrio como forma de identificao. Esse tipo de tema era favorecido
pelo patrocinador secular, que podia escolher o seu prprio santo onomstico;
o livro que constitua a fonte mais popular para essas figuras era, sem dvida,
a coletnea de hagiografias Legenda urea, da autoria de Jacopo de
Voragine. Um outro tema popular do sculo XIV, sobretudo na Inglaterra, era
a rvore de Jess, apresentando em forma pictrica a genealogia de Jesus e
prestando especial homenagem  Virgem Maria.
      O tipo de janela de figura-e-dossel persistiu at o sculo XV, mas a
partir de cerca de 1350, pode distinguir-se uma importante transformao na
paleta do pintor de vitral. Um dos primeiros exemplos pode ser apreciado na
janela leste da catedral de Gloucester: figuras em vidro branco, pesadamente
modeladas para dar uma aparncia quase cavernosa, so realadas contra
fundos vermelhos e azuis que, com exceo da colorao amarela prateada,
oferecem quase a nica cor. A pintura em vidro tampouco podia deixar de ser
afetada pelos valores do estilo gtico internacional. Por volta de 1400, um
novo "estilo suave" de pintura tinha substitudo a elegncia linear e requintada
do sculo anterior por um estilo mais denso no uso de volumes e cores, maior
interesse nos efeitos espaciais e um alto grau de caracterizao facial. Em
cidades como York, Coventry, Bourges, Estrasburgo e Nuremberg, esse novo
estilo mais naturalista foi favorecido pelas classes mercantis de base urbana
que proporcionavam agora grande parte do patrocnio e financiamento dos
vitrais. Assim, na janela Reiter do sculo XV em So Loureno, Nuremberg, os
personagens bblicos assemelhavam-se fortemente a abastados burgueses
alemes. Mesmo numa suntuosa e palaciana pea como a doao de
Jacques Coeur do vitral Anunciao para a catedral de Bourges, a
observao do mundo real  aguda, refletindo-se no surpreendente realismo
das plumas de Gabriel.
       Na Itlia do Quattrocento, esse veculo de importncia menor adquiriu
nova significao com a necessidade de envidraar estruturas como a
catedral de Florena e o gtico flamejante da catedral de Milo. Parece que,
em Milo, Cristoforo de Mottis teria sido originalmente treinado como vitralista,
mas, em Florena, o desafio das janelas atraiu artistas mais conhecidos em
outros veculos plsticos, como Ghiberti, Donatello e Uccello, juntamente com
vitralistas estrangeiros do norte dos Alpes. A surpreendente realidade espacial
encontrada no vidro italiano quatrocentista tinha, no final do sculo, comeado
a ser importante para o vitral do norte da Europa. Assim como os artistas dos
Pases-Baixos tinham sido catalisadores no desenvolvimento do gtico
internacional, tambm desempenhavam agora um importante papel na
introduo de idias renascentistas. Galyon Hone, um flamengo empregado
por Henrique VII da Inglaterra para envidraar as janelas da capela do King's
College, em Cambridge, dirigia uma oficina muito versada nas inovaes da
Renascena; em Rouen, Arnoult de Nimgue, natural de Tournai, iria revitalizar
o vitral em sua terra adotiva. Mesmo numa obra to notvel como o vitral do
King's College, a adoo de motivos renascentistas no foi total, pois a
arquitetura da Renascena no se coaduna com uma estrutura gtica
tradicional. Somente na janela de Carlos V da catedral de Bruxelas, por
Bernard van Orley, por exemplo, vemos um vitral inteiramente renascentista
em todos os seus detalhes.
     Talvez mais prejudicial para a tradio gtica em vitrais tenha sido o
comeo de um novo enfoque para o corte e a perfilagem de chumbo do vidro.
O uso de grandes reas de vidro branco, pesadamente modelado imitando a
pintura de cavalete, levou os vitralistas (no King's College, por exemplo) a
empregar grandes sees retangulares que atravessam os contornos de seus
desenhos de um modo que seria execrado para seus antecessores. Isso,
somado  introduo de cores esmaltadas, o que eliminou a necessidade de
cortar o vidro e perfilar o chumbo derretido, foi a semente da decadncia,
muito antes da Reforma e da guerra religiosa na Europa destrurem para
sempre         o         mundo       tradicional       dos       vitralistas
medievais.                                            SB
 L. Grodecki e C. Brisac, Gothic Stained Glass: 1200-1300 (1985); C.
Brisac, A Thousand Years of Stained Glass (1986); S. Crewe, Stained Glass
in England 1180-1540 (1987)

Vlad, o Empalador prncipe da Valquia 1456-62 e 1476-77 Figura maior na
lenda do que na histria, ganhou seu epteto por causa da ferocidade com que
ordenou a execuo de literalmente milhares de turcos e blgaros em 1461.
Dentro da Valquia, ele figura como um defensor dos hngaros e um inimigo
dos turcos, embora estivesse preso durante 12 anos na capital hngara por
ordem de Matias Corvino. Seu irmo, que lhe sucedeu, foi completamente
subserviente aos turcos, e a esperana de independncia romena transferiu-
se para a manuteno da dinastia moldava.
 R.W. Seton-Watson, A History of the Roumanians (1934); H. Inalcik, The
Ottoman Empire: the Classical Age 1300-1500 (1973)

Vladimir I, o Grande, So prncipe de Kiev 980-1015 (n. 955) Deixou uma
reputao de ferocidade e ambio ilimitada. Sua principal importncia reside
num firme acordo celebrado com o imperador bizantino Baslio II em 988-89,
pelo qual esposou a irm do imperador, recebeu o batismo e comprometeu-se
a apoiar os missionrios gregos ativos na Rssia kievana. Imps o
Cristianismo a boa parte de seu povo e estabeleceu vnculos duradouros entre
o Imprio Bizantino e os povos russos em matria religiosa, cultural e social.
 G. Vernadsky, Kievan Russia (1948)

Vulgata Aceita pelo Conclio de Trento (1546) como o nico texto latino
autntico das Escrituras, a Vulgata -- assim chamada por ser a verso em
uso mais comum (vulgus) no Ocidente durante toda a Idade Mdia -- baseou-
se essencialmente na obra de So Jernimo (c. 342-420). Jernimo foi
instrudo em 383 pelo papa Dmaso para rever o Novo Testamento latino
usando os modelos gregos. No final da dcada de 380, ele retirou-se para
uma caverna perto de Belm e traduziu a maior parte do Antigo Testamento
diretamente do hebraico. No decorrer do sculo VI, sua obra, em conjunto
com o Saltrio galicano, foi reunida num s livro, a Vulgata. Foram feitas
revises, sobretudo por Alcuno e Teodulfo de Orlans, no sculo VIII e
comeos do sculo IX, na corte de Carlos Magno. Humanistas da
Universidade de Paris tentaram uma padronizao maior do texto nos sculos
XII e XIII. A fora da latinidade e a integridade do texto ajudaram a garantir o
contnuo vigor do latim como lngua erudita mais ou menos universal em todo o
Ocidente durante a Idade Mdia. Ver Anselmo de Laon
 B. Smalley, The Study of the Bible in the Middle Ages (1952); The Gospels
in the Schools (1985); The Bible in the Medieval World, org. por K. Walsh e
D. Wood (1985)
                                    W
Wace Anglo-normando, natural de Jersey, que veio a ser cnego em Bayeux.
Master Wace (somente o seu prenome sobreviveu) foi autor de trs textos
hagiogrficos em vernculo e, o que  mais importante, de duas extensas
crnicas rimadas em francs: o Roman de Brut (1155) e o Roman de Rou,
que no foi concludo (c. 1170-75). O Roman de Brut  uma reelaborao
imaginativa da Historia Regum Britanniae, de Godofredo de Monmouth, e
pode ter contribudo de forma decisiva para a popularizao das lendas
arturianas por toda a Europa. O Roman de Rou  uma histria dos duques da
Normandia baseada principalmente em fontes latinas. Wace possua, sem
dvida, talento literrio, que se percebe em seu melhor ngulo nas vigorosas
passagens descritivas dos dois "romances".
 Le Roman de Rou, org. por A.J. Holden (1970-73)

Waiblingen Ver gibelinos

Wallace, William (c. 1270-1305) Lder da resistncia escocesa a Eduardo I
da Inglaterra. Escolhido guardio do reino em 1297 pelo rei aprisionado, John
Balliol, Wallace foi derrotado pelo rei ingls em Falkirk em 1298. Em 1305 foi
capturado e enforcado pelos ingleses. Embora sua carreira fosse manchada
pela violncia e seu xito poltico imediato fosse limitado, Wallace conserva
sua importncia como smbolo de resistncia e como heri nacional escocs.
 A. Fisher, William Wallace (1986)

Walsingham, Thomas (c. 1360-c. 1422) Historiador e monge em St. Albans
durante toda sua carreira (com exceo de um perodo como prior na casa
filiada de Wymondham), Thomas escreveu a Chronica Majora, uma
continuao da obra de Matthew Paris, uma Gesta Abbatum e tambm, em
seus ltimos dias, a Chronica Sancti Albani, que narra a histria da abadia de
St. Albans at 1419. Sua obra  uma fonte original de particular importncia
para os reinados de Ricardo II e Henrique IV, e caracteriza-se por um
acentuado grau de azedume contra John Wycliffe, repudiado em uma de suas
mais insultuosas passagens como "esse brao de Sat, dolo de hereges,
espelho de hipcritas e fabricante de mentiras".
 The St. Albans Chronicle, org. por V.H. Galbraith (1937)

Walworth, William (m. 1385) Abastado mercador londrino que foi eleito
prefeito de Londres pela primeira vez em 1374. Novamente prefeito em 1381,
organizou um exrcito para defender a cidade e o rei Ricardo II contra Wat
Tyler e suas foras. Estava presente com seus homens no confronto entre o
rei e o exrcito de camponeses em Smithfield, em 15 de junho de 1381,
quando participou do assassinato de Wat Tyler e foi armado cavaleiro pelo rei,
como recompensa. [348]
 R.B. Dobson, The Peasants' Revolt of 1381 (1983)

Warwick, conde de (Richard Neville) (1428-71) Depois conhecido como
o "Fazedor de reis", era um homem de grande ambio, cuja busca de poder
dominou a poltica inglesa durante quase duas dcadas e ajudou a alimentar o
conflito na Guerra das Duas Rosas. Chegou ao ttulo de Warwick atravs de
sua esposa em 1449, e na dcada de 1450 tornou-se partidrio de Ricardo,
duque de York, cujas tentativas de usurpar e reter o poder de Henrique VI
foram por ele fortemente apoiadas. Em 1461 sucedeu no condado de
Salisbury e ajudou o herdeiro de Ricardo de York, Eduardo IV, a apoderar-se
do trono. Nos anos seguintes, Warwick e o jovem rei afastaram-se
gradualmente e, aps vrias tentativas abortadas de rebelio, Warwick fugiu
para o estrangeiro a fim de juntar-se aos lancastrenses. Em 1470, voltou 
Inglaterra e reps Henrique VI no trono; mas seria, por sua vez, derrotado e
morto por Eduardo IV na batalha de Barnet (1471).
 R.A. Griffiths, The Reign of Henry VI (1981)

Wazo (c. 980-1048) Nomeado bispo de Lige em 1042, foi desde cedo um
defensor da independncia da Igreja de todo e qualquer controle laico, e
censurou o imperador Henrique III por interferncia nas eleies eclesisticas.
Embora criado nas tradies episcopais conservadoras e imperiais,
representa as primeiras fases dos movimentos de Reforma da Igreja que
culminariam na Questo das Investiduras.
 E. Hrschelmann, Bischof Wazo von Lttich (1955)

wendes (ou vnedos) Nome dado pelos escandinavos e germanos aos
povos eslavos ocidentais que ocupavam a costa bltica entre Kiel e o Vstula.
Parentes dos bomios e dos poloneses, os vnedos migraram do sudeste
entre os sculos I e VI e, por volta de 900, tinham estabelecido fronteiras
razoavelmente estveis. Havia um certo nmero de diferentes tribos vnedas:
a leste, os pomernios, a oeste os vagrianos, polabianos e abotrites; e, entre
eles, nas terras situadas entre os rios Warnow e Oder, um grupo de tribos
conhecidas como os liutizianos; ao norte destes, na costa, estavam os
rugianos. As tribos ocidentais e centrais falavam as lnguas lxicas ocidentais,
mas a lngua pomernia era o lxico oriental, um parente lingstico do
polons. A estrutura social vneda tinha muitas semelhanas com a da
Escandinvia, com prncipes poderosos e uma pequena elite militar
governando uma sociedade predominantemente camponesa. Na costa, um
certo nmero de comunidades urbanas dedicadas ao comrcio e  pesca,
como Szczecin e Oldenburgo, floresceram do sculo XI em diante em
enseadas protegidas. Esses novos portos eram excelentes bases tanto para o
comrcio quanto para a pirataria, e as frotas que da zarpavam formavam
com os exrcitos de cavalaria ligeira dos prncipes uma poderosa combinao
em tempo de guerra.
      No comeo do sculo XII, os vnedos eram em sua grande maioria
povos pagos e adoradores de dolos. Seu paganismo era parte intrnseca de
sua organizao social, e os sacerdotes estavam investidos de formidveis
poderes. A conquista e converso dos vnedos tinha sido tentada pela
primeira vez no sculo X com o estabelecimento de bispados como o de
Oldenburgo, mas seguira-se uma reao pag e por volta de 1100 restavam
apenas algumas diminutas comunidades crists em algumas povoaes
costeiras. A continuao dos esforos missionrios resultou na converso de
alguns dos prncipes pomernios e abotrites na dcada de 1120 e na
destruio de templos em suas terras por sacerdotes alemes. No comeo da
dcada de 1140, alm disso, os saxes desalojaram alguns dos governantes
vnedos da Vagria ocidental.
     Finalmente, em 1147, a nobreza Saxnica, com o incentivo de So
Bernardo de Clairvaux e do papa Eugnio III, desencadeou uma Cruzada
contra os vnedos. Dois exrcitos saxes, em combinao com duas frotas
dinamarquesas, atacaram os abotrites com xito apenas moderado; mas
embora alguns dos sditos do prncipe Nyklot aceitassem o batismo, e o
prncipe se tornasse um tributrio dos saxes, tudo no passou de uma
rendio simblica, sem a tomada de terras vnedas. No meio sculo
seguinte, o episcopado e as ordens monsticas comearam colonizando a
regio e, em conjunto com governantes locais, organizaram a guerra contra os
vnedos pagos e a campanha de converso. Berna, um monge Cisterciense
de Amelungsborg, converteu o prncipe abotrite Pribislau de Mecklemburgo; e
em 1169 o rei Valdemar I da Dinamarca e seu meio irmo Absalo, bispo de
Roskilde, quebraram o poder dos rugianos, cuja pirataria andava assolando a
costa dinamarquesa. Nas dcadas de 1160 e 1170, Valdemar aliou-se a
Henrique, o Leo, duque de Saxnia, mas a rivalidade entre dinamarqueses e
saxes tornou-se intensa, visto que ambos cobiavam territrios e tributos. (A
obra de Valdemar teve continuidade com Canuto e Valdemar II, mas ainda
no estava completa  poca da morte do segundo em 1241.) Apesar da
beno papal para as guerras, a converso dos vnedos e sua absoro na
sociedade ocidental deveram-se tanto  cobia territorial quanto aos ideais
das Cruzadas.                                               EMH
 A.P. Vlasto, The Entry of the Slaves into Christendom (1970); E.
Christiansen, The Northern Crusades (1980)

Wessel, Johann (c. 1420-89) Tambm conhecido como Wessel Gansfort,
telogo holands que trabalhou em Paris e na Itlia, e cujas opinies sobre o
Papado e a autoridade eclesistica prenunciaram as de Lutero. Seu
conhecimento do hebraico e de estudos sobre o Antigo Testamento ilustram
um aspecto das atividades humanistas no final da Idade Mdia, conservadoras
por se concentrarem sobre a Bblia e a patrstica, mas potencialmente
revolucionrias em comparao com os gostos escolsticos da poca.
 C. Ullmann, Reformers before de Reformation (1854)

Wessex De acordo com a posterior tradio Saxnica ocidental, o reino do
Wessex foi fundado por chefes germnicos que desembarcaram perto de
Southampton e depois avanaram para o norte atravs da plancie de
Salisbury, entre fins do sculo V e comeos do sculo VI. Essa verso,
entretanto, no leva em conta os jutos que, de acordo com o testemunho de
Beda, j tinham ocupado a ilha de Wight e as terras costeiras circunvizinhas.
Uma srie de vitrias alcanadas pelos saxes ocidentais sobre os britnicos
culminou na captura pelo rei Ceawlin, de Aylesbury e do vale do Tmisa
Superior (571), de Gloucester, Cirencester e Bath (577). Assim, ele ampliou
sua autoridade desde a costa meridional at o Canal de Bristol e a leste at a
floresta de Selwood. O primeiro bispado saxo ocidental foi estabelecido por
Birino, um missionrio, em Dorchester-sobre-o-Tmisa (635), mas em 662 foi
suplantado como o centro eclesistico de Wessex por Winchester, que se
tornou tambm a capital poltica.
      Os dois sculos seguintes assistiram a uma flutuao nas fortunas do
reino. Embora, a partir da dcada de 650, os reis ampliassem gradualmente
seu domnio a Devon e  Cornualha, o Tmisa Superior caiu em poder de
Ulfere e dos mercianos em 661. O reinado de Ine no Wessex (688-726)
assistiu  conquista da Cornualha at o rio Hayle e  reconstruo do poder
saxo ocidental na costa meridional. Aps sua morte, o controle real voltou a
ser dbil at o governo de Egberto (802-39), que subjugou toda a Cornualha
(825) e invadiu Mrcia (829). Embora seu reino se estendesse da Cornualha
ao Kent, era provavelmente muito menos forte do que cronistas posteriores
sugeriram, e sua coeso no tardaria em ser severamente testada pelas
incurses e, mais tarde, invases escandinavas.
      Em 870, os dinamarqueses baseados em Reading organizaram sua
primeira campanha de envergadura contra o Wessex mas foram repelidos
pelo rei Etelred (m. 871) e seu irmo e sucessor, Alfredo, homem de viso e
sabedoria, alm de ser um grande lder. Mais dois ataques foram
desencadeados em 876 e 878, e Alfredo foi obrigado a recuar para Athelney
(Somerset) a fim de consolidar suas foras. Mais tarde nesse ano, numa
espetacular reviravolta, Alfredo, o Grande, derrotou decisivamente os
dinamarqueses em Edington (Wiltshire) e obrigou seu comandante, Guthrum, a
aceitar o batismo e a retirar-se para East Anglia. Da em diante, ele construiu
as defesas de seu reino por terra e por mar, e em 880 ocupou Londres, que
se converteu, por acordo com Guthrum, no posto avanado nas fronteiras do
Wessex e do Danelaw. O filho de Alfredo, Eduardo, o Velho (899-925), e seus
netos Athelstan (925-39), Edmundo (939-46) e Eadredo (946-55), ampliaram
gradualmente o domnio saxo ocidental capturando aos dinamarqueses seus
baluartes a oeste de Watling Street e levando a cabo vitoriosas campanhas na
Nortmbria e na Esccia. Em Brunanburh, numa batalha travada pelos saxes
ocidentais e seus aliados mercianos em 937, o rei Athelstan derrotou seus
adversrios escandinavos, britnicos e escoceses, e preparou o caminho para
a expulso dos reis dinamarqueses de York por Eadredo e para a coroao
de Edgar como rei de toda a Inglaterra em Bath (973). As faanhas militares e
o apoio da Igreja inglesa tinham colocado a dinastia Saxnica ocidental em
posio preeminente no reino ingls. EMH
 EM. Stenton, Anglo-Saxon England (1970); H.R. Loyn, Anglo-Saxon
England and the Norman Conquest (1962)

Westminster, abadia de Local com comunidades monsticas que remontam
ao incio do sculo VII. Foi reinaugurada para 12 monges beneditinos por So
Dunstan por volta de 959, e depois, numa escala muito mais vasta, por
Eduardo, o Confessor, que reconstruiu a igreja em magnfico estilo normando
a partir de 1045. Em 1161, o Confessor, cujo tmulo a estava, foi canonizado
e, a partir de 1245, Henrique III, em sinal de devoo ao seu crescente culto,
financiou as fases iniciais de mais uma reconstruo da igreja, agora em estilo
gtico. O projeto nunca obteve apoio popular e foi engavetado aps a morte
do monarca, para s ser reatado em 1376. A igreja foi completada no incio
do sculo XVI com a capela de Henrique VII.
     Como igreja da coroao dos reis ingleses desde 1066 e principal
mausolu real desde o sculo XIII, a abadia de Westminster fomentou suas
ligaes com os monarcas ingleses. O palcio real vizinho tornou-se a sede
do Tesouro no reinado de Henrique II e manteve-se como centro das
operaes financeiras e judiciais do governo durante toda a Idade Mdia. A
casa do cabido da abadia converteu-se num depsito para as jias e arquivos
reais. Os monges patrocinaram uma escola florescente, mas a abadia nunca
se tornou um centro importante de historiografia do reino,  maneira de Saint-
Denis na Frana. A abadia possua substanciais propriedades rurais, com uma
renda de quase  3.500 anuais na poca da Dissoluo; suas terras estavam
concentradas no Middlesex e no Essex mas englobavam 22 condados no
total. As dependncias de Westminster incluam o Priorado de Great Malvern
e um hospital em Knightsbridge. Sua riqueza e ligaes com a Coroa deram 
abadia um lugar preponderante entre as casas religiosas da Inglaterra
medieval.
 R.A. Brown, H.M. Colvin e A.J. Taylor, The History of the King's Works: The
Middle Ages, HMSO (1963); B. Harvey, Westminster Abbey and its Estates in
the Middle Ages (1977)

Whitby, Snodo de Convocado em 664 para reconciliar o clero de duas
tradies diferentes, as quais tinham ajudado a converter a Nortmbria: a
Igreja cltica, representada por Colman e Cedd, e a Igreja romana,
representada por Wilfrid. As diferenas em suas prticas incluam os mtodos
de tonsura e os procedimentos no batismo, mas o ponto principal de
discusso era o mtodo de calcular a data da Pscoa. A deciso do rei Oswy
em favor de Roma provocou certa hostilidade cltica mas preparou o terreno
para a unificao da Igreja cltica sob a liderana do arcebispo Teodoro de
Tarso.
 H. Mayr-Harting, The Corning of Christianity to Anglo-Saxon England
(1972)

Widukind (m. depois de 785) Liderou a resistncia s tentativas de Carlos
Magno para conquistar e dominar a Saxnia desde meados da dcada de
770. Aps renhida luta, foi subjugado e aceitou o batismo em 785. Embora
no participasse das revoltas saxnicas seguintes contra Carlos Magno, as
lendas acumularam-se em torno dele e converteram Widukind num heri
popular saxo.

Widukind (m. c. 1004) Monge de Corvey. Autor da crnica Res Gestae
Saxonicae, valiosa fonte histrica para os feitos e a vida na corte do
imperador Oto I da Saxnia.
 Schsische Geschichten, trad. P. Hirsch (1931)

Wilfrid, So (634-709) Bispo de York e uma das eminentes figuras da Igreja
inglesa. Homem vigoroso e de viso, desempenhou um importante papel como
bispo, construtor de igrejas e missionrio nos reinos ingleses, especialmente o
Sussex. Sua estada em Roma (653-58) influenciara-o fortemente a favor dos
costumes da Igreja romana, que ele representou no Snodo de Whitby (664).
Seus apelos a Roma em torno da diviso de sua s de York (677 e 704)
puseram-no em conflito com sucessivos arcebispos e com a casa reinante
nortumbriana; passou longos perodos exilado de sua Nortmbria natal.
Documentos da poca retratam-no como um bispo politicamente autoritrio.
 The Life of Bishop Wilfrid by Eddius Stephanus, org. por B. Colgrave
(1927)

Winchester Bblia de Em dois esplndidos volumes (hoje reencadernados em
quatro), a Bblia de Winchester, embora incompleta, representa alguns dos
mais belos produtos da arte do iluminador de livros do sculo XII.  possvel
discernir o trabalho de cinco artistas diferentes, todos de primeira classe: o
Mestre das Figuras Saltitantes, o Mestre dos Desenhos Apcrifos, o Mestre
da Folha de Morgan (todos ativos em 1155-60), o Mestre da Inicial do
Gnesis e o Mestre da Majestade Gtica (ambos ativos por volta de 1170-
85). A Bblia proporciona uma fonte de deleite e informao tanto para o
historiador geral quanto para o historiador da arte. Nela est presente a
influncia de Bizncio e do mundo mediterrneo, mas a nfase recai cada vez
mais sobre elementos naturalistas, nas expresses faciais e movimentos de
homens e mulheres, e na representao de animais, vesturios e folhagens.
 W.F. Oakeshott, The Artists of the Winchester Bible (1945); CM. Kaufmann,
Romanesque Manuscrits 1066-1190 (1975)

Winfrith Ver Bonifcio, So

Wolfram von Eschenbach (m. depois de 1220) O mais clebre poeta
alemo da Idade Mdia. Oriundo da pequena nobreza da Baviera, esteve a
servio, segundo parece, de vrios senhores francnios. Sua obra
sobrevivente consiste em oito belos poemas lricos que, em sua maioria, so
Tagelieder, ou canes do amanhecer, os fragmentos de um poema pico,
Titurel, e os textos completos de outros dois. Parzifal  um vasto ciclo pico,
baseado em parte em romances mais antigos, como as obras de Chrtien de
Troyes; basicamente, gira em torno de Percival, rei Artur e o Santo Graal. O
posterior Willehalm  uma pica religiosa acerca do cruzado Guilherme de
Toulouse, escrito para instruir os cavaleiros cristos na virtude e no dever.
 M. Wynn, Wolfram's "Parzifal" (1984) [Parsifal, trad. A.R.S. Patier, Braslia,
Thot, 1989]

Worms, Concordata de (1122) Na cidade episcopal alem de Worms, na
margem esquerda do Reno, o imperador Henrique V firmou um acordo com o
papa Calisto II que ps tecnicamente um fim  Questo das Investiduras. A
Concordata expressou-se por meio de uma carta imperial, conferida a Deus e
a So Pedro, e de uma bula papal, conferida ao imperador. Henrique V cedia
a escolha para o cargo espiritual  hierarquia eclesistica, prometendo seu
apoio  eleio cannica para bispados e abadias, e renunciando  investidura
com anel e bculo.
     Em contrapartida, o papa concedia ao imperador o direito de estar
presente nas eleies e de investir os prelados alemes com suas insgnias
pelo cetro laico antes da consagrao ao cargo espiritual. Isso assegurou o
controle imperial dos tributos devidos  Coroa pelos bispos e abades, que
eram tambm, na sociedade do tempo, poderosos bares feudais. Uma
exceo foi feita no acordo, tendo por base a geografia e senso comum, para
os prelados italianos e borgonheses, que estavam autorizados a ser investidos
pelo cetro e a pagar seus tributos no prazo de seis meses a contar de sua
sagrao. Na prtica, o imperador manteve grande influncia, equivalente na
maioria dos casos ao controle da nomeao de seus prelados; mas a Igreja
tambm obteve uma vitria significativa ao ficar estabelecido, sem a menor
sombra de dvida, o seu direito a investir no cargo espiritual.
 Sources for the History of Medieval Europe, org. por B. Pullan (1971)

Worms, Snodo de (24 de janeiro de 1076) Conclio de bispos alemes
convocado s pressas pelo imperador Henrique IV em resposta  proibio do
papa Gregrio VII de se realizar investidura laica, e  conseqente disputa a
respeito da eleio para o arcebispado de Milo. Dois arcebispos e 24 bispos
acusaram Gregrio VII de imoralidade, perjrio e abuso de seus poderes na
Alemanha, alm de usurpao de seu cargo; o imperador apoiou essa severa
censura e intimou o papa a renunciar. Em resposta, Gregrio VII excomungou
Henrique IV e declarou-o deposto; sentindo que perdia rapidamente apoio, o
imperador submeteu-se ao papa em Canossa, em 1077.
 The Correspondence of Gregory VII, org. por E. Emerton (1945)

Wulfstan (m. 1023) Arcebispo de York desde 1002. Ficou famoso por suas
homlias, em especial o Sermo Lupi ad Anglos (1014), um apelo aos ingleses
para o arrependimento e a Reforma. Tambm redigiu os cdigos de leis para
Etelred, o Irresoluto, e Canuto, e produziu tratados sobre o governo e a
Reforma da Igreja. No plano poltico, provou ser uma figura-chave para
garantir a sucesso de Canuto como rei cristo da Inglaterra.
 D. Whitelock, "Archbishop Wulfstan, Homilist and Statesman", Transactions
of the Royal Historical Society (1942)

Wycliffe, John (c. 1330-84) Emrito pensador acadmico que influenciou um
importante movimento popular hertico. Na dcada de 1370, Wycliffe tornou-
se o principal filsofo da Universidade de Oxford, destacando-se por seus
tratados em defesa dos universais. Funcionrio rgio em 1371-72, esteve
envolvido na poltica at 1378 como parte do movimento anticlerical de Joo
de Gaunt e, durante esse perodo, seus interesses voltaram-se para a
doutrina da Igreja. Em On the Church (1378), rejeitou a hierarquia eclesistica
e exps a idia da verdadeira Igreja como uma comunidade de crentes; em
On the Eucharist (1379), negou radicalmente a doutrina da transubstanciao.
Condenado pelo papa em 1377, Wycliffe teve que deixar Oxford (1381) e
retirou-se para a sua parquia em Lutterworth, onde, sob a proteo de Joo
de Gaunt, continuou divulgando numerosos tratados abertamente heterodoxos.
Seus escritos foram de vital influncia na formao do movimento lolardo.
 K.B. MacFarlane, John Wycliffe and the Beginnings of English Non-
Conformity (1952); Wyclif in his times, org. por A. Kenny (1986)
                                 X/Y/Z
xelim (aport. do ingls shilling, derivado do noruegus primitivo sciljan =
"cortar, tesourar") Originalmente, um primitivo peso germnico para ouro,
subentendendo uma pea cortada de um anel ou fio metlico e com o peso de
20 gros (1, 30g). Como moeda de conta valia 12 pennies, uma vez que o
penny mais antigo (sculo VII) tinha o mesmo peso da moeda de ouro ou
"xelim" do dia, e a proporo ouro:prata era 1:12.

Yaroslav, o Sbio Gro-prncipe da Rssia em 1035-54. Filho de Vladimir, o
Grande (m. 1015), Yaroslav travou longa luta com Sviatopolk, seu irmo mais
velho, antes de se tornar, finalmente, gro-prncipe de Kiev (1019). S em
1035 e com a morte de seu outro irmo, Mastilav, sem deixar descendncia, 
que Yaroslav obteve o controle exclusivo dos domnios de seu pai. Isso
inaugurou um florescente perodo para a Rssia kievana, muito encorajado
pelos fortes laos com Bizncio, apesar da guerra russo-bizantina (1043-46).
O Cristianismo fortaleceu-lhe o poder; a posio da Igreja foi regularizada e
Ilario tornou-se o primeiro metropolita nativo de Kiev. A atividade de
construo floresceu, culminando na catedral de Santa Sfia (1037), e as leis
foram organizadas.  prosperidade interna somou-se o progresso externo: as
fronteiras russas foram ampliadas e consolidadas, especialmente na regio
bltica, enquanto que as relaes com o Ocidente eram mantidas, muitas
vezes atravs de casamentos dinsticos. Aps a morte de Yaroslav, quando a
autoridade foi de novo distribuda entre os membros da famlia, iniciou-se o
declnio de Kiev.
 G. Vernadsky, The Origins of Russia (1959)

Zabarella, Francisco (1360-1417) Canonista italiano que defendeu uma
soluo conciliarista para o Grande Cisma. Estudou direito Cannico na
Universidade de Bolonha, ensinou em Florena e depois em Pdua, e serviu a
trs papas como jurisconsulto. Sua reputao entre os contemporneos foi
elevada. Em 1410 foi eleito bispo de Florena e no ano seguinte cardeal-
dicono. Atuou como um dos negociadores para o papa Joo XXIII em
conversaes com o imperador Sigismundo a respeito de um conclio
ecumnico, e participou no resultante Conclio de Constana (1414-18). Foi
durante as sesses desse conclio que ele faleceu. Em seu Tractatus de
Schismate, as propostas de Zabarella para resolver o Grande Cisma
tornaram-se uma sntese do enfoque conciliar do governo eclesistico. Com
freqncia ele buscou e encontrou no pensamento canonstico anterior
justificao para essa abordagem. Ver conciliar, movimento
 W. Ullmann, The Origins of the Great Schism (1948); B. Tierney,
Foundations of Conciliar Theory (1955)

Zacarias, So papa em 741-52. Grego de nascimento, cuja traduo dos
Dilogos de Gregrio, o Grande, foi amplamente lida no Oriente. Seus dotes
diplomticos restringiram a expanso lombarda por quase 10 anos. Fortaleceu
os vnculos papais com a Francnia ao concordar que a Coroa dos francos
pertencia  pessoa que exercia na realidade sua autoridade (751). Aps a
subseqente deposio de Childerico III, sancionou a uno do novo rei,
Pepino. Essa deciso foi tomada numa poca em que os lombardos estavam
causando novas dificuldades, sem encontrar a oposio do imperador
iconoclasta bizantino. O papel de Zacarias na transferncia do poder real
franco foi depois citado com freqncia pelos defensores da supremacia
papal.
 H.K. Mann, The Lives of the Popes in the Early Middle Ages (1902)
                     Nota bibliogrfica

    Ainda no existe, recomendvel, uma obra geral de referncia sobre a
Idade Mdia facilmente acessvel. Quando concludo, o Dictionary of the
Middle Ages da Scribner (org. J.R. Strayer, 1982- ), planejado para 12
volumes, fornecer esse guia. Para informao atualizada sobre a produo
especializada, consulte-se o Annual Bulletin of Historical Literature, publicado
pela Historical Association de Londres.
    As seguintes enciclopdias e obras de referncia especializadas so
particularmente teis e idneas:

Cambridge Medieval History, org. J.B. Bury, 8 volumes (1911-36); Shorter
Cambridge Medieval History, org. C.W. Previt-Orton, 2 volumes (1952).

Lexicon des Mittelalters, org. L. Lutz e outros, planejado em 5 volumes
     (1977- ).

Reallexicon der germanischen Altertumskunde, org. J. Hoops, 4 volumes
     (1911-19); nova edio, org. R. Wenskus, planejado para 20 volumes
     (1968- ).

A. Potthast, Bibliotheca Historica Medii Aevi, 2 volumes (1896; edio revista,
     1962-68).
L.J. Paetow, A Guide to the Study of Medieval History (1931; edio revista,
      1980).
R.C. van Caenegem, Guide to the Sources of Medieval History, 2 volumes
     (1978).

Oxford History of the Christian Church, planejada para 20 volumes (1976-      );
     em especial, J.M. Wallace-Hadrill, The Frankish Church (1983).

Oxford Dictionary of the Christian Church, org. F.L. Cross e E.A. Livingstone
     (1974).
New Catholic Encyclopaedia, org. W.J. McDonald, 17 volumes (1967-79).
    Cambridge History of the Bible, vol. II, org. G.W.H. Lampe (1969).
     Encyclopaedia Judaica, org. J. Klatzkin, 16 volumes (1928- ).
New Standard Jewish Encyclopaedia, org. C. Roth e G. Wigoder (1970;
     edio revista, 1975).

Encyclopaedia of Islam (1913-38); nova edio em 5 volumes, org. H.A.R.
    Gibb e outros (1960-86).

Encyclopaedia of World Art, org. M. Pallottino, 16 volumes (1959-83).

New Oxford History of Music, vols. 1 e 2, org. J.A. Westrup e outros,
    planejado para 10 volumes (1954- ).

A History of Technology, vol. II, org. C. Singer e outros (1956).

Em portugus, podem-se consultar como obras gerais sobre a Idade Mdia:

J. Batista Neto, Histria da Baixa Idade Mdia, S. Paulo, tica, 1989.

H. Franco Junior, A Idade Mdia: nascimento do Ocidente, S. Paulo,
    Brasiliense, 3 ed. 1989.

L.   Genicot, As linhas de rumo da Idade Mdia, Porto, Apostolado da
      Imprensa, 1963.

J. Le Goff, A civilizao do Ocidente medieval, 2 vols., Lisboa, Estampa,
     1983. R.S. Lopez, O nascimento da Europa, Lisboa, Cosmos, 1965.
